PRÉ-VENDA: UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR (PAULO SABINO) — CONVITE DE LANÇAMENTO (FLIP)
18 de julho de 2018

(Da coluna Parada Obrigatória, do jornal O Globo)

(Convite para a Festa Literária Internacional de Paraty — Flip)

(Capa: Chico Lobo)
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Gente querida,

meu livro, Um para dentro todo exterior, está em pré-venda! E com desconto! A quem interessar, segue o link para compra:

http://www.autografia.com.br/loja/um-para-dentro-todo-exterior-/detalhes

No site de compra, na parte “descrição do livro”, está o texto da contracapa, escrito pelo grande Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras (ABL). Abaixo, o texto pra vocês:

 

A poesia de Paulo Sabino aponta para várias direções – e acerta os alvos. O rigor do pensamento aliado à fatura minimalista se destaca no poema que dá título à obra. Perpassa o livro a indagação do misterioso “não mistério” da vida, que se oferta, múltipla, por todos os lados e em todos os sentidos. À vontade tanto nos versos curtos, elípticos, quanto nos de elocução mais distensa, Paulo Sabino também se aventura no poema em prosa. No poeta, é patente a volúpia da palavra, expressa nos jogos aliterativos, nas rimas internas e externas, nos paralelismos sintáticos. Em sua obra de estreia Paulo Sabino oferta um banquete verbal para muitos talheres. Deguste-o sem moderação, caro leitor.

(Antonio Carlos Secchin)

 

Aqui, a vocês, a orelha do livro, escrita pelo também acadêmico, o poeta e filósofo Antonio Cicero:

 

Numa época como esta, em que se supõe que qualquer coisa pode valer como poesia – época em que se tornou comum a poesia fake – é um grande prazer encontrar-se um livro de verdadeira poesia, como este Um para dentro todo exterior, de Paulo Sabino. Nos seus poemas claros e incisivos, não apenas o “para dentro” é exterior, mas o “para fora” é interior, de modo que se abole a rigidez artificial das fronteiras entre o subjetivo e o objetivo, o espiritual e o material, o racional e o emocional, o intelectual e o sensível, o imanente e o transcendente. O fato é que, de repente, através da leitura de um poema como, por exemplo, “Sílaba de si”, ficamos encantados ao captar, por um novo ângulo, algo que já fazia parte de nossa experiência cotidiana. Eis a poesia autêntica.

(Antonio Cicero)

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OCUPAÇÃO POÉTICA DE CARA NOVA — LOGOS: GAL OPPIDO/ 13ª EDIÇÃO: TANUSSI CARDOSO
8 de junho de 2018

(Criação: Gal Oppido)

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O projeto Ocupação Poética está de cara nova!

O grande artista plástico & fotógrafo paulistano Gal Oppido enviou ao coordenador do projeto, este que vos escreve, as novas marcas da Ocupação Poética, lindas! Nem sei como agradecer ao Gal a gentileza & generosidade! Muito muito muito obrigado, Gal!

Também agradeço demais ao meu amigo, poeta & tradutor Adriano Nunes a ponte entre mim & Gal Oppido.

Aproveito para anunciar que no dia 18 de junho (segunda-feira), no teatro Cândido Mendes, de Ipanema, temos a 13ª edição do projeto, comemorando os 40 anos de vida literária do super poeta Tanussi Cardoso (na foto abaixo), ao lado de vários amigos que lerão a sua obra. Semana próxima volto ao “Prosa em poema” com mais informações.

Esperamos vocês!

De brinde, um poema rápido & sofisticado do homenageado da próxima edição.

(Notem, no poema, que dentro de “palavra” cabe o substantivo larva — que bicho se abrirá da larva da palavra que lavra o poema?…)

Viva a poesia viva!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Exercício do olhar. autor: Tanussi Cardoso. editora: Five Star.)

 

 

ÓVULO I

 

meu poema
larva:
que bicho se abrirá em
palavra?

NOVÍSSIMO ORFEU
11 de novembro de 2014

Orpheus (1894)_Károly Ferenczy (Húngaro)

(Na foto, o quadro Orpheus, 1894, do pintor húngaro Károly Ferenczy.)
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 para Murilo, novíssimo Orfeu, que chegará ao mundo em dezembro

 

 

(do: Dicionário da mitologia grega e romana. autor: Pierre Grimal. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

ORFEU. Orfeu é unanimemente reconhecido como filho de Eagro (v. Eagro). As tradições divergem no que respeita ao nome da mãe: passa, mais vulgarmente, por filho de Calíope, que detém a mais alta dignidade entre as Musas; mas por vezes, em vez desta é referida Menipe, filha de Tâmiris. Orfeu é de origem trácia. Como as Musas, habita perto do Olimpo, onde é geralmente representado, cantando, vestido com os trajos dos Trácios. Os mitógrafos fazem dele o rei desta região: dos Bístones, dos Odrísios e dos Macedónios, etc. Orfeu é o Cantor por excelência, o músico e o poeta. Toca lira e “cítara”, instrumento cuja invenção lhe é atribuída. Quando esta honra lhe é negada, admite-se que foi ele que aumentou o número de cordas do instrumento, que não seriam inicialmente mais do que sete e passaram a ser nove, “tantas quanto as Musas”. Seja como for, Orfeu sabia cantar melodias tão suaves que até as feras o seguiam, as árvores e as plantas se inclinavam na sua direcção e os homens mais rudes se acalmavam.

