AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: “OBAMA, VENHA COMIGO A CARTAGO”
16 de setembro de 2011

aos senhores,
 
um vídeo com o poeta affonso romano de sant’anna falando do processo de criação do poema “obama, venha comigo a cartago”, do seu mais novo livro de poesias sísifo desce a montanha, cujo release (texto de divulgação para mídia) tive o prazer de escrever a convite da editora rocco.
 
após falar das motivações que o incitaram às linhas poéticas, o poeta declama este seu poema no vídeo.
 
bom proveito!
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do site: Youtube. poema: Obama, venha comigo a Cartago. livro: Sísifo desce a montanha. autor: Affonso Romano de Sant’Anna. editora: Rocco.)
 
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OBAMA, VENHA COMIGO A CARTAGO
 
 
Posso lhe convidar
                                                      para “a cup of coffee
ou se preferir, uma cerveja
                                                              nos jardins da Casa Branca 
como você fez com aquele professor negro e aquele policial
que equivocadamente se atritaram.
 
Mas o melhor lugar pra nosso encontro
                                                                                               — é Cartago.
 
Como dizia Garcia Lorca:
 
            Alli no pasa nada
            dos romanos matam siempre
            três cartagineses.
 
Certamente há lugares mais auspiciosos para se ir
e dialogar. A Cartago
                                                    Massada
                                                                                 ou Numância
se vai para resistir
                                                     — morrer. 
 
Na escola (quem sabe até na Palestina e Bagdá?)
nos ensinam 120 anos de “guerras púnicas”
até que na Terceira
                                                                DELENDA CARTAGO
Roma setenciou.
 
E após três anos de cerco
(como em Stalingrado
quando devorados os cães
já se devoravam os ratos)
fez-se o fiat ao revés:
por seis dias e seis noites hordas de legionários
atravessando arrasados vinhedos e olivais
se revezaram no sucessivo ataque.
 
Só Scipião Emiliano, o mais voraz
não descansava.
Alcançadas as primeiras casas de Byrsa
lançaram tábuas sobre os terraços
                                                                                           e avançavam
enquanto embaixo os estrídulos das espadas e os alaridos
das mulheres desventradas
                                                                         — lembravam My Lai. 
 
A fuga era impossível. Até as figuras imóveis dos mosaicos
se horrorizavam. Como uma lagarta incendiada
a história ardia
                                            como no Vietnam
                                            ardia a pele sob napalm.
 
Foi quando o legionário texano
— indiferente —
disse ao repórter de tevê:
— “I’m doing my job“.
 
E vieram os 10 senadores de Roma
conferir a destruição.
                                                            A pilhagem
foi liberada aos soldados,
mas o ouro, a prata, a oferenda aos deuses
e o petróleo
foram prometidos a outros nobres.
 
Nem Tanit, nem Ba’al
poderiam socorrer Aníbal
e seus 300 elefantes
como não puderam valer
a Asdrúbal — seu jovem irmão
e aos que não mais queriam a guerra.
 
Entre Cartago e Roma
(entre Dido e Enéias)
nunca foi fácil a ambígua relação:
                   O amor sempre rondou a morte
                   A morte sempre rondou o amor.
 
Entendo, enfim, porque os romanos ergueram em toda parte
tantas casas de banho
                             — era muito samgue a lavar.
 
Venha, Obama, passearemos aqui pelas ruínas
das Termas de Antonio Pius.
Não há água, não há chuva que lave
tanto remorso petrificado.
 
Agora, enquanto lhe escrevo, estou em Roma
a dez metros do portentoso Panteão
e olho o crepúsculo tingindo de ouro e sangue
as cúpulas e telhados.
Alguns pombos pousam sobre o templo de Agripa e Adriano
como se saídos da arca de Noé
ou daquele pôster de Picasso.
 
E eu, Romano, que ontem, em Cartago,
fiz o jejum de Ramadan
e cercado de oleandros e jasmins
contemplei a história dos altos jardins de Sidi Bou Said,
venho a Roma
acertar contas com Catão
e toda prole de Scipião o Africano.
 
Você não poderia ficar fora deste assunto, Obama
— “you are the man
E depois do que Catão e Scipião
fizeram no Iraque
temo que a próxima Cartago    
é o Afeganistão.
 
Os símbolos e as ruínas me perseguem.
Olho essa Lua islâmica, aquele alfanje afiando sua lâmina
na crispada torre barroca de Borromini.
 
Temos que conversar, Obama
you are the man 
 
E o melhor lugar, posto que o mais terrível
é Cartago: 
 
                  Alli no pasa nada
                 dos romanos matam siempre
                 três cartagineses.
 

SÍSIFO DESCE A MONTANHA
14 de setembro de 2011

queridos,

 como já anunciado no “prosa em poema”, a editora rocco me pediu o release, que é um texto de divulgação à mídia, para o lançamento do livro inédito de poesias sísifo desce a montanha, do GRANDE affonso romano de sant’anna.
 
abaixo do release, uma seleção poética.
 
boa leitura!
 
beijo todos!           
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(release do livro: Sísifo desce a montanha, de Affonso Romano de Sant’Anna. autor do release: Paulo Sabino.)

O mais novo livro de poesias de Affonso Romano de Sant’Anna – e o primeiro depois de Vestígios, pelo qual ganhou o Jabuti, em 2005 – já no título renova o tema, presente em toda sua obra, da construção da morte dentro da vida. Recorrendo ao mito grego de Sísifo, aquele que conseguiu driblar o seu destino e aprisionar a morte, ousadia pela qual foi condenado ao exaustivo e inútil trabalho de rolar uma grande pedra de mármore ao topo de uma montanha, o poeta explicita o desejo de refletir sobre a passagem do tempo e a finitude. A epígrafe de Clarice Lispector expondo a urgência da “deseroização de si mesmo” fala do trabalho estético e existencial deste poeta.

No percorrer das páginas, Affonso Romano de Sant’Anna aponta os seus múltiplos exercícios de relação e diálogo com o tema e com todas as questões que o cercam: as resoluções acerca da cremação já concebida, as dificuldades em lidar com a morte última, com aquela que nos arrasta a todos para todo sempre, as mudanças no olhar do poeta, no seu modo de enxergar as coisas, e uma certa melancolia.

 Porém, o olhar do poeta, que trespassa a morte, é um olhar que trespassa a vida. O poeta está vivo. Portanto, ainda que a presença da morte como tema seja evidente, o olhar do poeta volta-se e se interessa, sobretudo, pela vida que pulsa em tudo que o rodeia.

A poética de Affonso Romano de Sant’Anna continua afiada e os seus versos evidenciam o mesmo seu olhar atento, olhar arguto, às várias nuances da experiência humana, do seu “estar no mundo”: o olhar crítico e contundente ao tratar das injustiças sócio-econômicas; o olhar conciliador ao chamar o presidente dos EUA, Barack Obama, a um passeio em Cartago para narrar a destruição da cidade e contar que teme que o Afeganistão seja a Cartago dos tempos atuais; o olhar amoroso ao falar do nobre sentimento que cultiva pelos amigos, pela família e por sua mulher, a quem observa pela casa, a regar as plantas, no ritual doméstico de cada dia a fluir na sua passagem; o olhar categórico ao mostrar a sua visão de Deus, onipresente, porém diferente do Deus onipresente criado pelas religiões cristãs; o olhar aventureiro ao narrar o seu fascínio por viagens, pela história das sociedades humanas e os seus grandes acontecimentos; o olhar admirado na observação que faz dos animais, um outro fascínio do poeta, que desde que se pôs a observá-los está à beira do abismo e não para de se extasiar: com gato, com cavalo, com o sapo Alfredo, com a cachorrinha meiga e com os seres que habitam as profundezas marinhas; o olhar apaixonado ao revelar a tirania da musa, afirmando que não há escolha, escreve-se mesmo sem vontade, escreve-se porque não há alternativas: “Escravidão. / Escrevidão”. E pergunta-se: “Poesia: / — alforria? // Ou consentida / servidão?”

