UM VERSO & A ESPERA
18 de janeiro de 2013

Azul

(Na rotina, na retina: luza a luz azul!)
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a vida é uma longa espera.
 
espera-se por tudo.
 
espera-se um amor, espera-se um melhor emprego, espera-se a viagem programada há tempos, espera-se um bebê, espera-se passar no concurso, espera-se terminar a dissertação, espera-se o ônibus passar no ponto, espera-se o amigo chegar ao bar.
 
junto à espera, indissociáveis, as expectativas.
 
eu, como todos, espero.
 
espero desde um telefonema — de amigos, do meu amor, da minha mãe — até um poema.
 
eu, como todos, espero. nem que seja um problema: um tema que eu não toco (uma música — cantilena — que eu não toco, que eu não executo), um tema que eu não toco (um assunto sobre o qual prefiro não falar), não porque tema, não porque tenha medo do tema (do assunto), não porque eu tema o tema, e sim porque o tema (o assunto, o problema) não entra em nenhum esquema, o tema-problema não encaixa em nenhum resumo, o tema-problema não encaixa em nenhuma estratégia minha de vida.
 
espero, dentro da noite, algo que faça com que eu gema.
 
espero. e tudo é espera nesta noite amena.
 
tudo é espera. menos teu nome (que chega rapidamente, sem demora, ao meu pensamento & pelo telefone). tudo é espera. menos meu telefone (que chega a mim através do toque & que me traz a tua voz & o teu nome à boca). tudo é espera. menos este verso (que sigo arquitetando nesta noite amena), ou será o verso já um poema?…
 
tudo é espera. menos este verso:
 
quero fazer um verso com todos os elementos: um único verso, verso-síntese, um único verso com todos os meus encantos (com aquilo que prezo em mim), com todos os meus lamentos (com aquilo que des-prezo em mim), quero fazer um verso que atravesse ares & mares, que atravesse um mundo, e te alcance (nome que, rapidamente, sem demora, chega à minha boca), e te arranque de todos os pensamentos que possas ter (nome que, rapidamente, sem demora, chega à minha boca).
 
no meu verso (com todos os elementos), minuto a minuto, quis um dia todo azul no teu dia.
 
(que, no teu dia, azul luza!)
 
meu querer (querido no verso) — quero crer! — azulou teu dia a dia, meu querer — quero crer! — azulou teu dia após dia, tudo o que podia (tua rotina, tua retina), meu querer (querido no verso) — quero crer! — azulou o máximo que pôde teu dia a dia (tua rotina, tua retina).
 
na rotina, na retina: luza a luz azul!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dois em um. autora: Alice Ruiz S. editora: Iluminuras.)
 
 
 
espero
desde um telefonema
até um poema
 
espero
nem que seja
um problema
esse tema
que eu não toco
não porque tema
e sim
porque não entra
em nenhum esquema
 
espero
dentro da noite
algo que faça
com que eu gema
 
espero
e tudo é espera
nessa noite amena
 
menos teu nome
menos meu telefone
menos este verso
ou será um poema?
 
 
 
quero fazer um verso
com todos os elementos
meus encantos
meus lamentos
que atravesse
ares e mares
e te alcance
e te arranque
de todos os pensamentos
 
 
 
minuto a minuto
quis
um dia
todo azul
no teu dia
 
meu querer
quero crer
azulou
teu dia a dia
tudo
que podia
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PASSOS QUE PASSAM & FICAM (PRESENTE NO PASSADO)
12 de junho de 2012

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poesia: letras que se metem a palavras que se metem a cantoras.
 
palavras querendo ser poesia: velhas cigarras cantando (“velhas” cigarras porque, afinal, as palavras são nossas cúmplices desde que nos entendemos como seres pensantes) nada de novo (afinal, originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar; as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas) pela primeira vez.
 
cantar, pela primeira vez, nada de novo: mas se o que se canta é “nada de novo”, como cantar o “nada de novo” (que deixa de ser “novo” para transformar-se em “conhecido”) pela primeira vez?
 