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novíssimo orfeu:

vou onde a poesia me chama, vou onde a poesia me clama.

o amor é minha biografia, o amor é minha história de vida, texto de argila & fogo.

o amor: texto de argila & fogo: de argila, pois, segundo a mitologia cristã, o homem veio do barro, veio da terra, e para a terra retornará, e é na terra que o homem constitui a sua história, a sua biografia; de fogo, elemento que existe a partir da combustão de um corpo, que desprende luz & calor, corpo que arde, que queima, que aquece, que ilumina.

aves contemporâneas, pássaros dos dias atuais, largam do meu peito, alçando vôos & levando recado aos homens, meus irmãos na terra: o amor é dos sentimentos o mais nobre; belezas nasceram para serem complementares & não excludentes; apesar dos pesares, a vida vale o sorriso & o brilho no olhar.

o mundo alegórico se esvai, o mundo repleto de simbolismo & elementos figurados se dissipa, o mundo recheado de mitologias desfalece, o uso da razão & a ciência derrubam as alegorias mundanas & as crenças fantásticas, fica esta substância de luta, real, permanece esta matéria de batalha que travamos por uma existência mais frutífera, menos tacanha, de onde a eternidade se descortina, de onde o tempo se revela.

a estrela azul familiar vira as costas, foi-se embora…

(estrela azul: estrela de luminosidade intensa, de temperatura altíssima, com massa que pode ser até 18 vezes maior que a massa solar, associada, a sua aparição no céu, a épocas de bonança, a momentos de prosperidade, a tempos de mansuetude.)

a estrela azul conhecida, familiar, disse adeus…

mesmo assim, mesmo sem a estrela azul familiar no céu, ainda que esta não mais aponte épocas de bonança, momentos de prosperidade, tempos de mansuetude, a poesia, musa maior na vida, sopra onde quer.

apesar dos pesares, apesar da substância de luta de onde se descortina a eternidade, de onde a realidade se revela, a poesia sopra o seu vento lírico, a poesia sopra o seu vento onírico, a poesia sopra o seu vento alegórico, a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, ainda mais colorido, ainda mais definido.

salve o sopro sortido & sagaz da poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia poética. autor: Murilo Mendes. editora: Cosac Naify.)

 

 

NOVÍSSIMO ORFEU

 

Vou onde a Poesia me chama.

O amor é minha biografia,
Texto de argila e fogo.

Aves contemporâneas
Largam do meu peito
Levando recado aos homens.

O mundo alegórico se esvai,
Fica esta substância de luta
De onde se descortina a eternidade.

A estrela azul familiar
Vira as costas, foi-se embora…
A poesia sopra onde quer.

SEJA ONDE FOR, PROPOR A CONTRADANÇA
8 de outubro de 2014

Adoração ao Bezerro de Ouro_Andrea di Lione (1596–1675)

(Na foto, a pintura “Adoração ao bezerro de ouro”, óleo sobre tela do século XVII, do pintor italiano Andrea di Lione.)

Tília

(Na foto, a árvore de nome tília, natural da Europa & da Ásia, logo, nativa do hemisfério norte.)

Carvalho

(Na foto, um carvalho, árvore imponente, de madeira nobre, que pode chegar aos 45 metros de altura, nativa da Europa & do Mediterrâneo.)
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a única certeza desta vida: a de que, um dia, a morte nos alcançará.

portanto, por ser a morte a única certeza desta vida, é próprio da natureza humana pensar a sua finitude:

onde será que eu, o forasteiro (forasteiro porque não pertenço a este pedaço de terra, já que um dia parto de vez daqui), irei saudar a morte? onde será que o forasteiro cansado (cansado depois de tantas & tantas & tantas andanças mundo afora, que assim seja!) irá congratular a morte?

será que o forasteiro cansado irá saudar a morte entre as tílias, lá no (hemisfério) norte? ou aqui no (hemisfério) sul, sob os coqueiros?

vão me enterrar desconhecidos em cova rasa num deserto? ou vagarei em mar aberto até bater nos arrecifes?

que seja numa ou noutra paisagem! isso, no fundo, não pode nem deve interessar! aqui ou acolá, quando a morte me alcançar, há de envolver-me por inteiro a noite escura, noite de onde nunca mais despertarei, e um véu azul de estrelas será a minha mortalha, será o véu que envolverá o meu corpo sepultado.

o que pode & deve importar é o tempo de vida, tempo em que sou paulo sabino.

e, enquanto vida eu tiver, não entro nessa dança, não incenso os ídolos de ouro & pés de barro (“ídolos de ouro & pés de barro”: expressão utilizada para designar pessoas aparentemente fortes, mas apoiadas em estrutura & formação frágeis, inconsistentes, estrutura & formação que podem ruir a qualquer momento de tão frágeis, tão inconsistentes).

enquanto vida eu tiver, não entro nessa dança, não incenso, não louvo, não idolatro, não glorifico, ídolos de ouro & pés de barro, ídolos de estrutura & formação frágeis, nem ídolos falsos, como o bezerro de ouro, retratado na tela do pintor italiano andrea di lione, episódio bíblico (velho testamento) em que os hebreus, quando da saída do egito em busca da terra prometida, exigiram a construção de um deus qualquer, deus, por conseguinte, falso, ilegítimo, enganoso, que pudesse guiá-los, que pudesse direcioná-los, que pudesse orientá-los, e o bezerro de ouro foi arquitetado para tal objetivo.

não incenso, não louvo, não idolatro, não glorifico, ídolos de ouro & pés de barro; tampouco aperto mão de masmarro, de espertalhão, de malandro, de salafrário, tampouco aperto mão de quem difama, de quem cria calúnias, de quem distribui dissenso, de quem distribui conflito, de quem distribui desavença.

não acompanho as multidões medonhas que adoram seus heróis de meia-figa, heróis ordinários, sem grande valor.

