OS GUARDADORES
17 de maio de 2012

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a seguir,
 
versos muito criativos espertos divertidos, que fazem, evidentemente, uma contraposição (bem arquitetada & bem-humorada) aos versos proferidos por alberto caeiro, célebre heterônimo do maior poeta da língua portuguesa, o genial fernando pessoa, heterônimo conhecido por sua poética sempre ligada a uma vida no interior, longe dos centros urbanos, mais perto da natureza, junto a prados & montanhas & flores & pássaros & riachos, heterônimo anti-metafísico, crente numa existência afastada dos pensamentos (o que, segundo caeiro, problematiza & complica as nossas vidas) & intimamente conectada às sensações corpóreas (tato, visão, audição, sabor, fragrância), sensações despertadas pelo convívio com as coisas mundanas (prados & montanhas & flores & pássaros & riachos), autor de um livro intitulado “o guardador de rebanhos”.
 
a seguir,
 
versos que se contrapõem aos de caeiro, mas que, ao mesmo tempo, fazem alusão ao guardador de rebanhos: “o guardador de carros”: um homem da cidade, longe da vida bucólica idealizada junto a paisagens rurais, que transita em meio a carros, ladrões de carros, gorjetas & arranhões na lataria dos veículos.
 
apesar da contraposição “cidade X campo” (o que, por si só, acaba por gerar uma divergência temática), os poemas que formam “o guardador de carros” referem-se diretamente aos poemas reunidos por alberto caiero em “o guardador de rebanhos”, havendo, desse modo, uma aproximação entre os guardadores:
 
o primeiro poema da série do guardador de carros faz menção ao poema IX do pastor português, onde dizem os versos primeiros: 
 
 
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações. 
 
 
o segundo poema do conjunto faz menção ao poema V, um clássico de alberto caeiro, que inicia já com o impactante & conhecido verso:
 
 
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
 
 
o terceiro poema do guardador de autos faz menção ao poema XIV, onde afirma o guardador de rebanhos:
 
 
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
 
 
o quarto poema refere-se a um outro clássico de caeiro, o célebre poema VIII, em que é narrada a vinda, em sonho, do menino jesus (peralta, muito arteiro) à terra:
 
 
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
 
 
e o quinto & último poema do guardador de carros refere-se a um também famoso poema, o de número X, do guardador de rebanhos:
 
 
“Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?”
 
“Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois (…).”   
 
 
deliciem-se com esta saborosa & esperta homenagem do poeta ricardo silvestrin ao grande mestre fernando pessoa, aproveitando para reler (aqueles que já conhecem sua obra) os poemas do pastor português, o que — todos sabem — sempre vale o tempo empregado.
 
(ricardo silvestrin, eis aqui o seu presente de aniversário.)
 
beijo em todos!
um outro, especial, no aniversariante do dia!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
O GUARDADOR DE CARROS
 
 
1
 
Sou um guardador de carros,
e eles são todos meus
no meu pensamento.
Durante as festas e espetáculos,
abandonados por seus donos,
só têm a mim,
o pastor deste rebanho.
Estão bem cuidados,
mas se uma ovelha negra
não dá gorjeta,
o meu cajado arranha.
 
 
2
 
Um carro anda sem metafísica:
um pé no acelerador,
outro na embreagem,
mão esquerda no volante,
mão direita na mudança.
E a cabeça não vai nele.
Vai sozinha
a quilômetros de distância.
 
 
3
 
Nenhum ramo é igual a outro,
mas os carros são feitos em série.
Só daqui de onde estou,
vejo quatro gols pretos
como monótonas rimas.
Mas não sou poeta.
Sou arrimo.
 
 
4
 
Meninos Jesus voltou à Terra,
e eu lhe ensinei a guardar carros.
“Tá bem cuidado, tio” — ele disse,
escondendo os pregos das mãos.
 
 
5
 
“Olá, guardador de carros!”
São os ladrões se aproximando.
“Nunca guardei carros”,
eu respondo.
“Estou aqui como os postes e as árvores.
Não vejo, não ouço, não penso.
Sem falar numa grande vantagem:
posso correr como o vento.”

PENSANDO DEUS (2)
8 de fevereiro de 2011

há metafísica bastante em não pensar em nada.

afinal, a experiência mundana, a vivência humana a partir do convívio com as coisas mundanas, é o que nos faz, por exemplo, pensar a metafísica.

a experiência humana é uma vivência mundana.

portanto,

há metafísica bastante em não pensar em: nada.

(o silêncio puro, o oco absoluto.)

(não é necessária a existência de qualquer divindade para que a metafísica seja pensada; o “nada” é já transcendência: transcende a experiência do homem, inerente à alteridade, intrínseca ao contato com as coisas do mundo.)

