POR VER RUÍNAS, A CASA QUE SABEREI (PRÉ-PALAVRA) & SUA LEI DO VENTRE LIVRE

casa em ruínas

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a casa mal construída, assim como a casa bem construída, me parece conclusiva.
 
a casa mal construída, assim como a casa bem construída, me parece concluída, me parece pronta à habitação.
 
 porque sempre vi as casas — tanto a mal construída quanto a bem construída — como “pedras-só”, sempre vi as casas — tanto a mal construída quanto a bem construída — como peças únicas, a casa como única peça, única pedra: a peça-pedra.
 
sempre vi as casas — tanto a mal construída quanto a bem construída — como tijolo (peça-pedra única) pretenso à casa, à espera de nossa voz, isto é, à espera de vozes várias que diriam a elas (às casas):
 
tijolo
sobre
tijolo
argamassa cal cimento concreto & janela
 
sempre vi as casas — tanto a mal construída quanto a bem construída — como “pedras-só”, como peças-pedras únicas, por não conseguir identificar todos os materiais que, no conjunto, constroem o que identificamos como casa: tijolo sobre tijolo, argamassa, cal, cimento, concreto & janela (a ela, à janela, somem-se os materiais: vidro, madeira, mármore, gesso, alumínio, ferro).
 
sempre vi as casas como pedras-só (tijolo pretenso à casa), vindo a ser lembrança um dia (como tudo na vida, as casas também passam…), reminiscências de existido (tal & qual uma casa em ruínas, tal & qual uma casa de escombros, que representa a reminiscência de uma casa inteiriça), no eterno presente de pedra (pedra: matéria mineral sólida, da natureza das rocha, dura, duradoura).
 
por isso me dizem esses destroços — a casa mal construída — a casa que saberei (pois a casa que sei construir é também uma casa mal construída):
 
o tijolo que não galgou telhado; a porta que é um fora sem dentro (pois não há “dentro”, não há interiores, apenas “fora”); a tentativa de sala: sala de não estar.
 
a casa que ficou por fazer: aquela que é construída com palavras, em versos, e que, por isso, por ser construída por palavras, em versos, não é casa (a casa faz-se de tijolo sobre tijolo, argamassa, cal, cimento, concreto, vidro, madeira, mármore, gesso, alumínio, ferro, e não de palavras). 
 
os destroços da casa mal construída me dizem a casa que saberei: a casa da poesia: pois, assim como a casa mal construída, a casa da poesia também é feita de fragmentos, de pedaços, de trechos, de excertos: o que está a meio-dito (pretensa pedra pretensa à casa), a poesia que ficou por fazer, inacabada em seus destroços lingüísticos, a poesia que não foi concluída (o tijolo que não galgou telhado; a porta que é um fora sem dentro; a tentativa de sala: sala de não estar), a poesia incompleta: um “soluço” de casa, uma “casa-pausa”, como o que dizem as reticências…
 
(as reticências, tipo de pausa, deixam, no ar, uma “ruína”, uma frase cujo raciocínio não foi “concluído”, uma frase que pode ser completada. as reticências deixam uma sentença que envida, isto é, que convida de modo desafiador, à sua complementação.)
 
“soluço” de casa, “casa-pausa”: muitas vezes, para a construção de um poema, o poeta rascunha milhares de linhas, milhares de versos que se mantêm pausados, inconclusos, poemas que nasceram para ruínas. e mesmo o poema bem acabado, pronto, mesmo o poema conclusivo, este também possui a sua parcela de “ruínas”: o momento em que a pausa se faz necessária à observação da casa poética, porque o entendimento da arquitetura dos versos nem sempre é (na maioria das vezes não é) fácil.
 
mesmo o poema bem acabado, pronto, mesmo o poema conclusivo, este possui a sua cota de “ruínas”: o momento-reticências, o momento-pausa, a ponderação indispensável ao entendimento da sua arquitetura.
 
