LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
25 de julho de 2017

(Na foto, o convite para o lançamento)
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Na próxima segunda-feira, dia 31 de julho, a partir das 19h, na Casa do Saber (shopping Leblon — av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 101, 1º piso), a poeta e psicanalista Sandra Niskier Flanzer lança o seu mais novo livro de poesia, “Do quarto”, pela editora 7Letras.

Recebi, da autora, o convite, que muito me honra e alegra, para fazer um recital, onde lerei poemas do livro entrelaçados a poemas de outros poetas que inspiraram a criação de algumas peças poéticas ou que conversam com as leituras da noite. Então, além dos novos poemas da Sandra Niskier Flanzer, teremos a leitura de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Antonio Cicero, Armando Freitas Filho, Fernando Pessoa, entre outros.

O lançamento começa às 19h e o recital, às 20h. Todos mais que convidados.

De brinde, deixo, aqui, um dos poemas “Do quarto” da Sandra, um poema lindo, que fiz questão de selecionar para a leitura, que nos incita a aproveitar a vida, a gastá-la, a usá-la, a deixá-la escorrer, a roê-la, a raspá-la, a fincar as unhas no umbigo do mundo, a fim de que o tempo que nos cabe valha a pena, valha a dor, valha a lágrima, valha a risada, valha a alegria, valha o bem-estar; a fim de que o tempo que nos cabe, em sua inutilidade (pois a vida, em si, não possui sentido, a não ser o sentido que damos a ela de acordo com os nossos objetivos e desejos), seja satisfatório, a ponto de gostarmos da vida, a ponto de gostarmos das nossas experiências vidafora, almadentro.

(A vida gosta de quem gosta da vida, não nos esqueçamos nunca desta lição.)

Venham! Eu e a Sandra esperamos vocês!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

IN UTILIZAR

 

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bica
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa justo.
Perder, perder, ceder ao outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.

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SER FELIZ
30 de junho de 2017

(Foto: Thiago Facina)
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dia 24 de junho, dia de são joão, dia de xangô menino, dia do santo festeiro: dia em que este que vos escreve completou as suas 41 primaveras. muitíssimo bem vividas, graças.

não sou pessoa de saudosismos; adoro a vida — e espero continuar assim — no momento em que ela é, no momento presente, no momento atual. acho muito bonito olhar para trás e ver o que este jovem rapaz de 41 anos realizou em prol da poesia e literatura e o que ainda tem a fazer. muita coisa bonita e bacana acontecendo, muita coisa bonita e bacana pra acontecer, muita coisa bonita e bacana pra compartilhar. aguardem.

e, nesta trajetória que me cabe, com tanta coisa a ser realizada, apesar dos pesares, apesar dos perigos, apesar de todas as pedras no meio do caminho, sigo apostando na flor, no amor, na alegria. aposto no bem-estar.

ser feliz com as minhas realizações e também ser feliz com a felicidade alheia: a felicidade do outro, se dermos espaço a ela, pode contagiar-nos a ponto de aplacar algumas feridas que trazemos. a ponto de aprendermos com quem vive a felicidade apesar dos pesares, apesar dos perigos, apesar de todas as pedras no meio do caminho. a ponto de percebermos que o nosso umbigo não é tão fundo e que os nossos problemas não são os maiores.

os momentos felizes não estão escondidos nem no passado e nem no futuro. a vida gosta de quem gosta da vida. eu sou um que gosto.

fique feliz porque outras pessoas estão felizes. porque os filhos de outras pessoas estão em escolas melhores. sorria porque alguém deixou de ser analfabeto. alegre-se por aqueles que também têm ceia. porque o outro pode simplesmente ser você, recebendo de volta tudo aquilo de bom que você, ao longo da sua existência, desejou aos outros.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Flores de alvenaria. autor: Sérgio Vaz. editora: Global.)

 

 

SER FELIZ

 

Fique feliz

porque outras pessoas estão felizes.

Um brinde àquele seu amigo que saiu da fila do
………………….desemprego,
ou que encontrou um novo amor.

Por soldados de uma guerra que não te afeta,
que acabam de se abraçar para selar a paz.
Pelas pessoas que você nem conhece,
mas que já não têm problemas de saúde.

Fique feliz
porque os filhos de outras pessoas estão
em escolas melhores e não mais mendigam nos
………………….semáforos,
e uma pessoa que você nunca viu, e provavelmente
………………….nunca verá,
está dando seu beijo pela primeira vez.

