O QUE É BONITO?
29 de janeiro de 2014

Pedras do Arpoador_Rio de Janeiro

________________________________________________________

o que é bonito?

bonito é o que persegue o infinito, bonito é o que persegue aquilo que não tem limites, bonito é o que persegue uma grandeza cujos valores não são limitados, bonito é o que persegue o incalculável, o imensurável.

a beleza é coisa que se pretende grandiosa & eloqüente. a beleza, por seu caráter de encantamento, admiração ou prazer através dos sentidos, quer durar, quer ficar para sempre, não quer passar.

mas eu não sou. eu não sou infinito, muito pelo contrário: o dia, um dia, dá cabo; um dia, acabo; um dia, adeus.

por isso (por ser finito, por ter limites, por não ser grandioso), eu gosto do inacabado, do imperfeito.

eu quero o estragado, o vencido, o danificado, eu quero o que “dançou”, o que não se saiu bem, o que se saiu mal.

eu quero mais erosão, mais desgaste, mais corrosão, quero, cada vez mais, ser consumido pelo tempo, e menos granito — menos rocha, menos dureza, menos resistência.

quero estar apto a mudanças, a transformações, na consumação do tempo.

eu quero namorar o zero, que é o início de tudo, que é o ponto de partida para qualquer coisa. eu quero namorar o zero porque desejo estar apto a mudanças, apto a transformações: desejo aptidão para recomeçar sempre que preciso for.

eu quero namorar o “não”, que é impedimento, que é negativa, que é recusa, porque a vida é feita de perdas, a vida é feita de impossibilidades, a vida é feita de frustrações, e eu, como participante do mundo, sei que não escaparei dos “nãos” a mim reservados.

eu quero escrever o que desprezo, para que nunca me falte a noção dos meus muitos limites & das minhas muitas incapacidades, para que não me cresça, nunca!, o rei na barriga & sua arrogância aristocrática.

eu quero desprezar o que acredito a fim de poder acreditar em diversas outras coisas caminho afora, eu quero desprezar o que acredito para que eu conserve, em mim, o eterno aprendiz, conserve, em mim, aquele capaz de aprender com o que a vida ofertar de vivências.

o que nos impulsiona à vida é o desconhecido, o que nos lança à vida são os não-saberes. se de tudo soubéssemos, se tivéssemos as chaves de acesso ao mundo, a vida seria um caminhar chato, de estrada previamente delineada.

eu não quero a gravação — coisa que está aí, já feita, já editada, já devidamente guardada. eu quero o grito — o que ainda vai ser lançado, o que está por vir, o que está em processo de construção: é que a gente vai (afinal, um dia, acabo, um dia, adeus) & fica a obra (a gravação, coisa que está aí, já feita, já editada, já devidamente guardada), e eu persigo o que falta (o que ainda vai ser lançado, o que está por vir, o que está em processo de construção: o grito), não o que sobra (a obra).

eu quero tudo que dá & passa — tudo que estraga, tudo que perece, tudo que se desgasta, tudo que se deteriora.

eu quero tudo que despe, se despede, e despedaça: quero tudo que é feito nós, seres humanos, tudo que é feito de nós.

eu quero a vida que me cabe no seu breve tempo de sonhar & amar.

beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(autores: Braulio Tavares / Lenine.)

 

 

O QUE É BONITO?

 

O que é bonito?
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu gosto do inacabado
Do imperfeito, o estragado
O que dançou
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever o que desprezo
E desprezar o que acredito
Eu não quero a gravação
Eu quero o grito
É que a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede
E despedaça
________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Olho de peixe. artistas: Lenine / Marcos Suzano. canção: O que é bonito? intérprete: Lenine. autores da canção: Braulio Tavares / Lenine. gravadora: Velas.)

A NOSSA CASA
16 de janeiro de 2014

Paulo Sabino_PerfilAmor-perfeito

 

(Na primeira foto: a minha casa. Na segunda foto: um mato que floresce, conhecido por “amor-perfeito”.)
________________________________________________________

a nossa casa é de carne & osso: porque o que, de fato, nos abriga, o que, de fato, nos dá guarida, é o corpo.

a nossa casa é de carne & osso porque a nossa casa é o nosso corpo, este, de onde se pronuncia o paulo sabino.

sem o abrigo do corpo, nada feito.

a nossa casa não é sua nem minha (não dispomos desta morada a que chamamos corpo: não compramos, não vendemos, não alugamos, não hipotecamos — simplesmente: habitamos) & também não tem campainha para quem nos chegue de visita, ou para quem venha conosco morar.

