FOTOS E O EVENTO — LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
3 de agosto de 2017

(Paulo Sabino e Sandra Niskier Flanzer)

 

(Casa lotada)

(Nélida Piñon)

(Antonio Carlos Secchin e Antonio Cicero)

(Marcelo Pies)

(A dedicatória pra mim)
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“Paulo, querido:

Sua presença, sua companhia, e mais especialmente sua voz, estão comigo neste lançamento.

Te encontrar foi um presente!

Que a gente lance, se lance, nesse lance, livre e livro, como a vida quer de nós.

Um beijo enorme e muito, muito obrigada!”

(Sandra Niskier Flanzer — 30/06/17)

 

 

A noite de segunda-feira, 31/07, com o lançamento do novo livro de poemas da psicanalista e poeta Sandra Niskier Flanzer, “Do quarto” (ed. 7Letras), na Casa do Saber, foi linda!

A poeta me convidou para fazer um recital de poesia que foi o meu primeiro vôo solo, a primeira vez que me apresentei sem dividir o palco, coisa que AMO fazer. Eu, chato que sou (acredito ser assim pra muita gente), acho que poderia fazer melhor, que não dei conta do recado de uma maneira satisfatória (pra mim). Mas, apesar dessa impressão (minha), recebi palavras muito carinhosas, muito generosas, de quem assistiu e veio falar comigo ao final. A Sandra também me contou que recebeu palavras muy elogiosas sobre o sarau que pensamos juntos e o meu desempenho com as palavras.

Para além disso, soube de uma história bacanérrima: de uma pessoa que não conheço e que estava no recital e que trabalha com um grande amigo meu e que por conta de uma foto do recital no celular do meu grande amigo comentou com ele que esteve nesse recital na segunda-feira (31/07) e que foi “sensacional” (palavra do meu amigo) e um tanto mais de palavras calorosas. Saldo pra lá de positivo. Por isso, por esse retorno do público, estou muito feliz com esta primeira apresentação sozinho.

A Sandra lotou o espaço merecidamente, porque o seu livro, “Do quarto”, é de uma beleza rara na poesia, muito sofisticado, e porque mesclamos as leituras com poemas de grandes autores (Adélia Prado, Drummond, João Cabral, Gullar, Pessoa, Antonio Cicero, Antonio Carlos Secchin, Armando Freitas Filho), desenvolvendo um papo poético bem bacana entre os versos. Por tanto, por tudo, aqui para agradecer demais demais demais o convite da Sandra, a oportunidade deste momento e a confiança depositada na minha voz. Agradecer demais demais demais a presença dos amigos, e, especialmente, dos mestres — também amigos — que lá estiveram: os membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) Nélida Piñon, Antonio Carlos Secchin e Antônio Torres, o poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero, o membro da Academia Carioca de Letras (ACL) Adriano Espínola e o figurinista de cinema, teatro e publicidade Marcelo Pies. A vontade pede mais momentos como o vivenciado na segunda 31/07.

Valeu demais!
Salve a Poesia!
Salve a sua existência na minha!

De presente, uma poesia incendiária da Sandra, que chama pela chama, pelo calor, pela luz, que a poesia alastra a quem desejar a sua chama, o seu calor, a sua luz.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

CHAMA POESIA

 

Tu estejas aí
Enquanto estiver aqui
Não arredarei pé
Atravessarei feriado
Os ócios do ofício
E o fim da semana
A produzir labaredas
Lavas que atiçam chamas
Centelhas a chamar fogueiras
Estarei no entre flamas,
Laboredas combustíveis
Incinerando o edredom
Queimando a cama parada
Em meio ao fogo cruzado
Assim, tu estejas aí,
Minha cara litera-dura
Segura-me com tua brasa
Aquece-me em minha casa
Pois te apago e a pago
Incendiária e sem diária.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: VÍDEO (III)
25 de agosto de 2015

Adriano Espínola_Alex Varella_Paulo Sabino_Salgado Maranhão_Antonio Cicero_Antonio Carlos Secchin

(Os poetas participantes do projeto “Ocupação Poética”: Adriano Espínola, Alex Varella, Paulo Sabino, Salgado Maranhão, Antonio Cicero & Antonio Carlos Secchin.)