Sísifo desce a montanha é um livro cujo tema central é a morte – os medos, as angústias, os enigmas, as inquietações que rondam o assunto. O poema “Véspera” clarifica que não existe quem esteja preparado para a hora última, para a hora derradeira, que ninguém está à espera da morte, que ninguém está realmente pronto para o ponto final. No entanto, como pode (erroneamente) parecer, este não é um livro sobre a morte. Este é um livro sobre a vida, sobre o grande aprendizado que é viver, confirmando a máxima de que, até o último sopro de respiração, o ser humano é um eterno aprendiz. A finitude é uma das grandes questões da humanidade, senão a maior. Sísifo desce a montanhaé um livro sobre a nossa breve existência neste mundo cheio de nuances, gradações e variantes.

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(do livro: Sísifo desce a montanha. autor: Affonso Romano de Sant’Anna. editora: Rocco.)
 
 
 
COMO SE DESCE UMA MONTANHA
 
 
Não é mais fácil
nem menos perigoso
do que subir
                         — é diverso.
 
Se olhados de fora
— os gestos —
podem parecer mais lentos.
 
Para quem desce
ao contrário, a sensação
não é de vertigem
— é complemento.
 
Subir foi demorado
descer
             é outra arte.
 
É como se Sísifo
do outro lado do monte
estivesse.
 
Descer com uma pedra
nos ombros
                        — pode ser leve.
 
 
 
PREPARANDO A CREMAÇÃO
 
 
1
 
Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.
 
O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
                               tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos os poemas.
 
2
 
Faz um belo dia. Do terraço
vejo o mar:
pescadores cercam um cardume
banhistas seguem
se expondo à vida, ao sol.
Olho a trepadeira de jasmim
os vasos de begônia e gerânios
margaridas brancas e a azaléia:
— a vida continua viva dentro
e ao redor de mim.
 
Poetas antes e depois de Homero
tentaram cantar a morte
(Nos consolaram).
Hamlet (cioso)
dialogou com uma caveira
de antemão.
Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.
 
Irei à praia daqui a pouco
mas antes passarei pelo cartório.
 
3
 
Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despedindo dos livros
vizinhos e paisagens.
 
Não sou só eu. Minha mulher
antes de mim no mesmo cartório foi
e ainda mostrou-me o documento.
 
Olho-a neste terraço: lá está ela, viva!
ligada nas plantas e planos. Olho-a:
acabou de fazer um vestido novo.
Como imaginá-la no jamais?
 
Ao lado, o barulho de um túnel que estão cavando:
— é a nova estação do metrô.
Há um alarido de crianças na escola vizinha
e eu saio
                numa esplêndida manhã de sol
para cuidar de minhas cinzas.
Tenho muito que dialogar com a morte
e a vida ainda.
 
 
 
RITUAL DOMÉSTICO
 
 
Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
Somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.
 
Comemos, conversamos
                                                                   (as velas em torno)
elogio a comida surpreendente
que ela sempre faz.
 
Falamos do mundo. De nós mesmos.
Volta e meia, ela diz: “Vou te dizer uma coisa
que só posso dizer para você”
e faz uma revelação, como se abrisse um poema.
 
Calmamente o jantar chega ao fim.
Vou tirando as louças
e começo a apagar as velas uma a uma
enquanto soam os últimos acordes barrocos.
 
Menos um dia, uma noite
                                                                              — a mais.
 
Junto à porta, a cachorrinha
ora deita-se estirada
ora late para o nada.
 
 
 
PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA
 
 
Parem de jogar cadáveres na minha porta.
 
Tenho que sair
                                       — respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeligues.
 
Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos por onde passo.
 
Estou em Essaouira, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas de Diamantina.
 
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra
e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.
 
Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi,
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.
 
Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos campos da Toscana
onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.
 
Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
                                  — na Cidade Proibida na China.
 
Não adianta o clamor de burocráticos compromissos
nem vossa ira. Tenho oito anos
saí para nadar naquele açude atrás dos morros
e vou pescar a minha única e inesquecível traíra.
 
Parem de jogar cadáveres na minha porta
na minha mesa
                                 na minha cama
dificultando
                    que alcance o corpo da mulher que amo.
 
Afastem de mim
                                  o meu
                                                    o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube
o tempo todo
preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
    como um Sísifo moderno
                                                                    desesperado
julgar
          — que o tinha que carregar.
 
 
 
POÉTICA DA RESPIRAÇÃO
 
 
Poderia ficar aqui
como um carpinteiro
(eu sei fazer isto)
aplainando ferozmente
as palavras
(eu posso fazer isto).
 
Mas ao contrário
me interessa mais
o frágil sopro
do monge que
                              imóvel
liga-se ao universo
e é só respiração.
 
 
 
A FALA DE DEUS
 
 
Houve um tempo em que Deus falava hebraico.
 
Passou depois a falar latim
após um rápido estágio pelo grego.
 
Atualmente há quem afirme
que optou pelo inglês
embora em algumas tribos
xamãs se comuniquem com os seus
em incompreensíveis dialetos.
 
Isto apenas prova
que Deus é poliglota.
Se não
porque inventaria a Torre de Babel?
 
Só não entendo porque alguns se apresentam
como seus tradutores e intérpretes
quando ele claramente fala
pela voz dos pássaros e das flores
 
ou quando pela boca das bactérias
destrói (silencioso)
                                          — nossa empáfia verbal.
 
 
 
HIERÓGLIFOS
 
 
Teus olhos contemplam hieróglifos no meu corpo
que tua língua decifra prazerosa.
 
Cleópatra não és,
Íbis não és.
No entanto, abro-te minha alma
como um papiro
e das margens desse leito
transbordo como o Nilo.
 
 
 
OUTRA POÉTICA
 
 
Com os egípcios aprendo
lição milenar:
para o obelisco saltar da pedra
— ou o poema
                              surgir da página
na forma lisa e perfeita —
não basta a força
de instrumentos de metal
(a razão).
É a madeira umedecida
com óleo ou água
(a emoção)
que servida em pontos certos
fará saltar
da página/pedra bruta
o obelisco
— ou poema exemplar.
 
 
 
OBAMA, VENHA COMIGO A CARTAGO
 
 
Posso lhe convidar
                                                      para “a cup of coffee
ou se preferir, uma cerveja
                                                              nos jardins da Casa Branca 
como você fez com aquele professor negro e aquele policial
que equivocadamente se atritaram.
 
Mas o melhor lugar pra nosso encontro
                                                                                               — é Cartago.
 
Como dizia Garcia Lorca:
 
            Alli no pasa nada
            dos romanos matam siempre
            três cartagineses.
 
Certamente há lugares mais auspiciosos para se ir
e dialogar. A Cartago
                                                    Massada
                                                                                 ou Numância
se vai para resistir
                                                     — morrer. 
 
Na escola (quem sabe até na Palestina e Bagdá?)
nos ensinam 120 anos de “guerras púnicas”
até que na Terceira
                                                                DELENDA CARTAGO
Roma setenciou.
 
E após três anos de cerco
(como em Stalingrado
quando devorados os cães
já se devoravam os ratos)
fez-se o fiat ao revés:
por seis dias e seis noites hordas de legionários
atravessando arrasados vinhedos e olivais
se revezaram no sucessivo ataque.
 
Só Scipião Emiliano, o mais voraz
não descansava.
Alcançadas as primeiras casas de Byrsa
lançaram tábuas sobre os terraços
                                                                                           e avançavam
enquanto embaixo os estrídulos das espadas e os alaridos
das mulheres desventradas
                                                                         — lembravam My Lai. 
 
A fuga era impossível. Até as figuras imóveis dos mosaicos
se horrorizavam. Como uma lagarta incendiada
a história ardia
                                            como no Vietnam
                                            ardia a pele sob napalm.
 
Foi quando o legionário texano
— indiferente —
disse ao repórter de tevê:
— “I’m doing my job“.
 
E vieram os 10 senadores de Roma
conferir a destruição.
                                                            A pilhagem
foi liberada aos soldados,
mas o ouro, a prata, a oferenda aos deuses
e o petróleo
foram prometidos a outros nobres.
 
Nem Tanit, nem Ba’al
poderiam socorrer Aníbal
e seus 300 elefantes
como não puderam valer
a Asdrúbal — seu jovem irmão
e aos que não mais queriam a guerra.
 