Porque a mãe e o pai de alguém
estão chorando de felicidade vendo seu filho com o
………………….diploma na mão.

Sorria
porque alguém deixou de ser analfabeto.

Pela criança que começou a andar.
Por pais e avós que voltaram a ser criança.
Pelo seu amigo que agora tem mais dinheiro e não
………………….anda mais de ônibus, mas de bicicleta.

Porque alguém ao sul de Angola ou a leste da Tan-
………………….zânia acaba de dizer: eu te amo.
Por todas as pessoas que saíram do aluguel e, mais
………………….feliz ainda,
por aqueles que conseguiram seu teto.

Alegre-se
por aqueles que também têm ceia, ou não,
mas que já não disputam migalhas nas calçadas.
E porque sabe que o Deus em que você acredita
………………….não é seu personal trainer, e ele também
………………….deve atender às orações de outras pessoas.

Fique feliz
em saber que o brilho de outras pessoas
não é aquilo que te traz escuridão, mas a
………………….luminosidade.
Porque o outro pode simplesmente
ser você recebendo de volta
tudo aquilo de bom que você desejou aos outros.

MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES — 80 ANOS
10 de janeiro de 2017

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(Na foto, o prédio do Museu Nacional de Belas Artes, localizado no Centro da cidade do Rio de Janeiro.)

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Que barato, que honra!

O poeta, curador & intelectual CARLOS DIMURO, integrante da cúpula da instituição, por sugestão do poeta & amigo SALGADO MARANHÃO, me convidou para ser o mestre de cerimônia do evento em comemoração aos 80 ANOS do MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES(!), na sexta próxima (13/01).

Na comemoração, o ministro da Cultura, o atual prefeito da cidade do Rio de Janeiro, empresários, classe artística, os responsáveis pela administração do museu, entre outros, todos ouvindo o Paulo Sabino falar; imensas alegria & satisfação.

Bom começar o ano com esse convite, trabalhando, e abrindo frentes a partir desse acontecimento.

Por conta, um poema de minha autoria, leve, simples, desejando o que desejo para este 2017 que inicia.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

NA TRILHA DO MEU MOMENTO

 

que este dia lindo
seja um dia bem vindo
(cheio de
acontecimentos
vazios de
aborrecimentos)
na trilha do
meu momento

AO NOSSO AMOR, UMA ETERNA ESTRÉIA
19 de outubro de 2016

paulo-sabino-jurema-armond

(Há pouco tempo, indo votar — ela, já desobrigada.)

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(A figa, antes do meu pai, agora minha.)
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“PAULO SABINO, meu irmão,

Que lindo o seu poema para a ‘nossa mãe’! Desejo para a ‘CABOCLA JUREMA’ uma longa e boa vida, alegria e… Axé! Muito Axé! Com abraços, MARTINHO DA VILA.”

(Martinho da Vila — cantor & compositor)

 

 

Que alegria! Vê-la completar o seu septuagésimo quarto ano novo (74) lúcida, recém-recuperada de um problema no cérebro.

Em junho, há exatos 4 meses, me perguntava como seria este dia para ela & para mim, com o medo de que ela ainda estivesse doente.

Escrevi o texto que segue em itálico para amigos bem no início do mês de julho:

 

Queridos & Queridas,

Há quase 2 meses, a minha mãe, peça fundamental da minha existência, a grande responsável pelo meu amor à literatura e, mais especificamente, à poesia, a minha cabocla Jurema Armond, não anda bem da saúde.

Estamos na luta para diagnosticar o que, há quase 2 meses, vem causando nela uma fraqueza grande nas pernas & nos braços (precisa de ajuda para absolutamente tudo: para levantar, sentar, deitar, comer, tomar banho) & uns desnorteios de tempo & espaço (agora há pouco tive que consolá-la, ela estava aos prantos, desejando chegar em casa, chegar no lugar de onde ela não sai há quase 2 meses, não contando as saídas para consultas médicas & exames).

Tem sido bem difícil para mim. Sou filho único, meu pai já não está mais entre nós, e sou eu só a tomar as decisões sobre a saúde da minha cabocla, a gerir a casa & as contas. Cansaço emocional & físico imensos.

