LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
25 de julho de 2017

(Na foto, o convite para o lançamento)
_____________________________________________________

Na próxima segunda-feira, dia 31 de julho, a partir das 19h, na Casa do Saber (shopping Leblon — av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 101, 1º piso), a poeta e psicanalista Sandra Niskier Flanzer lança o seu mais novo livro de poesia, “Do quarto”, pela editora 7Letras.

Recebi, da autora, o convite, que muito me honra e alegra, para fazer um recital, onde lerei poemas do livro entrelaçados a poemas de outros poetas que inspiraram a criação de algumas peças poéticas ou que conversam com as leituras da noite. Então, além dos novos poemas da Sandra Niskier Flanzer, teremos a leitura de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Antonio Cicero, Armando Freitas Filho, Fernando Pessoa, entre outros.

O lançamento começa às 19h e o recital, às 20h. Todos mais que convidados.

De brinde, deixo, aqui, um dos poemas “Do quarto” da Sandra, um poema lindo, que fiz questão de selecionar para a leitura, que nos incita a aproveitar a vida, a gastá-la, a usá-la, a deixá-la escorrer, a roê-la, a raspá-la, a fincar as unhas no umbigo do mundo, a fim de que o tempo que nos cabe valha a pena, valha a dor, valha a lágrima, valha a risada, valha a alegria, valha o bem-estar; a fim de que o tempo que nos cabe, em sua inutilidade (pois a vida, em si, não possui sentido, a não ser o sentido que damos a ela de acordo com os nossos objetivos e desejos), seja satisfatório, a ponto de gostarmos da vida, a ponto de gostarmos das nossas experiências vidafora, almadentro.

(A vida gosta de quem gosta da vida, não nos esqueçamos nunca desta lição.)

Venham! Eu e a Sandra esperamos vocês!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
_____________________________________________________

(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

IN UTILIZAR

 

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bica
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa justo.
Perder, perder, ceder ao outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): OS VÍDEOS III
29 de setembro de 2015

Paulo Sabino_10 de Setembro 2015

(Paulo Sabino)

Claufe Rodrigues_10 Setembro 2015

(Claufe Rodrigues)

Mauro Sta Cecília_10 Setembro 2015

(Mauro Sta Cecília)
______________________________________________________

Aos interessados, mais 6 vídeos da 2ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido nos dias 9 (quarta-feira) & 10 (quinta-feira) de setembro, no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de 4 feras da poesia contemporânea: Luis Turiba, Cristiano Menezes, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues!

Nos vídeos que seguem, os participantes do segundo dia do projeto, 10/09, os poetas Claufe Rodrigues & Mauro Sta Cecília. Ambos recitam poemas da própria autoria.

Eu recito, no meu primeiro vídeo, um poema de um dos meus grandes conselheiros na poesia, o imprescindível Armando Freitas Filho, e no meu segundo vídeo recito um poema que descobri ter virado canção há pouco tempo, poema do querido amigo (participante da 1ª edição deste projeto) Antonio Cicero.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita A mão que escreve, poema de Armando Freitas Filho.)

 

(Armando Freitas Filho)

A mão que escreve
na mesa burocrática
não pode sonhar e
escrava, se arrasta
no deserto, ao rés do chão
através de resmas e lesmas
a léguas de qualquer relva
e só serve minutas
adendos e remendos
tudo em formato ofício
em papel-timbrado
enquanto o poema, ao longe
tenta, em cada entrelinha
levantar voo, a cabeça
como uma águia
feito uma onda.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita Consegui, poema de Antonio Cicero.)

 

CONSEGUI  (Antonio Cicero)

eis o que consegui:
tudo estava partido e então
juntei tudo em ti

toda minha fortuna
quase nada tudo muitas coisas
numa

só:
eu quis correr esse risco antes de virar
pó:

juntar tudo em ti:
toda joia todo pen drive todo cisco
tudo o que ganhei tudo o que perdi

meu corpo minha cabeça meu livro meu disco
meu pânico meu tônico
meu endereço
eletrônico

meu número meu nome meu endereço
físico
meu túmulo meu berço

aquela aurora este crepúsculo
o mar o sol a noite a ilha
o meu opúsculo

meu futuro meu passado meu presente
meio aqui
e meio ausente

meu continente meu conteúdo
e além de todo o mundo
também tudo o que é imundo tudo

o medo e a esperança
algo que fica
algo que dança

o que sei o que ignoro
o que rio
e o que choro

toda paixão
todo meu ver
todo meu não

tudo estava perdido e aí
juntei tudo
em ti ______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Claufe Rodrigues recita Como reconhecer um poeta, poema de sua autoria.)

 

COMO RECONHECER UM POETA  (Claufe Rodrigues)

Nem todo sujeito estabanado é poeta

mas com certeza todo poeta é um ser estabanado.

Se senta sempre do lado errado

tropeça na peça mais cara da mobília

se bobear beija a mãe, a vó e a filha

está sempre em guerra com a braguilha

bebe cachaça  na taça de vinho

corteja a mulher do vizinho

sonha com um ninho de gatas

louras, ruivas e mulatas

mas acorda sempre sozinho.

O poeta só não é um desastre

…………quando escreve, quando fala,

……………………quando escala os altos cumes

……………………………….da língua.

Ali ele é o perito, o eleito,

o cara perfeito que toda sogra quer ter na família.

Até o rabisco é risco calculado

compasso de música, exato

como o símbolo do infinito.

Nas altas esferas, o poeta doma todas as feras,

domina a intensidade de cada grito.

Captura, em essência,

o que dizem as nuvens,

quando chovem no cio.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Claufe Rodrigues recita Todo poema, de sua autoria, que, depois de publicado em livro, foi rebatizado pelo poeta amazonense Thiago de Mello com o título Floresta.)

 

FLORESTA  (Claufe Rodrigues)

Todo poema grita

cada palavra é um pedido de socorro

na gruta infinita da boca

E há um adeus em qualquer sílaba

uma floresta

em festa

queimando dentro de nós.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Mauro Sta Cecília recita Ela, poema de sua autoria.)

 

ELA  (Mauro Sta Cecília)

A mulher loura, em pé no ponto
de ônibus, tira da bolsa o esmalte
vermelho e faz as unhas da mão
enquanto o ônibus não chega.

Ela não vai descansar.
A palavra descanso não faz
parte do dicionário de sua vida.
Ela pode algum dia atingir
quase o limite de suas forças.
Mas ela dorme, recupera as
forças e segue em frente.
E esquece a palavra cansaço.
Porque há muitos jovens que
já nasceram cansados e andam
cansados o dia inteiro. E porque
depois há toda a eternidade
que é um tempo que nem passa
pela sua cabeça.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Mauro Sta Cecília recita Por você, poema de sua autoria. Participação [guitarra]: Julio Santa Cecília.)

 

POR VOCÊ  (Mauro Sta Cecília)

por você, eu limparia os trilhos do metrô
eu iria a pé do Rio a Salvador
por você, eu roubaria uma velhinha
eu dançaria tango no teto da cozinha
por você, eu adoraria a disciplina japonesa
eu aprenderia a fazer cara de surpresa
por você, eu viajaria a prazo pro inferno
eu tomaria banho gelado no inverno
por você, eu hoje até deixaria de beber
eu enfrentaria um lutador de caratê
por você, eu ficaria rico em um mês
eu dormiria de meia pra virar burguês
por você, eu só sentiria essa febre
eu conseguiria até ficar alegre
por você, eu viveria em greve de fome
eu mudaria a grafia do meu nome
por você, eu pintaria o céu todo de vermelho
eu teria mais herdeiros que um coelho
por você, eu aceitaria a vida como ela é
eu desejaria todo dia a mesma mulher
______________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Puro êxtase. artista & intérprete: Barão Vermelho. canção: Por você. música: Roberto Frejat / Maurício Barros. poema: Mauro Sta Cecília. gravadora: WEA.)

ROTA
30 de setembro de 2014

Mapa & bússola

Barco à vela_PB__________________________________________________________________

Extremamente belo e melodioso, querido Paulo Sabino!

(Antonio Carlos Secchin — poeta, professor, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras)

Parabéns, querido! Belo poema! Bjs, ACicero.

(Antonio Cicero — poeta, letrista, filósofo & ensaísta)

O poema está bem bom: empertigado, direto, veloz, com muito estilo. Com o aplauso do Armando.

(Armando Freitas Filho — poeta & pesquisador)

__________________________________________________________________

a rota, a trilha , a direção, a ser tomada:

invente o vento que te venta. crie, elabore, descubra, arquitete, trame, fantasie, o vento que te venta, o vento que te impulsiona, o vento que te leva à frente, na rota, na trilha, na direção, o vento que vente “in”, isto é, o vento que vente “dentro”, o vento que ventile por dentro o ser, o vento que “in” vente, o vento que “dentro” vente, a fim de que a rota, a trilha, a direção, esteja de acordo com os anseios & desejos & sonhos que sopram do navegante.

invente o vento que te venta, que te leva, vela, o vento que vela te leva (“vela” & “leva” são palavras formadas pelas mesmas letras), o vento que te leva como leva a vela, a peça dos barcos que permite o avançar da embarcação, que te leva rumo após o muro (“rumo” & “muro” são palavras formadas pelas mesmas letras), pois só mesmo o rumo para desfazer & destruir o muro, só mesmo o rumo para, diante do muro que embarreira, abrir passagem, abrir caminho, abrir estrada, estrada tratada a “foi-se”, estrada tratada de maneira a deixar, para trás, tudo o que passou, tudo o que ficou para trás, tudo o que se foi, e também estrada tratada a “foice” porque estrada revelada no próprio caminhar, com o esforço & a vontade do navegante, e fortuna furtada a “sim”, destino, sorte, acaso, roubado — para o bem viver — pela coragem de dizer “sim” à estrada, pela coragem de dizer “sim” às vivências que se dão durante a viagem, fortuna, portanto, furtada assim, destino roubado — traçado na marra — deste modo.

estrada tratada a “foi-se” (“estrada” & “tratada” são palavras formadas pelas mesmas letras), estrada tratada de maneira a deixar, para trás, tudo o que ficou para trás, estrada tratada de forma a cuidar do que seja tempo presente, fortuna furtada a “sim”, destino roubado pela coragem de dizer “sim” à estrada, fortuna furtada assim, deste jeito: cio que te cismo em mim (o apetite, o desejo de vida que percebo em mim, navegante voraz), coito que te canto afim (o prazer, a satisfação, o gozo de cantar, na vida, tudo o que prezo em prol do bem viver), coice que te quero espadachim (a arte, a capacidade, a perícia de transformar os atropelos da vida em força para seguir & batalhar), cacto que te cato jasmim (a arte, a capacidade, a perícia de transformar os espinhos que colhemos, na vida, em  flores aromáticas, que embelezem a estrada): invento.

cio que te cismo em mim, coito que te canto afim, coice que te quero espadachim, cacto que te cato jasmim: invento, crio, elaboro, descubro, arquiteto, tramo, fantasio, o vento que me venta, e deixo que o vento “in” vente, deixo que o vento vente “dentro”, deixo que o vento ventile por dentro o ser,  a fim de que a rota, a trilha, a direção, esteja de acordo com os anseios & desejos & sonhos que sopram de mim, navegante voraz.

em vento, invento sempre.

