CLARICE ENTREVISTA SCLIAR
26 de julho de 2010

(trecho da orelha do livro: Clarice Lispector – Entrevistas.)
 
 
Mais do que uma simples especialidade jornalística, a entrevista é uma verdadeira arte, uma disputa amigável feita de muitas arremetidas e outros tantos recuos, sempre arriscando descambar para a contenda aberta quando o entrevistado sente-se pressionado.
 
O tipo de entrevista realizada por Clarice Lispector, no entanto, não era contaminado por qualquer rasgo de agressividade ou de armadilhas para o entrevistado, sendo, antes, uma agradável conversa, um bate-papo envolvente entre personalidades criativas que se admiravam e se respeitavam. O resultado, com valor de uma verdadeira peça literária, era altamente esclarecedor. Não é de se admirar, pois Clarice não era uma entrevistadora comum, não só em virtude de seu caráter peculiar e distintivo como pelo fato de ela já ser uma escritora consagrada quando iniciou a atividade de entrevistadora. Assim sendo, não seria possível para ela adotar uma pretensa neutralidade jornalística. Sobretudo porque, com freqüência, no entusiasmo da conversa, Clarice acabava emitindo opiniões pessoais e, desta forma, revelando a própria alma ao mesmo tempo que revelava a de seu entrevistado.
 
(…)
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abaixo,
 
mais uma deliciosa e envolvente entrevista, feita pela exuberante clarice lispector, com um dos maiores artistas brasileiros, o pintor & gravurista, além de intelectual, carlos scliar.
 
o que me encanta nesta entrevista é a grande inteligência e o grande conhecimento de scliar. fica claro que o artista é um homem de olhar interessado nas artes, sobretudo de um olhar interessado nas coisas que o cercam.
 
deliciem-se com tamanhas sabedoria & sensibilidade!
 
beijo bom em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Clarice Lispector – Entrevistas. perguntas & comentários: Clarice Lispector. organização: Claire Williams. editora: Rocco.)
 
 
CARLOS SCLIAR
 
 
“Gostaria que meus quadros incutissem
esperança e força a todos.”
 
 
Há muito tempo eu não via Scliar — acho que desde o tempo áureo da revista Senhor — de modo que os primeiros momentos de nosso encontro foram gastos em efusões mútuas de amizade. Eu simplesmente gosto de Scliar. Isso é tão simples. E independente da grande admiração que tenho por ele. Bem, mas havia uma entrevista para fazer, ficamos mais sérios e comecei.
 
Conheço Scliar há muito tempo. Alguém nos apresentou e ficamos amigos. Amigos sinceros, simples e honestos. Entrevistá-lo é fácil porque ele tem palavras claras e um raciocínio rápido. Nenhum pintor é obrigado a ser inteligente. Mas Scliar é e muito.
 
Eu lhe disse: “acho que você está sempre buscando novas formas e novas tintas. Estou certa ou estou errada?”
 
— Sei que estou tentando cada dia compreender melhor o que me cerca. Por isso, na medida em que me aproximo dessa compreensão, talvez tenha que formular diferentemente as coisas. Eu não sei se estou procurando formas novas. Penso que um artista fala sempre na primeira pessoa.
 
(É como primeira pessoa que ele vê o mundo.)
 
 
— Qual é a sua fase atual?
 
— Nunca sei em que fase estou. Sei somente, mais ou menos, aquelas por que passei.
 
(Com isso ele quer dizer que é um intuitivo e não racionaliza as coisas.) 
 
— Quais são os seus pintores preferidos?
 
— Di Cavalcanti, Portinari, Segall, Tarsila, Bonadei e tantos outros de várias gerações que, com seu talento e teimosia, contribuíram para a criação de uma arte brasileira.
 
— O que me diz da falsificação de quadros que anda por aí?
 
— Vem do processo natural das coisas que nos cercam. Quando uma atividade se inicia, se dá lucro honestamente, é claro, vem, sem tardar, uma atividade paralela, em que vale tudo.
 
— Como é que você inventou um ocre tão extraordinário?
 
— Não, eu não inventei nenhuma cor. Os ocres que emprego são todos encontrados nas regiões que cercam Ouro Preto e Itabirito, em Minas. Mas, como uso as cores, Clarice, depende de cada momento.
 
