LIVRO DE ESTRÉIA (PAULO SABINO): UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
31 de outubro de 2017

(Paulo Sabino e Armando Freitas Filho)
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Desde que nos tornamos próximos, Armando Freitas Filho (comigo na foto há tempos atrás) é o poeta a quem eu submeto os meus versos à crítica/ avaliação/ opinião. Porque o Armando, além de ser um dos maiores poetas brasileiros da atualidade, é extremamente atencioso nas suas críticas/ avaliações/ opiniões. Aprendo muito com ele. Estou muito animado por decidir – finalmente! – lançar o meu livro de poesia de estréia, o livro primeiro do Paulo Sabino vendo-se, e vendendo-se, um profissional dos versos. O livro vai chamar-se “Um para dentro todo exterior”, título de um poema que o compõe. Além de escrever ao Armando contando o que escrevo aqui, mandei-lhe o mais novo poema, “Montanha russa”, nascido de uma prosa poética minha que, desde sempre, pensava em transpor para os versos. Sobre os dois poemas (“Um para dentro todo exterior” e “Montanha russa”), Armando escreveu: 

 

“Nada como um escritor criar um estilo que, com o passar do tempo, vai dando chances de ramificações sem perder a sua origem, como é o caso. Você já engatilhou o seu modo de ser e de escrever. Já plantou firmemente seus dois poemas verticais, altos como você.”

 

 

Alegria imensa!

2018: o meu livro de poemas! A decisão foi tomada porque até então não encontrava título que me satisfizesse, de que gostasse. Há pouco tempo me ocorreu o nome, muito propício. Isso me trouxe um ânimo que não havia. Com um nome, me parece mais fácil formatar a obra. E está mais do que na hora de lançar ao mundo o meu rebento poético!

A vocês, o poema que dará nome ao livro de estréia do Paulo Sabino acompanhado de um textinho a respeito do poema, que acaba por elucidar a importância da escolha do título .

Beijo todos!

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o mundo possui os seus mistérios embora destes não faça segredos: se se for capacitado a desvendá-lo, a desvendar o mundo, bem; se não, bem também. a questão do desconhecimento do mundo não está no mundo, mas na carência nossa de instrumentação necessária ao conhecimento do mundo, à apreensão das coisas mundanas: todas as coisas ao alcance dos dedos.

o mundo é um: o mundo, e nada mais. o mundo é um: único, ímpar, singular, ele & nada mais.

nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.

o mundo é um todo exterior: se o homem não possui olhar capacitado a enxergar, sem a ajuda de aparelhos, os átomos dançando ao vento, isso não é problema do mundo. não é o mundo que esconde os átomos que bailam ao vento: é o homem que não possui a capacidade de enxergá-los a olho nu.

por essa & por outras incapacidades o homem apreende o seu entorno de maneira errante, de modo movediço.

o mundo, assim, à nossa experiência, torna-se um “para dentro” (necessita-se de um aprofundamento no conhecimento de qualquer objeto que se queira bem conhecer) “todo exterior” (o mundo está à mostra, às vistas de quem possa ver o que está às vistas).

o mundo (à nossa experiência): o oculto às claras, fundura em superfície, o mistério sem segredos:

nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.

(nada a esconder mesmo que muito por saber…)

o mundo é mistério não porque seja misterioso mas porque não possuímos a capacitação necessária para enxergá-lo na sua totalidade & em suas especificidades.

somos muito muito muito pouco ante a sua grandeza.

(pensem a respeito.)

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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR

 

nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber

o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior

nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:

o  oculto
às  claras

fundura
em  superfície

o  mistério
sem  segredos:

todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos

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LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
25 de julho de 2017

(Na foto, o convite para o lançamento)
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Na próxima segunda-feira, dia 31 de julho, a partir das 19h, na Casa do Saber (shopping Leblon — av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 101, 1º piso), a poeta e psicanalista Sandra Niskier Flanzer lança o seu mais novo livro de poesia, “Do quarto”, pela editora 7Letras.

Recebi, da autora, o convite, que muito me honra e alegra, para fazer um recital, onde lerei poemas do livro entrelaçados a poemas de outros poetas que inspiraram a criação de algumas peças poéticas ou que conversam com as leituras da noite. Então, além dos novos poemas da Sandra Niskier Flanzer, teremos a leitura de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Antonio Cicero, Armando Freitas Filho, Fernando Pessoa, entre outros.

O lançamento começa às 19h e o recital, às 20h. Todos mais que convidados.

