VIDA & POESIA, POESIA & VIDA: EM ARMANDO, UMA ÚNICA POÇÃO
16 de dezembro de 2010

(paulo sabino & armando freitas filho, no lançamento da antologia organizada por heloisa buarque de hollanda. a dedicatória: “para o paulo, sempre presente no meu computador. armando.”)

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armando freitas filho fala de si diretamente da sua central, pelo microfone do corpo, pelo auto-falante dos sentidos, diretamente da sua percepção existencial, e revela que é desse modo que se comunica: é assim que se articula com o entorno, e sua poesia emerge dessa articulação.

vida & poesia, poesia & vida:

o que é escrito na página de pele do poeta, o que é revelado no papel fino do espaço que o bardo ocupa — a letra articulada do seu gesto, o rascunho & as rasuras feitas à unha, feitas na sua vida —, é impresso em folha de papel vegetal: o auto-retrato do autor: o autor/retrato:

ajustando & armando as suas peças, as peças que o compõem vidafora — partes, pedras & passos —, o poeta forma, na sua poética, um seu retrato autoral:

as experiências do homem armando freitas filho, repletas dos dedos do acaso, dedos múltiplos com os seus vários perfis contrários, que vão somando avessos no quebra-cabeça existencial (onde o corpo é uma armadura de lacunas, uma armadura de vãos, em tempo, natural, de pressa & perdas), quebra-cabeça onde se armam, onde se armaram, os erros & hiatos de todos nós.

é este o código de barras de armando freitas filho: ele escreve a sua vida. e o que sai do seu sonho, ou do seu punho, vem pela mesma veia-verve, vem por sua dicção urgente, vem por sua dicção nervosa, pulsante, pungente.

entre o corpo (e suas sensações, e suas vivências, sempre reais) e a alma (o nosso “ânimo”, o espaço do sonho, da idéia), uma voz dependurada, voz que mistura, numa única poção, duas aventuras distintas:

a voz do poema.

e é assim sempre. nunca desistir (dessa trajetória) é o seu sempre lema.

antes da chegada da noite última, da noite que encerra todas & quaisquer possibilidades, antes de virar cadáver, osso, antes de virar pó filho da puta (lembrem-se: “ninguém quer a morte / só saúde e sorte”), segue a voz do poeta assinando tudo, sangria desatada, verve vertiginosa, assinando tudo, mesmo sem ver.

e segue a tudo assinando, mesmo os passos da linguagem no corredor da fala:

assina tudo, até a palavra-silêncio, até a palavra feita da carne do silêncio, até a palavra travada no corredor do linguajar, a palavra cujo percurso não se cumpre e que, por dentro, deflagra um mudo curto-circuito. tudo o que perpassa o poeta, no poeta pousa, e, pousando, se lhe escapa e o vence: não há como prender dentro de si até mesmo a palavra obstruída.

assina tudo:

ainda as palavras arrancadas súbitas, rapidamente, pelos cabelos; a tudo assina, ainda as palavras arrancadas pela raiz, ainda as palavras mudas (além das obstruídas), as palavras que não dizem, as que não querem dizer, nem esclarecer, as que erram no ar, quase sem fôlego, buscando um vôo à voz e qualquer vento para poder pousar.      

armando freitas filho, para quem “bato cabeça”, a quem estimo, por quem possuo o mais alto grau de respeito & admiração:

a sua vertente, a sua palavra, é sempre a estreita, rente ao chão, isto é, rente ao mundo, rente às coisas mundanas, e rente à carne, isto é, rente às suas experiências existenciais, rente ao que vive o poeta, por uma vereda, por um caminho íntimo & úmido, tomando, para tanto, o corpo pela raiz, isto é, tomando o corpo pela base, tomando o corpo por “aquilo que provoca, ocasiona ou determina uma atitude, um acontecimento, a existência de algo”, como estampa o dicionário houaiss. tomando, portanto, o corpo pela raiz frontal e viva: fio-terra, chicotexistência de muitas pontas, chicote exatamente múltiplo, e, misturando a engenhosidade & o estudo prévio (o cálculo na vida, na poesia) com a casualidade, com a sorte (o acaso na vida, na poesia), vai no impulso, vai no arranco:

vida & poesia, poesia & vida: dispara, díspare, e pára.

vida & poesia, poesia & vida: em armando freitas filho,

uma única poção.

beijo bom nos senhores!
um outro, especialíssimo, no armando!
paulo sabino. 
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(do livro: Melhores poemas. seleção: Heloisa Buarque de Hollanda. autor: Armando Freitas Filho. editora: Global.)

 

 

COMUNICAÇÕES

Eu falo de mim — daqui —
desta central
pelo microfone do corpo
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão
pata de lacre
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne
nos panos

repentinos do meu espanto
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim
em fotonovelas

me desdobro — quadro por quadro
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto
aos poucos, plano e pausa
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celuloide
numa lâmina

de velocidade e de lembrança
em fotogramas
de esperas e procuras — falha
folha de slides-células, sopro
e pulso

página de pele em que escrevo
o uso
a articulada letra do meu gesto
o rascunho de unhas e rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade
monograma, silhueta, cadência
e a fala

que se imprime nesta fita
neste sulco
a linguagem como um fim
a linguagem por um fio
e a morte em morse.

 

AUTORRETRATO

No papel fino do espaço
a minha figura pousa
seus traços e braços:
pedaços, quebra-cabeça

armando as suas peças
partes, pedras e passos:
a cada gesto o contato
tão tátil de fragmentos

que os dedos do acaso
adaptam, múltiplos
com seus vários perfis
contrários, numa soma

de avessos e retalhos
e a imagem sob a pele
é alinhavada: andaimes
de cartas, o castelo

embaralhado pelo vento
que sacode flâmulas
de naipes enventados:
construção de dados

com seus inúmeros
números, lados, ludus
o encontro de cubos
neste espelho de papel

onde o puzzle do corpo
uma armadura de lacunas
em tempo de pressa e perda
armou seus erros e hiatos.

 


CÓDIGO DE BARRAS

Escrevo a minha vida.
E o que sai do meu sonho
ou do meu punho
vem pela mesma veia
em dicção urgente.

Entre corpo e alma
a voz dependurada
mistura numa única poção
duas aventuras distintas
no fluxo e no pulso.

Nunca desisto, sempre.
“Antes de virar cadáver
osso, pó filho da puta”
vou assinando tudo sem ver
pois se parar não começo mais.

 

DUAS NOTAS

Os passos da linguagem
no corredor da fala:
esta palavra que suspiro
e não digo: granada de silêncio
entre os dentes, corcel de vozes
galope, impulso, carga
percurso que não se cumpre
e, por dentro, deflagra um mudo
curto-circuito, uma suíte nua
e elétrica, sem pauta nem pausa.

Escrevo o silêncio com a tinta
branca do invisível: aqui está
o que não falo e o que medo
cala: cada letra ou as estrelas
imaginárias sonhando nas entrelinhas.
O que não consigo e persigo
o que persiste, tateia e segue
seu curso — do ápice ao colapso —
o vário fragmento, tudo o que penso
pousa em mim, e me vence.

 

ARRANCADAS TÃO DEPRESSA

Arrancadas tão depressa
              pelos cabelos
pela raiz
da terra última
estas palavras são mudas
trêmulas e íntimas
e erram no ar
quase sem fôlego
buscando um voo para a voz
e qualquer vento para o pouso.

 

PEQUENA MORTE

 

Acabo. Vou pela vertente estreita
rente ao chão e à carne
pela via íntima e úmida
tomando o corpo pela raiz
frontal e viva: fio terra, chicote
de muitas pontas
exatamente múltiplo — venéreo
combinando músculos e números
entre cálculo e acaso
vou no impulso, no arranco
sem ensaio: disparo, desperdício
e paro.

O MACHADO (AFIADO) DE ASSIS
30 de julho de 2010

(extraído do jornal: O Globo. caderno: Prosa & Verso. em: 03/07/2010.)
 
 
FAMÍLIA DE LETRAS (autor: Armando Freitas Filho)
 
Machado puxa o fio
da sua caligrafia
até que a mão de Graciliano
o alcance, deixando-o
então, com Carlos Drummond
que passa para
Antonio Candido, e deste chega
a João Cabral, unindo-os
na mesma linhagem
com a linha do seu novelo.
 
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segundo este belíssimo poema, de armando freitas filho, publicado pela primeira vez no jornal “o globo”, o fio da meada que acabou por tecer o manejo da língua portuguesa em tempos atuais, tempos modernos, começou a desenrolar-se em
 
machado de assis
 
, considerado, com todo merecimento, um dos maiores escritores da literatura universal.
 
machado é justamente o autor que vivencia uma mudança no modo de escrever literatura.
 
com o tempo e o aprimoramento do seu estilo, o escritor, entre requinte & sofisticação, aplica, nos seus textos, uma linguagem livre dos maneirismos do romantismo, aproximando a sua literatura da fase realista, que, ao contrário do período anterior (o período romântico), como o próprio nome sugere, procurava uma narrativa mais próxima à realidade mundana, sem muitas idealizações e criações de personagens-heróis.
 
no movimento realista, as personagens são forjadas, são tramadas, urdidas, com as nuances que nos competem a nós, seres humanos, seres de facetas várias, ruins & boas, doces & amargas, fáceis & difíceis. a arquitetura das personagens é trabalhada a fim de que se obtenha uma estrutura psicológica — dessas mesmas personagens — mais próxima do que somos, para que haja maior identificação entre o leitor e a obra lida.
 
há pouco tempo, reencontrei machado de assis numa seleção de contos seus. e o primeiro conto relido foi este que segue abaixo.
 
a sua publicação data de 1869, numa reunião à época intitulada “contos fluminenses”, época em que machado de assis ainda escrevia com o peso romântico na tinta. mesmo assim, notem como, neste texto, o escritor já dá mostras da sua reviravolta nas letras.
 
percebam como machado, espertamente, desperta a curiosidade nossa e nos prende logo nos primeiros parágrafos, ávidos que ficamos para sabermos, afinal, quem (e como) é a personagem principal.
 
vejam como o grande escritor destila o seu humor, sóbrio, sábio, com um quê de deboche em alguns momentos, sobre algumas personagens e situações. 
 
observem o seu encaixe de palavras, os efeitos de suas construções frasais.
 
notem como machado de assis engendra a trama, de modo que esta se dê saborosa, cativante (incitando o nosso interesse pelo porvir das linhas), mesmo num conto de argamassa romântica.
 
eu, particularmente, não sou chegado à literatura romântica. eu leio, conheço coisas, mas decididamente não está entre as minhas preferências.
 
no entanto, a genialidade de machado, desde antes dos seus mais célebres textos, a sua perspicácia, a sua inteligência, os seus requinte & conhecimento da língua, criaram um diferencial. mesmo sendo da sua fase romântica, só me desgrudei deste conto ao término. 
 
isto aqui é uma lição de português e de criação literária.
 
