OCUPAÇÃO POÉTICA DE CARA NOVA — LOGOS: GAL OPPIDO/ 13ª EDIÇÃO: TANUSSI CARDOSO
8 de junho de 2018

(Criação: Gal Oppido)

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O projeto Ocupação Poética está de cara nova!

O grande artista plástico & fotógrafo paulistano Gal Oppido enviou ao coordenador do projeto, este que vos escreve, as novas marcas da Ocupação Poética, lindas! Nem sei como agradecer ao Gal a gentileza & generosidade! Muito muito muito obrigado, Gal!

Também agradeço demais ao meu amigo, poeta & tradutor Adriano Nunes a ponte entre mim & Gal Oppido.

Aproveito para anunciar que no dia 18 de junho (segunda-feira), no teatro Cândido Mendes, de Ipanema, temos a 13ª edição do projeto, comemorando os 40 anos de vida literária do super poeta Tanussi Cardoso (na foto abaixo), ao lado de vários amigos que lerão a sua obra. Semana próxima volto ao “Prosa em poema” com mais informações.

Esperamos vocês!

De brinde, um poema rápido & sofisticado do homenageado da próxima edição.

(Notem, no poema, que dentro de “palavra” cabe o substantivo larva — que bicho se abrirá da larva da palavra que lavra o poema?…)

Viva a poesia viva!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Exercício do olhar. autor: Tanussi Cardoso. editora: Five Star.)

 

 

ÓVULO I

 

meu poema
larva:
que bicho se abrirá em
palavra?

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QUARENTA CONTENTE CANTANTE
26 de maio de 2015

Quarenta Contente Cantante_Capa de Gal Oppido

(A capa do mais novo livro do poeta & tradutor Adriano Nunes, criação do artista plástico Gal Oppido.)
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O novo livro de Adriano Nunes mantém o alto nível de qualidade dos anteriores.

(Antonio Carlos Secchin — poeta, professor & membro da Academia Brasileira de Letras)

Ultimamente, de vez em quando me pego repetindo o verso de Brecht: “é verdade, vivo em tempos sombrios”. E enquanto sonhamos com tempos melhores, é sempre uma alegria mergulhar num livro de poemas de um poeta que realmente ama e cultua a poesia commeilfaut. Por isso digo a plenos pulmões: Salve Quarenta Contente Cantante! Salve Adriano Nunes!

(Antonio Cicero — poeta, letrista & filósofo)

Adriano Nunes, um artífice da poesia. Não digo que seja vertiginosa a arte poética de Adriano Nunes, apesar “Das vertigens do amor que me consolam”, título do primeiro poema do seu novo livro, “Quarenta Contente Cantante”. Digo antes que o poeta mede, pesa, sopesa bem as palavras, usa com esmero e rigor diversos e ricos instrumentos da linguagem, para nos oferecer poemas de elevado apuro estético, poético e até, nalguns casos, ouso afirmar, ético. Para uma leitura mais iluminadora, deixo que outros, profundos conhecedores da obra do poeta, e do ofício da poesia, nos indiquem os seus caminhos. A mim fica-me o prazer e honra de ter sido chamado a emitir uma sucinta opinião sobre este seu novo e belo livro de poemas.

Vila Nova de Gaia, Portugal, Maio de 2015.

(Domingos da Mota — poeta & filósofo)

Numa redoma antibárbara do mundo virtual, no meio da mais torpe barbárie, costumo encontrar Adriano, o poeta de báratros e empíreos, o estudioso incansável, o tradutor aceso, o curioso infindo, laboratorista de acasos.

Muito me orgulha sempre que me diz que adoraria ter tido a chance de ser meu aluno. E mais: vivendo nós dois na casa da poesia-amizade, ele diz generoso: “No fundo, creio na humanidade. Por isso escrevo”. Ai de nós se não crêssemos ou se pararmos de crer, lhe digo. Ou melhor: ai do mundo se Adriano Nunes parar de crer.

(Roberto Bozzetti — poeta & professor)
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o primeiro prefácio a gente nunca esquece!

como sabido, o que, até então, eu escrevi para livros de poesia foram releases, que são textos de apresentação de uma obra endereçados à imprensa. texto meu, para integrar a apresentação de um livro dentro do livro, até então eu não havia feito.

até então.

aos senhores, o prefácio que escrevi para o mais novo livro de poesia do poeta & tradutor alagoano, além de querido amigo, adriano nunes, intitulado quarenta contente cantante, a ser lançado pela editora vidráguas, comandada pela querida amiga & professora carmen silvia presotto, na sede da editora da universidade federal de alagoas (Edufal), a partir das 16h, no dia em que o poeta vencerá as suas quarenta primaveras, 28 de maio.

o livro conta, ainda, com orelhas do poeta & professor roberto bozzetti & textos da contracapa do poeta, professor & membro da abl antonio carlos secchin, do poeta & filósofo antonio cicero, e do poeta português domingos da mota.

eu só tenho a agradecer o convite duplo, vindo tanto da carmen como do adriano, para que eu fizesse o texto de apresentação. satisfação imensa.

espero que as minhas linhas despertem o interesse dos senhores da mesma forma que quarenta contente cantante me interessou & comoveu.

beijo todos!
paulo sabino.
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(prefácio do livro: Quarenta contente cantante. autor do prefácio: Paulo Sabino. editora: Vidráguas.)

 

 

Há sempre algo de nós que nos escapa, que nos foge, que nos falta, algo que não conseguimos traduzir exatamente, algo em nós que se deixa entre enigmas & erros. Somos, além do que nos sobra, o que também nos falta. O que nos falta constitui-nos na exata medida do imponderável, do indizível, da possibilidade de. E é assim que o poeta se dá a desejos.