De brinde, deixo, aqui, um dos poemas “Do quarto” da Sandra, um poema lindo, que fiz questão de selecionar para a leitura, que nos incita a aproveitar a vida, a gastá-la, a usá-la, a deixá-la escorrer, a roê-la, a raspá-la, a fincar as unhas no umbigo do mundo, a fim de que o tempo que nos cabe valha a pena, valha a dor, valha a lágrima, valha a risada, valha a alegria, valha o bem-estar; a fim de que o tempo que nos cabe, em sua inutilidade (pois a vida, em si, não possui sentido, a não ser o sentido que damos a ela de acordo com os nossos objetivos e desejos), seja satisfatório, a ponto de gostarmos da vida, a ponto de gostarmos das nossas experiências vidafora, almadentro.

(A vida gosta de quem gosta da vida, não nos esqueçamos nunca desta lição.)

Venham! Eu e a Sandra esperamos vocês!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

IN UTILIZAR

 

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bica
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa justo.
Perder, perder, ceder ao outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): OS VÍDEOS III
29 de setembro de 2015

Paulo Sabino_10 de Setembro 2015

(Paulo Sabino)

Claufe Rodrigues_10 Setembro 2015

(Claufe Rodrigues)

Mauro Sta Cecília_10 Setembro 2015

(Mauro Sta Cecília)
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Aos interessados, mais 6 vídeos da 2ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido nos dias 9 (quarta-feira) & 10 (quinta-feira) de setembro, no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de 4 feras da poesia contemporânea: Luis Turiba, Cristiano Menezes, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues!

Nos vídeos que seguem, os participantes do segundo dia do projeto, 10/09, os poetas Claufe Rodrigues & Mauro Sta Cecília. Ambos recitam poemas da própria autoria.

Eu recito, no meu primeiro vídeo, um poema de um dos meus grandes conselheiros na poesia, o imprescindível Armando Freitas Filho, e no meu segundo vídeo recito um poema que descobri ter virado canção há pouco tempo, poema do querido amigo (participante da 1ª edição deste projeto) Antonio Cicero.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita A mão que escreve, poema de Armando Freitas Filho.)

 

(Armando Freitas Filho)

A mão que escreve
na mesa burocrática
não pode sonhar e
escrava, se arrasta
no deserto, ao rés do chão
através de resmas e lesmas
a léguas de qualquer relva
e só serve minutas
adendos e remendos
tudo em formato ofício
em papel-timbrado
enquanto o poema, ao longe
tenta, em cada entrelinha
levantar voo, a cabeça
como uma águia
feito uma onda.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita Consegui, poema de Antonio Cicero.)

 

CONSEGUI  (Antonio Cicero)

eis o que consegui:
tudo estava partido e então
juntei tudo em ti

toda minha fortuna
quase nada tudo muitas coisas
numa

só:
eu quis correr esse risco antes de virar
pó:

juntar tudo em ti:
toda joia todo pen drive todo cisco
tudo o que ganhei tudo o que perdi

meu corpo minha cabeça meu livro meu disco
meu pânico meu tônico
meu endereço
eletrônico

meu número meu nome meu endereço
físico
meu túmulo meu berço

aquela aurora este crepúsculo
o mar o sol a noite a ilha
o meu opúsculo

meu futuro meu passado meu presente
meio aqui
e meio ausente

meu continente meu conteúdo
e além de todo o mundo
também tudo o que é imundo tudo

o medo e a esperança
algo que fica
algo que dança

o que sei o que ignoro
o que rio
e o que choro

toda paixão
todo meu ver
todo meu não

tudo estava perdido e aí
juntei tudo
em ti ______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Claufe Rodrigues recita Como reconhecer um poeta, poema de sua autoria.)

 

COMO RECONHECER UM POETA  (Claufe Rodrigues)

Nem todo sujeito estabanado é poeta

mas com certeza todo poeta é um ser estabanado.

Se senta sempre do lado errado

tropeça na peça mais cara da mobília

se bobear beija a mãe, a vó e a filha

está sempre em guerra com a braguilha

bebe cachaça  na taça de vinho

corteja a mulher do vizinho

sonha com um ninho de gatas

louras, ruivas e mulatas

mas acorda sempre sozinho.

O poeta só não é um desastre

…………quando escreve, quando fala,

……………………quando escala os altos cumes

……………………………….da língua.

Ali ele é o perito, o eleito,

o cara perfeito que toda sogra quer ter na família.

Até o rabisco é risco calculado

compasso de música, exato

como o símbolo do infinito.

Nas altas esferas, o poeta doma todas as feras,

domina a intensidade de cada grito.

Captura, em essência,

o que dizem as nuvens,

quando chovem no cio.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Claufe Rodrigues recita Todo poema, de sua autoria, que, depois de publicado em livro, foi rebatizado pelo poeta amazonense Thiago de Mello com o título Floresta.)

 

FLORESTA  (Claufe Rodrigues)

Todo poema grita

cada palavra é um pedido de socorro

na gruta infinita da boca

E há um adeus em qualquer sílaba

uma floresta

em festa

queimando dentro de nós.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Mauro Sta Cecília recita Ela, poema de sua autoria.)

