O NAVEGANTE & SUA BIOGRAFIA COM PALAVRAS DE PINTAR

Paulo Sabino e Mar

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 inundado de mar, eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas.
 
transcrevo os poemas do mar, pois só o mar escreve o mar, só o mar escreve seu manto azul líquido, suas ondulações de variações seqüenciadas, seu perfume de maresia, sua música incessante, seu gosto de sal.
 
só o mar escreve o mar. eu transcrevo seus poemas, pois somente em sua paleta (chapa de madeira sobre a qual os pintores colocam & misturam a tinta), somente na gama de cores disposta na sua paleta, encontro as palavras de pintar:
 
azul a luz o céu a gaivota o barco o peixe a sereia a areia.
 
poeta do olhar poeta (pois, antes de mim, antes do paulo sabino pensante, “poeta” é o olhar que me abriga. antes de mim, “poeta” é o olhar, que enxerga o mundo na estamparia da poesia. é o olhar que olha poeticamente. na verdade, o paulo sabino pensante-poeta é somente um instrumento, um canal, um veículo, para o olhar, poeta essencial & primordial), eu próprio sou da paleta do mar, poeta do olhar poeta, eu próprio faço parte da gama de cores da paleta marinha.
 
poeta do olhar poeta, eu próprio sou da paleta do mar (não só por conta da minha alucinação pelo mar & seus mistérios & imensidão, mas também em última instância: afinal, estudos científicos apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água, vieram da imensidão do mar).
 
pertencendo à gama de cores da paleta do mar, sou também, deste mar, navegante.
 
e, navegante que sou, no ar que me falta, navegador que sou, ainda que, à navegação, me falte vento para navegar, enfuno a vela a boreste, encho a vela da minha embarcação com o ar do meu fôlego, e vou, e sigo, a boreste (sigo do lado direito da embarcação errante), enfuno a vela a boreste, e ergo esquálido estandarte, e ergo minha bandeira de causa nenhuma, estandarte simples, bandeira besta, pessoa marcada que sou aos becos deste mar, pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar (as ruas estreitas & curtas, em geral sem saída, que povoam o reino marinho): os becos deste mar: onde aves devoram peixes (lâmina de prata fisgada & presa no bico da gaivota), vidas de prata que nadam extáticas no tempo que resta.
 
no fundo, o mar nos serve de metáfora (pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar): somos como os peixes: nadamos neste mar de caminhos & possibilidades que é a vida, até que, extáticos, num repente, inesperadamente, um beco (uma ruela estreira & sem saída, uma situação difícil, de grande aperto) neste mar em que nadamos: estamos “suspensos no ar”, “fisgados” para fora da água-vida. enquanto não somos “fisgados” para fora da água-vida, seguimos nadando, extáticos, isto é, encantados, maravilhados, em êxtase, no tempo que nos resta.
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, sou da paleta do mar. poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, navegante dos mares de sal & da vida, também sou peixe imerso nas águas deste nosso cotidiano, nadando extático — em êxtase — no tempo que me resta, sujeito a ser “fisgado” & “suspenso” — peixe fora d’água, peixe fora do seu habitat — se capturado pelo anzol de alguma fatalidade. 
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, navegante dos mares de sal & da vida, peixe imerso nas águas deste cotidiano, paulo sabino teve amigos, muitos, amigos que morriam, amigos que partiam, amigos que chegavam, outros quebravam o seu rosto contra o tempo, outros geravam gerânios no jardim; paulo sabino odiou o que era fácil, odiou o que se obtém sem dificuldade, pois o paulo sabino gostava das funduras (o mar é feito de abismos abissais); paulo sabino procurou-se na luz no vento no mar.
 
(o navegante & sua biografia com palavras de pintar.)
 
beijo todos!    
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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)
 
 
 
PALAVRAS DE PINTAR
 
 
Inundado de mar,
eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas,
pois somente em sua paleta encontro as palavras de pintar.
Poeta do olhar poeta,
eu próprio sou
da paleta do mar.
 
 
 
 
(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
NAVEGANTE
 
 
No ar que me falta
enfuno a vela
a boreste
ergo
esquálido estandarte
barão assinalado
aos becos deste mar
onde aves
devoram
peixes derradeiros
vidas de prata
que nadam
extáticas
no tempo
que resta
 
 
 
 
(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
BIOGRAFIA
 
 
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
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2 Respostas

  1. nascido do mar e navegando porque é preciso, porque viver é preciso, porque amar é preciso, porque encorpar a corrente da poesia é preciso, porque sabino sabe, multicor, a sabor do mar, sabe a mar, amar e não se
    furta – cor, dá o corpo, mergulha nele, afunda e de lá traz o arco-iris de todos os poetas e de si mesmo.
    assim, com muitos amorosos sabinos, a poesia nunca morrerá, feita do nosso sangue borbulhante, da vida que veio do mar …
    sabino sabe o sabor da poesia.
    sabino sabe a mar.

    • Caramba, que lindas as suas palavras, Ligia!

      Fiquei tããão emocionado… que comovente…

      Puxa, obrigadíssimo!

      Que bacana esse retorno, que bacana saber que este é mesmo o meu caminho.

      Beijo IMENSO, querida!

      E por favor: volte sempre!

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