Paulo Henriques Britto_Paulo Sabino

(Na foto, os xarás: Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)
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(Um convite a todos: para a 6ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, em frente ao bar Alquimia, nesta quinta-feira, 27/08, concentração para uns drinques & um bom bate-papo a partir das 19h & as leituras dos poemas a partir das 20h30.)

Aos interessados, vídeo com algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

No vídeo abaixo, este que vos escreve recita dois poemas dos participantes da noite de domingo (02/08), Paulo Henriques Britto & Antonio Carlos Secchin, e, na seqüência, o poeta Paulo Henriques Britto recita os cinco sonetos que compõem a série — nada convencional, e genial, bem sacada — “Até segunda ordem”, de sua autoria.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Credo, poema de Paulo Henriques Britto, e O real é miragem consentida, poema de Antonio Carlos Secchin. Paulo Henriques Britto recita os cinco sonetos da série Até segunda ordem, de sua autoria.)

 

CREDO  (Paulo Henriques Britto)

 

Se cada coisa dada a perceber
impõe a crença em sua forma e peso
e cor, e impinge a supersticiosa
aceitação da causa de ela estar
ali e não noutro lugar qualquer,
e ainda mais – a cega convicção
de que esse estar ali é tão real
quanto o se estar aqui a perceber
e elaborar para consumo próprio
(e momentâneo) uma religião inteira
de cores, formas, pesos, causas – tudo
isso que é necessário crer – então
como exigir de nós, que a cada instante
cremos em tanta coisa, ainda mais fé?

 

(Antonio Carlos Secchin)

O real é miragem consentida,
engrenagem da voragem,
língua iludida da linguagem
contra o espaço que não peço.
O real é meu excesso.

 

ATÉ SEGUNDA ORGEM  (Paulo Henriques Britto)

 

(10 de outubro)

Até segunda ordem estão suspensas
todas as autorizações de férias,
viagens, tratamentos e licenças.
É hora de pensar em coisas sérias.

Deve chegar mais um carregamento
até o dia quinze, dezesseis
no máximo. Fui lá em Sacramento,
mas não deu pra encontrar o tal inglês –

será que alguém errou o codinome?
Confere aí com quem organizou
o negócio todo. Bem, amanhã

a gente se fala, que agora a fome
está apertando. (Ah, o padre adorou
o canivete suíço de Taiwan.)

 

(9 de novembro)

Tudo resolvido. O campo de pouso
até que é razoável. Mas o tal de
Carlão, hein, vou te contar. É nervoso,
não sei; parece que sofre de mal de

Parkinson, ou coisa que o valha. Mas isso
é o de menos. O pior é que o “Almirante”
desde terça tomou chá de sumiço.
Não sei que fim levou; é preocupante.

Chegou a encomenda de Lisboa.
O número é 318.
A senha: “O olho esquerdo de Camões

não vale uma epopéia”. (Essa é boa!)
Não agüento mais ter que jantar biscoito.
No mais, tudo bem. Aguardo instruções.

 

(21 de dezembro)

Sim, recebi a carta do João.
Só que o seu telefonema da sexta
já havia alterado a situação
completamente. É, o Bento é uma besta,

Mas você, também… Nessas horas é que se
vê que falta faz um profissional.
Você nunca vai ser como era o Alex.
Mas deixa isso pra lá. O principal

é que o negócio está de pé, ainda.
O que não pode é pôr tudo a perder
a essa altura do campeonato.

Não diga nada, nada, à dona Arminda.
Toma cuidado. Conto com você.
Aguarde o nosso próximo contato.

 

(12 de janeiro)

Por quê que ninguém me deu um aviso?
Pra que que serve essa porra de bip?
Assim não dá. Que falta de juízo,
de… de… sei lá! Eu lá em Arembipe

Dando duro, e vocês aí de pândega!
O deputado, é claro, virou bicho,
e não vai mais ajudar lá na alfândega.
Meses de esforço jogados no lixo!

E agora? E o alvará do “Três Irmãos”?
E os dez mil dólares do Mr. Walloughby?
Não vou nem falar com o doutor Felipe.