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ROTA

 

in
vente
o  vento
que  te
venta
que  te
leva
vela
rumo
após  o
muro
estrada
tratada
a  foi-se
fortuna
furtada
a  sim:

cio
que  te
cismo
em  mim
coito
que  te
canto
afim
coice
que  te
quero
espadachim
cacto
que  te
cato
jasmim:

in
vento

CDA DE ATLÂNTICO & BRONZE
16 de setembro de 2014

Amanhecer na cidade do Rio de Janeiro

 

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

(Nas fotos, estátua, lavrada em bronze, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no posto 6, praia de Copacabana, Rio de Janeiro.)
__________________________________________________________________

CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: não é feito do costumeiro bronze que exalta as estátuas — apesar de a sua ser lavrada em bronze — nem do mármore consagrador, material também utilizado na produção de requintadas & célebres esculturas.

no fundo, porque por dentro, (cda) é rico em ferro anímico, é rico em ferro próprio da alma, ferro lavrado, ferro trabalhado, ferro esculpido, na sua confidência, há tanto tempo.

rico — cda — em ferro anímico, lavrado na sua confidência (há tanto tempo): na sua confidência em versos, propriamente intitulada “confidência do itabirano” (trecho inicial):

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

 

o pedestal de drummond (pedestal: suporte que serve para elevar, para colocar em destaque, em evidência, escultura ou objeto decorativo) é dispensável. pois todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond.

portanto, o pedestal que o poeta eleva, ergue, é dispensável. bastante, suficiente, é o banco ao nível do mar & dos homens onde, sentado de costas para o horizonte (como sempre sentou-se), acolhe a todos que durante o dia o procuram.

difícil é vê-lo só no banco, há sempre alguém para um retrato, um papo, ou um afago, e, mesmo assim, mesmo sempre acompanhado, de longe, nós o acompanhamos — com o olhar.

muitas vezes tiram os seus óculos — por ganância (no intuito de vender a peça lavrada em bronze) ou por lembrança (algum fã do poeta, num arroubo insensato de amor).

logo os repõem para que drummond não perca de vista quem passa & precisa da presença de sua eternidade, ali, no seu banco de praia predileto, onde costumava sentar-se, sempre de costas ao atlântico & de frente para o calçadão, assistindo ao ir & vir dos transeuntes, ao ir & vir da vida diante dos seus olhos.

a presença da eternidade de drummond: o pedestal de drummond é dispensável. todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós, acima de todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond, abaixo de drummond.

por isso (por estarmos por sob drummond), faz-se necessário tirar o peso da influência — o peso da importância — da fluência — da liqüidez, do escoamento, da espontaneidade — do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos) sobre o meu corpo poético, a fim de que me sobre o que seja genuinamente meu, a fim de que eu, ao escrever os versos que me cabem, acabe não afundado, por inteiro, na influência da fluência dos versos drummondianos sobre os meus.

por sob drummond, isto é, abaixo de drummond, abaixo do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos), abrir, pelo menos, um corpo poético meu. com meu corpo poético, penar sob sua sombra, padecer sob a sombra da influência da fluência poética drummondiana, para, depois, tentar abrir um corpo fora de sua sombra, tentar abrir um corpo de luz, tentar abrir um corpo poético inteiramente iluminado por uma luz inteiramente minha, própria, peculiar, autêntica.

(que assim seja.)

salve cda!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do livro: Dever. autor: Armando Freitas Filho. editora: Companhia das Letras.)

 

 

CDA DE ATLÂNTICO E BRONZE

 

Não é do costumeiro bronze
que exalta as estátuas
nem do mármore consagrador.
É rico em ferro anímico lavrado
na sua Confidência, há tanto tempo.
O pedestal que eleva é dispensável.
Bastante é o banco ao nível do mar
e dos homens onde, sentado de costas
para o horizonte, acolhe a todos
que durante os dias o procuram.
Difícil é vê-lo só, e mesmo assim
de longe, nós o acompanhamos.
Muitas vezes tiram os seus óculos
por ganância ou lembrança.
Logo os repõem para que não perca
de vista quem passa e precisa
da presença de sua eternidade.

 

 

129

sob CDA

Tirar o peso da influência
da fluência do seu corpo
sobre o meu. Abrir um corpo
pelo menos, e penar
sob sua sombra, para depois
tentar abrir um corpo de luz.

O DIÁLOGO ENTRE POETAS — UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
3 de setembro de 2012

(Na foto fora de foco, Paulo Sabino & o imprescindível Armando Freitas Filho.)

_____________________________________________________________

O diálogo entre poetas (um deles, super experiente, e o outro, um novato) pode ser de uma riqueza inestimável (neste caso, para o novato – rs).

 Há pouco tempo escrevi um poema porém não muito seguro dos recursos utilizados à sua arquitetura. Havia gostado dos versos embora não me parecessem “prontos”, como gostaria.
 
Por isso, resolvi escrever ao GRANDE poeta ARMANDO FREITAS FILHO & pedir a sua ajuda.
 
Nada como a voz da experiência…
 
Eis, aqui, o nosso diálogo:
 
“armando querido,
 
deixo, aqui, um poema da minha autoria. gostaria de saber a sua opinião a respeito, a sua impressão. 
 
desejo muitíssimo a sua visão.
 
abraço grande!
paulo sabino.”
_______________________
 
As linhas do Armando:
 
“Caro Paulo: seu poema pede releituras. O que é bom sinal. Assim, de pronto, acho que os parênteses nas estrofes poderiam ser retirados. A leitura fica mais desimpedida e a meditação, camada por camada, rumo ao sentido do ser e do existir, ganha velocidade e se transfigura em mergulho de ponta-cabeça.”
_______________________
 
A minha resposta às linhas do Armando:
 
“armando queridíssimo,
 
concordo com você. de fato, fazendo a leitura sem os parênteses o poema ganha velocidade no mergulho & força dramática. além disso, relendo-o sem os parênteses, juntei o primeiro verso à estrofe seguinte, o que aumenta a beleza plástica do poema: as primeiras 4 estrofes com 4 versos + as 4 estrofes finais com 2 versos. 
 
peço para que fique com esta versão aqui do poema, de que gostei mais.
 
obrigadíssimo por seu olhar, experiente & cirúrgico.

 a versão nova ganhou a vertigem de leitura que merecia.

abraço grande & afetuoso!”

_______________________

 Após a nova versão, as palavras do Armando:

 “Parabéns, Paulo! Grande abraço. Armando.”

_______________________

 Aos senhores, portanto, com o auxílio (luxuoso) do Armando, o mais novo poema do Paulo Sabino:

 

UM  PARA  DENTRO  TODO  EXTERIOR

 
nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber
 
o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior
 
por  detrás
do  dentro
apenas  o
dentro
 
nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:
 
o  oculto
às  claras
 
fundura
em  superfície
 
o  mistério
sem  segredos:
 
todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos

LANÇAMENTO DO LIVRO “CÉU EM CIMA / MAR EM BAIXO”, DE ALEX VARELLA
8 de julho de 2012

_______________________________________________________________________________________________________

Notícia BOA!

Um GANHO para poesia!

O meu QUERIDÍSSIMO amigo, o FILÓSOFO & POETA ALEX VARELLA, lançará o seu terceiro livro de poesias na terça-feira próxima, dia 10 de julho, a partir das 19h, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

O seu livro chama-se “CÉU EM CIMA / MAR EM BAIXO”.

Alex Varella, entre outras coisas, foi professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense e coordenador de Estética e Teoria de Arte Moderna do Galpão das Artes do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

O prefácio do livro ficou a cargo de outro POETA & FILÓSOFO, além de LETRISTA & ENSAÍSTA, o meu também QUERIDO amigo ANTONIO CICERO, e os textos para orelha são assinados pelos SOFISTICADOS poetas ARMANDO FREITAS FILHO & ITALO MORICONI.

De todos os grandes poetas com quem mantenho algum contato, o Alex é um dos que mais tenho intimidade. A minha total afinidade com ele surge, dentre outras coisas, do seu fascínio pelo mar. Alex, assim como eu, é um filho das águas marinhas, um apaixonado pela imensidão & mistérios & riquezas que abriga o mar. Não bastasse, Alex é homem simples, que curte um bom papo, sem dificuldades.

Tenho GRANDE admiração por suas pessoa & poesia.

O livro do Alex é um grande acontecimento à literatura nacional.

No sábado (ontem), dia 07, encontrei o Alex porque, para minha alegria, ele desejava me entregar um exemplar antes mesmo do lançamento oficial.

Abaixo, a dedicatória (grata surpresa!) que o Alex preparou para o meu exemplar:

 

“Ao amigo Paulinho, editor do belo blog PEmP e crítico de poesia, pelo aniversário e pela amizade. Alex Varella”.

 

Maravilha!

Aos senhores, o convite para o lançamento.

Vamos?

Beijo todos!
Paulo Sabino.

INÉDITO DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO + ARS POETICA
8 de maio de 2012

_______________________________________________________________________________________________________

INFORMAÇÃO LUXUOSÍSSIMA!

Acho um PRIVILÉGIO o acesso tão direto a ela.

Me disse a sempre benvinda & querida Inez Cabral de Melo:

 

estou organizando uma edição com um manuscrito inédito do véio (estudos para um auto q ele não terminou) e o armando [freitas filho] escreveu a apresentação. ficou D+! em agosto ou setembro nas melhores livrarias…

 

OBAAAAA! Material INÉDITO do mestre João Cabral de Melo Neto com apresentação de Armando Freitas Filho!

Aos fãs, fica a expectativa & a espera!

(Certamente estarei na noite do lançamento! Armando + João Cabral + Inez Cabral = IMPERDÍVEL!)