Entre Cartago e Roma
(entre Dido e Enéias)
nunca foi fácil a ambígua relação:
                   O amor sempre rondou a morte
                   A morte sempre rondou o amor.
 
Entendo, enfim, porque os romanos ergueram em toda parte
tantas casas de banho
                             — era muito samgue a lavar.
 
Venha, Obama, passearemos aqui pelas ruínas
das Termas de Antonio Pius.
Não há água, não há chuva que lave
tanto remorso petrificado.
 
Agora, enquanto lhe escrevo, estou em Roma
a dez metros do portentoso Panteão
e olho o crepúsculo tingindo de ouro e sangue
as cúpulas e telhados.
Alguns pombos pousam sobre o templo de Agripa e Adriano
como se saídos da arca de Noé
ou daquele pôster de Picasso.
 
E eu, Romano, que ontem, em Cartago,
fiz o jejum de Ramadan
e cercado de oleandros e jasmins
contemplei a história dos altos jardins de Sidi Bou Said,
venho a Roma
acertar contas com Catão
e toda prole de Scipião o Africano.
 
Você não poderia ficar fora deste assunto, Obama
— “you are the man
E depois do que Catão e Scipião
fizeram no Iraque
temo que a próxima Cartago    
é o Afeganistão.
 
Os símbolos e as ruínas me perseguem.
Olho essa Lua islâmica, aquele alfanje afiando sua lâmina
na crispada torre barroca de Borromini.
 
Temos que conversar, Obama
you are the man 
 
E o melhor lugar, posto que o mais terrível
é Cartago: 
 
                  Alli no pasa nada

                 dos romanos matam siempre
                 três cartagineses.
 
 
 
NO FUNDO DO MAR
 
 
Desde que me pus a observar os animais
estou na beira do abismo
e não paro de me extasiar.
 
Outro dia desci a 2 mil metros no oceano
e até agora
                                   — não pude regressar.
 
Ali
                 bizarros, violentos
                 e soturnos seres
                 estáticos e deslizantes
se procuram, se perseguem
se destróem no escuro.
 
Chocado, vejo-os na TV.
 
Vivo em terra firme
embora frequente o mar.
 
Deveria estar mais tranquilo
porque os civilizados estabelecem limites
e sinais.
 
Mas meu predador me ilude
e me ataca uma vez mais.
 
 
 
ESCRAVIDÃO POÉTICA
 
 
Escravidão.
Escrevidão.
 
Poesia:
               — alforria?
 
Ou consentida
servidão?

GUERRAS & ASSOMBROS
14 de julho de 2011

_____________________________________________________________________________________________

todas as guerras são estúpidas.
 
todas.
 
todas as guerras são estúpidas: as púnicas, isto é, as geradas por causa de deslealdades, como também as guerras “santas”(?), as urbanas (quando milícias do estado matam pobres nas favelas, sistematicamente), e as contra “o terror”.
 
o real teor do terror é haver guerras no mundo.
 
guerras: diabólicas, todas. mesmo as de libertação.
 
guerras, o que significa: armas, tiros, bombas, pessoas, como eu, como você, mortas, pessoas, como eu, como você, psicologicamente afetadas, perturbadas, e a favor de quem? em prol do quê? 
 
vejamos onde chegamos com tantas guerras, vejamos o estágio em que estamos, o estágio em que o mundo está, vejamos os resultados para os perdedores & para os “vencedores” das guerras travadas mundo afora. (no fundo, acho que todos saem perdendo, e muito.)
 
todas as guerras são estúpidas.
 
as guerras me causam assombros.
 
às vezes, pequenos grandes terremotos ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
 
(fora, ninguém se dá conta.)
 
o paulo sabino volta a sua atenção ao bem-estar existencial. porém, o caminho ao bem-estar existencial contém as suas durezas, as suas dificuldades, as suas fatalidades, o caminho ao bem-estar existencial contém as suas asperezas, contém sentimentos alquebrados, prostrados, fatigados.
 
no caminho para o bem-estar existencial há vários esmagamentos.
 
(a vida me causa permanente assombro.)
 
o grande barato, e mistério, é descobrir como “existir”, e, no existir, como bem viver apesar dos pesares.
 
possuo várias “torres imaginárias” que me auxiliam no cuidado com este meu império sem território a que chamamos: corpo.
 
a poesia, talvez, seja a maior das minhas “torres imaginárias”, torres que servem de proteção ao meu império a que chamamos: corpo, contra os infortúnios mundanos.
 
vamos pensar nelas, nas “torres”, com atenção & carinho, e tratar de erguê-las para que o império sem território, que é onde cabemos, não entre em guerra com o entorno nem tampouco com o próprio império. 
 
o império em briga com o próprio império gera a auto-ruína. 
 
lembrem-se: todas as guerras são estúpidas.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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[do livro: O lado esquerdo do meu peito (livro de aprendizagens). autor: Affonso Romano de Sant’Anna. editora: Rocco.]
 
 
 
GUERRAS
 
Todas as guerras são estúpidas,
não só as púnicas.
Todas as guerras são estúpidas,
inclusive a Guerra das Rosas
e seu despudorado mau cheiro.
Todas as guerras são estúpidas
mesmo as de libertação.
 
Todas as guerras são estúpidas
e os estrategistas, que se crêem cientistas,
são geômetras
                      — da estupidez.
 
 
  
ASSOMBROS
 
Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
 
Fora, não se dão conta os desatentos.
 
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
 
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
 
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro. 

AVISO AOS NAVEGANTES: O TEMPO & A NOSSA MACAU
13 de julho de 2011

benvindos,
 
como vocês devem notar, há algum tempo o “prosa em poema” não recebe publicações novas de acordo com a freqüência habitual.
 
explico-lhes os porquês:
 
um deles, porque estava de férias o mês de junho e parte do mês de julho.
 
o outro, porque recebi a proposta da editora rocco para fazer o release, que é um texto de divulgação que segue à imprensa, de dois dos seus lançamentos: do livro de poesias inéditas do GRANDE affonso romano de sant’anna, chamado exercício de finitude (que afirmo, em primeira mão, que é lindo), e do lançamento dos sonetos da portuguesa, da CÉLEBRE poeta inglesa da era vitoriana elizabeth barrett browning, reunião de poemas românticos sobre sua própria história de amor com o poeta (conterrâneo) robert browning, em tradução do SUPER poeta leonardo fróes.
 
voltei das férias com essas duas funções extras.
 
logo logo a dinâmica do quotidiano regressa ao seu comum, e as publicações mais freqüentes, neste espaço, retornarão.
 
por enquanto, deixo-os com versos (belíssimos) que tratam deste espaço mínimo que é o corpo, território nosso, território mínimo, limitado, mas que mal conseguimos explorar.
 
linhas poéticas que falam do corpo, desta macau sempre à mercê do latejar de um músculo localizado ao lado esquerdo do peito.
 
o reino que é o corpo: “ame-o ou deixe-o” (como dizia um slogan à época da ditadura militar no brasil). 
 
o espaço do corpo: ame-o ou deixe-o. sim, porém: amá-lo, amar esse espaço, pois essa é a única opção que nos resta. a outra é o asco, é a aversão, é o desprezo, e, se optarmos por essa segunda alternativa, a saída (a resolução) é a saída, é o desembarque, é o fim da viagem.
 
nenhum descobridor, nem mesmo o mais ousado navegador, jamais se desprendeu (e algum navegador tentou?) do cais úmido & ínfimo do eu.
 
sigamos nesta desconhecida & fascinante viagem que é: viver!, aceitando as limitações deste território que nos abriga.
 
beijo todos!
(e vamos que vamos!)
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Macau. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
  
II 
 
Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,
 
dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.

QUE PAÍS É ESTE? – AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
30 de abril de 2010

(do livro: Que País é Este?. autor: Affonso Romano de Sant’Anna. editora: Rocco.)
 
 
RAINER MARIA RILKE E EU
 
 
Rilke
 
 
               quando queria fazer poemas
               pedia emprestado um castelo
               tomava da pena de prata ou de pavão,
               chamava os anjos por perto,
               dedilhava a solidão
                                           como um delfim
               conversando coisas que europeu conversa
               entre esculpidos gamos e cisnes
                                                            — num geométrico jardim.
 
