INDÍCIO: O PARADEIRO DO POETA
9 de dezembro de 2014

Coração_Árvore_Tronco

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na noite acesa de um luar certeiro, de um luar altaneiro, o paradeiro do poeta foi a velha mesa de onde foi presa, de onde foi a caça, quando aventureiro do primeiro amor que lhe deu tristeza.

de uma beleza de não ter parceiro, de uma beleza sem par, beleza ímpar, única, o candeeiro branco da princesa (candeeiro: no brasil colonial, chapéu de três pontas, também chamado tricórnio) causou surpresa, espanto, pasmo, ao poeta violeiro, que se deu inteiramente à boniteza da princesa & seu candeeiro branco.

sendo, o poeta, cavaleiro de sua princesa, alteza do seu reino amoroso, o poeta pôs, no tinteiro, a pena com firmeza, e, com presteza, foi o mensageiro de sua alteza, que é o seu amor.

findo, com delicadeza, o roteiro em versos, o poeta deixa, na velha mesa (de onde foi a presa, de onde foi a caça), um verso brasileiro que, no fim das contas, resulta em homenagem ao cancioneiro & à língua portuguesa.

pois, ainda que o poeta desejasse secreta a sua paixão por sua alteza, paixão nenhuma nunca foi secreta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais oculta que ela tenha estado, nasce uma luz quando a paixão se projeta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: no tronco velho da árvore, um coração cavado; dentro dele, a ponta de uma seta. um simples nome escrito ali, dentro ou próximo ao coração, completa o antigo indício de um apaixonado.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais que a alma queira ser discreta, o coração quer ser desmascarado: a luz da paixão, do amor, confunde o peito iluminado, iluminado pela luz de um candeeiro, pela luz de um lampião, que vai dentro.

o amor não deixa vida alguma quieta, sossegada: há sempre um arroubo, um desvario, um disparate, a ser cometido.

para o amor não há muitas escolhas: ou morre dele quem ficar calado, abafando-o, sufocando-o, reprimindo-o, ou vive dele quem virar poeta, confessando-o, declarando-o, louvando-o, em versos.

(paulo sabino escolheu viver dele.)

beijo todos!
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(do livro: Sonetos sentimentais pra violão e orquestra. autor: Paulo César Pinheiro. editora: 7Letras.)

 

 

PARADEIRO

 

Na noite acesa
De um luar certeiro
Meu paradeiro
Foi a velha mesa
De onde fui presa
Quando aventureiro
Do amor primeiro
Que me deu tristeza.

De uma beleza
De não ter parceiro
O candeeiro
Branco da Princesa
Causou surpresa
A esse violeiro
Que deu-se inteiro
À sua boniteza.

De Sua Alteza
Sendo cavaleiro
Pus no tinteiro
A pena com firmeza
E com presteza
Fui seu mensageiro.

Findo o roteiro
E com delicadeza
Deixo na mesa
Um verso brasileiro
Ao Cancioneiro
E à Língua Portuguesa.

 

 

INDÍCIO

 

No tronco velho um coração cavado
E dentro dele a ponta de uma seta.
Um simples nome escrito ali completa
O antigo indício de um apaixonado.

Paixão nenhuma nunca foi secreta.
Tem sempre um rastro que vai ser achado.
Por mais oculta que ela tenha estado
Nasce uma luz quando ela se projeta.

A luz confunde o peito iluminado.
Por mais que a alma queira ser discreta
O coração quer ser desmascarado.

O amor não deixa vida alguma quieta.
Ou morre dele quem ficar calado
Ou vive dele quem virar poeta.

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À VIDA SEM SENTIDO: POESIA
4 de novembro de 2014

Atins_Lençóis Maranhenses

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se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada palavra que o infinito, que é a existência, guarda, de cada palavra que é lançada no mundo, se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada cabeça, de cada cuca pensante, que não passa de uma cabeça de fósforo, pequena, de luminosidade fugaz, incapaz de compreender a existência no seu todo, se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada estrela mirada da janela do apartamento ou de um foguete (caso embarque em viagem espacial), a vida se foi, a vida passou, e o sentido não veio, o sentido não chegou.

porque a nossa cabeça, de fósforo, é deveras pequena & de luminosidade efêmera para abrigar entendimento tão imenso que é o da existência.