João Cabral é considerado, juntamente com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira & Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

A sua poética é conhecida por ser direta, sem floreios, árida, seca, apenas o estritamente necessário, as palavras ponderadas & milimetricamente medidas, explorando ao máximo as potencialidades do mínimo, sem espaço para excessos & verborragia.

Abaixo, aos senhores, um poema lindíssimo do mestre, uma espécie de ars poetica (versos que tratam da natureza da poesia, versos que tratam do processo de criação poética), poema, portanto, que revela o modo de criar poemas utilizado por João Cabral, poema comentado magistralmente pelo meu querido amigo, o poeta & filósofo Antonio Cicero.

Enquanto não chega o lançamento do material inédito de João Cabral, deliciem-se com a bela análise do Cicero e com os belos & clássicos versos do mestre!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
_______________________________________________________________________________________________________

(do livro: A educação da pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

CATAR FEIJÃO

A Alexandre O’Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

_______________________________________________________________________________________________________

(trecho do livro: Poesia e filosofia. autor: Antonio Cicero. editora: Civilização Brasileira.)

 

No poema “Catar feijão”, o poeta João Cabral de Melo Neto exprime, metafórica porém ostensivamente, algumas ideias sobre escrever: sobre, no fundo, escrever poemas (…).

Tratando-se de uma espécie de ars poetica, esse poema chega bastante perto de ser proposicional, dizendo que o poeta deve livrar-se do que é leve (superficial) e oco (insubstancial), palha (ninharia) e eco (repetição do que já foi dito); e que, longe de buscar uma dicção de musicalidade convencional e fácil, deve criar ruídos, obstáculos, surpresas que obriguem o leitor a se manter acordado e atento, retirando-o, através de usos fonéticos, sintáticos, semânticos inesperados, da sonolência, do torpor e da autossatisfação do habitual, do que já tenha sido digerido. A surpreendente comparação entre catar feijão e escrever um poema faz parte da sua estratégia.

Ora, o próprio poema é admirável, não porque proponha essa ars poetica, mas porque realiza magistralmente aquilo que prescreve. Não é no que diz, mas em como diz o que diz que reside sua poesia. É que o poema iconicamente realiza o que aparentemente prescreve.

O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”
10 de fevereiro de 2011

prezados,

abaixo,

depoimentos, de alguns dos poetas que mais admiro, poetas a quem, merecidamente, rendo as minhas loas, sobre o blog “prosa em poema”.

as palavras a seguir me enchem de satisfação e ânimo. sim, porque não é fácil a manutenção deste espaço. é muito prazeroso (afinal, poesia é das coisas mais importantes na minha existência), porém não é fácil.

escolher os poemas, pensar os textos de apresentação, tudo isso requer um tempo que, às vezes, é difícil de conciliar com as tarefas do quotidiano.

todavia, como a poesia é das mais importantes coisas na minha existência, este que vos escreve vai cavando tempo para dedicar-se a ela (não só à leitura como à preparação deste espaço).

portanto, quero compartilhar com os senhores palavras que me fazem não desistir, que me fazem crer que a poesia é importante e precisa de espaço, espaço para alçar vôos, espaço para acolhimento, espaço para divulgação.

linhas de poetas publicados ou citados neste espaço, de poetas a quem devo o meu respeito & a minha admiração GRANDES.

pelo apoio ao trabalho que venho desempenhando, o meu muitíssimo obrigado!

paulo sabino & o “prosa em poema” agradecem a todos vocês, poetas da minha vida, pessoas que transformam olhares & me ajudam trilhafora.

sempre digo que a poesia é, para mim, um barco de salvação em meio a tantas turbulências mundanas.

poesia: aufúgio seguro, embarcação uterina, logradouro aprumado.

continuemos juntos nesta grande aventura que é o universo poético!

beijo bom nos senhores!
um, mais que especial, em todos os poetas!
paulo sabino.
_________________________________________________________________________

O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”:

 

ANTONIO CICERO (poeta, letrista & filósofo):

Paulinho, é sempre um grande prazer e um grande luxo me encontrar no seu blog. Beijo, Antonio Cicero.

 

ARMANDO FREITAS FILHO (poeta):

Caro Paulo: muito obrigado por tudo. Por toda essa saudação que me acompanhará, e que me comove tanto. Muito obrigado pela sua presença tão calorosa e pela sua amizade nova em folha. Com o abraço e o aplauso do Armando.

 

FABIANO CALIXTO (poeta):

Muito gentil, da sua parte, em publicar os poemas em seu belo blog. Ficou muito legal! Muito obrigado. Fique com meu maior abraço de agradecimento, Calixto.

 

CARLOS RENNÓ (poeta & letrista):

Paulo, seu blog é ótimo! acho que eu é que vou ganhar alguns dias com você – lendo seu blog. espero que tenha tempo na maioria das vezes… ah como seria bom se o dia tivesse pelo menos + 2 horas, vai. grato. um abraço. CR.

 

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO (poeta):

paulo, muito obrigada pelas suas palavras! adorei ter sido incluída no seu blogue. e de agora em diante pretendo visitá-lo sempre. um grande abraço!

 

PÉRICLES CAVALCANTI (poeta & compositor):

Oi Paulo, amigo, muito obrigado! É um prazer pra mim também tê-lo aqui nesta ”vizinhança”. Um beijo.

 

PAULA CAJATY (poeta):

fiquei encantada com o seu trabalho minucioso, de comparar poemas, inspirações e trabalhos. tomara que mantenhamos contato. um beijo grande, Paula.

 

CARLITO AZEVEDO (poeta):

Puxa, adorei o blog e fiquei honradíssimo com seu “post” sublunar! Vou passar o endereço para algumas pessoas bacanas. Parabéns e abraços, Carlito.

VIDA & POESIA, POESIA & VIDA: EM ARMANDO, UMA ÚNICA POÇÃO
16 de dezembro de 2010

(paulo sabino & armando freitas filho, no lançamento da antologia organizada por heloisa buarque de hollanda. a dedicatória: “para o paulo, sempre presente no meu computador. armando.”)

__________________________________________________________________________

armando freitas filho fala de si diretamente da sua central, pelo microfone do corpo, pelo auto-falante dos sentidos, diretamente da sua percepção existencial, e revela que é desse modo que se comunica: é assim que se articula com o entorno, e sua poesia emerge dessa articulação.

vida & poesia, poesia & vida:

o que é escrito na página de pele do poeta, o que é revelado no papel fino do espaço que o bardo ocupa — a letra articulada do seu gesto, o rascunho & as rasuras feitas à unha, feitas na sua vida —, é impresso em folha de papel vegetal: o auto-retrato do autor: o autor/retrato:

ajustando & armando as suas peças, as peças que o compõem vidafora — partes, pedras & passos —, o poeta forma, na sua poética, um seu retrato autoral:

as experiências do homem armando freitas filho, repletas dos dedos do acaso, dedos múltiplos com os seus vários perfis contrários, que vão somando avessos no quebra-cabeça existencial (onde o corpo é uma armadura de lacunas, uma armadura de vãos, em tempo, natural, de pressa & perdas), quebra-cabeça onde se armam, onde se armaram, os erros & hiatos de todos nós.

é este o código de barras de armando freitas filho: ele escreve a sua vida. e o que sai do seu sonho, ou do seu punho, vem pela mesma veia-verve, vem por sua dicção urgente, vem por sua dicção nervosa, pulsante, pungente.

entre o corpo (e suas sensações, e suas vivências, sempre reais) e a alma (o nosso “ânimo”, o espaço do sonho, da idéia), uma voz dependurada, voz que mistura, numa única poção, duas aventuras distintas:

a voz do poema.

e é assim sempre. nunca desistir (dessa trajetória) é o seu sempre lema.

antes da chegada da noite última, da noite que encerra todas & quaisquer possibilidades, antes de virar cadáver, osso, antes de virar pó filho da puta (lembrem-se: “ninguém quer a morte / só saúde e sorte”), segue a voz do poeta assinando tudo, sangria desatada, verve vertiginosa, assinando tudo, mesmo sem ver.

e segue a tudo assinando, mesmo os passos da linguagem no corredor da fala:

assina tudo, até a palavra-silêncio, até a palavra feita da carne do silêncio, até a palavra travada no corredor do linguajar, a palavra cujo percurso não se cumpre e que, por dentro, deflagra um mudo curto-circuito. tudo o que perpassa o poeta, no poeta pousa, e, pousando, se lhe escapa e o vence: não há como prender dentro de si até mesmo a palavra obstruída.

assina tudo:

ainda as palavras arrancadas súbitas, rapidamente, pelos cabelos; a tudo assina, ainda as palavras arrancadas pela raiz, ainda as palavras mudas (além das obstruídas), as palavras que não dizem, as que não querem dizer, nem esclarecer, as que erram no ar, quase sem fôlego, buscando um vôo à voz e qualquer vento para poder pousar.      

armando freitas filho, para quem “bato cabeça”, a quem estimo, por quem possuo o mais alto grau de respeito & admiração:

a sua vertente, a sua palavra, é sempre a estreita, rente ao chão, isto é, rente ao mundo, rente às coisas mundanas, e rente à carne, isto é, rente às suas experiências existenciais, rente ao que vive o poeta, por uma vereda, por um caminho íntimo & úmido, tomando, para tanto, o corpo pela raiz, isto é, tomando o corpo pela base, tomando o corpo por “aquilo que provoca, ocasiona ou determina uma atitude, um acontecimento, a existência de algo”, como estampa o dicionário houaiss. tomando, portanto, o corpo pela raiz frontal e viva: fio-terra, chicotexistência de muitas pontas, chicote exatamente múltiplo, e, misturando a engenhosidade & o estudo prévio (o cálculo na vida, na poesia) com a casualidade, com a sorte (o acaso na vida, na poesia), vai no impulso, vai no arranco:

vida & poesia, poesia & vida: dispara, díspare, e pára.

vida & poesia, poesia & vida: em armando freitas filho,

uma única poção.

beijo bom nos senhores!
um outro, especialíssimo, no armando!
paulo sabino. 
___________________________________________________________________________

(do livro: Melhores poemas. seleção: Heloisa Buarque de Hollanda. autor: Armando Freitas Filho. editora: Global.)