(Suponho que ele se refere à inspiração.)
 
— Você está planejando alguma exposição? 
 
— Tenho, para este ano, uma vasta programação, na qual já estou mergulhado, pintando. Em junho, devo ter uma pequena retrospectiva, cerca de 50 peças, de 1940 a 1977, do meu acervo particular, mostradas no Museu de Arte Moderna da Bahia, organizada pela Fundação Cultural em Salvador. Junto será mostrado também, no mesmo local, meu painel Ouro Preto 360 graus, que pertence a um amigo meu de Brasília. Tenho exposições previstas para Porto Alegre (agosto), Rio (setembro) e Recife (outubro).
 
— Eu soube que você fez doação de quadros seus. É verdade? Para quem?
 
— Venho fazendo doações de quadros não meus, necessariamente, mas de pintores amigos, que respeito, para museus brasileiros. A última doação foi para o Museu de Arte de Resende.
 
— Eu não ligo para a má crítica a meus livros. Pouco importa. E você, Scliar?
 
— Penso que alguém como eu e você teima em realizar seu trabalho nas circunstâncias em que intelectuais e artistas são marginalizados. A gente acaba sobrevivendo, pois a crítica a que você se refere é parte desse processo que tempera quem tem algo a dizer.  
 
— Scliar, desde quando você pinta?
 
— Há o que eu me lembro e há o que me contam. Com dez anos de idade, colaborava na imprensa do Rio Grande do Sul, na página infantil, escrevendo contos e poemas, inventando lendas e, pouco depois, ilustrando esses mesmos trabalhos. Eu nem me dei conta da passagem da ilustração para uma preocupação com os problemas da pintura. Aliás, preocupação de tal ordem, que repeti dois anos de ginásio por não lhe dar a devida importância. Já nessa época, em 1935, eu participava de uma primeira exposição  coletiva em Porto Alegre e depois organizava com amigos pintores a Associação de Artes Plásticas Francisco Lisboa (Aleijadinho). Não demos o nome de Aleijadinho com medo que nos chamassem de os aleijadinhos… Contam que comecei a pintar e a desenhar aos quatro ou cinco anos de idade, quando, desejando aprender a tocar piano, e a família achando que eu primeiro devia aprender a ler e a escrever, vinguei-me riscando todas as paredes internas e externas da casa. Nunca mais parei de fazer isso…
 
— Quer dizer que você poderia ter sido um grande escritor ou um grande concertista, pois grande você seria de qualquer modo. Se você não se encontrasse com a pintura, que faria?
 
— Cinema.
 
— Que tipo?
 
— Aliás cinema eu já fiz. Desde que me conheço fui um fascinado por cinema e devo em parte a meu pai, um homem sequioso de conhecimento e arte que, muito garoto, me levava para assistir a filmes do cinema expressionista alemão da década de vinte a trinta, filmes que produziram tremendo impacto na minha sensibilidade. Anos mais tarde, em São Paulo, meu contato com Paulo Emílio Sales Gomes e pouco depois em Paris também com ele, na Cinemateca Francesa, eu redescobri fantásticas emoções já vividas quando garoto, revendo filmes que guardava perfeitos na memória. Em 1943, no Rio, em contato com Rui Santos, então jovem cinegrafista que trabalhava para “atualidades” e sonhava em realizar filmes de sua autoria, eu me vi convidado para fazer um filme. Realizei, com ajuda de Rui Santos na câmara, um documentário chamado Escadas, sobre o ambiente em que viviam os pintores, meus amigos, Maria Helena Vieira da Silva, e Arpad Szenes. Pretendi mostrar o ambiente em que eles trabalhavam e provar que mesmo as aparentes abstrações ou aparentes dificuldades de leitura em seus quadros nasciam de uma vivência, de um contato íntegro com o ambiente novo que eles refletiam em termos de pintura na sua obra. Como estás vendo, era um filme pretensioso. Resultou num filme bonito como fotografia, misterioso como linguagem e, o fato de ter sido vaiado em muitas sessões, segundo me contaram, me conveceu na ocasião de que…
 
— … tinha feito obra de arte?
 
— Exato. As circunstâncias ajudam a que mantenha este ponto de vista, uma vez que não existe mais uma cópia para provar o contrário…
 
(Nós dois rimos.)
 