Hoje, procurando travessas & potes aqui em casa, a fim de organizar a cozinha para a pessoa que me ajudará com a casa duas vezes na semana, me deparei com esta figa de madeira do meu pai, de cuja existência nem mais me lembrava. Chorei tanto ao vê-la, ao tocá-la, tudo tão simbólico neste momento — encontrar na estante da sala uma figa, e que era do meu pai, de quem, pela sensibilidade & humor ímpar, sinto tanta falta, inda mais num momento como este…

Agora ela está na minha mesa de trabalho, acompanhada das minhas outras pequenas preciosidades. Está, na mesa, exatamente de frente para mim.

Tomara que esta figa, antes do meu pai, agora minha, me traga a sorte & o axé necessários na melhoria desta situação.

E conto com as preces & orações & energia positiva de quem acredita em preces & orações & energia positiva. Incluam a minha cabocla Jurema Armond em seus pedidos de saúde & recuperação. Torçam comigo.

E vamos que vamos. A vida urge, o tempo não pára.

 

Depois de muitos medos, muitas incertezas, muitas dificuldades, muitas lágrimas, e muitos exames, no início de agosto conseguimos o diagnóstico & desde então ela só faz melhorar.

O poema que segue, eu o escrevi para ela há muitos anos. Mais do que nunca, faz todo o sentido publicá-lo hoje, 19 de outubro, em homenagem à minha cabocla.

Mais do que nunca, depois deste mau tempo que atravessamos, o sol da saúde desponta com a sua luz & o seu calor, mostrando-nos que a vida renova-se a cada instante, que, por isso, a vida é uma eterna estréia. Nunca sabemos que momento da trama nos aguarda no próximo capítulo; o script/roteiro é escrito no decorrer de cada cena.  Com isso, o amor também faz-se & refaz-se a cada vivência nossa.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, eu só posso desejar que o céu aberto de dias azuis permaneça límpido, sem mudanças tão bruscas.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, a conclusão de que, aqui, o amor existe — firme, forte, em riste.

Graças!

Feliz aniversário! Feliz 74 primaveras vencidas!

Beijo todos & especialmente a minha cabocla Jurema Armond!
Paulo Sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ESTRÉIA

 

te  escrevo  porque

te  mereço,

porque  és  diva,

a  dama  divina

—  mulher  maravilha

da  minha  ilha

cercada  de  carinhos

por  todos  os  lados —.

todos  os  cafunés,  todas  as  lágrimas  e  desabafos

é  onde  me  acabo  em  ti.

por  ti  meu  riso  ri,

por  isso  minha  prece,

minha  missa.

minha  oração  se  aquece

em  teus  escaninhos,  teus  desalinhos,  teus  achados.

assim  é  que  te  amasso,

te  acho,

te  cato.

porque  humana  sem  desacato.

eu  te  amo  e  é  outra  estréia,

sem  vida  histérica,

sem  amor  estéril.

pelo  contrário,  é  amor  de  império,

o  carinho  sem  enterro  e  cemitério,

a  poesia  livre  de  impropério.

és  o  meu  hemisfério,

o  meu  norte,

os  versos  sem  corte.

eu  te  amo  e  não  há  miséria,

há  beleza,  há  estética

—  revelação, reverberação

que  insiste

em  mostrar  ao  mundo  triste

que,  aqui,  o amor  existe:

firme

forte

em  riste —.

40 ANOS: CORAÇÃO NA BOCA, PEITO ABERTO — VOU SANGRANDO
24 de junho de 2016

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o fim de uma década, da década de 30, para o início de outra, da década de 40.

40 anos para chegar até aqui, para chegar onde cheguei.

e afirmo a quem me lê: começaria tudo outra vez se preciso fosse. a chama em meu peito ainda queima. saiba: nada foi em vão: nenhuma das tristes emoções, nenhuma das alegres emoções. 40 anos: nada foi em vão.

certamente foram necessárias todas as vivências para que o paulo sabino resultasse neste que aqui se apresenta depois de vencidas 40 primaveras.