 

 

COMUNICAÇÕES

Eu falo de mim — daqui —
desta central
pelo microfone do corpo
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão
pata de lacre
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne
nos panos

repentinos do meu espanto
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim
em fotonovelas

me desdobro — quadro por quadro
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto
aos poucos, plano e pausa
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celuloide
numa lâmina

de velocidade e de lembrança
em fotogramas
de esperas e procuras — falha
folha de slides-células, sopro
e pulso

página de pele em que escrevo
o uso
a articulada letra do meu gesto
o rascunho de unhas e rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade
monograma, silhueta, cadência
e a fala

que se imprime nesta fita
neste sulco
a linguagem como um fim
a linguagem por um fio
e a morte em morse.

 

AUTORRETRATO

No papel fino do espaço
a minha figura pousa
seus traços e braços:
pedaços, quebra-cabeça

armando as suas peças
partes, pedras e passos:
a cada gesto o contato
tão tátil de fragmentos

que os dedos do acaso
adaptam, múltiplos
com seus vários perfis
contrários, numa soma

de avessos e retalhos
e a imagem sob a pele
é alinhavada: andaimes
de cartas, o castelo

embaralhado pelo vento
que sacode flâmulas
de naipes enventados:
construção de dados

com seus inúmeros
números, lados, ludus
o encontro de cubos
neste espelho de papel

onde o puzzle do corpo
uma armadura de lacunas
em tempo de pressa e perda
armou seus erros e hiatos.

 


CÓDIGO DE BARRAS

Escrevo a minha vida.
E o que sai do meu sonho
ou do meu punho
vem pela mesma veia
em dicção urgente.

Entre corpo e alma
a voz dependurada
mistura numa única poção
duas aventuras distintas
no fluxo e no pulso.

Nunca desisto, sempre.
“Antes de virar cadáver
osso, pó filho da puta”
vou assinando tudo sem ver
pois se parar não começo mais.

 

DUAS NOTAS

Os passos da linguagem
no corredor da fala:
esta palavra que suspiro
e não digo: granada de silêncio
entre os dentes, corcel de vozes
galope, impulso, carga
percurso que não se cumpre
e, por dentro, deflagra um mudo
curto-circuito, uma suíte nua
e elétrica, sem pauta nem pausa.

Escrevo o silêncio com a tinta
branca do invisível: aqui está
o que não falo e o que medo
cala: cada letra ou as estrelas
imaginárias sonhando nas entrelinhas.
O que não consigo e persigo
o que persiste, tateia e segue
seu curso — do ápice ao colapso —
o vário fragmento, tudo o que penso
pousa em mim, e me vence.

 

ARRANCADAS TÃO DEPRESSA

Arrancadas tão depressa
              pelos cabelos
pela raiz
da terra última
estas palavras são mudas
trêmulas e íntimas
e erram no ar
quase sem fôlego
buscando um voo para a voz
e qualquer vento para o pouso.

 

PEQUENA MORTE

 

Acabo. Vou pela vertente estreita
rente ao chão e à carne
pela via íntima e úmida
tomando o corpo pela raiz
frontal e viva: fio terra, chicote
de muitas pontas
exatamente múltiplo — venéreo
combinando músculos e números
entre cálculo e acaso
vou no impulso, no arranco
sem ensaio: disparo, desperdício
e paro.

O MACHADO (AFIADO) DE ASSIS
30 de julho de 2010

(extraído do jornal: O Globo. caderno: Prosa & Verso. em: 03/07/2010.)
 
 
FAMÍLIA DE LETRAS (autor: Armando Freitas Filho)
 
Machado puxa o fio
da sua caligrafia
até que a mão de Graciliano
o alcance, deixando-o
então, com Carlos Drummond
que passa para
Antonio Candido, e deste chega
a João Cabral, unindo-os
na mesma linhagem
com a linha do seu novelo.
 
_________________________________________________________________________
 
segundo este belíssimo poema, de armando freitas filho, publicado pela primeira vez no jornal “o globo”, o fio da meada que acabou por tecer o manejo da língua portuguesa em tempos atuais, tempos modernos, começou a desenrolar-se em
 
machado de assis
 
, considerado, com todo merecimento, um dos maiores escritores da literatura universal.
 
machado é justamente o autor que vivencia uma mudança no modo de escrever literatura.
 
com o tempo e o aprimoramento do seu estilo, o escritor, entre requinte & sofisticação, aplica, nos seus textos, uma linguagem livre dos maneirismos do romantismo, aproximando a sua literatura da fase realista, que, ao contrário do período anterior (o período romântico), como o próprio nome sugere, procurava uma narrativa mais próxima à realidade mundana, sem muitas idealizações e criações de personagens-heróis.
 
no movimento realista, as personagens são forjadas, são tramadas, urdidas, com as nuances que nos competem a nós, seres humanos, seres de facetas várias, ruins & boas, doces & amargas, fáceis & difíceis. a arquitetura das personagens é trabalhada a fim de que se obtenha uma estrutura psicológica — dessas mesmas personagens — mais próxima do que somos, para que haja maior identificação entre o leitor e a obra lida.
 
há pouco tempo, reencontrei machado de assis numa seleção de contos seus. e o primeiro conto relido foi este que segue abaixo.
 
a sua publicação data de 1869, numa reunião à época intitulada “contos fluminenses”, época em que machado de assis ainda escrevia com o peso romântico na tinta. mesmo assim, notem como, neste texto, o escritor já dá mostras da sua reviravolta nas letras.
 
percebam como machado, espertamente, desperta a curiosidade nossa e nos prende logo nos primeiros parágrafos, ávidos que ficamos para sabermos, afinal, quem (e como) é a personagem principal.
 
vejam como o grande escritor destila o seu humor, sóbrio, sábio, com um quê de deboche em alguns momentos, sobre algumas personagens e situações. 
 
observem o seu encaixe de palavras, os efeitos de suas construções frasais.
 
notem como machado de assis engendra a trama, de modo que esta se dê saborosa, cativante (incitando o nosso interesse pelo porvir das linhas), mesmo num conto de argamassa romântica.
 
eu, particularmente, não sou chegado à literatura romântica. eu leio, conheço coisas, mas decididamente não está entre as minhas preferências.
 
no entanto, a genialidade de machado, desde antes dos seus mais célebres textos, a sua perspicácia, a sua inteligência, os seus requinte & conhecimento da língua, criaram um diferencial. mesmo sendo da sua fase romântica, só me desgrudei deste conto ao término. 
 
isto aqui é uma lição de português e de criação literária.
 
(mais um serviço de utilidade pública – rs.)
 
regalem-se com este presente literário!
 
beijo terno em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.      
 
_________________________________________________________________________
 
(do livro: O conto de Machado de Assis. autor: Machado de Assis. organização: Sônia Brayner. editora: Civilização Brasileira.)
 
 
 
MISS DOLLAR
 
 
 
Capítulo I
 
 
Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresentação de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o papel sem adiantar a ação. Não há hesitação possível: vou apresentar-lhes Miss Dollar.

Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar é uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dous grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças louras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef britânico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoutos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um suspiro.

A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.

Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez será uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita. Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, cousa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol. Será uma boa mãe de família segundo a doutrina de alguns padres-mestres da civilização, isto é, fecunda e ignorante.

Já não será do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas páginas, seria uma boa inglesa de cinqüenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se não tivesse óculos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chapéu de linho em forma de cuia, seriam a última demão deste magnífico tipo de ultramar.

Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a heroína do romance não é nem foi inglesa, mas brasileira dos quatro costados, e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.

A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem as outras são exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a brasileira rica. Falha desta vez a proverbial perspicácia dos leitores; Miss Dollar é uma cadelinha galga.

Para algumas pessoas a qualidade da heroína fará perder o interesse do romance. Erro manifesto. Miss Dollar, apesar de não ser mais que uma cadelinha galga, teve as honras de ver o seu nome nos papéis públicos, antes de entrar para este livro. O Jornal do Comércio e o Correio Mercantil publicaram nas colunas dos anúncios as seguintes linhas reverberantes de promessa:

“Desencaminhou-se uma cadelinha galga, na noite de ontem, 30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e
quiser levar à rua de Mata-cavalos no…, receberá duzentos mil-réis de recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao pescoço fechada por um cadeado em que se lêem as seguintes palavras: De tout mon coeur.”

Todas as pessoas que sentiam necessidade urgente de duzentos mil-réis, e tiveram a felicidade de ler aquele anúncio, andaram nesse dia com extremo cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se davam com a fugitiva Miss Dollar. Galgo que aparecesse ao longe era perseguido com tenacidade até verificar-se que não era o animal procurado. Mas toda esta caçada dos duzentos mil-réis era completamente inútil, visto que, no dia em que apareceu o anúncio, já Miss Dollar estava aboletada na casa de um sujeito morador nos Cajueiros que fazia coleção de cães.
 
 
Capítulo II 
 
 
Quais as razões que induziram o Dr. Mendonça a fazer coleção de cães, é cousa que ninguém podia dizer; uns queriam que fosse simplesmente paixão por esse símbolo da fidelidade ou do servilismo; outros pensavam antes que, cheio de profundo desgosto pelos homens, Mendonça achou que era de boa guerra adorar os cães.

Fossem quais fossem as razões, o certo é que ninguém possuía mais bonita e variada coleção do que ele. Tinha-os de todas as raças, tamanhos e cores. Cuidava deles como se fossem seus filhos; se algum lhe morria ficava melancólico. Quase se pode dizer que, no espírito de Mendonça, o cão pesava tanto como o amor, segundo uma expressão célebre: tirai do mundo o cão, e o mundo será um ermo.

O leitor superficial conclui daqui que o nosso Mendonça era um homem excêntrico. Não era. Mendonça era um homem como os outros; gostava de cães como outros gostam de flores. Os cães eram as suas rosas e violetas; cultivava-os com o mesmíssimo esmero. De flores gostava também; mas gostava delas nas plantas em que nasciam: cortar um jasmim ou prender um canário parecia-lhe idêntico atentado.

Era o Dr. Mendonça homem de seus trinta e quatro anos, bem apessoado, maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum tempo de doentes; a clínica estava já adiantada quando sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendonça inventou um elixir contra a doença; e tão excelente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de réis. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a família. A família compunha-se dos animais citados acima.

Na memorável noite em que se desencaminhou Miss Dollar, voltava Mendonça para casa quando teve a ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A cadelinha entrou a acompanhá-lo, e ele, notando que era animal sem dono visível, levou-a consigo para os Cajueiros.