— Em 1948, em minha estada em Paris, me convenci de que a pretensão de repetir Leonardo da Vinci era exorbitante e, estando convencido de que talento e pretensão não eram suficientes, decidi me concentrar na pintura, que já o trabalho não seria pouco nesta vida.  
 
Neste momento fomos interrompidos pela chegada da fotógrafa. E depois ele trouxe os quadros para a sala. E, se fosse questão de jurar, eu juraria que Scliar está numa fase nova maravilhosa. Scliar está subindo cada vez mais e experimentando sempre. Mas continua a fazer retratos. Inclusive acha que fazer retratos é uma grande disciplina.
 
Scliar me diz que gostaria de falar sobre a sua responsabilidade.
 
— Acho que quando uma pessoa estrutura sua profissão assume uma responsabilidade para consigo mesma e para com os outros. Creio que você já deve ter percebido que sou um otimista, porque creio nos destinos da humanidade. Isso pode te parecer vago, mas me considero um homem rico de tudo o que os outros construíram para mim. Minha responsabilidade começa no instante em que me dou conta disso e desejo retribuir. Por pouco que eu faça, se conseguir estimular idéias e sentimentos e outras coisas que não sei, alguma coisa estarei construindo.
 
Ficamos algum tempo em silêncio.
 
— Clarice, acho que alguma coisa eu aprendi na Europa, depois de uma primeira viagem como soldado da FEB, quando descobri que a vida é uma coisa fantástica que deve ser vivida todos os instantes: houve então uma primeira modificação substancial em mim e em minha pintura. Até então eu mostrara em meus quadros a minha comoção diante da miséria, o meu protesto contra uma sociedade que criava isso. Na volta da Itália, me vi redescobrindo a beleza de um objeto, a beleza de uma flor, a beleza de um movimento, me vi em idílio com o mundo, com uma saúde que, por mais conspurcada pela sociedade, explodia apesar de tudo com uma força de sol.
 
(Está bem, Scliar, isso me explica em parte como, apesar de nossa forma social, conseguimos dormir de noite.)
 
— Eu não creio, continuou ele, que essa posição faça de minha pintura uma arte alegre. Mas não é uma arte negativa também.
 
Falamos de Djanira. E Scliar disse:
 
— Ela é uma força da natureza. Por isso não há doença que possa abatê-la.
 
(Amém.)
 
Contei que entrevistara Fayga Ostrower, Djanira e ele. Scliar comentou:
 
— São três artistas de formação diversa.
 
Silêncio.
 
— Para mim, que fui um pintor teimoso, mas que não vivia profissionalmente do meu trabalho, vivo, nestes últimos anos, em que encontrei um público interessado, que acompanha tudo o que faço, vivo pois surpreendido até hoje e, muitas vezes, acordando sem compreender exatamente o que está acontecendo. Acho que a comunicação é fundamental e sou um homem que gosta de gente, que tem confiança nos homens que trabalham e produzem tudo aquilo que nos rodeia. O que eu desejaria [Clarice] era conseguir que meus quadros fossem uma espécie de esperanto e incutissem esperança e força a todos.
 
Silêncio.
 
— Todas as coisas que lhe disse não impedem que eu seja um homem isolado. Mas acho que isso é próprio da condição de quem produz uma obra de arte. Penso também que essa mesma obra se multiplica, se amplia e se transforma em algo que eu não podia prever nos olhos dos que me vêem.
 
— Scliar, qual é a coisa mais importante do mundo?
 
— O homem.
 
— Qual é a coisa mais importante para uma pessoa, como indivíduo?
 
— O ser respeitado como homem e o saber respeitar os outros. 
 
— O que é o amor?
 
— É estar integrado nas coisas que me estimulam por todos os poros.
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OBSESSÃO
12 de junho de 2010

obsessão:
 
compulsão mania atração fixação motivação.
 
obsessão:
 
a doença no homem.
 
no artista, a saúde.
 
(os temas & assuntos & acontecimentos nas peças de nelson rodrigues, os temas & assuntos & situações nos filmes de woody allen & pedro almodóvar, os traços de picasso, os paradoxos em pessoa, a secura & exatidão nos versos de cabral, a porra-louquice lúcida de waly, o suingue nas músicas de benjor, o esmero nos efeitos poéticos das letras de chico buarque, a precisão das notas na voz & no violão de joão gilberto:
 
a tudo isso: obsessão.)
 
ali a ilha nesse mar tão desmedido, ali a luz no escuro inexpressivo: obsessão diária, renitente, recorrente (minha).
 