 

ELA  (Mauro Sta Cecília)

A mulher loura, em pé no ponto
de ônibus, tira da bolsa o esmalte
vermelho e faz as unhas da mão
enquanto o ônibus não chega.

Ela não vai descansar.
A palavra descanso não faz
parte do dicionário de sua vida.
Ela pode algum dia atingir
quase o limite de suas forças.
Mas ela dorme, recupera as
forças e segue em frente.
E esquece a palavra cansaço.
Porque há muitos jovens que
já nasceram cansados e andam
cansados o dia inteiro. E porque
depois há toda a eternidade
que é um tempo que nem passa
pela sua cabeça.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Mauro Sta Cecília recita Por você, poema de sua autoria. Participação [guitarra]: Julio Santa Cecília.)

 

POR VOCÊ  (Mauro Sta Cecília)

por você, eu limparia os trilhos do metrô
eu iria a pé do Rio a Salvador
por você, eu roubaria uma velhinha
eu dançaria tango no teto da cozinha
por você, eu adoraria a disciplina japonesa
eu aprenderia a fazer cara de surpresa
por você, eu viajaria a prazo pro inferno
eu tomaria banho gelado no inverno
por você, eu hoje até deixaria de beber
eu enfrentaria um lutador de caratê
por você, eu ficaria rico em um mês
eu dormiria de meia pra virar burguês
por você, eu só sentiria essa febre
eu conseguiria até ficar alegre
por você, eu viveria em greve de fome
eu mudaria a grafia do meu nome
por você, eu pintaria o céu todo de vermelho
eu teria mais herdeiros que um coelho
por você, eu aceitaria a vida como ela é
eu desejaria todo dia a mesma mulher
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Puro êxtase. artista & intérprete: Barão Vermelho. canção: Por você. música: Roberto Frejat / Maurício Barros. poema: Mauro Sta Cecília. gravadora: WEA.)

ROTA
30 de setembro de 2014

Mapa & bússola

Barco à vela_PB__________________________________________________________________

Extremamente belo e melodioso, querido Paulo Sabino!

(Antonio Carlos Secchin — poeta, professor, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras)

Parabéns, querido! Belo poema! Bjs, ACicero.

(Antonio Cicero — poeta, letrista, filósofo & ensaísta)

O poema está bem bom: empertigado, direto, veloz, com muito estilo. Com o aplauso do Armando.

(Armando Freitas Filho — poeta & pesquisador)

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a rota, a trilha , a direção, a ser tomada:

invente o vento que te venta. crie, elabore, descubra, arquitete, trame, fantasie, o vento que te venta, o vento que te impulsiona, o vento que te leva à frente, na rota, na trilha, na direção, o vento que vente “in”, isto é, o vento que vente “dentro”, o vento que ventile por dentro o ser, o vento que “in” vente, o vento que “dentro” vente, a fim de que a rota, a trilha, a direção, esteja de acordo com os anseios & desejos & sonhos que sopram do navegante.

invente o vento que te venta, que te leva, vela, o vento que vela te leva (“vela” & “leva” são palavras formadas pelas mesmas letras), o vento que te leva como leva a vela, a peça dos barcos que permite o avançar da embarcação, que te leva rumo após o muro (“rumo” & “muro” são palavras formadas pelas mesmas letras), pois só mesmo o rumo para desfazer & destruir o muro, só mesmo o rumo para, diante do muro que embarreira, abrir passagem, abrir caminho, abrir estrada, estrada tratada a “foi-se”, estrada tratada de maneira a deixar, para trás, tudo o que passou, tudo o que ficou para trás, tudo o que se foi, e também estrada tratada a “foice” porque estrada revelada no próprio caminhar, com o esforço & a vontade do navegante, e fortuna furtada a “sim”, destino, sorte, acaso, roubado — para o bem viver — pela coragem de dizer “sim” à estrada, pela coragem de dizer “sim” às vivências que se dão durante a viagem, fortuna, portanto, furtada assim, destino roubado — traçado na marra — deste modo.

estrada tratada a “foi-se” (“estrada” & “tratada” são palavras formadas pelas mesmas letras), estrada tratada de maneira a deixar, para trás, tudo o que ficou para trás, estrada tratada de forma a cuidar do que seja tempo presente, fortuna furtada a “sim”, destino roubado pela coragem de dizer “sim” à estrada, fortuna furtada assim, deste jeito: cio que te cismo em mim (o apetite, o desejo de vida que percebo em mim, navegante voraz), coito que te canto afim (o prazer, a satisfação, o gozo de cantar, na vida, tudo o que prezo em prol do bem viver), coice que te quero espadachim (a arte, a capacidade, a perícia de transformar os atropelos da vida em força para seguir & batalhar), cacto que te cato jasmim (a arte, a capacidade, a perícia de transformar os espinhos que colhemos, na vida, em  flores aromáticas, que embelezem a estrada): invento.

cio que te cismo em mim, coito que te canto afim, coice que te quero espadachim, cacto que te cato jasmim: invento, crio, elaboro, descubro, arquiteto, tramo, fantasio, o vento que me venta, e deixo que o vento “in” vente, deixo que o vento vente “dentro”, deixo que o vento ventile por dentro o ser,  a fim de que a rota, a trilha, a direção, esteja de acordo com os anseios & desejos & sonhos que sopram de mim, navegante voraz.

em vento, invento sempre.