a nossa casa, diferentemente das demais (as de tijolo & concreto), tem varanda dentro (e não fora), pois o lugar onde, na nossa casa, passa o vento para ventilar — a fim de trazer vida à residência — é dentro do corpo. o ar passa numa varanda que vem dentro, e não fora, da casa.

a nossa casa tem varanda dentro & tem um “pé de vento” para respirar (assim como em quintais com um pé de manga, ou de goiaba, ou de abacate, para comer): um pé-de-vento para respirar: ventania forte, boca & narinas adentro, que traz, com seu ar, vida à residência.

por essa razão (por ser o corpo a nossa mais legítima morada):

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

basta cuidar dessa casa, da sua arquitetura, deixar que nela more um pé de vento, deixar que nela entre a luz, para que ela possa estabelecer-se segura em qualquer localidade: aqui, no rio; ali, em sampa; lá, no pará; acolá, no japão:

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

basta atentar à casa, à sua arquitetura, deixar que nela entre um pé-de-vento, deixar que nela more a luz, para que ela possa estabelecer-se segura em qualquer localidade: em local onde “amor-perfeito” é mato (até porque “amor perfeito”, se não for mato, inexiste) & o teto estrelado (teto com constelações que brilham no escuro de um cômodo) também tem luar; em local que pareça um ninho, onde surja um passarinho para acordar a casa; em local onde passe um rio no meio & onde o leito (a cama, o lugar de repouso) possa ser o mar:

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(do encarte do cd: Saiba. artista: Arnaldo Antunes. gravadoras: Rosa Celeste / BMG.)

 

 

A NOSSA CASA

 

na nossa casa amor-perfeito é mato
e o teto estrelado também tem luar
a nossa casa até parece um ninho
vem um passarinho pra nos acordar
na nossa casa passa um rio no meio
e o nosso leito pode ser o mar
a nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é em todo lugar
a nossa casa é de carne e osso
não precisa esforço para namorar
a nossa casa não é sua nem minha
não tem campainha pra nos visitar
a nossa casa tem varanda dentro
tem um pé de vento para respirar
a nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é em todo lugar

________________________________________________________

(do site: Youtube. videoclipe da canção: A nossa casa. Artista: Arnaldo Antunes. gravadoras: Rosa Celeste / BMG.)

RECOMEÇO
6 de janeiro de 2014

Mar_Ri Mar

________________________________________________________

o início de mais um ano: 2014.

mais um recomeço.

recomeço sempre pela palavra, como deus começou pelo verbo.

recomeço, contando o tempo (o tempo da palavra, para a música dos versos), e a palavra encontra seu par: a palavra “rimar” com a palavra “ritmar”.

da palavra, contar o seu tempo, para que ela encontre o seu devido par & realize a música dos versos: rimar & ritmar.

recomeço no mar, meu amante maior, minha fascinação derramada, como a vida veio da água (pesquisas científicas apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água do mar), como o feto, início de todos nós, também: durante 9 meses, a imersão em ambiente aquoso (na bolsa amniótica, que protege o feto de choques térmicos & mecânicos): quando fetos, antes de andar, aprendemos a nadar.

quando fetos, primeiro, NAdar. ANdar, isto é, trocar de meio, trocar a água pela terra firme (assim como as palavras, que trocam de sentido na mudança de duas letras, da  “N” & da “A”), depois.

no início de todos nós, no começo de tudo, primeiro, NAdar. ANdar, depois.

recomeço no mar: o mar ri. ri, mar.

o mar ri ao rimar o seu azul com as belas ilhas do sul, que realçam ainda mais a beleza da paisagem.

ao ritmar, o mar ri & faz-se rimar.

recomeço em mim mesmo, no rito da passagem anual, de onde sempre parto: de onde sempre nasço, de onde sempre me invento, de onde sempre me gesto.

recomeço em mim mesmo, de onde sempre parto: de onde sempre me lanço, de onde sempre me retiro, de onde sempre me desloco, de onde sempre vou embora.

recomeçar em mim mesmo: parir & partir.

parir & partir: nascer, renascer (com as transformações operadas caminho afora) & deslocar-se sempre, propondo-se a novos & inusitados desafios.

parir & partir: nascer, renascer (com as transformações operadas caminho afora) & quebrar, fragmentar-se, despedaçar-se, propondo-se a novas & inusitadas colagens.