Vocês que agüentem o tranco. Eu lavo as mãos.
Se alguém me perguntar, eu tenho um álibi
perfeito: “Eu estava lá em Arembipe”.

 

(19 de janeiro)

Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,

e àquela moça – a dos “quatorze dígitos” –
o embrulho que ficou com o teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquetes back-up estão comigo.

Até mais. Heroísmo não é a minha.
A barra pesou. Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,

mas deixei um revólver na cozinha,
com uma bala. Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: OS VÍDEOS II
18 de agosto de 2015

Paulo Sabino

(Paulo Sabino.)

Salgado Maranhão e Alexis Levitin

(Salgado Maranhão & Alexis Livitin.)

Adriano Espínola

(Adriano Espínola.)
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Aos interessados, mais alguns vídeos de algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

Abaixo, este que vos escreve na companhia dos mestres Salgado Maranhão & Adriano Espínola, participantes do segundo dia do evento (01/08).

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Paulo Sabino recita Um rio salgado, poema de Carlos Dimuro.)

 

UM RIO SALGADO  (Carlos Dimuro)

Para Salgado Maranhão

 

Apesar de navegar sereias,
não é doce
o rio que corta
o teu poema.

Sabem-se salgados
os escombros que se escondem
sob as escamas da tua escrita.
E o que em ti é peixe,
se debate em guelras e guerras
numa incansável
respiração boca a boca
com a palavra.

A salinidade ancestral
de tuas águas,
refinada pelos deuses,
tempera o profano:
o sagrado no salgado.

No rio que segue
o curso líquido dos mistérios
da linguagem,
um cardume de versos
anuncia o mar.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Salgado Maranhão recita Aboio, poema de sua autoria.)

 

ABOIO  (Salgado Maranhão)

 

Quem olha na minha cara
já sabe de onde eu vim
pela moldura do rosto
e a pele de amendoim
só não conhece os verões
que eu trago dentro de mim.

A vida desde pequeno
sempre cavei no meu chão
da raiz da planta ao fruto
fazendo calos na mão
eu aprendi matemática
descaroçando algodão.

Carcarás, aboios, lendas,
são minha história e destino
tudo que a vida me deu
é tudo que agora ensino
na quebrada do tambor
eu sou velho e sou menino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Salgado Maranhão recita Amorágio II, poema de sua autoria.)

 

AMORÁGIO II  (Salgado Maranhão)

 

Fogo que desata os novelos da vontade. Ignora
o bem, desdenha da verdade. Ponte aérea do
………………………………………………..[Éden
à insanidade. Dança para um circo de anjos
embriagados onde, leão, é também o domador.
Que depois de alçar o trono do esplendor
………………………………………………..[entrega
a própria pele ao caçador.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Adriano Espínola recita Os poetas, poema do romeno Lucian Blaga, tradução de Luciano Maia.)

 

OS POETAS (Lucian Blaga / Tradução: Luciano Maia)

 

Não se espantem. Os poetas, todos os poetas são
um único, indiviso, ininterrupto povo.
Falando, são mudos. Pelas eras em que nascem
…………………………………….e morrem,
cantando, estão a serviço de uma fala perdida
…………………………………….há muito.

Profundamente, através de povos que surgem
…………………………………….e desaparecem,
pelo caminho do coração eles sempre vêm e passam.
Por som e palavra eles se separam e competem entre si.
São semelhantes pelo que não dizem.
Eles calam como o orvalho. Como o sêmen. Como
…………………………………….uma saudade.
Como as águas eles silenciam, caminhando sob
…………………………………….a seara,
e deplois sob o canto dos rouxinóis,
fonte se fazem na clareira, fonte sonora.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Adriano Espínola recita Praia, poema de sua autoria.)

 

PRAIA  (Adriano Espínola)

 

Se tu queres amar,
procura logo o mar.
Ali enlaça o corpo
salgado noutro corpo.

No azul esquecimento
das águas, vai sedento
beber a luz da carne,
o gozo a pino e a tarde.