(mais um serviço de utilidade pública – rs.)
 
regalem-se com este presente literário!
 
beijo terno em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.      
 
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(do livro: O conto de Machado de Assis. autor: Machado de Assis. organização: Sônia Brayner. editora: Civilização Brasileira.)
 
 
 
MISS DOLLAR
 
 
 
Capítulo I
 
 
Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresentação de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o papel sem adiantar a ação. Não há hesitação possível: vou apresentar-lhes Miss Dollar.

Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar é uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dous grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças louras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef britânico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoutos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um suspiro.

A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.

Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez será uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita. Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, cousa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol. Será uma boa mãe de família segundo a doutrina de alguns padres-mestres da civilização, isto é, fecunda e ignorante.

Já não será do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas páginas, seria uma boa inglesa de cinqüenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se não tivesse óculos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chapéu de linho em forma de cuia, seriam a última demão deste magnífico tipo de ultramar.

Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a heroína do romance não é nem foi inglesa, mas brasileira dos quatro costados, e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.

A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem as outras são exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a brasileira rica. Falha desta vez a proverbial perspicácia dos leitores; Miss Dollar é uma cadelinha galga.

Para algumas pessoas a qualidade da heroína fará perder o interesse do romance. Erro manifesto. Miss Dollar, apesar de não ser mais que uma cadelinha galga, teve as honras de ver o seu nome nos papéis públicos, antes de entrar para este livro. O Jornal do Comércio e o Correio Mercantil publicaram nas colunas dos anúncios as seguintes linhas reverberantes de promessa:

“Desencaminhou-se uma cadelinha galga, na noite de ontem, 30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e
quiser levar à rua de Mata-cavalos no…, receberá duzentos mil-réis de recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao pescoço fechada por um cadeado em que se lêem as seguintes palavras: De tout mon coeur.”

Todas as pessoas que sentiam necessidade urgente de duzentos mil-réis, e tiveram a felicidade de ler aquele anúncio, andaram nesse dia com extremo cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se davam com a fugitiva Miss Dollar. Galgo que aparecesse ao longe era perseguido com tenacidade até verificar-se que não era o animal procurado. Mas toda esta caçada dos duzentos mil-réis era completamente inútil, visto que, no dia em que apareceu o anúncio, já Miss Dollar estava aboletada na casa de um sujeito morador nos Cajueiros que fazia coleção de cães.
 
 
Capítulo II 
 
 
Quais as razões que induziram o Dr. Mendonça a fazer coleção de cães, é cousa que ninguém podia dizer; uns queriam que fosse simplesmente paixão por esse símbolo da fidelidade ou do servilismo; outros pensavam antes que, cheio de profundo desgosto pelos homens, Mendonça achou que era de boa guerra adorar os cães.

Fossem quais fossem as razões, o certo é que ninguém possuía mais bonita e variada coleção do que ele. Tinha-os de todas as raças, tamanhos e cores. Cuidava deles como se fossem seus filhos; se algum lhe morria ficava melancólico. Quase se pode dizer que, no espírito de Mendonça, o cão pesava tanto como o amor, segundo uma expressão célebre: tirai do mundo o cão, e o mundo será um ermo.

O leitor superficial conclui daqui que o nosso Mendonça era um homem excêntrico. Não era. Mendonça era um homem como os outros; gostava de cães como outros gostam de flores. Os cães eram as suas rosas e violetas; cultivava-os com o mesmíssimo esmero. De flores gostava também; mas gostava delas nas plantas em que nasciam: cortar um jasmim ou prender um canário parecia-lhe idêntico atentado.

Era o Dr. Mendonça homem de seus trinta e quatro anos, bem apessoado, maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum tempo de doentes; a clínica estava já adiantada quando sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendonça inventou um elixir contra a doença; e tão excelente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de réis. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a família. A família compunha-se dos animais citados acima.

Na memorável noite em que se desencaminhou Miss Dollar, voltava Mendonça para casa quando teve a ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A cadelinha entrou a acompanhá-lo, e ele, notando que era animal sem dono visível, levou-a consigo para os Cajueiros.

Apenas entrou em casa examinou cuidadosamente a cadelinha, Miss Dollar era realmente um mimo; tinha as formas delgadas e graciosas da sua fidalga raça; os olhos castanhos e aveludados pareciam exprimir a mais completa felicidade deste mundo, tão alegres e serenos eram. Mendonça contemplou-a e examinou minuciosamente. Leu o dístico do cadeado que fechava a coleira, e convenceu-se finalmente de que a cadelinha era animal de grande estimação da parte de quem quer que fosse dono dela.

– Se não aparecer o dono, fica comigo, disse ele entregando Miss Dollar ao moleque encarregado dos cães.

Tratou o moleque de dar comida a Miss Dollar, enquanto Mendonça planeava um bom futuro à nova hóspede, cuja família devia perpetuar-se na casa.

O plano de Mendonça durou o que duram os sonhos: o espaço de uma noite. No dia seguinte, lendo os jornais, viu o anúncio transcrito acima, prometendo duzentos mil-réis a quem entregasse a cadelinha fugitiva. A sua paixão pelos cães deu-lhe a medida da dor que devia sofrer o dono ou dona de Miss Dollar, visto que chegava a oferecer duzentos mil-réis de gratificação a quem apresentasse a galga. Conseqüentemente resolveu restituí-la, com bastante mágoa do coração. Chegou a hesitar por alguns instantes; mas afinal venceram os sentimentos de probidade e compaixão, que eram o apanágio daquela alma. E, como se lhe custasse despedir-se do animal, ainda recente na casa, dispôs-se a levá-lo ele mesmo, e para esse fim preparou-se. Almoçou, e depois de averiguar bem se Miss Dollar havia feito a mesma operação, saíram ambos de casa com direção a Mata-cavalos.

Naquele tempo ainda o Barão do Amazonas não tinha salvo a independência das repúblicas platinas mediante a vitória de Riachuelo, nome com que depois a Câmara Municipal crismou a Rua de Mata-cavalos. Vigorava, portanto, o nome tradicional da rua, que não queria dizer cousa nenhuma de jeito.

A casa que tinha o número indicado no anúncio era de bonita aparência e indicava certa abastança nos haveres de quem lá morasse. Antes mesmo que Mendonça batesse palmas no corredor, já Miss Dollar, reconhecendo os pátrios lares, começava a pular de contente e a soltar uns sons alegres e guturais que, se houvesse entre os cães literatura, deviam ser um hino de ação de graças.

Veio um moleque saber quem estava; Mendonça disse que vinha restituir a galga fugitiva. Expansão do rosto do moleque, que correu a anunciar a boa nova. Miss Dollar, aproveitando uma fresta, precipitou-se pelas escadas acima. Dispunha-se Mendonça a descer, pois estava cumprida a sua tarefa, quando o moleque voltou dizendo-lhe que subisse e entrasse para a sala.

Na sala não havia ninguém. Algumas pessoas, que têm salas elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar. É possível que esse fosse o costume dos donos daquela casa, mas desta vez não se cuidou em semelhante cousa, porque mal o médico entrou pela porta do corredor surgiu de outra interior uma velha com Miss Dollar nos braços e a alegria no rosto.

– Queira ter a bondade de sentar-se, disse ela designando uma cadeira à Mendonça.

– A minha demora é pequena, disse o médico sentando-se. Vim trazer-lhe a cadelinha que está comigo desde ontem…

– Não imagina que desassossego causou cá em casa a ausência de Miss Dollar…

– Imagino, minha senhora; eu também sou apreciador de cães, e se me faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss Dollar…

– Perdão! interrompeu a velha; minha não; Miss Dollar não é minha, é de minha sobrinha.

– Ah!…

– Ela aí vem.

Mendonça levantou-se justamente quando entrava na sala a sobrinha em questão. Era uma moça que representava vinte e oito anos, no pleno desenvolvimento da sua beleza, uma dessas mulheres que anunciam velhice tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular realce à cor imensamente branca da sua pele. Era roçagante o vestido, o que lhe aumentava a majestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe todo o colo; mas adivinhava-se por baixo da seda um belo tronco de mármore modelado por escultor divino. Os cabelos castanhos e naturalmente ondeados estavam penteados com essa simplicidade caseira, que é a melhor de todas as modas conhecidas; ornavam-lhe graciosamente a fronte como uma coroa doada pela natureza. A extrema brancura da pele não tinha o menor tom cor-de-rosa que lhe fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa expressão imperiosa. Mas a grande distinção daquele rosto, aquilo que mais prendia os
olhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.

Mendonça nunca vira olhos verdes em toda a sua vida; disseram-lhe que existiam olhos verdes, ele sabia de cor uns versos célebres de Gonçalves Dias; mas até então os olhos verdes eram para ele a mesma cousa que a fênix dos antigos. Um dia, conversando com uns amigos a propósito disto, afirmava que se alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria deles com terror.