além disso, uma casa (em ruínas) nunca é demolida, uma casa (em ruínas) nunca é posta abaixo, porque, quando falha a construção (quando a construção conclui-se inconclusa), só temos os cacos, só temos os fragmentos, só temos os pedaços.
 
uma casa (em ruínas), assim como a poesia (inacabada), é nunca demolida porque só temos os cacos (os fragmentos) quando falha a construção.
 
a construção em ruínas, mesmo demolida, continua “viva” em sua natureza de cacos, continua “viva” em sua natureza de restos, continua “viva” em sua natureza de fragmentos, como cabe ao silêncio carregar seu próprio curso (só o silêncio sabe o silêncio; se a palavra “silêncio” pronuncio, eu suprimo-o).
 
somente à construção em ruínas cabe carregar seu próprio curso, mesmo que seja demolida (ela, que antes existia em fragmentos, em fragmentos continuará a existir), assim como cabe ao silêncio carregar seu próprio curso, assim como cabe à poesia carregar seu próprio curso.
 
à poesia cabe carregar seu próprio curso: antes da palavra escrita & frente ao branco (do papel), minha vontade é branca (experiência de espanto).
 
frente ao branco (do papel), minha vontade é branca: minha vontade é incolor, minha vontade não se mostra; minha vontade é nula, é inexistente como as palavras que procuro a fim de ornar o papel: experiência de espanto: frente ao branco, minha vontade é branca, não é sabido o que se quer a fim de enfeitar o branco (do papel).
 
devo resolver a vontade, devo resolver o desejo, da palavra “vontade”, e torná-la (a vontade da palavra “vontade”) visível, corpórea, e deixá-la à vista de quem quiser vê-la exposta no branco (do papel).
 
porém todavia contudo, indizível é a vontade da palavra “vontade”. a vontade da palavra “vontade” não pode ser dita porque a vontade da palavra cabe apenas à palavra. só mesmo a palavra para saber sua vontade própria.
 
essa incapacidade de decifrar a vontade da palavra “vontade” estanca o poema, trava a feitura dos versos, pois cabe ao poeta a missão (impossível) de buscar a vontade das palavras.
 
por isso, escrever, buscar a vontade das palavras no branco (do papel), é vertigem, por isso escrever é verter vertigem em folha branca, é investir contra o branco (do papel), é dever de escrever à cata do que possa, ao menos, parecer a vontade das palavras.
 
por não haver certezas no caminho que leva aos versos, por não haver um caminho acertado que leve às palavras, o poema mete medo: o que virá? como será? será que prestará? será que valerá a pena? por isso, o poema é deixar tremer, é deixar espantado, é deixar assustado, é deixar-se em total estado de alerta com as palavras, para quando a palavra for dita, dizer tudo que o branco (do papel) diria:
 
que é temor & tremor (não existem certezas no caminho que leva aos versos, não existe um caminho acertado que leve às palavras: o poema mete medo), já que mesmo quando publico a palavra no poema (ou quando publico a palavra em texto como este aqui), apenas multiplico, apenas aumento, o abismo: pois o sulco emotivo de cada palavra é cativo do autor, que, mesmo escrito (o sulco emotivo de cada palavra), no fundo, o autor carrega em segredo.
 
muitas vezes, a interpretação de um poema — por parte de quem o lê — não chega exatamente às razões profundas — ao sulco emotivo — que levaram o poeta a escrever o dito. há um tanto imenso do leitor impresso na leitura que ele faz dos versos.
 
como o povo é falador (as pessoas gostam muito de falar suas impressões acerca de um livro, um filme, um espetáculo) & aquele (o autor) não diz (o sulco emotivo de cada palavra, as razões profundas que o levaram a escrever suas linhas) por medo (ou por recato, ou por respeito às tantas possíveis interpretações): fica o lido pelo dito.
 
fica o lido pelo dito: como o povo é falador & o autor não expõe as razões profundas que o levaram a escrever suas linhas, o que vale é a interpretação que cada um carrega daquilo que foi lido, o que vale é o que cada leitor diz a respeito do que foi lido.
 
mas lido que é autoria (o escritor escreve & torna-se autor de algo porque alguém leu o que foi escrito por ele, um autor torna-se escritor de algo porque existe um público leitor que legitima sua autoria, porque sem leitor — sem quem o leia — não há razão para a existência do autor), uma vez publicada, a palavra ganha a alforria, a palavra ganha a emancipação, do leitor (através das tantas possíveis — porque cabíveis — interpretações).
 
