OS METAFÍSICOS ANÔNIMOS
26 de janeiro de 2014

Noturno

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diz o empirista, afirma o racionalista, anuncia o ser sem metafísica:

“a vida está aqui! a vida é só isso!”

“lá há vida além disso, além da nossa experiência mundana?!”

“a vida é a presente! a vida é a vida tida aqui, entre os homens!”

“a vida é a visível, é a que tocamos, apalpamos, alcançamos! a vida é a dos pés no chão, firmes na terra!”

“pois a vida é o vivo dizer: vida!, agora, neste instante, já que a vida é a hora, é o tempo que nos perpassa, e a vida é o motivo, é a razão de ser de qualquer coisa que nos diga respeito!”

“a vida é a de cá, é a do solo mundano, é a das experiências terrenas, e não a de ‘lá’, a suposta vida que fica para além das nuvens! a vida está aquém & não além!”

eu sigo à risca o que diz o empirista, o que afirma o racionalista, o que anuncia o ser sem metafísica: a vida é o que podemos ter. se estamos aqui, num mundo material, isto é, num mundo de materialidades (a pedra, o mato, o bicho, a nuvem), é aqui o que temos para viver. o que está ao nosso alcance, o que está à nossa disposição, é a vida que se nos apresenta, todos os dias, aos nossos olhos, boca, narinas & orelhas.

a vida que importa é a vida que podemos provar, tocar & sentir, nenhuma outra.

sabemos o que é vida graças a esta vida mundana. e ponto.

porém, ainda que o mais importante, para nós, seja viver a vida terrena, mundana, não podemos afirmar categoricamente que a existência se resume estritamente às nossas vivências.

temos que, humildemente, aceitar esta ignorância atávica que nos persegue & rege, dada a nossa dimensão — mínima, irrelevante — frente à grandiosidade do universo.

podemos afirmar que viver o agora, o já, o instante presente, sem contar com a “chance”, com a “possibilidade”, de uma outra vida, é a melhor maneira de viver. só não podemos afirmar categoricamente que toda a existência se resume a isso.

somos muito pouco para saber: pensando por essa ótica, no fundo, todos nós, dada a ignorância atávica que nos persegue & rege frente à grandiosidade do universo, todos nós: metafísicos anônimos, os mais variados, caminhantes desconhecidos, perdidos em meio à multidão.

ainda que não sejamos metafísicos, mesmo sendo “viver o hoje, o agora, o já, crendo que não haja nada mais além da existência mundana/material” a grande tônica, o grande lema, do caminho que vamos traçando, todos nós: metafísicos anônimos quando a noite, quando a escuridão, quando a falta de clareza, nos enfrenta.

(isso soa como uma provocação. e é – rs.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A chama inextinguível. autor: Alexei Bueno. editora: Nova Fronteira.)

 

 

OS METAFÍSICOS ANÔNIMOS

 

“A vida está aqui!
A vida é só isso!
Lá há vida além disso?!
A vida, ei-la aí!

É a vida, isso é a vida!
É a vida aí na frente!
A vida é a presente!
A vida é a aqui tida!

Tal vida é a que amamos!
É a vida que é viva!
É a vida aí cativa!
É a vida que odiamos!

É a vida visível!
É a vida dos pés!
É a vida e os cafés
Que é a vida vivível!

Pois a vida é o vivo
Dizer: vida!, agora,
Já que a vida é a hora
E a vida é o motivo!

A vida é a de cá!
A vida está aquém!
A vida é, não vem!
A vida é ela e já!”

E assim ele tenta
Na rua mais física
Ser sem metafísica,
Mas a noite o enfrenta.

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A ÁRVORE SECA
12 de abril de 2011

(trecho da contracapa do livro: A árvore seca. autor do texto da contracapa: Ivan Junqueira. editora: G. Ermakoff Casa Editorial.)

 

O trajeto percorrido até agora pela poesia de Alexei Bueno envolve uma estratégia que se desdobra em movimentos extremos, ou seja, os da contração e da distensão formais. Seus dois últimos livros, Em Sonho e Os Resistentes, atestam de modo cabal essa oscilação entre a medida e a desmedida rítmica. No presente volume, A Árvore Seca, Alexei Bueno volta à prática das formas fixas tradicionais, elaborando nos poemas que o integram uma cerrada urdidura métrico-rímica que, se de um lado se apóia na tradição, de outro nos brinda, graças à temática que neles se explora e ao insólito tratamento que lhes dá o poeta, com uma aguda lição de modernidade. Trata-se de um livro áspero, anfractuoso, denso e talvez desolado, uma vez que nos oferece, sem qualquer comiseração, uma imagem crua e quase brutal da realidade cotidiana.
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o lado escuro da vida. 

a face ressequida da existência.

em torno da árvore seca, satisfeitos, nos sentamos (os assassinatos, sejam estes metafóricos ou não, são cometidos mas sem deixar um só vestígio. ninguém os percebe).

tentamos alcançar algum fruto da árvore, porém, o que achamos: galhos em luto.

em torno da árvore seca, onde a coruja defeca, a coruja, ave que, segundo a superstição popular, é capaz de adivinhar a morte, onde a coruja defeca nós dançamos plenos, dançamos cumpridos, isto é, dançamos realizados, preenchidos.

tantos horrores, e foi entre os homens que os vi.

os horrores: servem de estofo dos pesadelos: assassinos, bolores & cancros existenciais.