Apenas entrou em casa examinou cuidadosamente a cadelinha, Miss Dollar era realmente um mimo; tinha as formas delgadas e graciosas da sua fidalga raça; os olhos castanhos e aveludados pareciam exprimir a mais completa felicidade deste mundo, tão alegres e serenos eram. Mendonça contemplou-a e examinou minuciosamente. Leu o dístico do cadeado que fechava a coleira, e convenceu-se finalmente de que a cadelinha era animal de grande estimação da parte de quem quer que fosse dono dela.

– Se não aparecer o dono, fica comigo, disse ele entregando Miss Dollar ao moleque encarregado dos cães.

Tratou o moleque de dar comida a Miss Dollar, enquanto Mendonça planeava um bom futuro à nova hóspede, cuja família devia perpetuar-se na casa.

O plano de Mendonça durou o que duram os sonhos: o espaço de uma noite. No dia seguinte, lendo os jornais, viu o anúncio transcrito acima, prometendo duzentos mil-réis a quem entregasse a cadelinha fugitiva. A sua paixão pelos cães deu-lhe a medida da dor que devia sofrer o dono ou dona de Miss Dollar, visto que chegava a oferecer duzentos mil-réis de gratificação a quem apresentasse a galga. Conseqüentemente resolveu restituí-la, com bastante mágoa do coração. Chegou a hesitar por alguns instantes; mas afinal venceram os sentimentos de probidade e compaixão, que eram o apanágio daquela alma. E, como se lhe custasse despedir-se do animal, ainda recente na casa, dispôs-se a levá-lo ele mesmo, e para esse fim preparou-se. Almoçou, e depois de averiguar bem se Miss Dollar havia feito a mesma operação, saíram ambos de casa com direção a Mata-cavalos.

Naquele tempo ainda o Barão do Amazonas não tinha salvo a independência das repúblicas platinas mediante a vitória de Riachuelo, nome com que depois a Câmara Municipal crismou a Rua de Mata-cavalos. Vigorava, portanto, o nome tradicional da rua, que não queria dizer cousa nenhuma de jeito.

A casa que tinha o número indicado no anúncio era de bonita aparência e indicava certa abastança nos haveres de quem lá morasse. Antes mesmo que Mendonça batesse palmas no corredor, já Miss Dollar, reconhecendo os pátrios lares, começava a pular de contente e a soltar uns sons alegres e guturais que, se houvesse entre os cães literatura, deviam ser um hino de ação de graças.

Veio um moleque saber quem estava; Mendonça disse que vinha restituir a galga fugitiva. Expansão do rosto do moleque, que correu a anunciar a boa nova. Miss Dollar, aproveitando uma fresta, precipitou-se pelas escadas acima. Dispunha-se Mendonça a descer, pois estava cumprida a sua tarefa, quando o moleque voltou dizendo-lhe que subisse e entrasse para a sala.

Na sala não havia ninguém. Algumas pessoas, que têm salas elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar. É possível que esse fosse o costume dos donos daquela casa, mas desta vez não se cuidou em semelhante cousa, porque mal o médico entrou pela porta do corredor surgiu de outra interior uma velha com Miss Dollar nos braços e a alegria no rosto.

– Queira ter a bondade de sentar-se, disse ela designando uma cadeira à Mendonça.

– A minha demora é pequena, disse o médico sentando-se. Vim trazer-lhe a cadelinha que está comigo desde ontem…

– Não imagina que desassossego causou cá em casa a ausência de Miss Dollar…

– Imagino, minha senhora; eu também sou apreciador de cães, e se me faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss Dollar…

– Perdão! interrompeu a velha; minha não; Miss Dollar não é minha, é de minha sobrinha.

– Ah!…

– Ela aí vem.

Mendonça levantou-se justamente quando entrava na sala a sobrinha em questão. Era uma moça que representava vinte e oito anos, no pleno desenvolvimento da sua beleza, uma dessas mulheres que anunciam velhice tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular realce à cor imensamente branca da sua pele. Era roçagante o vestido, o que lhe aumentava a majestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe todo o colo; mas adivinhava-se por baixo da seda um belo tronco de mármore modelado por escultor divino. Os cabelos castanhos e naturalmente ondeados estavam penteados com essa simplicidade caseira, que é a melhor de todas as modas conhecidas; ornavam-lhe graciosamente a fronte como uma coroa doada pela natureza. A extrema brancura da pele não tinha o menor tom cor-de-rosa que lhe fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa expressão imperiosa. Mas a grande distinção daquele rosto, aquilo que mais prendia os
olhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.

Mendonça nunca vira olhos verdes em toda a sua vida; disseram-lhe que existiam olhos verdes, ele sabia de cor uns versos célebres de Gonçalves Dias; mas até então os olhos verdes eram para ele a mesma cousa que a fênix dos antigos. Um dia, conversando com uns amigos a propósito disto, afirmava que se alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria deles com terror.

– Por quê? perguntou-lhe um dos circunstantes admirado.

– A cor verde é a cor do mar, respondeu Mendonça; evito as tempestades de um; evitarei as tempestades dos outros.

Eu deixo ao critério do leitor esta singularidade de Mendonça, que de mais a mais é preciosa, no sentido de Molière.
 
 
Capítulo III
 
 
Mendonça cumprimentou respeitosamente a recém-chegada, e esta, com um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.

– Agradeço-lhe infinitamente o ter-me restituído este pobre animal, que me merece grande estima, disse Margarida sentando-se.

– E eu dou graças a Deus por tê-lo achado; podia ter caído em mãos que o não restituíssem.

Margarida fez um gesto a Miss Dollar, e a cadelinha, saltando do regaço da velha, foi ter com Margarida; levantou as patas dianteiras e pôs-lhas sobre os joelhos; Margarida e Miss Dollar trocaram um longo olhar de afeto. Durante esse tempo uma das mãos da moça brincava com uma das orelhas da galga, e dava assim lugar a que Mendonça admirasse os seus belíssimos dedos armados com unhas agudíssimas.

Mas, conquanto Mendonça tivesse sumo prazer em estar ali, reparou que era esquisita e humilhante a sua demora. Pareceria estar esperando a gratificação. Para escapar a essa interpretação desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contemplação da moça; levantou-se dizendo:

– A minha missão está cumprida…

– Mas… interrompeu a velha.

Mendonça compreendeu a ameaça da interrupção da velha.

– A alegria, disse ele, que restituí a esta casa é a maior recompensa que eu podia ambicionar. Agora peço-lhes licença…

As duas senhoras compreenderam a intenção de Mendonça; a moça pagou-lhe a cortesia com um sorriso; e a velha, reunindo no pulso quantas forças ainda lhe restavam pelo corpo todo, apertou com amizade a mão do rapaz.

Mendonça saiu impressionado pela interessante Margarida. Notava-lhe principalmente, além da beleza, que era de primeira água, certa severidade triste no olhar e nos modos. Se aquilo era caráter da moça, dava-se bem com a índole de médico; se era resultado de algum episódio da vida, era uma página do romance que devia ser decifrada por olhos hábeis. A falar verdade, o único defeito que Mendonça lhe achou foi a cor dos olhos, não porque a cor fosse feia, mas porque ele tinha prevenção contra os olhos verdes. A prevenção, cumpre dizê-lo, era mais literária que outra cousa; Mendonça apegava-se à frase que uma vez proferira, e foi acima citada, e a frase é que lhe produziu a prevenção. Não mo acusem de chofre; Mendonça era homem inteligente, instruído e dotado de bom senso; tinha, além disso, grande tendência para as afeições românticas; mas apesar disso lá tinha calcanhar o nosso Aquiles. Era homem como os outros, outros Aquiles andam por aí que são da cabeça aos pés um imenso calcanhar. O ponto vulnerável de Mendonça era esse; o amor de uma frase era capaz de violentar-lhe afetos; sacrificava uma situação a um período arredondado.

Referindo a um amigo o episódio da galga e a entrevista com Margarida, Mendonça disse que poderia vir a gostar dela se não tivesse olhos verdes. O amigo riu com certo ar de sarcasmo.

– Mas, doutor, disse-lhe ele, não compreendo essa prevenção; eu ouço até dizer que os olhos verdes são de ordinário núncios de boa alma. Além de que, a cor dos olhos não vale nada, a questão é a expressão deles. Podem ser azuis como o céu e pérfidos como o mar.

A observação deste amigo anônimo tinha a vantagem de ser tão poética como a de Mendonça. Por isso abalou profundamente o ânimo do médico. Não ficou este como o asno de Buridan entre a selha d’água e a quarta de cevada; o asno hesitaria, Mendonça não hesitou. Acudiu-lhe de pronto a lição do casuísta Sánchez, e das duas opiniões tomou a que lhe pareceu provável.

Algum leitor grave achará pueril esta circunstância dos olhos verdes e esta controvérsia sobre a qualidade provável deles. Provará com isso que tem pouca prática do mundo. Os almanaques pitorescos citam até à saciedade mil excentricidades e senões dos grandes varões que a humanidade admira, já por instruídos nas letras, já por valentes nas armas; e nem por isso deixamos de admirar esses mesmos varões. Não queira o leitor abrir uma exceção só para encaixar nela o nosso doutor. Aceitemo-lo com os seus ridículos; quem os não tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento.

Para compensar essas fraquezas, já disse que Mendonça tinha qualidades não vulgares. Adotando a opinião que lhe pareceu mais provável, que foi a do amigo, Mendonça disse consigo que nas mãos de Margarida estava talvez a chave do seu futuro. Ideou nesse sentido um plano de felicidade; uma casa num ermo, olhando para o mar ao lado do ocidente, a fim de poder assistir ao espetáculo do pôr-do-sol. Margarida e ele, unidos pelo amor e pela Igreja, beberiam ali, gota a gota, a taça inteira da celeste felicidade. O sonho de Mendonça continha outras particularidades que seria ocioso mencionar aqui. Mendonça pensou nisto alguns dias; chegou a passar algumas vezes por Mata-cavalos; mas tão infeliz que nunca viu Margarida nem a tia; afinal desistiu da empresa e voltou aos cães.

A coleção de cães era uma verdadeira galeria de homens ilustres. O mais estimado deles chamava-se Diógenes; havia um galgo que acudia ao nome de César; um cão d’água que se chamava Nelson; Cornélia chamava-se uma cadelinha rateira, e Calígula um enorme cão de fila, vera-efígie do grande monstro que a sociedade romana produziu. Quando se achava entre toda essa gente, ilustre por diferentes títulos, dizia Mendonça que entrava na história; era assim que se esquecia do resto do mundo.
 
