SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — 3º CICLO: JULIANA LINHARES, MIHAY, HELIO MOULIN E SALGADO MARANHÃO — MÃE DA MANHÃ (GILBERTO GIL)
18 de abril de 2017

(Os participantes desta 3ª etapa do projeto: em pé, Juliana Linhares e Salgado Maranhão; sentados, Helio Moulin e Miray junto ao Guilherme Araújo e à Gal Costa — Foto: Rafael Millon)
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“Bravo, Paulo Sabino. Aqueceram-me o coração sua desenvoltura e alta voltagem poética. Grato. Abs. RCAlbin”.

(Ricardo Cravo Albin — musicólogo & membro da Academia Carioca de Letras — ACL)

 

“Que massa que o Helinho vai tocar contigo [Mihay]! Adorei.”

(Tulipa Ruiz — cantora e compositora)

 

 

Alô Alô! Alegria Alegria!

Aqui para anunciar os participantes da 3ª etapa de encontros do projeto “Somos Tropicália”, em homenagem aos 50 anos do movimento que chacoalhou a música popular brasileira. O projeto vem reunindo, desde fevereiro, mensalmente, artistas da nova geração da nossa música, para a releitura das canções tropicalistas, com poetas consagrados, para a leitura de textos/poemas de bossa tropicalista.

Para esta edição de abril, o imenso prazer de receber só feras: a atriz e cantora Juliana Linhares (cantora e integrante da banda “Pietá” e do projeto “Iara Ira”, ao lado das cantoras Júlia Vargas e Duda Brack), o cantor, compositor e videomaker Mihay (o Mihay já cantou com o Chico César, excursionou com o João Donato, e tem, no seu segundo disco, participação da Tulipa Ruiz, Mariana Aydar, do Robertinho Silva, Kassin, e do próprio João Donato, entre outros), o instrumentista-violonista Helio Moulin (o Hélio é filho do monstro violonista e guitarrista da música popular brasileira e do jazz Helio Delmiro, que tocou com Elis Regina, Clara Nunes, Milton Nascimento, a diva da música norte-americana Sarah Vaughan, entre outros), e o poeta vencedor do prêmio Jabuti de poesia (o mais importante prêmio literário, pelo seu belíssimo livro “Ópera de nãos”) Salgado Maranhão.

Tudo divino-maravilhoso! Certeza de mais noites lindas para a música e para a poesia! E toda essa maravilhosidade “di grátis”!

Depois deste texto sobre o “Somos Tropicália”, um poema-canção que não é tropicalista porém foi composto por um mestre tropicalista e cantado pela musa tropicalista — Gilberto Gil e Gal Costa. Isso porque a Juliana Linhares, que é a grande cantora e intérprete que terei o prazer e a honra de receber no projeto, no espetáculo “Iara Ira”, canta com a Julia Vargas e a Duda Brack o poema-canção da publicação, poema-canção que é o meu preferido do álbum em que foi lançado, “O sorriso do gato de Alice”, da Gal. A Juliana, a Julia e a Duda abrem o “Iara Ira” com este poema-canção.

Sobre o “Somos Tropicália”: espalhem a notícia! Compartilhem a boa nova!

Esperamos todas e todos!

 

Serviço:

Gabinete de Leitura Guilherme Araújo apresenta –

SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento

Juliana Linhares, Mihay, Helio Moulin e Salgado Maranhão / Pocket-show e leitura de poesias
Dias 26/04 (4ª-feira) e 27/04 (5ª-feira)
A partir das 19h30
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada franca c/ contribuição voluntária
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre

Link do evento no Facebook: http://www.facebook.com/events/1881892262099199/
Página do projeto no Facebook: http://www.facebook.com/somostropicalia/
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(Extraído do livro “Gil — todas as letras”, organizado por Carlos Rennó, editora Companhia das Letras.)

 

para Gal Costa & Juliana Linhares

 

 

gilberto gil fez este poema-canção para gal costa, que foi dedicado à mãe da cantora, mariah costa penna, amiga do poeta-compositor & que havia morrido há pouco tempo.

a perda de uma pessoa que muito se ama, a que mais se ama, a grande amiga, aquela que sentimos ser a única pessoa a fazer absolutamente tudo & qualquer coisa para o bem-estar da cria, dos filhos: uma dor profunda, uma tristeza abissal, o recolhimento, o luto, a escuridão.

meu canto em momentos de escuridão é o meu grande amparo. minha voz é meu amparo em momentos difíceis.

minha voz, que é um aro de luz da manhã, que é um aro de luz que nasce do dia, voz solar, iluminada, voz brilhante, num momento de dor, de perda de alguém tão caro, a minha voz brota na gruta da dor.

mãe da manhã, mãe do raiar do dia, mãe da luz nascente do dia, mãe maria, mãe de todos nós, eu faria de tudo pra conservar vosso amor.

uma espécie de súplica, de pedido, à mãe da manhã, à mãe do raiar do dia, à mãe da luz nascente do dia, à mãe maria, à mãe de todos nós: pra conservar vosso amor, mãe da manhã, eu faria de tudo — a cada ano, eu faria uma romaria, eu faria uma oferenda, eu faria uma prenda, eu daria a vós uma flor. faria uma romaria, uma oferenda, uma prenda, daria uma flor — tudo para conservar o amor da mãe da manhã.

assim, na minha existência, a cada instante, teria direito a um grão, a um momento, a um pedaço, de alegria — e todos os grãos de alegria, por conservar o amor da mãe da manhã, seriam lembranças do vosso amor, lembranças do amor que a mãe da manhã me dedica.

santa virgem maria — mãe maria, mãe de todos nós —, vós que sois mãe do filho daquele que nos permite o nascer do dia, vós que sois mãe do filho daquele que nos possibilita a vida, daquele que nos determina a morte, santa virgem maria, mãe da manhã, mãe da luz, mãe solar: abençoai minha voz, meu cantar.

na escuridão da nostalgia causada pela perda de alguém que muito se ama, pela perda de alguém que nos é tão importante, tão caro, dai-nos a luz do luar.

na noite, na escuridão, na dor, na perda, no momento difícil: luz, sempre. seja qual for: solar ou lunar: luz, quero luz.

mãe da manhã, que assim seja.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Gil — Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

MÃE DA MANHÃ

Meu canto na escuridão
Minha voz, meu amparo
Aro de luz nascente do dia
Brota na gruta da dor
Mãe da manhã, de tudo eu faria
Pra conservar vosso amor

A cada ano, uma romaria
Uma oferenda, uma prenda, uma flor
A cada instante, um grão de alegria
Lembranças do vosso amor

Santa Virgem Maria
Vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia

Abençoai minha voz, meu cantar
Na escuridão dessa nostalgia
Dai-nos a luz do luar.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: O sorriso do gato de Alice. gravadora: BMG Ariola. artista e intérprete: Gal Costa. canção: Mãe da manhã. autor: Gilberto Gil.)

