GRAÇA
12 de maio de 2019

(Paulo Sabino e sua caboclinha Jurema Armond)
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Todo dia é dia da minha caboclinha, todo dia é dia de mãe. À grande flor do meu jardim, àquela que enfeita a minha vida de belezas, ofereço este poema, delicado como ela. Estendo a homenagem às mães de gentes, bichos, artes, a todas que se dedicam à dor e à delícia da maternidade.
 
A fim de uma apreensão ampla, ajudo deixando aqui os sinônimos de duas palavras do poema que me parecem menos conhecidas:
 
crasso = tosco, grosseiro
nimbados = sublimes, enaltecidos
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Poesia reunida, originalmente do livro O coração disparado. autora: Adélia Prado. editora: Record.)

 

 

GRAÇA

 

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acordem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo – para me proteger do inesperado
……………………………………………………………………….[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
…………………………………………………………………..[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
…………………………………………………………………………..[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.

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A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO — SARAU DE ANIVERSÁRIO
22 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_PEmP

São João_Fogueira
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Um convite a TODOS:

Para a 4ª edição do SARAU DO LARGO DAS NEVES, em SANTA TERESA (Rio de Janeiro), em frente ao BAR ALQUIMIA (percebe-se o bar pela movimentação das pessoas no largo), na quinta-feira dia 25 DE JUNHO, concentração às 19h, comemorando os 39 aninhos que completo no dia anterior ao do sarau, dia de são João Xangô menino, 24 de junho — viva são João! viva o milho verde! viva a refazenda!

(Vai ter bolo para o parabéns!)

Justamente por ser um sarau à época dos festejos juninos, preparei uma seleção, para a abertura do sarau, toda voltada ao são João, aos festejos em nome do santo. Abro com 6 autores: Patativa do Assaré; Décio Valente; Waly Salomão; Cecília Meireles; Noel Rosa; Roque Ferreira. 6 poemas todos com a temática do são João. Para o decorrer do evento, separei alguns outros poemas que ampliam a temática da festa para a sua ambiência: o interior, a roça, a vida simples & ordinária, ao mesmo tempo riquíssima & sofisticada, do campo: Thiago de Mello, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Paulo César Pinheiro, e mais o que pintar!

Queridos, saliento o fato de que NÃO SE TRATA de um sarau TEMÁTICO. NÃO. Estou me propondo a questão de recitar poemas juninos & de temática interiorana — para a abertura & algumas costuras no decorrer da noite — mas isso, de maneira nenhuma, é OBRIGATÓRIO para participar das leituras. O sarau continua aberto a TODO & QUALQUER TEMA. Sei que todos nós temos cotidianos agitados, cotidianos por vezes (inúmeras!) apressados, então não quero ninguém catando, feito louco, poemas de são João ou com temas do interior. Pelamor! Vamos relaxar, minha gente! Estamos aqui, antes de tudo & qualquer coisa, para GOZAR & SER FELIZ! Então: se quiser levar, se quiser procurar, se tiver em casa, se se lembrar, ótimo, venha com seus versos juninos e/ou interioranos. Se não quiser, não tiver, não lembrar, ótimo também, traga os versos de amor, de amizade, de solidariedade, de humor, de protesto, enfim, versos são sempre BEM-VINDOS!

A idéia, desta vez, é o sarau literalmente na praça do largo, pegando, emprestada, a energia do bar Alquimia, comandado pela querida amiga Denise Cunha, para o microfone & a caixa de som. Sairmos do bar & invadirmos a praça: com amor no coração, preparamos a invasão!

O sarau é organizado por mim & por uma turma de amigos imprescindível, que faz a coisa acontecer da maneira mais delicada & generosa! Obrigadíssimo, turma amada & idolatrada (salve salve!), por existir na minha vida!

No mais, o mesmo de sempre: vamos com a nossa alegria, o nosso sorriso, os nossos versos, a nossa vontade de ser feliz!

Recapitulando:

Sarau no largo das Neves (na frente do bar Alquimia), em Santa Teresa
Quinta-feira (25/06), a partir das 20h30
19h: concentração para uns drinques & um bate-papo animado
– Comemoração dos 39 aninhos deste que vos escreve

Poeme-se!
Eu & a turma organizadora aguardamos vocês!