 
(a obsessão dos poetas: por mais viciantes o cigarro, o sexo, o álcool, viciam, ainda mais: as palavras.)
 
 
beijo bom & carinhoso em vocês,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Belvedere [1971-2007]. autor: Chacal. editora: 7Letras / Cosac Nairfy.)
 
 
OBSESSÃO
 
ali a linha
que atravessa
o labirinto
ali o fio
da meada
interminável
 
obsessão
 
(toda peça
— adultérios, incestos, tabus —
a mesma peça
em nelson
todo poema a mesma pancada
em cabral
toda canção a mesma levada
em benjor)
 
obsessão
 
o cara só pensa nisso
a mina não entra em outra
 
obsessão
 
ali a ilha
nesse mar
tão desmedido
ali a luz
no escuro
inexpressivo
 
obsessão 

EMBLEMAS
7 de abril de 2010

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.
 
Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).
 
(Eucanaã Ferraz – “Sumário”)
_________________________________
 
benvindos,
 
começo com uma confissão: impressiona-me o poder que o poeta carlito azevedo possui de me paralisar. inúmeras vezes, lendo um poema de sua autoria inédito aos meus olhos, após a leitura e o entendimento, sou obrigado a parar, a fechar a página, tamanho impacto causado (rs).
 
com o seu mais recente livro, “monodrama”, não seria diferente.
 
ao ler o primeiro poema, o que abre o livro, de cara, de frente: o espanto, o susto. fazendo as conexões que me foram possíveis de fazer, percebendo a plasticidade dos versos, o encadeamento da prosa poética, fiquei tão comovido, tão tocado, que estacionei e demorei um bom tempo até passar para o segundo poema (rs).
 
cada vez mais e mais carlito azevedo acentua, na minha singela opinião, uma característica bem sua, um emblema que se mostra como um belo cartão de visitas: o de paisagista (único, singular) dos versos.
 
a sua poesia é de uma plasticidade tamanha, que a minha impressão é de que estou, em verdade, na frente de grandes telas a óleo, de donairosos quadros pintados com suas tintas poéticas.
 
no texto selecionado, as estrofes (ou, se preferirem, os ‘poemas interdependentes’), a princípio, parecem desconexas, parecem que não se comunicam entre elas. mas só a princípio. aos poucos, as partes que integram todo o poema vão juntando-se, fundindo-se, formulando, dessa maneira, uma única trama, um único drama (dentro de todas as nuances que são desfraldadas), isto é, o monodrama.
 
percebam como o poeta vai unindo, cruzando, no drama desenhado:
 
a garota bonita, de fartos seios, estudante, com sua bolsa-sanduíche, que gosta de fotografar manifestações e que provoca a primeira ereção do dia no segurança de um banco, que a vê pelo monitor da sala de segurança (e que sonha em casar com tal garota de seios apóstolos & ter um bebê, sem livrá-la, eventualmente, de umas boas porradas), em manifestação em frente à instituição financeira;
 
o fotógrafo imigrante, que deseja uma foto da sua filha pequena com seu coelho de pelúcia cor de ferrugem;
 
o jovem lírico, leitor de (patrick) modiano, sempre com cigarros, flores e postais, e que, de pronto, se interessa pelo novo inquilino e seus olhos negros; 
 
o “narra-drama”, que se envolve com a garota bonita, de seios volumosos (e que, às vezes, me parece ser o inquilino do jovem lírico. isso não ficou muito claro para mim);
 
tudo isso (& muito mais) costurado por deslocamentos temporais que dão ao poema a direção (nítida) dos fatos delineados.
 
(percebe-se que ora o poema descreve uma paisagem situada ao sul da rússia, próxima às montanhas caucasianas. aliás, há muitas referências — emblemáticas — a esse país, atentem.) 
 
montar este “quebra-cabeça”, este monodrama — lírico, lindíssimo — pode levar um tempo, todavia, vale a tentativa.
 
ele está aqui, à apreciação de todos.
 
aproveitem o exercício poético!
 
beijo grande em todos!
 
(um especial em carlito, por este presente em versos.)
 
