NASCE O SOL & NÃO DURA MAIS QUE UM DIA

Pôr do sol

 

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nasce o sol & não dura mais que um dia.

depois da luz solar, impreterivelmente, chega a noite escura.

com a chegada da noite, toda a formosura do mundo morre em sombras.

assim como o dia morre com a chegada da noite & suas sombras, a alegria acaba quando chega a tristeza.

porém, se o sol acaba todo dia, por que nascer? por que não dura a formosura da luz solar, que abarca com seus dedos-raios toda a beleza que há?

como a beleza assim se transfigura? por que o mundo, tão belo, encoberto por tristes sombras? por que a alegria, uma hora, acaba em tristeza? por que não perene a felicidade?…

como o gosto da pena, da dor, do sofrimento, assim se fia, como o gosto da pena, da dor, do sofrimento, assim se trama, como o gosto da pena, da dor, do sofrimento, é urdido?…

e também: como o gosto da pena, isto é, como a escrita do poeta, pode fiar, tramar, urdir, criar, algum tecido poético — tecido trançado por palavras — verdadeiramente belo, verdadeiramente feliz, se o mundo é, como se sabe, tramado em tristezas, se no mundo, um dia, as belezas se encerram?…

ainda que desejemos muito que assim não seja, sabemos que falta a firmeza da constância no sol & sua luz, sabemos que a constância não se dá na formosura (tudo, na vida, é transitório: a beleza de um rosto, o amor, a idade, a vida dos amigos), sabemos que na alegria cabe, um dia, uma hora, a tristeza.

o mundo começa pela total ignorância. o conhecimento humano se dá através da transmissão das experiências dos nossos antecessores aos seus sucessores. aqueles que nos antecedem, com as suas vivências, deixam um legado de informações sobre o mundo, permitindo, às próximas gerações, a geração de conhecimentos ainda mais amplos.

hoje sabemos que qualquer dos bens do mundo, por natureza, tem a firmeza somente na inconstância.

hoje sabemos que qualquer dos bens do mundo, por natureza, tem a inconstância como a única constante.

(tudo muda, o tempo todo, no mundo.)

(saibamos aproveitar o transitório & o que ele nos traz de bom & feliz.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O canto das musas — poemas para conhecer, ler, recitar e cantar. autores: Aline Evangelista Martins, Cibele Lopresti e Péricles Cavalcanti. organização: Zélia Cavalcanti. autor do poema: Gregório de Matos. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NASCE O SOL E NÃO DURA MAIS QUE UM DIA

 

Moraliza o poeta nos ocidentes do Sol a inconstância dos bens do mundo.

Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas, no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

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Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador, Bahia, em 1633 ou 36 — não se sabe ao certo —, e morreu em Recife, Pernambuco, em 1696. Aos catorze anos foi estudar em Lisboa, Portugal, onde se formou advogado. Lá começou a trabalhar junto à corte, mas desde sempre demonstrou aptidão para as sátiras, forma que o autor mais utilizou. Por zombar de políticos, religiosos e pessoas influentes na sociedade de sua época, foi chamado de Boca do Inferno. Em 1681, depois de colecionar inimizades, foi mandado de volta a Salvador, onde continuou a se portar como um crítico incansável. Indispondo-se com pessoas influentes, terminou exilado em Angola, onde também zombou dos poderosos. Para afastá-lo daqueles a quem ele podia incomodar, foi enviado de volta para Recife, onde morreu um ano depois. Gregório de Matos foi um dos primeiros a usar palavras de origem indígena e africana em suas produções, por isso o estudo de sua obra colabora para a reflexão sobre o momento inaugural da literatura brasileira.

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2 Respostas

  1. Sensacional! gosto muito dessas informações. obrigada

    • Que bom saber, Rosilene! Espero que o PEmP possa sempre trazer a você informações do seu interesse!

      Espero mais visitas suas à página, a poesia é a casa de todos, esteja à vontade!

      Abraço grande!

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