TESE SOBRE NADA: UMA CALIGRAFIA DO IMAGINÁRIO
5 de março de 2013

Caligrafia do imaginário

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Há alguns dias, peguei o livro Metalíngua, do querido amigo, o poeta gaúcho Alexandre Brito, a fim de reler alguns dos seus poemas.

No mesmo dia em que peguei o Metalíngua para reler, coincidentemente, recebi um e-mail do Alexandre Brito me recomendando a leitura dos poemas de um poeta por ele admirado. Por conta dessa coincidência (o Britto escrever no mesmo dia em que resolvi reler alguns dos seus poemas), deu-se o seguinte diálogo (que só me trouxe alegrias): escreve Paulo Sabino:

 

“Querido, que coincidência feliz!

Estou exatamente AGORA com o ‘Metalíngua’, relendo algumas coisas, e topei com uma dúvida que me ronda há algum tempo. No (lindíssimo!) ‘Tese sobre nada’, no penúltimo verso do poema você escreve:

‘ou ainda estrevania em relação a betoneira‘.

Se não for abuso, o que significa estrevania? É um neologismo? Já catei os radicais da palavra & não consigo fazer nenhuma associação (rs)… O poema é lindo, eu o adoro, mas essa palavrinha me persegue a cabeça (rs)…

Abraço imenso, poeta!”

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Abaixo, a resposta do poeta Alexandre Brito:

 

“risos.
que legal, Paulo!
um bom leitor é isso.
‘Sabino’ da vida.  
busca a pormenoridade
mesmo mínima.

pois, ‘ESTREVANIA’
é pura invenção.
mancha sonora, letra, sílaba
palavra
q nada nomina.

parabéns, amigo!
um detalhe despercebido pela totalidade dos leitores
mas que não escapou a ti
e tua curiosidade
artística.

grande abraço!”

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uma tese sobre “nada”: uma caligrafia que, no fundo, não comunica, uma caligrafia que, no fundo, não significa: uma caligrafia do imaginário, uma caligrafia que só existe na imaginação, caligrafia que se reproduz mediante caracteres simbólicos & metáforas encerrados em si mesmos, caracteres simbólicos & metáforas que não possuem o auxílio de referências outras que não as referências que guardam de si mesmos.

porém, mesmo a caligrafia do imaginário com os caracteres simbólicos & as metáforas encerrados em si mesmos, sem o auxílio de referências outras que não as referências que guarda de si mesma, essa caligrafia, ao acolher ecos & reverberações sígnicas não mensuráveis, ao abrigar ecos & reverberações de signos lingüísticos que não podem ser mensurados, medidos, alcançados, mantém um sentido — nas feições dos seus signos, no gesto sempre transfigurado das suas metáforas.

uma caligrafia do imaginário em que os seus caracteres simbólicos não se relacionem com nada, caracteres cujos significados não se conectam a nada, caracteres que vivem independentemente as suas significações.

assim, uma escritura em ruptura (pois tal escritura rompe com a função característica de qualquer escritura, que é a de comunicar), que avança do familiar ao desconhecimento (ininteligível, dado o seu hermetismo), é lavrada (é preparada, é fomentada), no livro secreto das dúvidas (afinal, uma caligrafia do imaginário que não comunica, que não significa, o que deseja? qual a sua função, a sua finalidade? o que dizem os seus caracteres, as suas metáforas?). sem aparente significado especial, desprovida de qualquer relevância imediata (pois tal escritura rompe com a função característica de qualquer escritura, que é a de comunicar), a caligrafia do imaginário articula substâncias medulares, isto é, substâncias essenciais, fundamentais, substâncias que formam a sua forma (a forma da caligrafia do imaginário), exprimindo, por alusão, matéria subliminal potencialmente: transgressiva.

a caligrafia do imaginário, por não ser compreendida (caligrafia que se reproduz mediante caracteres simbólicos & metáforas encerrados em si mesmos, caracteres simbólicos & metáforas que não possuem o auxílio de referências outras que não as referências que guardam de si mesmos), exprime matéria potencialmente transgressiva, pois a matéria da caligrafia do imaginário transgride, vai além do sentido de quaisquer significações mundanas, existenciais, a caligrafia do imaginário exprime matéria potencialmente transgressiva porque ela é livre para ser o que quiser ser, ela é livre para significar o que quiser significar & com os caracteres simbólicos os mais variados, à margem de quem deseje compreendê-la.