CRISTIANO MENEZES: POETA DE PRIMEIRA GRANDEZA, PESSOA DE PRIMEIRA LINHA
5 de setembro de 2016

Cristiano Menezes & Paulo Sabino

(Cristiano Menezes & Paulo Sabino)

Cristiano Menezes

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(A dedicatória para o meu exemplar de “Guardanapos”, livro de Cristiano Menezes)

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(Cristiano Menezes no projeto “Ocupação Poética”, coordenado por Paulo Sabino)
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Uma notícia tristíssima, que me deixou atônito desde recebida. Desde a notícia, querendo escrever sobre o acontecido, mas cadê palavra para começar? Pela falta, começo pelo início: quinta-feira, primeiro de setembro (01/09/2016), faleceu o querido amigo & grande poeta CRISTIANO MENEZES.

Cristiano Menezes: poeta de primeira grandeza, pessoa de primeira linha.

Eu, desde que conheci o Cristiano Menezes, através de outro grande poeta & querido amigo, Luis Turiba, apaixonei-me de imediato: por sua limpidez de alma, por sua bondade, por sua generosidade, por sua cordialidade, por seu carisma, por sua inteligência. Uma pessoa absolutamente apaixonante por tudo absolutamente. Honra & prazer poder conhecê-lo & trabalhar com o Cris, tê-lo como PARTE VIVA da história do projeto que coordeno, o Ocupação Poética (no dia em que o Cris fez o projeto ao lado do Luis Turiba, 9 de setembro, era aniversário dele & fizemos, no teatro Cândido Mendes, uma grande festa, digna do aniversariante).

Ele internou para operar & um dia antes da operação, falamo-nos. Prometi-lhe uma visita assim que ele deixasse o hospital. Não deu… Um nó na garganta, um choro preso no peito.

A notícia me bateu feito porrada pesada & inesperada. Imagine uma porrada numa situação inimaginável, que de tão inimaginável, de tão inesperada, até agora, não se entende de onde veio o soco. Esta é a sensação que me resta neste momento.

Como homenagem, três poemas do poeta + o vídeo de encerramento da sua noite no projeto que coordeno, o Ocupação Poética, noite linda, onde o Cris comemorou o seu aniversário — que está chegando, 9 de setembro.

Parabéns por tudo, Cris! Saúdo a sua existência!

Poeta de primeira grandeza, pessoa de primeira linha.

Nunca, por mim, os ensinamentos dos seus versos, da sua poética, serão esquecidos: sempre comigo mesmo, pois a jornada que é a vida é de cada um, a jornada que é a vida é intransferível, é inadiável, sem cordão que me proteja (do cordão, só a marca no umbigo), solto no mundo, solto para o próximo passo, livre para saborear os acontecimentos, senhor de mim, senhor dos meus desejos, senhor das minhas vontades, sempre pronto a conhecer, a desvendar, o novo, o inédito, sempre mantendo-me único, ímpar, longe do que se repita, do que seja mera cópia.

Ser genuíno, ser Paulo Sabino, como Cristiano Menezes foi genuinamente Cristiano Menezes.

(E que nunca se apague, que seja perene o endereço da origem do afeto, que nos faz sentir & merecer o calor dos apreços.)

Salve o poeta & amigo!

Tenho certeza de que os deuses & as musas estão em festa por receber poeta do seu quilate & pessoa da sua grandeza.

Saudades imensas, Cris. Sempre.

Saravá!

Beijo todos e, especialmente, o Cris.
Paulo Sabino.
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(do livro: Guardanapos. autor: Cristiano Menezes. editora: 7Letras.)

 

 

COMIGO MESMO

 

Não tenho mais o cordão
dele só a marca no umbigo
com frio no coração
aprendi o calor dos amigos

Podia ter morrido
junto com tudo o que matei
mas nasci atento
pras coisas que ainda não sei

E assim, a cada novo dia,
sempre dono do meu nariz
vivo o medo e a alegria
de quem está sempre por um triz

Na corda bamba é que se vê quem é
o passo adiante é pra quem está solto
lá embaixo a plateia está de pé
aqui no peito o meu mar revolto

O salto é meu
a mão, do companheiro,
e só quando me lanço
é que me sinto inteiro

Agradeço a carona
mas sou filho de mim mesmo
do norte, do sul
da minha vida a esmo

 

 

AOS MEUS FILHOS

 

Quando nascemos
herdamos o que antes foi feito
línguas canções
ritmos comidas
roupas jeitos

São signos que ficam
porque significam
pontos que se tecem
elos que se multiplicam

E que de nó em nó
haja sempre o novo
de Colombos destemidos
a descobrir o além
dos horizontes presumidos

Este é o desafio
da meada que nos compete
viver a inédita experiência que somos
manter-nos únicos
longe do que se repete

Mas na memória
esteja sempre o cais
de onde partimos
eterno porto
que não veremos jamais

E que nunca se apague
seja o perene endereço
a origem do afeto
que nos faz sentir e merecer
o calor dos apreços

 

 

CURRICULUM VITAE

 

Ginásio no São Bento
e Zé Bonifácio
clássico no Santo Inácio
o que não foi fácil
Cheguei a estudar Direito
mas saí errando por aí…
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Encerramento da noite, por Paulo Sabino, e o Parabéns pra você ao poeta aniversariante Cristiano Menezes.)