Eu
 
 
               moderno poeta, e brasileiro
               com a pena e pele ressequidas ao sol dos trópicos,
               quando penso em escrever poemas
                           — aterram-me sempre os terreais problemas.
               Bem que eu gostaria
               de chamar a família e amigos e todo o povo enfim
               e sair com um saltério bíblico
               dançando na praça como um louco David.
 
Mas não posso,
 
               pois quando compelido ao gesto do poema
               eu vou é pegando qualquer caneta ou lápis e papel
                                                                       [ desembrulhado
               e escravo
               escrevo entre britadeiras buzinas seqüestros salários coquetéis
                                                             [ televisão torturas e censuras
e os tiroteios
                    que cinco vezes ao dia
                    disparam na favela ao lado
 
metrificando assim meu verso marginal de perseguido
que vai cair balido num terreno abandonado.
 
 
CRÔNICA POLICIAL
 
1
 
§.   Ontem três homens duros e armados
      entraram na casa de um casal amigo
      comeram, beberam, violentaram uma visita,
      levaram dinheiro, objetos e saíram em zombaria
            — num carro que largaram no subúrbio da Central. 
 
§.   Ontem a filha de um amigo esperava o ônibus,
      chegou-lhe um mulato forte, que lhe deu um bote,
      levou-lhe a bolsa e o corpo para o matagal
      surrando-a com pedra e pau. E ela morria,
      não conseguisse correr e se lançar na frente de um carro
      que obrigado a parar levou-a ao hospital.
 
2
 
O casal da primeira estrofe e estupro
não foi ao jornal, mas hoje recebeu
outro casal
               seviciado pelo mesmo grupo
que possuiu a mulher grávida
e seqüestrou a empregada como trunfo.
O pai da filha com o rosto destruído
ocultou a notícia com medo
da chantagem e da polícia.
 
3
 
Da minha varanda outrora eu via o mar e a ilha
antes de erguerem armadilhas e arranha-céus
em nossos bolsos e vistas. Crimes, antigamente,
não eram organizada guerrilha. Eram desastres aéreos
que não ocorriam com a gente.
 
Hoje sucedem-me na sala
                               — entre um programa e outro
                         no quarteirão
                               — entre um legume e outro.
Estou no Líbano, na Irlanda, Vietnã, Chicago e Stalingrado.
Há uma batalha em plena rua e o governo não sabe.
Inaugura estradas, deita fala, sem ver que as rodovias
estão cheias de eleitores mortos
                         — e seu discurso, crivado de balas.
 
4
 
Há dias,
            minha filha vindo do colégio
                                                    deu o relógio
a um garoto uniformizado,
                                      mas armado de pau e prego,
como a prima, que entregou o colar na esquina.
À filha menor ainda não assaltaram. Assaltaram-lhe 
a primeira babá na praça. Assaltaram-lhe
a segunda babá na praia
                                    entre ameaças
ao prevenir à turista
para manter sua bolsa à vista.
E da janela onde outrora eu via o mar e a ilha,
mal vejo o meu futuro e os banhistas. Vejo dois homens
correndo escuros da praça para boca da favela,
jogando para o ar uma bolsa amarela.
— É o quinto assalto hoje nessa esquina,
dizem no bar, enquanto entre o capacete e o cassetete
passam tranqüilos
                       os dois policiais peripatéticos do dia.
 
5
 
Minha porta já tem 100 trincos.
Depois de 6 revólveres, comprarei     5 bazucas,
                                                      8 granadas,
                                                    12 miras telescópicas,
embora nada me garanta que não me ponham a porta abaixo
com seus tanques.
 
Fora isto, não sei ainda o que fazer.
Mas não vou ficar aqui como um personagem de Hemingway,
que cansado de fugir
                               se deita velho como um cão
aguardando que me trucidem
                                           a mim, minha família,
e mandem a foto autografada ao Presidente
como sinal da mais alta estima e elevada consideração.
 
 
COMO AMO MEU PAÍS
 
1
 
Com aquela melancolia que ao entardecer
                                                             em Teresina
eu olhava do outro lado do sujo rio
                                                 a vilazinha de Timon,
com a fúria da multidão endomingada martelando caranguejos
entre farofa e cerveja
                              numa praia em Aracaju,
 
com a penitência de quem amassa o barro
que depois vira anjo nas mãos de mulheres de Tracunhaém,
 
com a sordidez marinha do jangadeiro
                                                       em Cabedelo
empurrando a esperança mar adentro
e a repartir a espinha do dia morto sobre a areia,
 
com a cadência magoada do vaqueiro tangido nos seus cornos
a recolher o sal e a solidão
                             nos currais de Minas, em Curvelo,
 
assim
          eu amo este país que me desama.
 
2
 
Deveria deixar de amá-lo como sub ser vivo
                                  e amá-lo ostensivo
                                  num tropel de bandeiras
                                  num estádio de urros
                                  e canções guerreiras?
 
Amo este país
                      como o hortelão cuida e corta
a praga de sua horta
                e parte com seu cesto a bater de porta em porta,
com a resignação do operário
                       abraçado à neblina da marmita,
quando larga os panos e a mulher na madrugada
e sai do café quente de sua casa
e desce nos vagões de medo ao fundo da espúria mina.
 
3
 
Deve haver quem ame o seu país
                                 como quem escarra em casa própria,
                                 coça o saco na calçada,
                                 arrota e palita os dentes,
                                 entorna cachaça ao santo
                                 suando a alma e o corpo
                                 no ébrio espasmo do gol.
 
Uns amam seu país
como o mendigo o seu muro,
como o agiota o seu juro.
 
Outros
         como o domador às suas feras:
                                                  — distância e precisão —
         para evitar que o povo
                                   — lhe arranque o poder da mão.
 
Outros amam seu país
como o carcereiro à prisão,
o lenhador a floresta
e o carvoeiro o carvão.
 
Há quem ame no palco e pista
sem máscaras, expondo as vísceras,
e há quem o ame sonolento
num camarote ou nas frisas 
enquanto o cantor, o cavalo e o jogador
se atropelam numa ópera surrealista.
 
Há quem o ame com o cáustico e sádico amor
com que o gigolô deprava e surra a cansada mulher das madrugadas
ou quem o ame 
                        como a própria mulher
                                    furando seus cartões ao som do sexo
                                    aviltado no metal da orquestra.
 
4
 
Eu, quando posso, 
                            ponho minha alma num carro de bebê 
                            e vou levá-la ao sol da praça. Praça
                            que ninguém mais conheceu
                            que Felipe dos Santos atado
                            à cauda do cavalo, cimentando o chão
                            com o repasto de seu sangue.
 
Fora isto
             com a passividade estrangulada do índio
             carregando as armas do invasor
tenho a ingenuidade e os desperdiçado amor
dos Kreen-Akarores em suas matas
quando viram os berloques e espelhos
                                                        trazidos
pelos irmãos Vilas-Boas
                                    do outro lado do rio.
 
Desde então
eu amo este país
                       — como a prostituta ama a estrada. 
 
 
ARTE-FINAL
 
Não basta um grande amor
                                        para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
                        que o amor da gente.
 
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
 
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
 
                 — quem toma uma por outra
                     confunde e mente.
 
 
AS BELAS FERAS
 
Já me aconteceu mulheres lindas
desabarem inteiras em minha cama.
 
Aturdido, as recolhia com meu verde agrado,
gratificando em mim o carente adolescente,
recolhendo abraços de seus troncos, a solidão da boca
e o uso louco que faziam de meu corpo.
 
Já me aconteceu mulheres feias
— dessas que o homem tem e oculta sempre
desembestarem sôfregas em meus braços
como se fossem as mais belas feras:
 
se achegavam à minha cama como a anta
manca e arredia e, súbito, se alçavam numa esgalga potranca,
e a que era a gata parda desatava pulos de pantera,
e a que tinha tíbias finas de pernalta se convertia
na gazela tensa em gozo na mais alta penedia,
e a gorda ursa era uma lépida tigresa,
e a lerda dromedália a alegre zebra na savana.
 
Não posso me orgulhar. Não era eu que as transformava
num toque de Proteu moderno. Algo mais fundo
de si mesmas retiravam, como num conto
em que a bruxa explodisse os contornos de seu corpo
e em fada se encantasse.
 