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ROTA

 

in
vente
o  vento
que  te
venta
que  te
leva
vela
rumo
após  o
muro
estrada
tratada
a  foi-se
fortuna
furtada
a  sim:

cio
que  te
cismo
em  mim
coito
que  te
canto
afim
coice
que  te
quero
espadachim
cacto
que  te
cato
jasmim:

in
vento

CDA DE ATLÂNTICO & BRONZE
16 de setembro de 2014

Amanhecer na cidade do Rio de Janeiro

 

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

(Nas fotos, estátua, lavrada em bronze, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no posto 6, praia de Copacabana, Rio de Janeiro.)
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CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: não é feito do costumeiro bronze que exalta as estátuas — apesar de a sua ser lavrada em bronze — nem do mármore consagrador, material também utilizado na produção de requintadas & célebres esculturas.

no fundo, porque por dentro, (cda) é rico em ferro anímico, é rico em ferro próprio da alma, ferro lavrado, ferro trabalhado, ferro esculpido, na sua confidência, há tanto tempo.

rico — cda — em ferro anímico, lavrado na sua confidência (há tanto tempo): na sua confidência em versos, propriamente intitulada “confidência do itabirano” (trecho inicial):

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

 

o pedestal de drummond (pedestal: suporte que serve para elevar, para colocar em destaque, em evidência, escultura ou objeto decorativo) é dispensável. pois todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond.

portanto, o pedestal que o poeta eleva, ergue, é dispensável. bastante, suficiente, é o banco ao nível do mar & dos homens onde, sentado de costas para o horizonte (como sempre sentou-se), acolhe a todos que durante o dia o procuram.

difícil é vê-lo só no banco, há sempre alguém para um retrato, um papo, ou um afago, e, mesmo assim, mesmo sempre acompanhado, de longe, nós o acompanhamos — com o olhar.

muitas vezes tiram os seus óculos — por ganância (no intuito de vender a peça lavrada em bronze) ou por lembrança (algum fã do poeta, num arroubo insensato de amor).

logo os repõem para que drummond não perca de vista quem passa & precisa da presença de sua eternidade, ali, no seu banco de praia predileto, onde costumava sentar-se, sempre de costas ao atlântico & de frente para o calçadão, assistindo ao ir & vir dos transeuntes, ao ir & vir da vida diante dos seus olhos.

a presença da eternidade de drummond: o pedestal de drummond é dispensável. todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós, acima de todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond, abaixo de drummond.

por isso (por estarmos por sob drummond), faz-se necessário tirar o peso da influência — o peso da importância — da fluência — da liqüidez, do escoamento, da espontaneidade — do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos) sobre o meu corpo poético, a fim de que me sobre o que seja genuinamente meu, a fim de que eu, ao escrever os versos que me cabem, acabe não afundado, por inteiro, na influência da fluência dos versos drummondianos sobre os meus.

por sob drummond, isto é, abaixo de drummond, abaixo do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos), abrir, pelo menos, um corpo poético meu. com meu corpo poético, penar sob sua sombra, padecer sob a sombra da influência da fluência poética drummondiana, para, depois, tentar abrir um corpo fora de sua sombra, tentar abrir um corpo de luz, tentar abrir um corpo poético inteiramente iluminado por uma luz inteiramente minha, própria, peculiar, autêntica.

(que assim seja.)

salve cda!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dever. autor: Armando Freitas Filho. editora: Companhia das Letras.)

 

 

CDA DE ATLÂNTICO E BRONZE

 

Não é do costumeiro bronze
que exalta as estátuas
nem do mármore consagrador.
É rico em ferro anímico lavrado
na sua Confidência, há tanto tempo.
O pedestal que eleva é dispensável.
Bastante é o banco ao nível do mar
e dos homens onde, sentado de costas
para o horizonte, acolhe a todos
que durante os dias o procuram.
Difícil é vê-lo só, e mesmo assim
de longe, nós o acompanhamos.
Muitas vezes tiram os seus óculos
por ganância ou lembrança.
Logo os repõem para que não perca
de vista quem passa e precisa
da presença de sua eternidade.