– Por quê? perguntou-lhe um dos circunstantes admirado.

– A cor verde é a cor do mar, respondeu Mendonça; evito as tempestades de um; evitarei as tempestades dos outros.

Eu deixo ao critério do leitor esta singularidade de Mendonça, que de mais a mais é preciosa, no sentido de Molière.
 
 
Capítulo III
 
 
Mendonça cumprimentou respeitosamente a recém-chegada, e esta, com um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.

– Agradeço-lhe infinitamente o ter-me restituído este pobre animal, que me merece grande estima, disse Margarida sentando-se.

– E eu dou graças a Deus por tê-lo achado; podia ter caído em mãos que o não restituíssem.

Margarida fez um gesto a Miss Dollar, e a cadelinha, saltando do regaço da velha, foi ter com Margarida; levantou as patas dianteiras e pôs-lhas sobre os joelhos; Margarida e Miss Dollar trocaram um longo olhar de afeto. Durante esse tempo uma das mãos da moça brincava com uma das orelhas da galga, e dava assim lugar a que Mendonça admirasse os seus belíssimos dedos armados com unhas agudíssimas.

Mas, conquanto Mendonça tivesse sumo prazer em estar ali, reparou que era esquisita e humilhante a sua demora. Pareceria estar esperando a gratificação. Para escapar a essa interpretação desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contemplação da moça; levantou-se dizendo:

– A minha missão está cumprida…

– Mas… interrompeu a velha.

Mendonça compreendeu a ameaça da interrupção da velha.

– A alegria, disse ele, que restituí a esta casa é a maior recompensa que eu podia ambicionar. Agora peço-lhes licença…

As duas senhoras compreenderam a intenção de Mendonça; a moça pagou-lhe a cortesia com um sorriso; e a velha, reunindo no pulso quantas forças ainda lhe restavam pelo corpo todo, apertou com amizade a mão do rapaz.

Mendonça saiu impressionado pela interessante Margarida. Notava-lhe principalmente, além da beleza, que era de primeira água, certa severidade triste no olhar e nos modos. Se aquilo era caráter da moça, dava-se bem com a índole de médico; se era resultado de algum episódio da vida, era uma página do romance que devia ser decifrada por olhos hábeis. A falar verdade, o único defeito que Mendonça lhe achou foi a cor dos olhos, não porque a cor fosse feia, mas porque ele tinha prevenção contra os olhos verdes. A prevenção, cumpre dizê-lo, era mais literária que outra cousa; Mendonça apegava-se à frase que uma vez proferira, e foi acima citada, e a frase é que lhe produziu a prevenção. Não mo acusem de chofre; Mendonça era homem inteligente, instruído e dotado de bom senso; tinha, além disso, grande tendência para as afeições românticas; mas apesar disso lá tinha calcanhar o nosso Aquiles. Era homem como os outros, outros Aquiles andam por aí que são da cabeça aos pés um imenso calcanhar. O ponto vulnerável de Mendonça era esse; o amor de uma frase era capaz de violentar-lhe afetos; sacrificava uma situação a um período arredondado.

Referindo a um amigo o episódio da galga e a entrevista com Margarida, Mendonça disse que poderia vir a gostar dela se não tivesse olhos verdes. O amigo riu com certo ar de sarcasmo.

– Mas, doutor, disse-lhe ele, não compreendo essa prevenção; eu ouço até dizer que os olhos verdes são de ordinário núncios de boa alma. Além de que, a cor dos olhos não vale nada, a questão é a expressão deles. Podem ser azuis como o céu e pérfidos como o mar.

A observação deste amigo anônimo tinha a vantagem de ser tão poética como a de Mendonça. Por isso abalou profundamente o ânimo do médico. Não ficou este como o asno de Buridan entre a selha d’água e a quarta de cevada; o asno hesitaria, Mendonça não hesitou. Acudiu-lhe de pronto a lição do casuísta Sánchez, e das duas opiniões tomou a que lhe pareceu provável.

Algum leitor grave achará pueril esta circunstância dos olhos verdes e esta controvérsia sobre a qualidade provável deles. Provará com isso que tem pouca prática do mundo. Os almanaques pitorescos citam até à saciedade mil excentricidades e senões dos grandes varões que a humanidade admira, já por instruídos nas letras, já por valentes nas armas; e nem por isso deixamos de admirar esses mesmos varões. Não queira o leitor abrir uma exceção só para encaixar nela o nosso doutor. Aceitemo-lo com os seus ridículos; quem os não tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento.

Para compensar essas fraquezas, já disse que Mendonça tinha qualidades não vulgares. Adotando a opinião que lhe pareceu mais provável, que foi a do amigo, Mendonça disse consigo que nas mãos de Margarida estava talvez a chave do seu futuro. Ideou nesse sentido um plano de felicidade; uma casa num ermo, olhando para o mar ao lado do ocidente, a fim de poder assistir ao espetáculo do pôr-do-sol. Margarida e ele, unidos pelo amor e pela Igreja, beberiam ali, gota a gota, a taça inteira da celeste felicidade. O sonho de Mendonça continha outras particularidades que seria ocioso mencionar aqui. Mendonça pensou nisto alguns dias; chegou a passar algumas vezes por Mata-cavalos; mas tão infeliz que nunca viu Margarida nem a tia; afinal desistiu da empresa e voltou aos cães.

A coleção de cães era uma verdadeira galeria de homens ilustres. O mais estimado deles chamava-se Diógenes; havia um galgo que acudia ao nome de César; um cão d’água que se chamava Nelson; Cornélia chamava-se uma cadelinha rateira, e Calígula um enorme cão de fila, vera-efígie do grande monstro que a sociedade romana produziu. Quando se achava entre toda essa gente, ilustre por diferentes títulos, dizia Mendonça que entrava na história; era assim que se esquecia do resto do mundo.
 
 
Capítulo IV
 
 
Achava-se Mendonça uma vez à porta do Carceller, onde acabava de tomar sorvete em companhia de um indivíduo, amigo dele, quando viu passar um carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe pareceram as senhoras de Mata-cavalos. Mendonça fez um movimento de espanto que não escapou ao amigo.

– Que foi? perguntou-lhe este.

– Nada; pareceu-me conhecer aquelas senhoras. Viste-as, Andrade?

– Não.

O carro entrara na Rua do Ouvidor; os dous subiram pela mesma rua. Logo acima da Rua da Quitanda, parara o carro à porta de uma loja, e as senhoras apearam-se e entraram. Mendonça não as viu sair; mas viu o carro e suspeitou que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer nada a Andrade, que fez o mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente um homem quando percebe algum segredo oculto.

Poucos instantes depois estavam à porta da loja; Mendonça verificou que eram as duas senhoras de Mata-cavalos. Entrou afouto, com ar de quem ia comprar alguma cousa, e aproximou-se das senhoras. A primeira que o conheceu foi a tia. Mendonça cumprimentou-as respeitosamente. Elas receberam o cumprimento com afabilidade. Ao pé de Margarida estava Miss Dollar, que, por esse admirável faro que a natureza concedeu aos cães e aos cortesãos da fortuna, deu dous saltos de alegria apenas viu Mendonça, chegando a tocar-lhe o estômago com as patas dianteiras.

– Parece que Miss Dollar ficou com boas recordações suas, disse D. Antônia (assim se chamava a tia de Margarida).

– Creio que sim, respondeu Mendonça brincando com a galga e olhando para Margarida.

Justamente nesse momento entrou Andrade.

– Só agora as reconheci, disse ele dirigindo-se às senhoras.

Andrade apertou a mão das duas senhoras, ou antes apertou a mão de Antônia e os dedos de Margarida.

Mendonça não contava com este incidente, e alegrou-se com ele por ter à mão o meio de tornar íntimas as relações superficiais que tinha com a família.

– Seria bom, disse ele a Andrade, que me apresentasses a estas senhoras.

– Pois não as conheces? perguntou Andrade estupefato.

– Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu sorrindo a velha tia; por ora quem o apresentou foi Miss Dollar.

Antônia referiu a Andrade a perda e o achado da cadelinha.

– Pois, nesse caso, respondeu Andrade, apresento-o já.

Feita a apresentação oficial, o caixeiro trouxe a Margarida os objetos que ela havia comprado, e as duas senhoras despediram-se dos rapazes pedindo-lhes que as fossem ver.

Não citei nenhuma palavra de Margarida no diálogo acima transcrito, porque, a falar verdade, a moça só proferiu duas palavras a cada um dos rapazes.

– Passe bem, disse-lhes ela dando as pontas dos dedos e saindo para entrar no carro.

Ficando sós, saíram também os dous rapazes e seguiram pela Rua do Ouvidor acima, ambos calados. Mendonça pensava em Margarida; Andrade pensava nos meios de entrar na confidência de Mendonça. A vaidade tem mil formas de manifestar-se como o fabuloso Proteu. A vaidade de Andrade era ser confidente dos outros; parecia-lhe assim obter da confiança aquilo que só alcançava da indiscrição. Não lhe foi difícil apanhar o segredo de Mendonça; antes de chegar à esquina da Rua dos Ourives já Andrade sabia de tudo.

– Compreendes agora, disse Mendonça, que eu preciso ir à casa dela; tenho necessidade de vê-la; quero ver se consigo…

Mendonça estacou.

– Acaba! disse Andrade; se consegues ser amado. Por que não? Mas desde já te digo que não será fácil.

– Por quê?

– Margarida tem rejeitado cinco casamentos.

– Naturalmente não amava os pretendentes, disse Mendonça com o ar de um geômetra que acha uma solução.

– Amava apaixonadamente o primeiro, respondeu Andrade, e não era indiferente ao último.