é que, apesar de nada de novo, cada canto entoado pelas “velhas cigarras” pode dizer a mesma coisa, porém o diz de maneiras distintas.
 
e é a distinção encontrada na maneira de dizer aquilo que é já “conhecido” (o arranjo, a disposição, o ordenamento das palavras —  velhas cigarras — que cantam) que faz com que “nada de novo” seja cantado pela primeira vez. 
 
poesia: letras que se metem a palavras que se metem a cantoras que, velhas cigarras, cantam nada de novo pela primeira vez: como estas cigarras-palavras que seguem:
 
tudo, no mundo, se passa com passos já passados.
 
as coisas acontecem num instante ínfimo, instante instantâneo, impossível (na prática) de ser captado, e logo as coisas que acontecem num instante ínfimo, instante instantâneo, impossível (na prática) de ser captado, passam a passado, e logo as coisas deixam de lado o presente para abrigarem-se no passado. é como se tudo se passasse com passos já passados. como não se captura o exato instante em que cada coisa “é”, vivemos um eterno passar dos passos, tudo rapidamente jogado do tempo presente ao tempo pretérito.
 
tudo o que fica (tempo verbal no presente) para nós, no fundo, permanece (presente) no passado.
 
tudo, no mundo, fica onde já passou: o presente no passado.
 
(paradoxal, contraditório, e extremamente humano…) 
 
com passos já passados (já andados, já caminhados), tem os que passam, tem aqueles que são incapazes de deixar uma gota de si que seja.
 
(a vida urge, o tempo voa, os passos passam.)
 
tem os que, da pedra ao vidro, partem, isto é, tem os que, da pedra ao vidro, quebram, arrebentam, danificam, destroem, tem aqueles que, com pedra & vidro, deixam tudo partido: estilhaços do sentimento ao rés do chão.
 
e também tem — ainda bem! — os que, com passos já passados, deixam a impressão (ainda que vaga, ainda que imprecisa) de ter ficado.
 
(e ficam.)
 
que bom…
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dois em um. autora: Alice Ruiz S. editora: Iluminuras.)
 
 
 
letras
se metem a palavras
querendo ser poesia
 
cigarras velhas
cantando
pela primeira vez
nada de novo
 
 
 
tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
 
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
 
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

A RAIZ DA RUIZ / HAI-KAIS
5 de agosto de 2009

queridos e queridas, 

uma das coisas que, apesar de já tê-las vivido diversas e diversas vezes, me impressionam, em alguns momentos, é a capaciadade que os amigos possuem de aguçar a sensibilidade nossa. quando converso com vocês, a troca abastece os impulsos da minha sensibilidade (parafraseando, muito mal [rs], ezra pound), como acontece com a literatura. 

depois de um tempo que me permite a saudade, reencontrei um amigo que, com sua prosa, sua inteligência & sensibilidade, me faz atento – sou todo olhos e ouvidos em estado de alarme, tamanha a atenção dispensada – enquanto fala. nunca, acho, tornei esta minha satisfação tão explícita pra ele, mas, aqui, eis a ocasião: por conta deste ‘coroa’ (rs), o grande grande tio gerardinho, ou lulu, ou luciano lucas, segue esta mensagem para vocês. 

entre muitos dos assuntos tratados em sua companhia, a poesia não faltou. e, com ela, o nome e o trabalho de uma poeta por quem somos, eu e o gerardo de lucas, apaixonados: alice ruiz. 

o que acho fabuloso em alice é a sua capacidade de concentrar tanto tanto tanto (sentidos, significados, jogos de palavras) com tão pouco, com linhas mínimas. 

a seguir, parte da definição de hai-kai retirada do dicionário aurélio:

1.Arte Poética. Poema japonês constituído de três versos (…): “É o haicai japonês, pequeno poema de três versos, (…) que resumem uma impressão, um conceito, um drama, um poema, às vezes deliciosamente, não raro profundamente.” (Afrânio Peixoto, Miçangas, pp. 234-235.) 

sobre o trabalho de alice ruiz, na orelha do seu livro chamado “desorientais”, arnaldo antunes escreve: 

Uma faísca um pingo uma semente um grão uma lágrima um átomo um átimo um piscar de olhos uma célula um ácido uma sílaba um transistor um chip uma estrela um cristal. Um objeto concentrado não é um objeto qualquer. 

