LUNA PARQUE: CHAMA NÃO VISÍVEL & SALADA COM MOLHO
9 de setembro de 2010

julgou-se que, ali, logo ali, era uma espécie de “luna parque”, que é um parque de diversões, com suas barraquinhas de tiro ao alvo e de arremesso, roda-gigante, trem-fantasma, e tantas outras coisas típicas do local.
 
julgou-se que, aquilo, era um luna parque e que, dele, saía-se como se entrava: nada de irreversível acontecia durante a estada.
 
mas não.
 
quando se percebe, já lá dentro está, mesmo sem saber que lá dentro entrou, e, quando se deseja sair, a saída é: proibida. vetada. obstruída. quem lá vai não volta nunca mais.
 
(viagem com apenas a tarifa de embarque.)
 
pode bater um desespero imaginar-se vivendo, o resto da vida, dentro desse tipo de luna parque: paúra pânico pavor.
 
depois habitua-se a fazer, nesse parque, das tripas, coração. acostuma-se, nesse parque, ao convívio com a dor. no princípio dói muito, fere, machuca viver nas suas dependências.
 
mais tarde, percebe-se que no luna parque, apresentado como um parque de diversões, porém um parque de diversões tristes, pode-se não ser triste. percebe-se que, mesmo um sítio lúgubre, mesmo um lugar doloroso, pode-se ser feliz, pode-se cavar o bem-estar nesse terreno destinado, ao que tudo consta, à recreação. 
 
sai muito caro não ser triste, a conta é alta. mas poder, pode-se, sim.
 
é fogo!…
 
e, com o fogo, como já dizem os antigos, com o fogo não se brinca. porque o fogo queima arde machuca.
 
(o fogo é feito de naturezas diversas.)
 
se, com o fogo que exala fumo, isto é, se, com o fogo que solta fumaça, não devemos brincar, com o fogo que arde sem se ver a recomendação é para que se brinque ainda menos (rs).
 
pois que o fogo que arde sem se ver é um fogo que queima muito, e como queima muito, custa mais a apagar do que o fogo com fumaça. 
 
portanto, atenção ao brincarem com esse tipo de chama!…
 
é uma chama excêntrica… a mesma força motriz que a levanta & a faz viver intensa pode, perfeitamente, extingui-la.
 
assim como quando se come uma salada com molho saboroso (imagine-se o molho como a “força motriz” da salada): no início, a salada é deliciosa por causa do molho. tudo o que mais se quer, tudo o que mais se deseja, é comer a salada COM o molho. o molho é o que dá graça ao prato. passado um tempo, pode-se perceber, pode-se concluir, que é mil vezes melhor comer os vegetais sem o molho do que com o molho.
 
o molho impede que se comam os vegetais com o gosto que possuem os vegetais. o molho impede, o molho embarreira, o sabor do que realmente se come. o molho passa a ser dispensável.
 
(o amor e seus reveses, e seus infortúnios, e seus imprevistos…)
 
abaixo, três exuberantes poemas de uma poeta portuguesa por quem sou apaixonado: adília lopes. o último da trinca é um dos mais espertos poemas que li nos últimos tempos. adoro a construção de imagens, a sagacidade da narrativa, os trocadilhos, as intenções. tudo, nos versos, é muito. estejam atentos a eles.
 
beijo grande em todos,
paulo sabino / paulinho.
___________________________________________________________________ 
 
(do livro: Antologia. autora: Adília Lopes. editoras: 7Letras / Cosac & Naify.)
 
 
O LUNA PARQUE
 
Eu julgava que aquilo era
um Luna Parque
saía-se como se entrava
e não acontecia nada irreversível durante
é o que é um Luna Parque
quando se é adolescente
mas não
quando dei por mim
já lá estava dentro
e não me lembrava
de ter entrado
quando disse agora quero-me
ir embora
riram-se ah minha rica
deste Luna Parque não se sai
quem cá vem não volta
não se volta atrás
então comecei a pensar
que ia passar o resto dos meus dias
no Luna Parque
acabas por aprender vais ver
a fazer das tripas coração
habituas-te vais ver
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se
 
 
COM O FOGO
 
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
 
 
A SALADA COM MOLHO COR-DE-ROSA
 
 
1
Conheci a Magda na praia
na praia é uma metáfora obscena
que como as outras metáforas obscenas
pode ser usada quer como eufemismo
quer como insulto
conheço por experiência própria
os dois usos da expressão
na praia
 
2
Eu gosto de me fazer passar
por uma rapariga ordinária
a Magda era mesmo ordinária
a princípio era isto o que mais
me atraía nela depois foi isto
o que sobretudo me desgostou dela
 
3
As minhas relações com a Magda
de deliciosas passaram a promíscuas
aconteceu-me
o que me tinha acontecido
quando comi salada com molho cor-de-rosa
ao princípio
a salada era deliciosa por causa do molho
depois comecei a perceber
que era mil vezes melhor
estar a comer os vegetais
sem molho do que com molho
o molho impedia-me de comer os vegetais
com gosto
desgostava-me da vida
 
