EUROPA & ÁFRICA: RELAÇÕES

Mapa_África & Europa

 

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esta publicação atira numa questão muito relevante, numa questão que tem a ver com o que se discute, hoje, sobre misturas de culturas & etnias.

como já comprovam alguns estudos, a troca entre a áfrica & a grécia antigas, troca cultural, comercial, ocorria de forma intensa desde tempos imemoriais.

tal relação de permuta entre essas culturas, certamente, criava, ajudava a criar, as identidades culturais de ambos os lados.

quando a europa — e o seu cientificismo do século XIX — se apropria de preceitos originários da antigüidade clássica, da grécia antiga, para a edificação de suas “sociedades civilizadas”, de suas sociedades “geneticamente superiores” às demais, a europa dos tempos modernos escamoteia, encobre, esconde, sistematicamente, toda a influência da cultura africana na cultura grega.

segundo o professor de história antiga do instituto de filosofia e ciências sociais (ifcs) da universidade federal do rio de janeiro (ufrj), andré chevitarese, um grande especialista em grécia antiga, a tradução mais fiel para as características de édipo, para o seu biotipo, célebre personagem da tragédia grega “édipo rei”, escrita pelo dramaturgo grego sófocles por volta de 427 a.C., é a de um homem “amorenado”, queimado pelo sol, com um tom de pele mais escuro, e não a do herói de “cútis alva como a neve”, como traduziram maliciosamente os europeus em suas versões para a peça original.

as trocas entre culturas, entre sociedades, por mais que alguns tentem negar, acontecem desde que o mundo é mundo.

inclusive, sabe-se já que, durante um período da história da humanidade, o norte da áfrica foi muito mais desenvolvido do que qualquer sociedade européia à época, concentrando cidades populosas, grandes obras públicas & feitos importantes nas áreas das ciências & das artes.

há claros indícios, em estudos sobre a américa pré-colombiana, de que os nossos índios, muitos localizados na região de minas gerais, mantinham trocas comerciais, culturais, e até científicas (sobre modos de preparo da terra, para o plantio, e também  sobre o cultivo do milho) com os índios que vinham do méxico(!). o intercâmbio que na américa ocorria, entre os residentes pré-colombianos, ia do leste ao oeste (do atlântico ao pacífico) & do norte ao sul.

o reggae maranhense é fruto das trocas culturais com o caribe, trocas que, segundo pesquisadores, existiam desde antes da chegada de colombo às terras americanas.

“cultura pura”, “cultura genuína”, “cultura de raiz”, são termos que não servem para muita coisa; na verdade, creio que não sirvam para nada. pois nada pode ser “genuinamente puro”, “intocado”, “virgem”, “de raiz”, feito, surgido, sob influência nenhuma. não existe um fundo próprio das coisas; na verdade, o fundo, sempre, é falso.

cultura que se deseja viva tem que viver a vida. e viver a vida significa estar inserido nela. o que se nega a trocar, a compartilhar, uma hora, é esquecido. e morre.

ser é visível, ser é estar à vista.

o que faz a vida é a troca. os brancos ensinaram, e ensinam, aos pretos tanto quanto os pretos ensinaram, e ensinam, aos brancos. em pé de igualdade.

isso só prova que o racismo se trata de uma grande burrice, isso só prova que o racismo se trata de uma grande estupidez.

misturar, mesclar, miscigenar: eis a única maneira de criar, eis a única maneira de gerar, eis a única maneira de inventar, coisas no mundo.

(próprio da beleza é o aparecer.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do: Dicionário da antiguidade africana. autor: Nei Lopes. editora: Civilização Brasileira.)