40 primaveras: a fé no que virá & a alegria de poder olhar pra trás & ver que voltaria a viver neste imenso salão que foi & é a minha existência & seus acontecimentos.

neste imenso salão que foi & é a minha existência, a grande estrela, a musa maior, foi & é a poesia.

a experiência poética, para mim, é uma experiência existencial.

lendo poesia, interpretando os jogos semânticos criados nos, e entre os, versos, reinvento o homem que sou, e, reinventando-me, promulgo a minha constante atualização como homem, ao me perceber humano & mortal a cada ato, ao me perceber ser pensante & atuante na vida; é disso que vem a poesia.

pelo tanto que a poesia comporta, por tudo que a poesia pode, porque a poesia reinventa o homem em sua trajetória, a origem da poesia em nada difere da origem do homem, uma vez que, sem poesia, não há sequer a possibilidade do humano.

pois que a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele; não damos conta de tanto & criamos a poesia, os mitos & as lendas, que acabam por recriar o mundo.

em última instância: a experiência humana é experiência poética, é o modo que temos, que descobrimos, que inventamos, de viver, de experimentar, o mundo que nos cerca.

a poesia é uma condição — e condenação — do homem.

reinventando-me, a poesia me reafirma homem, mortal/ transitório/ inacabado, me reafirma ser pensante & pulsante entre as coisas.

sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.

por ser o verso aquele que pode lançar mundos no mundo, a minha voz, a minha garganta, está sempre à disposição do canto que a poesia contém.

a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele: por isso faço da minha vida a minha melhor poesia.

vida & poesia, poesia & vida: duas coisas, em mim, entrelaçadas, unas, entremeadas: duas coisas que, dentro de mim, não podem ter fim: vida & poesia, poesia & vida: dois azuis no mesmo azul — meu horizonte sem nuvem nem monte.

quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que, palavra por palavra, eis, aqui, neste espaço, uma pessoa se entregando.

coração na boca, peito aberto — vou sangrando: são as lutas desta nossa vida que eu estou cantando: as belezas & as vilezas, as claridades & as escuridões, o caminho aberto & o muro armado.

quando eu abrir minha garganta, essa força tanta (força que carrego nas cordas vocais por cantar a vida, por cantar a poesia), tudo o que você ouvir, esteja certa de que estarei vivendo.

veja o brilho dos meus olhos & o tremor nas minhas mãos quando estou no palco do teatro, dizendo poesia, isto é, dizendo a vida através da poesia.

e se eu chorar & o sal — das lágrimas — molhar o meu sorriso, sorriso que sustento na boca com o pranto do olhar, não se espante; ao invés de espantar-se com o meu sorriso alinhado ao meu pranto, cante, que o teu canto é minha força pra cantar, que o canto de quem canta comigo é de onde extraio a minha força & vontade & coragem de cantar o meu canto: canto de vida — que é o canto da poesia.

40 primaveras vencidas & eu não me arrependo de nada nas 40 voltas em torno do sol: começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor.

em mim o eterno é música (a música dos versos de um poema, a música dos versos de um poema-canção) & amor (pelo céu, pelo mar, pelo sol, pela pessoa, pela pedra, pelo bicho, pelo mato: pela vida).

eu deixar de cantar (o canto da poesia) ou deixar de gostar de você (vida): não há nada, no mundo, que possa fazer.

não há nada no mundo — nem nunca haverá.

em mim, o eterno é música & amor.

que venham mais 40 primaveras!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do álbum: De volta ao começo. artista: Gonzaguinha. autor dos versos: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

 

 

SANGRANDO

 

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa
Se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante
Cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: De volta ao começo. artista & intérprete: Gonzaguinha. canção: Sangrando. autor: Gonzaguinha. citação da canção: Começaria tudo outra vez. autor: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (3ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA
1 de março de 2016

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(Casa lotada na 3ª edição deste projeto)

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(Os participantes desta 3ª edição do projeto: Vitor Thiré, Luiza Maldonado, Danilo Caymmi, Paulo Sabino, Geraldo Carneiro, Camilla Amado, Maria Padilha, Alice Caymmi, Luana Vieira, Bruce Gomlevsky & Tonico Pereira)

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(Paulo Sabino: lendo poemas & o “MC” — Mestre de Cerimônias — da noite)

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(O ator & diretor Bruce Gomlevsky)

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(A atriz Camilla Amado & o homenageado da noite, Geraldo Carneiro)

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(O ator Vitor Thiré & a atriz Luiza Maldonado em trecho de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, tradução de Geraldo Carneiro)

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(Danilo & Alice Caymmi em dueto de canção nascida da parceria entre Danilo Caymmi & Geraldo Carneiro)

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(A atriz Maria Padilha interpretando sonetos de Shakespeare na tradução de Geraldo Carneiro)

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(O mestre Tonico Pereira & a atriz Luana Vieira na encenação do poema épico “Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro”, recém-lançado em livro por Geraldo Carneiro)

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(Com os grandes & queridos Tonico Pereira & Maria Padilha)

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(Com os diretores artísticos da noite: Bruce Gomlevsky & Geraldo Carneiro)

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(Com o grande homenageado da noite, o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro)

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(Ao final de tudo, no camarim, Fernandinha Oliveira & Adil Tiscatti, os administradores do teatro Cândido Mendes, e nossos amigos que ajudaram a lotar a sala nesta 3ª edição)
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“Querido Paulo,

Foi uma noite adorável.