– Houve naturalmente intriga.

– Também não. Admiras-te? É o que me acontece. É uma rapariga esquisita. Se te achas com força de ser o Colombo daquele mundo, lança-te ao mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das paixões, que são os ferozes marujos destas navegações de descoberta.

Entusiasmado com esta alusão, histórica debaixo da forma de alegoria, Andrade olhou para Mendonça, que, desta vez entregue ao pensamento da moça, não atendeu à frase do amigo. Andrade contentou-se com o seu próprio sufrágio, e sorriu com o mesmo ar de satisfação que deve ter um poeta quando escreve o último verso de um poema.
 
 
Capítulo V
 
 
Dias depois, Andrade e Mendonça foram à casa de Margarida, e lá passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas repetiram-se; eram porém mais freqüentes da parte de Mendonça que de Andrade. D. Antônia mostrou-se mais familiar que Margarida; só depois de algum tempo Margarida desceu do Olimpo do silêncio em que habitualmente se encerrara.

Era difícil deixar de o fazer. Mendonça, conquanto não fosse dado à convivência das salas, era um cavalheiro próprio para entreter duas senhoras que pareciam mortalmente aborrecidas. O médico sabia piano e tocava agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses mil nadas que entretêm geralmente as senhoras quando elas não gostam ou não podem entrar no terreno elevado da arte, da história e da filosofia. Não foi difícil ao rapaz estabelecer intimidade com a família.

Posteriormente às primeiras visitas, soube Mendonça, por via de Andrade, que Margarida era viúva. Mendonça não reprimiu o gesto de espanto.

– Mas tu falaste de um modo que parecias tratar de uma solteira, disse ele ao amigo.

– É verdade que não me expliquei bem; os casamentos recusados foram todos propostos depois da viuvez.

– Há que tempo está viúva?

– Há três anos.

– Tudo se explica, disse Mendonça depois de algum silêncio; quer ficar fiel à sepultura; é uma Artemisa do século.

Andrade era céptico a respeito de Artemisas; sorriu à observação do amigo, e, como este insistisse, replicou:

– Mas se eu já te disse que ela amava apaixonadamente o primeiro pretendente e não era indiferente ao último.

– Então, não compreendo.

– Nem eu.

Mendonça desde esse momento tratou de cortejar assiduamente a viúva; Margarida recebeu os primeiros olhares de Mendonça com um ar de tão supremo desdém, que o rapaz esteve quase a abandonar a empresa; mas, a viúva, ao mesmo tempo que parecia recusar amor, não lhe recusava estima, e tratava-o com a maior meiguice deste mundo sempre que ele a olhava como toda a gente.

Amor repelido é amor multiplicado. Cada repulsa de Margarida aumentava a paixão de Mendonça. Nem já lhe mereciam atenção o feroz Calígula, nem o elegante Júlio César. Os dous escravos de Mendonça começaram a notar a profunda diferença que havia entre os hábitos de hoje e os de outro tempo. Supuseram logo que alguma cousa o preocupava. Convenceram-se disso quando Mendonça, entrando uma vez em casa, deu com a ponta do botim no focinho de Cornélia, na ocasião em que esta interessante cadelinha, mãe de dous Gracos rateiros, festejava a chegada do doutor.

Andrade não foi insensível aos sofrimentos do amigo e procurou consolá-lo. Toda a consolação nestes casos é tão desejada quanto inútil; Mendonça ouvia as palavras de Andrade e confiava-lhe todas as suas penas. Andrade lembrou a Mendonça um excelente meio de fazer cessar a paixão: era ausentar-se da casa. A isto respondeu Mendonça citando La Rochefoucauld:

“A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.”

A citação teve o mérito de tapar a boca de Andrade, que acreditava tanto na constância como nas Artemisas, mas que não queria contrariar a autoridade do moralista, nem a resolução de Mendonça.
 
 
Capítulo VI
 
 
Correram assim três meses. A corte de Mendonça não adiantava um passo; mas a viúva nunca deixou de ser amável com ele. Era isto o que principalmente retinha o médico aos pés da insensível viúva; não o abandonava a esperança de vencê-la.

Algum leitor conspícuo desejaria antes que Mendonça não fosse tão assíduo na casa de uma senhora exposta às calúnias do mundo. Pensou nisso o médico e consolou a consciência com a presença de um indivíduo, até aqui não nomeado por motivo de sua nulidade, e que era nada menos que o filho da Sra. D. Antônia e a menina dos seus olhos. Chamava-se Jorge esse rapaz, que gastava duzentos mil-réis por mês, sem os ganhar, graças à longanimidade da mãe. Freqüentava as casas dos cabeleireiros, onde gastava mais tempo que uma romana da decadência às mãos das suas servas latinas. Não perdia representação de importância no Alcazar; montava bons cavalos, e enriquecia com despesas extraordinárias as algibeiras de algumas damas célebres e de vários parasitas obscuros. Calçava luvas letra da E e botas no 36, duas qualidades que lançava à cara de todos os seus amigos que não desciam do no 40 e da letra H. A presença deste gentil pimpolho, achava Mendonça que salvava a situação. Mendonça queria dar esta satisfação ao mundo, isto é, à opinião dos ociosos da cidade. Mas bastaria
isso para tapar a boca aos ociosos?

Margarida parecia indiferente às interpretações do mundo como à assiduidade do rapaz. Seria ela tão indiferente a tudo mais neste mundo? Não; amava a mãe, tinha um capricho por Miss Dollar, gostava da boa música, e lia romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em matéria de moda; não valsava; quando muito dançava alguma quadrilha nos saraus a que era convidada. Não falava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto gracioso e animado, mas sem pretensão nem faceirice.

Quando Mendonça aparecia lá, Margarida recebia-o com visível contentamento. O médico iludia-se sempre, apesar de já acostumado a essas manifestações. Com efeito, Margarida gostava imenso da presença do rapaz, mas não parecia dar-lhe uma importância que lisonjeasse o coração dele. Gostava de o ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer de amores pelo sol.

Não era possível sofrer por muito tempo a posição em que se achava o médico. Uma noite, por um esforço de que antes disso se não julgaria capaz, Mendonça dirigiu a Margarida esta pergunta indiscreta:

– Foi feliz com seu marido?

Margarida franziu a testa com espanto e cravou os olhos nos do médico, que pareciam continuar mudamente a pergunta.

– Fui, disse ela no fim de alguns instantes.

Mendonça não disse palavra; não contava com aquela resposta. Confiava demais na intimidade que reinava entre ambos; e queria descobrir por algum modo a causa da insensibilidade da viúva. Falhou o cálculo; Margarida tornou-se séria durante algum tempo; a chegada de D. Antônia salvou uma situação esquerda para Mendonça. Pouco depois Margarida voltava às boas, e a conversa tornou-se animada e íntima como sempre. A chegada de Jorge levou a animação da conversa a proporções maiores; D. Antônia, com olhos e ouvidos de mãe, achava que o filho era o rapaz mais engraçado deste mundo; mas a verdade é que não havia em toda a cristandade espírito mais frívolo. A mãe ria-se de tudo quanto o filho dizia; o filho enchia, só ele, a conversa, referindo anedotas e reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendonça via todas essas feições do rapaz, e aturava-o com resignação evangélica.

A entrada de Jorge, animando a conversa, acelerou as horas; às dez retirou-se o médico, acompanhado pelo filho de D. Antônia, que ia cear. Mendonça recusou o convite que Jorge lhe fez, e despediu-se dele na Rua do Conde, esquina da do Lavradio.

Nessa mesma noite resolveu Mendonça dar um golpe decisivo; resolveu escrever uma carta a Margarida. Era temerário para quem conhecesse o caráter da viúva; mas, com os precedentes já mencionados, era loucura. Entretanto não hesitou o médico em empregar a carta, confiando que no papel diria as cousas de muito melhor maneira que de boca. A carta foi escrita com febril impaciência; no dia seguinte, logo depois de almoçar, Mendonça meteu a carta dentro de um volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.

A viúva rompeu a capa de papel que embrulhava o volume, e pôs o livro sobre a mesa da sala; meia hora depois voltou e pegou no livro para ler. Apenas o abriu, caiu-lhe a carta aos pés. Abriu-a e leu o seguinte:

“Qualquer que seja a causa da sua esquivança, respeito-a, não me insurjo contra ela. Mas, se não me é dado insurgir-me, não me será lícito queixar-me? Há de ter compreendido o meu amor, do mesmo modo que tenho compreendido a sua indiferença; mas, por maior que seja essa indiferença está longe de ombrear com o amor profundo e imperioso que se apossou de meu coração quando eu mais longe me cuidava destas paixões dos primeiros anos. Não lhe contarei as insônias e as lágrimas, as esperanças e os desencantos, páginas tristes deste livro que o destino põe nas mãos do homem para que duas almas o leiam. É-lhe indiferente isso.

Não ouso interrogá-la sobre a esquivança que tem mostrado em relação a mim; mas por que motivo se estende essa esquivança a tantos mais? Na idade das paixões férvidas, ornada pelo céu com uma beleza rara, por que motivo quer enconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o coração de seus incontestáveis direitos? Perdoe-me a audácia da pergunta; acho-me diante de um enigma que o meu coração desejaria decifrar. Penso às vezes que alguma grande dor a atormenta, e quisera ser o médico do seu coração; ambicionava, confesso, restaurar-lhe alguma ilusão perdida. Parece que não há ofensa nesta ambição.

Se, porém, essa esquivança denota simplesmente um sentimento de orgulho legítimo, perdoe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos expressamente mo proibiram. Rasgue a carta que não pode valer-lhe uma recordação, nem representar uma arma.”

A carta era toda de reflexão; a frase fria e medida não exprimia o fogo do sentimento. Não terá, porém, escapado ao leitor a sinceridade e a simplicidade com que Mendonça pedia uma explicação que Margarida provavelmente não podia dar.