 

 

EUROPA E ÁFRICA: relações. À época da VI dinastia egípcia, por volta do século XX a.C., tempo em que, segundo Anta Diop, a Europa inteira não passava de um continente selvagem, em que Paris e Londres não eram mais que grandes extensões pantanosas, e Roma e Atenas dois lugares desertos, a África contava já, no vale do Nilo, com uma pujante civilização, onde pulsavam cidades populosas; onde o paciente esforço de várias gerações trabalhava o solo e erguia grandes obras públicas; onde as ciências e as artes alcançavam alturas insuspeitas, e onde, inclusive, a fé já havia criado deuses e deusas por muito tempo venerados (cf. Diop, 1979, vol. I, p. 231, nota I, a partir de J. Weulersse, 1934, p. 11). Nesse tempo, as rotas comerciais do vale do Nilo incluíam um ramo que começava no litoral egípcio, estendia-se para o oeste através do Mediterrâneo, e para o norte, ao longo do litoral da Europa ocidental, no mar Báltico, do qual os africanos extraíam âmbar. Segundo Don Luke, essa rota chegava às Ilhas Britânicas e à Escandinávia. Ver CÓLQUIDOS; ROTAS DE COMÉRCIO.

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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)

 

 

NEGRA GREGA

Negra negra

grega grega

de palavras & mercancias

no Porto das Palavras

de Alexandria

beleza é o ser visível

ser é visível

negra grega

da África Clássica

próprio da beleza é o aparecer

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4 Respostas

  1. Excelente análise. Outro dia assisti o documentário Viramundo (com Gilberto Gil) e um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a riqueza intelectual avançada dos aborígenes, quando os mesmos afirmaram que não concebem a ideia de estrangeiro.

    Ou mesmo uma índia que aparece no final do documentário e com uma leveza tremenda fala sobre os colonizadores: “Oh, mas eu não os culpo. Eles pensam que são Deus”.

    Ou seja, o sentido de igualdade ainda não chegou a muitas raças que se dizem “iluminadas”, mas cometem a burrice do racismo.

    • Pois é, Mariana, e isso é uma grande estupidez, uma tremenda insanidade.

      E uma coisa que tenho prazer em compartilhar com você: segundo alguns estudos da área da genética, as diferenças que existem entre homens são mais fenotípicas do que genotípicas, o que significa dizer que as características que nos estão à vista & que acabam por “diferenciar” os homens (cor da pele, dos olhos, do cabelo, a textura capilar, pêlos ou não no corpo) não estão exatamente inscritas no código genético, então a diferenciação da humanidade em “raças” não procede mais. A questão levantada pelos pesquisadores é: os cães possuem características fenotípicas tão díspares, que estas certamente fazem parte do código genético deles: um “chiuaua” é completamente diferente de um “pastor alemão”, que é completamente diferente de um “bulldog”. Então, a esses animais, os cães, cabe a diferenciação em “raças”. Mas, no homem, a ciência comprova que não tal diferenciação não cabe mais; de fato nunca coube, é que só descobrimos há pouco.

      Então veja você, querida: o próprio conceito de “racismo”, hoje em dia, com as descobertas científicas, não faz mais sentido, já que, hoje, se sabe que as características fenotípicas nossas não estão inscritas no código genético.

      Isso é uma maravilha, né? Porque põe ainda mais por terra qualquer teoria racista que possa aproximar-se de nós.

      Grande beijo, querida!

  2. Sim, Paulo, uma maravilha! Que descobrimos há pouco, mas que podemos ensinar, ao menos, às crianças. Os adultos andam lentos… Mas elas, que aprendem tão rápido… vide suas facilidades com a tecnologia…

    Caso ainda não tenha vista o doc. Viramundo, assista…há uma cena linda dos aborígenes na praia com o Gil. E a cena da indígena (o nome dela é Sabrina Almeida) é fantástica.

    Um excelente dia pra ti! Beijo!

    • Uma vez eu peguei o “Viramundo”, num canal de Tv por assinatura, já começado. Agora tenho que vê-lo na íntegra. Assim o farei, querida.

      Valeu a dica!

      Beijo!

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