Ilustrando esta publicação, deixo um poema, comovido, delicado, que integra a minha seleção para o sarau, sobre a noite alegre & rica, o lindo festejo & o santo sertanejo.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Melhores poemas. seleção: Cláudio Portella. autor: Patativa do Assaré. editora: Global.)

 

 

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

 

Meu São João, meu São Joãozinho!
Quanto amô, quanto carinho,
Quanto afiado e padrinho
Nesta terra brasilêra
Não tem a gente arranjado,
No quilaro abençoado,
Tão belo e tão respeitado,
Da sua foguêra.

Meu querido e nobre santo,
Que a gente qué e ama tanto,
Sua foguêra é o encanto
Da gente do meu sertão.
Não pode sê carculada
A porva que vai queimada
Nessas noite festejada
Da foguêra de São João.

Quantos véio bacamarte
Virge, que nunca fez arte,
Não tão guardado de parte,
Com amô e devoção,
Mode o povo sertanejo
Com eles fazê trovejo,
No mais alegre festejo
Da foguêra de São João!

Pois quarqué arma ferina,
Bacamarte ou lazarina,
Já criminosa, assarsina,
Como é a do caçadô,
Não tem a capacidade
De atirá com liberdade
Na santa quilaridade
Desta foguêra de amô.

Meu São João! Meu bom São João!
Santo do meu coração,
Repare e preste tenção
Quanto é lindo o seu festejo.
Repare lá do infinito
Como isto tudo é bonito,
Sempre digo e tenho dito
Que o senhor é sertanejo!

O homem pode sê ruim
E tê mardade sem fim,
Vivê da intriga e moitim,
Socado na perdição,
Mas a farta mais grossêra,
Mais e feia e mais agorêra,
É de quem não faz foguêra
Na noite de São João.

No mundo tem tanta gente
Véia, já quage demente,
Que não sente o que nós sente
E desfruita por aqui,
Gente sem gosto e sem sorte,
Que já vai perto da morte,
Sem vê um São João do Norte,
Nas terras deste Brasí.

Quem veve lá na cidade
Não conhece de verdade
A maió felicidade,
Três cabôco empareiado,
Com seus bacamarte armado
Dá três tiro encarriado:
— Pei! Pei! Pei! Viva São João!

E o foguete e o buscapé,
E o traque faz rapapé,
Arvoroçando as muié,
Quando elas vai sê madrinha,
E a contente criançada,
Na mais doce gargaiada,
Vai puxando uma toada,
Brincando de cirandinha.

Nesta noite alegre e rica
O prazê se mutiprica,
Na latada de oiticida
Tudo dança com despacho.
O véio Jirome Guéde,
Que sacrifiço não mede,
Toca o que o povo lhe pede
Numa armonca de oito baxo.

Meu São João! Meu bom São João!
Chuvinha, tiro e balão
Nós lhe manda do sertão,
Do nosso grande país,
Damo viva a toda hora
Quando o bacamarte estora,
Dos santo lá da Gulora
O senhô é o mais feliz!

A cinza santa e sagrada
De sua foguêra amada,
Com fé no peito guardada
Quem tira um pôquinho dela
Despois que se apaga a brasa
E bota em roda da casa,
Na vida nunca se atrasa,
Se defende das mazela.

É tão grande, é tão imensa
A minha fé e minha crença,
Que se Deus me dé licença,
Quando eu morrê, vou levá
Grosso fêcho de madêra
De angico e de catinguêra,
Pra fazê uma foguêra
Lá no céu, quando eu chegá.

FIBRILAÇÕES: CANTO PARA COMOVER A VIDA
17 de outubro de 2014

Papai_Mamãe_Eu

Jurema Armond_Rosto

Jurema Armond aos 72 anos

(Nas fotos, a grande homenageada: na primeira, aos cinqüenta & alguns anos, entre os dois grandes homens da sua vida; na segunda, aos sessenta & alguns anos; e na terceira, hoje, à beira dos seus 72 anos.)
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daqui a dois dias, isto é, no dia 19 de outubro (domingo próximo), a responsável por trazer ao mundo este que vos escreve vence as suas 72 primaveras, linda como sempre foi, é só olhar as fotos acima.

dona jurema armond, a minha cabocla jurema, não é a grande diva da minha vida apenas por sua beleza física: antes, esta é o reflexo do que vai no seu íntimo. porque dona jurema armond, intimamente, consegue ser ainda mais linda, ainda mais diva.

com ela, aprendi os passos & os caminhos do amor. antes de mais nada, é preciso que se afirme: dona jurema armond nasceu para o amor, dona jurema armond nasceu para o delicado, dona jurema armond nasceu para o pulsar do coração.