Agradeço a você, pela delicadeza, pela compreensão da poesia, pela pluri-competência.

Saiba que você ganhou pelo menos um amigo, talvez muitos outros.

Espero que tenhamos outras oportunidades de saborear noites tão felizes.

Obrigado por tudo e grande abraço,
Geraldo”.

(Geraldo Carneiro)

 

“Foi lindo Paulo Sabino…Tonico Pereira e Geraldinho mais que brilharam… a jovem que contracenou com Tonico também esteve maravilhosa… parabéns para todos pq tudo estava perfeito.

Ah, me esqueci do Danilo… ele é realmente o máximo.”

(Guilherme Zarvos — poeta & fundador do CEP 20.000)

 

“UMA POESIA ENCANTANTE

poesia culta perfumada por tiradas de amor & humor. bem colocada como uma flor na primavera: lírica & prosaica. poesia que surpreende como um drible de Garrincha. nem moderna nem pós: poesia sem nós pra nós que nos faz vestir cada palavra dita e nos impulsiona ao aplauso e ao bem-estar da surpresa inebriante que só a boa poesia causa. poesia charmosa e manhosa de Geraldo Carneiro.

o teatro Cândido Mendes se encheu de gente para o recital ‘Ocupação Póetica’, um sarau organizado por Paulo Sabino, que ganhou um novo e surpreendente formato com vários convidados interpretando poemas do homenageado. seu estilo saboreado em várias e diferentes vozes. entre os convidados, as atrizes Maria Padilha, o cantor Danilo Caymmi e sua filha Alice Caymmi, além do fantástico ator Tonico Pereira que, só de cuecão vermelho, interpretou um texto bufo macunaímico do poeta intitulado ‘Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro’.

uma noite onde a deusa Poesia ganhou um novo status e falou mais alto.

tiramos o chapéu.”

(Luis Turiba — poeta & fundador da revista BRIC-A-BRAC)

 

 

 

Queridos,

Nem sei como iniciar… talvez eu só tenha mesmo que agradecer, agradecer, agradecer & agradecer imensamente, tudo o que a Poesia, minha Musa Eterna, minha Amante Maior, tem trazido à minha vida.

A 3ª edição do projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), como eu pressentia, foi linda, esplendorosa, um desbunde!

Como é de costume quando vivo intensamente um momento regado a rimas & versos, no dia seguinte ao evento eu era — e ainda sou! — o puro sumo do amor, no dia seguinte ao evento eu era — e ainda sou! — amor da cabeça aos pés!

Casa lotada, público quente, participantes pra lá de talentosos & especiais, comemorando os 40 anos de produção literária do grande poeta, tradutor & dramaturgo — hoje também um grande & querido amigo meu — Geraldo Carneiro!

Eu só sei de uma coisa: quanto mais melhor! A idéia é de que a “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), aconteça bimestralmente!

Fernandinha Oliveira, Adil Tiscatti, Rafael Roesler Millon, Geraldinho Carneiro, Bruce Gomlevsky, Tonico Pereira, Vitor Thiré, Maria Padilha, Camilla Amado, Luiza Maldonado, Luana Vieira, Danilo & Alice Caymmi, amigos que foram assistir, público de modo geral, obrigadíssimo por tudo, por toda a beleza que ficou impressa na minha memória & no meu coração.

Temos vídeos das apresentações! Irei, com mais calma & tempo, disponibilizando aos interessados.

Aqui, o vídeo & o poema de abertura desta 3ª edição do projeto & mais um outro poema, que complementa o lido por mim.

Viva a Poesia! Viva a “Ocupação Poética”! Vida longa ao projeto!

Valeu!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Abertura desta ediçãoPaulo Sabino recita Madrigal triste, poema de Geraldo Carneiro.)

 

MADRIGAL TRISTE  (Geraldo Carneiro)

eu sou como o rei de um país ensolarado
e todos os vadios me devem vassalagem
assim como as mariposas, as sereias
& os moluscos da beira-mar
aos 25 anos decaptei
o busto de meu avô ex-monarca
e inaugurei uma nova ordem natural
aboli por decreto a realidade
e abdiquei também de certas pompas

a preguiça infame
jamais me permitiu demarcar
os limites de meu reino
digamos então que confino
a Leste com o Oceano Atlântico
ao Sul com o Paraíso
a Oeste com as ficções selvagens
de José de Alencar
e ao Norte com minha morte

tudo isso não me basta
(ai de mim) queria mesmo era colher
o grito pleno da tua alma cheia de tormentos

(maiores informações em Madrigal Triste,
de Charles Baudelaire)
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(do livro: Poesia e prosa — volume único. autor: Charles Baudelaire. poema extraído originalmente do livro: As flores do mal. tradução de “As flores do mal”: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)

 

 

MADRIGAL TRISTE

 

1

Que me importa que saibas tanto?
Sê bela e taciturna! As dores
À face emprestam certo encanto,
Como à campina o rio em pranto;
A tempestade apraz às flores.

Eu te amo mais quando a alegria
Te foge ao rosto acabrunhado;
Quando a alma tens em agonia,
Quando o presente em ti desafia
A hedionda nuvem do passado.

Eu te amo quando em teu olhar
O pranto escorre como sangue;
Ou quando, a mão a te embalar,
A tua angústia ouço aflorar
Como um espasmo quase exangue.

Aspiro, volúpia divina,
Hino profundo e delicioso!
A dor que o teu seio lancina
E que, quando o olhar te ilumina,
Teu coração enche de gozo!

2

Sei que o teu peito, que palpita
À sombra de amores passados,
Qual uma forja ainda crepita,
E que a garganta enfim te habita
Algo do orgulho dos danados;

Mas enquanto, amor, no que sonhas
Do Inferno a imagem não for dada,
E dessas visões tão medonhas,
Em meio a gládios e peçonhas,
De pólvora e ferro animada,

Sempre de todos te escondendo,
Denunciando em tudo a desgraça
E à hora fatal estremecendo,
Não houveres sentido o horrendo
Aperto do asco que te abraça,

Não poderás, rainha e escrava,
Que apenas me amas com pavor,
Nos abismos que a noite escava,
Dizer-me, a voz trêmula e cava:
“Sou tua igual, ó meu Senhor!”

MINHA SEREIA, RAINHA DO MAR
2 de fevereiro de 2016

Paulo Sabino_Pés à beira-mar

Ipanema_Cagarras & Stand Up Paddle

(O elemento que mais fascina, o elemento do puro delírio, o elemento que vira a cabeça, de Paulo Sabino: água marinha: mar: útero às vistas: berço de todas as existências.)
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dia 2 de fevereiro é dia de festa no mar. portanto, deixo, aqui, a minha saudação à rainha do elemento que mais me fascina, elemento do meu delírio, elemento que vira a minha cabeça: o mar.

dia 2 de fevereiro: dia de saudar iemanjá, a grande mãe de todos os orixás.

muito me impressiona que tanto a ciência quanto as lendas africanas convirjam — ainda que por caminhos díspares — ao dizer que a origem & o desenvolvimento dos seres — os primeiros indícios de vida — se deram com o/no mar, se deram com as/nas águas marinhas.

o mais abundante elemento natural deste planeta azul, água para onde correm todas as águas, útero às vistas, criatório de tantas & diversas vidas, onde a mãe-d’água iemanjá permite que boiemos como quando no ventre de nossas mães-da-terra.

eu, até hoje, não aprendi a viver sem água & sem o mar à minha contemplação.

(e espero nunca aprender!)

em sua homenagem, uma compilação de textos & dois poemas-canções (com direito ao áudio das canções) que traçam o perfil & contam um pouco dos mitos que envolvem a mais prestigiosa entidade feminina da mitologia & dos cultos africanos.

salve minha mãe-d’água iemanjá!
salve a rainha do meu amante mor: o mar!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do: Dicionário do folclore brasileiro. autor: Luís da Câmara Cascudo. editora: Global.)

