À POESIA

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por que você, poesia, me abandona no vértice (no ponto culminante) da vertigem, quando a chuva cai (como numa tela do pintor belga rené magritte, célebre por suas pinturas surrealistas contrastando com o tratamento hiper realista dado aos objetos dos seus quadros) sobre as rosas que desistiram, sobre as rosas que renunciaram a natureza das rosas?
 
por que, poesia, novamente me perco (abandonado por você) entre hortênsias, no aclive (na ladeira), hortênsias mais altas que homens, mais vivas que o exército de terracota?
 
(exército de terracota: também conhecido por guerreiros de xian ou exército do imperador qin, é um conjunto com mais de oito mil figuras de guerreiros & cavalos em terracota, que é uma argila manufaturada & cozida no forno, conjunto encontrado próximo ao mausoléu do primeiro imperador da china, qin shihuang.)
 
sem você, poesia, eu caminho no plano, caminho no nivelado, no não-acidentado, no regular; com você, poesia, eu caminho no acidentado, no irregular, no desnivelado. e eu gosto.
 
(todos os poemas: um engano.)
 
sem você, poesia, tudo escorre, pois a sua presença — em palavras & versos — permite que permaneça, permite que não escorra, tudo o que é registrado em palavras & versos (ainda que se saiba que todos os poemas: um engano. afinal, no fundo no fundo, nada do que se deseja permanente o poema retém em palavras & versos).
 
sem a poesia eu caminho no plano, tudo escorre — há, sem ela, um silêncio aturdido, silêncio perturbado, intranqüilo, um silêncio desconfortável na sua condição de silêncio.
 
sem a sua luz, poesia, o que me resta?
 
sem a luz da poesia, o que me sobra?
 
o que me sobra (sem a luz da poesia): viver, conhecer o mundo, reconhecendo-o através das vivências, tateando às cegas as suas formas & maneiras, onde assistimos ao seu passar (no caminho vidafora, tudo escorre), onde assistimos ao seu fluir constante, fluir que, sem a companhia sua, poesia, fica faltando um pedaço — sem a luz da poesia há um silêncio aturdido; e, no silêncio aturdido (silêncio perturbado, intranqüilo), há uma cota do que morre, há uma parcela do que escorre. no silêncio aturdido há uma parte do que se esvai no tempo & o ensejo de reter, na forma poética, uma cota do que morre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parcela do que escorre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parte do que se esvai no tempo (de tudo o que se vive, algumas vivências acreditamos dignas, merecedoras de registro; no caso do poeta: de um registro em forma de poesia).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, passam na frente de um espelho que, mudo, assiste à fuga do que reflete (o que reflete o espelho: um quarto de veludo: um compartimento contrátil: o que passar pela sua frente: a vida).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, criam um silêncio aturdido. e, mesmo assim, mesmo com o silêncio aturdido, diversas experiências merecedoras de registro passam apenas captadas & aprisionadas em algum tempo do espelho.
 
se assim for, se decidir a poesia não dar o ar da sua graça, abandonar o ritmo, eis tudo:
 
o torneado hábil das palavras & o dissonante vão das consoantes não podem mais — nem por um instante — buleversar (neologismo criado, e já utilizado por drummond & bandeira, a partir do francês bouleverser, que significa bagunçar, perturbar, abalar) o meu pequeno alento.
 
palavra nenhuma — nem por um instante, nem por um segundo — pode abalar, pode perturbar, o meu pequeno alento, o meu pequeno ânimo, a minha pequena inspiração.
 
abandonar o ritmo, eis tudo:
 
já nem tento satisfazer com tais materiais — os tais materiais: as palavras — minha volúpia, o meu prazer, pelo contratempo. já nem tento satisfazer com palavras minha volúpia pelo contratempo, meu prazer pelas circunstâncias imprevistas, pelos acidentes, ainda que fosse fugaz o prazer no momento do encontro (no momento do encontro com os tais materiais — o torneado hábil das palavras, o dissonante vão das consoantes).
 
abandonar o ritmo, eis tudo: 
 
mudar de logradouro, mudar de endereço, mudar de moradia (adeus, poesia!), ou mudar de logro (ou mudar de ilusão, de fraude, de cilada), que isso de escrever é jogo perdido de antemão, no mano a mano.
 
isso de escrever é jogo perdido de antemão: entre a experiência/vivência minha & aquilo que escrevo sobre ela, aquilo que escrevo sobre ela está sempre aquém da experiência vivida.
 
por mais bem escrito um texto a respeito de uma experiência vivida, um texto nunca é mais do que aquilo que foi vivenciado. o texto, por mais bem escrito, não é aquilo que se vivenciou. a experiência vivida ficou para trás, perdida num tempo pretérito, em alguma dobra do espelho.
 
(por isso o poema, no fundo no fundo, um fundo falso: o poema é sempre logro, é sempre uma ilusão, uma fraude, uma cilada.)
 
mas sem ressentimento (muito pelo contrário):
 
o mais são nuvens (também passageiras, que passam como passa o passarinho, passa a noite, passa o dia), e todos os poemas: uma ilusão, uma fraude: uma cilada:
 
um engano.
 
(dos melhores que vivencio em vida!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Corola. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Ateliê Editorial.)
 
 
 
à poesia
 
 
POR QUE você me abandona
no vértice da vertigem
quando a chuva cai (um Magritte)
sobre rosas que desistiram?
Por que novamente me perco
entre hortênsias, no aclive,
mais altas que homens, mais vivas
que o Exército de Terracota?
Sem você eu caminho no plano,
tudo escorre
— há um silêncio aturdido
uma cota do que morre
por dentro daquilo que brota.
Sem a sua luz, o que me resta?
Palmilhar às cegas
um quarto de veludo
onde o espelho, mudo, assiste 
à fuga do que reflete.
 
 
 
O TORNEADO hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais — nem por um instante —
buleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro — ou de logro —
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.
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2 Respostas

  1. Maravilhoso…..amei, “Sem a poesia eu caminho no plano,tudo escorre……”

    • Que bom saber que você gostou, Izabel!

      E que surpresa receber sua visita nos comentários, apareça mais vezes!

      Beijo grande!

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