(parir & partir: da palavra, contar o seu tempo, para que ela encontre o seu devido par & realize a música dos versos.)

um ótimo 2014 para nós!

beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)

 

 

Recomeço sempre na palavra
como deus começou pelo verbo.
Recomeço contando o tempo
e a palavra encontra seu par:
rimar e ritmar.
Recomeço no mar
como a vida
veio da água
como o feto
antes de andar
aprendeu a nadar.
O mar ri. Ri, mar. E ritmar.
Recomeço em mim mesmo
de onde sempre parto.
Parir e partir.
Sair e quebrar.

POEMA DE NATAL
24 de dezembro de 2013

Luzes de Natal

 

________________________________________________________

eis outra vez o fim.

mais um ano que finda.

tudo termina & os meses só se mostram no final, no choro do menino ou da menina (pois somente depois de passados 9, os meses revelam o seu rosto, os meses revelam a sua forma: se 9 meses moldados em choro de menino ou se 9 meses moldados em choro de menina), e na roda de samba do natal, depois de passados 12.

ao final de 12 meses, o rosto, a forma, de 1 ano cumprido. o fim de um, início de outro.

portanto, tudo termina ou tudo recomeça? quem desvenda as imagens das horas, quem desvenda o que a vida nos desenhará de acontecimentos, no papel em branco? quem é capaz de nos traçar, no papel, os passos exatos que engendraremos ao longo dos 12 meses que moldam o rosto, a forma, de 1 ano?

como nada nem ninguém é capaz de nos traçar, no papel, os passos exatos que engendraremos ao longo dos 12 meses que moldam o rosto, a forma, de 1 ano, mais vale acompanhar a moenda do tempo (moenda: conjunto de peças, num engenho, que serve para moer ou espremer certos produtos, como a cana-de-açúcar, por exemplo), mais vale beber o caldo que a moenda do tempo nos oferece cotidianamente, dia após dia, mais vale decifrar o mel, descobrir o doce, existente no caldo que a moenda do tempo nos entorna cotidianamente, dia após dia, mais vale graduar, mais vale dosar, o álcool (aquilo que entorpece, aquilo que entontece, aquilo que embebeda) do líquido que nos entorna a moenda do tempo, que o tempo tem o seu jogo (de acasos & surpresas) & desabafa seu canto de mistério (com as tantas peças & artimanhas que nos prega) & canto pastoril (pois, com o seu canto de mistério, o tempo nos guia & nos leva, como o pastor que conduz o seu rebanho caminhos afora).

ao fim de mais 1 ano que finda, melhor será juntar os nossos cansaços, vestir o nosso lar de caracol, isto é, fazer do nosso lar a nossa concha, concha onde possamos estar bem, possamos estar protegidos, confortáveis, e acompanhar os íntimos compassos, compassos que vão dentro de nós, do que é, em nós, silêncio (quietude paz reflexão) & amor (dos sentimentos o mais nobre).

assim, até o azul — cor do meu delírio — que vem de dentro deste poema que vos ofereço como presente natalino, azul que vem de dentro da rima em “-ul” (formada pelo poema), será o vosso mundo, que já não tem centro (e que nem precisa de um centro. que, no vosso mundo, sejam muitos os focos & interesses), será o azul que vem de dentro deste poema o vosso caminho, já sem norte & sul (e que nem precisa de uma direção. que, no vosso mundo, sejam muitas as setas & os descaminhos).

aceitai o azul deste poema que vos ofereço & o desejo de 12 meses de realizações felizes, para que se revele, ao cabo desses 12 meses, o rosto bonito & sereno de 1 ano bem vivido.

beijo todos!
paulo sabino.
________________________________________________________

(do livro: Melhores poemas. seleção: Luiz Busatto. autor: Gilberto Mendonça Teles. editora: Global.)

 

 

POEMA DE NATAL

A Joaquim Inojosa

 

Eis outra vez o fim. Tudo termina
e os meses só se mostram no final,
no choro do menino ou da menina
e na roda de samba do Natal.

Termina ou recomeça? Quem desvenda
as imagens das horas no papel?
Mais vale acompanhar sua moenda,
beber seu caldo, decifrar seu mel

e graduar seu álcool na garrafa
ou nas tábuas de cedro do barril,
que o tempo tem seu jogo e desabafa
seu canto de mistério e pastoril.

Melhor será juntar nossos cansaços,
vestir o nosso lar de caracol
e acompanhar os íntimos compassos
do que é silêncio e amor, sob o lençol.

Assim, até o azul que vem de dentro
deste poema e desta rima em -ul
será teu mundo, que já não tem centro,
e teu caminho, já sem norte e sul.