indo inda mais fundo: e será que há algum entendimento a ser buscado, a ser revelado? será que há alguma coisa a ser compreendida?

o mundo, que, segundo a ciência, nasceu da explosão de uma estrela numa sucessão de acasos, de erros (por isso a vida é errância), de mutações aleatórias, passados bilhões & bilhões de anos chegou onde chegou — até aqui.

será que ao mundo cabe entendimento, compreensão?…

o mundo não está aí para ser entendido, o mundo está aí para ser vivido.

o mundo não está aí para virar poesia, o mundo está aí para ser vivido — embora as coisas, no mundo, pareçam estar em estado de poesia.

o mundo não está aí para virar poesia, embora a árvore, com suas forma & cor & beleza plástica, sempre parada, aguarde em silêncio, apta a ser fotografada. o mundo não está aí para virar poesia, embora o gato preto de patinhas brancas ande sempre com seu melhor traje (o traje: a sua pelagem feita sob medida, como se um black tie). o mundo não está aí para virar poesia, embora os pássaros, em vôo sincronizado no céu, denunciem, pela perfeição dos movimentos, que ensaiaram durante horas (um ensaio sem pretensões de estréia).

o mundo não está aí para virar poesia, mas o vento orquestra uma sinfonia muda (com os sons que suscita a sua passagem), os panos — à passagem do vento — dançam pendurados nas janelas, as formigas — fingindo trabalhar — desfilam, com suas folhas verdes, alegorias de mão, e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo & descascam voluntariamente (sem esforço contrário), em permanente exposição (como se num museu ou centro cultural), expostas às artes & artimanhas do tempo em sua casca.

o mundo não está aí para virar poesia, o mundo está aí para ser vivido — embora as coisas, no mundo, pareçam estar em estado de poesia.

a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, à vida sem motivo & sentido:

poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metal. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Artes e Ofícios.)

 

 

se passar a vida
como um detetive
procurando o sentido
de cada palavra
que guarda
o infinito
de cada cabeça
que não passa
de uma cabeça
de fósforo
de cada estrela
mirada da janela
do apartamento
ou de um foguete
a vida se foi
e o sentido não veio

 

 

o mundo não está aí pra virar poesia
embora a árvore parada aguarde em silêncio
pronta pra ser fotografada
o gato de preto e punhos bancos
ande sempre com seu melhor traje
e os pássaros em vôo sincronizado
denunciem pela perfeição dos movimentos
que ensaiaram durante horas

o vento orquestra uma sinfonia muda
os panos de chão dançam pendurados nas janelas
as formigas
fingindo trabalhar
desfilam com suas folhas verdes
alegorias de mão
e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo
descascam voluntariamente
em permanente exposição

SEJA ONDE FOR, PROPOR A CONTRADANÇA
8 de outubro de 2014

Adoração ao Bezerro de Ouro_Andrea di Lione (1596–1675)

(Na foto, a pintura “Adoração ao bezerro de ouro”, óleo sobre tela do século XVII, do pintor italiano Andrea di Lione.)

Tília

(Na foto, a árvore de nome tília, natural da Europa & da Ásia, logo, nativa do hemisfério norte.)

Carvalho

(Na foto, um carvalho, árvore imponente, de madeira nobre, que pode chegar aos 45 metros de altura, nativa da Europa & do Mediterrâneo.)
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a única certeza desta vida: a de que, um dia, a morte nos alcançará.

portanto, por ser a morte a única certeza desta vida, é próprio da natureza humana pensar a sua finitude:

onde será que eu, o forasteiro (forasteiro porque não pertenço a este pedaço de terra, já que um dia parto de vez daqui), irei saudar a morte? onde será que o forasteiro cansado (cansado depois de tantas & tantas & tantas andanças mundo afora, que assim seja!) irá congratular a morte?

será que o forasteiro cansado irá saudar a morte entre as tílias, lá no (hemisfério) norte? ou aqui no (hemisfério) sul, sob os coqueiros?

vão me enterrar desconhecidos em cova rasa num deserto? ou vagarei em mar aberto até bater nos arrecifes?