4
Vivia com a Magda
num quarto de duas camas
quando eu chegava ao quarto
a Magda estava deitada na minha cama
numa posição de Maja desnuda
mas vestida
o que ainda era pior
outras vezes encontrava-a
sentada na minha cadeira
a folhear os meus livros
e a chupar os dedos
 
5
A Magda era uma intrusa
depois de ter sido um ser envoûtant
quer como intrusa
quer como ser envoûtant
ela era para mim
uma fonte de perturbação
 
6
Eu não era casta
não porque me entregasse
com a Magda
(que era aliás uma praticante profissional do safismo)
a um prazer que alguns dizem vicioso
(só lhe toquei uma vez
sem querer
e pedi-lhe automaticamente desculpa)
mas porque com a Magda
não tinha prazer nenhum
 
7
(Acho que o prazer é casto
o que não é casto
é o simulacro do prazer
ou a renúncia ao prazer
tanto o simulacro
como a renúncia)
 
8
Um dia voltei ao quarto
e a Magda tinha desaparecido
sem deixar marcas
custou-me não encontrar
o chiqueiro próprio da Magda
os meus cigarros fumados
o meu cinzeiro cheio de beatas
sujas de bâton
(que me faziam lembrar
dentes cuspidos após uma briga)
o Las Moradas
antes do Calculus I
na minha estante
quando eu me habituei
a pôr esses livros por ordem inversa
 
9
O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido

MUNDO SUBLUNAR
10 de agosto de 2009

pessoas, 

seguem, para devida apreciação, versos de um poeta que me interessou por conta do seu nome. eu ainda não o conhecia, nem ouvira falar nele: carlito azevedo. aquele nome, carlito, estampado na capa de um livro de poesias, me suscitou um interesse imediato. porque, na poesia — vista com certa dose de ‘pompas’ e ‘circunstâncias’ por muitos (principalmente por seus admiradores) -, ter um poeta com um nome que soe informal e que me remeta, sempre, ao belíssimo personagem imortalizado por charles chaplin, são maravilhas, surpresas, do acaso. o livro foi comprado por essas razões e eu já me simpatizara com o poeta. 

no entanto, ao iniciar a leitura, sabe-se lá por quê, as suas poesias não se revelaram para mim. deixei-o por um bom tempo na prateleira, abrindo-o vez por outra, tentando uma aproximação, uma maior intimidade, mas isso não acontecia. até que, num flerte despretensioso, me chegou o momento tão esperado: ao ler o primeiro poema, a ficha caiu; a poesia, finalmente, desnudou-se, e eu, estupefato, estonteado com a sua beleza… dali pra frente: efeito dominó; a cada poema lido, a sua nudez consentida, e meu espanto com as lindezas que iam se desenhando aos meus olhos. desde então, carlito azevedo é um (grande) acontecimento para mim. 

a matéria-prima da poesia de carlito azevedo é muito bem traduzida pela epígrafe do seu livro chamado ‘sublunar’, uma reunião de poemas publicados ao longo de 10 anos de ofício (1991-2001). ei-la, a epígrafe, abaixo: 

Falo de ovos estrelados, coisa caricata, suja,

sublunar, como as maminhas

e o cão animal que ladra.

                                      (Adília Lopes) 

suas linhas formulam tratados poéticos sobre a vida cotidiana, comum, diária, sobre esta existência nossa, sublunar, ou seja, esta existência por sob a lua, por sob este satélite que guarda tudo o que nos compreende aqui, neste chão de terra em que as nossas estórias são delineadas.    

não me admira, portanto, a afeição de carlito por um poeta que, pra mim, é um deus das palavras na poesia brasileira, um poeta que marca, com sua escrita áspera e certeira, cheia de imagens mirabolantes, quem quer que o leia: carlos drummond de andrade. como vocês poderão ler, carlito faz uma das mais belas homenagens ao mestre no poema ‘fractal’. 

pra vocês, um ramalhete de poemas vindos da floricultura do carlito. 

beijo bom em todos,

paulinho.

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(todos os poemas extraídos do livro sublunar, de carlito azevedo, ed. 7 Letras 

VACA NEGRA SOBRE FUNDO ROSA

 Até os cinco anos de idade jamais havia visto um trem de carga;
e até os oito jamais um meteorologista.
                                     A garota com sombrinha chinesa
foi um dia a minha garota com sombrinha chinesa, e a este
que brinca na areia da praia chamamos nosso filho, pois
é o que é, como a bola azul em suas mãos é a bola azul
em suas mãos e o verão é outra bola azul em suas mãos.
As coisas são o que são e sei que antes de precisar
outra vez barbear-me já terão voltado para o frio
de seu novo país. E talvez em meus sonhos
voltem a fazer falta as três dimensões
desse mundo espesso, sublunar, como
uma vaca negra sobre fundo rosa.
 