 
Capítulo IV
 
 
Achava-se Mendonça uma vez à porta do Carceller, onde acabava de tomar sorvete em companhia de um indivíduo, amigo dele, quando viu passar um carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe pareceram as senhoras de Mata-cavalos. Mendonça fez um movimento de espanto que não escapou ao amigo.

– Que foi? perguntou-lhe este.

– Nada; pareceu-me conhecer aquelas senhoras. Viste-as, Andrade?

– Não.

O carro entrara na Rua do Ouvidor; os dous subiram pela mesma rua. Logo acima da Rua da Quitanda, parara o carro à porta de uma loja, e as senhoras apearam-se e entraram. Mendonça não as viu sair; mas viu o carro e suspeitou que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer nada a Andrade, que fez o mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente um homem quando percebe algum segredo oculto.

Poucos instantes depois estavam à porta da loja; Mendonça verificou que eram as duas senhoras de Mata-cavalos. Entrou afouto, com ar de quem ia comprar alguma cousa, e aproximou-se das senhoras. A primeira que o conheceu foi a tia. Mendonça cumprimentou-as respeitosamente. Elas receberam o cumprimento com afabilidade. Ao pé de Margarida estava Miss Dollar, que, por esse admirável faro que a natureza concedeu aos cães e aos cortesãos da fortuna, deu dous saltos de alegria apenas viu Mendonça, chegando a tocar-lhe o estômago com as patas dianteiras.

– Parece que Miss Dollar ficou com boas recordações suas, disse D. Antônia (assim se chamava a tia de Margarida).

– Creio que sim, respondeu Mendonça brincando com a galga e olhando para Margarida.

Justamente nesse momento entrou Andrade.

– Só agora as reconheci, disse ele dirigindo-se às senhoras.

Andrade apertou a mão das duas senhoras, ou antes apertou a mão de Antônia e os dedos de Margarida.

Mendonça não contava com este incidente, e alegrou-se com ele por ter à mão o meio de tornar íntimas as relações superficiais que tinha com a família.

– Seria bom, disse ele a Andrade, que me apresentasses a estas senhoras.

– Pois não as conheces? perguntou Andrade estupefato.

– Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu sorrindo a velha tia; por ora quem o apresentou foi Miss Dollar.

Antônia referiu a Andrade a perda e o achado da cadelinha.

– Pois, nesse caso, respondeu Andrade, apresento-o já.

Feita a apresentação oficial, o caixeiro trouxe a Margarida os objetos que ela havia comprado, e as duas senhoras despediram-se dos rapazes pedindo-lhes que as fossem ver.

Não citei nenhuma palavra de Margarida no diálogo acima transcrito, porque, a falar verdade, a moça só proferiu duas palavras a cada um dos rapazes.

– Passe bem, disse-lhes ela dando as pontas dos dedos e saindo para entrar no carro.

Ficando sós, saíram também os dous rapazes e seguiram pela Rua do Ouvidor acima, ambos calados. Mendonça pensava em Margarida; Andrade pensava nos meios de entrar na confidência de Mendonça. A vaidade tem mil formas de manifestar-se como o fabuloso Proteu. A vaidade de Andrade era ser confidente dos outros; parecia-lhe assim obter da confiança aquilo que só alcançava da indiscrição. Não lhe foi difícil apanhar o segredo de Mendonça; antes de chegar à esquina da Rua dos Ourives já Andrade sabia de tudo.

– Compreendes agora, disse Mendonça, que eu preciso ir à casa dela; tenho necessidade de vê-la; quero ver se consigo…

Mendonça estacou.

– Acaba! disse Andrade; se consegues ser amado. Por que não? Mas desde já te digo que não será fácil.

– Por quê?

– Margarida tem rejeitado cinco casamentos.

– Naturalmente não amava os pretendentes, disse Mendonça com o ar de um geômetra que acha uma solução.

– Amava apaixonadamente o primeiro, respondeu Andrade, e não era indiferente ao último.

– Houve naturalmente intriga.

– Também não. Admiras-te? É o que me acontece. É uma rapariga esquisita. Se te achas com força de ser o Colombo daquele mundo, lança-te ao mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das paixões, que são os ferozes marujos destas navegações de descoberta.

Entusiasmado com esta alusão, histórica debaixo da forma de alegoria, Andrade olhou para Mendonça, que, desta vez entregue ao pensamento da moça, não atendeu à frase do amigo. Andrade contentou-se com o seu próprio sufrágio, e sorriu com o mesmo ar de satisfação que deve ter um poeta quando escreve o último verso de um poema.
 
 
Capítulo V
 
 
Dias depois, Andrade e Mendonça foram à casa de Margarida, e lá passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas repetiram-se; eram porém mais freqüentes da parte de Mendonça que de Andrade. D. Antônia mostrou-se mais familiar que Margarida; só depois de algum tempo Margarida desceu do Olimpo do silêncio em que habitualmente se encerrara.

Era difícil deixar de o fazer. Mendonça, conquanto não fosse dado à convivência das salas, era um cavalheiro próprio para entreter duas senhoras que pareciam mortalmente aborrecidas. O médico sabia piano e tocava agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses mil nadas que entretêm geralmente as senhoras quando elas não gostam ou não podem entrar no terreno elevado da arte, da história e da filosofia. Não foi difícil ao rapaz estabelecer intimidade com a família.

Posteriormente às primeiras visitas, soube Mendonça, por via de Andrade, que Margarida era viúva. Mendonça não reprimiu o gesto de espanto.

– Mas tu falaste de um modo que parecias tratar de uma solteira, disse ele ao amigo.

– É verdade que não me expliquei bem; os casamentos recusados foram todos propostos depois da viuvez.

– Há que tempo está viúva?

– Há três anos.

– Tudo se explica, disse Mendonça depois de algum silêncio; quer ficar fiel à sepultura; é uma Artemisa do século.

Andrade era céptico a respeito de Artemisas; sorriu à observação do amigo, e, como este insistisse, replicou:

– Mas se eu já te disse que ela amava apaixonadamente o primeiro pretendente e não era indiferente ao último.

– Então, não compreendo.

– Nem eu.

Mendonça desde esse momento tratou de cortejar assiduamente a viúva; Margarida recebeu os primeiros olhares de Mendonça com um ar de tão supremo desdém, que o rapaz esteve quase a abandonar a empresa; mas, a viúva, ao mesmo tempo que parecia recusar amor, não lhe recusava estima, e tratava-o com a maior meiguice deste mundo sempre que ele a olhava como toda a gente.

Amor repelido é amor multiplicado. Cada repulsa de Margarida aumentava a paixão de Mendonça. Nem já lhe mereciam atenção o feroz Calígula, nem o elegante Júlio César. Os dous escravos de Mendonça começaram a notar a profunda diferença que havia entre os hábitos de hoje e os de outro tempo. Supuseram logo que alguma cousa o preocupava. Convenceram-se disso quando Mendonça, entrando uma vez em casa, deu com a ponta do botim no focinho de Cornélia, na ocasião em que esta interessante cadelinha, mãe de dous Gracos rateiros, festejava a chegada do doutor.

Andrade não foi insensível aos sofrimentos do amigo e procurou consolá-lo. Toda a consolação nestes casos é tão desejada quanto inútil; Mendonça ouvia as palavras de Andrade e confiava-lhe todas as suas penas. Andrade lembrou a Mendonça um excelente meio de fazer cessar a paixão: era ausentar-se da casa. A isto respondeu Mendonça citando La Rochefoucauld:

“A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.”

A citação teve o mérito de tapar a boca de Andrade, que acreditava tanto na constância como nas Artemisas, mas que não queria contrariar a autoridade do moralista, nem a resolução de Mendonça.
 
 
Capítulo VI
 
 
Correram assim três meses. A corte de Mendonça não adiantava um passo; mas a viúva nunca deixou de ser amável com ele. Era isto o que principalmente retinha o médico aos pés da insensível viúva; não o abandonava a esperança de vencê-la.

Algum leitor conspícuo desejaria antes que Mendonça não fosse tão assíduo na casa de uma senhora exposta às calúnias do mundo. Pensou nisso o médico e consolou a consciência com a presença de um indivíduo, até aqui não nomeado por motivo de sua nulidade, e que era nada menos que o filho da Sra. D. Antônia e a menina dos seus olhos. Chamava-se Jorge esse rapaz, que gastava duzentos mil-réis por mês, sem os ganhar, graças à longanimidade da mãe. Freqüentava as casas dos cabeleireiros, onde gastava mais tempo que uma romana da decadência às mãos das suas servas latinas. Não perdia representação de importância no Alcazar; montava bons cavalos, e enriquecia com despesas extraordinárias as algibeiras de algumas damas célebres e de vários parasitas obscuros. Calçava luvas letra da E e botas no 36, duas qualidades que lançava à cara de todos os seus amigos que não desciam do no 40 e da letra H. A presença deste gentil pimpolho, achava Mendonça que salvava a situação. Mendonça queria dar esta satisfação ao mundo, isto é, à opinião dos ociosos da cidade. Mas bastaria
isso para tapar a boca aos ociosos?

Margarida parecia indiferente às interpretações do mundo como à assiduidade do rapaz. Seria ela tão indiferente a tudo mais neste mundo? Não; amava a mãe, tinha um capricho por Miss Dollar, gostava da boa música, e lia romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em matéria de moda; não valsava; quando muito dançava alguma quadrilha nos saraus a que era convidada. Não falava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto gracioso e animado, mas sem pretensão nem faceirice.

Quando Mendonça aparecia lá, Margarida recebia-o com visível contentamento. O médico iludia-se sempre, apesar de já acostumado a essas manifestações. Com efeito, Margarida gostava imenso da presença do rapaz, mas não parecia dar-lhe uma importância que lisonjeasse o coração dele. Gostava de o ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer de amores pelo sol.

Não era possível sofrer por muito tempo a posição em que se achava o médico. Uma noite, por um esforço de que antes disso se não julgaria capaz, Mendonça dirigiu a Margarida esta pergunta indiscreta:

– Foi feliz com seu marido?

Margarida franziu a testa com espanto e cravou os olhos nos do médico, que pareciam continuar mudamente a pergunta.

– Fui, disse ela no fim de alguns instantes.