que seja numa ou noutra paisagem! isso, no fundo, não pode nem deve interessar! aqui ou acolá, quando a morte me alcançar, há de envolver-me por inteiro a noite escura, noite de onde nunca mais despertarei, e um véu azul de estrelas será a minha mortalha, será o véu que envolverá o meu corpo sepultado.

o que pode & deve importar é o tempo de vida, tempo em que sou paulo sabino.

e, enquanto vida eu tiver, não entro nessa dança, não incenso os ídolos de ouro & pés de barro (“ídolos de ouro & pés de barro”: expressão utilizada para designar pessoas aparentemente fortes, mas apoiadas em estrutura & formação frágeis, inconsistentes, estrutura & formação que podem ruir a qualquer momento de tão frágeis, tão inconsistentes).

enquanto vida eu tiver, não entro nessa dança, não incenso, não louvo, não idolatro, não glorifico, ídolos de ouro & pés de barro, ídolos de estrutura & formação frágeis, nem ídolos falsos, como o bezerro de ouro, retratado na tela do pintor italiano andrea di lione, episódio bíblico (velho testamento) em que os hebreus, quando da saída do egito em busca da terra prometida, exigiram a construção de um deus qualquer, deus, por conseguinte, falso, ilegítimo, enganoso, que pudesse guiá-los, que pudesse direcioná-los, que pudesse orientá-los, e o bezerro de ouro foi arquitetado para tal objetivo.

não incenso, não louvo, não idolatro, não glorifico, ídolos de ouro & pés de barro; tampouco aperto mão de masmarro, de espertalhão, de malandro, de salafrário, tampouco aperto mão de quem difama, de quem cria calúnias, de quem distribui dissenso, de quem distribui conflito, de quem distribui desavença.

não acompanho as multidões medonhas que adoram seus heróis de meia-figa, heróis ordinários, sem grande valor.

sim, eu sei: carvalhos, que são árvores imponentes, ornamentais, de madeira nobre (forte & resistente), árvores que podem chegar aos 45 metros de altura, os carvalhos têm que desabar, enquanto o junco, designação comum para ervas rasteiras encontradas em locais úmidos ou pantanosos, o junco espera, abaixando-se, curvado, passar o vento forte da intempérie, o vento forte do mau tempo.

mas do que pode um junco se orgulhar, sempre abaixando-se, sempre curvando-se, sempre sujeitando-se às vontades do vento forte, nunca enfrentando o mau tempo de pé, nunca resistindo a ele bravamente, como é comum aos carvalhos, árvores imponentes, de grande rijeza, de imensa resistência, de extraordinária solidez?

do que pode um junco se orgulhar? de tirar poeira de capacho ao sol, de tirar o pó do tapete da porta exposto ao sol? do que pode um junco se orgulhar? de curvar-se para a linha de um anzol, quando esta roça a sua superfície?

o junco nunca correrá o risco de desabar ante o vento forte da intempérie porque o junco é rasteiro, porque o junco se ergue pouco acima do solo, porque o junco nasceu para o raso, porque o junco é subserviente; diferentemente do carvalho, árvore altiva, nobre, forte, resistente, que cresce alto perante a vida, que agrega uma série de funções & possibilidades.

eu sei: carvalhos têm que desabar. porém, eu prefiro correr o risco da intempérie, o perigo de ser derrubado pelo vento forte, do que viver sempre rasteiro, sempre no raso, sempre submisso, rente ao chão.

não entro nessa dança: seja onde for, proponho & firmo a contradança.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Heine, hein? — Poeta dos contrários. autor: Heinrich Heine. tradução: André Vallias. editora: Perspectiva.)

 

 

[ONDE?]

 

Onde será que o forasteiro
Cansado irá saudar a morte?
Por entre as tílias, lá no norte?
Aqui no sul, sob os coqueiros?

Vão me enterrar desconhecidos
Em cova rasa num deserto?
Ou vagarei em mar aberto
Até bater nos arrecifes?

Que seja! Aqui ou acolá,
Há de envolver-me por inteiro
A noite escura e um véu de estrelas
Azul será minha mortalha.

 

 

NÃO ENTRO NESSA DANÇA, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.

NUVENS
15 de julho de 2014

Nuvens

Nuvens & Cadeia de montanhas

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Céu, tão grande é o céu
E bandos de nuvens que passam ligeiras
Pra onde elas vão, ah, eu não sei, não sei

(Canção: Dindi. Versos: Aloysio de Oliveira. Música: Tom Jobim.)