(é bom lembrar: o caráter da identidade é formado a partir do caráter da alteridade. ou seja: reconhecendo o que nos é diferente, formamos a nossa própria identidade.)

há bastante metafísica quando pensamos o nada.

o mistério da existência?

o mistério das coisas?

mistério?

(o único mistério é haver quem pense  no mistério.)

o mundo é um exterior de coisas.

no mundo, as coisas apresentam-se cotidianamente, às nossas vistas.

que mistério haveria em coisas que se apresentam quotidianamente?

metafísica? que metafísica têm as árvores?

a de serem verdes, copadas, de terem ramos, de darem frutos à sua hora?

isso não nos faz pensar que não sabemos dar por elas. ao contrário. sabemos dar por elas muitíssimo bem: são verdes, copadas, têm ramos, e dão frutos à sua hora (rs).

mas que melhor metafísica que a delas, imersas no: nada (no silêncio absoluto, no oco profundo): não sabem para que vivem, e nem sabem que o não sabem (rs)!

“constituição íntima das coisas”, “sentido íntimo do universo”: o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum.

não acredito em deus porque nunca o vi.

sem dúvida, se ele quisesse que eu acreditasse nele, como tudo no mundo, ele apresentar-se-ia a mim, dizendo-me: aqui estou!

isto, talvez, soe “ridículo” aos ouvidos de quem não sabe olhar para as coisas, e que, por conseguinte, não compreende quem fala delas (das coisas mundanas) com o modo, com o jeito, com a maneira, de falar que ensina o fato de repará-las amiúde, que ensina o fato de admirá-las por tanto mirá-las (as coisas mundanas).

(atenção aguda, atenção alarmada, ao olhar.)

contudo,

se o que se intitula deus é as coisas mundanas, ou seja, se o que se pensa deus é as coisas existentes no mundo: flores & árvores & montes & sol & luar & mar, então acredito nele a toda hora, e a minha vida é toda uma oração & uma missa.

e porisso eu obedeço-lhe, obedeço a deus, obedeço-lhe a viver, espontaneamente, apostando nas minhas verdades, e chamo-lhe como ele mesmo quer: flores & árvores & montes & sol & luar & mar, e amo-o sem pensar nele, e penso-o vendo & ouvindo, e ando com ele a toda hora.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas completos de Alberto Caeiro. autor: Alberto Caeiro, heterônimo de: Fernando Pessoa. editora: Nova Fronteira.) 

 

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das
[árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

A NOITE ÚLTIMA & DESCONHECIDA
1 de fevereiro de 2010

senhores,
 
o tema tratado pelos poemas que seguem é um tanto indesejoso. e eu entendo que o seja. realmente, a perda não é algo fácil. principalmente quando se trata de uma perda irreversível. é um universo que se vê extinto, fora de órbita, impossibilitado de regresso.
 
é duro perder referência tão importante, tão significativa. eu bem sei (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/12/01/meu-pai-como-vai/).
 
todavia, acho um exagero o modo como é rechaçado tal fato. como se fosse uma desnatureza, um acontecimento extraordinário, incomum. pânico & paúra excessivos da única coisa que se tem certa na existência: o silêncio eterno, a porta por onde se entra e nunca se retorna, a fratricida do amor, o não-espaço: a morte.
 
há homens que, por medo da vida, matam, assassinam a morte. preferem levar uma existência inteira construindo a morada celeste ao invés da morada terrena. esquecem que existe um tempo a ser vivido, a ser usufruído, e se enterram antes da fatídica hora. 
 
vamos aceitá-la, sabendo-a irrevogável, tratando o assunto de modo mais natural; naturalizar a questão nos nossos discursos, torná-la mais palatável. ao final, todos, afinal, vamos para o mesmo não-lugar, onde não mais importarão as nossas preferências.
 
(é preciso ser de vez em quando infeliz.)
 
se pusermos a morte no seu devido lugar, teremos um mundo inteiro para percorrer, sem maiores pertubações & preocupações (preocupações & pertubações, ao meu ver, totalmente desnecessárias).
 
eu aprendi: o dia mais longo do homem dura menos que um relâmpago.
 
portanto: voltemos as nossas preocupações à vida. 
 
eu não quero a morte, só saúde & sorte. entretanto, não me furto da questão.
 
a vocês: o melhor, sempre!
 
por essa razão, por querer o melhor para vocês — e para mim, é claro —, selecionei textos de três GRANDES poetas, que falam desta noite última & desconhecida que, um dia, nos cobrirá a todos.
 
beijo e o desejo de saúde & sorte para nós!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Réquiem. autor: Lêdo Ivo. editora: Contra Capa.)
 
 
I
 
AQUI ESTOU, À ESPERA DO SILÊNCIO.
 