O nada acaba por ser indefinível porque ele pode, na justa medida, tudo. Ao que tudo pode, nada cabe, a indefinição é o que define, o que delimita. É a partir do nada que tudo pode acontecer.

A poesia é a possibilidade de tudo por comprometer-se a nada. Em poesia, tudo pode, tudo cabe, porque nada lhe é impossível.

Neste seu terceiro livro de poesia, Quarenta Contente Cantante, 40 poemas comemorando os seus 40 anos, Adriano Nunes nos brinda com a sua alegria de ser poeta, de cantar a poesia, e com o seu contentamento de fomentar versos & rimas & ritmos, mostrando-nos, assim, as suas tantas possibilidades no ofício: ora com formas fixas clássicas, ora com formas livres, ora com versos brancos, ora com versos livres, os quarenta poemas se dão ao longo do livro tratando de assuntos os mais variados, mas tendo a alegria de ser um cantante como a grande tônica da obra.

Há tristeza & melancolia no olhar do poeta, mas o poeta, da tristeza & melancolia vividas, salva-se nos braços da poesia, salva-se lançando-se aos seus desejos métricos, salva-se lançando-se à arte de arquitetar versos, salva-se lançando-se à música de Pã, salva-se lançando-se às vertigens do amor que o consolam. A poesia, assim, mostra-se como a sua grande amada, a sua musa maior.

O livro é uma aposta no amor (no sentido amplo do sentimento), apesar dos tantos dissabores que o amor acarreta. Apesar das coisas, muitas vezes, não saírem como se deseja, tudo renasce de tudo, ou seja, coisas boas renascem também de coisas insatisfeitas, de coisas inesperadas & indesejadas, e vice-versa. O coração do poeta diz “para”, por tanto sentir, por tanto amar, por tanto doer, por tanto doar, mas, ao invés de parar, o coração alcança o oposto, e dispara: a constatação de que arquitetou, construiu, ergueu, sua vida em versos, e que foi justamente assim que encontrou a felicidade, a alegria, o bem-estar, porque com poesia o seu nó existencial, o seu embaraço de vida, é desatado, é desfeito. Os ardis das sinapses no exercício poético excitam, trazem prazer & gozo. Mesmo as dores de amor, por mais doridas, por vezes se tornam prazerosas porque acabam em versos & rimas & ritmos.

O amor à poesia que o poeta tem exige sempre que se erga um poema/monumento à beleza, porque tudo que o poeta arquiteta, arquiteta, sobretudo, em prol única & exclusivamente da arte poética, ainda que seus sentimentos, os expostos em versos, lhe sejam esdrúxulos & paradoxais.

Na criação poética, toda a atenção às musas: eus a pino, todos os poetas que existem em Adriano Nunes estão a postos, a fim de auscultar o amor, sentimento o mais nobre, capaz de proporcionar inícios sempre. É justamente imerso em si que o poeta vê o verso vingar, vê o verso firmar & fincar. No entanto, alerta: por maior o cuidado & a atenção ao dizer o seu amor em versos, o poeta depara-se com a imensidão do seu sentimento, que, por imenso, não cabe em versos, ou ainda, os versos não conseguem mensurar eficazmente o amor que o poeta sente por aquilo que ama. O poema não diz o tanto do quanto ama o poeta, mas é a arte poética que lhe dá a mão a caminho das máximas realização & felicidade.

Na busca & afirmação da sua poética, Adriano Nunes abre espaço ao seu conhecimento & profunda intimidade com a literatura clássica grega. Por toda a obra, não faltam referências a mitos & histórias da Grécia Antiga. No poema Por beleza, por amor, a história da tomada de Troia a partir do olhar de Páris, príncipe troiano responsável pela destruição da cidade, por optar viver o seu amor por Helena de Esparta, considerada a mais bela das mulheres, casada com o rei Menelau. Páris seduziu Helena, que não resistiu ao seu encanto & à sua beleza & abandonou Esparta, fugindo para Troia. Pelo seu ato de amor, Páris levou sua cidade ao fogo & às flechas. Dá-se, assim, o início da célebre guerra entre gregos & troianos. Em Tolo Proteu, o poeta transmuta-se, transforma-se, em outros, quando pensa, quando sonha, quando sente, ser o grande desejo do seu objeto de desejo. Adriano Nunes transmuta-se, transforma-se, em outros, como Proteu, deus do mar, que possuía o dom da metamorfose, podendo converter-se em tudo o que desejasse: não apenas em animal, mas até em elemento como a água ou o fogo. No poema As moiras, são trazidas aos versos as três irmãs que são a personificação do destino de cada homem na Terra (Átropo, Cloto & Láquesis), responsáveis pelo tempo de vida de cada mortal, que controlavam com a ajuda de um fio que a primeira fiava (Átropo), a segunda enrolava (Cloto) & a terceira cortava (Láquesis) quando decretado o fim da vida. As voltas & surpresas do destino: quando tudo parece alguma coisa constante, alguma coisa estável, tudo pode estar por um fio, por uma linha tênue, tudo pode estar prestes a mudanças inimagináveis – Átropo, Cloto & Láquesis levam o lábil laço.

Também integrando Quarenta Contente Cantante, o primeiro poema – publicado em livro – em língua estrangeira, Poesía! Poesía, uma verdadeira ode, na língua espanhola, a todos os nomes que a arte poética pode receber & a todos os encantos que ela pode despertar.