Quando Mendonça disse a Andrade haver escrito a Margarida, o amigo do médico entrou a rir despregadamente.

– Fiz mal? perguntou Mendonça.

– Estragaste tudo. Os outros pretendentes começaram também por carta; foi justamente a certidão de óbito do amor.

– Paciência, se acontecer o mesmo, disse Mendonça levantando os ombros com aparente indiferença; mas eu desejava que não estivesses sempre a falar nos pretendentes; eu não sou pretendente no sentido desses.

– Não querias casar com ela?

– Sem dúvida, se fosse possível, respondeu Mendonça.

– Pois era justamente o que os outros queriam; casar-te-ias e entrarias na mansa posse dos bens que lhe couberam em partilha e que sobem a muito mais de cem contos. Meu rico, se falo em pretendentes não é por te ofender, porque um dos quatro pretendentes despedidos fui eu.

– Tu?

– É verdade; mas descansa, não fui o primeiro, nem ao menos o último.

– Escreveste?

– Como os outros; como eles, não obtive resposta; isto é, obtive uma: devolveu-me a carta. Portanto, já que lhe escreveste, espera o resto; verás se o que te digo é ou não exato. Estás perdido, Mendonça; fizeste muito mal.

Andrade tinha esta feição característica de não omitir nenhuma das cores sombrias de uma situação, com o pretexto de que aos amigos se deve a verdade. Desenhado o quadro, despediu-se de Mendonça, e foi adiante.

Mendonça foi para casa, onde passou a noite em claro.
 
 
Capítulo VII
 
 
Enganara-se Andrade; a viúva respondeu à carta do médico. A carta dela limitou-se a isto:

“Perdôo-lhe tudo; não lhe perdoarei se me escrever outra vez. A minha esquivança não tem nenhuma causa; é questão de temperamento”.

O sentido da carta era ainda mais lacônico do que a expressão. Mendonça leu-a muitas vezes, a ver se a completava; mas foi trabalho perdido. Uma cousa concluiu ele logo; era que havia cousa oculta que arredava Margarida do casamento; depois concluiu outra, era que Margarida ainda lhe perdoaria segunda carta se lha escrevesse.

A primeira vez que Mendonça foi a Mata-cavalos achou-se embaraçado sobre a maneira por que falaria a Margarida; a viúva tirou-o do embaraço, tratando-o como se nada houvesse entre ambos. Mendonça não teve ocasião de aludir às cartas por causa da presença de D. Antônia, mas estimou isso mesmo, porque não sabia o que lhe diria caso viessem a ficar sós os dous.

Dias depois, Mendonça escreveu segunda carta à viúva e mandou-lha pelo mesmo canal da outra. A carta foi-lhe devolvida sem resposta. Mendonça arrependeu-se de ter abusado da ordem da moça, e resolveu, de uma vez por todas, não voltar à casa de Mata-cavalos. Nem tinha ânimo de lá aparecer, nem julgava conveniente estar junto de uma pessoa a quem amava sem esperança.

Ao cabo de um mês não tinha perdido uma partícula sequer do sentimento que nutria pela viúva. Amava-a com o mesmíssimo ardor. A ausência, como ele pensara, aumentou-lhe o amor, como o vento ateia um incêndio. Debalde lia ou buscava distrair-se na vida agitada do Rio de Janeiro; entrou a escrever um estudo sobre a teoria do ouvido, mas a pena escapava-se-lhe para o coração, e saiu o escrito com uma mistura de nervos e sentimentos. Estava então na sua maior nomeada o romance de Renan sobre a vida de Jesus; Mendonça encheu o gabinete com todos os folhetos publicados de parte a parte, e entrou a estudar profundamente o misterioso drama da Judéia. Fez quanto pôde para absorver o espírito e esquecer a esquiva Margarida; era-lhe impossível.

Um dia de manhã apareceu-lhe em casa o filho de D. Antônia; traziam-no dous motivos: perguntar-lhe por que não ia a Mata-cavalos, e mostrar-lhe umas calças novas. Mendonça aprovou as calças, e desculpou como pôde a ausência, dizendo que andava atarefado. Jorge não era alma que compreendesse a verdade escondida por baixo de uma palavra indiferente; vendo Mendonça mergulhado no meio de uma chusma de livros e folhetos, perguntou-lhe se estava estudando para ser deputado. Jorge cuidava que se estudava para ser deputado!

– Não, respondeu Mendonça.

– É verdade que a prima também lá anda com livros, e não creio que pretende ir à câmara.

– Ah! sua prima?

– Não imagina; não faz outra cousa. Fecha-se no quarto, e passa os dias inteiros a ler.

Informado por Jorge, Mendonça supôs que Margarida era nada menos que uma mulher de letras, alguma modesta poetisa, que esquecia o amor dos homens nos braços das musas. A suposição era gratuita e filha mesmo de um espírito cego pelo amor como o de Mendonça. Há várias razões para ler muito sem ter comércio com as musas.

– Note que a prima nunca leu tanto; agora é que lhe deu para isso, disse Jorge tirando da charuteira um magnífico havana do valor de três tostões, e oferecendo outro a Mendonça. Fume isto, continuou ele, fume e diga-me se há ninguém como o Bernardo para ter charutos bons.

Gastos os charutos, Jorge despediu-se do médico, levando a promessa de que este iria à casa de D. Antônia o mais cedo que pudesse.

No fim de quinze dias Mendonça voltou a Mata-cavalos.

Encontrou na sala Andrade e D. Antônia, que o receberam com aleluias. Mendonça parecia com efeito ressurgir de um túmulo; tinha emagrecido e empalidecido. A melancolia dava-lhe ao rosto maior expressão de abatimento. Alegou trabalhos extraordinários, e entrou a conversar alegremente como dantes. Mas essa alegria, como se compreende, era toda forçada. No fim de um quarto de hora a tristeza apossou-se-lhe outra vez do rosto. Durante esse tempo, Margarida não apareceu na sala; Mendonça, que até então não perguntara por ela, não sei por que razão, vendo que ela não aparecia, perguntou se estava doente. D. Antônia respondeu-lhe que Margarida estava um pouco incomodada.

O incômodo de Margarida durou uns três dias; era uma simples dor de cabeça, que o primo atribuiu à aturada leitura.

No fim de alguns dias mais, D. Antônia foi surpreendida com uma lembrança de Margarida; a viúva queria ir viver na roça algum tempo.

– Aborrece-te a cidade? perguntou a boa velha.

– Alguma cousa, respondeu Margarida; queria ir viver uns dous meses na roça.

D. Antônia não podia recusar nada à sobrinha; concordou em ir para a roça; e começaram os preparativos. Mendonça soube da mudança no Rocio, andando a passear de noite; disse-lho Jorge na ocasião de ir para o Alcazar. Para o rapaz era uma fortuna aquela mudança, porque suprimia-lhe a única obrigação que ainda tinha neste mundo, que era a de ir jantar com a mãe.

Não achou Mendonça nada que admirar na resolução; as resoluções de Margarida começavam a parecer-lhe simplicidades.

Quando voltou para casa encontrou um bilhete de D. Antônia concebido nestes termos:

“Temos de ir para fora alguns meses; espero que não nos deixe sem despedir-se de nós. A partida é sábado; e eu quero incumbi-lo de uma cousa.”

Mendonça tomou chá, e dispôs-se a dormir. Não pôde. Quis ler; estava incapaz disso. Era cedo; saiu. Insensivelmente dirigiu os passos para Mata-cavalos. A casa de D. Antônia estava fechada e silenciosa; evidentemente estavam já dormindo. Mendonça passou adiante, e parou junto da grade do jardim adjacente à casa. De fora podia ver a janela do quarto de Margarida, pouco elevada, e dando para o jardim. Havia luz dentro; naturalmente Margarida estava acordada. Mendonça deu mais alguns passos; a porta do jardim estava aberta. Mendonça sentiu pulsar-lhe o coração com força desconhecida. Surgiu-lhe no espírito uma suspeita. Não há coração confiante que não tenha desfalecimentos destes; além de que, seria errada a suspeita? Mendonça, entretanto, não tinha nenhum direito à viúva; fora repelido categoricamente. Se havia algum dever da parte dele era a retirada e o silêncio.

Mendonça quis conservar-se no limite que lhe estava marcado; a porta aberta do jardim podia ser esquecimento da parte dos fâmulos. O médico refletiu bem que aquilo tudo era fortuito, e fazendo um esforço afastou-se do lugar. Adiante parou e refletiu; havia um demônio que o impelia por aquela porta dentro. Mendonça voltou, e entrou com precaução.

Apenas dera alguns passos surgiu-lhe em frente Miss Dollar latindo; parece que a galga saíra de casa sem ser pressentida; Mendonça amimou-a e a cadelinha parece que reconheceu o médico, porque trocou os latidos em festas. Na parede do quarto de Margarida desenhou-se uma sombra de mulher; era a viúva que chegava à janela para ver a causa do ruído. Mendonça coseu-se como pôde com uns arbustos que ficavam junto da grade; não vendo ninguém, Margarida voltou para dentro.

Passados alguns minutos, Mendonça saiu do lugar em que se achava e dirigiu-se para o lado da janela da viúva. Acompanhava-o Miss Dollar. Do jardim não podia olhar, ainda que fosse mais alto, para o aposento da moça. A cadelinha apenas chegou àquele ponto, subiu ligeira uma escada de pedra que comunicava o jardim com a casa; a porta do quarto de Margarida ficava justamente no corredor que se seguia à escada; a porta estava aberta. O rapaz imitou a cadelinha; subiu os seis degraus de pedra vagarosamente; quando pôs o pé no último ouviu Miss Dollar pulando no quarto e vindo latir à porta, como que avisando a Margarida de que se aproximava um estranho.