Tenta imitar a teia
das ondas e marés.
Dança na branca areia.
Outro será quem és.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: OS VÍDEOS
11 de agosto de 2015

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(Os poetas participantes do projeto “Ocupação Poética”: Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin, Alex Varella, Antonio Cicero, Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)
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Aos interessados, alguns vídeos de algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

No dia em que foram feitos estes vídeos, no terceiro & último (domingo, 02/08), com a participação dos grandes Antonio Carlos Secchin & Paulo Henriques Britto, prestei uma homenagem ao maior poeta da língua portuguesa, o imensurável & incontornável português Fernando Pessoa. Recitei três poemas em sua homenagem & um poema de sua autoria sob o heterônimo de Bernardo Soares.

Além da homenagem a Pessoa, esta publicação traz o encerramento do projeto, com o mestre Antonio Carlos Secchin recitando um poema inédito de sua autoria, aprontado especialmente para o nosso recital. Poema de cem versos, todo em redondilha menor (versos de cinco sílabas).

Mais vídeos da nossa “Ocupação Poética” serão disponibilizados neste espaço. É só aguardar.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Dita, poema de Antonio Cicero.)

 

DITA  (Antonio Cicero)

Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando

assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.

Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita

a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita A Fernando Pessoa, poema de Antonio Carlos Secchin.)

 

A FERNANDO PESSOA  (Antonio Carlos Secchin)

Ser é corrigir o que se foi,
e pensar o passado na garganta do amanhã.
É crispar o sono dos infantes,
com seus braços de inventar as buscas
em caminhos doidos e distantes.
É caminhar entre o porto e a lenda
de um tempo arremessado contra o mar.
Domar o leme das nuvens, onde mora
o mito e a glória de um deus a naufragar.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Pessoana, poema de Paulo Henriques Britto.)

 

PESSOANA  (Paulo Henriques Britto)

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita o fragmento 451, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.)

 

451.  (Bernardo Soares – heterônimo de Fernando Pessoa)

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.” Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Antonio Carlos Secchin recita Translado, poema inédito de sua autoria.)

 

TRANSLADO (Antonio Carlos Secchin)

“o lado além do outro lado”

 

Tem um lado com

Tem um lado zen

Tem um lado zoom

Outro desfocado

Tem um lado chão

Outro lado alado

Tem um lado não

Tem um lado vim

Tem um lado voz

Tem um lado mim

Tem um lado algoz

Tem um lado sim

Tem um lado sou

Tem um lado quem?

Tem um lado zero

Tem um lado nem

Do lado de lá

Tem um lado além

Tem um lado lei

Toma então cuidado

Vem para apagar

O teu braseado

Tem um lado solto

Tem lado soldado

Esse lado aí

Te deixa confuso

Pronto pra arrochar

Feito um parafuso

O lado soldado

Me deixa lelé

Me imobilizando

Do pescoço ao pé

Frente à solda dura

Eu virei banido

Preso na armadura

Me senti fundido

Quero me sentir

Desencadeado

Com meu lado em

Tudo quanto é lado, a-

brindo um  contrabando na

Contramão da pista eu

Finjo que sou cego

Pra não dar na vista

Eu procuro enfim

Qualquer endereço

Que não me dê um  nó no

Meio do começo

Tem um lado aquém

Bem descontrolado

Tem um lado assim

Tem um lado assado

Um fermenta ali

Outro deste lado

Tem um lado sem

Mesmo acompanhado

Tem um lado tem

Com mais nada ao lado

No meu lado 1

Não fico à vontade

Ele só me dá o

Dobro da metade

Entre o não e o sim

Não quero o talvez, me-

lhor me embaralhar

Junto com esses três

Tem o lado 3

Lado bem  bacana

Desde que caibamos

Quatro numa  cama

Tem o lado light

Esse me seduz

Pois além de leve

Me cobre de luz

Lá no lado dark

Nada é tão festivo

Mas até no inferno

Eu me sinto vivo

Tem um lado mas

Que chega atrasado

Avisando a mim

Que tudo somado

Só resta a raiz

De um metro quadrado

Todo o resto é lero

Para o boi dormir

Múltiplo de zero

Pra me dividir

Entre o lado bom

E meu  lado B

Entre o aqui e o lá

Fico lá e aqui

Sem saber dizer

Onde vou chegar

Nem tentar saber

Que lado seguir

E neste translado

Eu só quero quem

Queira vir comigo a-

lém do verso 100.

OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES: O EVENTO
4 de agosto de 2015

Poetas Ocupação Poética Cândido Mendes

(Os participantes do projeto “Ocupação Poética”: em pé: Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin, Alex Varella & Antonio Cicero; abaixados: Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)

Ocupação Poética_Plateia 2

Ocupação Poética_Plateia

(Casa cheia — platéia do teatro Cândido Mendes.)

Adriana Calcanhotto e Paulo Sabino

(Na platéia, uma das minhas musas, a cantora & compositora Adriana Calcanhotto.)

Ocupação Poética_Geraldo Carneiro & Paulo Sabino

(Paulo Sabino & um dos grandes mestres da poesia, que estava na platéia, Geraldo Carneiro, rosados.)
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Na primeira foto, o TIMAÇO de poetas escalado para o projeto “OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES” (Ipanema – RJ), acontecido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

Só CRAQUES! Bateram um bolão!

O projeto foi tão bonito, tão emocionado, tudo deu tão certo, que surgiu a idéia (e o mais bacana: a idéia partiu dos próprios poetas participantes!) de fazermos, neste mesmo formato, um fim de semana em SÃO PAULO!

Estou SUPER animado & vou batalhar para que este desejo (de todos nós!) se torne realidade!

Eu sou PURA GRATIDÃO! Só tenho a agradecer a TODOS OS MESTRES que confiaram em mim, de peito aberto, para a coordenação dos saraus, todos EXUBERANTES!

Vamos que vamos, porque, no que depender de mim, levaremos POESIA aos quatro cantos do mundo!

“A poesia sopra onde quer”, versejou Murilo Mendes. E eu concordo plenamente.

(Em breve, videozinhos com algumas leituras.)

Aos senhores, uma das poesias da seleção do poeta Alex Varella, poesia que fez bastante sucesso na sua leitura. E muito divertida, bem-humorada, leve, como foi todo o evento.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(autor: Décio Escobar.)

 

 

VICENTE

 

 

Dei à minha morte o nome de Vicente.
Anotei Vicente num cartão
e guardei Vicente no bolso do paletó.
Para cima e para baixo eu ando com Vicente;
Vicente é um silogismo, uma consumição, mas
não chega a ser a dor.
Encontro Vicente quando vou pegar o ônibus,
o lotação, a entrada para o teatro; Vicente
transita de um bolso para outro,
misturou-se com os meus papéis,
o meu passaporte, a minha identidade, o telefone
da Margarida… o diabo.
Vicente anda amarfalhado, apalpado, usado;
dobro e desdobro Vicente.
Um dia
eu perco Vicente
na rua, na praia, no escritório,
e vai e alguém acha Vicente — e pronto, e eu
fico ETERNO.

OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES
24 de julho de 2015

Antonio Cicero

(Antonio Cicero)

Alex Varella

(Alex Varella)

Salgado Maranhão

(Salgado Maranhão)

Adriano Espínola

(Adriano Espínola)

Antonio Carlos Secchin 6

(Antonio Carlos Secchin)

Paulo Henriques Britto

(Paulo Henriques Britto)
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(Nas fotos, os poetas participantes da “Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes”.)
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Queridos & bem-vindos,

Um convite aos interessados:

A querida amiga Fernanda Oliveira, proprietária & administradora dos cinema & teatro Cândido Mendes (Ipanema – Rio de Janeiro), me procurou dizendo que no fim de semana dos dias 31/07 (sexta), 01/08 (sábado) & 02/08 (domingo), o teatro não terá programação. Para não deixar um fim de semana sem atividade cultural na sala, ela me propôs de eu organizar um sarau com os poetas da minha estima & admiração. A Fernanda me deu carta branca para organizarmos a noite da maneira que quisermos.

Aos senhores, os nomes dos poetas confirmados: Antonio Cicero, Alex Varella, Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin & Paulo Henriques Britto.

(Só tem fera!)

Abaixo, a divulgação criada para a nossa “Ocupação Poética”.