Adriano Nunes promete, a quem lhe lança o olhar, o gozo do amor & dos versos: o ar com toda cor & nuvens, o áureo arcabouço dos sonhos. E outros tesouros. Pede o olhar do outro para que o seu olhar seja um olhar composto: o amor proposto & entreposto nas lentes do criador & nas lentes do seu leitor, a quem o poeta deseja satisfazer tanto quanto se satisfaz quando elabora suas façanhas de palavras & versos.

Do que resta de tudo que teve o seu astuto fim, interessa a Adriano Nunes resgatar justamente o que lhe é irresistível sempre: a poesia, que ele sabe sentir mais & melhor do que ninguém, as begônias & os bem-te-vis que compõem o seu universo pessoal & lírico, e o vinho bom que ganhou de Dionísio, deus também da inspiração, inspiração que não falta à obra.

Quarenta Contente Cantante é mais um passo à frente na trajetória deste poeta que só faz afirmar-se como uma das grandes & gratas revelações da poesia brasileira contemporânea. Um brinde aos seus quarenta anos contentes! Um brinde aos seus quarenta poemas cantantes!

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(do livro: Quarenta contente cantante. autor: Adriano Nunes. editora: Vidráguas.)

 

 

POR BELEZA, POR AMOR

 

Era apenas uma tarde.
Troia ainda não ardia
Em chamas. Mas algo forte
Meu coração alcançou.
Eu, Páris, filho do rei,
Içado ao infinito vi-me.
Disseram-me ser sim deuses,
Esses que me ergueram à
Função de juiz de lide.
Era apenas uma tarde.
Logo eu, o irmão de Heitor,
Minha cidade entreguei,
Sem saber, ao fogo e às flechas,
Por beleza, por amor.

 

 

AS MOIRAS

 

Quando tudo
Bem parece logo
Quando tudo
Bem parece leme
Quando tudo
Bem parece largo
Quando tudo
Bem parece livre
Quando tudo
Bem parece longo
Quando tudo
Bem parece lindo
Quando tudo
Bem parece louco
Quando tudo
Bem parece leve
Quando tudo

Láquesis, Cloto à Átropos
Levam o lábil laço.

INVADE-ME, Ó VERSO, E A SUA ÁUREA AURORA
17 de março de 2015

Pássaros_Amanhecer
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vem, ó verso, invade-me, toma meu espírito de assalto, põe os teus olhares sobre a minha arte, deixa-me cantar-te, ó verso, dá-me astúcia & dons a fim de elaborar-te.

ó verso, vem sustentar-me com a tua carne, de palavras, metros (metro: medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso) & sons, ó verso, vem confortar-me com teus ares bons. traze-me as sinapses capazes de tudo, capazes de realizar as mais belas proezas em verso (sinapse: local de contato entre os neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra), traze-me, ó verso, os tais tons da felicidade, tons que só a tessitura da tua carne, feita de palavras, metros & sons, é possível de trazer.

(metro: medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso: o primeiro poema da seleção conta com versos de 5 sílabas, também chamados de redondilha menor.)

vem, ó verso, invade-me, toma meu espírito de assalto, põe os teus olhares sobre a minha arte, deixa-me cantar-te, ó verso, dá-me astúcia & dons a fim de elaborar-te: e é assim, dando espaço ao verso na minha vida, que um pássaro festeja a áurea aurora, um pássaro festeja o amanhecer dourado, radiante, em mim, agora. um instante raro, um instante caro, um instante de puro amor.

tudo lá fora, no mundo, a passar, e aqui, dentro de mim, o pensar se cora, o pensamento ganha um colorido, de amor tão claro.

para erato, a lira & o verso imploro (erato: na mitologia grega, uma das nove musas, filha, como todas as suas irmãs, de zeus & mnemósine, a musa da poesia lírica, particularmente a de temática amorosa).

servo do verso (verso & servo formam-se das mesmas letras), e servo canoro, servo melodioso, servo que procura cantar bem, cantar acertado, cantar no tom, moro em ritmos para erigir a voz que adquirira, moro em ritmos para erguer a voz que alcançara, voz poética que procura, acima de tudo, o verso limpo, o verso bom.

que a poesia nunca me falte à boca & que eu sempre possa comparti-la como pão, como o mais nutritivo & saboroso alimento anímico.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antípodas tropicais. autor: Adriano Nunes. editora: Vidráguas.)

 

 

VEM, Ó VERSO, INVADE-ME

 

Vem, ó verso, invade-me,
Põe os teus olhares
Sobre a minha Arte,
Deixa-me cantar-te,
Dá-me astúcias e dons.

Ó, vem sustentar-me
Com a tua carne
De metros e sons,
Ó, vem confortar-me,
Nesta tensa tarde,

Com teus ares bons,
Traze-me as sinapses
De tudo capazes,
Traze-me os tais tons
Da felicidade.

 

 

A ÁUREA AURORA
Para Gal Oppido

 

Festeja um pássaro
A áurea aurora
Em mim, agora.
Que instante raro!

Tudo lá fora
A passar, o
Pensar tão claro
De amor se cora.

Pra Erato a lira
E o verso imploro.
Servo canoro,

Em ritmos moro,
Pra erigir a
Voz que adquirira.