Mendonça deu mais um passo. Mas nesse momento atravessou o jardim um escravo que acudia ao latido da cadelinha; o escravo examinou o jardim, e não vendo ninguém retirou-se. Margarida foi à janela e perguntou o que era; o escravo explicou-lho e tranqüilizou-a dizendo que não havia ninguém.

Justamente quando ela saía da janela aparecia à porta a figura de Mendonça. Margarida estremeceu por um abalo nervoso; ficou mais pálida do que era; depois, concentrando nos olhos toda a soma de indignação que pode conter um coração, perguntou-lhe com voz trêmula:

– Que quer aqui?

Foi nesse momento, e só então, que Mendonça reconheceu toda a baixeza de seu procedimento, ou para falar mais acertadamente, toda a alucinação do seu espírito. Pareceu-lhe ver em Margarida a figura da sua consciência, a exprobrar-lhe tamanha indignidade. O pobre rapaz não procurou desculpar-se; sua resposta foi singela e verdadeira.

– Sei que cometi um ato infame, disse ele; não tinha razão para isso; estava louco; agora conheço a extensão do mal. Não lhe peço que me desculpe, D. Margarida; não mereço perdão; mereço desprezo; adeus!

– Compreendo, senhor, disse Margarida; quer obrigar-me pela força do descrédito quando me não pode obrigar pelo coração. Não é de cavalheiro.

– Oh! isso… juro-lhe que não foi tal o meu pensamento…

Margarida caiu numa cadeira parecendo chorar. Mendonça deu um passo para entrar, visto que até então não
saíra da porta; Margarida levantou os olhos cobertos de lágrimas, e com um gesto imperioso mostrou-lhe que
saísse.

Mendonça obedeceu; nem um nem outro dormiram nessa noite. Ambos curvavam-se ao peso da vergonha: mas, por honra de Mendonça, a dele era maior que a dela; e a dor de uma não ombreava com o remorso de outro.
 
 
Capítulo VIII
 
 
No dia seguinte estava Mendonça em casa fumando charutos sobre charutos, recurso das grandes ocasiões, quando parou à porta dele um carro, apeando-se pouco depois a mãe de Jorge. A visita pareceu de mau agouro ao médico. Mas apenas a velha entrou, dissipou-lhe o receio.

– Creio, disse D. Antônia, que a minha idade permite visitar um homem solteiro.

Mendonça procurou sorrir ouvindo este gracejo; mas não pôde. Convidou a boa senhora a sentar-se, e sentou-se ele também esperando que ela lhe explicasse a causa da visita.

– Escrevi-lhe ontem, disse ela, para que fosse ver-me hoje; preferi vir cá, receando que por qualquer motivo não fosse a Mata-cavalos.

– Queria então incumbir-me?

– De cousa nenhuma, respondeu a velha sorrindo; incumbir disse-lhe eu, como diria qualquer outra cousa indiferente; quero informá-lo.

– Ah! de quê?

– Sabe quem ficou hoje de cama?

– D. Margarida?

– É verdade; amanheceu um pouco doente; diz que passou a noite mal. Eu creio que sei a razão, acrescentou D. Antônia rindo maliciosamente para Mendonça.

– Qual será então a razão? perguntou o médico.

– Pois não percebe?

– Não.

– Margarida ama-o.

Mendonça levantou-se da cadeira como por uma mola. A declaração da tia da viúva era tão inesperada que o rapaz cuidou estar sonhando.

– Ama-o, repetiu D. Antônia.

– Não creio, respondeu Mendonça depois de algum silêncio; há de ser engano seu.

– Engano! disse a velha.

D. Antônia contou a Mendonça que, curiosa por saber a causa das vigílias de Margarida, descobrira no quarto dela um diário de impressões, escrito por ela, à imitação de não sei quantas heroínas de romances; aí lera a verdade que lhe acabava de dizer.

– Mas se me ama, observou Mendonça sentindo entrar-lhe n’alma um mundo de esperanças, se me ama, por que recusa o meu coração?

– O diário explica isso mesmo; eu lhe digo. Margarida foi infeliz no casamento; o marido teve unicamente em vista gozar da riqueza dela; Margarida adquiriu a certeza de que nunca será amada por si, mas pelos cabedais que possui; atribui o seu amor à cobiça. Está convencido?

Mendonça começou a protestar.

– É inútil, disse D. Antônia, eu creio na sinceridade do seu afeto; já de há muito percebi isso mesmo; mas como convencer um coração desconfiado?

– Não sei.

– Nem eu, disse a velha, mas para isso é que eu vim cá; peço-lhe que veja se pode fazer com que a minha Margarida torne a ser feliz, se lhe influi a crença no amor que lhe tem.

– Acho que é impossível…

Mendonça lembrou-se de contar a D. Antônia a cena da véspera; mas arrependeu-se a tempo.

D. Antônia saiu pouco depois.

A situação de Mendonça, ao passo que se tornara mais clara, estava mais difícil que dantes. Era possível tentar alguma cousa antes da cena do quarto; mas depois, achava Mendonça impossível conseguir nada.

A doença de Margarida durou dous dias, no fim dos quais levantou-se a viúva um pouco abatida, e a primeira cousa que fez foi escrever a Mendonça pedindo-lhe que fosse lá à casa.

Mendonça admirou-se bastante do convite, e obedeceu de pronto.

– Depois do que se deu há três dias, disse-lhe Margarida, compreende o senhor que eu não posso ficar debaixo da ação da maledicência… Diz que me ama; pois bem, o nosso casamento é inevitável.

Inevitável! amargou esta palavra ao médico, que aliás não podia recusar uma reparação. Lembrava-se ao mesmo tempo que era amado; e conquanto a idéia lhe sorrisse ao espírito, outra vinha dissipar esse instantâneo prazer, e era a suspeita que Margarida nutria a seu respeito.

– Estou às suas ordens, respondeu ele.

Admirou-se D. Antônia da presteza do casamento quando Margarida lho anunciou nesse mesmo dia. Supôs que fosse milagre do rapaz. Pelo tempo adiante reparou que os noivos tinham cara mais de enterro que de casamento. Interrogou a sobrinha a esse respeito; obteve uma resposta evasiva.

Foi modesta e reservada a cerimônia do casamento. Andrade serviu de padrinho, D. Antônia de madrinha; Jorge falou no Alcazar a um padre, seu amigo, para celebrar o ato.

D. Antônia quis que os noivos ficassem residindo em casa com ela. Quando Mendonça se achou a sós com Margarida, disse-lhe:

– Casei-me para salvar-lhe a reputação; não quero obrigar pela fatalidade das cousas um coração que me não pertence. Ter-me-á por seu amigo; até amanhã.

Saiu Mendonça depois deste speech, deixando Margarida suspensa entre o conceito que fazia dele e a impressão das suas palavras agora.

Não havia posição mais singular do que a destes noivos separados por uma quimera. O mais belo dia da vida tornava-se para eles um dia de desgraça e de solidão; a formalidade do casamento foi simplesmente o prelúdio do mais completo divórcio. Menos cepticismo da parte de Margarida, mais cavalheirismo da parte do rapaz, teriam poupado o desenlace sombrio da comédia do coração. Vale mais imaginar que descrever as torturas daquela primeira noite de noivado.

Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.

Andrade ignorou estas cousas; cada vez que encontrava Mendonça chamava-lhe Colombo do amor; tinha Andrade a mania de todo o sujeito a quem as idéias ocorrem trimestralmente; apenas pilhada alguma de jeito repetia-a até a saciedade.

Os dous esposos são ainda noivos e prometem sê-lo até a morte. Andrade meteu-se na diplomacia e promete ser um dos luzeiros da nossa representação internacional. Jorge continua a ser um bom pândego; D. Antônia prepara-se para despedir-se do mundo.

Quanto a Miss Dollar, causa indireta de todos estes acontecimentos, saindo um dia à rua foi pisada por um carro; faleceu pouco depois. Margarida não pôde reter algumas lágrimas pela nobre cadelinha; foi o corpo enterrado na chácara, à sombra de uma laranjeira; cobre a sepultura uma lápide com esta simples inscrição:

A Miss Dollar.

APRENDIZAGEM
22 de março de 2010

prezados,
 
no poema abaixo, uma lição aprendida por mim:
 
palavra: feita de substância excêntrica, exótica, intrigante, pois que compacta, maciça, espessa a sua carne, digo: concreta (ao avistá-la no branco do papel), ao mesmo tempo em que é porosa, ventilada, esponjosa, digo: flexível, vaporosa, ao se pensar que, apesar da concretude, quando disposta na folha, os seus significados dançam, soltos, no ar da página. não há olho que dê conta de “abocanhar” todo o cardápio de achados — todas as metáforas e imagens possíveis — oferecido pelo sarcocárpio — pela polpa — duma palavra, visto as tantas maneiras de se interpretar um único texto, os diferentes tesouros poéticos desencavados pelos mais variados tipos de olhar.
 
(portanto, a ciência de que este espaço, o “prosa em poema”, propõe-se a desnudar um tanto do que o MEU olhar enxerga & capta nas linhas que me emocionam. não há a pretensão de dizer o que dizem as linhas. isso seria um despautério vindo de mim. não. o que quero, o que desejo, e faço, é compartilhar um tanto da minha visão. e só.) 
 
estes versos são dedicados a alguns bambas da palavra na minha existência (em ordem alfabética, não de importância. a de importância, em mim, inexiste):
 
antonio cicero
armando freitas filho
arnaldo antunes
caetano veloso
carlito azevedo
carlos drummond de andrade
clarice lispector
eucanaã ferraz
paulo leminski
waly salomão
 
um beijo em vocês!
o preto.
___________________________________
 
 
APRENDIZAGEM  (autor: Paulo Sabino.)
 