Mendonça não disse palavra; não contava com aquela resposta. Confiava demais na intimidade que reinava entre ambos; e queria descobrir por algum modo a causa da insensibilidade da viúva. Falhou o cálculo; Margarida tornou-se séria durante algum tempo; a chegada de D. Antônia salvou uma situação esquerda para Mendonça. Pouco depois Margarida voltava às boas, e a conversa tornou-se animada e íntima como sempre. A chegada de Jorge levou a animação da conversa a proporções maiores; D. Antônia, com olhos e ouvidos de mãe, achava que o filho era o rapaz mais engraçado deste mundo; mas a verdade é que não havia em toda a cristandade espírito mais frívolo. A mãe ria-se de tudo quanto o filho dizia; o filho enchia, só ele, a conversa, referindo anedotas e reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendonça via todas essas feições do rapaz, e aturava-o com resignação evangélica.

A entrada de Jorge, animando a conversa, acelerou as horas; às dez retirou-se o médico, acompanhado pelo filho de D. Antônia, que ia cear. Mendonça recusou o convite que Jorge lhe fez, e despediu-se dele na Rua do Conde, esquina da do Lavradio.

Nessa mesma noite resolveu Mendonça dar um golpe decisivo; resolveu escrever uma carta a Margarida. Era temerário para quem conhecesse o caráter da viúva; mas, com os precedentes já mencionados, era loucura. Entretanto não hesitou o médico em empregar a carta, confiando que no papel diria as cousas de muito melhor maneira que de boca. A carta foi escrita com febril impaciência; no dia seguinte, logo depois de almoçar, Mendonça meteu a carta dentro de um volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.

A viúva rompeu a capa de papel que embrulhava o volume, e pôs o livro sobre a mesa da sala; meia hora depois voltou e pegou no livro para ler. Apenas o abriu, caiu-lhe a carta aos pés. Abriu-a e leu o seguinte:

“Qualquer que seja a causa da sua esquivança, respeito-a, não me insurjo contra ela. Mas, se não me é dado insurgir-me, não me será lícito queixar-me? Há de ter compreendido o meu amor, do mesmo modo que tenho compreendido a sua indiferença; mas, por maior que seja essa indiferença está longe de ombrear com o amor profundo e imperioso que se apossou de meu coração quando eu mais longe me cuidava destas paixões dos primeiros anos. Não lhe contarei as insônias e as lágrimas, as esperanças e os desencantos, páginas tristes deste livro que o destino põe nas mãos do homem para que duas almas o leiam. É-lhe indiferente isso.

Não ouso interrogá-la sobre a esquivança que tem mostrado em relação a mim; mas por que motivo se estende essa esquivança a tantos mais? Na idade das paixões férvidas, ornada pelo céu com uma beleza rara, por que motivo quer enconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o coração de seus incontestáveis direitos? Perdoe-me a audácia da pergunta; acho-me diante de um enigma que o meu coração desejaria decifrar. Penso às vezes que alguma grande dor a atormenta, e quisera ser o médico do seu coração; ambicionava, confesso, restaurar-lhe alguma ilusão perdida. Parece que não há ofensa nesta ambição.

Se, porém, essa esquivança denota simplesmente um sentimento de orgulho legítimo, perdoe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos expressamente mo proibiram. Rasgue a carta que não pode valer-lhe uma recordação, nem representar uma arma.”

A carta era toda de reflexão; a frase fria e medida não exprimia o fogo do sentimento. Não terá, porém, escapado ao leitor a sinceridade e a simplicidade com que Mendonça pedia uma explicação que Margarida provavelmente não podia dar.

Quando Mendonça disse a Andrade haver escrito a Margarida, o amigo do médico entrou a rir despregadamente.

– Fiz mal? perguntou Mendonça.

– Estragaste tudo. Os outros pretendentes começaram também por carta; foi justamente a certidão de óbito do amor.

– Paciência, se acontecer o mesmo, disse Mendonça levantando os ombros com aparente indiferença; mas eu desejava que não estivesses sempre a falar nos pretendentes; eu não sou pretendente no sentido desses.

– Não querias casar com ela?

– Sem dúvida, se fosse possível, respondeu Mendonça.

– Pois era justamente o que os outros queriam; casar-te-ias e entrarias na mansa posse dos bens que lhe couberam em partilha e que sobem a muito mais de cem contos. Meu rico, se falo em pretendentes não é por te ofender, porque um dos quatro pretendentes despedidos fui eu.

– Tu?

– É verdade; mas descansa, não fui o primeiro, nem ao menos o último.

– Escreveste?

– Como os outros; como eles, não obtive resposta; isto é, obtive uma: devolveu-me a carta. Portanto, já que lhe escreveste, espera o resto; verás se o que te digo é ou não exato. Estás perdido, Mendonça; fizeste muito mal.

Andrade tinha esta feição característica de não omitir nenhuma das cores sombrias de uma situação, com o pretexto de que aos amigos se deve a verdade. Desenhado o quadro, despediu-se de Mendonça, e foi adiante.

Mendonça foi para casa, onde passou a noite em claro.
 
 
Capítulo VII
 
 
Enganara-se Andrade; a viúva respondeu à carta do médico. A carta dela limitou-se a isto:

“Perdôo-lhe tudo; não lhe perdoarei se me escrever outra vez. A minha esquivança não tem nenhuma causa; é questão de temperamento”.

O sentido da carta era ainda mais lacônico do que a expressão. Mendonça leu-a muitas vezes, a ver se a completava; mas foi trabalho perdido. Uma cousa concluiu ele logo; era que havia cousa oculta que arredava Margarida do casamento; depois concluiu outra, era que Margarida ainda lhe perdoaria segunda carta se lha escrevesse.

A primeira vez que Mendonça foi a Mata-cavalos achou-se embaraçado sobre a maneira por que falaria a Margarida; a viúva tirou-o do embaraço, tratando-o como se nada houvesse entre ambos. Mendonça não teve ocasião de aludir às cartas por causa da presença de D. Antônia, mas estimou isso mesmo, porque não sabia o que lhe diria caso viessem a ficar sós os dous.

Dias depois, Mendonça escreveu segunda carta à viúva e mandou-lha pelo mesmo canal da outra. A carta foi-lhe devolvida sem resposta. Mendonça arrependeu-se de ter abusado da ordem da moça, e resolveu, de uma vez por todas, não voltar à casa de Mata-cavalos. Nem tinha ânimo de lá aparecer, nem julgava conveniente estar junto de uma pessoa a quem amava sem esperança.

Ao cabo de um mês não tinha perdido uma partícula sequer do sentimento que nutria pela viúva. Amava-a com o mesmíssimo ardor. A ausência, como ele pensara, aumentou-lhe o amor, como o vento ateia um incêndio. Debalde lia ou buscava distrair-se na vida agitada do Rio de Janeiro; entrou a escrever um estudo sobre a teoria do ouvido, mas a pena escapava-se-lhe para o coração, e saiu o escrito com uma mistura de nervos e sentimentos. Estava então na sua maior nomeada o romance de Renan sobre a vida de Jesus; Mendonça encheu o gabinete com todos os folhetos publicados de parte a parte, e entrou a estudar profundamente o misterioso drama da Judéia. Fez quanto pôde para absorver o espírito e esquecer a esquiva Margarida; era-lhe impossível.

Um dia de manhã apareceu-lhe em casa o filho de D. Antônia; traziam-no dous motivos: perguntar-lhe por que não ia a Mata-cavalos, e mostrar-lhe umas calças novas. Mendonça aprovou as calças, e desculpou como pôde a ausência, dizendo que andava atarefado. Jorge não era alma que compreendesse a verdade escondida por baixo de uma palavra indiferente; vendo Mendonça mergulhado no meio de uma chusma de livros e folhetos, perguntou-lhe se estava estudando para ser deputado. Jorge cuidava que se estudava para ser deputado!

– Não, respondeu Mendonça.

– É verdade que a prima também lá anda com livros, e não creio que pretende ir à câmara.

– Ah! sua prima?

– Não imagina; não faz outra cousa. Fecha-se no quarto, e passa os dias inteiros a ler.

Informado por Jorge, Mendonça supôs que Margarida era nada menos que uma mulher de letras, alguma modesta poetisa, que esquecia o amor dos homens nos braços das musas. A suposição era gratuita e filha mesmo de um espírito cego pelo amor como o de Mendonça. Há várias razões para ler muito sem ter comércio com as musas.

– Note que a prima nunca leu tanto; agora é que lhe deu para isso, disse Jorge tirando da charuteira um magnífico havana do valor de três tostões, e oferecendo outro a Mendonça. Fume isto, continuou ele, fume e diga-me se há ninguém como o Bernardo para ter charutos bons.

Gastos os charutos, Jorge despediu-se do médico, levando a promessa de que este iria à casa de D. Antônia o mais cedo que pudesse.

No fim de quinze dias Mendonça voltou a Mata-cavalos.

Encontrou na sala Andrade e D. Antônia, que o receberam com aleluias. Mendonça parecia com efeito ressurgir de um túmulo; tinha emagrecido e empalidecido. A melancolia dava-lhe ao rosto maior expressão de abatimento. Alegou trabalhos extraordinários, e entrou a conversar alegremente como dantes. Mas essa alegria, como se compreende, era toda forçada. No fim de um quarto de hora a tristeza apossou-se-lhe outra vez do rosto. Durante esse tempo, Margarida não apareceu na sala; Mendonça, que até então não perguntara por ela, não sei por que razão, vendo que ela não aparecia, perguntou se estava doente. D. Antônia respondeu-lhe que Margarida estava um pouco incomodada.

O incômodo de Margarida durou uns três dias; era uma simples dor de cabeça, que o primo atribuiu à aturada leitura.

No fim de alguns dias mais, D. Antônia foi surpreendida com uma lembrança de Margarida; a viúva queria ir viver na roça algum tempo.

– Aborrece-te a cidade? perguntou a boa velha.

– Alguma cousa, respondeu Margarida; queria ir viver uns dous meses na roça.

D. Antônia não podia recusar nada à sobrinha; concordou em ir para a roça; e começaram os preparativos. Mendonça soube da mudança no Rocio, andando a passear de noite; disse-lho Jorge na ocasião de ir para o Alcazar. Para o rapaz era uma fortuna aquela mudança, porque suprimia-lhe a única obrigação que ainda tinha neste mundo, que era a de ir jantar com a mãe.

Não achou Mendonça nada que admirar na resolução; as resoluções de Margarida começavam a parecer-lhe simplicidades.

Quando voltou para casa encontrou um bilhete de D. Antônia concebido nestes termos:

“Temos de ir para fora alguns meses; espero que não nos deixe sem despedir-se de nós. A partida é sábado; e eu quero incumbi-lo de uma cousa.”