(notem que o seu sobrenome, armond, possui as letras que formam a palavra amor.)

sem dúvida, é das pessoas mais amorosas que conheço, se não for a mais amorosa dentre todas.

se hoje sou um homem amoroso, se hoje prezo pelo delicado da vida, se hoje sei que o que mais importa é o que o coração abriga, sou, prezo, sei, por causa dela.

ela é a grande responsável.

o amor que a envolve, o amor que a possui, é das coisas mais fortes & incomensuráveis que conheço.

os diamantes são indestrutíveis? mais é seu amor.

o mar é imenso? seu amor é maior, seu amor é mais belo porque sem ornamentos, porque sem enfeites, mais belo porque puro amor, sem afetações, mais belo do que um campo de flores.

seu amor, o amor de jurema armond, é mais triste do que a morte (minha cabocla, por ser deveras amorosa, sofre deveras de amor), seu amor é mais desesperançado do que a onda batendo no rochedo (minha cabocla, por ser deveras amorosa, sofre ao ver o mundo sofrer, chocando-se contra o indelicado da vida), seu amor é mais tenaz, mais resistente, mais obstinado, que o rochedo (minha cabocla, apesar de sofrer ao ver o mundo sofrer, chocando-se contra o indelicado da vida, preserva, em si, o seu amor ainda mais firme & ainda mais forte que o rochedo, que a pedra no meio do caminho).

o amor de dona jurema armond tanto ama, que, de tão amoroso, nem sabe mais o que ama.

ama tudo que houver para amar. sem restrições.

a ela, a jurema armond, tanto faz: funeral ou festim, tudo é desejo o que nela percute, tudo é desejo o que nela bate com força.

o seu coração, incansável à ressonância das coisas, o seu coração, incansável à reverberação das coisas, o seu coração, incansável à repercussão das coisas, o seu coração bate no compasso das batidas: “amo, te amo, te amo”.

o seu coração só sabe bater & dizer: “amo, te amo, te amo, ó mundo, mundo feito de maldades mas também de lindezas, ó homem, que de tão belo, por toda a riqueza & complexidade de que se constitui o ser humano, me paralisa, me espanta, me sensibiliza”.

e uma língua só, a linguagem do amor, é a que dona jurema armond aprendeu & sabe falar. um só ouvido, não absoluto, um só ouvido sem a capacidade de distinguir os tantos tons do amor, um só ouvido que sabe somente escutar a voz do amor independentemente das suas gradações.

certa erva do campo tem as folhas ásperas, e, ainda que ásperas, “te amo” é o que diz dona jurema armond à aspereza das folhas.

o seu amor pelo mundo, o seu amor pelo homem, o seu amor pelo amor que as coisas têm: o amor causa fibrilações, o amor causa batimentos descompassados no peito, o amor faz estremecer: a relva estremece com o passar do vento. o amor, para ela (para a relva), é a aragem, é o vento que a faz estremecer, que a faz fibrilar.

o amor de dona jurema armond tanto ama, que, de tão amoroso, nem sabe mais o que ama.

ama tudo que houver para amar. sem restrições.

a ela, musa maior da minha vida, às suas 72 primaveras vencidas no dia 19 de outubro, todos os meus salves & todas as minhas loas!

feliz aniversário, mãe! o melhor a você, sempre!

beijo todos!
paulo sabino.

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(do livro: O pelicano. autora: Adélia Prado. editora: Record.)

 

 

PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

 

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

 

 

FIBRILAÇÕES

 

Tanto faz
funeral ou festim,
tudo é desejo
o que percute em mim.
Ó coração incansável à ressonância das coisas,
amo, te amo, te amo,
assim triste, ó mundo,
ó homem tão belo que me paralisa.
Te amo, te amo.
E uma língua só,
um só ouvido, não absoluto.
Te amo.
Certa erva do campo tem as folhas ásperas
recobertas de pêlos,
te amo, digo desesperada
de que outra palavra venha em meu socorro.
A relva estremece,
o amor para ela é aragem.

CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
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(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
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engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!

ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

NO RIO DO MEIO, VELHOS E JOVENS
11 de fevereiro de 2010

o rio do meio: a existência que nos escorre tempo afora.
 
o ato do escritor: o tempo transcorrido em palavras, transposto a partir da existência de quem o escreve.
 
sou dos que escrevem como quem assobia no escuro: vagar à beira do poço interior observando os vultos no fundo, misturados com minha imagem refletida na superfície. não vigio em quartos fechados, mas amo o vasto mar. não me atraem as sombras mas o sol. e minha literatura não emerge de águas tranqüilas, tantas as perplexidades vivenciadas.
 
nem sempre a filosofia dos meus personagens tem muito a ver com a minha, nem vivo as suas trajetórias. mas sou pai desses que dormem dentro de mim como filhos possíveis.
 
seja qual for o modo, escrever é uma forma de fazer valer a trilha escura.
 
digo e repito quantas vezes necessárias (isto é uma idéia que tenho para um novo poema): meu palco é o papel. e as palavras, vestes com as quais enceno os espetáculos.
 
inventemos as nossas ficções! (tenhamos a criança conosco, como adélia a jonathan.)
 
sobre o rio do meio, fica a lição:
 
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
E estamos todos a sós
No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim
Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí
 
(Velhos e Jovens, parceria de Arnaldo Antunes e Péricles Cavalcanti)
 
aproveitem-no — o rio do meio —, aproveitem as suas águas enquanto tais águas não ensecarem.
 
beijo em vocês,
o preto.
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(do livro: O rio do meio. trecho do capítulo: Assobiando no escuro. autora: Lya Luft. editora: Record.)
 
 
Há temas que se repetem, perguntas que se perpetuam; inquietações coincidem entre o escritor e seus leitores, entre quem dá algum depoimento e quem assiste.
 
“Por que você escreve?” é a primeira e universal indagação.
 
Um escritor respondeu que se parasse de escrever morreria, portanto escrevia para não morrer; uma mulher dizia que escrevia para não enlouquecer, outra revela que o faz para ser amada.
 
Sou dos que escrevem como quem assobia no escuro: falando do que me deslumbra ou assusta desde criança, dialogando com o fascinante — às vezes trevoso — que espreita sobre nosso ombro nas atividades mais cotidianas. Fazer ficção é, para mim, vagar à beira do poço interior observando os vultos no fundo, misturados com minha imagem refletida na superfície.
 
Tudo isso é jogo — contraponto da vida concreta, onde não me atraem as sombras mas o sol. Não vigio em quartos fechados, mas amo o vasto mar; não me esgueiro, mas, apesar de todas as fragilidades, avanço.
 
Minha literatura não emerge de águas tranqüilas: fala de minhas perplexidades enquanto ser humano, escorre de fendas onde se move algo que, inalcançável, me desafia. Escrevo quase sempre sobre o que não sei.
 
O artista — na minha linha de trabalho, gente da minha espécie — guarda a visão mágica da infância, quando o real e o imaginado convivem sem problemas. As entrelinhas — mais importantes do que as linhas — espelham essa dança de máscaras e desvendamentos.
 
Criar personagens trágicos não significa que o autor seja pessimista: muitos humoristas são calados e deprimidos. Nem sempre a filosofia de meus personagens tem muito a ver com a minha, nem vivo as suas trajetórias. Mas sou mãe desses que dormem dentro de mim como filhos possíveis, sementes plenas do sono do fruto. 
 
É preciso não sucumbir quando naufragam. O que nos resguarda? Que mão nos segura à margem? Talvez a crença de que tudo faz parte do mesmo fluir: amor e solidão, nascimento e morte, entrega e decepção. De que algum sentido existe — o essencial, que nossa inquietação procura.
 
Tenho um olho otimista que vive (e convive) e um olho pensativo: este, contempla, perscruta, inventa suas ficções.