sim, eu sei: carvalhos, que são árvores imponentes, ornamentais, de madeira nobre (forte & resistente), árvores que podem chegar aos 45 metros de altura, os carvalhos têm que desabar, enquanto o junco, designação comum para ervas rasteiras encontradas em locais úmidos ou pantanosos, o junco espera, abaixando-se, curvado, passar o vento forte da intempérie, o vento forte do mau tempo.

mas do que pode um junco se orgulhar, sempre abaixando-se, sempre curvando-se, sempre sujeitando-se às vontades do vento forte, nunca enfrentando o mau tempo de pé, nunca resistindo a ele bravamente, como é comum aos carvalhos, árvores imponentes, de grande rijeza, de imensa resistência, de extraordinária solidez?

do que pode um junco se orgulhar? de tirar poeira de capacho ao sol, de tirar o pó do tapete da porta exposto ao sol? do que pode um junco se orgulhar? de curvar-se para a linha de um anzol, quando esta roça a sua superfície?

o junco nunca correrá o risco de desabar ante o vento forte da intempérie porque o junco é rasteiro, porque o junco se ergue pouco acima do solo, porque o junco nasceu para o raso, porque o junco é subserviente; diferentemente do carvalho, árvore altiva, nobre, forte, resistente, que cresce alto perante a vida, que agrega uma série de funções & possibilidades.

eu sei: carvalhos têm que desabar. porém, eu prefiro correr o risco da intempérie, o perigo de ser derrubado pelo vento forte, do que viver sempre rasteiro, sempre no raso, sempre submisso, rente ao chão.

não entro nessa dança: seja onde for, proponho & firmo a contradança.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Heine, hein? — Poeta dos contrários. autor: Heinrich Heine. tradução: André Vallias. editora: Perspectiva.)

 

 

[ONDE?]

 

Onde será que o forasteiro
Cansado irá saudar a morte?
Por entre as tílias, lá no norte?
Aqui no sul, sob os coqueiros?

Vão me enterrar desconhecidos
Em cova rasa num deserto?
Ou vagarei em mar aberto
Até bater nos arrecifes?

Que seja! Aqui ou acolá,
Há de envolver-me por inteiro
A noite escura e um véu de estrelas
Azul será minha mortalha.

 

 

NÃO ENTRO NESSA DANÇA, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.

CDA DE ATLÂNTICO & BRONZE
16 de setembro de 2014

Amanhecer na cidade do Rio de Janeiro

 

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

(Nas fotos, estátua, lavrada em bronze, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no posto 6, praia de Copacabana, Rio de Janeiro.)
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CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: não é feito do costumeiro bronze que exalta as estátuas — apesar de a sua ser lavrada em bronze — nem do mármore consagrador, material também utilizado na produção de requintadas & célebres esculturas.

no fundo, porque por dentro, (cda) é rico em ferro anímico, é rico em ferro próprio da alma, ferro lavrado, ferro trabalhado, ferro esculpido, na sua confidência, há tanto tempo.

rico — cda — em ferro anímico, lavrado na sua confidência (há tanto tempo): na sua confidência em versos, propriamente intitulada “confidência do itabirano” (trecho inicial):

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

 

o pedestal de drummond (pedestal: suporte que serve para elevar, para colocar em destaque, em evidência, escultura ou objeto decorativo) é dispensável. pois todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond.

portanto, o pedestal que o poeta eleva, ergue, é dispensável. bastante, suficiente, é o banco ao nível do mar & dos homens onde, sentado de costas para o horizonte (como sempre sentou-se), acolhe a todos que durante o dia o procuram.

difícil é vê-lo só no banco, há sempre alguém para um retrato, um papo, ou um afago, e, mesmo assim, mesmo sempre acompanhado, de longe, nós o acompanhamos — com o olhar.

muitas vezes tiram os seus óculos — por ganância (no intuito de vender a peça lavrada em bronze) ou por lembrança (algum fã do poeta, num arroubo insensato de amor).

logo os repõem para que drummond não perca de vista quem passa & precisa da presença de sua eternidade, ali, no seu banco de praia predileto, onde costumava sentar-se, sempre de costas ao atlântico & de frente para o calçadão, assistindo ao ir & vir dos transeuntes, ao ir & vir da vida diante dos seus olhos.

a presença da eternidade de drummond: o pedestal de drummond é dispensável. todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós, acima de todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond, abaixo de drummond.

por isso (por estarmos por sob drummond), faz-se necessário tirar o peso da influência — o peso da importância — da fluência — da liqüidez, do escoamento, da espontaneidade — do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos) sobre o meu corpo poético, a fim de que me sobre o que seja genuinamente meu, a fim de que eu, ao escrever os versos que me cabem, acabe não afundado, por inteiro, na influência da fluência dos versos drummondianos sobre os meus.

por sob drummond, isto é, abaixo de drummond, abaixo do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos), abrir, pelo menos, um corpo poético meu. com meu corpo poético, penar sob sua sombra, padecer sob a sombra da influência da fluência poética drummondiana, para, depois, tentar abrir um corpo fora de sua sombra, tentar abrir um corpo de luz, tentar abrir um corpo poético inteiramente iluminado por uma luz inteiramente minha, própria, peculiar, autêntica.

(que assim seja.)

salve cda!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dever. autor: Armando Freitas Filho. editora: Companhia das Letras.)