Esperamos todos!
Paulo Sabino.
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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES

 

 

No próximo fim-de-semana, de 31/07 a 02/08, o teatro do Centro Cultural Candido Mendes, em Ipanema, receberá uma Ocupação Poética: sarau com grandes mestres da poesia brasileira contemporânea, acompanhados do poeta Paulo Sabino, que coordenará os encontros e leituras. 

Divididos em três noites, seis importantes poetas – Adriano Espínola, Alex Varella, Antonio Carlos Secchin, Antonio Cícero, Paulo Henriques Britto, Salgado Maranhão – lerão obras autorais, inéditas e consagradas, e também textos de outros poetas, numa conversa descontraída que acabará por revelar ao público a importância, em suas vidas, das leituras escolhidas.

As datas e os participantes:

 

Sexta-feira (31/07)ANTONIO CICERO / ALEX VARELLA

Sábado (01/08)SALGADO MARANHÃO / ADRIANO ESPÍNOLA

Domingo (02/08)ANTONIO CARLOS SECCHIN / PAULO HENRIQUES BRITTO

Coordenação: PAULO SABINO

Sobre os participantes:

Paulo Sabino: Poeta, escritor, e entusiasta da poesia e da prosa poética, desde 2009 mantêm o blog https://prosaempoema.wordpress.com/ , um dos mais lidos da área, onde regularmente se dedica a selecionar e analisar as mais belas obras de autores nacionais e estrangeiros, de todas as gerações e estilos. Paulo Sabino também organiza e promove o Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, que acontece sempre na penúltima 5ª-feira de cada mês.

Adriano Espínola: poeta e professor de Literatura, lecionou na UFC (Universidade Federal do Ceará), na Université Stendhal Grenoble III e na UFRJ. Recentemente lançou “Escritos ao sol”, antologia onde reúne alguns dos melhores poemas de sua obra em uma edição considerada definitiva.

Alex Varella: poeta e filósofo, foi professor de Filosofia da UFF e coordenador de Estética e Teoria da Arte do Galpão das Artes do MAM – RJ. É autor de “Sinais”, “Em Ítaca”, e “céu em cima / mar em baixo”.

Antonio Carlos Secchin: poeta, tradutor, crítico literário e professor, além de membro da ABL (Academia Brasileira de Letras). Tem a sua obra reunida em um volume intitulado “Todos os ventos” e, entre outras coisas, foi responsável pela edição em 2 volumes da obra completa da poeta Cecília Meireles.

Antonio Cicero: poeta, letrista e filósofo, começou compondo com a irmã, a cantora Marina Lima. É autor de 3 livros de poesia, “Guardar”, “A cidade e os livros”, e “Porventura”.

Paulo Henriques Britto: poeta, tradutor e professor de Literatura, leciona na PUC – RJ. É autor de diversos livros de poesia e vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e do prêmio Alphonsus de Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional.

Salgado Maranhão: poeta e letrista, teve suas letras gravadas por grandes nomes da música brasileira. É autor de diversos livros de poesia & com a compilação de sua obra “Mural de ventos” faturou o prêmio Jabuti.

 

SERVIÇO

 

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Sexta-feira (31/07): ANTONIO CICERO & ALEX VARELLA

Sábado (01/08): SALGADO MARANHÃO & ADRIANO ESPÍNOLA

Domingo (02/08): ANTONIO CARLOS SECCHIN & PAULO HENRIQUES BRITTO

Horário: 20h
Entrada: R$ 5,00
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.

ESCRITOS AO SOL: FERA MATINAL
14 de julho de 2015

Convite de lançamento_Escritos ao sol_Adriano Espínola

(Na foto, convite para o lançamento da antologia “Escritos ao sol”, de Adriano Espínola — para ampliar a imagem, basta clicar na foto.)
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Olá Paulo, gostei muito do seu blog, dos poetas e dos poemas. E da sua “proesia”. Legal mesmo, parabéns!  Vamos lá, que “o canto na imensidão/ é ação e movimento”. Grd Abraço.

(Adriano Espínola – poeta & professor)

Olá Paulo! Puxa, o texto que vc escreveu sobre os poemas me emocionou. Vc soube desdobrar em mais e mais poesia as imagens da língua-mãe e do cavalo & o mar. Lindamente. Abração e obrigado, A.