LITORÂNEA
20 de novembro de 2013

Paulo Sabino_Lençóis Maranhenses

_________________________________________________________

cismando cá com meus botões, existencialmente, percebo que sou um homem de beiras. um ser de margens. alguém que não veio para ocupar centros, alguém periférico, alguém que se apercebe “marginal” (à margem) em sua essência.

um homem de beiras, um ser de margens: beira de rio, beira de mar: os meus maiores encantos.

alguém alucinado pelas sílabas aquáticas, sobretudo pelas litorâneas: o mar respira no litoral. um pulmão — que não é meu — ouço inchar-se na areia, um pulmão — que não é meu — ouço derraMAR-se na areia, devolvendo-se, num movimento próprio de recuo logo após o derramamento, em perigoso chamado (chamado que incita ao jogar-se desmedido nas águas, chamado que incita ao afogar-se em espuma & sal): “você não tem história e, ainda que tivesse, nada é seu nesta cidade: números, cifras, senhas sem milagre: nada é seu. muito menos este corpo que se banha & se encanta com as sílabas incontáveis de um murmúrio que espera seu retorno com eterna paciência”.

nada é meu: pois “nada” é a única coisa que me pertence: viemos dele, de um “nada absoluto” (até que se fundissem óvulo & espermatozóide), e para ele, para o “nada absoluto”, voltaremos o dia em que se encerrar a jornada.

retornaremos ao nada, sem nada mais: história, números, cifras, senhas sem milagre, este corpo: nada é meu nesta cidade.

enquanto não chega o chamado final, fatal, enquanto um murmúrio — marulho — de sílabas incontáveis espera, com eterna paciência, meu retorno, enquanto me for permitido, sigo: litorâneo. homem de beiras. ser de margens.

beijo todos!
paulo sabino.
_________________________________________________________

(do livro: Cosmologia. autor: Marcelo Diniz. editora: 7Letras.)

 

 

LITORÂNEA

 

O mar respira no litoral,
um pulmão que não é meu
ouço inchar-se na areia,
derramar-se, devolvendo-se,
perigoso chamado: — você
não tem história e, ainda
que tivesse, nada é seu
nesta cidade, números,
cifras, senhas sem milagre,
nada é seu, muito menos
este corpo que se banha
e se encanta com as sílabas
incontáveis de um murmúrio
que espera seu retorno
com eterna paciência.

ALHEIO
14 de outubro de 2013

Paulo Sabino_São Gonçalo do Rio das Pedras (MG)

___________________________________________________________________________________________________

Mensagem enviada a um dos maiores mestres da poesia brasileira, o professor, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ANTONIO CARLOS SECCHIN:

 

Mestre,

um poema que foi retirado da última sentença do meu texto de apresentação à publicação mais recente do Prosa em poema [intitulada “Nada em vão”: https://prosaempoema.wordpress.com/2013/10/08/nada-em-vao/]

Num repente, lendo a tal sentença, percebi que fazendo algumas modificações & adicionando elementos nasceria um poema. E aqui está.

Abraço afetuoso,
Paulo Sabino.

 

Abaixo, a resposta do mestre:

 

Muito bom! Excelente “montagem”.

 

___________________________________________________________________________________________________

 

alheio: a tudo: ao olhar alheio, ao olhar do outro (estrangeiro, forasteiro), que não consegue decifrar o todo que vai em mim: pura ilusão — de óptica:

pois que o “eu”, no seu fundo, um sumidouro (orifício, fenda ou similar, por onde algo desaparece. lugar onde somem muitas coisas).

alheio: a tudo: inclusive ao próprio olhar, ao olhar que tenho de mim: sendo quem sou, em nada me pareço.

(eu mesmo não me re-conheço em tudo & por isso burlo, minto, trapaceio, no jogo de damas que invento em mim.)

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ALHEIO

 

o que vemos
no outro
é pura
ilusão
de óptica:

sumidouro:
sendo quem sou
em nada me pareço:
sempre estrangeiro
sempre forasteiro
de mim
& do olhar
alheio

NADA EM VÃO
8 de outubro de 2013

Paulo Sabino_Estrangeiro de si

 

___________________________________________________________________________________________________

Nada em vão, nada à-toa, no espaço entre mim & você.

Eis, então, que o pedaço de mim — que é só teu — é intento sem tanto, é objetivo sem força maior, é intenção pouca, quando eu vejo você me olhando assim, vendo, em mim, o que eu vejo em ti.