 

 

CDA DE ATLÂNTICO E BRONZE

 

Não é do costumeiro bronze
que exalta as estátuas
nem do mármore consagrador.
É rico em ferro anímico lavrado
na sua Confidência, há tanto tempo.
O pedestal que eleva é dispensável.
Bastante é o banco ao nível do mar
e dos homens onde, sentado de costas
para o horizonte, acolhe a todos
que durante os dias o procuram.
Difícil é vê-lo só, e mesmo assim
de longe, nós o acompanhamos.
Muitas vezes tiram os seus óculos
por ganância ou lembrança.
Logo os repõem para que não perca
de vista quem passa e precisa
da presença de sua eternidade.

 

 

129

sob CDA

Tirar o peso da influência
da fluência do seu corpo
sobre o meu. Abrir um corpo
pelo menos, e penar
sob sua sombra, para depois
tentar abrir um corpo de luz.

MULHER COM CRISÂNTEMOS
22 de agosto de 2014

Mulher com crisântemos_Degas

(Para aumentar a imagem, clicar com o mouse sobre ela. Na foto, a pintura Mulher com crisântemos.)
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o olhar observador, atento, parado em frente à tela acima, mulher com crisântemos, do artista francês da virada do século XIX para o século XX, edgar degas:

as flores transbordam do seu vaso na mesa, um pouco à esquerda da tela cujas beiras por pouco elas não ultrapassam, invadindo a moldura, tamanha exuberância. também o seu colorido, de tão vivo, tão intenso, tão bem cuidado, quase abandona a paleta da pintura, saltando do mundo das tintas para o mundo nosso, real, de concreto & cimento armado, tamanho realismo do colorido, mas apenas quase.

(é que o pintor, jovem mestre, ostenta sprezzatura, que é a capacidade que alguns artistas têm de fazer o difícil parecer fácil. é o mesmo que dizemos por cá: “fácil de entender, difícil de fazer”. assim como degas, chico buarque, dorival caymmi & vinicius de moraes são mestres que ostentam sprezzatura.)

o olhar passa por elas (pelas flores), pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha, visita, à esquerda do vaso, um jarro d’água, nota um lenço largado sobre a toalha bordada da mesa, e ruma ao lado oposto da tela, para uma mulher cujos olhos ignoram-no, os olhos da mulher ignoram o olhar atento que agora a observa, atraídos, talvez, por algo que se acha fora não somente do quadro em que ela se encontra, mas também daquele quadro em que nos perceberia, se quisesse, se, num repente, resolvesse encarar o olhar que a encarava, se, num rompante, resolvesse fitar o olhar que a fitava, ávido. os olhos da mulher talvez estejam atraídos por algo que se acha fora tanto do quadro em que ela se encontra quanto de um outro, um no qual ela nos perceberia: talvez (os olhos) atraídos por algo que esteja apenas no seu pensamento, talvez por algo que esteja perdido nos seus olhos, que parecem distantes da própria pintura.

sem saber por que, o olhar não mais a quer largar. diga-se a verdade: essa mulher deixa a desejar: ela não se compara aos crisântemos (à sua beleza & exuberância) que lhe deram a fama a que mal faz jus, ela não se compara às flores que lhe deram a fama que, diga-se a verdade, não merece: afinal, ela se encontra à margem do quadro, e nem sequer inteira, só em parte. dela, está bem mais presente, ali no quadro, a ausência que a presença (a mulher nem sequer coloca-se inteira na tela & os seus olhos parecem distantes do cenário em que se encontram).

e, dado que a ausência é proteica, isto é, multiforme, multifacetada (pode-se estar ausente de diversas maneiras, sob diversos aspectos), dado também que a ausência é proteica porque, assim como proteína, alimenta a alma, os pensamentos, os olhos, de fantasias & delírios (a ausência do que atrai para si os olhos da mulher nos faz fantasiar, delirar, as mais sortidas razões), e “tudo nada” (pois tudo que forma a ausência é a falta, é o vazio, é o buraco, “tudo” que forma a ausência é o “nada”, a ausência é o “tudo” que é “nada”), e tudo nada, e tudo bóia, e tudo oscila, e tudo vacila, no quadro (não se pode saber com o que se distraem os olhos da mulher), o olhar atento à pintura mal mergulha na vertiginosa superfície da mulher (a mulher é feita de tinta & não de carne & osso, é superfície genuína porque não possui dentro, é toda exterioridade, e, no entanto, sendo apenas superfície, toda exterioridade, a mulher consegue levar o olhar de quem a observa à vertigem, à viagem interrogativa, curiosa, imaginativa) & flutua, bóia, nada, de volta às flores sobre o fundo castanho do papel de parede; depois, da capo (da capo é uma expressão que significa “desde o princípio” & que é colocada ao fim de um trecho de música, indicando que todo o trecho deve ser repetido), depois, portanto, o olhar é convidado a repetir toda a sua viagem, desde o princípio.

voltar o olhar atencioso inúmeras vezes a uma pintura como quem lê inúmeras vezes um poema: a fim de que a pintura, pura superfície assim como o poema, nos leve a sensações vertiginosas, nos leve a sensações que só sabem desempenhar as grandes obras de arte.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Porventura. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

MULHER COM CRISÂNTEMOS
(sobre um quadro de Degas)

Para Carlos Mendes Sousa

 

As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d’água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
ignoram-no, atraídos talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que ela se encontra, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro, e nem sequer inteira, só em parte.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é proteica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.