Mendonça tomou chá, e dispôs-se a dormir. Não pôde. Quis ler; estava incapaz disso. Era cedo; saiu. Insensivelmente dirigiu os passos para Mata-cavalos. A casa de D. Antônia estava fechada e silenciosa; evidentemente estavam já dormindo. Mendonça passou adiante, e parou junto da grade do jardim adjacente à casa. De fora podia ver a janela do quarto de Margarida, pouco elevada, e dando para o jardim. Havia luz dentro; naturalmente Margarida estava acordada. Mendonça deu mais alguns passos; a porta do jardim estava aberta. Mendonça sentiu pulsar-lhe o coração com força desconhecida. Surgiu-lhe no espírito uma suspeita. Não há coração confiante que não tenha desfalecimentos destes; além de que, seria errada a suspeita? Mendonça, entretanto, não tinha nenhum direito à viúva; fora repelido categoricamente. Se havia algum dever da parte dele era a retirada e o silêncio.

Mendonça quis conservar-se no limite que lhe estava marcado; a porta aberta do jardim podia ser esquecimento da parte dos fâmulos. O médico refletiu bem que aquilo tudo era fortuito, e fazendo um esforço afastou-se do lugar. Adiante parou e refletiu; havia um demônio que o impelia por aquela porta dentro. Mendonça voltou, e entrou com precaução.

Apenas dera alguns passos surgiu-lhe em frente Miss Dollar latindo; parece que a galga saíra de casa sem ser pressentida; Mendonça amimou-a e a cadelinha parece que reconheceu o médico, porque trocou os latidos em festas. Na parede do quarto de Margarida desenhou-se uma sombra de mulher; era a viúva que chegava à janela para ver a causa do ruído. Mendonça coseu-se como pôde com uns arbustos que ficavam junto da grade; não vendo ninguém, Margarida voltou para dentro.

Passados alguns minutos, Mendonça saiu do lugar em que se achava e dirigiu-se para o lado da janela da viúva. Acompanhava-o Miss Dollar. Do jardim não podia olhar, ainda que fosse mais alto, para o aposento da moça. A cadelinha apenas chegou àquele ponto, subiu ligeira uma escada de pedra que comunicava o jardim com a casa; a porta do quarto de Margarida ficava justamente no corredor que se seguia à escada; a porta estava aberta. O rapaz imitou a cadelinha; subiu os seis degraus de pedra vagarosamente; quando pôs o pé no último ouviu Miss Dollar pulando no quarto e vindo latir à porta, como que avisando a Margarida de que se aproximava um estranho.

Mendonça deu mais um passo. Mas nesse momento atravessou o jardim um escravo que acudia ao latido da cadelinha; o escravo examinou o jardim, e não vendo ninguém retirou-se. Margarida foi à janela e perguntou o que era; o escravo explicou-lho e tranqüilizou-a dizendo que não havia ninguém.

Justamente quando ela saía da janela aparecia à porta a figura de Mendonça. Margarida estremeceu por um abalo nervoso; ficou mais pálida do que era; depois, concentrando nos olhos toda a soma de indignação que pode conter um coração, perguntou-lhe com voz trêmula:

– Que quer aqui?

Foi nesse momento, e só então, que Mendonça reconheceu toda a baixeza de seu procedimento, ou para falar mais acertadamente, toda a alucinação do seu espírito. Pareceu-lhe ver em Margarida a figura da sua consciência, a exprobrar-lhe tamanha indignidade. O pobre rapaz não procurou desculpar-se; sua resposta foi singela e verdadeira.

– Sei que cometi um ato infame, disse ele; não tinha razão para isso; estava louco; agora conheço a extensão do mal. Não lhe peço que me desculpe, D. Margarida; não mereço perdão; mereço desprezo; adeus!

– Compreendo, senhor, disse Margarida; quer obrigar-me pela força do descrédito quando me não pode obrigar pelo coração. Não é de cavalheiro.

– Oh! isso… juro-lhe que não foi tal o meu pensamento…

Margarida caiu numa cadeira parecendo chorar. Mendonça deu um passo para entrar, visto que até então não
saíra da porta; Margarida levantou os olhos cobertos de lágrimas, e com um gesto imperioso mostrou-lhe que
saísse.

Mendonça obedeceu; nem um nem outro dormiram nessa noite. Ambos curvavam-se ao peso da vergonha: mas, por honra de Mendonça, a dele era maior que a dela; e a dor de uma não ombreava com o remorso de outro.
 
 
Capítulo VIII
 
 
No dia seguinte estava Mendonça em casa fumando charutos sobre charutos, recurso das grandes ocasiões, quando parou à porta dele um carro, apeando-se pouco depois a mãe de Jorge. A visita pareceu de mau agouro ao médico. Mas apenas a velha entrou, dissipou-lhe o receio.

– Creio, disse D. Antônia, que a minha idade permite visitar um homem solteiro.

Mendonça procurou sorrir ouvindo este gracejo; mas não pôde. Convidou a boa senhora a sentar-se, e sentou-se ele também esperando que ela lhe explicasse a causa da visita.

– Escrevi-lhe ontem, disse ela, para que fosse ver-me hoje; preferi vir cá, receando que por qualquer motivo não fosse a Mata-cavalos.

– Queria então incumbir-me?

– De cousa nenhuma, respondeu a velha sorrindo; incumbir disse-lhe eu, como diria qualquer outra cousa indiferente; quero informá-lo.

– Ah! de quê?

– Sabe quem ficou hoje de cama?

– D. Margarida?

– É verdade; amanheceu um pouco doente; diz que passou a noite mal. Eu creio que sei a razão, acrescentou D. Antônia rindo maliciosamente para Mendonça.

– Qual será então a razão? perguntou o médico.

– Pois não percebe?

– Não.

– Margarida ama-o.

Mendonça levantou-se da cadeira como por uma mola. A declaração da tia da viúva era tão inesperada que o rapaz cuidou estar sonhando.

– Ama-o, repetiu D. Antônia.

– Não creio, respondeu Mendonça depois de algum silêncio; há de ser engano seu.

– Engano! disse a velha.

D. Antônia contou a Mendonça que, curiosa por saber a causa das vigílias de Margarida, descobrira no quarto dela um diário de impressões, escrito por ela, à imitação de não sei quantas heroínas de romances; aí lera a verdade que lhe acabava de dizer.

– Mas se me ama, observou Mendonça sentindo entrar-lhe n’alma um mundo de esperanças, se me ama, por que recusa o meu coração?

– O diário explica isso mesmo; eu lhe digo. Margarida foi infeliz no casamento; o marido teve unicamente em vista gozar da riqueza dela; Margarida adquiriu a certeza de que nunca será amada por si, mas pelos cabedais que possui; atribui o seu amor à cobiça. Está convencido?

Mendonça começou a protestar.

– É inútil, disse D. Antônia, eu creio na sinceridade do seu afeto; já de há muito percebi isso mesmo; mas como convencer um coração desconfiado?

– Não sei.

– Nem eu, disse a velha, mas para isso é que eu vim cá; peço-lhe que veja se pode fazer com que a minha Margarida torne a ser feliz, se lhe influi a crença no amor que lhe tem.

– Acho que é impossível…

Mendonça lembrou-se de contar a D. Antônia a cena da véspera; mas arrependeu-se a tempo.

D. Antônia saiu pouco depois.

A situação de Mendonça, ao passo que se tornara mais clara, estava mais difícil que dantes. Era possível tentar alguma cousa antes da cena do quarto; mas depois, achava Mendonça impossível conseguir nada.

A doença de Margarida durou dous dias, no fim dos quais levantou-se a viúva um pouco abatida, e a primeira cousa que fez foi escrever a Mendonça pedindo-lhe que fosse lá à casa.

Mendonça admirou-se bastante do convite, e obedeceu de pronto.

– Depois do que se deu há três dias, disse-lhe Margarida, compreende o senhor que eu não posso ficar debaixo da ação da maledicência… Diz que me ama; pois bem, o nosso casamento é inevitável.

Inevitável! amargou esta palavra ao médico, que aliás não podia recusar uma reparação. Lembrava-se ao mesmo tempo que era amado; e conquanto a idéia lhe sorrisse ao espírito, outra vinha dissipar esse instantâneo prazer, e era a suspeita que Margarida nutria a seu respeito.

– Estou às suas ordens, respondeu ele.

Admirou-se D. Antônia da presteza do casamento quando Margarida lho anunciou nesse mesmo dia. Supôs que fosse milagre do rapaz. Pelo tempo adiante reparou que os noivos tinham cara mais de enterro que de casamento. Interrogou a sobrinha a esse respeito; obteve uma resposta evasiva.

Foi modesta e reservada a cerimônia do casamento. Andrade serviu de padrinho, D. Antônia de madrinha; Jorge falou no Alcazar a um padre, seu amigo, para celebrar o ato.

D. Antônia quis que os noivos ficassem residindo em casa com ela. Quando Mendonça se achou a sós com Margarida, disse-lhe:

– Casei-me para salvar-lhe a reputação; não quero obrigar pela fatalidade das cousas um coração que me não pertence. Ter-me-á por seu amigo; até amanhã.

Saiu Mendonça depois deste speech, deixando Margarida suspensa entre o conceito que fazia dele e a impressão das suas palavras agora.

Não havia posição mais singular do que a destes noivos separados por uma quimera. O mais belo dia da vida tornava-se para eles um dia de desgraça e de solidão; a formalidade do casamento foi simplesmente o prelúdio do mais completo divórcio. Menos cepticismo da parte de Margarida, mais cavalheirismo da parte do rapaz, teriam poupado o desenlace sombrio da comédia do coração. Vale mais imaginar que descrever as torturas daquela primeira noite de noivado.

Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.

Andrade ignorou estas cousas; cada vez que encontrava Mendonça chamava-lhe Colombo do amor; tinha Andrade a mania de todo o sujeito a quem as idéias ocorrem trimestralmente; apenas pilhada alguma de jeito repetia-a até a saciedade.

Os dous esposos são ainda noivos e prometem sê-lo até a morte. Andrade meteu-se na diplomacia e promete ser um dos luzeiros da nossa representação internacional. Jorge continua a ser um bom pândego; D. Antônia prepara-se para despedir-se do mundo.

Quanto a Miss Dollar, causa indireta de todos estes acontecimentos, saindo um dia à rua foi pisada por um carro; faleceu pouco depois. Margarida não pôde reter algumas lágrimas pela nobre cadelinha; foi o corpo enterrado na chácara, à sombra de uma laranjeira; cobre a sepultura uma lápide com esta simples inscrição:

A Miss Dollar.