O que havia de inseto nelas se entreabria
em patas e antenas, numa flor semimovente
e eu me punha a observá-las espantado
com as lentes de um zoólogo aturdido.
 
— Como pode uma toupeira
tecer a maciez do arminho?
 
— E a capivara ter a ligeireza da garça
e alçar-se em vôo sobre as dobras do meu linho?
 
— Como pode a esquiva foca
com o lerdo dorso e a boca imprópria
abocanhar com presa ágil
intenso gozo no meu corpo?
 
— Como pode uma baleia converter-se em bailarina
e enovelar-se inteira nos meus braços
com a transparência de uma água-viva
no envolvente aquário?
 
Muito me comovem essas feras, mais que as belas,
a mim que já fui feio, índio
residente na floresta disfarçado, envergonhado
ora da pata e do cabelo, ora do chifre e do nariz,
ora da pele e da invisível cicatriz sob o meu pêlo?
 
Me aconteceu mulheres lindas e mulheres feias
trocarem de atributos no meu leito. Já nem mais sei
dos meus prescritos preceitos ou se há conselhos a dar
quando se ama. Só sei que me esqueço de tudo
quando diante delas me desnudo
                                           — no zoológico da cama.
 
 
OS POEMAS QUE NÃO TENHO ESCRITO
 
Os poemas que não tenho escrito
                                                 porque
 
trabalhando num banco me interrompiam a toda hora
ou tinha que ir à venda e à horta
                      — quando o poema batia à pota,
 
os poemas que não tenho escrito
                                                 por temer
descer mais fundo no escuro de minhas grotas
e preferir os jogos florais
                 de uma verdade que brota inócua,
 
os poemas que não tenho escrito
                                                porque
meu dia está repleto de alô como vai volte sempre obrigado
e eu tenho que explicar na escola o verso alheio
quando era a mim próprio
                                     que eu me devia explicado,
os poemas que não tenho escrito
                                                porque gritam
ou cochicham ao meu lado
                        ligam máquinas tocam discos e ambulâncias
passam carros de bombeiro e aniversários de criança
                                   e até mesmo a natureza solerte
se infiltra entre o papel e o lápis
                          inutilizando com sua presença viva
                          minha escrita natimorta,
os poemas que não tenho escrito
                                                                    porque
na hora do sexo jogo tudo para o alto
e quando volto ao papel encontro telefonemas e prantos
a exigência de afetos, planos e reencontros
me deixando lasso o pênis e um remorso brando no lápis
 
esses poemas que não tenho escrito
como um ladrão escapando pelas frestas
ou covarde devorado por seus medos
                                                     e persas
esses poemas que não tenho escrito
                                                      esses poemas
estão lá dentro
                      me espreitando
alguns já ressecados
                               outros ressucitando
outros me acudindo
                             muitos me acenando
                                                            batendo à porta
                                                            — me arrombando
                             me invadindo a sala
                             com falas corretoras
                             enciclopédias e planos
 
esses poemas estão lá dentro
                                            latentes
                                            me apertando
                                            atando
                                            sufocando
e qualquer dia me encontrarão
                                            roxo e acuado
                                            senão boiando e afogado
— numa sangria de versos desatada.

RELEASE “QUE PAÍS É ESTE?” – AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
28 de abril de 2010

benvindos,
 
através da minha GRANDE & QUERIDA amiga danielle borges, fui chamado, a convite da editora rocco, para escrever o release (texto enviado para a imprensa) do relançamento da obra poética “que país é este?”, do magistral poeta affonso romano de sant’anna.
 
o livro foi originalmente lançado na década de 60, período conturbado da política nacional.
 
junto ao texto, solicitaram-me também uma entrevista pequenina para ser feita com o autor. bolei 8 perguntas que ainda não foram respondidas. quando tiver as respostas, a entrevista será devidamente publicada neste espaço.
 
o texto ainda não foi liberado à imprensa, mas a chefia da editora rocco super me liberou de postá-lo no “prosa em poema” quando quisesse. soube que acharam (palavras que me chegaram) “o texto lindo” (rs), que as linhas foram muito bem recebidas. isso muito me alegra, obviamente.
(o relançamento do livro está previsto para o mês de maio.)
 
enfim, segue o release, à apreciação de todos.
espero que também gostem. 
 
quem quiser maiores informações sobre o relançamento do livro “que país é este?”, do affonso romano de sant’anna, deixo aqui o endereço do blog que foi criado pela editora do livro: www.quepaiseesteolivro.wordpress.com   
 
um beijo bom em vocês!
paulo sabino / paulinho.
________________________________________________________________
 
(Texto de apresentação do livro: “Que país é este?”. autor: Paulo Sabino.)
 
Em um dos seus poemas, Eucanaã Ferraz afirma: “O poema ensina a estar de pé. / Fincado no chão, na rua, o verso / não voa, não paira, não levita.”

A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu num poema seu intitulado “Poema”: “A minha vida é o mar o Abril a rua / o meu interior é uma atenção voltada para fora”.

 Seguindo esses preceitos, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, com a sua poesia de pé, fincada ao chão, com o seu interior sendo uma atenção voltada para fora, traça, de maneira lírica, o panorama do Brasil nos anos 60, sob o jugo de uma ditadura militar.
 
Foi um tempo difícil, de desaparecimento de pessoas ligadas à esquerda política, pessoas que se mobilizavam contra o estado das coisas, contra o governo, tempo de torturas veladas, de cassação dos direitos civis, de censura à imprensa e às artes, tempo de exílios.
 
Affonso Romano de Sant’Anna, antena da raça, captava os acontecimentos do seu entorno, os acontecimentos entornados diante das suas retinas atentas.
 
Transforma em poesia, com sofisticação e esperteza, o seu descontentamento com um país autoritário, ditatorial. Daí, a pergunta-título: “que país é este?” Afinal de contas, por todos os problemas, por todas as mazelas, “que país é este?” E faz as suas considerações: uma coisa é um país, outra, um regimento, um aviltamento, um fingimento, um confinamento, ciente de que há 500 anos caçamos índios e operários, queimamos árvores e hereges, estupramos livros e mulheres, sugamos negros e aluguéis.
 
Um país, um aviltamento, um confinamento. O bardo também canta a tristeza de ver sua geração (des)fazendo-se em terços: um terço exilada, outro terço fuzilada e mais um terço desesperada. Canta a sua canção do exílio, a sua desolação de não ter um país, de não comandar a sua vida – em termos políticos. E ironiza o mito do “povo brasileiro” – caracterizado como gentil, alegre, cordato, solícito -, dizendo, com propriedade, que povo também são os falsários, os corruptos, os injustos, os sifilíticos, os artistas, e propondo a complexificação do termo.
 
Dentro do seu balaio poético, cabe o olhar para a violência gerada pelas desigualdades sociais, pelas diferenças econômicas – a miséria material indigna, que transforma homens em seres duros, isto é, em pessoas sem poder aquisitivo que lhes permita diversão e arte, em seres duros, isto é, em pessoas insensíveis, sórdidas, empedernidas, capazes de atrocidades, atrocidades gestadas, nascidas, criadas, das atrocidades que acompanham a miséria material indigna à qual está sub-metida parte (grande) da população brasileira.
 
Ante o quadro debuxado nos versos, Affonso Romano de Sant’Anna, um homem amoroso, nutre, então, pelo Brasil, um amor lúcido, digo, um amor melancólico, um amor triste, ao mesmo tempo em que esse amor é terno, carinhoso, amor “de alma num carro de bebê” que é levada “ao sol da praça”. Amor que verifica todas as falhas e faltas, porém, que não deixa de reconhecer o que existe (e insiste) de saboroso e frutífero neste país, o que acaba por alimentar a alma e a memória de passagens/vivências boas.
 
E como um homem amoroso, um homem que bem sabe amar, “Que país é este?” dedica-se a um belo apanhado de textos devoto ao amor pelas mulheres, sejam elas deusas ou feras que se transmutam em belas quando atiçadas pelos prazeres corpóreos, pelo “amor natural”, como bem intitulou Carlos Drummond de Andrade o amor de deleites em pele digitados – amor dos toques e retoques. Um sentimento delicado, sensível e sexualizado. Um amor de admiração e desejo. 
 