 

O FUTEBOL
19 de junho de 2014

Campo de futebol

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para Chico Buarque, pelo seu aniversário de 70 anos hoje

 

à parte toda a (des)organização promovida pelo comitê responsável pela realização do mundial de futebol, aqui no brasil, & todos os gastos, ainda mal explicados à população, com a produção da copa 2014, num mundial de futebol, o que interessa a quem o mundial interessa é: o futebol.

o futebol, a bola em campo, o rolar da partida.

confesso aos senhores que não sou um grande entusiasta do esporte, mas sei admirar uma bela disputa futebolística. e a copa é um grande momento, momento propício, a grandes partidas de futebol.

e toda grande partida de futebol costuma ser recheada de gols, alguns, de fato, pela precisão & tiro certeiro, verdadeiras obras de arte.

um chute a gol com precisão de flecha & folha seca: pintura mais fundamental.

pintura mais fundamental é um chute a gol com precisão de flecha & folha seca: e que pintura alcançaria toda a beleza que compreende um chute a gol com precisão de flecha & folha seca?

como emplacar o momento do chute a gol, tão belo & tão instantâneo, em que pinacoteca emplacá-lo, como captá-lo para sempre em moldura, nega?

um belíssimo chute a gol é pintura que se perde no ar, vaporosa.

o poeta-compositor sonha em conseguir, na sua canção, efeito igual ao de um belíssimo chute a gol, com precisão de flecha & folha seca, o poeta-compositor sonha em conseguir, com a sua canção, captar o visual de um chute a gol & a emoção da idéia quando ginga — a emoção da idéia do jogador, ao pensar, em milésimos de segundos, junto com sua emoção, junto com sua adrenalina, tática para seu chute a gol, de acordo com sua posição em campo & a dos demais colegas & rivais. e, assim, começam os passes & dribles: para mané, para didi, para mané (a troca de bola entre os jogadores, cavando oportunidades de ataque), mané para didi para mané, para didi, para pagão, para pelé, e canhoteiro (e, de repente, estufa-se o filó da rede, um belíssimo gol).

mas o poeta-compositor não acha que sua canção alcance a beleza de um chute a gol com precisão de flecha & folha seca, considerando-a capenga & desejando anular a natural catimba (a natural manha, astúcia, malícia) do cantor (que é o próprio poeta-compositor).

capenga aos olhos do poeta-compositor, mas, aos olhos deste que festeja, hoje, 19 de junho, os seus 70 anos, os 70 anos do poeta-compositor, uma obra-prima, uma belíssima pintura, emplacada em música & versos.

o futebol, a bola em campo, o rolar da partida: a arte de uma bela partida futebolística: que belos chutes a gol, em campeonatos diversos, nos permitam pinturas que ficarão eternamente emplacadas em nossas memórias.

salve chico buarque!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(Do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

O FUTEBOL

Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro

 

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané
Mané para Didi para Mané
para Didi para Pagão
para Pelé e Canhoteiro)
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Uma palavra. artista & intérprete: Chico Buarque. autor da canção: Chico Buarque. gravadora: BMG.)

O NAVEGANTE & SUA BIOGRAFIA COM PALAVRAS DE PINTAR
15 de janeiro de 2013

Paulo Sabino e Mar

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 inundado de mar, eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas.
 
transcrevo os poemas do mar, pois só o mar escreve o mar, só o mar escreve seu manto azul líquido, suas ondulações de variações seqüenciadas, seu perfume de maresia, sua música incessante, seu gosto de sal.
 
só o mar escreve o mar. eu transcrevo seus poemas, pois somente em sua paleta (chapa de madeira sobre a qual os pintores colocam & misturam a tinta), somente na gama de cores disposta na sua paleta, encontro as palavras de pintar:
 
azul a luz o céu a gaivota o barco o peixe a sereia a areia.
 
poeta do olhar poeta (pois, antes de mim, antes do paulo sabino pensante, “poeta” é o olhar que me abriga. antes de mim, “poeta” é o olhar, que enxerga o mundo na estamparia da poesia. é o olhar que olha poeticamente. na verdade, o paulo sabino pensante-poeta é somente um instrumento, um canal, um veículo, para o olhar, poeta essencial & primordial), eu próprio sou da paleta do mar, poeta do olhar poeta, eu próprio faço parte da gama de cores da paleta marinha.
 
poeta do olhar poeta, eu próprio sou da paleta do mar (não só por conta da minha alucinação pelo mar & seus mistérios & imensidão, mas também em última instância: afinal, estudos científicos apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água, vieram da imensidão do mar).
 
pertencendo à gama de cores da paleta do mar, sou também, deste mar, navegante.
 
e, navegante que sou, no ar que me falta, navegador que sou, ainda que, à navegação, me falte vento para navegar, enfuno a vela a boreste, encho a vela da minha embarcação com o ar do meu fôlego, e vou, e sigo, a boreste (sigo do lado direito da embarcação errante), enfuno a vela a boreste, e ergo esquálido estandarte, e ergo minha bandeira de causa nenhuma, estandarte simples, bandeira besta, pessoa marcada que sou aos becos deste mar, pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar (as ruas estreitas & curtas, em geral sem saída, que povoam o reino marinho): os becos deste mar: onde aves devoram peixes (lâmina de prata fisgada & presa no bico da gaivota), vidas de prata que nadam extáticas no tempo que resta.
 
no fundo, o mar nos serve de metáfora (pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar): somos como os peixes: nadamos neste mar de caminhos & possibilidades que é a vida, até que, extáticos, num repente, inesperadamente, um beco (uma ruela estreira & sem saída, uma situação difícil, de grande aperto) neste mar em que nadamos: estamos “suspensos no ar”, “fisgados” para fora da água-vida. enquanto não somos “fisgados” para fora da água-vida, seguimos nadando, extáticos, isto é, encantados, maravilhados, em êxtase, no tempo que nos resta.
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, sou da paleta do mar. poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, navegante dos mares de sal & da vida, também sou peixe imerso nas águas deste nosso cotidiano, nadando extático — em êxtase — no tempo que me resta, sujeito a ser “fisgado” & “suspenso” — peixe fora d’água, peixe fora do seu habitat — se capturado pelo anzol de alguma fatalidade. 
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, navegante dos mares de sal & da vida, peixe imerso nas águas deste cotidiano, paulo sabino teve amigos, muitos, amigos que morriam, amigos que partiam, amigos que chegavam, outros quebravam o seu rosto contra o tempo, outros geravam gerânios no jardim; paulo sabino odiou o que era fácil, odiou o que se obtém sem dificuldade, pois o paulo sabino gostava das funduras (o mar é feito de abismos abissais); paulo sabino procurou-se na luz no vento no mar.
 