 

 

eu sempre fui um admirador de muitas coisas da natureza.

o mar é o meu amante maior, é a coisa que mais me fascina, que mais prende a minha atenção.

uma outra coisa que me fascina é árvore, ser carregado de folhas & dramaticidade. suas ramificações & galhos, juntamente com as suas folhas, dispõem-se aos meus olhos como braços & mãos em poses dramáticas, em poses teatrais.

coisa também que me fascina é pedra, sua constituição maciça, inteiriça, inerte, inanimada, silenciosa, parada no tempo, pregada ao chão.

e, por fim, coisa também fascinante, que é o inversamente proporcional às pedras, é nuvem.

pelo motivo inverso ao das pedras (sua constituição maciça, inteiriça, inerte, inanimada, silenciosa, parada no tempo, pregada ao chão), eu adoro olhar nuvens. desde muito novo.

para descrever as nuvens, eu necessitaria ser muito rápido — numa fração de segundo, deixam de ser as que são, tornam-se outras.

é próprio delas não se repetir nunca nas formas, matizes, poses & composição.

sem o peso de nenhuma lembrança, as nuvens flutuam, sem esforço, sobre os fatos mundanos.

elas — as nuvens — lá podem ser testemunhas de alguma coisa?

logo se dispersam para todos os lados.

comparada com as nuvens, passageiras & ligeiras & mutáveis por demais, a vida, que também é passageira & ligeira & mutável por demais, parece muito sólida, parece quase perene, quase ininterrupta, praticamente eterna.

perante as nuvens, até a pedra parece uma irmã em quem se pode confiar, devido à sua constituição maciça, inteiriça, inerte, inanimada, silenciosa, parada no tempo, pregada ao chão.

já elas, as nuvens — são primas distantes & inconstantes.

(é próprio delas não se repetir nunca nas formas, matizes, poses & composição.)

que as pessoas vivam, se quiserem, e, em seqüência, que cada uma, que cada pessoa, morra: as nuvens nada têm a ver com toda essa coisa muito estranha a que chamamos: existência.

sobre a tua vida inteira, caro leitor, e sobre a minha vida, ainda incompleta, elas, as nuvens, passam pomposas, como sempre passaram.

as nuvens não têm obrigação de conosco findar.

as nuvens não precisam ser vistas para navegar.

nuvens: é próprio delas não se repetir nunca nas formas, matizes, poses & composição. sem o peso de nenhuma lembrança, as nuvens flutuam, sem esforço, sobre os fatos mundanos.

pelo motivo inverso ao das pedras (sua constituição maciça, inteiriça, inerte, inanimada, silenciosa, parada no tempo, pregada ao chão), eu adoro olhar nuvens (numa fração de segundo, deixam de ser as que são, tornam-se outras). desde muito novo.

a cabeça nas nuvens, os olhos no céu: a tentativa, em solo, dos mais altos vôos.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Wislawa Szymborska. seleção & tradução: Regina Przybycien. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NUVENS

 

Para descrever as nuvens
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.

É próprio delas
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.

Sem o peso de nenhuma lembrança
flutuam sem esforço sobre os fatos.

Elas lá podem ser testemunhas de alguma coisa —
logo se dispersam para todos os lados.

Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.

Perante as nuvens
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.

Que as pessoas vivam, se quiserem,
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.

Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.

Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

ARVORAR O ARVOREDO
10 de julho de 2014

Árvore vermelha

Amoreira branca

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eu sempre fui um admirador de muitas coisas da natureza.

o mar é o meu amante maior, é a coisa que mais me fascina, que mais prende a minha atenção.

uma outra coisa que me fascina é árvore. desde muito novo.

sempre adorei olhar árvore.

porque eu sempre enxerguei algo de muito dramático, de muito teatral, nas árvores.

árvore: ser que se apresenta sempre de pé, sempre de frente (não existe o lado de trás de uma árvore), com vestimentas as mais variadas (visto a variedade de folhas, suas formas, e de cores que as árvores têm), estacionadas em poses as mais diversificadas (visto a variedade de ramificações & galhos & desdobramentos & retorções que as árvores têm), poses que me parecem, desde muito novo, um grande teatro. suas ramificações & galhos, juntamente com as suas folhas, dispõem-se aos meus olhos como braços & mãos em poses dramáticas, em poses teatrais.