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: RAZÃO & EMOÇÃO UNAS, INDISSOCIÁVEIS
16 de agosto de 2016

João Cabral de Melo Neto

(O poeta)

Pedra do Frade

(A pedra)

Estrada Real_Diamantina (MG)

(O sertão)
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João Cabral de Melo Neto é um poeta que, em geral, todo poeta gostaria de ser (pelo menos um pouquinho). (Falo por muitos, eu sei.)

Sua poética é enxuta, econômica, e seu português, elegante, com mira certeira ao construir suas imagens pela economia de palavras. Diz-se que, por isso, João Cabral é um poeta também enxuto, econômico, nas emoções; que João Cabral é um poeta apenas “cerebral”.

Eu, na minha humilde percepção, porém convicto, sempre discordei disso. Porque, de fato, João Cabral é um poeta cerebral; “cerebral” no sentido de ter cada palavra milimetricamente pensada & posta no poema. Entretanto, atrelado ao seu trabalho cerebral, o de pensar — pelo recurso da economia — cada palavra milimetricamente posta no poema, vai no verso o que o emociona profundamente no mundo — vide o seu acervo temário.

João Cabral é um homem/poeta de profundezas, que olhou o seu povo de morte & vida severina, lamentou pelo rio de sua terra & infância, o seu Capiberibe, apaixonou-se por Sevilha & suas bailadoras, e admirou a poesia de Joaquim Cardozo, Augusto de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, W. H. Auden, Marianne Moore, Elizabeth Bishop, Marly de Oliveira, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Portanto, ao meu ver, o que é cerebral, na obra cabralina, é a formulação técnica da poesia; e o que é posto em verso com “precisão cirúrgica” (com a técnica) é banhado por seu olhar emocionado diante das coisas.

É assim que vejo, sinto, percebo, a obra do João Cabral. É este o João Cabral que me alucina, que me emociona.

Principalmente a segunda parte do poema abaixo, que é das coisas mais lindas do mundo, me serve de exemplo para ilustrar o escrito acima.

Um dos modos de educar-se pela pedra: (nascendo, vivendo) no Sertão: o Sertão & sua paisagem dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, paisagem sertaneja que, por dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, molda os sertanejos à pedra. No Sertão, a educação pela pedra é de dentro pra fora, isto é, do SERtanejo para o seu hábitat, a educação pela pedra é pré-didática, isto é, a educação pela pedra não é ensinada pela pedra: lá no sertão, a pedra, uma pedra de nascença, entranha na alma.

Como não se emocionar com essa percepção do poeta acerca do Sertão & suas gentes? Como negar o olhar emocionado, aliado ao rigor estilístico, de quem enxerga desta maneira?

João Cabral de Melo Neto é muito cerebral & também emoção sublimada.

E tenho dito.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

 

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

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Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

40 ANOS: CORAÇÃO NA BOCA, PEITO ABERTO — VOU SANGRANDO
24 de junho de 2016

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o fim de uma década, da década de 30, para o início de outra, da década de 40.

40 anos para chegar até aqui, para chegar onde cheguei.

e afirmo a quem me lê: começaria tudo outra vez se preciso fosse. a chama em meu peito ainda queima. saiba: nada foi em vão: nenhuma das tristes emoções, nenhuma das alegres emoções. 40 anos: nada foi em vão.

certamente foram necessárias todas as vivências para que o paulo sabino resultasse neste que aqui se apresenta depois de vencidas 40 primaveras.

40 primaveras: a fé no que virá & a alegria de poder olhar pra trás & ver que voltaria a viver neste imenso salão que foi & é a minha existência & seus acontecimentos.

neste imenso salão que foi & é a minha existência, a grande estrela, a musa maior, foi & é a poesia.

a experiência poética, para mim, é uma experiência existencial.

lendo poesia, interpretando os jogos semânticos criados nos, e entre os, versos, reinvento o homem que sou, e, reinventando-me, promulgo a minha constante atualização como homem, ao me perceber humano & mortal a cada ato, ao me perceber ser pensante & atuante na vida; é disso que vem a poesia.

pelo tanto que a poesia comporta, por tudo que a poesia pode, porque a poesia reinventa o homem em sua trajetória, a origem da poesia em nada difere da origem do homem, uma vez que, sem poesia, não há sequer a possibilidade do humano.

pois que a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele; não damos conta de tanto & criamos a poesia, os mitos & as lendas, que acabam por recriar o mundo.

em última instância: a experiência humana é experiência poética, é o modo que temos, que descobrimos, que inventamos, de viver, de experimentar, o mundo que nos cerca.

a poesia é uma condição — e condenação — do homem.

reinventando-me, a poesia me reafirma homem, mortal/ transitório/ inacabado, me reafirma ser pensante & pulsante entre as coisas.

sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.

por ser o verso aquele que pode lançar mundos no mundo, a minha voz, a minha garganta, está sempre à disposição do canto que a poesia contém.

a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele: por isso faço da minha vida a minha melhor poesia.

vida & poesia, poesia & vida: duas coisas, em mim, entrelaçadas, unas, entremeadas: duas coisas que, dentro de mim, não podem ter fim: vida & poesia, poesia & vida: dois azuis no mesmo azul — meu horizonte sem nuvem nem monte.

quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que, palavra por palavra, eis, aqui, neste espaço, uma pessoa se entregando.

coração na boca, peito aberto — vou sangrando: são as lutas desta nossa vida que eu estou cantando: as belezas & as vilezas, as claridades & as escuridões, o caminho aberto & o muro armado.

quando eu abrir minha garganta, essa força tanta (força que carrego nas cordas vocais por cantar a vida, por cantar a poesia), tudo o que você ouvir, esteja certa de que estarei vivendo.

veja o brilho dos meus olhos & o tremor nas minhas mãos quando estou no palco do teatro, dizendo poesia, isto é, dizendo a vida através da poesia.

e se eu chorar & o sal — das lágrimas — molhar o meu sorriso, sorriso que sustento na boca com o pranto do olhar, não se espante; ao invés de espantar-se com o meu sorriso alinhado ao meu pranto, cante, que o teu canto é minha força pra cantar, que o canto de quem canta comigo é de onde extraio a minha força & vontade & coragem de cantar o meu canto: canto de vida — que é o canto da poesia.