pois esta entidade abstrata, incapacitada de ser trazida à concretude existencial, entidade que se reproduz segundo um código cifrado (onde cada caractere simbólico significa algo encerrado em si mesmo, algo que não se correlaciona com nenhum outro caractere simbólico que compõe a caligrafia do imaginário), esta “quase” impossibilidade (“quase” impossibilidade porque, apesar de todos os paradoxos que impossibilitariam a caligrafia de ser uma caligrafia, a caligrafia existe com seus caracteres simbólicos & suas metáforas, ainda que exista apenas no imaginário), esta entidade abstrata, esta quase impossibilidade, literalmente incapaz de ser definida & determinada com certeza e/ou precisão (dado o seu hermetismo), propaga-se, alastra-se, para além dos mapas, tábuas & notações pré-estabelecidas conceitual & esteticamente, quer por intangível, intocável, impalpável, que seja, quer por outro qualquer motivo.

a questão é que, numa caligrafia do imaginário (onde cada caractere simbólico significa algo encerrado em si mesmo, algo que não se correlaciona com nenhum outro caractere simbólico que compõe a caligrafia), as palavras — os caracteres simbólicos — que compõem tal caligrafia não possuem relação alguma, nem relação de similitude nem de oposição:

pedra em relação a ventania, por exemplo:

na nossa caligrafia, pedra & ventania são caracteres simbólicos — palavras — que representam elementos diametralmente opostos (a pedra, material sólido, e ventania, ar atmosférico), possuem uma relação (ambos, pedra & ventania, são caracteres simbólicos que representam elementos naturais formados por componentes inteiramente opostos: elemento material da natureza X elemento imaterial da natureza).

numa caligrafia do imaginário, os caracteres que significariam pedra, ou ventania, ou água, ou fogo, ou negro, ou branco, habitam o âmago de uma mesma incógnita: pois os caracteres simbólicos & metáforas da caligrafia do imaginário não possuem o auxílio de referências outras que não as referências que guardam de si mesmos (todo caractere simbólico da caligrafia do imaginário significa, comunica, algo encerrado em si mesmo, algo que não se correlaciona com nenhum outro caractere da mesma caligrafia).

uma caligrafia do imaginário: uma caligrafia que não comunica, que não significa, uma entidade abstrata, uma quase impossibilidade: mais um dos tantos delírios de quem revira linguagens — como nós, poetas.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metalíngua. autor: Alexandre Brito. editora: Éblis.)

 

 

TESE SOBRE NADA


                             “… escrever nem sempre é trilhar terreno inexplorado
                             pode ser ladainha repetindo indo indo indo
                             um requentado”.
                                                                   Alexandre Brito

 

 

uma caligrafia do imaginário
se reproduz segundo um código cifrado
em que se representam as idéias mediante caracteres simbólicos
metáforas consecutivas consideradas organicamente
nas constelações a que pertencem
sem auxílio de referências outras que não elas mesmas
mas, ao acolher ecos e reverberações sígnicas não mensuráveis
mantém um sentido, nas feições, no gesto
sempre transfigurado

assim uma escritura em ruptura
que avança do familiar ao desconhecimento
é lavrada no livro secreto das dúvidas
e, sem aparente significado especial
desprovida de qualquer relevância imediata
apenas e tão somente
articula substâncias essenciais medulares
exprimindo, por alusão, matéria subliminal
potencialmente transgressiva

pois esta entidade abstrata
esta quase impossibilidade
literalmente incapaz de ser definida
e determinada com certeza e/ou precisão
propaga-se, conceitual e esteticamente
quer por intangível que seja
quer por outro qualquer motivo
para além dos mapas tábuas e notações pré-estabelecidas
onde por exemplo, pedra em relação a ventania
harpia em relação a fósforo
ou ainda estrevania em relação a betoneira
habitam o âmago de uma mesma incógnita

VÍBORA LINGÜÍSTICA: VIDA TODA LINGUAGEM
15 de fevereiro de 2012

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a língua é uma serpente.
 
a língua é uma cobra venenosa (cujo veneno, destilado na construção do discurso, infiltra as idéias),
 
sem pele & sem dentes (sem pele & sem dentes porque a linguagem, efetivamente, não é uma serpente, e ela, a linguagem, também sem pele porque pode vestir-se, pode travestir-se, de quaisquer tecidos que sejam urdidos com a trama das palavras, e também sem dentes porque, efetivamente, a víbora lingüística não pode dentar coisa alguma, não pode dentar absolutamente nada nem ninguém).
 
a serpente sem pele & sem dentes morde apenas a si mesma, e morde a si mesma porque o seu conteúdo não tem nada que ver com a natureza, com a concretude da realidade que vivenciamos. a serpente-linguagem trabalha com os símbolos, que são as palavras, criação exclusivamente nossa, exclusivamente humana.
 