(Afinal,) Qual razão é medir o imenso da sede, o que justificaria medir o tamanho incomensurável do desejo, da vontade de alguma coisa, se o senso, se o entendimento, se o juízo (sempre!) cede à sensação?

Hein?…

Ilusão — pois o que vemos no outro nunca é exatamente o outro, é sempre uma projeção nossa sobre o outro — é a veste que te faz volver, que te faz voltar-se, que te faz virar (para mim), ilusão — pois o que vemos no outro nunca é exatamente o outro, é sempre uma projeção nossa sobre o outro — é a veste que me envolve & que verte afeto & afã, que verte amizade & zelo, quando eu vejo você me olhando assim, vendo, em mim, o que eu vejo em ti.

(O que vemos no outro é pura ilusão de óptica: sendo quem sou, em nada me pareço: sempre estrangeiro, sempre forasteiro, de mim & do olhar alheio.)

Beijo todos!
Paulo Sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(do encarte do cd: Cavalo. artista: Rodrigo Amarante. autor: Rodrigo Amarante. gravadora: Slap.)

 

 

NADA EM VÃO

 

nada em vão
no espaço entre eu e você
no silêncio um grito
o sim e o não

eis então
que o pedaço de mim
que é só teu
é intento sem
tanto intenção

quando eu vejo você
me olhando assim
vendo em mim
o que eu vejo em ti

qual razão
é medir o imenso da sede
se cede o senso
à sensação

ilusão
é a veste que
faz-te volver
que me envolve e verte
afeto e afã

quando eu vejo você
me olhando assim
vendo em mim
o que eu vejo em ti
___________________________________________________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Cavalo. Artista & intérprete: Rodrigo Amarante. canção: Nada em vão. autor da canção: Rodrigo Amarante. gravadora: Slap.)

SENDO QUEM SOU, EM NADA ME PAREÇO
13 de setembro de 2013

Paulo Sabino ao pôr do sol

___________________________________________________________________________________________________

para César Guerra Chevrand

___________________________________________________________________________________________________

sendo quem sou, em nada me pareço.

sou tão diferente do que esta carcaça apresenta, que deveria ter aparência mais próxima à estranheza que me forma.

a aparência do paulo sabino não corresponde — exatamente — ao paulo sabino.

o que pensa, o que faz, o que fala, quando só, só pertence ao paulo sabino.

sendo quem sou, em nada me pareço: pois, ao mundo, aos senhores, pareço uma coisa sendo tantas outras…

desloco-me no mundo, transito pelos lugares, como os senhores vêem, ando a passos, com pés no chão, como todos os senhores, e tenho gestos & olhos convenientes, gestos & olhos de acordo com o que socialmente se ambiciona, gestos & olhos propícios ao convívio social, gestos & olhos adequados à normatização da vida, gestos & olhos à aceitação & aprovação alheias, gestos & olhos no intuito de integrar determinadas rodas sociais.

vivenciando assim a vida, desloco-me no mundo, isto é, no mundo me faço, me sinto, deslocado, coloco-me fora do lugar, coloco-me em contexto inapropriado, desafinado com o que realmente sou (para as pessoas, para o mundo, ando a passos, como toda pessoa comum, e tenho gestos & olhos convenientes).

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente (ser fora do padrão, ser estranho às pessoas), e ter olhos a mais (como um ser fantástico, um ser das lendas), olhos visíveis, úmidos?

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente: digo: ser diferente do diferente, ser diferente do que é diferente de mim & que, no entanto, os senhores entendem como o paulo sabino?

não seria melhor ser diferente & ter olhos a mais, olhos que, diferentes destes que tenho (que mascaram, que dissimulam, que encobrem o paulo sabino), fossem visíveis, olhos úmidos ao invés de secos (olhos que não revelam, olhos desidratados, vazios, sedentos)?

não seria melhor ser, ao invés de um tipo convencional, de um tipo adequado às rodas sociais, um pouco de tudo, não seria melhor ser um pouco de anjo & de duende? (duende: entidade fantástica, das lendas, que geralmente usa seus poderes em travessuras para assustar os habitantes de uma casa.)

cansam-me estas coisas que digo aos senhores.

são cansativas — estas coisas que digo aos senhores — porque, em mim, as paisagens se multiplicam, em mim as paisagens aumentam em quantidade, em mim, as visões, os panoramas, se multiplicam, e, multiplicando-se paisagens visões panoramas, o sonho nasce & tece ardis tamanhos, o sonho nasce & tece grandes armadilhas, o sonho nasce & tece astúcias perigosas.

é sonhando, projetando, desejando, que as esperanças — sejam no que for — são renovadas.

cansam-me as esperanças renovadas porque, uma vez renovadas, as esperanças fazem o verso no meu peito repetir-se.

o verso, no meu peito, repetido: verso de paisagens que se multiplicam, verso de sonho que nasce & tece ardis tamanhos, verso com desejo de ser diferente — pois sendo quem sou, em nada me pareço.

cansam-me estas vontades variadas, cansa-me ser assim quem sou agora: múltiplo, diverso, de formas avessas: planície/monte; treva/transparência.

são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino.

(aos senhores, ao mundo, tenho gestos & olhos convenientes. aos senhores, ao mundo, reservo uma sanidade forjada.)

(de perto ninguém é normal.)

cansa-me ser assim quem sou agora: muitos & antagônicos: planície, monte, treva, transparência.

e cansa-me também o amor porque é centelha (partícula ígnea, partícula de fogo, de um corpo em brasa), cansa-me o amor porque é faísca, e queima, e arde, e exige posse & pranto, sal (das lágrimas) & adeus.

ao amor, a sua rima: dor.

o amor que não dói, que não machuca, que não dilacera, não é amor.

cansa-me, por tanto, o amor.

em tudo — nas coisas que vos digo, nas esperanças renovadas, no verso repetido no meu peito, no ser que sou agora, no amor — sempre um cansaço.

ainda assim, ainda que o cansaço perpasse & permeie tudo (as coisas que vos digo, as esperanças renovadas, o verso repetido no meu peito, o ser que sou agora, o amor), os senhores querem, desejam, o verso que aos senhores posso dispor?

se os senhores querem, se desejam, então que assim seja.

mas entendam: viverão suas vidas nesses breus.

pois o verso que aos senhores posso dispor nada esclarece, nada clarifica, nada ilumina: sendo quem sou, em nada me pareço: são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino…

o verso, aqui, não vivencia a luz: o verso versa sua vida nesses breus.

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(do livro: Exercícios. autora: Hilda Hilst. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)

___________________________________________________________________________________________________

Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
E o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

LUZ DO SOL, LUZ DA RAZÃO
4 de setembro de 2013

Luz do sol

___________________________________________________________________________________________________

(para o Otto, meu anjo da guarda, que, hoje, completa os seus 7 anos)

___________________________________________________________________________________________________

luz do sol, que a folha traga & traduz: a folha traga a luz solar & a traduz em verde novo (a renovação do seu verde, de tempos em tempos), em graça, em vida, em força (o fortalecimento do ser através da luz que é tragada & traduzida em verde novo), em luz (a quem sabe mirar & ad-mirar, robusta, sadia, vigorosa, a beleza natural).

por isso, e mais, tu, sol, é que me alegras. a mim & ao mundo, pois sou eu, paulo sabino, parte integrante da vida mundana.

encaro-te de frente, sol, e, embora tua luz me cegue, ergo meus olhos acima & recebo-a a flux, isto é, recebo a tua luz em grande quantidade.

sonhar é para a noite: quando se está a dormir, sem consciência de si & do entorno: sonhar é como morrer.

sonhar é para a noite: mas para o dia, ver!

sim, ver com ambos os olhos, com ambos devassar os astros & os deuses sobre o altar em que residem, com ambos os olhos devassar, ver onde firmamos os pés & erguemos nossas mãos.

e quer nos montes altos, quer nos terrenos chãos, a terra é sempre amiga se, à luz da aurora, à luz do alvorecer, a terra se erguer.

pois, à luz da aurora, à luz do alvorecer, conseguimos bem ver em que tipo de terreno pisamos — se perigoso porque movediço, ou se seguro porque sólido.

e quer nos montes altos, quer nos terrenos chãos, é sempre bom viver se, ao amor, a vida se erguer.

pois, à luz do amor, à luz de sentimento tão nobre, a vida entrega-se pródiga, a vida permite-se longânime, a vida propõe-se elevada & inventiva.

em toda a parte, as ondas desse mar, infinito no horizonte, por mais que andemos longe, nos podem embalar se tivermos o mar conosco, dentro de nós.

em toda a parte, o peito sente brotar a flux, sente brotar em profusão, e sempre & de maneira farta, a vida…

vida: calor & luz!

nos seixos dessas praias, se o sol lá lhes bater, num átomo de areia, deus pode aparecer: deus pode erguer-se à luz solar: pois se considerarmos real a existência de deus e, a partir da sua existência, a sua presença em todas as coisas (como dizem os que nele crêem), então deus é flores & árvores & mares & rios & céus & bichos & gentes. se assim o é, então intitulemo-lo flores & árvores & mares & rios & céus & bichos & gentes.

desprezos para a terra, como se ela fosse menos que o paraíso oferecido nas alturas?! também a terra é céu! afinal, para quem nele crê, deus está em tudo que há no mundo, deus está nas coisas terrenas (nas flores nas árvores nos mares nos rios nos céus nos bichos nas gentes); e a terra que pisamos, em verdade, está suspensa no espaço sideral, a terra é um componente estelar se avistada de fora (se observada da lua, por exemplo).

a terra mora no céu.

e quem, lá desse espaço infinito denominado sideral, vir a terra brilhar ao longe, dirá que é paraíso & um éden a sorrir.

(o melhor lugar do mundo é aqui & agora. os momentos felizes não estão escondidos nem no passado & nem no futuro.)

há quem propale que este mundo é ruim, nocivo, porque não moramos junto às estrelas no céu; não morando junto às estrelas, para alguns, vivemos “embaixo”.

mas a terra, que é nossa morada, esta habita o céu! portanto: o que é exatamente “embaixo”? e, ainda que consideremos morar “embaixo”, que tem estar “embaixo”, qual seria o problema de morar “embaixo” de alguma coisa?

ninguém nos condenou à eterna noite, ninguém nos condenou à eterna escuridão, ninguém nos condenou à eterna sombra, ninguém!

a luz solar tudo alcança!

não! não há “céu” & “inferno”: divino é quanto é! divino é o existir!

para que a rocha brilhe, basta que o sol lhe dê a sua luz. basta que o sol beije a lua para que ela, apagada nas alturas, se transforme em sol também.

e a escuridão da nossa alma, as trevas que nos povoam, a nossa cerração, como se desbarata, como se dissipa, como se afasta, com a aurora da razão!

a razão crítica pesa & pondera. a razão crítica se informa & estuda. é a razão crítica que nos faz ser o lobo do lobo do homem. é a razão crítica que nos impede de terminar ovelhas no bolso de um pastor.

e se a razão, surgindo, esclareceu, clareou, a nossa alma, também tu, sol, no espaço, surges como razão do céu azul que avistamos na festa das retinas.

por isso é que me alegras o coração, ó luz!

por isso vos estimo, luzes maiores da minha existência: tu, sol, e tu, razão!

(luz, quero luz! mais, quero mais! nem que todos os barcos recolham ao cais, que os faróis da costeira me lancem sinais! arranca, vida! estufa, vela! me leva, leva longe, longe, leva mais!)

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________________________________________

(do livro: Antologia. autor: Antero de Quental. organização: José Lino Grünewald. editora: Nova Fronteira.)
___________________________________________________________________________________________________

LUZ DO SOL, LUZ DA RAZÃO

 

Tu, sol, é que me alegras!
A mim e ao mundo. A mim…
Que eu não sou mais que o mundo,
Nem mais que o céu sem fim…

Nem fecho os olhos baços
Só porque os fere a luz…
Ergo-os acima — e embora
Cegue, recebo-a a flux!

Crepúsculos são sonhos…
E sonhos é morrer…
Sonhar é para a noite:
Mas para o dia, ver!

Sim, ver com os olhos ambos,
Com ambos devassar
Os astros n’essa altura,
E os deuses sobre o altar!

Ver onde os pés firmamos,
E erguemos nossas mãos!
E quer nos montes altos,
Quer nos terrenos chãos,

É sempre amiga a terra
E é sempre bom viver,
Se a terra à luz da aurora
E a vida ao amor se erguer!

Em toda a parte as ondas
D’esse infinito mar,
Por mais que andemos longe,
Nos podem embalar!

Em toda a parte o peito
Sente brotar a flux,
E sempre e à farta, a vida…
Vida — calor e luz!

Nos seixos d’essas praias,
Se o sol lá lhes bater,
N’um átomo de areia,
Deus pode aparecer!

Bate-lhe o sol de chapa,
E um deus se vê também
No pó, tornado um astro
Como esses que o céu tem!

Desprezos para a terra?!
Também a terra é céu!
Também no céu a impele
O amor que a suspendeu…

E quem lá d’esse espaço
Brilhar ao longe a vir
Dirá que é paraíso
E um éden a sorrir!

Embaixo! o que é embaixo?
Embaixo estar que tem?
Ninguém à eterna sombra
Nos condenou! ninguém!

