ARVORAR O ARVOREDO

Árvore vermelha

Amoreira branca

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eu sempre fui um admirador de muitas coisas da natureza.

o mar é o meu amante maior, é a coisa que mais me fascina, que mais prende a minha atenção.

uma outra coisa que me fascina é árvore. desde muito novo.

sempre adorei olhar árvore.

porque eu sempre enxerguei algo de muito dramático, de muito teatral, nas árvores.

árvore: ser que se apresenta sempre de pé, sempre de frente (não existe o lado de trás de uma árvore), com vestimentas as mais variadas (visto a variedade de folhas, suas formas, e de cores que as árvores têm), estacionadas em poses as mais diversificadas (visto a variedade de ramificações & galhos & desdobramentos & retorções que as árvores têm), poses que me parecem, desde muito novo, um grande teatro. suas ramificações & galhos, juntamente com as suas folhas, dispõem-se aos meus olhos como braços & mãos em poses dramáticas, em poses teatrais.

árvore é um ser carregado de folhas & dramaticidade. sua força poética é enorme.

por isso mesmo, quando as coisas estão com cara de paisagem, quando as coisas estão com cara de coisas a serem vistas, tem sempre uma árvore que salta do chão.

no dicionário, “arvorar” quer dizer, entre outras coisas, “erguer à vista de todos”. árvore é uma coisa que pula da terra e se torna visível.

mesmo de longe, uma árvore se impõe.

de perto, nos convida a subir, a procurar um ponto de vista nos seus tantos pontos de vista, dispostos na disposição própria dos seus galhos.

às vezes, apesar de plantada numa calçada, mesmo parada, mesmo sem se mover, uma árvore atravessa meu caminho.

por isso mesmo, se me perguntam “cadê uma coisa?”, eu mostro uma árvore.

tem coisa mais bela a ser mostrada?

de tanto admirar árvores pelo caminho, com o tempo, a gente vai compondo seu próprio arvoredo. eu tenho o meu próprio arvoredo, com as árvores que, mesmo paradas, mesmo sem se mover, atravessaram & atravessam meu caminho, seja no mundo real, seja no mundo imaginário.

o poeta dos poemas a seguir também tem o seu arvoredo. o do poeta, por exemplo, é todo misturado.

no arvoredo do poeta, tem um ingazeiro do lado de uma canela-de-ema. tem, também, um amendoinzeiro, uma árvore que não dá amendoim. e a guariroba, um tipo de palmeira da região do paraguai e do brasil, que não é palmeira. tem mangueiras de vários tipos espalhadas por todo o lado. a mexeriqueira, que é o mesmo que tangerineira, é uma árvore que não se deve subir, pois seus galhos são repletos de espinhos, ao contrário da sete-copas, popularmente conhecida como amendoeira, e também chapéu de sol, árvore alta, com galhos fortes.

ele, o poeta dos poemas a seguir, foi muito amigo de um ficus exoticus (de uma figueira exótica), que, segundo o mesmo, ficava num vaso. e sente muitas saudades, mesmo, de duas amoreiras que deixou numa tarde de sol, alegremente, sem se dar conta de que nunca mais as veria.

nesta jornada que é a vida, espero que muitas árvores, mesmo paradas, mesmo sem se mover, com a força de sua beleza, atravessem, cruzem seus caminhos. que nesta jornada que é a vida, os senhores também componham os seus próprios arvoredos.

lembrem-se: árvore é um ser carregado de folhas & dramaticidade. sua força poética é enorme.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Cadê uma coisa. autor: Marcos Siscar. editora: 7Letras.)

 

 

COISAS DE ÁRVORE

 

Quando as coisas estão com cara de paisagem, tem sempre uma árvore que salta do chão. No dicionário, “arvorar” quer dizer, entre outras coisas, “erguer à vista de todos”. Árvore é uma coisa que pula da terra e se torna visível. Mesmo de longe, uma árvore se impõe. De perto, nos convida a subir, a procurar um ponto de vista. Às vezes, apesar de plantada numa calçada, uma árvore atravessa meu caminho. Por isso, se me perguntam “cadê uma coisa”, eu mostro uma árvore.

 

 

ARVOREDO

 

Com o tempo, a gente vai compondo seu próprio arvoredo. O meu, por exemplo, é todo misturado. Tem um ingazeiro do lado de uma canela-de-ema. Tem, também, um amendoinzeiro, uma árvore que não dá amendoim. E a guariroba, que não é palmeira. Tem mangueiras de vários tipos espalhadas por todo lado. A mexeriqueira é uma árvore em que não se deve subir, ao contrário da sete-copas. O chorão é uma árvore toda sentimental e derramada. O jambo é reservado, mas a siriguela é debochada. Fui muito amigo de um ficus exoticus, que ficava num vaso. Foi difícil me despedir dele, pela fresta da porta, antes de fechá-la pela última vez. Mas eu sinto mesmo saudades é das duas amoreiras que deixei numa tarde de sol, alegremente, sem me dar conta de que nunca mais as veria.

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