A poética de Affonso Romano de Sant’Anna é calcada, sedimentada, na escrita da existência, na materialidade da vida, nos acometimentos que vão se dando ao seu redor, na realidade à qual se vincula. O poeta estabelece: “É texto tudo o que vejo / é texto tudo o que piso”.

O QUE É POESIA?
9 de abril de 2010

bacanas,
 
o poeta edson cruz, via e-mail, enviou a vários outros poetas uma pergunta que, metaforicamente, é um tiro à queima-roupa, uma pergunta que, ao meu ver, é das mais difíceis, se não, das impossíveis, de serem respondidas:
 
o que é poesia?
 
como não existe uma “regra”, uma “receita”, para o fazer poético, as respostas são as mais variadas.
 
junto à principal, duas outras perguntas que interessam: àqueles que desejam seguir a trilha de escritor / poeta; àqueles que adoram ler, pois os bardos citam 3 poetas e 3 textos referenciais para o seu ofício poético.
 
escolhi cinco poetas dos quarenta e cinco reunidos no livreto. o bom é que posso, no decorrer do tempo, compartilhar com vocês as outras tantas respostas.
 
antes das respostas, parte do texto de apresentação do livro, com o qual concordo inteiramente.

desfrutem os frutos, os furtos poéticos das linhas anunciadas.

beijo terno em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
__________________________________________________
 

 
(trecho do texto de apresentação do livro O que é poesia?)
 
 
POETAS À QUEIMA ROUPA (autor: Edson Cruz)
 
As perguntas mais ingênuas, e legítimas, são sempre as mais espinhosas e difíceis de responder. Quando você pergunta a um marceneiro o que é marcenaria, ele, quase sempre, sorri satisfeito com a possibilidade de discorrer sobre sua arte e, quem sabe, seduzir mais um neófito para seu ofício tão amado. O mesmo pode ser válido para outros artistas, por exemplo, um ator. O que é teatro?, você dispara, e ele mata a bola no peito e ainda faz várias embaixadinhas antes de responder, falastrão.
 
Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os escritores — e, particularmente, os poetas — acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os escritores são os seres mais suscetíveis do planeta. E os poetas, minha turma preferida, são a essência cintilante do que denominamos escritor. E dá-lhe suscetibilidade, pois eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem a antena da raça. E, cá pra nós, muitos realmente o são.
 
(…)
 
A poesia é de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais condensada forma de expressão verbal”, dizia Pound), e não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses.
 
(…)
__________________________________________________________________________
 
(do livro: O que é poesia? autores: Vários. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Calibán.)
 
 
  
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
 
 
O que é poesia para você?
 
Poesia é o espanto transverberado.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
A mesma coisa que qualquer iniciante em qualquer matéria ou profissão. Iniciar sempre, até o fim. Ou, no caso da poesia, desconfiar dos que oferecem a receita da “verdadeira” poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Poetas: O rei Davi, salmista; Camões, o lírico; Drummond.
 
Textos: A Bíblia; cartas e ensaios de Mário de Andrade; Introdução à metafísica de Heidegger.
 
 
 
ANTONIO CICERO
 
 
O que é poesia para você?
 
A poesia é o que faz de um “poema” um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto — em particular, um objeto verbal — algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. “Em certa medida baixa”, afirma ele, “pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão”. É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. E isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do livro IV das Odes de Horácio; o poema “East Coker”, de Four quartets, de T.S. Eliot; “Coração Numeroso”, de Alguma poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia… Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.  
 
 
 
AUGUSTO DE CAMPOS
 
 
O que é poesia para você?
 
De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia?
 
Respondendo à pergunta “o que é música?”, Schoenberg saiu-se com esta historinha:
 
Um cego perguntou ao seu guia: — Como é o leite?
O outro: — O leite é branco.
O cego: — E o que é esse “branco”? Me dê um exemplo de algo que seja “branco”!
O guia: — Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
O cego: — Pescoço curvo? Como é isso?
O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
O cego: — “Ah! agora eu sei como é o leite”…
 
Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
 
Paul Valéry: “Hesitação entre o som e o sentido”.
 
Ezra Pound: “Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para emoções humanas”.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal.
 
Finnegans Wake, de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos.
 
Os Cantos, de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo. 
 
 
 
CARLITO AZEVEDO
 
 
O que é poesia para você?
 
Algo tão generoso que às vezes até se dá ao trabalho de aparecer uma ou duas vezes num bom livro de poemas.
 
Desde a invenção do cinema ela também tem gostado de dar as suas caras na grande tela, principalmente em filmes de René Clair, Jean Vigo, ou naquele, belíssimo, de Jean Cocteau, em que Orfeu, antes de dar o primeiro passo inferno abaixo, em busca de Eurídice, pronuncia as palavras mágicas: “O espelho deveria refletir um pouco mais antes de nos devolver a nossa face”.
 
Hokusai, que sabia do que ela era feita, às vezes a colocava numa onda, num galo, numas mulheres atravessando uma ponte. 
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Sapos de verdade em jardins imaginários, como queria Marianne Moore.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Em primeiro lugar, vou avisando que é uma escolha prospectiva, e não retrospectiva. Em vez de falar do que é uma referência para o que eu fiz, vou falar do que é uma referência para o que eu quero fazer. Ah, e em vez de “explicar” a minha escolha, prefiro “ilustrar” a minha escolha, por isso, cada poeta será acompanhado por um poema de sua autoria. Lembrei agora de uma menina japonesa que vi na exposição de Miró, anos atrás, e que diante do namorado que pedia que ela lhe “explicasse” Miró, pois ele, ao fim da exposição, não tinha entendido nada, respondeu apenas que se ele já tinha visto os quadros e não entendia nada, não adiantava explicar, porque o que ele ia entender era a explicação e não os quadros.
 
Susana Thénon, a notável poeta argentina nascida em 1935, e falecida aos 56 anos. Utilizo aqui a ótima tradução feita por Angélica Freitas e publicada na Modo de usar & co digital:
 
— onde é a saída?
— desculpe?
— perguntei onde é a saída
— não
não há saída
— mas como se eu entrei?
— claro
lembro de você
e além disso a vejo
mas saída
saída não há
viu?
— mas não pode ser
vou sair por onde entrei
— não
já está muito tarde
desde as dez a entrada está proibida
e além disso o que você quer? que me façam uma
lavagem
cerebral
por deixar uma pessoa sair
pela entrada?
— escute
deve haver uma maneira de chegar à rua
— já perguntou em informações?
— sim
mas me mandaram vir aqui
— pois é
e eu estou dizendo que não há saída
— onde é o telefone?
— vai ligar para quem?
— para a polícia
— aqui é a polícia
— mas você está louco? aqui é uma sala de
concertos
— isso até uma hora
depois é a polícia
— e o que vai acontecer comigo?
— depende do delegado de plantão
se for Loiácono
pode te deixar barato
e em menos de alguns dias você está fora
— mas isso é uma loucura
onde estão as outras pessoas?
— setor de detidos
primeiro subsolo
— por que
estão fazendo
isso?
— vamos tia
não me diga que nunca foi a um concerto
 
Frank O’Hara, o incrível poeta norte-americano, morto tão jovem (aqui em tradução da poeta Luiza Franco Moreira que saiu na Inimigo Rumor 9):
 
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
 
é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian,
     [Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em
     [Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja que você parece
     [um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte
     [porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente
     [contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso
     [perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que
     [exista alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como
     [estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós
     [estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando
     [pelos olhos de seus nós
e a exposição de retratos parece não ter nenhum
     [rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se
     [dado ao trabalho de pintá-los
                                                                      olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que
     [para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro polonês que de
     [qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu
     [posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos
     [dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu descendo
     [a escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou
     [Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para
     [ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o
     [cavaleiro tão bem
quanto o cavalo
acho que eles todos deixaram de ter uma
     [experiência maravilhosa
que eu não vou despediçar por isso estou te
     [contando
 
Bertolt Brecht (poema da antologia organizada e traduzida por Paulo César Sousa e publicada pela Editora 34):
 
A DESPEDIDA
 
Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais
 
 
 
RICARDO SILVESTRIN
 
 
O que é poesia para você?
 
