ÁGUA

Água

(Água: elemento do meu fascínio.)
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a água, quando brota, quando corre, brota, corre, no chão.

por isso, por correr & brotar no chão, sempre a vejo com os olhos baixos, nunca com os olhos altos, como quando avisto um pássaro no céu.

a água é informe & fresca, passiva (pois inanimada) & obstinada em seu único vício: o peso.

a água, não sendo um sólido, não possui uma forma definida (por isso informe), e, não tendo forma definida, não possui volume.

nenhuma variante a contém (tamanho, forma, volume), a não ser a variante: “peso”: a massa líqüida que a água forma.

no desejo de satisfazer o seu grande vício, o vício de obedecer unica & exclusivamente ao seu peso, a água dispõe de meios excepcionais para satisfazê-lo: ela contorna, ela traspassa, ela erode, ela (in)filtra.

ela desaba sem cessar, renuncia a toda forma a cada instante, tende somente a se humilhar, deita-se de bruços no chão, quase cadáver (pois passiva & inanimada): sempre abaixo (ela brota, corre, no chão): o contrário de excelsior: o contrário de elevado grandioso supremo.

a água é louca, pode-se dizer, por esta histérica necessidade, que a possui como idéia fixa, que é a histérica necessidade de obedecer somente ao seu próprio peso.

um armário, por exemplo: mostra-se — em sua forma, em seu volume, em sua solidez — teimoso em seu desejo de aderir ao solo, de ir ao chão, e se, um dia, encontrar-se em desequilíbrio, preferirá atirar-se a resistir. mas, em certa medida, o armário brinca com o peso, desafia-o: o armário não desaba com todas as suas partes: partes do armário, na queda, devido à sua solidez, continuam juntas, unidas, preservando-se no conjunto que, mesmo desconjuntado, forma o armário. há, nele, uma resistência em prol de sua personalidade, em prol de sua forma.

líqüido é, por definição, o que prefere obedecer ao peso (à sua massa líqüida) a manter a forma, líqüido é, por definição, o que rechaça, o que nega, toda & qualquer postura para obedecer ao seu peso.

entretanto, o sol & a lua têm ciúme dessa influência exclusiva do peso, e tentam exercer seu poder sobre a água: no caso da lua, na variação das marés, na variação do volume dos rios, que acontece sob influência do seu magnetismo: no caso do sol, na evaporação & formação das nuvens que, por conseqüência, decaem do céu, fazendo com que a água volte à sua origem terrena, volte à sua origem de solo, de chão: um ciclismo perpétuo, o esquilo — como o hamster — em sua roda (o eterno retorno, como se a água corresse corresse corresse & não saísse do lugar).

a água me escapa, me escorre entre os dedos, e, mesmo não sendo tão definida, tão nítida, tão palpável, como um lagarto ou um sapo, ainda me restam seus traços na mão, manchas relativamente lentas para secar ou que é preciso enxugar.

a água me escapa, escapa a todas as definições possíveis, e, contudo, me marca… (manchas relativamente lentas para secar ou que é preciso enxugar.)

inquietude da água: a água corre de acordo com a inclinação do solo (por correr & brotar no chão, sempre a vejo com os olhos baixos, nunca com os olhos altos, como quando avisto um pássaro no céu): brincalhona, de obediência pueril, a água volta imediatamente quando, através da mudança da inclinação do solo para um outro lado, ela é chamada.

& vem & vai, como tem de ser, obedecendo unica & exclusivamente — com exceção da obediência que deve ao sol & à  lua — ao seu peso.

a água é louca, pode-se dizer. e eu sou louco por água.

água: elemento do meu delírio maior: o mar.

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor do texto: Francis Ponge. título do texto no original: De l’eau. tradução: Fred Girauta.)

 

 

ÁGUA

 

Abaixo de mim, sempre abaixo de mim se encontra a água. É com os olhos baixos que sempre a vejo. Como o solo, como uma parte do solo, como uma modificação do solo.

Ela é branca e brilhante, informe e fresca, passiva e obstinada em seu único vício: o peso; dispondo de meios excepcionais para satisfazer esse vício: contornando, traspassando, erodindo, filtrando.

Dentro dela esse vício também brinca: ela desaba sem cessar, renuncia a toda forma a cada instante, tende somente a se humilhar, deita-se de bruços no chão, quase cadáver, como os monges de certas ordens. Sempre abaixo: tal parece ser seu lema: o contrário de excelsior.

*

Poderíamos quase dizer que é louca a água, por esta histérica necessidade, que a possui como ideia fixa, de obedecer somente ao seu próprio peso.

Certamente tudo no mundo conhece essa necessidade, que sempre e em todos os lugares deve ser satisfeita. Esse armário, por exemplo, mostra-se bastante teimoso em seu desejo de aderir ao solo, e se um dia encontrar-se em equilíbrio instável, preferirá atirar-se a resistir. Mas enfim, em certa medida, ele brinca com o peso, desafia-o: não desaba com todas as suas partes, seus moldes e molduras não se conformam. Há nele uma resistência em prol de sua personalidade e de sua forma.

Líquido é por definição o que prefere obedecer ao peso a manter a forma, o que rechaça toda postura para obedecer ao seu peso. E, por causa dessa ideia fixa, de seu mórbido escrúpulo, perde toda compostura. Desse vício, que o torna rápido, precipitado ou estagnado; amorfo ou feroz, amorfo e feroz, feroz perfurante, por exemplo; astuto, filtrante, circundante; tanto que podemos fazer dele o que quisermos, e conduzir a água por tubos para fazê-la depois jorrar verticalmente, a fim de fruir enfim seu modo de se precipitar como chuva: uma verdadeira escrava.

… Entretanto, o sol e a lua têm ciúme dessa influência exclusiva, e tentam exercer seu poder sobre ela quando se oferece em grandes extensões, sobretudo se ela estiver em estado de mínima resistência, dispersa em finas poças. O sol, então, lhe cobra alto tributo. Ele a força a um ciclismo perpétuo, e a trata como um esquilo em sua roda.

*

A água me escapa… me escorre entre os dedos. E, ainda mais! Não é sequer tão definida (como um lagarto ou um sapo): ainda me restam traços dela nas mãos, manchas relativamente lentas para secar ou que é preciso enxugar. Ela me escapa e, contudo, me marca, independentemente de minha vontade.

Ideologicamente dá no mesmo: ela me escapa, escapa a toda definição, mas deixa rastros, manchas informes em meu espírito e sobre o papel.

*

Inquietude da água: sensível à mínima alteração da declividade. Pulando as escadas com dois pés ao mesmo tempo. Brincalhona, de obediência pueril, voltando imediatamente quando, através da mudança da inclinação para este lado, ela é chamada.

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