MAS NÃO É SÓ ISSO APENAS
3 de setembro de 2014

Poesia_Aperte Play

Cadernos_Paulo Sabino__________________________________________________________________

o poeta & a sua obstinada busca em realizar, a cada feito, o melhor poema:

a construção se faz pouco a pouco. o esqueleto estético (o esboço do que se pretende um poema) segue o seu trajeto de sol, segue o seu trajeto em busca de luminosidade, de claridade, para ter algum norte, para ganhar o seu rumo de ritmo & sentidos: cimento, tijolos sobre tijolos, e a obra — o poema — projeta-se em seu propósito, evitando a lógica, o óbvio. afinal, a poesia trabalha com o deslocamento da linguagem no seu mais alto grau de perplexidade. a poesia, trabalhando com o deslocamento da linguagem no seu mais alto grau de perplexidade, quer comunicar mas sem facilitar para o leitor. os jogos de linguagem criados nem sempre são palatáveis à gula do entendimento nosso à primeira vista. em muitos casos, o poema solicita diversas visitações, o poema reclama um número incontável de leituras, a fim de uma apreensão mais abrangente do que comunicam os versos.

metáfora por metáfora, metro ante metro (metro: além de unidade de medida de comprimento internacional, é também a medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso, o que garante a forma rítmica de uma obra poética), o ritmo imprevisível dos versos dá-se, assim, por descoberto: eis, finalmente, o poema aprontado pelo poeta.

o prédio de sons & signos — no caso, a construção em versos: o poema — traspassa o indizível, o prédio de sons & signos atravessa o que não é dito, pois tudo que compõe o poema (seus jogos lingüísticos, o prédio de sons & signos) vingará depois que ele for dado à expectativa dos leitores & dos críticos (tudo que se tem a saber de um poema encontra-se apenas no poema, na sua arquitetura de versos & palavras & idéias criadas entre versos & palavras, que leitores & críticos se esforçam para entender, para desvendar, para revelar).

no processo em que se atiram leitores & críticos (o de entender, o de desvendar, o de revelar, a arquitetura de versos & palavras & idéias criadas entre versos & palavras), certo é pintar o edifício — o prédio de sons & signos — com as cores do raciocínio, certo é colorir o edifício — o prédio de sons & signos — com as cores da razão crítica, que é o que nos capacita à atividade de examinar & avaliar minuciosamente uma produção artística, literária ou científica.

a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — aberta, a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — à vista do que pode a prosa, a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — à vista do que pode a arte de desvendar o poema (trabalho que realizo neste espaço): mas não é só isso apenas: a minha voz, a voz de paulo sabino, uma das tantas vozes que se empenham na arte de desvendar poemas, a voz de paulo sabino, que, segundo o poeta, mistério de haver mistério, voz que ao poeta parece misteriosa pelo que diz & cala, a voz de paulo sabino, vinda de anotações dos tantos cadernos de rabisco em que trama as linhas que dão forma aos textos de apresentação aqui dispostos, a voz de paulo sabino, que, ao poeta, é o esforço nítido para divulgar o cosmo imperecível, que vai de cicero a safo, de bandeira a baudelaire.

a voz de paulo sabino: o esforço nítido para divulgar o cosmo imperecível, que vai de cicero a safo, de bandeira a baudelaire: o cosmo imperecível: o universo criado pelas mãos sofisticadas da poesia, universo que nunca morrerá, uni/verso que resiste em versos, inabalável, universo que resiste às intempéries da vida moderna (apressada, superficial, desatenta).

(e, sem dúvida, sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.)

segundo o poeta, a casa, construída por paulo sabino através das suas interpretações textuais acerca dos edifícios de sons & signos que são os poemas, se monta, a casa — construída por paulo sabino — se põe pronta, de pé, e nada parece faltar à peça.

para o poeta, à casa construída & montada por paulo sabino, paralela ao edifício de sons & signos que são os poemas, nada parece faltar, tudo cabe: o ethos (palavra grega que significa, entre outras coisas, o conjunto de valores característicos de um movimento cultural ou de uma obra de arte), o pathos (palavra grega que significa, entre outras coisas, paixão, sentimento excedido), o moto-contínuo (movimento de um mecanismo que, após iniciado, continuaria indefinidamente, gerando, através do gasto de energia, mais energia para o seu funcionamento): o ethos (os valores característicos do poema), o pathos (o sentimento profundo que o poema abarca), o moto-contínuo (o trabalho incessante, ininterrupto, de interpretação do poema): para o poeta, na casa construída & montada por paulo sabino, nada parece faltar; tudo cabe nas interpretações textuais de paulo sabino.

depois das verificações todas, a respeito do trabalho poético & do trabalho de interpretação de um poema, o olhar do poeta se dispersa.

a criação — o poema — se fez pouso, a criação se fez edifício de sons & signos (cujos ambientes procuro habitar, todos de uma vez), e, ao mesmo tempo, a criação — o poema — se fez ponte (construção lingüística que estabelece comunicação com o seu leitor).

o arcabouço estético (o esboço do que se pretende um poema), projetado pelo poeta, chega ao seu percurso de sonho para virar ode (notem a rima que o poeta cria nos dois últimos versos do poema), para virar poema lírico de versos de mesma medida, ode dedicada a paulo sabino, seu companheiro-amigo de jornada poética.

mas não é só isso apenas: o poema projetado pelo poeta é, de fato, uma ode, é, de fato, um poema lírico de versos de mesma medida: tratam-se de redondilhas maiores (os versos possuem todos 7 sílabas, a começar pelo título do poema).

sofisticação pura.

ao poeta, o meu mais sincero & feliz agradecimento por este “presente” poema!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Quefaçocomoquenãofaço. de: Adriano Nunes. autor: Adriano Nunes.)

 

 

MAS NÃO É SÓ ISSO APENAS

 

A construção se faz pouco
A pouco. O esqueleto estético
Segue o seu trajeto de
Sol para ter algum norte —

Cimento, tijolos sobre
Tijolos e logo a obra
Projeta-se em seu propósito,
E evita a lógica, o óbvio.