 

 

129

sob CDA

Tirar o peso da influência
da fluência do seu corpo
sobre o meu. Abrir um corpo
pelo menos, e penar
sob sua sombra, para depois
tentar abrir um corpo de luz.

O DIÁLOGO ENTRE POETAS — UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
3 de setembro de 2012

(Na foto fora de foco, Paulo Sabino & o imprescindível Armando Freitas Filho.)

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O diálogo entre poetas (um deles, super experiente, e o outro, um novato) pode ser de uma riqueza inestimável (neste caso, para o novato – rs).

 Há pouco tempo escrevi um poema porém não muito seguro dos recursos utilizados à sua arquitetura. Havia gostado dos versos embora não me parecessem “prontos”, como gostaria.
 
Por isso, resolvi escrever ao GRANDE poeta ARMANDO FREITAS FILHO & pedir a sua ajuda.
 
Nada como a voz da experiência…
 
Eis, aqui, o nosso diálogo:
 
“armando querido,
 
deixo, aqui, um poema da minha autoria. gostaria de saber a sua opinião a respeito, a sua impressão. 
 
desejo muitíssimo a sua visão.
 
abraço grande!
paulo sabino.”
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As linhas do Armando:
 
“Caro Paulo: seu poema pede releituras. O que é bom sinal. Assim, de pronto, acho que os parênteses nas estrofes poderiam ser retirados. A leitura fica mais desimpedida e a meditação, camada por camada, rumo ao sentido do ser e do existir, ganha velocidade e se transfigura em mergulho de ponta-cabeça.”
_______________________
 
A minha resposta às linhas do Armando:
 
“armando queridíssimo,
 
concordo com você. de fato, fazendo a leitura sem os parênteses o poema ganha velocidade no mergulho & força dramática. além disso, relendo-o sem os parênteses, juntei o primeiro verso à estrofe seguinte, o que aumenta a beleza plástica do poema: as primeiras 4 estrofes com 4 versos + as 4 estrofes finais com 2 versos. 
 
peço para que fique com esta versão aqui do poema, de que gostei mais.
 
obrigadíssimo por seu olhar, experiente & cirúrgico.

 a versão nova ganhou a vertigem de leitura que merecia.

abraço grande & afetuoso!”

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 Após a nova versão, as palavras do Armando:

 “Parabéns, Paulo! Grande abraço. Armando.”

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 Aos senhores, portanto, com o auxílio (luxuoso) do Armando, o mais novo poema do Paulo Sabino:

 

UM  PARA  DENTRO  TODO  EXTERIOR

 
nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber
 
o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior
 
por  detrás
do  dentro
apenas  o
dentro
 
nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:
 
o  oculto
às  claras
 
fundura
em  superfície
 
o  mistério
sem  segredos:
 
todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos

LANÇAMENTO DO LIVRO “CÉU EM CIMA / MAR EM BAIXO”, DE ALEX VARELLA
8 de julho de 2012

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Notícia BOA!

Um GANHO para poesia!

O meu QUERIDÍSSIMO amigo, o FILÓSOFO & POETA ALEX VARELLA, lançará o seu terceiro livro de poesias na terça-feira próxima, dia 10 de julho, a partir das 19h, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

O seu livro chama-se “CÉU EM CIMA / MAR EM BAIXO”.

Alex Varella, entre outras coisas, foi professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense e coordenador de Estética e Teoria de Arte Moderna do Galpão das Artes do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

O prefácio do livro ficou a cargo de outro POETA & FILÓSOFO, além de LETRISTA & ENSAÍSTA, o meu também QUERIDO amigo ANTONIO CICERO, e os textos para orelha são assinados pelos SOFISTICADOS poetas ARMANDO FREITAS FILHO & ITALO MORICONI.

De todos os grandes poetas com quem mantenho algum contato, o Alex é um dos que mais tenho intimidade. A minha total afinidade com ele surge, dentre outras coisas, do seu fascínio pelo mar. Alex, assim como eu, é um filho das águas marinhas, um apaixonado pela imensidão & mistérios & riquezas que abriga o mar. Não bastasse, Alex é homem simples, que curte um bom papo, sem dificuldades.

Tenho GRANDE admiração por suas pessoa & poesia.

O livro do Alex é um grande acontecimento à literatura nacional.

No sábado (ontem), dia 07, encontrei o Alex porque, para minha alegria, ele desejava me entregar um exemplar antes mesmo do lançamento oficial.

Abaixo, a dedicatória (grata surpresa!) que o Alex preparou para o meu exemplar:

 

“Ao amigo Paulinho, editor do belo blog PEmP e crítico de poesia, pelo aniversário e pela amizade. Alex Varella”.

 

Maravilha!

Aos senhores, o convite para o lançamento.

Vamos?