(o navegante & sua biografia com palavras de pintar.)
 
beijo todos!    
_____________________________________________________________
 
(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)
 
 
 
PALAVRAS DE PINTAR
 
 
Inundado de mar,
eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas,
pois somente em sua paleta encontro as palavras de pintar.
Poeta do olhar poeta,
eu próprio sou
da paleta do mar.
 
 
 
 
(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
NAVEGANTE
 
 
No ar que me falta
enfuno a vela
a boreste
ergo
esquálido estandarte
barão assinalado
aos becos deste mar
onde aves
devoram
peixes derradeiros
vidas de prata
que nadam
extáticas
no tempo
que resta
 
 
 
 
(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
BIOGRAFIA
 
 
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

À POESIA
10 de outubro de 2012

____________________________________________________________
 
por que você, poesia, me abandona no vértice (no ponto culminante) da vertigem, quando a chuva cai (como numa tela do pintor belga rené magritte, célebre por suas pinturas surrealistas contrastando com o tratamento hiper realista dado aos objetos dos seus quadros) sobre as rosas que desistiram, sobre as rosas que renunciaram a natureza das rosas?
 
por que, poesia, novamente me perco (abandonado por você) entre hortênsias, no aclive (na ladeira), hortênsias mais altas que homens, mais vivas que o exército de terracota?
 
(exército de terracota: também conhecido por guerreiros de xian ou exército do imperador qin, é um conjunto com mais de oito mil figuras de guerreiros & cavalos em terracota, que é uma argila manufaturada & cozida no forno, conjunto encontrado próximo ao mausoléu do primeiro imperador da china, qin shihuang.)
 
sem você, poesia, eu caminho no plano, caminho no nivelado, no não-acidentado, no regular; com você, poesia, eu caminho no acidentado, no irregular, no desnivelado. e eu gosto.
 
(todos os poemas: um engano.)
 
sem você, poesia, tudo escorre, pois a sua presença — em palavras & versos — permite que permaneça, permite que não escorra, tudo o que é registrado em palavras & versos (ainda que se saiba que todos os poemas: um engano. afinal, no fundo no fundo, nada do que se deseja permanente o poema retém em palavras & versos).
 
sem a poesia eu caminho no plano, tudo escorre — há, sem ela, um silêncio aturdido, silêncio perturbado, intranqüilo, um silêncio desconfortável na sua condição de silêncio.
 
sem a sua luz, poesia, o que me resta?
 
sem a luz da poesia, o que me sobra?
 
o que me sobra (sem a luz da poesia): viver, conhecer o mundo, reconhecendo-o através das vivências, tateando às cegas as suas formas & maneiras, onde assistimos ao seu passar (no caminho vidafora, tudo escorre), onde assistimos ao seu fluir constante, fluir que, sem a companhia sua, poesia, fica faltando um pedaço — sem a luz da poesia há um silêncio aturdido; e, no silêncio aturdido (silêncio perturbado, intranqüilo), há uma cota do que morre, há uma parcela do que escorre. no silêncio aturdido há uma parte do que se esvai no tempo & o ensejo de reter, na forma poética, uma cota do que morre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parcela do que escorre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parte do que se esvai no tempo (de tudo o que se vive, algumas vivências acreditamos dignas, merecedoras de registro; no caso do poeta: de um registro em forma de poesia).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, passam na frente de um espelho que, mudo, assiste à fuga do que reflete (o que reflete o espelho: um quarto de veludo: um compartimento contrátil: o que passar pela sua frente: a vida).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, criam um silêncio aturdido. e, mesmo assim, mesmo com o silêncio aturdido, diversas experiências merecedoras de registro passam apenas captadas & aprisionadas em algum tempo do espelho.
 
se assim for, se decidir a poesia não dar o ar da sua graça, abandonar o ritmo, eis tudo:
 
o torneado hábil das palavras & o dissonante vão das consoantes não podem mais — nem por um instante — buleversar (neologismo criado, e já utilizado por drummond & bandeira, a partir do francês bouleverser, que significa bagunçar, perturbar, abalar) o meu pequeno alento.
 
palavra nenhuma — nem por um instante, nem por um segundo — pode abalar, pode perturbar, o meu pequeno alento, o meu pequeno ânimo, a minha pequena inspiração.
 
abandonar o ritmo, eis tudo:
 
já nem tento satisfazer com tais materiais — os tais materiais: as palavras — minha volúpia, o meu prazer, pelo contratempo. já nem tento satisfazer com palavras minha volúpia pelo contratempo, meu prazer pelas circunstâncias imprevistas, pelos acidentes, ainda que fosse fugaz o prazer no momento do encontro (no momento do encontro com os tais materiais — o torneado hábil das palavras, o dissonante vão das consoantes).
 
abandonar o ritmo, eis tudo: 
 
mudar de logradouro, mudar de endereço, mudar de moradia (adeus, poesia!), ou mudar de logro (ou mudar de ilusão, de fraude, de cilada), que isso de escrever é jogo perdido de antemão, no mano a mano.
 
isso de escrever é jogo perdido de antemão: entre a experiência/vivência minha & aquilo que escrevo sobre ela, aquilo que escrevo sobre ela está sempre aquém da experiência vivida.
 
por mais bem escrito um texto a respeito de uma experiência vivida, um texto nunca é mais do que aquilo que foi vivenciado. o texto, por mais bem escrito, não é aquilo que se vivenciou. a experiência vivida ficou para trás, perdida num tempo pretérito, em alguma dobra do espelho.
 