é preciso criar a aurora.

é preciso criar a beleza, para além dos paredões escuros, para além das bestas, para além dos roncos das sestas, para além dos bares, para além dos rançosos lares.

é preciso criar a aurora. fazer raiar um novo dia.

é preciso adubar o solo da árvore, vê-la mudar sua estrutura seca, assistir-lhe a copa crescendo, os frutos nascendo, a sombra, fresca, abrigando.

(acredito que devemos lutar, lutar por mudanças, batalhar por melhorias, defender uma existência mais confortável, menos agressiva, para todas as pessoas.)

deixo alguns versos em meio aos perversos, já como contribuição.

beijo todos!
paulo sabino.

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(do livro: A árvore seca. autor: Alexei Bueno. editora: G. Ermakoff Casa Editorial.)

 

A ÁRVORE SECA

Em torno da árvore seca
Satisfeitos nos sentamos.
O sol, que cega e resseca
Varava os seus secos ramos.

Estendemos nossas mãos
Para alcançar-lhe algum fruto,
Mas rindo, entre os seus desvãos,
Só achamos galhos em luto.

Cantamos à sua volta
E ave alguma respondia
À nossa canção revolta,
À nossa poenta alegria.

De noite, sob os seus galhos,
Dormimos, mas folha alguma
Nos protegeu dos orvalhos
Que a frígida alva ressuma.

E assim, crestados, famintos,
Úmidos, sós, aqui estamos
Entre os seus braços extintos
E as leves viúvas dos ramos.

Em torno da árvore seca,
Com as folhas pardas vestidos,
Onde a coruja defeca,
Dançamos, plenos, cumpridos.

 

VISAGEM

O estofo dos pesadelos:
Pênis vivos com cem patas,
Felação entre baratas,
Um olho eivado de pêlos,

Um formigueiro fervente
(No meio a rainha, morta),
Um ovo dentro da aorta,
Bílis brotando de um dente,

Línguas nascendo de joelhos,
Róseos traidores gratuitos,
Ânus cantando fortuitos,
Cancros crescendo de espelhos,

Um assassino que ri
Dentro de um berço, uns bolores
Na língua. Ah, tantos horrores
Foi entre os homens que os vi.

 

I.M.L.

Na porta do boteco
Com flores de coroas
Que oferta às moças boas
Ele ergue o seu caneco

De alumínio gravado
Com o escudo do seu time,
E conta o último crime,
E olha o bordel fechado.

Sorrindo, no balcão,
Beberica e, prudente,
Fita a vaga onde, em frente,
Deixou o rabecão.

Então, se há um que lhe peça
Que lembre do seu carro,
Diz, dando um grosso escarro:
— Defunto não tem pressa.

 

FAIT DIVERS

Carlinhos, o segurança,
O terror da Mem de Sá,
Trocou tiros num mafuá
Com o Fuinha, em plena dança.

O Fuinha perdeu a perna.
Depois morreu, no hospital.
O membro encaixou bem mal
No corpo, o que até consterna.

Carlinos, pior que o Fuinha,
Pagou na hora o seu erro.
Três tiros. No seu enterro
Só foi a sua mãezinha.

 

GLÓRIA

Bêbado, às duas da manhã,
Parei na loja de ovos e aves.
Subi na grade e, em grande afã,
Cacarejei, de ecoar nas traves.

Os galos todos acordaram
Cheios de brio e, num só coro,
Com seu cacarejo enfrentaram
O meu, mais forte, mais sonoro.

Saltavam todas as galinhas.
Penas voavam loja afora.
Ligavam luzes nas vizinhas
Casas. Parti. Criara a aurora.

 

LAPA

Nesta casa antiga,
Sob estas volutas,
Como ri com as putas
Entre uma e outra briga.

Como virei copos
E extingui charutos,
Discuti com brutos,
Vaiei misantropos.

Urinei nas pias,
Vomitei nas portas,
Com passadas tortas
Vi nascer os dias.

Velha, velha casa,
Como ainda és a mesma.
(Não tens dentro a lesma
Que nos funda e abrasa.)

 

LÁZARO

Cobrimos o mendigo que dormia
Com jornais, os jornais do extinto dia.

De fora só ficaram os sapatos
Cambaios, já roídos pelos ratos.

Acendemos então, junto, uma vela
E arengamos na luz branca e amarela.

Um círculo de povo já envolvia
Nosso pranto, e o pinguço nem tremia.