Beijo todos!
Paulo Sabino.

INÉDITO DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO + ARS POETICA
8 de maio de 2012

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INFORMAÇÃO LUXUOSÍSSIMA!

Acho um PRIVILÉGIO o acesso tão direto a ela.

Me disse a sempre benvinda & querida Inez Cabral de Melo:

 

estou organizando uma edição com um manuscrito inédito do véio (estudos para um auto q ele não terminou) e o armando [freitas filho] escreveu a apresentação. ficou D+! em agosto ou setembro nas melhores livrarias…

 

OBAAAAA! Material INÉDITO do mestre João Cabral de Melo Neto com apresentação de Armando Freitas Filho!

Aos fãs, fica a expectativa & a espera!

(Certamente estarei na noite do lançamento! Armando + João Cabral + Inez Cabral = IMPERDÍVEL!)

João Cabral é considerado, juntamente com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira & Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

A sua poética é conhecida por ser direta, sem floreios, árida, seca, apenas o estritamente necessário, as palavras ponderadas & milimetricamente medidas, explorando ao máximo as potencialidades do mínimo, sem espaço para excessos & verborragia.

Abaixo, aos senhores, um poema lindíssimo do mestre, uma espécie de ars poetica (versos que tratam da natureza da poesia, versos que tratam do processo de criação poética), poema, portanto, que revela o modo de criar poemas utilizado por João Cabral, poema comentado magistralmente pelo meu querido amigo, o poeta & filósofo Antonio Cicero.

Enquanto não chega o lançamento do material inédito de João Cabral, deliciem-se com a bela análise do Cicero e com os belos & clássicos versos do mestre!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação da pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

CATAR FEIJÃO

A Alexandre O’Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

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(trecho do livro: Poesia e filosofia. autor: Antonio Cicero. editora: Civilização Brasileira.)

 

No poema “Catar feijão”, o poeta João Cabral de Melo Neto exprime, metafórica porém ostensivamente, algumas ideias sobre escrever: sobre, no fundo, escrever poemas (…).

Tratando-se de uma espécie de ars poetica, esse poema chega bastante perto de ser proposicional, dizendo que o poeta deve livrar-se do que é leve (superficial) e oco (insubstancial), palha (ninharia) e eco (repetição do que já foi dito); e que, longe de buscar uma dicção de musicalidade convencional e fácil, deve criar ruídos, obstáculos, surpresas que obriguem o leitor a se manter acordado e atento, retirando-o, através de usos fonéticos, sintáticos, semânticos inesperados, da sonolência, do torpor e da autossatisfação do habitual, do que já tenha sido digerido. A surpreendente comparação entre catar feijão e escrever um poema faz parte da sua estratégia.

Ora, o próprio poema é admirável, não porque proponha essa ars poetica, mas porque realiza magistralmente aquilo que prescreve. Não é no que diz, mas em como diz o que diz que reside sua poesia. É que o poema iconicamente realiza o que aparentemente prescreve.

O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”
10 de fevereiro de 2011

prezados,

abaixo,

depoimentos, de alguns dos poetas que mais admiro, poetas a quem, merecidamente, rendo as minhas loas, sobre o blog “prosa em poema”.

as palavras a seguir me enchem de satisfação e ânimo. sim, porque não é fácil a manutenção deste espaço. é muito prazeroso (afinal, poesia é das coisas mais importantes na minha existência), porém não é fácil.

escolher os poemas, pensar os textos de apresentação, tudo isso requer um tempo que, às vezes, é difícil de conciliar com as tarefas do quotidiano.

todavia, como a poesia é das mais importantes coisas na minha existência, este que vos escreve vai cavando tempo para dedicar-se a ela (não só à leitura como à preparação deste espaço).

portanto, quero compartilhar com os senhores palavras que me fazem não desistir, que me fazem crer que a poesia é importante e precisa de espaço, espaço para alçar vôos, espaço para acolhimento, espaço para divulgação.

linhas de poetas publicados ou citados neste espaço, de poetas a quem devo o meu respeito & a minha admiração GRANDES.

pelo apoio ao trabalho que venho desempenhando, o meu muitíssimo obrigado!

paulo sabino & o “prosa em poema” agradecem a todos vocês, poetas da minha vida, pessoas que transformam olhares & me ajudam trilhafora.

sempre digo que a poesia é, para mim, um barco de salvação em meio a tantas turbulências mundanas.

poesia: aufúgio seguro, embarcação uterina, logradouro aprumado.

continuemos juntos nesta grande aventura que é o universo poético!

beijo bom nos senhores!
um, mais que especial, em todos os poetas!
paulo sabino.
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O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”:

 

ANTONIO CICERO (poeta, letrista & filósofo):

Paulinho, é sempre um grande prazer e um grande luxo me encontrar no seu blog. Beijo, Antonio Cicero.