(por isso o poema, no fundo no fundo, um fundo falso: o poema é sempre logro, é sempre uma ilusão, uma fraude, uma cilada.)
 
mas sem ressentimento (muito pelo contrário):
 
o mais são nuvens (também passageiras, que passam como passa o passarinho, passa a noite, passa o dia), e todos os poemas: uma ilusão, uma fraude: uma cilada:
 
um engano.
 
(dos melhores que vivencio em vida!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Corola. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Ateliê Editorial.)
 
 
 
à poesia
 
 
POR QUE você me abandona
no vértice da vertigem
quando a chuva cai (um Magritte)
sobre rosas que desistiram?
Por que novamente me perco
entre hortênsias, no aclive,
mais altas que homens, mais vivas
que o Exército de Terracota?
Sem você eu caminho no plano,
tudo escorre
— há um silêncio aturdido
uma cota do que morre
por dentro daquilo que brota.
Sem a sua luz, o que me resta?
Palmilhar às cegas
um quarto de veludo
onde o espelho, mudo, assiste 
à fuga do que reflete.
 
 
 
O TORNEADO hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais — nem por um instante —
buleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro — ou de logro —
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.

O ESTRANGEIRO
8 de outubro de 2010

francisco ferraz,
 
amigo querido, do qual muitas saudades sinto,
 
pessoa responsável pela existência, em termos práticos, deste espaço, “o prosa em poema”,
 
este post é dedicado inteiramente a você.
 
devo esta publicação ao chico há muito tempo; ela foi prometida no início de tudo, e só foi “existir” agora (rs).
 
mas é aquela tal história: paulo sabino: um homem que tarda, mas não falha (rs).
 
chicão, finalmente (rs)!
 
eu e o francisco ferraz somos apaixonados pela canção, e, principalmente, por este poema-canção.
 
estas linhas, que considero primorosas, traduzem a minha visão acerca do brasil. enxergo este país exatamente desta maneira.
 
caetano veloso parte dos olhares estrangeiros, dos olhares que vêm de fora, dos olhares alheios, estranhos, não nativos, para a construção dos versos que acabam por desnudar o seu olhar.
 
através dos olhares estrangeiros, o seu olhar é desfraldado.
 
enquanto o pintor paul gauguin e o compositor cole porter, em visita à baía de guanabara, sentiram-se deslumbrados, porque a enxergaram como bela, o antropólogo claude lévis-strauss detestou-a; pareceu-lhe, a baía, uma boca banguela.
 
para um tipo de olhar, bela; para outro, o inverso, banguela.
 
bela & banguela: adjetivos antagônicos utilizados para a qualificação da baía de guanabara.
 
daí, a pergunta: mas o que seria, exatamente, uma coisa bela?
 
caetano interroga-se a respeito do seu sentimento pela guanabara: “e eu, menos a conhecera, mais a amara?”
 
e por que ” menos a conhecera, mais a amara”? ama-se mais quanto menos se conhece? a intensidade do amor aumenta quanto menos conhecido aquilo que se ama?
 
há a célebre sentença que diz: o amor é cego. isto significa afirmar que o amor enxerga: nada.
 
mas será? será que o amor enxerga: nada?
 
o amor é cego (falam). e ray charles também é cego. stevie wonder, outro cego. e o albino hermeto (pascoal) não enxerga mesmo muito bem.
 
três exemplos para se dizer que, na cegueira, enxerga-se muito. (afinal, como desdizer que ray charles, stevie wonder & hermeto pascoal, grandes homens de visão, grandes visionários?)
 
a constatação, portanto, de que, mesmo amando, isto é, mesmo com o grande amor que nutre pela baía, caetano não deixa de enxergar bem, não deixa de ser um visionário.
 
e segue: o que seria uma coisa bela? uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem, uma arara?… o quê?
 
de qualquer modo, fica a verificação, a averiguação, de caetano sobre a baía que tanto ama, baía que o deixa cego de tanto vê-la & tê-la estrela: ao mesmo tempo bela & banguela.
 
ele parte da baía de guanabara para traçar a sua visão acerca do brasil: belo & banguela, feito a guanabara. 
 
assim, com o olhar mergulhado em adjetivos antagônicos para com a baía, para com o brasil, inicia a revelação de um raro pesadelo, de um sonho ruim, que busca, sempre: o belo & o amaro, isto é, os adjetivos antagônicos.
 
junto ao sonho, a imagem que não foi sonhada (ainda que, no sonho, utilizada): a praia de botafogo, um cenário lindo, que agrega à sua paisagem o pão de açúcar, era uma esteira de areia branca & óleo diesel sob os tênis. tudo quanto havia de aurora no cenário: o morro famoso o menos óbvio possível, com umas arestas insuspeitadas (o morro visto como se pela primeira vez, visto como se por um olhar forasteiro, por um olhar estrangeiro); o morro banhado na áspera luz laranja contra a “quase-não-luz” do branco das areias e das espumas (escurecido, degradado o branco, pelo tanto de óleo diesel).
 
verificar uma paisagem tão encantadora, e, ao mesmo tempo, tão maltratada: tudo quanto havia, então, de aurora…
 
caetano prossegue o sonho e afirma ser um “cego às avessas”: não necessita olhar para trás a fim de saber o que acontece; vê absolutamente tudo o que deseja.
 
