CDA EM PROSA
18 de setembro de 2014

CDA em prosa

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CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: um dos poetas da minha vida, um dos maiores da língua portuguesa.

e, como grande poeta, foi um apaixonado pela palavra.

tamanha paixão permitiu, portanto, que o mestre de itabira não só versejasse com a desenvoltura que lhe foi característica como também proseasse com a mesma sofisticação empregada aos versos.

a palavra em drummond: seja prosa, seja poesia: própria, peculiar, autêntica.

a palavra em drummond: seja prosa, seja poesia: ensinamentos para o bem viver & para o bem escrever.

aqui, um tanto de cda em prosa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(trechos de entrevistas extraídos do livro: Encontros — Carlos Drummond de Andrade. organização: Larissa Pinho Alves Ribeiro. editora: Azouge Editorial.)

 

 

O poeta é um homem qualquer, apenas municiado de técnicas de expressão verbal para exteriorizar emoções e ideias que são peculiares ao gênero humano em graus diferentes e mais ou menos conscientes. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Seu relacionamento com o balconista, com o caixa do banco, o deputado, o médico, é o de todas as pessoas. Meu processo de elaboração poética não tem nada de especial. Parece que foi Paul Valéry quem disse que o primeiro verso é ditado pelos deuses e os demais saem da cabeça da gente. Eu sinto, às vezes, vontade de fazer um poema sobre determinado tema, e um ou mais versos me vêm sem premeditação ou concentração. Os outros se encadeiam num estado de certa efervescência emocional, que pode durar minutos e talvez meia hora, se tanto. Depois, o espírito trabalha mais friamente, mais consciente de que é preciso desenvolver a trama iniciada sem querer. Isso pode ou não ter consequência. Se não tiver, desisto, porque não quero sofrer com um projeto que não conduz a nada. Mas a provocação de um tema, ditada por outra pessoa, pode também conduzir à criação, se ele bole conosco e quando se relaciona com veladas preocupações que guardamos, sem intenção de explorá-las.

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Eu leio pouco. Releio muito. Releio sempre Machado de Assis, que é uma cachaça na minha vida. Devia dizer o meu uísque, não? Mas não, é a minha cachaça. Releio os poetas franceses, os clássicos portugueses.

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Não separo autor da obra. Acho isto impossível. Apenas acho que a obra pode e deve circular independentemente da pessoa física do autor.

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Ao escrever sobre um fato, estou necessariamente “vivendo”, na medida do possível, esse fato ou tentando vivê-lo de acordo com a minha natureza.

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Não costumo escrever sem emoção. Podem achar que a minha poesia é demasiado fácil, demasiado assim, lacrimogênia; eu produzo emoção, eu quero comover, mas a realidade é que eu não sei fazer poesia pensada, não tenho capacidade para isso.

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Considero-os [os novos autores] com o máximo de simpatia, porque o espetáculo da vida em movimento e desenvolvimento é sempre bom de se ver. Mas não posso levar a sério as tentativas esporádicas para fazer dos novos um partido literário em luta com os mais velhos. Isso é tolo e não adianta coisa alguma. Querer combater um escritor porque ele já tem vinte anos [de carreira literária] é um índice da maior pobreza: a deficiência da noção de tempo, e da riqueza que pode haver no tempo anulado e sedimentado. Sinto-me perfeitamente moço aos meus quarenta e tantos anos, enquanto vejo por aí alguns rapazes dos mais tenros, vítimas de uma circunspecta mentalidade acadêmica, incapaz de aventura pessoal ou literária, preocupados em organizar a sua glória publicitária e invejando friamente os que se tornaram conhecidos antes deles. Esses novos na realidade são os piores velhos, e esses eu não posso admirar, por maior que seja a minha cumplicidade com a juventude em geral. Desconfio dos que vivem pregando a necessidade de sufocar influências, mas continuam docilmente influídos. Por mim, sempre aconselhei os que me procuram a não continuar a experiência dos mais velhos, e mesmo a reagir contra ela. Mas fazer política em torno desses assuntos, atacar os escritores de gerações anteriores para tomar conta da posição que eles ocupam, como se houvesse uma posição material a conquistar, e a vida literária se fizesse em termos de corrida de cavalos, isso é ridículo e triste.

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A palavra para mim é tudo. Minha ferramenta de trabalho e o produto desta ferramenta. Não desconfio dela, mas de minha capacidade de usá-la com a propriedade, o rigor e a sutileza que o trabalho literário deve exigir do escritor.

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Sou inteiramente otimista. Sem deixar de ser pessimista com relação à vida. Uma vida que se passa no meio de bombas nucleares e outras bombas menores, eu acho que não é, realmente, uma coisa muito alegre. Mas a gente vai fazer o possível para viver bem, viver em harmonia, em paz com os outros. E acho que a poesia preenche essa finalidade. A poesia faz bem. Ela cria certo contato, certa conveniência com as pessoas. Desde o namorado para a namorada, como desde o amigo para o inimigo, para a pessoa que recebe uma mensagem fraterna e, talvez, se torne menos inimigo.

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Sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma. Não tenho religião, não tenho partido político. Vivo em paz com a minha consciência.

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Tenho uma profunda saudade e digo mesmo: no fundo, continuo morando em Itabira, através das minhas raízes e, sobretudo, através dos meus pais e meus irmãos, todos nascidos lá e todos já falecidos. É uma herança atávica profunda que não posso esquecer.

 

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