Um texto da função poética da linguagem. Ver o meu artigo “Balanço, mas não caio”. Ali, está uma explicação clara e um pouco rápida sobre essa função.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Deve ler boa poesia e bons ensaios a respeito do tema poesia (Roman Jakobson e as funções da linguagem, Haroldo de Campos em A arte no horizonte do provável, Décio Pignatari em Comunicação poética, Octavio Paz no Signos em rotação…). Ou seja, deve se ocupar de ler bons poetas para ver o fazer dos outros e também se ocupar do pensar sobre a arte da poesia, tanto sozinho como acompanhado pelos bons pensadores / poetas / críticos. Também conta fazer cursos e/ou oficinas com bons poetas. Tudo isso para perseguir a criação de, primeiro, um bom poema. Depois, um bom poema que tenha as contribuições pessoais à contemporaneidade e, por último, se conseguir, alguma contribuição à história do gênero poético.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Fiz três trios:
 
Bandeira/ Drummond/ Quintana — esse trio foi o primeiro time que me fez entender o que é um bom poema. Comecei a escrever depois que li o Bandeira. Até hoje, ele é o poeta que mais me encanta. Equilibra invenção, ideia e sensibilidade. Uma boa leitura é essa dos 50 poemas escolhidos, seleção feita por ele, reeditada recentemente pela Cosac Naify.
 
Chacal/ Leminski/ Alice Ruiz — esse foi o segundo trio que me reabriu a cabeça. Com eles, encontrei uma linguagem mais próxima da minha geração e da minha visão de mundo. Ler o Belvedere, reunião de poesia do Chacal, lançada pela Cosac, Dois em um, com os dois livros Pelos pelos e Vice-versos da Alice, lançado recentemente pela Iluminuras, e Caprichos e relaxos, Distraídos venceremos… e tudo o que achar do Leminski. Valem também os ensaios do Leminski, as biografias que ele escreveu de Bashô, Cruz e Souza…
 
Augusto/ Haroldo/ Décio — esse trio chuta a bola para outros campos, amplia a cabeça de qualquer poeta. Ler Viva vaia do Augusto, Não, Despoesia, todos do Augusto, Poetc., Poesia, pois é poesia, do Décio, A educação dos 5 sentidos, do Haroldo. E também vale tudo o que eles lançaram de teoria e tradução.
 
E sobram ainda os simbolistas, com o quarteto Rimbaud/ Mallarmé/ Verlaine/ Baudelaire, sobram Marcial, Bashô, Issa, Ferreira Gullar, Cabral, Emily Dickinson, Benedetti, Borges…

O AMOR NATURAL
26 de fevereiro de 2010

(trecho da orelha do livro: O Amor Natural.)
 
Guardados durante anos, os poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade estão reunidos nesta excepcional coletânea. O Amor Natural é uma obra inquietante, pois revela uma face nova, mais despojada, porém extremamente fascinante, do poeta. São textos repletos de vida e sensualidade, onde o autor se introjeta ao mesmo tempo em que se expõe, desbravando o corpo enquanto busca, na fluidez e sensualidade da linguagem, a própria nudez da alma.
 
Quase todos os poemas encontrados aqui são inéditos, à exceção de uns poucos publicados em revistas eróticas durante a década de setenta. Apesar de muitos deles terem servido de base para uma tese sobre o erotismo drummondiano, o autor optou por guardá-los em segredo, confiando a seus herdeiros a tarefa de publicá-los após sua morte.
 
Embora o senso de humor e a leveza — traços marcantes do estilo do autor — estejam presentes em toda a obra, o elemento mais forte é, sem dúvida, a paixão, a sensualidade à flor da palavra. Como define Affonso Romano de Sant’Anna, as palavras às vezes copulam semanticamente, e o que encontramos nestas páginas é o êxtase poético de um autor que, ao mergulhar fundo em suas próprias sensações, desnuda também o leitor, que se vê frente a frente com suas próprias contradições ao pensar nos limites entre o erótico e o pornográfico, o sexo e o amor.
______________________________________________________________________
 
assino embaixo do texto acima.
 
depois desse livro, drummond, que era já um deus para mim, em mim sobrepôs-se, tornando-se, desse modo, uma espécie de “sobredeus”, qual sobretudo vestido e ajustado: capaz de aquecer, de confortar os sentidos, de aconchegar o bom da libido, o bom do excitante, o bom do corpo, o bom da psique, o bom: o prazer lídimo, legítimo: o amor natural.
  
pois que tudo o que falam os versos conclui o que é: natureza humana, o natural humano.
 
sobretudo: o prazer lídimo, legítimo: o amor natural.
 
sobretudo: drummond.
 
beijo grande em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: O Amor Natural. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
AMOR — POIS QUE É
PALAVRA ESSENCIAL
 
Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
 
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
 
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
 
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
 
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
 
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
 
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
 
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.
 
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
 
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
 
 
A MOÇA MOSTRAVA A COXA
 
                                          Visu, colloquio
                                          Contactu, basio
                                              Frui virgo dederat;
                                                  Sed aberat
                                          Linea posterior
                                               Et melior
                                                    Amori.
                                                               (Carmina Burana)
 
 
A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não me mostrava aquilo
— concha, berilo, esmeralda —
que se entreabre, quatrifólio,
e encerra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea, 
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
sua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o máximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d’alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjôo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo 
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia…
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos 
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta…
 
 
EM TEU CRESPO JARDIM,
ANÊMONAS CASTANHAS
 
Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.
 
 
A BUNDA, QUE ENGRAÇADA
 
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
 
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
 
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
 
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita. 
 
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
 
A bunda é a bunda,
redunda.
 
 
O CHÃO É CAMA
 
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
 
E para repousar do amor, vamos à cama.
 
 
A LÍNGUA LAMBE
 
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
 
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
 
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
 
 
MIMOSA BOCA ERRANTE
 
Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias 
que fruto e boca se permitem, dádiva.
 
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
 
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
 
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
 
 
BUNDAMEL BUNDALIS
BUNDACOR BUNDAMOR
 
Bundamel bundalis bundacor bundamor
bundalei bundalor bundanil bundapão
bunda de mil versões, pluribunda unibunda
                      bunda em flor, bunda em al
                      bunda lunar e sol
                      bundarrabil
 
Bunda maga e plural, bunda além do irreal
arquibunda selada em pauta de hermetismo
                        opalescente bun
                        incandescente bun
meigo favo escondido em tufos tenebrosos
a que não chega o enxofre da lascívia
e onde
a global palidez de zonas hiperbóreas
concentra a música incessante
do girabundo cósmico.
 
Bundaril bundilim bunda mais do que bunda
bunda mutante/renovante
que ao número acrescenta uma nova harmonia.
Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo
o arco de triunfo, a ponte de suspiros
a torre de suicídio, a morte do Arpoador
                  bunditálix, bundífoda
bundamor bundamor bundamor bundamor.
 
 
QUANDO DESEJOS OUTROS É QUE FALAM
 
Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.
 
Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.
 
 
A CARNE É TRISTE DEPOIS DA FELAÇÃO
 
A carne é triste depois da felação.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
e gosma
escorre lentamente de tua vida.
 
 
A OUTRA PORTA DO PRAZER
 
A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.
 
Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
 
 
ESTA FACA
 
“Esta faca
foi roubada no Savóia”
“Esta colher
foi roubada no Savóia”
“Este garfo…”
 
Nada foi roubado no Savóia.
Nem tua virgindade: restou quase perfeita
entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha,
talvez no chão, talvez no teu vestido.
 
O reservado de paredes finas
forradas de ouvidos
e de línguas
era antes prisão que mal cabia
um desejo, dois corpos.
 
O amor falava baixo. Os gestos
falavam baixo. Falavam baixíssimo
os copos, os talheres. Tua pele
entre cristais luzia branca.
 
A penugem rala
na gruta rósea 
era quase silêncio.
Saíamos alucinados.
 
No Savóia nada foi roubado.
 
 
NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL
 
No pequeno museu sentimental
os fios de cabelos religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.
 
Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.
 
Os movimentos vivos no pretérito
enroscavam-se nos fios que me falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.
 
