POEMA DE NATAL

Luzes de Natal

 

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eis outra vez o fim.

mais um ano que finda.

tudo termina & os meses só se mostram no final, no choro do menino ou da menina (pois somente depois de passados 9, os meses revelam o seu rosto, os meses revelam a sua forma: se 9 meses moldados em choro de menino ou se 9 meses moldados em choro de menina), e na roda de samba do natal, depois de passados 12.

ao final de 12 meses, o rosto, a forma, de 1 ano cumprido. o fim de um, início de outro.

portanto, tudo termina ou tudo recomeça? quem desvenda as imagens das horas, quem desvenda o que a vida nos desenhará de acontecimentos, no papel em branco? quem é capaz de nos traçar, no papel, os passos exatos que engendraremos ao longo dos 12 meses que moldam o rosto, a forma, de 1 ano?

como nada nem ninguém é capaz de nos traçar, no papel, os passos exatos que engendraremos ao longo dos 12 meses que moldam o rosto, a forma, de 1 ano, mais vale acompanhar a moenda do tempo (moenda: conjunto de peças, num engenho, que serve para moer ou espremer certos produtos, como a cana-de-açúcar, por exemplo), mais vale beber o caldo que a moenda do tempo nos oferece cotidianamente, dia após dia, mais vale decifrar o mel, descobrir o doce, existente no caldo que a moenda do tempo nos entorna cotidianamente, dia após dia, mais vale graduar, mais vale dosar, o álcool (aquilo que entorpece, aquilo que entontece, aquilo que embebeda) do líquido que nos entorna a moenda do tempo, que o tempo tem o seu jogo (de acasos & surpresas) & desabafa seu canto de mistério (com as tantas peças & artimanhas que nos prega) & canto pastoril (pois, com o seu canto de mistério, o tempo nos guia & nos leva, como o pastor que conduz o seu rebanho caminhos afora).

ao fim de mais 1 ano que finda, melhor será juntar os nossos cansaços, vestir o nosso lar de caracol, isto é, fazer do nosso lar a nossa concha, concha onde possamos estar bem, possamos estar protegidos, confortáveis, e acompanhar os íntimos compassos, compassos que vão dentro de nós, do que é, em nós, silêncio (quietude paz reflexão) & amor (dos sentimentos o mais nobre).

assim, até o azul — cor do meu delírio — que vem de dentro deste poema que vos ofereço como presente natalino, azul que vem de dentro da rima em “-ul” (formada pelo poema), será o vosso mundo, que já não tem centro (e que nem precisa de um centro. que, no vosso mundo, sejam muitos os focos & interesses), será o azul que vem de dentro deste poema o vosso caminho, já sem norte & sul (e que nem precisa de uma direção. que, no vosso mundo, sejam muitas as setas & os descaminhos).

aceitai o azul deste poema que vos ofereço & o desejo de 12 meses de realizações felizes, para que se revele, ao cabo desses 12 meses, o rosto bonito & sereno de 1 ano bem vivido.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Melhores poemas. seleção: Luiz Busatto. autor: Gilberto Mendonça Teles. editora: Global.)

 

 

POEMA DE NATAL

A Joaquim Inojosa

 

Eis outra vez o fim. Tudo termina
e os meses só se mostram no final,
no choro do menino ou da menina
e na roda de samba do Natal.

Termina ou recomeça? Quem desvenda
as imagens das horas no papel?
Mais vale acompanhar sua moenda,
beber seu caldo, decifrar seu mel

e graduar seu álcool na garrafa
ou nas tábuas de cedro do barril,
que o tempo tem seu jogo e desabafa
seu canto de mistério e pastoril.

Melhor será juntar nossos cansaços,
vestir o nosso lar de caracol
e acompanhar os íntimos compassos
do que é silêncio e amor, sob o lençol.

Assim, até o azul que vem de dentro
deste poema e desta rima em -ul
será teu mundo, que já não tem centro,
e teu caminho, já sem norte e sul.

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