40 primaveras vencidas & eu não me arrependo de nada nas 40 voltas em torno do sol: começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor.

em mim o eterno é música (a música dos versos de um poema, a música dos versos de um poema-canção) & amor (pelo céu, pelo mar, pelo sol, pela pessoa, pela pedra, pelo bicho, pelo mato: pela vida).

eu deixar de cantar (o canto da poesia) ou deixar de gostar de você (vida): não há nada, no mundo, que possa fazer.

não há nada no mundo — nem nunca haverá.

em mim, o eterno é música & amor.

que venham mais 40 primaveras!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do álbum: De volta ao começo. artista: Gonzaguinha. autor dos versos: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

 

 

SANGRANDO

 

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa
Se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante
Cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: De volta ao começo. artista & intérprete: Gonzaguinha. canção: Sangrando. autor: Gonzaguinha. citação da canção: Começaria tudo outra vez. autor: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — ENCERRAMENTO: GERALDO CARNEIRO & MARTINHO DA VILA
6 de junho de 2016

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(Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila — Foto: AgNews)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro — Foto: AgNews)

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(Geraldo Carneiro & Paulo Sabino)

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(Martinho da Vila & Paulo Sabino)

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(Os participantes desta edição do projeto: Paulo Sabino, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Martinho da Vila, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Geraldo Carneiro, Tom Farias, Maria Gal, Ju Colombo, Maíra Freitas — Foto: AgNews)

Ocupação Poética_4 edição_12

(Ao final, Martinho da Vila assinando exemplares do seu livro “Barras, vilas & amores”)

Ocupação Poética_4 edição_17

(A dedicatória do meu exemplar: “Ao Paulo Sabino, este meu ‘Barras, vilas & amores’, com gratidão, Martinho da Vila”)
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“Querido
Saímos todos de alma lavada sim.
A noite foi linda, leve e feliz.
Parabéns pelo seu projeto encantador.
Que venham muitas outras edições…
Bjs
Cléo”

(Mensagem de Cléo Ferreira, esposa do Martinho da Vila, recebida no dia seguinte ao evento)

 

 

Aos interessados, o encerramento da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos 2 vídeos desta publicação, gravados, montados, editados & produzidos pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, a grande surpresa da noite: o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro lê “Escuta, cavaquinho!”, a sua primeira parceria com o grande homenageado da noite, Martinho da Vila, parceria até então inédita, integrante do próximo álbum do Martinho, ainda em produção, poema-canção que, segundo o cantor, é a primeira faixa do disco, abre o seu novo trabalho. Na seqüência, Martinho da Vila canta a capella, pela primeira vez em público, “Escuta, cavaquinho!”, apresentando a música ao seu parceiro letrista, que ainda não a conhecia. Notem que o Geraldo Carneiro lê uma versão do poema-canção que, ao virar canção, para caber na melodia desenhada pelo Martinho, sofre algumas transformações/alterações.

Mais uma vez, agradecer imensamente a todos os envolvidos no projeto, e em especial aos participantes desta 4ª edição. Foi linda!

Aproveito para convidá-los para a 5ª edição do projeto, que acontecerá no dia 15 de junho (quarta-feira), a partir das 20h, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), com um jovem & talentoso poeta (o mais jovem poeta a integrar o projeto) & participantes muito especiais.

Deixarei, aqui no blog, todas as informações sobre a próxima edição.

Espero que os senhores tenham se divertido tanto quanto nós, participantes, nos divertimos realizando.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Geraldo Carneiro lê o poema-canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!   (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa, a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria

Toca comigo pra que o nosso sonho se realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que no futuro possam ler
Que houve dois seres que se amaram tanto
Que misturaram a alegria e o pranto

Eu, violão, e você, cavaquinho
Eu, no bordão, e você, no chorinho
Sem saber se era noite ou se era dia
Felicidade?
A gente nem sabia
Só sabia que vivia no presente
Esse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em céu aberto
E o resto ganhando forma de saudade
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Martinho da Vila canta a capella a canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!  (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa e a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria.

Toca pra que um sonho realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que um futuro possam ler
Que somos seres que se amam tanto
E que misturam alegria e pranto

Eu, violão, você, cavaquinho
Eu, na canção, você no chorinho
Sem acordar se era noite ou se era dia
Felicidade?
Uma utopia
Que a gente curtia e vivia no presente
Desse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em carro aberto
E o futuro muito incerto mas já cheio de saudade

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA GAL, JU COLOMBO, PAULO SABINO & ELISA LUCINDA
2 de junho de 2016

Ocupação Poética_4 edição_36

(Maria Gal)

Ocupação Poética_4 edição_37

(Ju Colombo)

Ocupação Poética_4 edição_83

(Paulo Sabino)

Ocupação Poética_4 edição_39

(Elisa Lucinda)
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Aos interessados, 4 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o cantor, compositor & escritor Martinho da Vila, que tratam das histórias de amor que permeiam a trama do início ao fim: a  atriz & produtora Maria Gal lê trecho sobre a história de amor de Helena (Leninha) & o professor Adib; a atriz & arte-educadora Ju Colombo lê trecho sobre as histórias de amor de Helena (Leninha) & Basílio Mendonça, e do professor Adib & Eugênia; substituindo a cantora & compositora Fernanda Abreu, que não pôde comparecer por um compromisso inadiável surgido de última hora, o coordenador do projeto, o poeta Paulo Sabino, lê trecho sobre a história de amor de Josuel Ferreira & Teresi Aláfia; e a poeta, atriz & dramaturga Elisa Lucinda, num vídeo gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, lê trecho sobre a história de amor de Daomé Benino & Iana Smith.

Portanto, aos interessados, 3 histórias cujo assunto é de interesse & conhecimento do Martinho da Vila: as venturas & desventuras de amar, presentes na vida de qualquer homem amoroso.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Gal lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Estácio Adib de Araújo Calvo, sempre chamado de professor Adib, não era calvo. Seus cabelos levemente grisalhos davam uma aparência senhoril às suas trinta e poucas primaveras. De estatura maior que a média brasileira e com tez morena, olhos castanhos, primava por discreta elegância no vestir raramente esportivo. Sem ser nenhum Adônis, causava delírios de amor em muitas moçoilas. Além de professor, era um diretor, membro do conselho administrativo do colégio, que se esmerava em honrar o magistério tratando os alunos com ternura e respeito.

