JOÃO CABRAL DE MELO NETO: RAZÃO & EMOÇÃO UNAS, INDISSOCIÁVEIS
16 de agosto de 2016

João Cabral de Melo Neto

(O poeta)

Pedra do Frade

(A pedra)

Estrada Real_Diamantina (MG)

(O sertão)
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João Cabral de Melo Neto é um poeta que, em geral, todo poeta gostaria de ser (pelo menos um pouquinho). (Falo por muitos, eu sei.)

Sua poética é enxuta, econômica, e seu português, elegante, com mira certeira ao construir suas imagens pela economia de palavras. Diz-se que, por isso, João Cabral é um poeta também enxuto, econômico, nas emoções; que João Cabral é um poeta apenas “cerebral”.

Eu, na minha humilde percepção, porém convicto, sempre discordei disso. Porque, de fato, João Cabral é um poeta cerebral; “cerebral” no sentido de ter cada palavra milimetricamente pensada & posta no poema. Entretanto, atrelado ao seu trabalho cerebral, o de pensar — pelo recurso da economia — cada palavra milimetricamente posta no poema, vai no verso o que o emociona profundamente no mundo — vide o seu acervo temário.

João Cabral é um homem/poeta de profundezas, que olhou o seu povo de morte & vida severina, lamentou pelo rio de sua terra & infância, o seu Capiberibe, apaixonou-se por Sevilha & suas bailadoras, e admirou a poesia de Joaquim Cardozo, Augusto de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, W. H. Auden, Marianne Moore, Elizabeth Bishop, Marly de Oliveira, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Portanto, ao meu ver, o que é cerebral, na obra cabralina, é a formulação técnica da poesia; e o que é posto em verso com “precisão cirúrgica” (com a técnica) é banhado por seu olhar emocionado diante das coisas.

É assim que vejo, sinto, percebo, a obra do João Cabral. É este o João Cabral que me alucina, que me emociona.

Principalmente a segunda parte do poema abaixo, que é das coisas mais lindas do mundo, me serve de exemplo para ilustrar o escrito acima.

Um dos modos de educar-se pela pedra: (nascendo, vivendo) no Sertão: o Sertão & sua paisagem dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, paisagem sertaneja que, por dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, molda os sertanejos à pedra. No Sertão, a educação pela pedra é de dentro pra fora, isto é, do SERtanejo para o seu hábitat, a educação pela pedra é pré-didática, isto é, a educação pela pedra não é ensinada pela pedra: lá no sertão, a pedra, uma pedra de nascença, entranha na alma.

Como não se emocionar com essa percepção do poeta acerca do Sertão & suas gentes? Como negar o olhar emocionado, aliado ao rigor estilístico, de quem enxerga desta maneira?

João Cabral de Melo Neto é muito cerebral & também emoção sublimada.

E tenho dito.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

 

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

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Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

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A PANTERA
24 de fevereiro de 2014

Pantera

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de tanto olhar as grades, seu olhar esmoreceu. agora, seu mundo resume-se a um espaço entre grades, por trás das grades.

de tanto olhar as grades, seu olhar enfraqueceu, perdeu o entusiasmo, e nada mais aferra, nada mais o seu olhar fixa, firma, ataca.

como se houvesse só grades na terra: grades, apenas grades para olhar.

a onda andante & flexível do seu vulto, o gingado do seu caminhar, mostrando a força & a flexibilidade da sua estrutura corpórea, em círculos concêntricos (agora, seu mundo resume-se a um espaço entre grades, por trás das grades), decresce, diminui, e um grande impulso (guardado, certamente, no instinto felino que lhe resta) se arrefece, um grande impulso esfria, desanima, num ponto oculto dentro de si.

seu habitat: a amplidão dos terrenos selvagens.

de repente, bicho negro capturado, bicho negro acorrentado, posto em porão para transporte ultramarino, feito o bicho homem, negro, durante uma época da nossa história.

de repente, seu mundo resume-se a um espaço entre grades, por trás das grades.

de vez em quando, o fecho da pupila — do olhar esmorecido, de tanto olhar as grades — se abre em silêncio. uma imagem, então, na tensa paz dos músculos, na paz muscular em estado de tensão, em estado de alerta, se instila, uma imagem, então, na tensa paz dos músculos, se insinua, se insufla, para, logo em seguida, morrer no coração.

