CDA DE ATLÂNTICO & BRONZE

Amanhecer na cidade do Rio de Janeiro

 

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

(Nas fotos, estátua, lavrada em bronze, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no posto 6, praia de Copacabana, Rio de Janeiro.)
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CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: não é feito do costumeiro bronze que exalta as estátuas — apesar de a sua ser lavrada em bronze — nem do mármore consagrador, material também utilizado na produção de requintadas & célebres esculturas.

no fundo, porque por dentro, (cda) é rico em ferro anímico, é rico em ferro próprio da alma, ferro lavrado, ferro trabalhado, ferro esculpido, na sua confidência, há tanto tempo.

rico — cda — em ferro anímico, lavrado na sua confidência (há tanto tempo): na sua confidência em versos, propriamente intitulada “confidência do itabirano” (trecho inicial):

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

 

o pedestal de drummond (pedestal: suporte que serve para elevar, para colocar em destaque, em evidência, escultura ou objeto decorativo) é dispensável. pois todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond.

portanto, o pedestal que o poeta eleva, ergue, é dispensável. bastante, suficiente, é o banco ao nível do mar & dos homens onde, sentado de costas para o horizonte (como sempre sentou-se), acolhe a todos que durante o dia o procuram.

difícil é vê-lo só no banco, há sempre alguém para um retrato, um papo, ou um afago, e, mesmo assim, mesmo sempre acompanhado, de longe, nós o acompanhamos — com o olhar.

muitas vezes tiram os seus óculos — por ganância (no intuito de vender a peça lavrada em bronze) ou por lembrança (algum fã do poeta, num arroubo insensato de amor).

logo os repõem para que drummond não perca de vista quem passa & precisa da presença de sua eternidade, ali, no seu banco de praia predileto, onde costumava sentar-se, sempre de costas ao atlântico & de frente para o calçadão, assistindo ao ir & vir dos transeuntes, ao ir & vir da vida diante dos seus olhos.

a presença da eternidade de drummond: o pedestal de drummond é dispensável. todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós, acima de todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond, abaixo de drummond.

por isso (por estarmos por sob drummond), faz-se necessário tirar o peso da influência — o peso da importância — da fluência — da liqüidez, do escoamento, da espontaneidade — do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos) sobre o meu corpo poético, a fim de que me sobre o que seja genuinamente meu, a fim de que eu, ao escrever os versos que me cabem, acabe não afundado, por inteiro, na influência da fluência dos versos drummondianos sobre os meus.

por sob drummond, isto é, abaixo de drummond, abaixo do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos), abrir, pelo menos, um corpo poético meu. com meu corpo poético, penar sob sua sombra, padecer sob a sombra da influência da fluência poética drummondiana, para, depois, tentar abrir um corpo fora de sua sombra, tentar abrir um corpo de luz, tentar abrir um corpo poético inteiramente iluminado por uma luz inteiramente minha, própria, peculiar, autêntica.

(que assim seja.)

salve cda!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dever. autor: Armando Freitas Filho. editora: Companhia das Letras.)

 

 

CDA DE ATLÂNTICO E BRONZE

 

Não é do costumeiro bronze
que exalta as estátuas
nem do mármore consagrador.
É rico em ferro anímico lavrado
na sua Confidência, há tanto tempo.
O pedestal que eleva é dispensável.
Bastante é o banco ao nível do mar
e dos homens onde, sentado de costas
para o horizonte, acolhe a todos
que durante os dias o procuram.
Difícil é vê-lo só, e mesmo assim
de longe, nós o acompanhamos.
Muitas vezes tiram os seus óculos
por ganância ou lembrança.
Logo os repõem para que não perca
de vista quem passa e precisa
da presença de sua eternidade.

 

 

129

sob CDA

Tirar o peso da influência
da fluência do seu corpo
sobre o meu. Abrir um corpo
pelo menos, e penar
sob sua sombra, para depois
tentar abrir um corpo de luz.

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