árvore é um ser carregado de folhas & dramaticidade. sua força poética é enorme.

por isso mesmo, quando as coisas estão com cara de paisagem, quando as coisas estão com cara de coisas a serem vistas, tem sempre uma árvore que salta do chão.

no dicionário, “arvorar” quer dizer, entre outras coisas, “erguer à vista de todos”. árvore é uma coisa que pula da terra e se torna visível.

mesmo de longe, uma árvore se impõe.

de perto, nos convida a subir, a procurar um ponto de vista nos seus tantos pontos de vista, dispostos na disposição própria dos seus galhos.

às vezes, apesar de plantada numa calçada, mesmo parada, mesmo sem se mover, uma árvore atravessa meu caminho.

por isso mesmo, se me perguntam “cadê uma coisa?”, eu mostro uma árvore.

tem coisa mais bela a ser mostrada?

de tanto admirar árvores pelo caminho, com o tempo, a gente vai compondo seu próprio arvoredo. eu tenho o meu próprio arvoredo, com as árvores que, mesmo paradas, mesmo sem se mover, atravessaram & atravessam meu caminho, seja no mundo real, seja no mundo imaginário.

o poeta dos poemas a seguir também tem o seu arvoredo. o do poeta, por exemplo, é todo misturado.

no arvoredo do poeta, tem um ingazeiro do lado de uma canela-de-ema. tem, também, um amendoinzeiro, uma árvore que não dá amendoim. e a guariroba, um tipo de palmeira da região do paraguai e do brasil, que não é palmeira. tem mangueiras de vários tipos espalhadas por todo o lado. a mexeriqueira, que é o mesmo que tangerineira, é uma árvore que não se deve subir, pois seus galhos são repletos de espinhos, ao contrário da sete-copas, popularmente conhecida como amendoeira, e também chapéu de sol, árvore alta, com galhos fortes.

ele, o poeta dos poemas a seguir, foi muito amigo de um ficus exoticus (de uma figueira exótica), que, segundo o mesmo, ficava num vaso. e sente muitas saudades, mesmo, de duas amoreiras que deixou numa tarde de sol, alegremente, sem se dar conta de que nunca mais as veria.

nesta jornada que é a vida, espero que muitas árvores, mesmo paradas, mesmo sem se mover, com a força de sua beleza, atravessem, cruzem seus caminhos. que nesta jornada que é a vida, os senhores também componham os seus próprios arvoredos.

lembrem-se: árvore é um ser carregado de folhas & dramaticidade. sua força poética é enorme.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Cadê uma coisa. autor: Marcos Siscar. editora: 7Letras.)

 

 

COISAS DE ÁRVORE

 

Quando as coisas estão com cara de paisagem, tem sempre uma árvore que salta do chão. No dicionário, “arvorar” quer dizer, entre outras coisas, “erguer à vista de todos”. Árvore é uma coisa que pula da terra e se torna visível. Mesmo de longe, uma árvore se impõe. De perto, nos convida a subir, a procurar um ponto de vista. Às vezes, apesar de plantada numa calçada, uma árvore atravessa meu caminho. Por isso, se me perguntam “cadê uma coisa”, eu mostro uma árvore.

 

 

ARVOREDO

 

Com o tempo, a gente vai compondo seu próprio arvoredo. O meu, por exemplo, é todo misturado. Tem um ingazeiro do lado de uma canela-de-ema. Tem, também, um amendoinzeiro, uma árvore que não dá amendoim. E a guariroba, que não é palmeira. Tem mangueiras de vários tipos espalhadas por todo lado. A mexeriqueira é uma árvore em que não se deve subir, ao contrário da sete-copas. O chorão é uma árvore toda sentimental e derramada. O jambo é reservado, mas a siriguela é debochada. Fui muito amigo de um ficus exoticus, que ficava num vaso. Foi difícil me despedir dele, pela fresta da porta, antes de fechá-la pela última vez. Mas eu sinto mesmo saudades é das duas amoreiras que deixei numa tarde de sol, alegremente, sem me dar conta de que nunca mais as veria.