Metáfora por metáfora,
Metro ante metro, o ritmo
Imprevisível dos versos
Dá-se assim por descoberto.

O prédio de sons e signos
Traspassa o indizível, pois
Tudo vingará depois
Que for dado à expectativa

Dos leitores e dos críticos —
Certo é pintar o edifício
Co’as cores do raciocínio.
A fachada aberta à vista

Do que pode a prosa, a arte
De desvendar o poema —
Mas não é só isso apenas:
A voz de Paulo Sabino,

Mistério de haver mistério,
Anotações no caderno
De rabisco, o esforço nítido
Para divulgar o cosmo

Imperecível que vai
De Cicero a Safo, até
De Bandeira a Baudelaire.
Palavra sobre palavra,

A casa se monta e nada
Parece faltar à peça.
O ethos, o pathos, o moto-
Contínuo, e o olhar se dispersa.

A criação se fez pouso
E ponte. O arcabouço estético
Chega ao seu percurso de
Sonho para virar ode.

LANÇAMENTO DO LIVRO “ANTÍPODAS TROPICAIS”, DE ADRIANO NUNES
20 de maio de 2014

Antípodas Tropicais_Adriano Nunes_Convite

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prezados,

acima, o convite para o lançamento do mais novo rebento do poeta que, desde sempre, desde que conheci a sua poesia (e tornamo-nos amigos ao mesmo tempo), considero o mais importante da minha geração, da geração que começa a despontar na poesia: o meu queridíssimo & amado poeta das alagoas, adriano nunes!

no mês de aniversário do poeta, quem ganha o presente somos nós, leitores de poesia!

adriano nunes lança o seu mais novo livro, intitulado “antípodas tropicais“, pela editora vidráguas, comandada pela querida poeta & mestra carmen silvia presotto, no dia 28 de maio, às 11h, na editora & livraria Edufal, localizada no campus da universidade federal de alagoas, em maceió.

antípodas tropicais” conta com capa do artista plástico gal oppido, prefácio do professor & poeta alberto lins caldas, orelhas do poeta gaúcho & integrante da banda “os poETs” ricardo silvestrin, e textos críticos do poeta, filósofo & letrista antonio cicero, do professor, crítico literário, poeta & membro da academia brasileira de letras (abl) antonio carlos secchin, e do poeta & compositor arnaldo antunes.

abaixo, trechos dos textos escritos pelos poetas acima citados & vídeo com o poeta & compositor arnaldo antunes recitando um poema do livro “antípodas tropicais“, de adriano nunes.

a poesia agradece a chegada de “antípodas tropicais” & eu saúdo a chegada de adriano nunes, o meu poeta das alagoas, na minha vida & na literatura brasileira!

aos interessados em comprar o livro “antípodas tropicais“, entrar em contato com a carmen silvia presotto pelo site vidráguas (http://vidraguas.com.br/wordpress/).

beijo todos!
paulo sabino.
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“Ao ler, em Antípodas tropicais, poemas em que admiravelmente convivem espontaneidade e virtuosismo, invenção e técnica, ousadia e erudição, inteligência e sensibilidade, fiquei feliz de poder não apenas confirmar, mas reforçar, minha convicção de que se encontra, em Adriano Nunes, um poeta contemporâneo que faz juz à melhor tradição da poesia brasileira.”

(Antonio Cicero – poeta, filósofo & letrista)

 

“Se fosse um verso, Antípodas tropicais teria  sete sílabas. E é no andamento do verso curto que Adriano Nunes, neste novo livro, alcança excelentes  resultados. Nele avulta a rigorosa consciência da forma não apenas em seus sinais externos – a  consistente prática do  soneto, por exemplo – mas no domínio rítmico, na amplitude vocabular. Tudo isso, porém, ao largo do mero virtuosismo, pois Adriano conjuga a técnica a um efetivo e intenso temperamento lírico-meditativo, na insaciada  e inestancável  busca do outro, ainda que esse outro resida no próprio eu. A metalinguagem, que em muitos poetas se restringe a receitas domesticadas, em Antípodas tropicais  comparece viva e vigorosa, lançando-se sem cessar  ao ‘precipício de sentidos’,  destinação derradeira de todo poema.”

(Antonio Carlos Secchin – professor, poeta, crítico literário & membro da ABL)

 

“É impressionante a desenvoltura com que Adriano Nunes passeia pelo amplo repertório de formas, sempre com competência e intimidade no trato com a linguagem, mantendo ao mesmo tempo uma voz própria, original, cheia de belos achados.”

“Passeando com intimidade e destreza por diferentes ritmos e tons de discurso – da austeridade clássica à coloquialidade modernista, do metro preciso ao verso livre e deste às experiências mais construtivistas – , Adriano Nunes parece uma síntese impossível entre o poeta lírico e o formalista. De suas rimas raras, aliterações e inversões sintáticas, salta sempre uma surpresa, uma solução imprevista, um deslumbre sonoro-semântico que potencializa a linguagem.”

(Arnaldo Antunes – poeta & compositor)

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(vídeo do site: Youtube. Arnaldo Antunes recita “Noite avulsa“, poema de autoria de Adriano Nunes, integrante do livro “Antípodas Tropicais“, editora Vidráguas.)