O flerte com Helena — que ele antes se recusava a tratar por Leninha, como todos — levou-o a ter crises de consciência que dificultavam seu sono e causavam-lhe pesadelos pedófilos. Dá pra imaginar?

Despertava sempre ofegante e, mesmo sem ser muito católico, benzia-se. De volta ao sono, tinha belos devaneios oníricos e amanhecia feliz.

(…)

Certos de que não estavam sendo observados, o compromisso foi selado por um beijinho, daqueles que chamamos de selinho.

O combinado foi no encerramento dos festejos juninos, realizado no Dia de Sant’Ana, 26 de julho. Foi difícil despistar os conterrâneos, mas conseguiram ficar uns minutos a sós. Então se entregaram ao primeiro beijo.

Num oito de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, no fim da missa noturna das seis, foguetes riscaram o céu, e os morteiros explosivos anunciaram a abertura da festa da padroeira.

(…)

Sorrateiramente nosso casal se esgueirou para a parte de trás da igreja e, naquele recanto ermo, a pupila se abriu como uma flor. E o professor, que tem a mesma responsabilidade de um preceptor, excitadíssimo, arvorou-se.

Sem resistência, Leninha capitulou.

Foi tudo muito rápido, uma entrega prazerosa, apesar de a jovem não ter atingido o ápice, o prazer pleno. Voltaram ligeiros para a praça e, tentando demonstrar naturalidade, separaram-se para disfarçar. Cada um a seu lado, tinham a impressão de que nos olhares de todos havia uma censura pelo que fizeram.

(…)

Mesmo muito apaixonados, devido às dificuldades, calculáveis em uma cidade pequena, o casal se encontrou pouquíssimas vezes. Cópula, só a primeira atrás da Igreja da Conceição, suficiente para a concepção, pois um espermatozoide complicador foi direto ao óvulo e o fecundou.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Ju Colombo lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Pouco tempo corrido após a partida de Leninha, Adib passou a assediar Eugênia, como se sabe, sua ex-amante. Ela só correspondeu ao receber um pedido de noivado com proposta de casamento rápido. O enlace do diretor e da pedagoga aconteceu em uma cerimônia simples e lamentosa para o colégio, pois na ocasião eles anunciaram que iriam morar em Brasília.

Quando Leninha chegou de lá com o filho, já registrado como Josuel Wermelingerthal Lutherbach Ferreira, entristeceu-se com a notícia do casório do inesquecível Ernesto Adib, mas alegrou-se ao encontrar seu quarto do jeito que deixou, bem arrumadinho e com todos os seus pertences da infância. Outro foi preparado para Josuel, um aposento espaçoso, pois não havia compartimentos pequenos naquela grande casa, sede da fazenda Barras Três.

(…)

Com a volta dela de Brasília, falsamente viúva, o primo voltou a ficar mais tempo na fazenda. Ao vê-la de prima, não lhe deu novos pêsames. Abriu-lhe um grande sorriso e ela, por ter de demonstrar tristeza teatral, sorriu levemente. Nos seguintes convívios, Mendonça fazia de tudo para distrair Helena, conversando alegremente com ela nos raros momentos em que ficavam sós. Na presença de seu Salvador e dona Úrsula, trocavam olhares cúmplices e sorrisos comprometedores. Nas chegadas e despedidas, discretas carícias manuais.

O namorico foi longo, mas o namoro durou pouco tempo. Começou depois do noivado.

Calma, amigos, explico! No aniversário de 21 anos, o Basílio Mendonça, que já foi “tio Memê” sem nunca ter sido tio e priminho sem ser primo, deu-lhe um anel de pérola e subitamente surpreendeu a todos com um pedido de casamento.

Leninha lacrimejou de felicidade, o choro foi acompanhado pela mãe, que molhou um lenço inteiro. O severo pai manifestou seu desagrado por eles estarem namorando às escondidas, mas aceitou o pedido sob uma condição: teriam de morar na fazenda Barras Três, exigência prontamente aceita.

Eu disse que o namoro foi curto, e foi. Deram logo entrada nos papéis.

Quem não gostou nadinha do casório foi o Josuel. Passou a dormir sozinho, e ainda tinha de dividir as atenções da mãe com o padrasto.

O ciúme aumentou quando nasceu um irmãozinho, paparicadíssimo por todos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Josuel passou uns anos na Guiana, foi nomeado para a Costa do Marfim e, após três anos, foi transferido para Benim, onde não havia embaixada. Como no Togo e em Gana, a diplomacia era de responsabilidade de um único embaixador, cuja sede ficava em Lagos, na Nigéria.

De todas as cidades onde esteve, a de que mais gostou foi Cotonou, no Benim, antigo Reino de Daomé, que tem uma história incrível. Portugal dominou o país por longo período e de lá foram enviados para o Brasil, mais especificamente para Bahia e Maranhão, um número incomensurável de escravos. Muitos deles, bem como alguns alforriados, conseguiram retornar para sua terra a partir das revoltas antiescravagistas. Formaram uma comunidade de brasileiros na cidade de Ouidah, onde havia um museu da escravatura e muita gente falava português.

A França colonizou o país até 1975. Depois de libertado com a ajuda soviética, o país adotou o nome de República Popular do Benim.

Entretanto, não é por sua história que o cônsul Josuel gosta muito daquele país de comunistas e candomblecistas. É que lá ele conheceu Teresi Aláfia, uma preta descendente da extinta nobreza, pela qual se enamorou. A jovem ficou grávida, e ele recebeu a notícia da gravidez via telefone, quase ao mesmo tempo em que foi informado por ofício que seria reconduzido ao Brasil.

Que situação! O que dizer ao pai da jovem que nem conhecia?

(…)

O casamento foi realizado na ampla residência da noiva, com muitos convidados.

A cerimônia, baseada no cristianismo, ocasião em que todos os presentes envergavam trajes africanos coloridos, tornava o ambiente alegre e emocionante. Tudo muito bonito. Os nubentes, lindos de azul em dois tons, únicos a usar tais cores, penetraram juntos na sala ao som de marimbas e outros instrumentos sonoros, sob aplausos.