uma imagem (do seu vasto império selvagem quando livre? do seu descanso em árvores? da sua presa fresca? da sua liberdade sem fins?) se instila, para morrer no coração.

ninguém nasceu para uma vida presa entre grades, nem bicho, nem homem.

o bem mais valioso que possuímos — seja bicho, seja homem — é a vida, e, junto à vida, a liberdade para dela dispor.

se desejamos a natureza mais próxima de nós, certo não é prendê-la em aquários, gaiolas ou jaulas. certo é cuidarmos dos espaços naturais, dos espaços onde a natureza jorra, onde a natureza brota, onde a natureza nasce. certo é garantir aos meus irmãos de terra — seja bicho, seja homem — o mesmo direito de vida plena que desejo para mim. certo é termos cuidado para não ferir com a mão esta delicadeza, a coisa mais querida: a glória da vida.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Coisas e anjos de Rilke. autor: Rainer Maria Rilke. tradução: Augusto de Campos. editora: Perspectiva.)

 

 

A PANTERA

No Jardin des Plantes, Paris

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

CADA UM NO SEU QUADRADO?
25 de março de 2011

abaixo,

texto publicado no caderno ideias, do jornal do brasil, em 09 de maio de 2009, do poeta salgado maranhão, sobre a segunda edição revisada da obra Letras e letras da MPB, de charles perrone, com apresentação de augusto de campos. o livro trata da célebre discussão, no brasil, sobre as semelhanças & diferenças entre letras de música & poemas. para quem o conhece, o livro é uma grande contribuição, esclarecendo, sem preconceitos e hierarquizações, vários aspectos dessa questão.

esta apresentação vale a pena. e fica a dica de um bom livro para quem se interessa pelo assunto.

beijo todos!

paulo sabino.

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(autor: Salgado Maranhão. publicado no caderno: Ideias, do: Jornal do Brasil. em: 09 de maio de 2009.)

 

CADA UM NO SEU QUADRADO?

Mais de uma vez já se disse que a letra de música carece de escora melódica para se realizar. Poucas agüentam a solidão da página em branco. Quanto ao poema, trabalha com economia de palavras e nem sempre se ajusta à melodia. Não é qualquer bom poema que se rende à canção. Portanto, cada forma de expressão tem sua autonomia, mas as duas convivem muito bem, cada uma em seu viés.

Claro que isso não diz tudo, principalmente quando se trata da canção popular do Brasil: num país herdeiro de uma remota tradição da palavra cantada – onde até poetas renomados no mundo das letras se misturam aos cantores do povo — tudo pode acontecer. É o que nos mostra o excelente Letras e Letras da MPB, do professor Charles Perrone, que sai pela editora Booklink, em segunda edição revista, após mais de 20 anos da primeira tiragem.

Não se trata de uma obra de estrangeiro deslumbrado com o exotismo de nossos artistas. Em seu trabalho, o autor demonstra uma enorme intimidade com o melhor da nossa música e das nossas letras. Dele nos diz o poeta Augusto de Campos, que assina a quarta capa do livro: “Mais de 20 anos de contato, pessoal e por correspondência, me fizeram conhecer de perto o prof. Charles A. Perrone, da Universidade da Flórida, e apaixonado da cultura brasileira . Com a vantagem estratégica de uma perspectiva exterior e do conhecimento amplo das nossas duas áreas artísticas, a musical e a poética, …”

No entanto o tema já é, por si só, um grande vespeiro entre nós – pelas paixões e discussões que suscita. Mas, embora a abordagem correta – sem hierarquizações de gêneros – seja um grande desafio, o prof. Perrone soube dissecar com maestria suas virtudes específicas: “ Uma letra pode ser um belo poema, mesmo tendo sido destinada a ser cantada. Mas é, em primeiro lugar, um texto integrado a uma composição musical, e os julgamentos básicos devem ser calcados na audição para incluir a dimensão sonora no âmbito da análise . Contudo, se, independente da música, o texto de uma canção for literariamente rico, não há nenhuma razão para não se considerarem seus méritos literários.”

Não é de hoje que as letras, na música brasileira, se destacam pela poeticidade . Nas primeiras décadas do século 20, quando a Semana de 22 (com Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, principalmente ) ainda tentava nos desatrelar do academicismo da poesia parnasiana, letristas como Noel Rosa, João de Barro e Orestes Barbosa já traziam o coloquialismo da fala das ruas em suas canções .Esses autores e os das décadas seguintes formaram elos com a Bossa Nova, e até com o Tropicalismo que, turbinados por múltiplas influências, carregavam não apenas a explosão do talento criador, mas, além disso, uma viva consciência crítica. As canções desse período são o objeto de estudo do professor Perrone.

Sua análise, como não poderia deixar de ser, começa por Vinicius de Morais, que deu maturidade à letra de música, elevando-a a um status que ela jamais teve . A inserção desse poeta no mundo da canção popular estabeleceu um verdadeiro paradigma — por sua origem de puro sangue da poesia culta . A partir dele, ninguém ousaria discutir critério de qualidade. Porém, a maior reflexão do livro se destina aos poetas da Tropicália, que, ancorados no legado da Poesia Concreta, imprimiram à palavra cantada um toque de invenção e de manifesto . E é o próprio Caetano Veloso quem fala sobre isso: “Havia um ponto em que concordávamos plenamente: era preciso um aprofundamento em nossos recursos técnicos de modo que nossa comunicação não ficasse prejudicada por deficiências ou ignorâncias“.

Até a Bossa Nova, a temática das canções era basicamente o amor romântico – salvo um Sérgio Ricardo, e, por vezes, Carlos Lyra; ou ainda, eventualmente, uma ou outra letra do Vinicius ou dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. Com os poetas tropicalistas (Caetano, Torquato, Gil e Capinam), o mundo salta para dentro das músicas. Os temas amorosos não são rejeitados, mas a eles se incorporam outros vasos comunicantes, como a cultura de massas, a arte pop e a poesia de vanguarda . Isso vai influenciar até mesmo Chico Buarque (vide “Construção”), que segue um viés mais apegado à raíz do samba.

Na década de 70, era chique ser letrista. E até já se podia viver disso. Além dos autores já citados, firmou-se uma nova geração do primeiríssimo time, tais como: Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Ronaldo Bastos, Abel Silva, Fernando Brant, Sérgio Natureza, Antonio Cicero, entre tantos outros.

Porém, um dos principais méritos de Letras e Letras da MPB é, sem dúvida, nos apresentar as trocas e interconecções dos letristas com a chamada “poesia séria”. E o movimento da Poesia Marginal nasceu, justamente, dessa simbiose .O certo é que, independente de preconceitos e preferências, fica valendo a máxima de Murilo Mendes : “A poesia sopra onde quer”…

O ÚNICO LIVRO: ÁGUA CORRENTE
29 de outubro de 2010

Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.

(trecho do poema “o rio”, de joão cabral de melo neto, do livro “serial e antes”.)
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as tantas escrituras sacras que tentam dar conta de explicar o mundo e a existência humana:

os vedas, escritos sagrados do hinduísmo,

o evangelho, obra sagrada do cristianismo,

o alcorão, livro sagrado do islamismo,

mais os livros dos mongóis, seguidores do budismo,

ergueram, juntos, uma pira de poeira rasteira & estrume seco. por sobre a pira, pousaram. e ali permaneceram.

ergueram as escrituras sacras uma pira de poeira rasteira & estrume ressequido: pira que, pelo menos a mim, não serve. (creio que nem para “nada” sirva.)

somente um livro deve ser lido, um único livro consegue dar conta do assunto em questão.

o gênero humano é o leitor do livro.

um livro único, cujas páginas são maiores que o mar, tremem como asas de borboletas (viúvas brancas).

um livro em cujas folhas a baleia salta quando a águia, dobrando a página no canto, desce sobre as ondas, para, após, repousar no leito de um falcão marinho.

nesse livro, lições de uma lei divina: a lei da vida, a lei da natureza, das mudanças constantes, imorredouras.

sobre tudo,

o olhar dos homens, o olhar de cada qual a ler os seus rios, sempre a passar, o olhar peculiar de cada um a vivenciar os seus rios, as suas águas a seguir.