MAIS
17 de outubro de 2013

Paulo Sabino_Tem muito azul em torno dele

 

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onda: do mar, meu bem maior. onda: de som, de luz, de magnetismo.

onda: do momento: a vontade, o desejo da hora: desejo de sol, de calor: e o calor é fome; de tudo, mor (maior) é o calor da hora.

sendo o desejo de calor o desejo mor, isto é, o maior desejo, o calor é fome e, sendo faminto, morde tudo, tudo quer, tudo clama.

o verso? bem, o verso quer ver só, o verso quer apenas olhar, entregue à vez (do instante), entregue à voz (do momento), entregue à vida deste mistério, deste singrante segundo, deste segundo navegante, segundo que chega & que passa & onde o desejo é entregar-se ao calor do instante.

entregando-se o poeta ao calor do instante, passa ao segundo passo: passa pra o plano “p” (“p” de ponderação, “p” de palavra, “p” de poesia, “p” de “prosa em poema”, “p” de presente, “p” de “paulo sabino”): sonda o ser do poeta, ronda a sua mente: o nome: paulo. o nome, que lhe é cosmo familiar, que lhe é universo conhecido (dadas a amizade & afinidades que unem o poeta & o nome que lhe sonda o ser, o meu, paulo), sonda o ser do poeta o nome, que lhe é uma espécie de ímã-irmão do signo aceso, ímã-irmão do símbolo luzente (pois o paulo poda palavras na prosa com poesia), sonda o ser do poeta o nome, brasa da alma do agora (o paulo pesa & pondera o presente como a parte primordial do seu papo), sonda o ser do poeta o nome, ponte (o paulo é ponte entre poesia & prosa, o paulo é ponte para palavras).

o poeta põe-se a ver & a ter todo instante, o poeta põe-se a ver & a ter todo presente que o cerca, e justamente por ver & ter todo presente, o poeta põe-se a verter todo instante que o cerca em versos que vai formulando no singrante segundo — segundo navegante, que chega & que passa — ao qual se entrega: na intenção de que seu canto, que diz ser quântico, mínimo, canto que é a sua (grande) poesia, alcance o nome que sonda o seu ser: o nome: o meu: paulo sabino.

adriano nunes, meu poeta das alagoas, ao receber estes seus versos eu só fiz chorar. de alegria. porque eles dizem muito respeito a nós: à nossa amizade, às nossas afinidades, à nossa admiração mútua.

para mim é um luxo sem fim contar com seu talento imenso & sua sensibilidade abissal.

(te amo.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Adriano Nunes.)

 

 

MAIS  –  Para Paulo Sabino

 

Onda. O calor
É fome, mor-
De tudo, tudo
Quer, tudo clama.
O verso? O ver-

So entregue à vez,
À voz, à vida
Deste mistério,
Deste singrante
Segundo: passo

Pra o plano P:
Sonda-me o ser,
Teu nome, cosmo
Familiar,
Ímã-irmão

Do signo aceso,
Brasa da alma
Do agora, ponte.
E o sonho é mais
Adentro e além.

Ponho-me a ver-
Ter todo instante,
Pra que te alcance o
Meu canto quântico,
A poesia.

PÉROLAS PÉRICLES
9 de junho de 2013

Péricles Cavalcanti

 

(Na foto, o poeta-compositor Péricles Cavalcanti.)
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Aos fãs de música & poesia, IMPERDÍVEL!

Diálogo entre Paulo Sabino & um dos MAIORES poetas-compositores do Brasil, PÉRICLES CAVALCANTI:

Paulo Sabino escreve:

 

“Acabei de saber que você deu carta branca para o projeto do Adriano [Nunes], em parceria comigo, de reunirmos todos os seus poemas-canções num livro!

ESTOU EMOCIONADO DE PENSAR QUE FAREI ESTE BELÍSSIMO TRABALHO!

Tô tremendo, tô chorando, tô pulando por dentro, tô sei lá!

Imagina, organizar toda a obra de um dos MAIORES poetas-compositores do Brasil, meu Deus, que HONRA!”

 

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Péricles Cavalcanti responde:

 

“Eu, também, fiquei feliz com isso, querido Paulo. Vamos nessa!!!!
Um beijo, sempre.”

 

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É isso mesmo, senhores! O GRANDE poeta ADRIANO NUNES bolou o projeto de reunir, em livro, todos os poemas-canções do SUPERLATIVO poeta-compositor PÉRICLES CAVALCANTI, livro que será feito com o máximo de rigor, cuidado, carinho & atenção, e me convidou para a empreitada(!).

A obra vai se chamar “PÉROLAS PÉRICLES” & será lançada no ano próximo pelo selo Vidráguas, da GRANDE & QUERIDA amiga professora & poeta CARMEN SILVIA PRESOTTO.

Além de trazer todas as letras do cancioneiro desse EXTRAORDINÁRIO cantor & poeta-compositor (entre elas as aclamadas “Porto Alegre”, gravada por Adriana Calcanhotto & Tulipa Ruiz, “Clariô”, gravada por Gal Costa, e “Elegia”, parceria de Péricles & Augusto de Campos, gravada por Caetano Veloso), o livro “PÉROLAS PÉRICLES” contará com textos críticos (meus & do Adriano), além de depoimentos de artistas & do próprio autor.

Salve a poesia! Salve Péricles! Salve Adriano! Salve Carmen!

Beijo todos!
Paulo Sabino.

INTIMAÇÃO/INSPIRAÇÃO: LANÇAMENTO PARA 2014, PROJETOS & ADRIANO NUNES
29 de maio de 2013

Adriano Nunes e Lêdo Ivo

(Na foto, os poetas Adriano Nunes & Lêdo Ivo, grande entusiasta, quando vivo, da obra do jovem & talentoso poeta.)
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INTIMAÇÃO!

Fui notificado há pouco: em janeiro ou fevereiro do ano que vem, no máximo (ordens expressas do editor – rs!), Paulo Sabino lançará o seu livro de poesia.