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Língua-mar: o cavalo-marinho & o mar-eqüestre”, com poemas de sua autoria)

Gostei muitíssimo do seu texto-diálogo com o “Elegia 1938”, do CDA! Vertiginoso. Grd Abraço!

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Elegia (1938)”, com poema de Carlos Drummond de Andrade)

 

nesta quinta-feira (16 de julho), a partir das 19h, na livraria da travessa do shopping leblon (rio de janeiro), o professor de literatura & poeta adriano espínola, um mestre da poesia contemporânea brasileira, lança a antologia intitulada “escritos ao sol”, onde o autor reúne alguns dos melhores poemas de sua obra numa edição considerada “definitiva”.

em conversa com o poeta, descobri, para a minha imensa satisfação, que tenho toda a sua obra. e já lhe avisei que levarei ao lançamento todos os meus exemplares para serem autografados, inclusive a antologia, que já tratei de adquirir!

portanto, aos senhores, o convite — acima & abaixo — a um mergulho na poética deste que é um dos maiores poetas da nossa literatura.

salve a poética sempre iluminada de adriano espínola!
salve os seus escritos ao sol!
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Arpoador, manhã 23 de janeiro de 2014

(Manhã no Arpoador, Rio de Janeiro.)
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feito um cão solto, súbito, repentino, inesperado, o sol salta a janela adentro do quarto.

inquieto, agitado, o sol, feito um cão solto, salta a janela adentro do quarto & morde os punhos da rede, derruba a sombra do retrato, lambe o pé sujo lá da parede, fuça a mancha amarela do espelho, late alto & luminoso: “luz! luz!”, e, depois de meter o seu focinho em tudo, se enfia, fiel, no velho par de chinela.

o sol: um cão solto: fera em sua luminosidade violenta.

o sol: um cão solto: uma fera, como também é a cidade lá fora do quarto, presa à alva, presa à clara coleira do novo dia.

um novo dia: a água nova, a água fresca, a água recém-chegada, a água renascida, do dia: o pão, a fruta, a água & a névoa do café: o cheiro, o gosto, o tato ali desperto & posto pelo desjejum, pela primeira refeição do dia, ferindo — deliciosamente — o corpo, que leve aflora na cozinha, enquanto lá fora, o sol, fera em sua luminosidade violenta, a tudo sacia de luz — aurora — e pelas ruas caminha, desnudo em seu pêlo-luz & afeito a quem desejar sua lambida seca a nos molhar de suor.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Escritos ao sol. autor: Adriano Espínola. editora: Record.)

 

 

FERA

Feito um cão solto,
súbito o sol
salta janela
adentro do quarto.

Inquieto, morde
os punhos da rede,
derruba a sombra
do retrato,

lambe o pé sujo
lá da parede,
fuça a amarela
mancha do espelho,

late: luz! luz! —
depois se enfia,
fiel, no velho
par de chinela.

(Como a cidade
lá fora, fera,
na alva coleira
do novo dia.)

 

 

MANHÃ

A água nova do dia,
o pão, a fruta, a névoa
do café,

o cheiro, o gosto,
o tato ali desperto
e posto,

ferindo o corpo,
que leve aflora
na cozinha,

enquanto lá fora
o sol a tudo
sacia

de luz — aurora —
e pelas ruas caminha,
desnudo.

LÍNGUA-MAR: O CAVALO-MARINHO & O MAR-EQÜESTRE
2 de julho de 2014

Cavalo Azul

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a língua em que navego, marinheiro, a língua em que viajo, marinheiro, língua por onde me aventuro no exercício da escrita, a língua em que navego, na proa das vogais & consoantes, na parte dianteira da embarcação que conduz vogais & consoantes, é a língua que me chega, em ondas incessantes, à praia deste texto aventureiro, texto que vai sendo construído ao sabor do acaso, com as palavras (e suas vogais & consoantes) que vão se dando no espaço branco do papel ou da tela.

a língua em que navego é a língua portuguesa, a que primeiro transpôs o abismo & as dores velejantes, no mistério das águas mais distantes (os portugueses foram os primeiros, os pioneiros nas grandes navegações marítimas), e que, agora, me banha por inteiro.

língua de sol, espuma & maresia é a língua portuguesa, língua que a nau dos sonhadores-navegantes (como eu, como tantos) atravessa a caminho dos instantes, atravessa a caminho dos momentos, das circunstâncias, cruzando o bojador de cada dia, cruzando as intempéries de cada dia (o cabo bojador encontra-se na costa atlântica da áfrica & originou mitos, como o da existência de monstros marinhos, por conta do desaparecimento de muitos navios portugueses na região).