Lição  aprendida:
palavra:
coisa  estranha
sua  carne
compacta
espessa
maciça e
ao  mesmo  tempo
porosa
ventilada
esponjosa
—  matéria  excêntrica  —
 
Não  há  modo  de
averiguar
constatar
dimensionar
o  que  encerra
seu  sarcocárpio
(cujo  cardápio
de  achados
não  se  abre
por  completo
a  nenhum  olho)
tantos  os  significados
soltos
no  ar
da  página

AO AMOR, VIDA LONGA
1 de março de 2010

bacanas,
 
a seleção de poesias foi pensada a partir de um tema: o amor.
 
sim sim, esse assunto tem se mostrado recorrente nos últimos textos aqui postados. de algum modo, é como uma catarse que venho realizando.
 
gosto muito, muitíssimo, do manejo que armando freitas filho possui para dispor palavras em versos.
 
estes escritos, extraídos de um livro seu lançado em 1982, “longa vida”, apontam para uma abordagem multifária do sentimento em questão. a começar pelo que abre o apanhado poético: um poema-pergunta sobre “amar”, que, no fundo, é a resposta apropriada ao enigma proposto pelas próprias linhas.
 
(amar: mergulhar de cabeça numa piscina do mais alto trampolim de mim sem sequer pensar se, lá embaixo, encontrarei água ou o ladrilho do vazio? amar: inventar mãos macias e cuidadosas que consigam reter a fuga do perfume do sonho de quem se ama solto na fronha?)
 
depois, segue falando:
 
da tristeza causada pelos cortes dos laços — dos nós que atam os amantes —, que a tesoura cega da vida pode causar;
 
da solidão vivida quando não se tem a quem amar (e a vida voa, embora imóvel, como uma nuvem no céu, e o domingo se desmancha sozinho em mim);
 
da grande viagem que é uma transa (quando muito bem realizada) e a perda de referências relativas ao tempo e ao espaço em tal viagem;
 
do absoluto azul sem susto de nuvem nenhuma para nublar o tempo do amor (quando este se dá de forma clara, límpida), amor que se faz & se refaz & se desfaz em ondas, feito o mar;
 
e das diversas formas de arrecadação do amor, as variadas maneiras de se pagar o amor que é recebido;      
 
as três últimas poesias não tratam exatamente desse assunto, e servem de epílogo à minha escolha.
 
confesso que a vontade era de publicar TODO o livro, pois sou APAIXONADO por ele. (há muitos outros poemas da minha preferência que ficaram de fora.) no entanto, o amor pedia-me destaque; resolvi não me furtar ao seu realçamento.
 
realçá-lo com as armas de armando, com as suas linhas de coloquialidades sofisticadas (suas construções frasais), que armam imagens espertas, bem inteligentes.
 
o título da obra de onde provêm os poemas, “longa vida”, refere-se à marca de um produto industrializado. o poeta, nesse livro, brinca com muitas outras referências como essa, mostrando-se um homem no/do seu tempo. é uma sacada, uma brincadeira, bastante astuciosa suscitada pelo bardo.
 
sorvam feito leite bom estes belos achados poéticos! (eles nutrem a alma.)
 
vivam as suas viagens, senhores, sabendo-as interiores, pois passam por sob seus pés pneumáticos, por sob o céu azul dos seus chapéus, ao mesmo tempo em que são anteriores, pois toda viagem avança e se alimenta de horizontes, de futuros — isto é, de infinitos vazios — e de nuvens.
 
beijo grande em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
________________________________________________________________________
 
(do livro: Máquina de escrever — Poesia reunida e revista. autor: Armando Freitas Filho. editora: Nova Fronteira.)
 
 
AMAR (para Cri)
 
Amar
é mergulhar de cabeça
sem saber nadar
sem saber de nada
ao seu encalço
numa piscina
como um camicase
pulando do último
do mais alto trampolim
de mim
                  sem asa-delta
salva-vidas, pára-quedas
sem perguntar
sem sequer pensar
se lá embaixo
vou encontrar água
ou o ladrilho do vazio?
 
Amar
é ter que inventar
mãos tão macias e cuidadosas
como nenhum Nívea
jamais ousou fazer
para melhor pegar
como quem pega, no céu
sem rasgar
                   o corpo de uma nuvem
seu vôo de papel de seda
                    em slow / snow motion
ou ainda alcançar
e reter
                  entre os dedos
a fuga do perfume
do seu sonho
solto em minha fronha?
 
 
SEJA DE SEDA
 
Seja de seda
           mas selvagem
corra
           e perca
por um triz, o fio
a linha
                  o ritmo
mas não esfrie
o brilho
                  nem apague
a luz da sua cor
que quer    
                  ser de fogo
arrepio e risco
não se afogue
em silêncio, em si
 
 
TREPAR COM VOCÊ
 
Trepar com você
é uma viagem:
noturno expresso
que entra por dentro
do tempo, do túnel
que não sei se parte
ou chega
se vai ou vem
se é ida ou volta
pela mesma linha
— como um raio —
sem contudo deixar
de curtir
de sentir cada segundo
cada estação do percurso.
 
 
ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE
 
Até que a morte nos separe
ou
a vida comece a cortar
com sua tesoura cega
nós, laços
o corpo-a-corpo do amor
e saia, SOS
pela escada de incêndio
deixando para trás
sempre na metade
                              tudo, tanto
a luz acesa na varanda
o relógio sem pulso
o pulo, o pique, o tique
do tempo, o minuto
miúdo, para sempre
                              esquecido
como o livro largado
no meio, que o vento
às cegas, da leitura
vira ao léu os olhos
as folhas 
                               vira a página
e a vida — dernier cri —
do alto da escada
um dó-de-peito, uma dor
subindo, tom por tom, em dégradé
na escala
                                dos degraus.
 
 
ABSOLUTO AZUL
 
Absoluto azul
                   sem susto algum
de nenhuma nuvem — nunca
nem por um instante
tão perto da paixão
e por isso, por você
eu vôo
                   voz e corpo
e atravesso a vida
o oceano
                   o mar aberto
com o amor chegando
sucessivo como as ondas:
parecendo sempre a mesma
mas
a que agora se suspende
corrige
o clamor do coração da cor
da outrora onda
anda e avança para ontem
e já esboça de cabeça
onde é apenas pensamento
antes de sumir
                     a outra de  amanhã
que ainda em sonho
elabora seu leão de água
sua leoa de espuma e coroa
                      e como o amor
se lança
sem esperar a ponte concluir
seus lances, cálculos
o alcance de sua segunda margem
                       mergulhando
pois eu sei
pois eu sou
esse incêndio aceso adiante
em seu louvor.
 
 
AMOR (para idem, ibidem)
 
Amor
                    a quem amar
se o telefone não toca  
e o domingo se desmancha
em mim
                     sozinho
na calçada
onde somente o vento
passa
                     no quintal
onde somente a torneira
chora
a mesma gota há milênios
                      e o jogo
acaba, com a tarde
sem gols
em todos os rádios
                      e a noite acende
a luz dos postes
um pouco antes do dia desistir
de se encostar, azul
em vão, na vidraça
e a vida voa
                       embora
imóvel
                       como uma nuvem
no céu
                       apenas pássaros?
 
 
AMOR COM AMOR SE PAGA
 
Amor com amor se paga
nas ruas, no Rio
de noite
                    e se encosta
nos muros, por debaixo
das marquises
                    das árvores
dos postes do Aterro
com seu luar pontual
em suspenso
                    como uma nave de jardim
e asfalto
pousando à beira-mar.
 
Amor com amor se pega
se enrosca
                    e cresce:
filodendros, trepadeiras
jibóias, abraços vegetais
e beijos
                    pelos bancos da paisagem
dos carros
na véspera do verão
o amor desata os cabelos
levanta as saias e dança
de patins e passa de bicicleta
sobre os bueiros da Força e Luz.
 
Amor com amor se pica
foge de casa
morre entre os morros e o mar
se mata
nas primeiras páginas
faz manchetes
— balas, sangue, punhalada
estricnina — e se incendeia
em camas transitórias
ateia o fogo da paixão às vestes
para melhor despir os nus
de todos nós.
 
 
SOU UM LIVRO ABERTO
 
Sou um livro aberto
mas o que eu digo
não se escreve
desculpe os erros
destas mal traçadas
mas é que escrevo certo
por linhas tortas
eu sou um livro
(ou um livre-pensador)
para ser devorado
num fim-de-semana.
 
 
TODA VIAGEM É INTERIOR
 
Toda viagem é interior
embora
                   por fora
se vista o carro ou o trem
e se aprenda a nadar
com o navio
                   e a voar
pelo ar, com as bombas
e os aviões.
                   Toda viagem
se faz por dentro
como as estações
se fabricam, invisíveis
a partir do vento
                   silenciosas
como quando um pensamento
muda de tempo e de passo
distraído de si, e entra
em outro clima
                   com a cabeça no ar:
psiu, míssil, além do som
e de qualquer mapa, previsão
ou guia que desenrolo
míope, sobre a estrada
que passa
sob meu pé pneumático
sob o célere céu azul
do meu chapéu.
                    Toda viagem
avança e se alimenta
apenas de horizontes
futuros infinitos vazios
e nuvens:
                    toda viagem é anterior.
 
 
MESMO QUE A VIDA DURE
 
Mesmo que a vida dure
apenas uma hora
                            eu como
um pedaço de Plus Vita.
Mesmo que dure
menos
                             eu bebo
meu copo de Longa Vida.
Mesmo que o coração
possa morrer
                             em 2000 — CCPL
(cuidado coração parando lentamente)
ou no próximo segundo
dentro do peito
                              longa
continua a ser — sempre —
a vida
                              sob telhados
e espaçonaves de Eternit.