Se até nos surdos antros,
Nas covas dos chacais,
Penetra o sol, vestindo-os
Com raios triunfais

Se ao céu até se viram
As bocas dos vulcões…
E têm os próprios cegos
Um céu… nos corações!

Não! não há céu e inferno:
Divino é quanto é!
Para que a rocha brilhe,
Basta que o sol lhe dê…

Basta que o sol lhe beije
As chagas que ela tem,
E a morta d’essa altura,
A lua, é sol também!

E as trevas da nossa alma,
A nossa cerração,
Oh! como se desbarata
A aurora da razão!

Mas se a razão, surgindo,
Nossa alma esclareceu,
Também tu, sol, no espaço
Surges, razão do céu…

Por isso é que me alegras,
Ó luz, o coração!
Por isso vos estimo…
Tu, sol, e tu, razão!

(1865.)

ETERNO APRENDIZ: MUDA
9 de maio de 2013

Muda

______________________________________________________________________

a gente muda.

(tudo muda, o tempo todo, no mundo.)

a gente muda, a gente se transforma, a gente se modifica, com o passar do tempo.

o paulo sabino de hoje, com 36 anos, não é o mesmo paulo sabino com 26 anos, que também não foi o mesmo paulo sabino com 16 anos, que também não foi o mesmo com 6 anos, e que também não será o mesmo com 46, ou 56, ou 66 anos.

as mudanças são inerentes à existência.

(tudo muda, o tempo todo, no mundo.)

a gente muda, a gente se transforma, a gente se modifica, com o passar do tempo.

e a gente, além de mudar, a gente, muda. a gente, além de mudar, a gente, sempre, muda.

muda: segundo o dicionário houaiss, “planta no início de sua evolução”.

nós, gente, nós, seres humanos, somos seres, por mais crescidos & adultos, sempre muito pequenos frente ao universo que nos abriga & que — justamente por nossa pequenez frente à grandiosidade do universo — desconhecemos desde sempre, numa ignorância atávica. essa ignorância, atávica, devido à nossa pequenez frente ao universo imensurável, nos leva a errâncias, nos leva a caminhos incertos, nos leva a caminhos duvidosos, nos leva a caminhos sujeitos a mudanças.

frente à grandeza do mundo, não passamos de mudas, frente à grandeza do mundo, não passamos de plantas pequeninas, frente à grandeza do mundo, não passamos de plantas nanicas: nunca, a gente, ramagem encorpada, nunca, a gente, árvore aprontada, nunca, a gente, frondosa na estrada: sujeitos a errâncias, sujeitos a mudanças, por conta da nossa pequenez frente ao universo imensurável: seres inacabados, inconstantes, incoerentes, incompletos.

(é justamente essa incompletude que nos impulsiona à vida, que nos impulsiona a descobertas.)

a gente muda muda muda, sempre muda, sempre se transforma, sempre se transmuta, e sempre planta pequenina, e sempre planta nanica, frente à grandeza do universo que nos abriga.

a gente muda muda muda, e parte, e vai embora, e deixa muita coisa pela estrada.

(é justamente esse movimento, o de partir, o de ir embora, o de quebrar, o de romper consigo, que faz com que o paulo sabino de hoje, com 36 anos, não seja o mesmo paulo sabino com 26 anos, que também não foi o mesmo paulo sabino com 16 anos, que também não foi o mesmo com 6 anos, e que também não será o mesmo com 46, ou 56, ou 66 anos.)

porém contudo entretanto todavia, ao mesmo tempo em que a gente parte, ao mesmo tempo em que a gente vai embora, ao mesmo tempo em que a gente se deixa, parte de nós, na estrada, perdura, parte de nós, na estrada, permanece, parte de nós não parte na estrada: só o que nos interessa, só o que nos importa, continua.

a gente muda muda muda & parte, vai embora, deixa um tanto da gente — não tudo da gente — no meio da estrada. o que a gente não larga, o que a gente não abandona, perdura (sabe-se deus até quando…).

a gente: sempre muda: a gente: sempre planta pequena, nanica, sempre planta em desenvolvimento, nunca árvore aprontada.

(e que bom: é justamente essa incompletude que nos impulsiona à vida, que nos impulsiona a descobertas.)

sigamos eternos aprendizes da vida.

(tudo muda, o tempo todo, no mundo.)

beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________________________

(autor: Paulo Sabino.)

 

a gente muda muda muda
sempre muda

nunca ramagem encorpada
nunca árvore aprontada
nunca frondosa na estrada

muda muda muda
e parte
perdura

__________________

(Para Ana Paula Mattos.)