A partir de junho (próximo mês), começo a enviar os poemas ao meu editor.

O grande barato de pensar em lançar o meu livro de poesia no início do ano que vem é que o grande responsável pela edição & lançamento será o meu querido & amado & idolatrado amigo, o talentosíssimo poeta Adriano Nunes(!), poeta que, segundo Antonio Cicero (poeta filósofo ensaísta & tradutor de apuro refinadíssimo), “é um dos mais expressivos de sua geração ou de que, livre de amarras, dogmas, ideologias e escolas, Laringes de grafite é um dos mais belos livros de poemas dos últimos tempos”, poeta que, segundo Antonio Carlos Secchin (poeta sofisticadíssimo, responsável, por exemplo, pela organização das obras completas de Cecília Meireles, professor & tradutor de primeiríssima linha, além de membro da Academia Brasileira de Letras), lhe foi “uma bela surpresa, já antecipada no fino estudo introdutório de Antonio Cicero”. E arremata: “Adriano Nunes consegue ser polígrafo num único gênero, desenvolvendo múltiplas vozes e inflexões. Seus textos são réplicas, não pastiches, aos poetas homenageados.”

(Sem contar o que dizem Arnaldo Antunes, Péricles Cavalcanti, Augusto de Campos, e o que disse o poeta Lêdo Ivo, que, quando vivo, foi um grande entusiasta da obra deste jovem poeta.)

O meu livro sairá pelo selo Vidráguas, que opera sob comando & supervisão da grande & querida (salve salve!) poeta, professora & editora Carmen Silvia Presotto.

Eu só tenho a concordar com o que dizem a respeito do Adriano. Sem sombra de dúvidas, se, hoje, me perguntam quem acho ser o maior poeta desta geração que começa a despontar, respondo certeiro: Adriano Nunes.

Adriano Nunes é o poeta com o maior número de recursos lingüísticos que conheço. Ele possui a capacidade ímpar, singular, de transitar por todas as narrativas poéticas brilhantemente: escreve soneto (forma fixa, clássica) com a mesma genialidade que escreve poema concreto (forma livre, moderna) ou os seus poemas de verso livre. Conhece como ninguém os recursos de que dispõe a poesia. Eu fico sempre assombrado com as suas capacidades & muito feliz de sermos contemporâneos.

Por essas razões, me sinto extremamente satisfeito por pensar que o meu livro de poesia terá, como responsáveis, Adriano Nunes & Carmen Silvia Presotto. Um luxo!

E há projetos que desejo tocar & sobre os quais ainda não tratei formalmente com os editores (rs): o lançamento, em livro, de uma edição especial do blog Prosa em poema. Escolherei 5 ou 6 poetas-compositores que integram o PEmP & os seus respectivos poemas-canções analisados. Conseguindo a autorização dos poetas-compositores, lançar, junto ao livro, um CD com as canções, para que os leitores possam ler os meus textos de apresentação & os poemas-canções tendo, junto à leitura, a experiência da música.

E ainda alguns projetos lindos, sobre os quais não posso falar (ordens expressas – rs), todos ligados à poesia, que me deixaram uma ansiedade & vontade danadas de realizá-los.

2013 & 2014 prometem, que bom!

De mimo aos senhores, deixo-os na companhia de 2 poemas que amo (aliás, como não amar todos?), do poeta aqui homenageado, Adriano Nunes, poemas belíssimos, que me traduzem.

Sem mais.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Laringes de grafite. autor: Adriano Nunes. editora: Vidráguas.)

 

 

MERCANTILISMO

 

eu me consumo

sonho
sangro
sinto
surto

um dia
devolvo-me ao mundo

corpo
alma
sombra
sumo

 

 

DO QUE QUER SER CONCEBIDO

 

palavras são para isso,
sim, para inventar
o paraíso.
aprendi
assim
comigo.

prometi tudo
mesmo a mim,
mas menti.
palavras são para isso,
digo, para desafiar
o íntimo.

pronto.
admito:
palavras são para isso,
repito, para cantar
o infinito
do que quer ser concebido.

PROPOSTA
20 de abril de 2013

Balões no céu

 

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a proposta:

esquecer a cicuta, esquecer a culpa.

esquecer o gatilho, esquecer o que for preciso (a culpa que atormenta).

esquecer o salto da ponte — para que ir tão longe?

(ir para lugar que, de tão longe, não se pode mais regressar.)

esquecer o gás cianídrico, o gás que sufoca o dia.

(o dia está tão lindo!)

esquecer os ansiolíticos, esquecer os comprimidos que podem levar a um sono eterno, esquecer o que já foi perdido (afinal, a vida é feita de perdas & ganhos, a vida é, também, perder).

esquecer a navalha a faca a adaga a gilete o canivete.

esquecer o edifício mais alto — os nossos vôos devem ser mais altos que o vôo do edifício alto, vôos libertos na imaginação, nos sonhos.

esquecer o trem que passa rápido — as nossas viagens não devem terminar nos trilhos; estes são o início de tudo.

esquecer o mar, o imenso abismo que é o mar — os nossos mergulhos devem ser os mais profundos nas águas da existência.

esquecer o harakiri (ritual suicida, praticado por guerreiros samurais, como forma de expiar & pedir desculpas pelos erros cometidos) — ainda há tanto o que tecer por aqui!, ainda há tantas tramas, histórias tantas, a serem urdidas no pano da vida!

esquecer a gasolina o querosene o álcool — o nosso combustível deve ser o sentimento de mudanças, sentimento que lance fogo àquilo que traz culpa & a (maléfica) sensação de fracasso.

esquecer a pedra no pescoço, as chantagens, o fim do poço.