às suas costas, nas areias da praia de botafogo (com o pão de açúcar ao fundo), descreve um velho com cabelos nas narinas & uma menina ainda adolescente e muito linda.
 
do velho & da menina, mesmo podendo, caetano não deseja ver aquilo que, neles, não lhe agrada: o terno negro (do velho) e os dentes “quase-não-púrpura” (da menina). e pede que o ouvinte/leitor pense a imagem de modo impressionista (como pensava o pintor francês georges seurat), que trabalha com as formas naturais e sua disposição diante da incidência de luz, elaborando contrastes com as cores. alerta, o compositor, para que a paisagem do sonho não seja encarada no termo surrealista, que mexe com o irracional; pois o surrealismo é uma outra “onda”, outra “viagem”, é uma outra história.
 
o cenário pintado (a praia de botafogo, um velho de terno negro com cabelos nas narinas & uma menina ainda adolescente e muito linda às costas do compositor) é delineado em tons impressionistas, com a paisagem natural (praia e morro), com seus jogos de luzes & cores, com os contrastes cromáticos, e o claro-escuro, o belo-feio, tudo junto, amalgamado, e não em tons surrealistas. não há surrealismo nenhum aqui (mesmo tratando-se de um total devaneio). 
 
segue caetano, dizendo que ouve vozes, dizendo que os dois (o velho & a menina) lhe dizem, num duplo som, como que sampleados num sinclavier, as seguintes sentenças: 
 
— é chegada a hora da reeducação do cristianismo & suas religiões, para que estes arrebanhem ainda mais cordeiros para os seus rebanhos (!);
— o certo é louco tomar eletrochoque (!);
— o certo é saber que o certo é certo, ou seja: engolir sem questionar (!); 
— o macho (o homem heterossexual, de cunho procriativo) adulto, branco, sempre no comando, mandando & desmandando conforme seus desejos (!);
— e para o resto, que é a escória, para o resto, que são os que não interessam, o resto (!);
— reconhecer o valor necessário do ato hipócrita, isto é, reconhecer o valor indispensável do ato falso, do ato mentiroso, do ato enganador (!);
— riscar os índios (!), nada esperar dos pretos (!);
 
frente a todos os horrores proferidos pelo velho & pela menina, afirma caetano seguir ainda mais sozinho, caminhando contra o vento, nadando contra a maré, e entender o centro, o núcleo, a idéia principal, do que dizem aquele cara (o velho) e aquela (a menina):
 
o que disseram é um desmascaro. o que disseram é um singelo grito:
 
“o rei está nu!”
 
o que disseram, aquele cara & aquela, desmascara um brasil que existe por trás da terra boa & gostosa, terra da morena sestrosa. por trás do “meu brasil-brasileiro”, do brasil bom & gostoso, existem setores da sociedade brasileira que pensam exatamente o que está no “desmascaro”, o que está no “singelo grito”, do velho & da menina (que, para mim, representam vozes saídas de dentro do brasil: o velho, a figura de um brasil antigo, arcaico, preso a conservadorismos; a menina ainda adolescente & muito linda, a figura de um país do futuro, um país que tem tudo para tornar-se uma grande potência). 
 
setores da sociedade brasileira que pensam assim, mas que não têm a coragem de confessar: instituições religiosas cristãs, racistas, sexistas, homofóbicos, corruptos, organizações tradicionalistas.
 
o rei está nu, o rei foi desmascarado.
 
e o rei, nu, é mais bonito; ante sua nudez, tudo se cala.
 
aqui, a compreensão de que, acima de tudo, a lucidez para os reconhecimentos: o rei não é somente belo como também não é somente banguela. o rei é, ao mesmo tempo, belo & banguela; o rei abriga, em si, os adjetivos antagônicos, o rei abriga lindezas & feiúras.
 
brasil: terra boa & gostosa, da morena sestrosa, porém, terra também de corruptos, de homofóbicos, conservadores & sexistas.
 
o reconhecimento mais abrangente da figura do rei torna-o mais bonito.
 
é melhor que assim seja: ser o lobo do lobo do homem.
 
(eu também sinto dessa forma. não me vejo amando menos o brasil porque reconheço as suas mazelas. não. reconhecê-las, e amando-o, me estimula a extirpá-las.)
 
e avança caetano em seu caminho, amando o azul, o púrpura e o amarelo, amando cores celestiais, e entre o seu ir, isto é, entre a sua jornada, entre o seu caminhar, e o caminho do sol, há um aro, há um elo que os une.
 
apostar na luz, no brilho, apostar no elo, no aro que se configura com o astro-rei, luminoso, caloroso: o sol. afinal, gente é para brilhar, não é para morrer de fome.
 
pronto, chicão! publicação todinha sua (rs). (e para quem mais a desejar.)
 
sigamos lúcidos & amorosos!
 
beijo nos senhores!
um outro, especialíssimo, em você, francisco ferraz!
 
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Letra Só. autor: Caetano Veloso. organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
O ESTRANGEIRO
 
O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou
                                [a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela
E eu, menos a conhecera, mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará um raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo
                                                              [e o Amaro 
Eu não sonhei:
A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia
                                              [branca e óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açúcar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos
                                                  [nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(Pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa da luz nos brancos dente e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num Sinclavier:
“É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos”
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
“O rei está nu”
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
                                               [o rei é mais bonito nu
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
(“Some may like a soft brazilian singer
But I’ve given up all attempts at perfection”)