 

ARMANDO FREITAS FILHO (poeta):

Caro Paulo: muito obrigado por tudo. Por toda essa saudação que me acompanhará, e que me comove tanto. Muito obrigado pela sua presença tão calorosa e pela sua amizade nova em folha. Com o abraço e o aplauso do Armando.

 

FABIANO CALIXTO (poeta):

Muito gentil, da sua parte, em publicar os poemas em seu belo blog. Ficou muito legal! Muito obrigado. Fique com meu maior abraço de agradecimento, Calixto.

 

CARLOS RENNÓ (poeta & letrista):

Paulo, seu blog é ótimo! acho que eu é que vou ganhar alguns dias com você – lendo seu blog. espero que tenha tempo na maioria das vezes… ah como seria bom se o dia tivesse pelo menos + 2 horas, vai. grato. um abraço. CR.

 

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO (poeta):

paulo, muito obrigada pelas suas palavras! adorei ter sido incluída no seu blogue. e de agora em diante pretendo visitá-lo sempre. um grande abraço!

 

PÉRICLES CAVALCANTI (poeta & compositor):

Oi Paulo, amigo, muito obrigado! É um prazer pra mim também tê-lo aqui nesta ”vizinhança”. Um beijo.

 

PAULA CAJATY (poeta):

fiquei encantada com o seu trabalho minucioso, de comparar poemas, inspirações e trabalhos. tomara que mantenhamos contato. um beijo grande, Paula.

 

CARLITO AZEVEDO (poeta):

Puxa, adorei o blog e fiquei honradíssimo com seu “post” sublunar! Vou passar o endereço para algumas pessoas bacanas. Parabéns e abraços, Carlito.

VIDA & POESIA, POESIA & VIDA: EM ARMANDO, UMA ÚNICA POÇÃO
16 de dezembro de 2010

(paulo sabino & armando freitas filho, no lançamento da antologia organizada por heloisa buarque de hollanda. a dedicatória: “para o paulo, sempre presente no meu computador. armando.”)

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armando freitas filho fala de si diretamente da sua central, pelo microfone do corpo, pelo auto-falante dos sentidos, diretamente da sua percepção existencial, e revela que é desse modo que se comunica: é assim que se articula com o entorno, e sua poesia emerge dessa articulação.

vida & poesia, poesia & vida:

o que é escrito na página de pele do poeta, o que é revelado no papel fino do espaço que o bardo ocupa — a letra articulada do seu gesto, o rascunho & as rasuras feitas à unha, feitas na sua vida —, é impresso em folha de papel vegetal: o auto-retrato do autor: o autor/retrato:

ajustando & armando as suas peças, as peças que o compõem vidafora — partes, pedras & passos —, o poeta forma, na sua poética, um seu retrato autoral:

as experiências do homem armando freitas filho, repletas dos dedos do acaso, dedos múltiplos com os seus vários perfis contrários, que vão somando avessos no quebra-cabeça existencial (onde o corpo é uma armadura de lacunas, uma armadura de vãos, em tempo, natural, de pressa & perdas), quebra-cabeça onde se armam, onde se armaram, os erros & hiatos de todos nós.

é este o código de barras de armando freitas filho: ele escreve a sua vida. e o que sai do seu sonho, ou do seu punho, vem pela mesma veia-verve, vem por sua dicção urgente, vem por sua dicção nervosa, pulsante, pungente.

entre o corpo (e suas sensações, e suas vivências, sempre reais) e a alma (o nosso “ânimo”, o espaço do sonho, da idéia), uma voz dependurada, voz que mistura, numa única poção, duas aventuras distintas:

a voz do poema.

e é assim sempre. nunca desistir (dessa trajetória) é o seu sempre lema.

antes da chegada da noite última, da noite que encerra todas & quaisquer possibilidades, antes de virar cadáver, osso, antes de virar pó filho da puta (lembrem-se: “ninguém quer a morte / só saúde e sorte”), segue a voz do poeta assinando tudo, sangria desatada, verve vertiginosa, assinando tudo, mesmo sem ver.

e segue a tudo assinando, mesmo os passos da linguagem no corredor da fala:

assina tudo, até a palavra-silêncio, até a palavra feita da carne do silêncio, até a palavra travada no corredor do linguajar, a palavra cujo percurso não se cumpre e que, por dentro, deflagra um mudo curto-circuito. tudo o que perpassa o poeta, no poeta pousa, e, pousando, se lhe escapa e o vence: não há como prender dentro de si até mesmo a palavra obstruída.

assina tudo:

ainda as palavras arrancadas súbitas, rapidamente, pelos cabelos; a tudo assina, ainda as palavras arrancadas pela raiz, ainda as palavras mudas (além das obstruídas), as palavras que não dizem, as que não querem dizer, nem esclarecer, as que erram no ar, quase sem fôlego, buscando um vôo à voz e qualquer vento para poder pousar.      