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________________
 
(do livro: Monodrama. autor: Carlito Azevedo. editora: 7Letras.)
 
 
EMBLEMAS
 
 
Um imigrante
bate fotos trepado
no toldo de
um quiosque
a multidão grita
em frente ao Banco
aparece um malabar
aparece um pastor
imagens da pura
desconexão
aparecem as montanhas
lilases do Cáucaso
mas na foto buscada só
aparece a imagem
da menina
com seu coelho
de pelúcia
sua dobra
cor de ferrugem
contra a luminosidade
 
Os rostos 
se sucedem
nos monitores 
dentro da
sala de segurança
do Banco
como projeção
de slides
 
todos ali riem
quando veem
um falso
Vladimir Ilitch
bêbado
se engraçando
com a jovem
olhos de guepardo
leitora de Rilke
seios grandes
 
Entre tantos
manifestantes
é ela quem arranca
a primeira
ereção do dia
do segurança
de óculos espelhados:
 
uma pequena
vibração
em um dia cheio
de vibrações
 
Uns olhos negros
que vi na Turquia
reaparecem
no rosto
do novo inquilino
para água quente
basta girar este
disco de cores até
o rubro
o incandescente
 
Ela diz na carta:
não era russa era alemã
e não era cientologia
era tibetologia
mas foi sim do russo
que ela traduziu
a tabuleta em frente
ao prédio:
“Os preceitos de Lênin
são verdadeiros”
 
Agora o empresário
agora o demitido
agora
o secretário-geral
agora
o guarda-florestal
explicando
o cogumelo
vermelho com pintas brancas
a casa de J. M. Simmel
mas um dos monitores
transmite continuamente
a imagem parada
de um deserto
 
A economia já previa
o desabar da chuva
no interstício de algum
cálculo diferencial?
pensa o jovem lírico
em frente à janela 
 
Agora ele está lá
sentado sobre
a máquina de lavar
do subsolo
mastigando pasteizinhos
e lendo De Lillo,
digo, lendo Modiano
ele tem sempre
cigarros ou flores
e envia todo o tempo
cartões-postais
 
“gostei de imediato
do novo inquilino
do seu jeito de
segurar a caneta”
 
No saguão do banco
as paredes estão
cobertas de tapeçarias
representando
bardos célebres
da Ásia central
 
Suba na minha asa esquerda
e eu lhe mostrarei
(vamos voar!)
os mais ocultos recantos
dessa potência comercial
 
Ela tem um sanduíche
e uma bolsa-sanduíche
gosta de fotografar
as manifs
os meetings
me fala de uma
portuguesa
que conheceu
no 1º de maio
e que depois
se deitaram na grama
cheia de esquilos velozes
a vida também era só
velocidade e esquilos
sob os feixes luminosos
do 1º de maio
 
Uma descoberta sexual:
aqui ninguém trepa
depois das manifestações
 
A gente podia
conversar mais vezes
não amigos certamente
mas tampouco inimigos
adorei aquela tarde
no hotel do Cosme Velho
o ponto mágico
do morro na janela
 
“O lírio gravado no
ombro de Milady
permitiu a D’Artagnan
reconhecer nela
uma envenenadora
já punida no passado
pelos seus crimes”
 
Como a irmãzinha
caçula de um conto russo
você saltava da cama
com um cobertor
sobre os ombros
e rosnava imitando
um pinsher
para o ondular das cortinas
na penumbra fluo
do quarto de hotel:
 
Nitidez é um caso dessa luz
seu perigo e
seu desmoronar
 
Sem desgrudar os olhos
do monitor o segurança
pensa que aquela ali
bem merecia
umas porradas
o lírico pensa
é só amor querendo nascer
por vias tortas
se ela o visse
já sonharia com o bebê
que os dois empurrariam
num carrinho pela orla
se ele pudesse
imaginar
como seriam felizes
morando num
prédio de tijolinhos
 
O que não excluiria
as porradas
esporádicas
 
Mas agora quem
tirava fotos no quiosque
toma uma cerveja
no bar em frente
ao quiosque
a menina com o coelho
toma um achocolatado
pelo canudinho
e gira até ficar
completamente
enviesada
na cadeira para ver
a areia da praia
 
Uma menina imigrante
pondo os pés na areia
da praia pode
ser um grande passo
 
Um imigrante tomando
uma cerveja sentado
no meio-fio pode ser
um grande passo
 
Nós os vemos
(você segurando firme
em minha asa)
eles não nos veem
 
Adorei aquela tarde
no Hotel da Lapa
eu nunca imaginei
que você tivesse
seios tão apóstolos
seu coração está aí atrás?
 