O PRADO DE ADÉLIA
10 de fevereiro de 2010

queridos & queridas,
 
durante a leitura do primeiro livro da autora que segue, do primeiro livro lido por mim, e ao fim, o sentimento desenvolvido de filiação. senti pela poeta uma espécie de amor de um filho por sua mãe (quando estes se dão bem, evidentemente). pois em várias características ela, a escritora, lembrou-me a minha mãe.
 
e lembrou-me a minha cabocla por toda a sua poética, conectada à sua religiosidade, marca maior da sua prosa em poema. e, junto à sua religiosidade, um sentimento de amor & encantamento pelo mundo circundante. uma bondade, uma leveza, um entendimento bonito, muito comovente, das coisas. muito muito muito próxima, a autora, de dona jurema armond, a minha cabocla jurema (rs), a minha mais que amada & idolatrada — e ela fez por merecer toda esta extensão de sentimentos em mim — mãe.
 
por isso, por elas, pela poeta e pela mãe, exijo o cuidado extremo, o máximo respeito. senão quem os perde sou eu. 
 
e a poeta, por suas qualidades artísticas, os merece sem sombras de dúvida.
 
seu primeiro livro, “bagagem”, que, coincidentemente, foi o primeiro livro seu que li, recebeu indicação para publicação do soberano vate carlos drummond de andrade.
 
“bagagem” foi lançado quando a escritora tinha os seus 40 anos de idade, isto é, quando já detentora de uma boa bagagem de histórias & memórias: quando mãe, esposa, quando com uma casa para cuidar e o seu quotidiano (aparentemente) simples, singelo, porém rico, valioso, em seus acontecimentos. acontecimentos trabalhados de modo a tornarem-se puros acontecimentos poéticos em suas mãos de bordadeira das palavras, mãos claras e límpidas de matriarca e senhora de si.
 
na seleção abaixo, deixo às vistas de quem quiser apreciá-lo, o campo, o prado por onde adélia caminha com seus versos.
 
o prado de adélia: nele, encontramos jonathan, que é, em suma, um tipo de “irmão imaginário” da poeta, a criança que a habita e perdura na sua existência. jonathan representa o menino que é bom conservarmos no peito, junto ao coração — que pode ser muito mais que um simples tambor —. jonathan é sua ficção maior, porque poética, porque jonathan passeia por sua alma, fazendo-a capaz de insensatez, de insanidade, de coisas próprias a uma criança.
 
no prado de adélia, o deus que enxerga, lúcida, em nada facilita, em nada descomplica: a poeta possui olhos para a complexidade da existência. avista, como boa artesã dos acometimentos da vida, as borboletinhas, os fios dágua com peixes, como também os computadores e os cabos telegráficos sob o mar. são muitas as criações divinas — partindo do princípio de que deus é o grande criador do universo —, e tão divergentes, tão díspares, que confessa a autora:
 
Descubro que nunca vi a vera face de Deus.
 
em sua pradaria, o medo da morte, de entregar-se à vida eterna, ao caminho do céu: a rua mais torta de nossas vivências.
 
acha-se adélia em diversas, em muitas outras, a começar pelos tantos nomes que se incrustaram no seu. notem que todos os derivados apresentados em “as palavras e os nomes” formam-se a partir da poeta, a partir de adélia.
 
são inúmeras.
 
tantas, que a mesma reconhece: por maior o esforço, a letra não sai redonda, não sai bem acabada, bem feita. e a impaciência, a vontade de ligar o “foda-se”, também tem o seu espaço.
 
é impossível viver sem dizer eu.
 
é inviável viver sem reconhecer as tantas nuances que somos. você e você dentro de você (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/10/30/voce-e-voce/).
 
a paciência não tem começo nem fim. ela inicia-se e finda num ciclo ininterrupto. não se tem controle sobre isso, sobre tal ciclo.
 
tantas as adélias, tão vasto o seu prado, que nele ainda vemos espaço para a arte poética, a arte da produção — o trabalho e a engenhosidade do poeta cerebral, que afia na pedra calcinada das palavras o seu lápis-bisturi —.
 
o pelejador, aquele que luta com a língua, não entende: quer escrever as coisas com as palavras, com estas imperfeições da linguagem. 
 
palavras: que se façam delas, “coisas”; coisas a serem moldadas e remodeladas, coisas sempre em ebulição, em estado de efervescência, como um sabão no tacho fervendo.
 