(a serpente-linguagem não é feita de carne nem de osso nem de sais minerais nem da água nem da terra: é feita puramente da invenção — arbitrária — palavra.)
 
assim sendo, emblemática, sendo assim, simbólica, a língua pode somente morder a si mesma, e morder a si mesma com as gengivas de um velho diabo:
 
velho diabo porque, segundo o mito da criação divina, o mundo fez-se do verbo.
 
para nós, seres humanos, a palavra é a grande criadora do mundo.
 
(lembrar fernando pessoa: uma árvore não se sabe “árvore”; uma árvore simplesmente não se sabe, não se pensa. só sabe o que é “árvore” quem a nomeia como tal.)
 
é a palavra quem nos diz o que uma coisa é.
 
sem ela, aos nossos olhos, o mundo seria um caos (algo que, de fato, o mundo é: sem sentido).
 
no mês passado mudou para endereço ignorado, a víbora. não deu notícias. a víbora abandonou-me as idéias & a ponta da pena com que escrevo. é sempre assim: a linguagem sai sem dar maiores satisfações, sai sem dar notícias, sai sem sabermos, inclusive, se, um dia, regressa.
 
(não há pior abandono para um escritor…)
 
a língua não bate bem do firmamento, céu tresloucado onde voam & cantam díspares criaturas. tem (a língua) a cabeça cheia de vocábulos.
 
a víbora lingüística diz que é o substrato, isto é, a cobra-linguagem diz que é o cerne, o íntimo, o âmago, do pensamento.
 
e ela, a víbora, está certa: afinal, como fundar idéias, como criar pensamentos, sem a utilização da linguagem?…
 
no ápice, no auge, do eclipse (momento de sombra, instante sem luz, ocasião de breu, hora de escuridão), a serpente lingüística insiste em nominar o inominado. no auge do eclipse, no ápice do sombreamento, a serpente insiste em dar nome ao que nome não possui.
 
e tal criatura-criadora só não é deus não porque não quer, mas porque ele, porque deus, não existe. se deus existesse, este seria a linguagem.
 
a língua é um quase-deus: é ela quem inventa, quem escreve, quem descreve, quem mente. é a língua, com as suas palavras & construções frasais, quem diz “deus”. assim como o criou (em textos religiosos), se assim o desejasse, bem poderia destrui-lo (destruir deus), bem poderia ignorá-lo, jogá-lo no mais absoluto ostracismo.
 
a víbora-língua, em seu reino emblemático, reino simbólico, pode tudo.
 
a língua, sendo o substrato, sendo o cerne, sendo o princípio ativo, o âmago, do pensamento, a língua instiga, a língua incita, fustiga, a vista do leitor atento: pois que a vista do atento leitor, em geral, está a postos às imagens que se desnudam aos olhos, imagens que se desdobram em imagens, digo: metáforas (como esta abaixo):
 
uma flor só sabre (arma branca, de lâmina pontuda & afiada, em forma de espada), uma flor-arma, estimula a vista do leitor atento, que vê a flor (por isto uma flor-sabre) moendo a chuva: belezurazul a flor só sabre, flor só sabre porque moe os pingos da chuva que caem nas suas pétalas-lâminas.
 
a visão do leitor atento é um ato criativo.
 
e o ato criativo é cheio de surpresas. por isso é surpreendente: pois lida com o imponderável. assim como os acontecimentos da vida, sempre repletos de surpresas, acontecimentos que não podemos controlar por completo por causa do componente imponderável.
 
esperar que alguma coisa aconteça sem a presença (luxuosa!) da surpresa seria ignorar o fato de que o ato criativo, repleto de insights, repleto de achados surpreendentes, explica-se a si mesmo:
 
o ato criativo explica-se a si mesmo porque o ato criativo se basta, não precisa de nenhuma outra explicação que não seja o próprio ato criativo. não existe uma fórmula, uma maneira, uma regra, para o ato criativo. são inúmeras as formas, inúmeros os modos, de apresentar-se o ato criativo às nossas vistas. assim como com os acontecimentos mundanos: não existe uma fórmula, uma maneira, uma regra, para viver a vida. são inúmeras as formas, inúmeros os modos, de apresentar-se uma situação mundana/quotidiana às nossas vistas.
 
no ato criativo-poético, surpresa!, tudo cabe:
 
o caramujo desemparelhado não muge, o caramujo, por sua incapacidade de mugir, não muge, mas, no poema, bem poderia.
 
a lei da surpresa compreende o novo, o incerto.
 