 
VENTO
 
A manhã e alguns atletas desde cedo que estão dando voltas
                                                                 — à Lagoa.
Outros seguem para o Arpoador (onde o ar é de sal e insônia
e a beleza ri com uma flor de álcool entre os dentes).
O mar desdobra suas ondas sob o violeta dos
olhos da menina no alto da pedra.
Um falsete fica reverberando sem querer morrer.
Dos cabelos desgrenhados do meu filho
se desprega, ao vento, como um
sorriso, como um relâmpago,
um pensamento triste.
 
 
NOVA PASSANTE
 
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
 
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
 
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
       te dedicaria
um concerto
            para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
 
 
FRACTAL (para Lu Menezes)
 
No meio da faixa de terreno destinada a trânsito tinha um
                 [mineral da natureza das rochas duro e sólido
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido no
                 [meio da faixa de terreno destinada a trânsito 
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido
no meio da faixa de terreno destinada a trânsito tinha um
                 [mineral da natureza das rochas duro e sólido.
 
Nunca me esquecerei deste acontecimento
na vida das minhas membranas oculares internas em que
                 [estão as células nervosas que recebem
                 [estímulos luminosos e onde se projetam
                 [as imagens produzidas pelo sistema
                 [ótico ocular, tão fatigadas.
 
Nunca me esquecerei que no meio da faixa de terreno
                [destinada a trânsito
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido
         [no meio da faixa de terreno destinada a trânsito
no meio da faixa de terreno destinada a trânsito tinha um
                 [mineral da natureza das rochas duro e sólido.
 
 
OURO PRETO
 
Anjo não, Anjo:
como se um sopro
lhe sobre as asas
batesse e quase
 
voasse e, caso
voasse, sendo
leveza menos
que exatidão.
 
Anjo de igreja
ao ar aberto
(a nave: a nuvem?)
sabeis a pedra-
sabão, melhor,
a bolha-de-.
 
 
3 VARIAÇÕES CABRALINAS
 
1ª Como uma leoa gira
presa à própria labareda
(que mais que as grades é grade
de sangue, suor e vértebras)
a noite por toda a noite
debateu-se contra a teia
de labaredas escuras
que às coisas, de noite, ateia.
 
2ª Teu corpo gira na ponta
de uma labareda negra
mais alta que o Pão de Açúcar
os pés fincados na areia
(teu corpo explode e faminta
segue a labareda negra
cuja língua noite adentro
lambe a própria labareda).
 
3ª A dança veloz da língua
de uma labareda negra
a lamber no quarto escuro
sua própria labareda
se bastava (avareza
incomum em labaredas)
com ficar ainda mais negra
com ficar mais linda ainda
 
 
PAISAGEM JAPONESA PARA AGUIRRE
 
Pensei nos ventos frios
que sopram
da Sibéria enrolando-se
em seu pescoço, na pesca do salmão e
na corrida da raposa fugindo de seu covil
rumo à plantação de batatas; mas
 
aqui,
neste quase morro da rua Lopes Quintas,
com pedregulhos ao fundo,
você pousa agora um jarro sobre a mesa
 
e é quase como se pousássemos também
nossas vidas sobre tudo isso
e sorríssemos;
                pode ser a coisa
mais simples, como
a taça de café que aquece agora
as palmas de nossas
 
mãos (“ó doce hebréia”) e cheira bem;
 
além, o jóquei iluminado, a lagoa
que nos veste como camisa ensopada;
olhamos a lua,
 
amamos o mar.
 
 
LAGOA
 
Tendo às costas
(como asas pensas que a tarde
abre e fecha) o dorso cobreado da
montanha e os reflexos de cobre da lagoa,
a menina com o gato traduz, à mais que perfeição,
os veios profundos, invisíveis e subterrâneos,
a nos unir a quem amamos, e quando ele lhe
estira sobre o colo as patas ponteadas,
ela, para não acordá-lo, até seu
olhar põe na ponta dos pés.
 
 
LIMIAR
 
Os pés premindo
a inexistente relva do asfalto
duro da rua sem vida a não ser a
que lhe dás quando subitamente cruzas
o espaço e somes num átimo deixando
entretanto no ar qualquer coisa de tão
botticelliano quanto num crepúsculo mediterrâneo
uma colhedora de mimosas a quem um
homenzinho cedesse a passagem
à espera (desesperada)
de um sorriso
 
 
HOMEM DENTRO DO PESADELO
 
Patas de lobo arranham
seu pescoço enquanto
intenta em vão
com socos e chutes amortecidos
pelo ar pesado
romper a membrana do sono
 
Vai rompê-la — de fora —
o dia
com suas patas de lobo
 
 
NA GÁVEA
 
Enquanto o vento
sopra contra a flor caduca
da pedra, um som mais belo que o som das
fontes nos seduz a invocar do cubo de treva
nosso de cada noite que nos dê — não outro dia,
chuva nos cabelos, lampejos do sublime entre pilotis
de azul e abril, mas apenas a vertigem do ato,
o vermelho do rapto, a chegada ao fundo
mais ardente, onde tornar a reunir
cada fragmento nosso, perdido,
de dor e de delicadeza.
 
 
EPÍLOGO
 
“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam