MEU PAI, COMO VAI?…
1 de dezembro de 2009

benvindos,
 
como vem ocorrendo há alguns anos, nesta data querida me surge sempre alguma canção ou poesia.
 
hoje, primeiro de dezembro, meu pai, se estivesse vivo, completaria 67 aninhos de pura travessura (rs).
 
ele, um homem divertido, muito bem-humorado, carinhoso por demais. tanto é, que a maneira minha de externar carinho, demonstrar afeto, é através de abraço e beijo. na minha casa, na casa onde fui criado, abraço e beijo eram artigos do dia-a-dia, artigos de luxo e, por isso mesmo, artigos deveras disponibilizados, utilizados como garfo e faca à hora das refeições.
 
tenho absoluta certeza de que muito da minha vontade de boa vida a todos se deve ao jeito, à postura dos meus pais ante a vida.
 
e graças ao caminho, à vida, à trilha, encontro nas esquinas do destino grandes homens, homens capazes, como meu pai, de me proteger, de me confortar, de me compreender.
 
homens que beijo como se meu pai. (beijo homens, muitos, mas poucos como meu pai.) isso é um status de totais confiança e credibilidade na minha existência.
 
pensando nos versos que seguem, dois GRANDES homens, amigos, irmãos, me surgiram de pronto; são eles: athos luiz e césar guerra chevrand. a esses dois homens devo tanto tanto tanto… 
 
lembro-me de um episódio muito marcante: meu pai acabara de morrer e eu estava naquele momento de transformar as dores e a saudade aflita. numa manhã em que sonhara com ele, acordara muito angustiado, melancólico, bem entristecido. uma sensação de desamparo, abandono, me invadiu de maneira tão contundente, que, naquele instante, fora como se eu não tivesse, depois da perda, com quem contar no mundo, como se não houvesse a quem recorrer. claro que era um exagero dos sentimentos, mas a perda de referência tão significativa e forte gera esse tipo de confusão sentimental. parado no corredor do apartamento, minha mãe ausente (de casa), a sensação desconfortável, doída, e o desejo de alcançar abrigo longe dali. intuitivamente, sem racionalizar, pegara o telefone e ligara automaticamente para o césar. ao ouvir sua voz, doce, serena, sempre me dizendo as coisas mais apropriadas, mais afins, fora envolvido por um sentimento tamanho de conforto e esteio, que só fizera chorar por muito tempo. nem sei quanto. chorei, chorei, chorei & chorei. ele, césar chevrand, ali, apenas me ouvindo e já me amparando com as palavras que pausadamente depositava em meus ouvidos. depois de um bom tempo, o sorriso, na voz e na alma, solapava toda tristeza. césar, que é de guerra, me fizera vencer a batalha.
 
athos luiz, esse negro gato de arrepiar (rs), é sempre capaz de dizer as coisas mais acertadas — aos meus olhos —, e as nossas afinidades e concordâncias e constatações e avaliações e lições apreendidas só me fazem crer que esse tipo de relação formula um refúgio, um abrigo, uma espécie de amizade residencial (rs). athos está, a todo momento, dizendo-me coisas surpreendentemente acertivas, justas, coisas bonitas, lúcidas. e me ensina, demais!!, com as suas posturas frente aos acontecimentos. talvez ele seja a pessoa mais bem resolvida que conheço, pessoa que mergulha fundo em si. nesse homem tudo é impressionantemente bonito: corpo & alma, cabelo & sorriso, gesto & voz, abraço & palavras.
 
ao pensar nestas linhas, eles vingaram no pensamento de modo exuberante (os dois, como eu, são apaixonados por este poema-canção).
 
minha mãe, espírita, praticante do kardecismo, crente na vida após a morte, diga ao meu pai que está tudo bem, diga a ele que eu, quando beijo um amigo, estou certo de ser alguém como ele é: alguém com sua força, com seu carinho, com olhos e coração bem abertos: alguém como césar guerra chevrand: alguém como athos luiz.
 
um brinde a paulo sabino! a ele, a minha luz primeva!
 
beijo grande em todos!
o junior do papai (rs).   
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(do livro: Gilberto Gil — todas as letras. organização: Carlos Rennó. editora: Companhia das Letras.)
 
PAI E MÃE
 
Eu passei muito tempo
Aprendendo a beijar
Outros homens
Como beijo o meu pai
Eu passei muito tempo
Pra saber que a mulher
Que eu amei
Que amo
Que amarei
Será sempre a mulher
Como é minha mãe
 
Como é, minha mãe?
Como vão seus temores?
Meu pai, como vai?
Diga a ele que não
Se aborreça comigo
Quando me vir beijar
Outro homem qualquer           
Diga a ele que eu
Quando beijo um amigo
Estou certo de ser
Alguém como ele é
Alguém com sua força
Pra me proteger
Alguém com seu carinho
Pra me confortar
Alguém com olhos
E coração bem abertos
Pra me compreender

OFERENDAS
14 de outubro de 2009

bacanas,
 
oferendas a vocês.
 
oferendas a você, lola borges, minha (futura!) comadre benvinda, mulher queridíssima, de uma delicadeza forjada na seda e no algodão, que hoje, por ordenação do destino, tive o grande prazer de encontrar quando caminhava para o trabalho, e a você também, athos luiz, outra pessoa iluminada que sempre ouço com a máxima atenção, homem de sensibilidade ímpar, que encontrei também hoje, depois da lola, ao entrar no ônibus.
 
(as ordenações do destino… os caminhos lançados pela sorte…) 
 
ofereçam estas prendas, pessoas, a quem/ao que  as merecer.
 
beijo bom em todos!
o preto.
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(poemas extraídos do livro Cecília Meireles — Poesia Completa Volume I, organização: Antonio Carlos Secchin, editora: Nova Fronteira)
 
 
Oferenda
 
A Ti,
Ó sol do último céu,
Por quem sofre
Toda a imensa miséria
Da minha treva…
 
 
Poema da fascinação
 
Vou a Ti
Como quem vai,
Antes e depois da morte,
Para onde lhe ordena o Destino…
Vou a Ti,
Seguindo a luz dos teus olhos,
Subindo por ela,
Caminhando pelo teu olhar
Como por uma escadaria d’astros…
O teu vulto,
Lá em cima,
É um palácio branco, a atrair-me…
Quando chegarei,
Ó Eleito,
Diante de Ti?
Quando descerrarás
As tuas portas de luz,
Para receberes
Os lírios e as rosas odorantes
Que andei colhendo
Para te ofertar?
Não demores, não tardes,
Ó Eleito,
Que eu vou a Ti
Como quem vai,
Antes e depois da Morte,
Para onde lhe ordena o Destino…