olhar as coisas sempre com o olhar de surpresa é compreendê-las sempre novas, sempre incertas.
 
portanto: 
 
olhar cem vezes a mesma taça como se pela primeira vez:
 
olhar uma vez pela primeira vez, olhar duas vezes pela primeira vez, olhar três vezes pela primeira vez, olhar quatro vezes pela primeira vez, olhar cinco, seis, sete, oito, nove, dez vezes pela primeira vez, e assim sucessivamente, beber a taça que se encontra vazia de entendimento, embriagar-se do seu silêncio, não entendê-la (a taça) todas as vezes que bebê-la no seu vazio, não entendê-la porque, no olhar, sempre a surpresa, sempre a tentativa de reconhecimento do inesperado, do incerto, do  surpreendente (e continuamente vazio), dentro da taça.
 
feliz (ou não!) aquele que encontra o que as coisas dizem sem que as coisas saibam, feliz (será?) aquele que encontra sentido em tudo que encontra, feliz (mas como?) aquele que encontra resposta para tudo com que se depara…
 
quando partimos de um porto decantado, quando partimos de um porto seguro, de um porto previsto, porto depurado, e singramos, e navegamos, o novo, e singramos o desconhecido, a única certeza é a lei da incerteza.
 
na undécima fração de um último segundo, é conveniente virar uma esquina ao avesso. ou seja: no último momento antes da sucessão de um fato, momento último antes da passagem duma coisa a outra, virar uma esquina, lugar onde caminhos & ruas se cruzam, ao avesso na intenção de extrair o mais potente efeito-surpresa.
 
virar uma esquina ao avesso na undécima fração de um último segundo: virar a surpresa (que reserva a esquina) ao contrário, para obter, desse jeito, a surpresa da surpresa, para obter o que possa ser o mais surpreendente.
 
é desse modo (virando uma esquina ao avesso na undécima fração de um último segundo) que não busco a palavra exata, é desse modo (virando uma esquina ao avesso na undécima fração de um último segundo) que não busco o claro sentido, ou a palavra pela palavra (sofrimento antigo, que acompanha todo & qualquer escritor desde a invenção — arbitrária — da palavra). eu não busco o novo, não busco a liberdade selvagem do lobo, não busco a perfeição do ovo.
 
não busco. mas encontro.
 
(deixo o acaso ditar, em mim, os seus preceitos.)  
 
com todas as capacidades da víbora lingüística (que só não é deus não porque não quer, mas porque deus não existe), ninguém subestima a pedra feita só de letras, pedra que não é “pedra”, pedra que, no fundo, é palavra, pedra imóvel na página de papel, pedra que, através das linhas delineadas, vai compondo sua forma & seu cenário, pedra pousada na relva, pedra silenciosa, cercada de verde, pedra que caberia na concha de uma das mãos, pedra que nunca será um peso sobre o papel nem produzirá círculos concêntricos em algum lago real, pedra que não quebrará vidraças nem derrubará latas & garrafas servindo ao exercício de pontaria de alguém.
 
pedra sem as propriedades & as possibilidades de pedra:
 
pedra-palavra.
 
mas ninguém subestima o efeito de sua pedrada (em nossas mentes & vida).
 
a víbora lingüística: uma vida que diz respeito somente a nós.
 
a víbora lingüística: uma vida toda linguagem.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Meta Língua. autor: Alexandre Brito. editora: Éblis.)
 
 
 
a língua
é uma serpente sem pele e sem dentes
 
emblemática
morde a si mesma com as gengivas de um velho diabo
 
já foi minha vizinha
mas no mês passado mudou para endereço ignorado
 
não bate bem do firmamento
tem a cabeça cheia de vocábulos
 
a víbora linguística diz
que do pensamento é o substrato
 
no ápice do eclipse
em nominar o inominado insiste
 
e que só não é deus não porque não quer
mas porque ele não existe
 
 
 
ALTALVURA AO SUL DIUMTUDO
 
 
uma flor só sabre
fustiga a vista do leitor atento
 
belezurazul de chuvamoendo
 
esperar que alguma coisa aconteça sem
a presença luxuosa da surpresa
seria ignorar o fato
de que o ato criativo explica-se a si mesmo
 
o caramujo desemparelhado não muge
mas aqui bem poderia
 
 
 
A ESQUINA
 
 
olhar pela primeira vez cem vezes a mesma taça
vê-la transbordar vazia de entendimento
bebê-la com os olhos abertos de um só gole
e embriagar-se de silêncio como as girafas o fazem
não é exatamente um experimento científico
ou um êxtase espiritual
mas bem pode ser uma experiência artística
 
feliz de quem encontra o que as coisas dizem sem que elas saibam
 
quando partimos de um porto decantado
e singramos o novo
a única certeza é a lei da incerteza
 
na undécima fração de um último segundo
é conveniente virar uma esquina ao avesso
 
 
 
não busco a palavra exata
o sentido. o sentimento
nem a pedra lançada no firmamento
ventania que represa o rio
entendimento
 
ou a palavra pela palavra
o sofrimento antigo. o novo 
a liberdade selvagem do lobo
instinto que se quer arte
perfeição do ovo
 
não busco. mas encontro
 
 
 
imóvel
pousada na relva comodamente assentada
com forma irregular                   arredondada
características graníticas
 
— o tom acentuadamente terroso a distingue —
 
silenciosa
cercada de verde por todos os lados
respira o dia anil
indiferente ao sol que a assola
 
— caberia na concha de uma das mãos —
 
nunca será um peso sobre o papel 
nem produzirá círculos concêntricos
em algum lago real
não quebrará vidraças
nem derrubará latas e garrafas
servindo ao exercício de pontaria de alguém
 
mas ninguém subestima
a pedra feita de letras. 

PALAVRAS DE ALÉM-MAR & OUTRAS INUTILIDADES
28 de outubro de 2011

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benvindos,
 
a seguir, palavras que me chegaram de além-mar, provindas de terra lusitana, das terras do poeta fernando pessoa.
 
palavras que muito me alegram & muito me estimulam a continuar o trabalho que desenvolvo com a poesia neste espaço, no “prosa em poema”. palavras que me contentam, palavras que gostaria de dividir com os senhores freqüentadores do local, pelo gosto de coisa boa que elas possuem. 
 
palavras do professor português joão manuel brito sousa:
 
 
PAULO, você me encanta pela desordem que utiliza na ordem da sua forma de escrever poesia. Você é Vinicius de Moraes no seu melhor, é Paul Éluard, diria mesmo que a sua poesia ensina-me a viver, coisa que ainda não aprendi, e quando acabar este comentário vou escrever isso mesmo: VIVER, nas cadeiras da sala de jantar, nas janelas do quarto, na estante do escritório, nas costas do carteiro que está a tocar à porta, em todo o lado escreverei, “APRENDA A VIVER COM PAULO SABINO”. Porque este modelo de escrever poesia e de viver ninguém conhece. Só você. Parabéns. Abraço. JBS.
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dormir dormir dormir & acordar num outro mundo, despertar um outro alguém: alguém como paul éluard, o “poeta da liberdade”, alguém como vinicius de moraes, o GRANDE “poetinha” de todos nós, sentimentais do brasil (rs).
 
dormiria um milênio inteiro, feliz, sem lembrar quem fui, o que fiz.
 
porém, a vigília, a falta de sono, me permite apenas sonhar por dentro de palavras acesas por dentro, sonhar por dentro de palavras que brilham, que iluminam, que queimam, a página branca sobre a qual estão; a  vigília, a insônia, me permite apenas sonhar por dentro de palavras acesas por dentro, palavras que velam, que escondem, que encobrem, esperanças vãs, esperanças sem valor, inúteis, descartáveis, como a brasa que brilha & ilumina & queima, mas que brilha & ilumina & queima dentro de um cinzeiro, sem, portanto, finalidade ou utilidade.  
 
assim, sigo sem sono, acordado por “ela”, atento a “ela”, seguro de que sua finalidade sem fins (lucrativos) é o seu maior ganho, certo de que “ela”, a “poesia”, é a inutilidade (um objeto sem finalidades definidas) mais útil que conheço.
 
poesia:
 
sua natureza é selvagem, indomável, natureza que não se pode captar inteira:
 
brasa, em página branca, que brilha queima ilumina: 
 
a lógica desavergonhada de um animal no cio.
 
(salve a sua vida na minha!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metalíngua. autor: Alexandre Brito. editora: Éblis.)
 
 
 
dormir dormir e dormir
e acordar num outro mundo
sem pressa ou dinheiro
nem políticos
sem mim
eu seria um outro
alguém com a juventude de Iessiênin
a perna esquerda quebrada de Quintana
e a lógica desavergonhada de um animal no cio
 
quem sabe um poeta bissexto!?
 
dormiria um milênio inteiro
e acordaria com o grito das pedras.
feliz. sem lembrar quem fui o que fiz
 
mas que vigília malfadada
me permite apenas sonhar
por dentro de palavras acesas por dentro
a velar esperanças vãs como brasa no cinzeiro