é só pensarmos nos grandes rios do planeta e nos seus homens, e nos seus modos de existir junto a eles, junto aos rios:

o volga, o maior rio da europa; o danúbio, o segundo maior do continente; o yang-tze-kiang, também chamado rio azul, o maior rio da ásia; o nilo, na áfrica, que só perde em extensão para o amazonas; o mississípi, o segundo maior dos estados unidos, que, juntamente ao rio missouri, forma a maior bacia hidrográfica do país; o ganges, um dos principais rios da índia; o zambeze, rio da áfrica austral, que possui as maiores quedas d’água do mundo, as cataratas vitória; o rio óbi, o quarto mais longo da rússia, rio que deságua no mar ártico; o tâmisa, que passa por londres e desemboca no mar do norte, rio de grande importância para a região.

todos esses grandes rios & os seus homens com os seus modos de existir, com a leitura que fazem das suas existências hídricas.

o gênero humano é o leitor do livro, é o leitor do mundo que corre aos seus olhos, é o leitor do mundo que enxerga, e que o abriga. na capa do livro, o timbre do artífice, do criador: o nome de cada um, em caracteres azuis, cor celestial.

o livro único: anos, países, povos, fogem no tempo, como água corrente. a natureza é um espelho móvel. e os deuses: visões da treva.

leiamos com cuidado, carinho & atenção o livro único, volume onde escrevemos os nossos enredos.

já disse o poeta casimiro de brito:

Único livro que não se pode reler: o da vida.

grande beijo!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia Russa Moderna. organização e tradução: Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. editora: Perspectiva.)

(autor: Vielimir Khlébnikov.)

Anos, países, povos
Fogem no tempo
Como água corrente.
A natureza é espelho móvel,
Estrelas — redes; nós — os peixes;
Visões da treva — os deuses.

(tradução: Augusto de Campos.)
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O ÚNICO LIVRO

Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
— como as mulheres calmucas todas as manhãs —
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
— o Volga, onde à noite celebram Rázin;
— o Nilo amarelo, onde imprecam, ao Sol;
— o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
— e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
— e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
— e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
— e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
— e o fogoso Óbi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
— e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice —
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
— lições de uma lei divina —
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

(tradução: Haroldo de Campos.)

CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
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(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
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engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!

A MONTANHA & O LEITOR
20 de setembro de 2010

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através da beleza mágica, beleza imponente, da montanha (de perfil perfeito), o pintor quis entender o vulcão que ele trazia no peito. quis o pintor, feliz, fascinado, mesmerizado, tentando escrever a montanha & o mistério da sua lindeza (trinta e seis vezes e mais outras cem tentativas), compreender a força da lava que corria dentro de si. 
 
porém, as tentativas lhe foram inúteis, pois a montanha não quis revelar sua magia. e não o quis porque é da natureza da montanha a quietude, a imobilidade, o silêncio absoluto.
 
a montanha só sabe ser: sendo.
 
a montanha doa-se, a cada dia, do ar de cada dia, e abandona, como sem valia, toda e qualquer noite que atravesse. a montanha sabe acontecer, a montanha sabe simplesmente ser (atrás de cada fresta, atrás de cada lasca de rocha que a compõe), assim como o ato da visão: ato realizado pela percepção sensorial das radiações luminosas, ato que sabe realizar-se sem consentimento ou aval, ato que sabe produzir-se do: nada.
 
a montanha inerte, mágica na beleza & na grandeza, a nada atende. a montanha é indiferente, é distante, é alheia, a qualquer tipo de apelo. portanto, como entendê-la? como sabê-la?
 
indo mais além: há, em sua estrutura, algo a ser entendido ou sabido?
 
e o leitor, esta outra incógnita: quem pode conhecer o rosto daquele que mergulha, de si mesmo, em outras vidas?
 
(a própria mãe não reconheceria o filho-leitor, que, entregue às leituras, se torna diversovariadosortido, tantos os mundos lançados ao seu mundo.)
 
como saber o que significa o impacto das linhas na vida do leitor? como quantificar o choque, a perplexidade, o assombro, que lhe resta?
 
como auferir o que contém o olhar do leitor quando soerguido da leitura?
 
(o olhar aguçado de um leitor contravém, isto é, desobedece, desaceita, qualquer tipo de mundo que se anuncie já completo e acabado — como crianças que brincam sozinhas e descobrem, súbito, algo a esmo —. afinal, como aceitar um mundo já completo e acabado se as coisas que compõem o mundo estão em constante transformação? como obedecer um mundo completo e acabado se o meio ambiente vive constantes renovações, se nós & o entorno somos organismos eternamente inconclusos, organismos eternamente inacabados? e o leitor, espantado, maravilhado, feito criança que súbito descobre novidade, o leitor nunca é o mesmo, pois as linhas dum livro, tudo o que elas lhe dizem, refazem as linhas do seu rosto. com o recebido das linhas dum livro, há o amadurecimento do olhar do leitor, há a modificação dos seus traços.) 
 
(a montanha & o leitor: estruturas em permanente metamorfose, estruturas que nunca mais serão as mesmas.)
 
beijo grande em todos!
paulo sabino / paulinho. 
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(do livro: Coisas e anjos de Rilke. autor: Rainer Maria Rilke. tradução: Augusto de Campos. editora: Perspectiva.)
 
 
A MONTANHA
 
Trinta e seis vezes e mais outras cem
o pintor escreveu essa montanha,
devotado, sem êxito, à façanha
(trinta e seis vezes e mais outras cem)
 
de entender o vulcão que ele trazia,
feliz, mesmerizado, no seu peito,
mas a montanha de perfil perfeito
não lhe quis revelar sua magia:
 
doando-se do ar de cada dia,
mil vezes, cada noite cintilante
abandonando, como sem valia;
cada imagem imersa num instante,
em cada forma a forma transformada,
indiferente, distante, modesta —,
sabendo, como uma visão, do nada,
acontecer atrás de cada fresta. 
 
 
O LEITOR
 
Quem pode conhecer esse que o rosto
mergulha de si mesmo em outras vidas,
que só o folhear das páginas corridas
alguma vez atalha a contragosto?
 
A própria mãe já não veria o seu
filho nesse diverso ele que agora,
servo da sombra, lê. Presos à hora,
como sabermos quanto se perdeu
 
antes que ele soerga o olhar pesado
de tudo o que no livro se contém,
com olhos, que, doando, contravêm
o mundo já completo e acabado:
como crianças que brincam sozinhas
e súbito descobrem algo a esmo;
mas o rosto, refeito em suas linhas,
nunca mais será o mesmo.

BÊNÇÃO
13 de abril de 2010

tudo o que é vida
me incita
— à sua luz,
pele pupila papila narina,
tudo se potencializa —.
a verdade destituída
de verdade:
no fundo, puro embate.
por isso assento,
vivo o meu alento
enquanto há tempo:
pois que tudo passa,
e, passando, de nada
me amassa a desgraça.
 
(aí está da vida a graça:
 as desditas
 aprimoram-me
 às conquistas.)
 
o que há para viver? turbilhão?
uma luz anêmica na escuridão?
a blusa com falta de botão?
 
mas a minha vida é isto!:
por maior, por mais robusto o quisto,
conduzo-me pelo que foi e é dito,
pondo mais peito no que me insisto.
sem mais história:
o lance é cravar a vitória
com ou sem gol.
assim eu vou.
 
(“Caminho”, Paulo Sabino)
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por maior, por mais robusto o quisto, ponho mais peito no que me insisto.
 
augusto de campos afirma, bonito, lúcido: perseguir implacavelmente a si próprio.
 
a bênção do poeta: por mais robusta, por mais bem nutrida, a incompreensão alheia — por maior que sejam o desgosto & a raiva da mãe, furiosa com o ofício do filho poeta & com as linhas desenhadas por ele, por maior o desprezo e a crueldade que lhe dispense a mulher, que lhe dispensem aqueles que o bardo deseja amar —, maior será, sempre: o brilho fulgurante de sua vidência, ofuscando o perfil das multidões furiosas.
 
pois o poeta sabe que a dor é nossa dádiva suprema. o poeta sabe que as penas se dão (irremediavelmente) através das vivências, das experiências, e que elas, as dores, arrancadas à matriz dos raios primitivos, nos acompanham desde tempos imemoriais, desde os primórdios dos tempos, e que hão de nos acompanhar mundo afora. 
 
dores: dádivas supremas. como viver sem elas?
 
o lance: administrá-las sem aprofundá-las, sem vivenciá-las em vales profundos, em covas & depressões & fossas difíceis de serem deixadas (pela altura, pelo tamanho que o buraco possa ter).
 
perserguir-se implacavelmente. 
 
(os desprazeres surgirão. mas que não sejam mais importantes que a luz da sua vidência, que a luz do que se deseja para si. nunca.)
 
(se grande o quisto, mais peito no que me insisto.)
 
fiquem com este poema que, para mim, é um dos mais belos do mundo.
 
beijo grande em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)
 
 
I
 
BÊNÇÃO
 
Quando, por uma lei das supremas potências,
O Poeta se apresenta à platéia entediada,
Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências,
Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:
 
“Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes,
Em vez de amamentar esse aleijão sem graça!
Maldita a noite dos prazeres mais ardentes
Em que meu ventre concebeu minha desgraça!
 
Pois que entre todas neste mundo fui eleita
Para ser o desgosto de meu triste esposo,
E ao fogo arremessar não posso, qual se deita
Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,
 
Eu farei recair teu ódio que me afronta
Sobre o instrumento vil de tuas maldições,
E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta,
Para que aí não vingue um só de seus botões!”
 
Ela rumina assim todo o ódio que a envenena,
E, por nada entender dos desígnios eternos,
Ela própria prepara ao fundo da Geena
A pira consagrada aos delitos maternos.
 
Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,
Inebria-se ao sol o infante deserdado,
E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante
Há um gosto de ambrosia e néctar encarnado.
 
Às nuvens ele fala, aos ventos desafia
E a via-sacra entre canções percorre em festa;
O Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave de floresta.
 
Os que ele quer amar o observam com receio,
Ou então, por desprezo à sua estranha paz,
Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,
E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.
 
Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços;
Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,
E se arrependem por lhe haver cruzado os passos.
 
Sua mulher nas praças perambula aos gritos:
“Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,
Farei tal qual os ídolos dos velhos ritos,
E assim, como eles, quero inteira redourar-me;
 
E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,
De nardo e mirra, de iguarias e licores,
Para saber se desse amante tão intenso
Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.
 
E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,
Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;
E minhas unhas, como as garras das Harpias,
Hão de abrir um caminho até seu coração.
 
Como ave tenra que estremece e que palpita,
Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração,
E, dando rédea à minha besta favorita,
Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!”
 
Ao Céu, de onde ele vê de um trono a incandescência,
O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas,
E o fulgurante brilho de sua vidência
Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:
 
“Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento,
Esse óleo puro que nos purga as imundícias
Como o melhor, o mais divino sacramento
E que prepara os fortes às santas delícias!
 
Eu sei que reservais um lugar para o Poeta
Nas radiantes fileiras das santas Legiões,
E que o convidareis à comunhão secreta
Dos tronos, das Virtudes, das Dominações.
 
Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema,
Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos,
E que, para talhar-me um místico diadema,
Forçoso é lhes impor os tempos e universos.
 
Mas nem as jóias que em Palmira reluziam,
As pérolas do mar, o mais raro diamante,
Engastados por vós, ofuscar poderiam
Este belo diadema etéreo e cintilante;
 
Pois que ela apenas será feita de luz pura,
Arrancada à matriz dos raios primitivos,
De que os olhos mortais, radiantes de ventura,
Nada mais são que espelhos turvos e cativos!”

O QUE É POESIA?
9 de abril de 2010

bacanas,
 
o poeta edson cruz, via e-mail, enviou a vários outros poetas uma pergunta que, metaforicamente, é um tiro à queima-roupa, uma pergunta que, ao meu ver, é das mais difíceis, se não, das impossíveis, de serem respondidas:
 
o que é poesia?
 
como não existe uma “regra”, uma “receita”, para o fazer poético, as respostas são as mais variadas.
 
junto à principal, duas outras perguntas que interessam: àqueles que desejam seguir a trilha de escritor / poeta; àqueles que adoram ler, pois os bardos citam 3 poetas e 3 textos referenciais para o seu ofício poético.
 
escolhi cinco poetas dos quarenta e cinco reunidos no livreto. o bom é que posso, no decorrer do tempo, compartilhar com vocês as outras tantas respostas.
 
antes das respostas, parte do texto de apresentação do livro, com o qual concordo inteiramente.

desfrutem os frutos, os furtos poéticos das linhas anunciadas.

beijo terno em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(trecho do texto de apresentação do livro O que é poesia?)
 
 
POETAS À QUEIMA ROUPA (autor: Edson Cruz)
 
As perguntas mais ingênuas, e legítimas, são sempre as mais espinhosas e difíceis de responder. Quando você pergunta a um marceneiro o que é marcenaria, ele, quase sempre, sorri satisfeito com a possibilidade de discorrer sobre sua arte e, quem sabe, seduzir mais um neófito para seu ofício tão amado. O mesmo pode ser válido para outros artistas, por exemplo, um ator. O que é teatro?, você dispara, e ele mata a bola no peito e ainda faz várias embaixadinhas antes de responder, falastrão.
 
Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os escritores — e, particularmente, os poetas — acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os escritores são os seres mais suscetíveis do planeta. E os poetas, minha turma preferida, são a essência cintilante do que denominamos escritor. E dá-lhe suscetibilidade, pois eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem a antena da raça. E, cá pra nós, muitos realmente o são.
 
(…)
 
A poesia é de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais condensada forma de expressão verbal”, dizia Pound), e não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses.
 
(…)
__________________________________________________________________________
 
(do livro: O que é poesia? autores: Vários. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Calibán.)
 
 
  
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
 
 
O que é poesia para você?
 
Poesia é o espanto transverberado.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
A mesma coisa que qualquer iniciante em qualquer matéria ou profissão. Iniciar sempre, até o fim. Ou, no caso da poesia, desconfiar dos que oferecem a receita da “verdadeira” poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Poetas: O rei Davi, salmista; Camões, o lírico; Drummond.
 
Textos: A Bíblia; cartas e ensaios de Mário de Andrade; Introdução à metafísica de Heidegger.
 
 
 
ANTONIO CICERO
 
 
O que é poesia para você?
 
A poesia é o que faz de um “poema” um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto — em particular, um objeto verbal — algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. “Em certa medida baixa”, afirma ele, “pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão”. É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. E isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do livro IV das Odes de Horácio; o poema “East Coker”, de Four quartets, de T.S. Eliot; “Coração Numeroso”, de Alguma poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia… Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.  
 
 
 
AUGUSTO DE CAMPOS
 
 
O que é poesia para você?
 
De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia?
 
Respondendo à pergunta “o que é música?”, Schoenberg saiu-se com esta historinha:
 
Um cego perguntou ao seu guia: — Como é o leite?
O outro: — O leite é branco.
O cego: — E o que é esse “branco”? Me dê um exemplo de algo que seja “branco”!
O guia: — Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
O cego: — Pescoço curvo? Como é isso?
O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
O cego: — “Ah! agora eu sei como é o leite”…
 
Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
 
Paul Valéry: “Hesitação entre o som e o sentido”.
 
Ezra Pound: “Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para emoções humanas”.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal.
 
Finnegans Wake, de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos.
 
Os Cantos, de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo. 
 
 
 
CARLITO AZEVEDO
 
 
O que é poesia para você?
 
Algo tão generoso que às vezes até se dá ao trabalho de aparecer uma ou duas vezes num bom livro de poemas.
 
Desde a invenção do cinema ela também tem gostado de dar as suas caras na grande tela, principalmente em filmes de René Clair, Jean Vigo, ou naquele, belíssimo, de Jean Cocteau, em que Orfeu, antes de dar o primeiro passo inferno abaixo, em busca de Eurídice, pronuncia as palavras mágicas: “O espelho deveria refletir um pouco mais antes de nos devolver a nossa face”.
 
Hokusai, que sabia do que ela era feita, às vezes a colocava numa onda, num galo, numas mulheres atravessando uma ponte. 
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Sapos de verdade em jardins imaginários, como queria Marianne Moore.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Em primeiro lugar, vou avisando que é uma escolha prospectiva, e não retrospectiva. Em vez de falar do que é uma referência para o que eu fiz, vou falar do que é uma referência para o que eu quero fazer. Ah, e em vez de “explicar” a minha escolha, prefiro “ilustrar” a minha escolha, por isso, cada poeta será acompanhado por um poema de sua autoria. Lembrei agora de uma menina japonesa que vi na exposição de Miró, anos atrás, e que diante do namorado que pedia que ela lhe “explicasse” Miró, pois ele, ao fim da exposição, não tinha entendido nada, respondeu apenas que se ele já tinha visto os quadros e não entendia nada, não adiantava explicar, porque o que ele ia entender era a explicação e não os quadros.
 
Susana Thénon, a notável poeta argentina nascida em 1935, e falecida aos 56 anos. Utilizo aqui a ótima tradução feita por Angélica Freitas e publicada na Modo de usar & co digital:
 