Diante do estaleiro apodrecido
só vislumbro o estilhaço
que sobrou das iluminações.
Como todas as sobras, ele traz a marca
das coisas escondidas para sempre
ou dos seres sepultados no alto das dunas;
como as letras gravadas a fogo
na anca de um cavalo roubado por um cigano, ou
                                                  um sinal de nascença
no quadril bem-amado.
 
Agora a noite desce para sempre.
Meu olhar fatigado segue a canoa
que se afasta dos manguezais.
Uma luz na restinga. Um caranguejo na lama.
E a vida se evapora com as almas
no céu que não abriga nenhum deus.
Todas as paisagens que vi se esfarelaram
nos postais corroídos. E a unha suja, trajada de negro,
toma o espaço da mão antiga. As portas sucessivas
das docas que armazenavam réstias de cebola e sacos de açúcar
se encolhem na escuridão, reduzidas a uma única porta
refratária ao clarão da aurora.
 
Na Barra de São Miguel, diante do mar,
só agora aprendi:
o dia mais longo do homem
dura menos que um relâmpago.
O tempo não será mais celebrado
entre as constelações.
O céu e a terra vão sumir
na cinza desapontada
dos amanhãs roubados pela morte.
E tudo o que amei se dissolve.
A nuvem escarlate pousa brandamente
entre as casas de taipa e o mar rasgado pelas ondas.
 
Chegou a hora de dizer adeus à água negra
que marulha na treva da laguna
e ao vento planetário que seca os peixes
pendurados nos varais das palhoças
e ao mar caeté que se abriu
diante das falésias de minha pátria perdida.
 
A eternidade passa como o vento.
Só o tempo é eterno. Sempre estive aqui
no meio do meu povo dizimado,
e minhas mãos armaram além das dunas
a dourada fogueira antropofágica
do assombroso festim. Uma noite de cinzas
sucede agora ao clamor e à alegria.
O mar apaga todos os naufrágios
e todo fogo se extingue, todo fogo dourado
se alastra e se apaga no silêncio do mundo.
 
Aqui, no lugar de água e terra dos meus nascimentos sucessivos,
minha sombra vagueia entre os escombros
dos navios perdidos ou sonhados.
E busco em vão, nas águas ofendidas,
a castidade da água clara e intacta
que aflora no mar ao rebentar da aurora
no coração da noite emudecida.
 
Ó porta prometida ao consolo da vida,
após tanta imundície e após tanto esplendor!
Nesta noite final, as fogueiras celestes
queimam toda esperança e sepultam na cinza
os sonhos insensatos das almas terrestres
e o estertor que suprime qualquer paraíso.
 
Na noite crematória, a morte é uma fogueira.
 
 
II
 
ALÉM DO FRIO E DO CALOR
e das baratas impetuosas que se espalham como pétalas
no celeiro abandonado
e dos sinos funerários na manhã da infância
e das luzes oscilantes dos caminhões que atravessam
                                                         lentamente os canaviais
espantando os guaxinins
além das cestas abertas como corolas
para recolher a sobra do dia mutilado pelos ódios e guerras
longe dos ninhos caídos no chão de inverno
e das águas dessas chuvas obstinadas que desaparecem subitamente
                                                          na grande mesa do mar
                                                          rudimentar
e das leves luas límpidas que regem a passagem das curimãs
há um não-lugar que dispensa a súplica e a esperança
e enxota a solenidade e a reverência.
 
Além dos sonhos visitados pelo mar impaciente
e do escuro fétido das cloacas e da claridade solar
em que nos movemos aturdidos
como as moscas estonteadas pelo calor do verão
um não-espaço nos espera. O dia
coleia entre as horas que se abrem para a paisagem como janelas.
O barulho do mundo atinge a orla do mar
e rodeia terraços de sal e traiçoeiros recifes de mariscos e
                                                      lagunas de açúcar.
 
Além da realidade, há outras realidades
que se desdobram como degraus. Nossos passos
sobem e descem a escada, no dia admirável
e na noite branda.
São como sonhos tributários de outros sonhos
ou janelas abertas para o mar.
Não sabemos onde estamos. Não sabemos o que somos.
Nada sabemos, a não ser que há uma noite
pura e vazia à nossa espera. Uma noite intocável
além do fogo e do gelo, e de qualquer esperança.
 
Com a sua mão sinistra a morte esmaga
nossos sonhos de insetos deslumbrados
e entorna a alvura da água contida no vaso
prometido ao desastre de uma flor de estilhaços.
A morte, sempre a morte, a nos importunar
com o seu zumbir de mosca funerária.
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(do livro: Nova Antologia Poética. autor: Vinicius de Moraes. organização: Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
A PARTIDA
 
Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
 
 
A MORTE
 
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
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(do livro: Ficções do Interlúdio/1 – Poemas completos de Alberto Caeiro. autor: Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. editora: Nova Fronteira.)
 
 
XXI
 
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural
 
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
 
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…
 
 
(sem título)
 
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
 
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.