(ser o “oráculo do senhor”, visto que este senhor nada mais é do que a existência, a vida vivida. o desejo de posse deste fogo e da roupagem de forma ajustada, de talhe acertado.)
 
caminhem por sobre toda a terra fértil de adélia, esta espécie de aia, de criada da dama nobre que é: a poesia.
 
passeiem por este prado, deixando que sua beleza se estenda aos vastos prados de vocês.
 
beijo grande em todos.
um especial em minha cabocla. outro em adélia.
paulo sabino / paulinho. 
________________________________________________________
 
(do livro: A faca no peito. autora: Adélia Prado. editora: Record.)
 
 
BIOGRAFIA DO POETA
 
Era uma casa com árvores de óleo,
                    duas árvores grandes…
Assim começa o meu amor por Jonathan,
                    com este belo relato.
Referia-se meu pai aos óleos como se recontasse: 
‘Destes troncos que vês, Deus falou a Moisés.’
Pois bem. Duas árvores de óleo,
duas horas da tarde,
e um café que todo mundo,
àquela hora, fazia.
Uma voz intrometeu-se:
‘Você e seu irmão podem brincar aqui que não chateiam.’
Chamavam poeta ao que sabiam rimar,
o mundo intimava.
Nem Salomão em sua glória foi mais feliz que eu.
Pode-se transformar em amor o horror às fezes?
Ainda que tênues,
              desconforto e estranheza não devem permanecer
                                   para que eu siga humana?
Queria ter inventado o ponto de cruz e o fermento
— pequena humilhação seguir receitas.
            Borboletinhas, computadores,
            fios dágua com peixes,
cabos telegráficos sob o mar.
Descubro que nunca vi a vera face de Deus.
Há mulheres no meu grupo que rezam sem alegria
e de cabo a rabo recitam o livro todo,
incluindo imprimatur, edições, prefácio,
endereço para comunicar as graças alcançadas.
Eu só quero dizer: Ó Beleza, adoro-Vos!
Treme meu corpo todo ao Vosso olhar.
 
 
A FORMALÍSTICA
 
O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
                 que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
                   o efeito respeitoso que produz
                               seu trato com o dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco começam a fosforescer coisas no mato.
A serva de Deus sai de sua cela à noite
                               e caminha na estrada,
passeia porque Deus quis passear
                                                e ela caminha.
O jovem poeta,
             fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
             ‘Deus é impecável.’
As rãs pulam sobressaltadas
              e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas com as palavras.
 
 
HISTÓRIA
 
Me aflige que escrevam:
‘Foi em mil oitocentos e tanto que apareceu
                                  a primeira bicicleta.’
Preciso que seja eterna. Deus entende o que digo,
Deus e os que lêem poemas como penso em Jonathan.
Meu pai contando:
‘Meu avô contava que seu tetravô
tinha uma bicicleta engraçada
onde carregava os queijos, também eternos,
e ovos, desde sempre existentes.
Já usava este sobrenome que você tem,
                                   minha filha,
e que dará a seu filho, que o dará a seu neto,
cordão plantado no umbigo do Pai Eterno.’
Assim não corro perigo de não ter conhecido Jonathan,
alegria da minha vida por quem espero
“mais que o guarda pela aurora”.
A história do homem é pitoresca. As datas,
                                  brinquedo de pesquisadores.
Quando Deus criou o mundo
criou junto a bicicleta e o caminho relvado
onde Jonathan me espera para esta bela seqüência:
à passagem dos amantes,
                             o capim florido estremece.
 
 
EM PORTUGUÊS
 
Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
                          neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
           ‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
                       pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
                os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
 
 
ARTEFATO NIPÔNICO
 
A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.
 