Quando o padre, com seus paramentos brancos, os declarou marido e mulher, atabaques estrategicamente colocados nos cantos da sala retumbaram e todos dançaram. Que beleza, imaginem!
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Elisa Lucinda lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Desde o primário, sempre foi aluno aplicado, aplicadíssimo mesmo. Sua vida infantil e adolescente sempre foi dedicada aos livros e aos cadernos escolares. Tanto é que não chegou a curtir namoricos infantis como seus colegas, e era queridíssimo das professoras, quase todas jovens e belas, pelas quais seus amiguinhos se trancavam a sós nos banheiros. À boca pequena diziam que ele era afeminado.

No prédio onde morava havia uma bela garota, daquelas que aos 11 anos já sentem os calores vaginais, se masturbam e orgasmam. Chamava-se Iana Smith. Por volta dos 12 já tinha beijado muitos meninos, e com 13 seu corpo já havia sido visitado por mãos de afoitos rapazolas em lascívias pelos cantos do condomínio, que tem lugares muito propícios. No início dos 14 virou mulher, das boas. Mulher boa é a que gosta de transar, que se entrega por gosto.

Filha de sul-africanos de origem holandesa, daqueles que não se misturam, era carioquíssima, porém não muito típica fisicamente. Sem o perfil das cariocas, da gema ou não, atraía os olhares de todos na praia da Barra por sua brancura e trejeitos. Seus cabelos muito louros pareciam fios de ouro, e os olhos de profundo azul ornamentavam seu belo rosto de semblante meigo. De estatura mediana, não tinha a “preferência nacional” chamativa, e a “comissão de frente” não era de grande escola do grupo especial, mas também não era das pequenas do segundo grupo. Entretanto, era muito sexy, sabia que era, gostava de ser paquerada, usava bem sua chamativa sexualidade.

O rapaz que transformou Iana em mulher logo foi dispensado a favor de outro, então chorou muito no colo da mãe, que passou a odiá-la. Este outro se apaixonou perdidamente e, substituído, lacrimejou também. O mesmo aconteceu com não sei quantos, até que ela, intrigada porque Benino não a assediava, pensou em conquistá-lo.

(…)

Os namoros da lourinha eram pouco duradouros, efêmeros. O tempo maior foi o do seu namorico com uma professora sua, mas também não durou muito. Abandonada, a mestra sofreu bastante. Mandou-lhe flores na tentativa de reatar, mas não a sensibilizou.

Surpreendentemente o caso de Iana Smith com Daomé Benino vingou.

A loura dilaceradora de corações foi flechada por Cupido, o Deus do Amor, ou melhor, foi atingida por um anjo e ficou caída por ele.

(…)

Benino já havia sido festejado pelos pais com a boa notícia da nomeação. A mãe já tinha aberto um sorriso com todos os seus dentes de marfim com o par de mãos ao alto, mirando o teto e vendo um céu de olhos fechados, dando graças a Deus, cena ocorrida antes do entendimento com a apaixonada Iana.

Depois fez a comunicação do pedido de casamento, à mesa do jantar, já com postura de diplomata:

— Meus queridos, vocês são os melhores pais do mundo. Nunca nos falamos, mas vocês sabem que eu namoro a vizinha do último andar. Pretendo me casar e levá-la comigo para o Uruguai.

Pai Josuel não se manifestou. Mãe Teresi contraiu a face, franzindo a testa:

— Não simpatizo nem um pouquinho com ela. Sinceramente não aprovo esta sua atitude. Casamento é coisa séria. Dá um conselho a ele, marido!

— Mulher, ele não pediu nossa opinião, está nos comunicando sua decisão. Apesar disso, tenho que dizer que não acredito que a união vai dar certo. Pense bem, filho.

— Tá. Vou pensar.

O pai dele não acreditava que Iana seria uma boa esposa por ter a fama de namoradeira volúvel, mas nada mais falou. A mãe sabia, mas calculava que o nome da moça era uma homenagem a Ian Smith, líder da antiga Rodésia, hoje Zimbábue, adepto do apartheid. Achava que os pais dela deveriam ser racistas, mas silenciou. Nada mais falaram no jantar.

Sabedores da desaprovação mútua, a solução foi o casal pegar sorrateiramente suas certidões de nascimento, dar entrada nos papéis, casar às escondidas e comunicar às famílias que iam morar no Uruguai. Planejado e feito.

Receberam as passagens para Montevidéu como se fora um presente de casamento para viver uma lua de mel.

ALL STAR: ESTRANHO SERIA SE EU NÃO ME APAIXONASSE POR VOCÊ
15 de dezembro de 2015

Cássia Eller

All Star Azul
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“Ô meu bem, obrigada. Me emocionei com sua homenagem à Cássia. Vou te mandar o que escrevi quando a perdemos. Beijos poéticos procê, Paulo!”

(Elisa Lucinda — poeta, atriz & dramaturga)


“Querido Paulo Sabino,

Elisa Lucinda merece amplo reconhecimento . Sua poesia arrebata, não trai . Sou sua leitora e já me pronunciei sobre ela em diversas ocasiões.

O abraço afetuoso da

Nélida Piñon”.

(Nélida Piñon — escritora & membro da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

Estou com ela muito presente na minha cabeça.

Se entre nós, ela teria aniversariado há pouco. O título do seu último álbum (eu possuo absolutamente todos, inclusive o de gravações avulsas), lançado depois da sua morte, é a data do seu aniversário — 10 de dezembro.

Quem me conhece, os amigos do peito, sabe que, depois de Maria Bethânia, a grande responsável por trazer poesia à minha vida, a intérprete/cantora que mais me emociona, mais me comove, por quem sou louco de paixão até hoje, é ela — Cássia Eller.

Cássia, até hoje, faz uma falta abissal na minha existência, como nenhuma cantora até então. Assim como Bethânia, tinha a capacidade de revelar belezas — antes ocultas — nas canções que escolhia para cantar, simplesmente pelo seu modo de mastigá-las & devolvê-las ao ouvinte/espectador.