e, de fato, um objeto concentrado não é um objeto qualquer. 

poderia passar horas escrevendo sobre os exuberantes achados, as inúmeras belezas que encontro nos hai-kais que seguem nesta seleção, mas escolhi um – dos meus prediletos – apenas para ilustrar o que vem sendo escrito. ei-lo: 

lesma  no  vidro

procura  uma  sombra

que  seja  ela  mesma

atentem: neste, aparentemente, uma simples descrição de caso: uma lesma, no vidro, que deseja ser a própria sombra. 

agora, atentem mais um pouquinho: a lesma não deseja ser a própria sombra, ou seja, ela mesma, apenas no sentido imagético. a lesma consegue, na organicidade das palavras, ou seja, na composição sólida das palavras, que vem a ser feita de letras, ser a tão almejada sombra: as letras que a compõem, l – e – s – m – a, são as que, também, compõem a sua sombra: e – l – a     m –  e –  s – m – a. no papel, com a ‘composição orgânica’ das palavras (ou seja, com as letras), alice ruiz conseguiu traduzir a vontade da lesma de, ela mesma, a sua sombra ser. isso é genial, é maravilhoso — ela consegue não apenas dar sentido imagético ao que diz, como cria este sentido na justa-posição das palavras —. é, meus caros, não é pra qualquer um não (rs)…   

isso, vocês poderão concluir com os próprios olhos. 

aqui, mais um tanto da raiz da ruiz: um cacho, dos bons, dos seus hai-kais. 

fartem-se! 

beijo bom & carinhoso em todos,

paulinho.

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 (todos os hai-kais extraídos do livro desorientais, de alice ruiz, editora iluminuras)

primeiro  vagalume
assim  começa
o  fim  do  ano
 
 
 
primeira  estrela  Vésper
véspera  do  que  se  espera
vira  primavera
 
 
 
nuvens  de  mosquito
o  ar  se  move
vento  nenhum
 
 
 
mosquito  morto
sobre  poemas
asas  e  penas
 
 
 
árvore  da  felicidade
folha  a  mais  folha  a  menos
vai  vivendo
 
 
 
dentro  do  jardim
o  dia  chega  mais  cedo
ao  fim
 
 
 
quem  ri  quando  goza
é  poesia
até  quando  é  prosa
 
 
 
gesto  antigo
gostar  de  você
parecer  comigo
 
 
 
sêde  a  sede  do  meu  ser
cesse  a  minha  sede
de  ceder
 
 
 
o  relógio  marca
48  horas  sem  te  ver
sei  lá  quantas  para  te  esquecer
 
 
 
lembra  aquele  beijo
corpo  alma  e  mente?
pois  eu  esqueci  completamente
 
 
 
dentro  do  sono
o  corpo  se  descobre
sem  dono
 
 
 
por  você
eu  esperava
por  mim  não
 
 
 
rede  ao  vento
se  torce  de  saudade
sem  você  dentro
 
 
 
ia  sendo
não  fosse  entre  nós
o  extintor  de  incêndio
 
 
 
teu  sol
me  dis-sol-vendo
até  minha  raiz
 
 
 
circuluar
sonho  ímpar
acordo  par
 
 
 
folha  seca
sobre  o  travesseiro
acorda  borboleta
 
 
 
entre  uma  estrela
e  um  vagalume
o  sol  se  põe 
 
 
 
velha  lua
ao  ver-me  a  vê-la
vermelha
 
 
 
o  amarelo  sai  do  céu
e  corre  ao  vento
outono  dentro
 
 
 
À  beira  do  insuportável
essa  qualidade  rara
ser  insubordinável
 
 
 
pensar  letras
sentir  palavras
a  alma  cheia  de  dedos
 
 
 
cai  a  tarde
flor  no  pessegueiro
cai  o  inverno
 
 
 
ontem  hoje  amanhã
trabalho  pra  madrugada
noites  tardes  manhãs
 
 
 
voltando  com  amigos
o  mesmo  caminho
é  mais  curto
 
 
 
velhos  amigos
depois  da  despedida
continuam  andando  juntos
 
 
 
não  fique  confuso
muso  de  alguma  obra-prima
pode  ser  tudo  amor
                            à  rima