Vou beijando a memória desses beijos.
 
 
O QUE O BAIRRO PEIXOTO
 
O que o Bairro Peixoto
sabe de nós, e esqueceu!
 
Rua Anita Garibaldi
e Rua Siqueira Campos.
(Francisco Braga,
Décio Vilares
nos espiando,
fingem que não?)
 
O calçadão na penumbra
andança que vai e volta 
voltivai
a derivar para o túnel
em busca do hímen?
Volta:
banco de praça. Bambus.
Bambuzal de brisa em ais.
 
O bardo e a garota amavam-se
nas guerras da Dependência.
Seria brinco de amor
ou era somente brinco.
 
5 de Julho (fronteira
do reino escuro)
à face
de casas desprevinidas
jogávamos nos jardins
e nas caixas de correio
volumes indesculpáveis
de alheias dedicatórias
pedacinhos.
 
Se salta o cachorro? Credo.
Saltam quinhentos mastins.
Ganem a traça
de amor sem regulamento.
Prende mata esfola queima.
Viu? É dentro de mim, é dentro
do bardo que estão ganindo.
 
Bobeira de bobo besta.
Passa de nove mil horas,
urge voltar ao sacrário
de virgem.
Só mais um tiquinho. Não.
Sou eu, rei sábio, que ordeno.
Ri. Rimos de mim. Ficamos.
 
Dedos entrelaçados
e desejos geminados
no parque tão pueril.
Praça Edmundo, olá,
Bittencourt de berros brabos.
Se acaso nos visse aos beijos
babados, reincidentes,
protestava no jornal?
  
Menina mais sem juízo
rindo riso sem motivo
no jogo de diminutivos,
sabe o que estamos fazendo?
Amor.
Não é nada disso. Apenas
primícias cálidas. Calo-me.
 
Viajar nos seios. Embaixo.
Por trás.
Se vou mais longe, quem vai
me segurar?
Se fico por aqui mesmo,
quem vem
me resserenar?
 
Passo vinte anos depois
no mesmo Bairro Peixoto.
Ele que a tudo assistia,
nada lembra, no sol posto,
deste episódio canhoto.
 
 
AS MULHERES GULOSAS
 
As mulheres gulosas
que chupam picolé
— diz um sábio que sabe —
são mulheres carentes
e o chupam lentamente
qual se vara chupassem,
e ao chupá-lo já sabem
que presto se desfaz
na falácia do gozo
o picolé fuginte
como se esfaz na mente
o imaginário pênis.
 
 
PARA O SEXO A EXPIRAR
 
Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
 
Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.
 
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, eisvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.
 
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo. 

UMA DOENÇA HUMANA: RELÓGIOS DEMAIS
5 de janeiro de 2010

o tempo, de fato, é uma doença humana, é um deus irrevogavelmente doente.
 
nenhum outro animal, as plantas, os minerais, nada nem ninguém além do homem “entende” o tempo da maneira que o tempo é por nós compreendido.
 
os bichos, os vegetais, os pertencentes ao reino mineral, não se indagam, não se perguntam, não se questionam, sobre o tempo. simplesmente são. e ponto.
 
entender o tempo do modo que pensamos é uma doença, porém uma doença necessária, pois, diferentemente dos outros animais, somos seres imbuídos de razão crítica, não apenas de instintos, e necessitamos — por isso o tempo como doença necessária — dessa razão crítica para transcodificar o mundo, as coisas do mundo, para vivenciá-lo, para usufrui-lo, para pertencer a ele, para fazer parte.
 
tentar viver a vida sem o uso da razão significa a vivência de pleno & absoluto caos.
 
o que, no fundo, enxergo como a parte desnecessária de uma doença mais que necessária é o excesso de controle desse tempo que fundamos. o desnecessário, para mim, é o excesso de relógios. há controle demais, relógios demais, no mundo, dizendo a todo instante as obrigações & compromissos & encontros & reuniões & tarefas & afazeres. muitos relógios, relógios em demasia, ponteiros em todas as esquinas da existência.
 
é preciso um pouco mais de paciência.
 
é preciso um pouco mais de tempo ao tempo.
 
de que vale tanta pressa, tanto corre-corre, nesse tempo açodado, tempo diligente, se sempre chegamos tarde para salvar o outro da bala perdida, do vírus — que corre solto por aí! —, da fome de amor?   
 
atentem a essas questões, pessoas. não se deixem com, não se permitam o equivocado bilhete de vôo para a grande viagem que é: a vida!  
 
beijo em vocês,
o preto.
_________________________________________
 
(do livro: Vestígios. autor: Affonso Romano de Sant’Anna. editora: Rocco.)
 
 
ESTOU DIZENDO PARA ESTA LAGARTIXA
 
Estou dizendo para esta lagartixa
na parede do meu quarto
que o século vai acabar
mas ela não me olha
nem me entende.
 
Já tentei falar com a formiga
com a aranha
fui ao limoeiro da horta
e ninguém liga.
 
Olho os objetos da sala
minhas coisas no escritório (os óculos)
e no quarto (os sapatos).
 
Todos indiferentes.
 
Não estão em pânico
não devem nada
e não têm planos.
 
O tempo é mesmo
uma doença humana.
 
 
RELÓGIOS DEMAIS
 
Há relógios demais nas esquinas do mundo.
Também nas vitrinas
em todos os pulsos
em cada corpo
em cada cômodo da casa
nas repartições aeroportos e hospitais.
Alguns têm rubis
outros são de ouro e diamante
e há os que não obstante a ansiedade do instante
têm os horários vários
em todos os quadrantes.
 
Tantos relógios! 
como se não bastassem
a clepsidra em nossas veias
o relógio do Sol em nossas testas
e os carrilhões da consciência
lembrando que atrasados estamos
com o bilhete equivocado
no vôo
        para a inabarcábel eternidade.
 
Há relógios demais atando
o peito e o pulso
da angústia humana
ruas inteiras vitrinas ostensivas
na Quinta Avenida, Corrientes, na Gran Via de Madrid,
Regent Street em Londres
e nos boulevares de Paris
sem falar nos formidáveis shoppings
de Tóquio e de Pequim.
 
De que valem seus alarmes
e despertadores se
não mais despertamos se
não nos alarmamos
                                       com o horror
que neste instante explode
na dupla face do mundo
e chegaremos sempre tarde
para salvar o outro da bala
do vírus
              e da fome de amor?

SABER-SE UM NÃO SABEDOR 2
14 de dezembro de 2009

pessoas,
 
sobre o fato de sabermos que não sabemos inúmeras coisas, foi publicado um post, o “saber-se um não sabedor”, com um poema-canção sobre o assunto, em 25/11/2009.
 
acho realmente bonita a constatação de sermos eternos aprendizes. essa certeza me causa uma espécie de fome pela vida, fome por viver. adoro aprender, conhecer coisas.
 
(você precisa saber o que eu sei e o que eu não sei — mais. olhos nos olhos: enxergue as nuanças das manobras, as mudanças e tranformações ocorridas no caminho.)
 
e reitero a afirmação, claro: neste breu, neste escuro que é a vida, busco o rumo, sem um ao certo, e vou seguindo, vou insistindo, sigo partindo, capaz de captar sinais, decifrar mensagens que me chegam, daqui e dali, durante as curvas da estrada.
 
viver é bom — partida e chegada!
 
beijo em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(extraídos do livro: Vestígios. autor: Affonso Romano de Sant’Anna. editora: Rocco.)
 
MISTERIOSO CONJUNTO
 
          Me defino como um hombre razonable
              no como professor iluminado
              ni como vate que lo sabe todo.
                                                            Nicanor Parra
 
 
Não sei muitas coisas.
 
Às perguntas que minhas filhas fazem
respondo com dificuldade.
 
Por isto há tempos fujo
da verdade cega e absoluta e admito
certa equivalência
entre o que afirmo
e o outro que nega.
 
Separados ou juntos
somos apenas parte
de um misterioso conjunto.
 
Está cheia de vazios e elipses a nossa fala.
Por nós uma luz cortante passa
nos diversifica
e se dispersa nos objetos mínimos da sala.
 
 
A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI
 
A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.
 
De lá para cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.
 
A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.
 
De lá para cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.