Um falso ator
no quarto ao lado
decorava a peça russa
tentava dizer ao outro
com as pontas dos dedos
o que é a fidelidade
do homem que
ele ama
 
Ninguém se chama Soviete
— Alguém se chama Soviete
— Um soviete é um mamífero
— Todo soviete é mortal
 
Qual a palavra
que escrevemos
no vidro do Banco
com as pontas dos dedos
sobre a poeira branca
das bombas
e da espuma
no vidro do Banco?
 
Uma ordem macabra chega
pelos fones de ouvido
do segurança
o lírico pensa
o amor não pode morrer
o amor está seriamente
ameaçado
enquanto admira
uma admirável irrupção
de herpes no espelho
(admirável mundo novo)
ele imagina que alguém
precisa fazer alguma
coisa o amor está querendo
respirar dentro da câmara
de oxigênio do saguão
sem oxigênio algum
para respirar
o segurança chega
ao saguão
e vê agora
por trás
das portas de vidro
e à frente
das lentes espelhadas
um grupo de
manifestantes
 
As balas
são de borracha
o amor
está salvo
 
Nem portuguesas
amantes de esquilos
trepam
depois das manifs
e meetings
ele diz desolé
 
Subimos e subimos
e subimos
mas no alto da escadaria
não havia Templo do Sol
só um falso Cardenal
vendendo sortilégios,
digo, souvenirs
 
Então descemos
e descemos e descemos
paramos no quiosque
para uma Coca-cola
e perguntamos
ao imigrante
que batia fotos
qual o nome de sua filha
com o coelho
ferrugem-dobra
de pelúcia
Ela?
 
Ela se chama Soviete
 
Bônus track:
 
Sua pele 
no hotel do
Cosme Velho
olhada
até à
incandescência
 
(Seu coração está aí, atrás
dos ossos?)

AVISO AOS NAVEGANTES – EXPOSIÇÃO CHICO LOBO
3 de fevereiro de 2010

senhores,
 
o artista plástico chico lobo, meu queridíssimo, grande parceiro, companheiro, homem com quem muito cresci & cresço, enfim, o meu amado amor (rs), estréia sua exposição de pinturas em tecido — estamparias para camisetas & panôs — nesta sexta-feira, dia 5 de fevereiro, a partir das 20h, no cine santa — situado à rua almirante alexandrino, exatamente no largo dos guimarães, no bairro de santa teresa —, que abriga um ótimo espaço externo, apropriado para esse tipo de evento.
 
o que mais impressiona as pessoas que conhecem o seu trabalho é o jogo pictório que o artista propõe em suas belas abstrações. chico lobo capta para as suas telas uma harmonia cromática de maneira inopinada, utilizando-se de cores as mais diversas, quentes & frias, arriscando-se a cada pincelada com as formas criadas, e obtendo resultados donairosos, ímpares. a grande característica da sua obra, o grande elo entre as suas produções, ao meu ver, é o máximo garbo. chico lobo, acima de tudo, é um artista de elegâncias. tanto as suas camisetas quanto os seus panôs são frutos dessa sua sabedoria pictória.
 
eu, que sou meio enjoado com roupa (rs), meio chato, que não sou um “topa-tudo”, sou fã de carteirinha. tenho a minha coleção chico lobo (rs). um dia desses, olhando o meu guarda-roupa, acho que contabilizei umas 13, 15 camisetas (rs). fico sempre deslumbrado com as suas criações, tanto para estampas de roupas como para os panôs.
 
quem não puder comparecer ao evento, não se preocupe. a exposição ocupará o espaço do cine santa todo o mês de fevereiro
 
aos amigos, fica o pedido: divulguem & compareçam!
 
aos desconhecidos, fica o convite: apareçam!
 
abaixo, fotos de alguns dos trabalhos realizados em panôs. para uma visualização maior é só clicar nas figuras.
 
beijo em todos,
paulo sabino/ paulinho.