armando freitas filho, para quem “bato cabeça”, a quem estimo, por quem possuo o mais alto grau de respeito & admiração:

a sua vertente, a sua palavra, é sempre a estreita, rente ao chão, isto é, rente ao mundo, rente às coisas mundanas, e rente à carne, isto é, rente às suas experiências existenciais, rente ao que vive o poeta, por uma vereda, por um caminho íntimo & úmido, tomando, para tanto, o corpo pela raiz, isto é, tomando o corpo pela base, tomando o corpo por “aquilo que provoca, ocasiona ou determina uma atitude, um acontecimento, a existência de algo”, como estampa o dicionário houaiss. tomando, portanto, o corpo pela raiz frontal e viva: fio-terra, chicotexistência de muitas pontas, chicote exatamente múltiplo, e, misturando a engenhosidade & o estudo prévio (o cálculo na vida, na poesia) com a casualidade, com a sorte (o acaso na vida, na poesia), vai no impulso, vai no arranco:

vida & poesia, poesia & vida: dispara, díspare, e pára.

vida & poesia, poesia & vida: em armando freitas filho,

uma única poção.

beijo bom nos senhores!
um outro, especialíssimo, no armando!
paulo sabino. 
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(do livro: Melhores poemas. seleção: Heloisa Buarque de Hollanda. autor: Armando Freitas Filho. editora: Global.)

 

 

COMUNICAÇÕES

Eu falo de mim — daqui —
desta central
pelo microfone do corpo
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão
pata de lacre
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne
nos panos

repentinos do meu espanto
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim
em fotonovelas

me desdobro — quadro por quadro
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto
aos poucos, plano e pausa
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celuloide
numa lâmina

de velocidade e de lembrança
em fotogramas
de esperas e procuras — falha
folha de slides-células, sopro
e pulso

página de pele em que escrevo
o uso
a articulada letra do meu gesto
o rascunho de unhas e rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade
monograma, silhueta, cadência
e a fala

que se imprime nesta fita
neste sulco
a linguagem como um fim
a linguagem por um fio
e a morte em morse.

 

AUTORRETRATO

No papel fino do espaço
a minha figura pousa
seus traços e braços:
pedaços, quebra-cabeça

armando as suas peças
partes, pedras e passos:
a cada gesto o contato
tão tátil de fragmentos

que os dedos do acaso
adaptam, múltiplos
com seus vários perfis
contrários, numa soma

de avessos e retalhos
e a imagem sob a pele
é alinhavada: andaimes
de cartas, o castelo

embaralhado pelo vento
que sacode flâmulas
de naipes enventados:
construção de dados

com seus inúmeros
números, lados, ludus
o encontro de cubos
neste espelho de papel

onde o puzzle do corpo
uma armadura de lacunas
em tempo de pressa e perda
armou seus erros e hiatos.

 


CÓDIGO DE BARRAS

Escrevo a minha vida.
E o que sai do meu sonho
ou do meu punho
vem pela mesma veia
em dicção urgente.

Entre corpo e alma
a voz dependurada
mistura numa única poção
duas aventuras distintas
no fluxo e no pulso.

Nunca desisto, sempre.
“Antes de virar cadáver
osso, pó filho da puta”
vou assinando tudo sem ver
pois se parar não começo mais.

 

DUAS NOTAS

Os passos da linguagem
no corredor da fala:
esta palavra que suspiro
e não digo: granada de silêncio
entre os dentes, corcel de vozes
galope, impulso, carga
percurso que não se cumpre
e, por dentro, deflagra um mudo
curto-circuito, uma suíte nua
e elétrica, sem pauta nem pausa.

Escrevo o silêncio com a tinta
branca do invisível: aqui está
o que não falo e o que medo
cala: cada letra ou as estrelas
imaginárias sonhando nas entrelinhas.
O que não consigo e persigo
o que persiste, tateia e segue
seu curso — do ápice ao colapso —
o vário fragmento, tudo o que penso
pousa em mim, e me vence.

 

ARRANCADAS TÃO DEPRESSA

Arrancadas tão depressa
              pelos cabelos
pela raiz
da terra última
estas palavras são mudas
trêmulas e íntimas
e erram no ar
quase sem fôlego
buscando um voo para a voz
e qualquer vento para o pouso.

 

PEQUENA MORTE

 

Acabo. Vou pela vertente estreita
rente ao chão e à carne
pela via íntima e úmida
tomando o corpo pela raiz
frontal e viva: fio terra, chicote
de muitas pontas
exatamente múltiplo — venéreo
combinando músculos e números
entre cálculo e acaso
vou no impulso, no arranco
sem ensaio: disparo, desperdício
e paro.