esquecer o trinta-e-oito & sua bala nada doce, nada saborosa, bala que, posta na boca, sem dissolver em saliva, dispara um sabor de sangue coagulado. (e a porta que abriu jamais se fecha…)

esquecer a forca, a corda no pescoço, esquecer o fogo (que chamusca & machuca).

pensar mais um pouco, um pouco mais…

para, então, com razão, perceber quão distinta (& vibrante & inédita & única & múltipla & sem chances de repetição) é a vida.

a natureza — coloque-a em sua cabeça.

ponha-me em seu coração.

que satisfação seria para mim, algo sem fim!

depois?

bem, depois de esquecer a cicuta, a culpa, o gás cianídrico, os ansiolíticos, a navalha, a faca, a adaga, a gilete, o canivete, a gasolina, o querosene, o álcool, as chantagens, o trinta-e-oito, o fogo, a corda no pescoço, não esquecer que a vida é mais que problemas, não esquecer que a vida é mais que perdas, não esquecer que a vida é mais que fracassos, não esquecer que a vida é também o bicho a flor a criança, e, sobretudo: não esquecer do filme que estreou sábado, para não chegar atrasado!

a vida são quedas. assim sendo:

reconhecer a queda & não desanimar. levantar, sacudir a poeira & dar a volta por cima.

(resistir é preciso se se pensa em tornar mais solidário este nosso mundo cão.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do blog: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, de: Adriano Nunes. autor do poema: Adriano Nunes.)

 

 

PROPOSTA  –  para Pedro Nava

 

Esqueça a cicuta, a culpa
Esqueça o barbante, as coisas de antes
Esqueça o gatilho, o que for preciso
Esqueça o salto da ponte, pra que ir tão longe?
Esqueça o gás cianídrico, o dia está tão lindo!
Esqueça os mesmos ansiolíticos, o que já foi perdido
Esqueça os tantos comprimidos, os perigos do íntimo
Esqueça a estricnina, a malícia da esquina
Esqueça os barbitúricos, os muros do mundo
Esqueça a navalha, a faca, a adaga, a gilete, o canivete
Esqueça o cloreto de potássio
Esqueça o edifício mais alto
Esqueça o trem que passa rápido
Esqueça o mar, o imenso abismo que é o mar
Esqueça o harakiri, ainda há tanto o que tecer por aqui
Esqueça a gasolina, o querosene, o álcool
Esqueça o lance súbito sobre o movimentado asfalto
Esqueça os cumarínicos
Esqueça as descargas elétricas, para que pressa?
Esqueça a pedra no pescoço, as chantagens, o fim do poço
Esqueça o trinta-e-oito
Esqueça a forca, esqueça o fogo
Pense mais um pouco,
Um pouco mais…
Então com razão, perceba
Quão distinta é a vida, a natureza,
Coloque-a em sua cabeça,
Ponha-me em seu coração…
— Que satisfação
Seria para mim,
Algo sem fim! —
Depois? Nós dois e o cosmo
Mergulhados no mais intenso propósito.
Não se esqueça, Não se esqueça
Do filme que estreou sábado,
Para não chegarmos atrasados

MATANDO A COBRA & MOSTRANDO O PAU
3 de janeiro de 2013

Prêmio BN

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Biblioteca Nacional lança prêmio de literatura para autores VIVOS & o vencedor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.
 
Drummond?? Caramba! Um prêmio, para autor VIVO, recebido pelo Drummond sugere, no mínimo, a descoberta da vida após a morte, correto? Caramba de novo! Alguém me conta: como foi o contato? Mãe Dináh na área? Só espero um convite para uma próxima sessão, adoraria falar com o poeta!
 
Aqui, texto com o que disse o júri:
 
 
“Por que Drummond?
 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu ‘Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62’, da [editora] Cosac Naify, como vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. ‘Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.’
 
Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não — já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. A BN [Biblioteca Nacional] já manifestou que só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente.”
 
 
 E eu, Paulo Sabino, que já escrevi, neste espaço, sobre premiação literária (envolvendo o poeta concretista Décio Pignatari: https://prosaempoema.wordpress.com/2012/12/06/desabafo-acorda-brasil/), concordo (em parte) com o poeta Adriano Nunes:
 
 
“Ora. Ora. Tão absurda a coletiva justificativa como absurda a premiação. O que sinceramente justifica é que os três poetas do júri (diga-se, medianos, com uma poesia já enfadonha e sem acréscimos) optaram (por inveja, claro) não premiar um poeta vivo (mesmo sabendo das regras do concurso) porque é mais fácil e mais óbvio premiar o que já aclamado é.”
 
 
Digo que concordo em parte com o poeta Adriano Nunes apenas porque nunca li nada da poesia dos jurados, de modo que não sei dizer se a poesia deles é enfadonha. Mas, sinceramente: depois desse episódio, VERGONHOSO, não sinto a mínima vontade de ler coisa alguma.
 
O que sei é que o ano de 2012 acolheu uma safra de ÓTIMOS livros de poesia (só para citar alguns): “Porventura”, de Antonio Cicero; “Formas do nada”, de Paulo Henriques Britto; “Sentimental”, de Eucanaã Ferraz; “Céu em cima / Mar em baixo”, de Alex Varella; “Laringes de grafite”, de Adriano Nunes; “Um caderno de capa verde”, de Flávio Morgado.
 
Com tantos LINDOS livros de poesia lançados em 2012, por que a escolha de Carlos Drummond de Andrade (numa premiação especificamente para autores VIVOS)?
 
(Essa é a pergunta que não quer calar…)
 
Acorda, Brasil!