(fica o lido pelo dito.)
 
beijo todos!
paulo sabino.       
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(do livro: Um caderno de capa verde. autor: Flávio Morgado. editora: 7Letras.)
 
 
 
POR VER RUÍNAS
 
 
a casa mal construída
me parece conclusiva.
 
porque sempre vi as casas
como pedras-só
(tijolo pretenso à casa)
à espera de nossa voz
que lhes diriam:
tijolo
sobre
tijolo
argamassa cal cimento concreto
                                                                  e janela…
 
vindo a ser lembrança
reminiscências de existido
no eterno presente de pedra
 
por isso me dizem esses destroços
a casa que saberei
 
O tijolo que não galgou telhado;
a porta que é um fora sem dentro;
a tentativa de sala:
 
sala de não estar
 
essa casa que ficou por fazer
 
o que está a meio-dito (pretensa pedra)
à espera de um ouvido a lhe envidar
 
(soluço de casa)
 
casa-pausa
como o que dizem as reticências…
pois uma casa é nunca demolida
 
porque só temos os cacos
quando falha a construção
 
como cabe ao silêncio
carregar seu próprio curso
 
 
 
PRÉ-PALAVRA
 
 
minha vontade 
é branca antes da palavra escrita
                                  e frente ao branco
(experiência de espanto)
 
devo resolver
a vontade da palavra vontade
e torná-la visível
                      corpórea
 
porém indizível é a vontade —
absolutamente outra da palavra —
que 
estanca
o poema
 
é verti
gem e
dever de escrever
 
(e o poema é deixar tremer)
 
é deixá-lo
                      espantado
para quando a palavra for dita
dizer tudo que o branco
 
diria:
que é temor e
                             tremor
 
já que mesmo quando
no poema a palavra publico
apenas o
                    abismo
                    multiplico
 
 
 
LEI DO VENTRE LIVRE
 
 
o sulco emotivo de cada palavra
é cativo do autor
que mesmo escrito carrega em segredo.
como o povo é falador
e aquele não diz por medo:
 
fica o lido pelo dito.
 
mas lido que é autoria,
uma vez publicada, tem a palavra
a alforria do leitor
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4 Respostas

  1. meu preto lindo,
    Flávio Morgado foi meu estagiário no cp2. Coincidência? Que nada… mas uma da arte dos encontros, como dizia Vinícius. beijos gordos de rei momo
    sua
    carol

    • Puxa, que barato, Carol!

      E que DELÍCIA a sua visita, minha delícia!

      Que máximo, pois é, a arte dos encontros!… E o Flávio, além de seu ex-estagiário, descobri que ele é sobrinho da minha professora de Português no segundo grau(!).

      A arte dos encontros… Vamos marcar alguma coisa!

      Beijaço!

      • Amor meu,
        marquei ano passado aqui em casa, mas você não veio. Vieram Ana e Beta. Foi ótimo. Fiz um risoto de camarão show, mas por você faço de novo…cê sabe…. veja você quando puder. Estou de férias no cp2 em março. É só marcar. Quanto a ler seu blog para mim já é gosto encorporado na alma. É meu jeito de estar com você e sua poesia.
        beijos
        Carol

      • Ô, minha flor de formosura!

        Vamos marcar alguma coisa, sim! Puxa vida, e perder Carolina Medeiros com seu tempero é quase pecado (rs)! Tô na dívida & desejo quitá-la!

        E espero que seja breve!

        Que bom te ter perto de mim através da poesia, esse “troço” que sempre nos uniu!

        Te amo! Fica por perto! Saudades!

        Beijoca!
        Seu preto.

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