Para mim, foi a maior que tivemos. Nunca fabricaremos algo tão potente quanto Bethânia & Cássia.

Por tanto, por tudo, em sua homenagem, esta canção, feita para ela por um amigo & parceiro de estrada. Uma canção que me emociona muitíssimo, porque eu realmente gostaria de tê-la conhecido, gostaria imensamente de ter tido a chance de uma conversa, um bate-papo.

A canção é uma declaração de amor à amizade que envolveu, muito rapidamente, o autor & a grande intérprete das suas canções.

Uma curiosidade: à época em que trabalhei num programa de tv exibido pela extinta TV Educativa (TVE – RJ), que é a mesmíssima época do lançamento desta canção, a chefe geral do meu setor, e também diretora do programa de cuja equipe fiz parte, era vizinha da Cássia. De fato, Cássia morava em Laranjeiras, no 12º andar (minha ex-chefe & a Cássia foram vizinhas de porta).

Essa “proximidade” da minha ex-chefe com a Cássia — vizinhas de porta — me trazia uma certa sensação de “intimidade” com a cantora, pelas “histórias de vizinhança” que me chegavam.

(Estranho, mas me sinto como um velho amigo da Cássia…)

Vivas a ela, vivas à sua voz, vivas à sua presença na minha vida!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro. artista: Nando Reis. autor dos versos: Nando Reis. gravadora: Warner Music.)

 

 

ALL STAR

 

Estranho seria se eu não
me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias
mas a Terra avisto em você
O som que eu ouço são as gírias
do seu vocabulário

Estranho é gostar tanto
do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das
Laranjeiras
Satisfeito, sorri
Quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o doze que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
E ficou pra hoje

Estranho mas já me sinto
como um velho amigo seu
Seu All Star azul combina com o meu,
preto, de cano alto
Se o homem já pisou na Lua
como ainda não tenho o seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas
pra tua voz parece exato

Estranho é gostar tanto
do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das
Laranjeiras
Satisfeito, sorri
Quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o doze que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem

Laranjeiras
Satisfeito, sorri
Quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o doze que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
E ficou pra hoje
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro. artista & intérprete:Nando Reis. canção: All Star. autor da canção: Nando Reis. gravadora: Warner Music.)


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(do site: Youtube. artista & intérprete:Cássia Eller. canção: All Star. autor da canção: Nando Reis.)

É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

O NETO DE UM EX-CAPITÃO DA AREIA
11 de novembro de 2015

Eu Vovô

(Paulo Sabino, ainda pequeno, e seu avô, o ex-capitão da areia & violonista baiano Waldemar Sabino.)
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o que me motivou a ler o livro que integra esta publicação foi puro sentimento.

meu avô paterno, pai do meu pai, waldemar sabino, foi um baiano de salvador que, sabia eu, fora menino de rua durante uma parte da sua infância, quando morreram seus pais & sua avó enlouqueceu (diz-se que a velha andava descalça pelas ruas do pelourinho, falando sozinha).

no entanto, sabe-se lá por que, talvez pela minha proximidade de neto & por não constituir exatamente a imagem do meu avô como um menino de rua durante parte da sua infância, fiquei surpreso quando, há pouco tempo, minha mãe, a minha cabocla jurema armond, me contou que, segundo o meu avô, até a reviravolta que deu a sua vida por causa do violão & da música, a sua biografia, no período de abandono, quando perambulava pelas ruas de salvador, é a história retratada no livro, do seu grande & admirado conterrâneo, jorge — mais que — amado.

apesar de fictícios os personagens & o grupo, intitulado “capitães da areia” (são meninos que se abrigam no cais do porto de salvador, num trapiche abandonado, de frente prum areal, e que furtam, roubam, ferem, na luta pela sobrevivência diária), jorge amado dá ao seu romance um tom de veracidade através da construção da sua narrativa, tocando, de forma lírica & contundente, num problema que assola o país desde que chamaram estas terras de brasil: as crianças que são socialmente abandonadas, crianças marginais (porque estão à margem da sociedade, não integradas), crianças alijadas dos deveres & direitos de um estado, de uma nação.

para a sorte de waldemar sabino, num dos dias em que andava pelas ruas de salvador, ouviu uma música que vinha de um bar da rua por onde passava. resolveu parar na porta & ficou completamente fascinado pelo violão que tocava, acompanhado por outros instrumentos, alguns sambas-canções. waldemar sabino voltou ao bar todos os dias, e assistia com gosto à apresentação dos músicos, especialmente à do violonista & seu violão. de tanto aparecer & já demonstrando interesse pelo instrumento, o violonista do bar perguntou se ele gostaria de aprender a tocar o instrumento. waldemar sabino fez que sim & logo na seqüência o violonista tornou-se seu “padrinho” (como ele gostava de chamar) & tutor, o dono do violão que en-cantou seu coração. aos dezoito anos resolveu tentar a sorte numa cidade maior, o rio de janeiro. como todo nordestino pobre & artista, passou por muitas dificuldades, até que, mais uma vez, a sorte lhe sorriu: a oportunidade de integrar a orquestra de uma rádio & ter seu ordenado fixo — além dos extras com as apresentações que fazia quando não tocava na orquestra—. assim waldemar sabino comprou sua casa ampla com um belíssimo & enorme quintal, criou & educou seus filhos, e recebeu a família para almoços aos domingos, onde, sempre após as refeições, ele tocava suas canções preferidas — muito dorival (caymmi), muito herivelto (martins), muito ataulfo (alves), muito cartola, e uns tantos boleros.

foi um baiano orgulhoso de sua história & sua terra — até morrer, seus maiores ídolos foram jorge amado & dorival caymmi, e tinha um respeito imenso por joão gilberto.

