AS OFERTAS: PAIOL DE OURO
29 de outubro de 2015

Paulo Sabino_Ilhas Cagarras_por Ana Alexandrino

(Foto acima: Ana Alexandrino.)

Lídice 1
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No peito, Oxum, Oxalá & Xangô.

No pensamento: agradecer & abraçar: o dom, a vocação, para a palavra.

Oxum rege a minha garganta; Oxum, deusa do elemento do meu signo, deusa do elemento natural que mais me fascina: água.

Oxum rege a minha garganta: sua cor é o ouro, o dourado.

O ouro, o dourado: a cor que, na mitologia, representa o orixá.

Oxum: paiol de ouro.

(Paiol: depósito, armazém, compartimento, onde se guardam materiais específicos & variados — de produtos agrícolas a artefatos bélicos.)

Oxum: paiol de ouro: depósito, armazém, compartimento, onde se guarda o ouro, o dourado: a luz, a claridade, a nobreza, a beleza, a riqueza.

Oxum, paiol de ouro: deusa das águas, sereia, cantora rainha: rege a minha garganta de onde nasce este som (o som da minha escrita, o som da minha voz, doado à poesia).

A Oxum, oferto perfumes & flores por ter me dado este dom — o de destinar à palavra o centro da minha vida.

Agradecer & abraçar todos os amigos que me incentivam a continuar de frente, a postos, em guarda, nesta jornada com a poesia. Os incentivos são, sem dúvida, sopros de ânimo nos momentos de aridez.

As ofertas que me atenho a fazer: amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista. Crer na solidariedade humana. Crer na superação dos erros e angústias do presente. Lutar ao invés de recolher dinheiro fácil. Antes, acreditar do que duvidar.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do álbum: Memória da pele. artista: Maria Bethânia. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

 

 

PAIOL DE OURO

 

Oxum
Deusa das águas
Sereia, cantora rainha
Reges a minha garganta
De onde nasce esse som
Te oferto perfumes e flores
Por teres me dado esse dom
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Memória da pele. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Paiol de ouro. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Ofertas de Aninha (Aos Moços)”, poema de Cora Coralina. Em 28/10/2015.)

 

OFERTAS DE ANINHA  (Cora Coralina)
(AOS MOÇOS)

 

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

 

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VIRGEM
1 de novembro de 2011

Farol da ilha de Porer (Croácia)

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INOCENTES DO LEBLON   (Carlos Drummond de Andrade)

 

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, 
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

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praia de ipanema. posto 9. horário de verão. 19h10.

caminhando na areia, há poucos dias, tendo, às costas, as pedras do arpoador, à frente, os morros dois irmãos & a favela do vidigal, atrás dos dois irmãos, a pedra da gávea, à direita, na beira-mar, o hotel marina, e tendo o sol, já caído atrás das montanhas, pintando o céu azul em tons de alaranjado, este verso brotou na minha garganta, ganhando a minha voz, que o repetiu alto, numa espontaneidade genuína:

“as coisas não precisam de você”.

logo em seguida, o seguinte:

“quem disse que eu tinha que precisar?”

as luzes brilham no vidigal & não precisam de você.

as luzes das casas, das ruas, cintilam no morro do vidigal, compondo o cenário, lindas, e não precisam de você para brilhar, não precisam de você para cintilar.

não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

os (morros) dois irmãos, e sua beleza, e sua imponência frente à paisagem, também não precisam de você para serem belos & imponentes.

o hotel marina, à beira-mar, aceso por volta das 19h10 do horário de verão carioca, quando acende, não é por nós dois nem lembra o nosso amor.

os inocentes do leblon, a que se refere drummond no poema citado, os inocentes do leblon, ignorantes imersos em suas pequenas questões, imersos no óleo suave que passam nas costas, para relaxamento, quando dispostos na areia quente & fofa, os inocentes do leblon, que não vêem nada, que não vêem o navio entrar nem tampouco saberiam que tipo de carga o navio carrega, que , na verdade, não se interessariam em ver ou saber da entrada do navio, os inocentes do leblon, que esquecem tudo que não esteja ao alcance do seu umbigo & dos seus interesses, estes não sabem de você, nem vão querer saber.

as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

as coisas, no mundo, existem independentes de mim, independentes de vocês, independentes de nós.

e isso, no fundo, é bom. isso, no fundo, é o melhor, pois significa que, para ser feliz, para estar bem, para admirar o belo que me cerca, não dependo de nada nem de ninguém.

dependo de mim.

a vida gosta de quem gosta da vida.

as belezas estão no mundo, dispostas, disponíveis, a quem quiser sorvê-las, a quem souber aproveitá-las.

(os dois irmãos, as luzes no vidigal, o hotel marina aceso na orla, as luzes alaranjadas do pôr do sol, as gaivotas & fragatas que partem na direção das pedras, e mais o que houver.)

a constatação de que o bem-estar, a felicidade, dependem apenas de nós, dependem de bancarmos as nossas escolhas, doam a quem doer, em prol do nosso bem-estar, em prol da nossa felicidade, em prol das coisas que verdadeiramente nos fazem bem.

virgem: virgo: o sexto signo do zodíaco, relativo aos que nascem entre 23 de agosto & 22 de setembro.

virgem: o que é puro, intocado. desconhecido. o que não foi usado. o que é isento. o que é:

livre.

(as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.)

a constatação de que dependemos apenas de nós, seres solitários que somos, ainda que tenhamos o sentimento do mundo, no percurso de buscar & lutar por aquilo que nos encanta os olhos, espelhos da alma.

e o meu farol, o farol desta ilha que sou (território-império em meio a um mar de possibilidades), o farol da ilha só gira agora por outros olhos & armadilhas:

o farol da ilha procura, agora, outros olhos & armadilhas…

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

VIRGEM

 

As coisas não precisam de você:
Quem disse que eu tinha que precisar?
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você;
Os dois irmãos
Também não.
O Hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor.
Os inocentes do Leblon,
Esses nem sabem de você
Nem vão querer saber
E o farol da ilha só gira agora
Por outros olhos e armadilhas:
O farol da ilha procura agora
Outros olhos e armadilhas.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Virgem. Letra: Antonio Cicero. Música: Marina Lima. gravadora: Universal Music.)