 
AS PALAVRAS E OS NOMES
 
Me atordoam da mesma forma os místicos
e as lojas de roupa com seus preços.
O dente apodrece
sem que eu levante um dedo pra salvá-lo,
já que escolhi o medo como meu deus e senhor.
Tem pó demais na prateleira dos livros
                            e livros em demasia
e cartas cheias de si me atravancando o caminho:
‘Escrever para mim é uma religião.’
Os escritores são insuportáveis,
                      menos os sagrados,
os que terminam assim as suas falas:
                     ‘Oráculo do Senhor.’
Eu fico paralisada
porque desejo a posse deste fogo
e a roupa de talhe certo,
                  com tecidos de além-mar.
Ai, nunca vou fazer ‘cantar d’amigo’.
No entanto, como se eu fora galega,
na minh’alma arrulham pombos,
tem beirais, tem manhãzinhas,
                   costureirinhas, pardais.
Meu nome agora é nenhum,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu,
Délia, Adel, Élia e Lia
e para desgraça minha
ainda Leda, Lea, Dália,
Eda, Ieda e ainda Aia.
O melhor!
Aia, criada de dama nobre,
       a dama de companhia,
a que tem por ofício
         anotar no papel a vida
e espiar pela fresta
a ama gozando com o rei.
Borboleta, esta grafia,
                este som é um erro
e os erros me interessam,
sacrifico as aranhas pra saber de onde vêm.
A natureza obedece e é feliz,
a natureza só faz sua própria vontade,
                    não esborda de Deus.
Mas eu o que sou?
 
 
POEMA COMEÇADO DO FIM
 
Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
              parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
                                        eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres
                            e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
                            sobre nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
                      O Caminho do Céu.
 
 
O MAIS LEVE QUE O AR
 
O que me leva a Jonathan?
A bicicleta do sonho,
mais veloz que avião.
Anda no mar, encantada,
         transpõe montanhas,
         pára no portão florido.
Jonathan está no escritório
         com a luz do abajur acesa.
Demoro um pouco a bater,
         pro coração sossegar.
Jonathan me pressente
         e abre a cortina brusco,
         brincando de me assustar.
         As bicicletas são duas na planície.
 
 
MANDALA
 
Minha ficção maior é Jonathan,
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
 
 
CARTA
 
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos 
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se agüenta 
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
— eu sei mil —
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
 
FIEIRA
 
Posso me esforçar à vontade
que a letra não sai redonda.
                   Deus me vê.
Não escrevo mais cartas,
só palavrões no muro:
          Foda-se. Morra.
Estou cansada de dizer eu te amo.
Não tem começo nem fim minha paciência.
Não paro de pensar em Jonathan.
           Detesto escrita elegante.
           As tragédias são doces.
Aprendi a falar desde pequenininha.
         Tudo que digo é vaidade.
É impossível viver sem dizer eu,
     palavra a Deus reservada.
         Não sei como ser humana.
Saberei, se Jonathan me amar:
          ‘que unha forte!’,
          ‘você me lembra alguém’,
          ‘quase lhe mando um cartão’.
                    Migalhas, Jonathan,
                    você também vai morrer,
                                                  fala, 
                    descansa meu coração.
 
 
PASTORAL
 
Quando, por demasia,
   a saudade de Jonathan me perturba
         eu vou pra roça.
        Nas ruas de café,
       entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
                         sua presença anímica me acalma.
        O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
                 mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
  vem, Jonathan. E aparece um besouro
               com o mesmo jeito dele caminhar.
  Descubro que passarinhos
              só fazem o que lhes dá gosto
             e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
               deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
           da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
           vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
    agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
      faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.

AVISO AOS NAVEGANTES – A GUIA
28 de dezembro de 2009

queridos navegantes,
 
por conta da passagem do ano, o “prosa em poema” ficará esta semana (29/12 – 03/01) sem atualizações.
 
para este espaço, em 2010, os planos continuam os mesmos: a publicação de textos com os quais consiga manter uma boa prosa.
 
estas linhas abaixo, as últimas do ano que finda.
 
fica o dito: a poesia me salvará. (me salva, sempre.) captar a mensagem pelo arauto, pelo ar, alto, pelo sopro que a musa venta, conforme sejam suas mãos e olhos.
 
ela, a poesia, que é a minha bagagem, me salvará.
 
(repito: me salva, sempre!)
 
o poema: o meu redentor, aquele que me redime de faltas quaisquer (rs).
 
uma ótima passagem, pessoas!
até 2010!
 
beijo grande!
paulo sabino / paulinho.
_________________________
 
(do livro: Bagagem. autora: Adélia Prado. editora: Siciliano.)
 
GUIA
 
A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem — sem coação alguma —
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?