ó língua-mar, viajando em todos nós, no teu sal singra, errante, no teu sal singra, errática, no teu sal singra, vária, no teu sal singra, viajante, no teu sal singra, sem bússola, a minha voz.

ó língua-mar, ó língua-pátria (a língua é minha pátria), ó língua portuguesa, a minha voz, sem direção, ao sabor dos ventos, singra o teu mar.

a minha voz, sem direção, ao sabor dos ventos, singra, viaja no mar da língua portuguesa.

a minha voz viaja no mar da língua portuguesa: na praia, um cavalo azul imita o mar.

como se o mar fosse, o cavalo azul, com as crinas espumantes, ondula sobre a areia. o cavalo azul arremessa-se, furioso, contra as dunas.

na garupa de alga do cavalo azul, el-rei dom sebastião, rei de portugal desaparecido em batalha no ano de 1578, encantado, já cavalga com a espada na mão.

veloz, o cavalo azul, que imita o mar, busca asas: mito trespassado de sonhos & sargaços. o cavalo azul, veloz, busca asas, como o mito do cavalo alado (pégaso), mito que representa a imortalidade, o tempo sem fim.

o mar, por sua vez, com suas líquidas patas, cavalga na praia. o mar, com os músculos retesados de maré cheia, com os músculos na sua maior potência (pois a maré, do mar, é a cheia), o mar investe, resfolegante, contra a areia. com as crinas de algas, o mar escoiceia a manhã, o mar dá coices na manhã.

encrespa-se todo o mar, buscando o cavalo, mito ondulado de sal & tempo.

ali, na areia, na praia, os dois — cavalo & mar — se enfrentam: o cavalo-marinho & o mar-eqüestre.

indiferente, o sol assiste à peleja perene das criaturas.

afinal, o mar busca o cavalo azul que, por sua vez, busca o mar: assim, misturam-se, amalgamam-se (mar & cavalo), tornam-se um, na viagem que proponho através da língua que me habita, língua onde construo sonhos & lendas.

(a língua é minha pátria. eu canto, falo, declamo, exponho, penso, logo existo, em língua portuguesa.)

salve a língua portuguesa!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Beira-Sol. autor: Adriano Espínola. editora: Topbooks.)

 

 

LÍNGUA-MAR

 

A língua em que navego, marinheiro,
na proa das vogais e consoantes,
é a que me chega em ondas incessantes
à praia deste poema aventureiro.
É a língua portuguesa, a que primeiro
transpôs o abismo e as dores velejantes,
no mistério das águas mais distantes,
e que agora me banha por inteiro.
Língua de sol, espuma e maresia,
que a nau dos sonhadores-navegantes
atravessa a caminho dos instantes,
cruzando o Bojador de cada dia.
Ó língua-mar, viajando em todos nós.
No teu sal, singra errante a minha voz.

 

 

O CAVALO E O MAR

A Fernando Py

 

Na praia, um cavalo azul
imita o mar.

Com as crinas espumantes,
ondula sobre a areia.
Arremessa-se, furioso,
contra as dunas.

(Na sua garupa de alga,
El-Rei Dom Sebastião,
encantado, já cavalga
com a espada na mão.)

Veloz,
busca asas:
mito trespassado
de sonhos e sargaços.

O mar com suas líquidas patas
cavalga na praia.
Com os músculos retesados
de maré cheia,

investe,
resfolegante,
contra a areia.
Com as crinas de algas,
escoiceia
a manhã.

Encrespa-se todo,
buscando o cavalo:
mito ondulado de sal e tempo.

Ali,
os dois se enfrentam:
o cavalo-marinho
& o mar-eqüestre.

Indiferente,
o sol assiste
à peleja perene das criaturas.