— onde é a saída?
— desculpe?
— perguntei onde é a saída
— não
não há saída
— mas como se eu entrei?
— claro
lembro de você
e além disso a vejo
mas saída
saída não há
viu?
— mas não pode ser
vou sair por onde entrei
— não
já está muito tarde
desde as dez a entrada está proibida
e além disso o que você quer? que me façam uma
lavagem
cerebral
por deixar uma pessoa sair
pela entrada?
— escute
deve haver uma maneira de chegar à rua
— já perguntou em informações?
— sim
mas me mandaram vir aqui
— pois é
e eu estou dizendo que não há saída
— onde é o telefone?
— vai ligar para quem?
— para a polícia
— aqui é a polícia
— mas você está louco? aqui é uma sala de
concertos
— isso até uma hora
depois é a polícia
— e o que vai acontecer comigo?
— depende do delegado de plantão
se for Loiácono
pode te deixar barato
e em menos de alguns dias você está fora
— mas isso é uma loucura
onde estão as outras pessoas?
— setor de detidos
primeiro subsolo
— por que
estão fazendo
isso?
— vamos tia
não me diga que nunca foi a um concerto
 
Frank O’Hara, o incrível poeta norte-americano, morto tão jovem (aqui em tradução da poeta Luiza Franco Moreira que saiu na Inimigo Rumor 9):
 
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
 
é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian,
     [Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em
     [Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja que você parece
     [um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte
     [porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente
     [contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso
     [perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que
     [exista alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como
     [estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós
     [estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando
     [pelos olhos de seus nós
e a exposição de retratos parece não ter nenhum
     [rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se
     [dado ao trabalho de pintá-los
                                                                      olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que
     [para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro polonês que de
     [qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu
     [posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos
     [dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu descendo
     [a escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou
     [Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para
     [ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o
     [cavaleiro tão bem
quanto o cavalo
acho que eles todos deixaram de ter uma
     [experiência maravilhosa
que eu não vou despediçar por isso estou te
     [contando
 
Bertolt Brecht (poema da antologia organizada e traduzida por Paulo César Sousa e publicada pela Editora 34):
 
A DESPEDIDA
 
Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais
 
 
 
RICARDO SILVESTRIN
 
 
O que é poesia para você?
 
Um texto da função poética da linguagem. Ver o meu artigo “Balanço, mas não caio”. Ali, está uma explicação clara e um pouco rápida sobre essa função.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Deve ler boa poesia e bons ensaios a respeito do tema poesia (Roman Jakobson e as funções da linguagem, Haroldo de Campos em A arte no horizonte do provável, Décio Pignatari em Comunicação poética, Octavio Paz no Signos em rotação…). Ou seja, deve se ocupar de ler bons poetas para ver o fazer dos outros e também se ocupar do pensar sobre a arte da poesia, tanto sozinho como acompanhado pelos bons pensadores / poetas / críticos. Também conta fazer cursos e/ou oficinas com bons poetas. Tudo isso para perseguir a criação de, primeiro, um bom poema. Depois, um bom poema que tenha as contribuições pessoais à contemporaneidade e, por último, se conseguir, alguma contribuição à história do gênero poético.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Fiz três trios:
 
Bandeira/ Drummond/ Quintana — esse trio foi o primeiro time que me fez entender o que é um bom poema. Comecei a escrever depois que li o Bandeira. Até hoje, ele é o poeta que mais me encanta. Equilibra invenção, ideia e sensibilidade. Uma boa leitura é essa dos 50 poemas escolhidos, seleção feita por ele, reeditada recentemente pela Cosac Naify.
 
Chacal/ Leminski/ Alice Ruiz — esse foi o segundo trio que me reabriu a cabeça. Com eles, encontrei uma linguagem mais próxima da minha geração e da minha visão de mundo. Ler o Belvedere, reunião de poesia do Chacal, lançada pela Cosac, Dois em um, com os dois livros Pelos pelos e Vice-versos da Alice, lançado recentemente pela Iluminuras, e Caprichos e relaxos, Distraídos venceremos… e tudo o que achar do Leminski. Valem também os ensaios do Leminski, as biografias que ele escreveu de Bashô, Cruz e Souza…
 
Augusto/ Haroldo/ Décio — esse trio chuta a bola para outros campos, amplia a cabeça de qualquer poeta. Ler Viva vaia do Augusto, Não, Despoesia, todos do Augusto, Poetc., Poesia, pois é poesia, do Décio, A educação dos 5 sentidos, do Haroldo. E também vale tudo o que eles lançaram de teoria e tradução.
 
E sobram ainda os simbolistas, com o quarteto Rimbaud/ Mallarmé/ Verlaine/ Baudelaire, sobram Marcial, Bashô, Issa, Ferreira Gullar, Cabral, Emily Dickinson, Benedetti, Borges…