EU GOSTO DOS QUE ARDEM
10 de dezembro de 2009

prezados,
 
abaixo, poesias que compõem um capítulo do livro “veneno antimonotonia – os melhores poemas e canções contra o tédio”. o texto de apresentação, belíssimo e escrito pelo poeta eucanaã ferraz, pode ser lido aqui: https://prosaempoema.wordpress.com/2009/09/18/notas-de-um-antologista/
 
nas linhas que seguem, as minhas estima e admiração pelos que ardem, pelos que queimam, pelos que chamuscam na vida.
 
manter o fogo da existência sempre aceso, & firme, forte, em riste.
 
a vida é um incêndio e eu gosto dos que ardem, a mil, a cem por hora, com o narciso em chamas. do sul, cativo — deus salve a américa do sul! —, o este é meu norte. meu tempo é quando. e eu anseio incendiar o país.
 
(agir, girar, dançar por sobre o fogo — feito salamandra mágica —, com o domínio e a beleza de um orixá, com as destrezas de iansã e xangô.) 
 
mantenham acesas as labaredas da vida. mantenham, no olho do furacão, o ar dor que respiramos e que nos retorna vigor e ânimo e fôlego e.
 
cantemos a canção das chamas!
 
(velho ou criança: a vida é bela.)
 
beijo grande!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
________________________
 
(do livro: Veneno antimonotonia — os melhores poemas e canções contra o tédio. organização: Eucanaã Ferraz. editora: Objetiva. Capítulo: Eu gosto dos que ardem.)  
 
 
INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA  mario quintana
 
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
 
Cantemos a canção da vida
na própria luz consumida…
 
 
PIRAR É ARDER  armando freitas filho
 
Pirar é arder
a mil
         fora da pista
com o narciso em chamas.
É cair em si sem sentir
nenhum sentido, e seguir
segundo por segundo
a cem por hora
a céu aberto
verão adentro
sem pouso ou pique
sequer 
         para um gole de sombra
refresco, abraço ou guarida.
É correr na contramão
por bares, praias, casas
pegando fogo
e chegar — ventando —
na hora H
de todos os incêndios
sem água ou nada
que apague as labaredas
carregando apenas
mochilas cheias de mormaço.
Pirar é arder
a mil
         milímetro por milímetro
e queimar
                        velocilento
como uma brasa
se consome
até na fogueira do próprio sono
e, de repente, some.
É estar nu e só
no centro ou no lugar
onde somente o sol
sabe
                           e assassina.
 
 
SÓ AS MÃES SÃO FELIZES  cazuza  — música de roberto frejat
 
Você nunca varou
A Duvivier às 5
Nem levou um susto saindo do Val Improviso
Era quase meio-dia
No lado escuro da vida
 
Nunca viu Lou Reed
“Walking on the Wild Side”
Nem Melodia transvirado
Rezando pelo Estácio
Nunca viu Allen Ginsberg
Pagando michê na Alaska
Nem Rimbaud pelas tantas
Negociando escravas brancas
 
Você nunca ouviu falar em maldição
Nunca viu um milagre
Nunca chorou sozinha num banheiro sujo
Nem nunca quis ver a face de Deus
 
Já freqüentei grandes festas
Nos endereços mais quentes
Tomei champanhe  e cicuta
Com comentários inteligentes
Mais tristes que os de uma puta
No Barbarella às 15 pras 7
 
Reparou como os velhos
Vão perdendo a esperança
Com seus bichinhos de estimação e plantas?
Já viveram tudo
E sabem que a vida é bela
 
Reparou na inocência
Cruel das criancinhas
Com seus comentários desconcertantes?
Adivinham tudo
E sabem que a vida é bela  
 
Você nunca sonhou
Ser currada por animais
Nem transou com cadáveres?
Nunca traiu o teu melhor amigo?
Nem quis comer a tua mãe?
 
Só as mães são felizes…
 
 
POÉTICA  vinicius de moraes
 
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
 
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
 
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
 
Nasço amanhã
Ando onde há espaço
— Meu tempo é quando. 
 
 
JANDIRA  murilo mendes
 
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados,
dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira…
 
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
de cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
 
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
 
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
apareceram ritmos que estavam de reserva,
combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
 
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
fez um grande esforço para ressuscitar:
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa.
 
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
 
 
SUBVERSIVA  ferreira gullar
 
A poesia
quando chega
                   não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
                         Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
                                            relincha
como puta
         nova
         em frente ao Palácio da Alvorada.
 
E só depois
reconsidera: beija
                   nos olhos os que ganham mal
                   embala no colo
                   os que têm sede de felicidade
                   e de justiça
 
E promete incendiar o país
 
 
SENHAS  adriana calcanhotto
 
Eu não gosto do bom gosto 
Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
 
Eu agüento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus-tratos
 
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
 
Eu agüento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu agüento até os caretas
E suas verdades perfeitas
 
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
 
Eu agüento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
 
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
 
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

UMA BRUTA FLOR
31 de agosto de 2009

armando freitas filho é mão que pira, que arde — a mil, a cem por hora —, dedos-tochas que nunca à burocracia, aos papéis timbrados e carimbados.

armando freitas filho é cão danado, dolorido, dado à poesia desembestada, à mão livre.

com armando, me armo de amores. sim, armar-se de amores… porque sua delicadeza é uma arma; é forte, bruta — uma bruta flor —. flor violenta, impetuosa, escalavrada a ferro & fogo, sangue & suor, lanho & lirismo. 

 vide o vate, vide os versos: “Escrever é arriscar tigres/ ou algo que arranhe”.

escrever é riscar o ar de tigres, de feras, de coisas que ranhem o ar.

escrever é riscar o fósforo para que o ar ganhe asas, ganhe forma de chama, mantendo a luz acesa até que os dedos se queimem com o fogo dos versos.

portanto, aqui: o veneno antídoto, a pústula curativa, a reza raivosa, o maremoto que amortece, o sismo que abala edificando, construindo.  

deixo-os com alguns dos seus poemas publicados em seu livro intitulado “numeral / nominal”.  

(ju — juliana krapp —, minha lindinha, enquanto pensava no poeta, em suas poesias, você estava comigo de corpo presente. isto aqui é muito para você.) 

beijo afetusoso em todos.

paulinho / paulo sabino.

_________________________________________________

(todos os poemas extraídos do livro Máquina de escrever: poesia reunida e revista, editora Nova Fronteira)
 
3
 
Reescritor, com o lápis de dentro
sempre se arranhando no rascunho
nos vastos espaços abertos, no cerrado.
Nesse cenário, a imagem de apoio não será:
a de remos idênticos, n’água ao mesmo tempo
cada qual de um lado, copiando-se
em andamento e cadência, paralelos
(ou simultâneos), com igual reflexo
e no meio, por onde se passa, em pensamento
a pé, a possibilidade das duas margens
o trilho do rio que acolhe, intermediário
o centro, o corpo da pedra úmida
que não apanha sol, parecendo de sombra
e motor, irradiando o esforço rumo
ao alto-mar — parado — sem o corte
do braço do nadador, por exemplo.
 
  
10
 
Vestido por nenhum veículo.
Vidrado, quando a lua
se encrava na madrugada
e amortece o mar.
Elevado com sombras:
acelera, cérebro. 
 
 
16 (para Mário Rosa)
 
Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva. 
 
 
17
 
A lua realinha o mar, cortando o bravio
arremeda um lago, na medida certa
noite adentro, e no calor quebrado
a rua só é alarmada
pelas luzes de açougues e farmácias:
vermelha e prata, com significado
idêntico — coagulação, paralisia.
Dia afora, continuo a não ter à mão
o que a mão quer dizer.
As lágrimas que não choraram
a diferença entre catarse e descarte. 
 
 
19
 
Escrever o pensamento à mão.
Reescrever passando a limpo
passando o pente grosso, riscar
rabiscar na entrelinha, copiar
segurando a cabeça, pelos cabelos
batendo à máquina, passando o pente
fino furioso, corrigindo, suando
e ouvindo o tempo da respiração.
Depois, digitar sem dor, apagando
absolutamente o erro, errar.
  
 
22
 
A intenção é o horizonte
mas a linha que se alcança
é a do papel, por mais
que force a vista, a mão.
No meio, porém, o mar não pára
tendo como pé-direito, o céu.
 
 
23
 
Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.
 
 
26 (pensando em Drummond e Clarice)
 
A máquina de um, a outra
se sentindo uma, e a minha:
mecânica, não oferecida
tampouco entranhada, enferruja
sem metafísica ou metáfora
perdendo a força a cada dia
não dizendo o que durante
tanto tempo prometeu — ilusão não era
pois o mundo palpita para todos.
 
O que faltou foi velocidade
na datilografia, acurácia, para
captar o que, sub-reptício se afastava
e mesmo se gritante, os dedos gagos
não conseguiam, nas teclas, articular
as palavras, o que se exprimia, próximo
mas sempre além de todo mecanismo
que embora igual aos outros, desistia.
 
29
 
Esta luz apura tudo
e não perdoa nada: qualquer falha
na montanha que se arrisca no horizonte
salta aos olhos, com o visto
do vôo das gaivotas, em esquadrilha.
Cada erro da rocha, que um dia
resvalou, escalavrando seu perfil
difícil, aparece na escalada áspera
onde a mão, mais de croqui
que de escrita, escorrega, e se rala.
  
 
30
 
Longa flor que não acaba
no pensamento que a imagina
atravessando todas as estações
sem ter seu desejo interrompido.
É o perfume que a prolonga
e perdura no ar, sem palmo de terra
que o segure, e continua sentido
e parado, defendido pela lembrança.
 
  
31
 
Escrevia a um palmo de si.
Às vezes nem isso. Às vezes
por dentro, sem se separar
da sua sombra, sequer do suor
do corpo. Mesmo estando na máquina
que reúne, mecânica, o que parece
ruído, disparo — de revólver e relógio.
Ou quando, em computador, se ouve
ordenado, o franzido rumor
de arame e oceano, e, também, talvez
o roçar do rosto dos astros.