(herdei a sua coleção de livros do jorge — mais que — amado & alguns dos seus discos do dorival.)

a lembrança maior que tenho do meu avô é a dele com seu violão para tudo que é lugar, levava-o sempre que podia.

ler este romance pela primeira vez quase aos quarenta anos foi um resgate da minha história, de um passado que resultou em mim & nos que chegam em minha família. terminei o livro muito emocionado, com meu avô muito na cabeça, “a sua biografia”, pensando na sua felicidade por ter alcançado um destino feliz, pensando no que poderia ter-lhe acontecido se ele não passasse por aquela ruazinha da sua velha são salvador, não ouvisse os acordes daquele que se tornou o seu maior amante & não tivesse o acolhimento daquele que se tornou seu padrinho.

porque sabemos que o destino de waldemar sabino, infelizmente, não foi o mesmo da imensa maioria dos capitães da areia.

fica a minha homenagem a estes dois belos baianos: ao waldemar & ao jorge, que, mesmo não sabendo, escreveu a biografia do meu avô, do meu eterno & terno capitão da areia.

beijo todos!
paulo sabino.
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(trechos do livro: Capitães da areia. autor: Jorge Amado. editora: Martins.)

 

 

“Depois o Sem-Pernas ficou muito tempo olhando as crianças que dormiam. Ali estavam mais ou menos cinqüenta crianças, sem pai, sem mãe, sem mestre. Nada possuíam além da liberdade de correr as ruas. Levavam vida nem sempre fácil, arranjando o que comer  e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmolas. E o grupo era de mais de cem crianças, pois muitas outras não dormiam no trapiche. Se espalhavam nas portas dos arranha-céus, nas pontes, nos barcos virados na areia do Porto da Lenha. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de moléstia que ninguém sabia tratar. Quando calhava vir o padre José Pedro, ou a mãe-de-santo Don’Aninha ou também o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remédio. Nunca, porém, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando.

E achava que a alegria daquela liberdade era pouco para a desgraça daquela vida.”

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“— Não deixam os pobres viver… Não deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre não pode dançar, não pode cantar pra seu deus, não pode pedir uma graça a seu deus. — Sua voz era amarga, uma voz que não parecia da mãe-de-santo Don’Aninha. — Não se contentam de matar os pobres à fome. Agora tiram os santos dos pobres… — e alçava os punhos.”

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“— Ainda não vai dizer? — perguntou o diretor do Reformatório. — Isso é só o começo.

— Não — foi tudo o que Pedro Bala disse.

Agora davam-lhe de todos os lados. Chibatadas, socos e pontapés. O diretor do Reformatório levantou-se, sentou-lhe o pé, Pedro Bala caiu do outro lado da sala. Nem se levantou. Os soldados vibraram os chicotes. Ele via João Grande, Professor, Volta Seca, Sem-Pernas, o Gato. Todos dependiam dele. A segurança de todos dependia da coragem dele. Ele era o chefe, não podia trair. Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho encheu seu peito. Não falaria, fugiria do Reformatório, libertaria Dora. E se vingaria… Se vingaria…

Grita de dor. Mas não sai uma palavra dos seus lábios.

(…)

Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era um pequeno quarto, por baixo da escada, onde não se podia estar de pé, porque não havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque não havia comprimento. Ou se ficava sentado, ou deitado com as pernas voltadas para o corpo numa posição mais que incômoda. Assim mesmo, Pedro Bala se deitou. Seu corpo dava uma volta e seu primeiro pensamento era que a cafua só servia para o homem cobra que vira, certa vez, no circo. Era totalmente cerrado o quarto, a escuridão era completa. O ar entrava pelas frestas finas e raras dos degraus da escada. Pedro Bala, deitado como estava, não podia fazer o menor movimento. Por todos os lados as paredes o impediam. Seus membros doíam, ele tinha uma vontade doida de esticar as pernas. Seu rosto estava cheio de equimoses das pancadas na polícia, e desta vez Dora não estava ali para trazer um pano frio e cuidar do seu rosto ferido.”

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“A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques, que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes, onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros. Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães da Areia. Uma voz que vem das filhas-de-santo do candomblé de Don’Aninha, na noite que a polícia levou Ogum. Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do Reformatório e do Orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador para não se entregar. Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião, pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura. Que vem dos quadros do Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: ‘companheiros’. Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba alegre de negro, como o ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos chamava Volta Seca para o grupo de Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade.”

4ª EDIÇÃO SARAU DO LARGO DAS NEVES — AGRADECER PROFUNDAMENTE
29 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_Junho 4

Sarau Largo das Neves_Junho 1

Luis Turiba & Paulo Sabino

(Na foto, o poeta Luis Turiba.)

Sarau Largo das Neves_Junho 3
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Gente do meu coração,

É tanta coisa, tanta, que nem sei como começar este texto… Talvez dizendo que fiquei acordado até às 6h da manhã, sem conseguir desligar, depois da 4ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), revivendo um tanto do encontro onde comemorei os meus 39 anos, tamanha energia boa, alegre, festiva, que tomou conta de todos & contagiou a praça.

A noite foi linda! As escolhas poéticas, as melhores possíveis, e as leituras foram arrasadoras!

A minha mãe, a cabocla Jurema Armond, está numa alegria só! Quando voltávamos para casa, terminado o sarau, ela disparou: “meu filho, procure cultivar sempre o amor & o carinho dos seus amigos, porque essa turma é bonita demais, você não deve se afastar”. Ela realmente ficou impressionada com a vibração, com a energia, que os participantes conseguiram imprimir & deixar em Santa Teresa.

Estou aqui em puro estado de poesia, que é o estado de graça, que é o estado de felicidade plena, o êxtase decantado & tão-só. Amor da cabeça aos pés!

Eu só tenho a agradecer, profundamente!, a existência de cada um que tornou a noite do dia 25/06 das coisas mais emocionadas que eu já vivi.

Agradecer profundamente & especialmente ao grande & admirado poeta Luis Turiba (na foto), que me deu a honra das suas presença & leitura, recitando o seu lindíssimo poema “Língua à brasileira”.

Agradecer profundamente os livros & cadernos que ganhei, adorei todos!

Agradecer, também profundamente, a presença das pessoas que foram ao sarau & que eu não conhecia & que se emocionaram com tudo aquilo que vivenciamos. Obrigadíssimo, gente nova & querida! Espero que, a partir desta última edição, vocês ajudem a engrossar o caldo!

Viva são João!
Viva a poesia!
Viva vocês, meus amigos, irmãos de jornada!

Mês próximo tem mais!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)

 

 

PROFUNDAMENTE

 

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.