Volveu por fim do reino dos defuntos.
Debandada! E ele riu. Ríamos juntos.

 

DISFARCE

Esta sombra antiga,
A beleza, diga,
Onde se acha e abriga,
Se o imaginares.

Não aqui, nos duros
Paredões escuros,
Entre arames, muros,
Vísceras, bazares.

Não junto das bestas,
Nos roncos das sestas,
Nos bares, nas festas,
Nos rançosos lares.

Mas só lá, nos portos,
Nos arbustos tortos
Entre o vento e os mortos,
No arquejar dos mares.

Lá onde não se fala,
Onde a terra exala,
E tudo se cala
Só para escutares

O que não se escuta,
Que se esquiva, e luta,
A voz absoluta
A atroar nos ares.

 

JUSTIFICATIVA

Não sei o que fiz na vida.
Não a gastei como os cães.
Cada instante é a despedida
Do rio irreal das manhãs.

Nada ganhei. Não venci.
Nunca o quis. Deixo alguns versos,
Prova do que fiz aqui,
Perplexo em meio aos perversos.

HAICAIS: JÓIAS DE ADORNO
19 de julho de 2010

prezados,
 
segundo o dicionário houaiss, haicai é “uma forma de poesia japonesa surgida no século XVI e ainda hoje em voga, composta de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas, que geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano”. 
 
(no brasil, essa forma poética foi adaptada, a partir da original, japonesa, quanto à métrica e à acentuação.)
 
abaixo, uma seleção de belíssimos haicais (sem as adaptações adotadas no brasil, utilizando-se da técnica promulgada pelo bardo bashô), produzidos pelo sofisticado poeta alexei bueno. os poemas saíram de uma obra sua lançada em 1988 e apropriadamente intitulada “livro de haicais”.    
 
neles, o autor dá asas aos seus tantos achados existenciais e às suas verificações, que acabam por líricas, do estado do ser das coisas — a visão que tem da cidade à noite, iluminada, com suas luzes compondo os seus “ouro & prata por entre cordões de pérolas”, a visão que tem do cego que “marcha, batendo, batendo sobre a própria sombra” —, e do estado dos elementos naturais — a nuvem, a chuva, o mar, a noite, as estrelas, o cosmos —.
 
haicais, para mim, são como pequenas jóias de altíssimo valor: objetos de material precioso (no caso dos haicais, o material, mais que precioso, são as palavras) finamente trabalhado, usado como adorno (no caso dos haicais, adornos utilizados no espírito, para que este brilhe mais, fique ainda mais bonito).
 
enfeitem-se dos mimos aqui dispostos!
 
beijo grande em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: A chama inextinguível. autor: Alexei Bueno. editora: Nova Fronteira.)
 
 
Crânios num ossuário.
As pedras brancas invejam-lhes
Muito pouco as vidas.
 
 
Sono do mendigo
Por baixo do céu. Que tetos
Haverá em seus sonhos?
 
 
Nuvem, ergue a pálpebra!
Quero ver o olho de cego
Com que sonda a noite.
 
 
Viagem sem sentido.
Atrás e à frente, na estrada,
O vazio é um só.
 
 
Quantos, cada dia,
Quando novamente te ergues,
Sol, não se erguerão?
 
 
Lá embaixo, ouro e prata
Por entre cordões de pérolas.
A cidade à noite.
 
 
Noites de ator velho.
Rebeladas no confuso
Sonho, quantas vidas.
 
 
Antes que algum nome
Nos designasse, já rias,
Pequena cascata.
 
 
Ainda não erguêramos
Qualquer reino ou templo, e o mesmo
Eras, fio d’água!
 
 
No antiquário turvo,
Flutuando, entre o pó e os brilhos,
O cheiro da vida.
 
 
Só, dentro da névoa,
Nosso nítido passado
Fura o agora umbroso.
 
 
Quantas avós tuas
Meus ascendentes pisaram,
Pertinaz barata?
 
 
Entre as ruas, eu,
E em mim, eu em outras ruas,
Sob a mesma noite.
 
 
Noutra casa, noutra
Luz breve sobre outros móveis,
Qual serias, alma?
 
 
Rompa a guerra ou arda
Toda a cidade, a minhoca
Não sairá da terra.
 
 
Marchando no tempo,
Antes de tudo e após tudo,
Soberbo, o silêncio.
 
 
Sempre, a cada passo,
Atrás de nós, entre os becos
Vindo, quem não fomos.
 
 
Entre o som das chuvas
E a voz do mar, só nas nuvens
A mudez das águas.
 
 
Dedos dos bambus
Tocando na névoa o canto
Com que parte o vento.
 
 
Meio-dia. O cego
Marcha, batendo, batendo
Sobre a própria sombra.
 
 
A formiga morta
Na poça lenta. No cosmos
Explosões de estrelas.
 
 
Em todas as portas
Uma só certeza: Nosso
Lugar não é aqui.