 

 

IEMANJÁ.  Mãe-d’água dos iorubanos. Orixá marítimo, a mais prestigiosa entidade feminina dos candomblés da Bahia. Recebe oferendas rituais, festas lhe são dedicadas, indo embarcações até alto-mar atirar presentes. Protetora de viagens, no processo sincrético das deusas marinhas passou a ser Afrodite, Anadiômene, padroeira dos amores, dispondo uniões, casamentos, soluções amorosas. Sua sinonímia é grande: Janaína, Dona Janaína, Princesa do Mar, Princesa do Aiocá ou Arocá, Sereia, Sereia do Mar, Oloxum, Dona Maria, Rainha do Mar, Sereia Mucunã, Inaê, Marbô, Dandalunda. Tem o leque e a espada como insígnias; seus alimentos sagrados são o pombo, o milho, o galo, o bode castrado; as cores rituais são o branco e o azul (…). Protege, defende, castiga, mata. Por vezes se apaixona. Tem amantes, os quais leva para o fundo do mar. Nem os corpos voltam. É ciumenta, vingativa, cruel, como todas as égides primitivas. A festa de Iemanjá na cidade de Salvador é em 2 de fevereiro, Nossa Senhora do Rosário. Nos candomblés e xangôs é representada, no salão exterior das danças, como uma sereia.
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(do livro: Mitologia dos orixás. autor: Reginaldo Prandi. editora: Companhia das Letras.)

 

 

IEMANJÁ AJUDA OLODUMARE NA CRIAÇÃO DO MUNDO

 

Olodumare-Olofim vivia só no Infinito,
cercado apenas de fogo, chamas e vapores,
onde quase nem podia caminhar.
Cansado desse seu universo tenebroso,
cansado de não ter com quem falar,
cansado de não ter com quem brigar,
decidiu pôr fim àquela situação.
Libertou as suas forças e a violência
delas fez jorrar uma tormenta de águas.
As águas debateram-se com rochas que nasciam
e abriram no chão profundas e grandes cavidades.
A água encheu as fendas ocas,
fazendo-se os mares e oceanos,
em cujas profundezas Olocum foi habitar.
Do que sobrou da inundação se fez a terra.
Na superfície do mar, junto à terra,
ali tomou seu reino Iemanjá,
com suas algas e estrelas-do-mar,
peixes, corais, conchas, madrepérolas.
Ali nasceu Iemanjá em prata e azul,
coroada pelo arco-íris Oxumarê.
Olodumare e Iemanjá, a mãe dos orixás,
dominaram o fogo no fundo da Terra
e o entregaram ao poder de Aganju, o mestre dos vulcões,
por onde ainda respira o fogo aprisionado.
O fogo se consumia na superfície do mundo e eles apagaram
e com suas cinzas Orixá Ocô fertilizou os campos,
propiciando o nascimento das ervas, frutos,
árvores, bosques, florestas,
que foram dados aos cuidados de Ossaim.
Nos lugares onde as cinzas foram escassas,
nasceram os pântanos e nos pântanos, a peste,
que foi doada pela mãe dos orixás ao filho Omulu.
Iemanjá encantou-se com a Terra
e a enfeitou com rios, cascatas e lagoas.
Assim surgiu Oxum, dona das águas doces.
Quando tudo estava feito
e cada natureza se encontrava na posse de um dos filhos de Iemanjá,
Obatalá, respondendo diretamente às ordens de Olorum,
criou o ser humano.
E o ser humano povoou a Terra.
E os orixás pelos humanos foram celebrados.

 

 

IEMANJÁ DÁ À LUZ AS ESTRELAS, AS NUVENS E OS ORIXÁS

 

Iemanjá vivia sozinha no Orum.
Ali ela vivia, ali dormia, ali se alimentava.
Um dia Olodumare decidiu que Iemanjá
precisava ter uma família,
ter com quem comer, conversar, brincar, viver.
Então o estômago de Iemanjá cresceu e cresceu
e dele nasceram todas as estrelas.
Mas as estrelas foram se fixar na distante abóboda celeste.
Iemanjá continuava solitária.
Então de sua barriga crescida nasceram as nuvens.
Mas as nuvens perambulavam pelo céu
até se precipitarem em chuva sobre a terra.
Iemanjá continuava solitária.
De seu estômago nasceram então os orixás,
nasceram Xangô, Oiá, Ogum, Ossaim, Obaluaê e os Ibejis.
Eles fizeram companhia a Iemanjá.

 

 

IEMANJÁ É NOMEADA PROTETORA DAS CABEÇAS

 

Dia houve em que todos os deuses
deveriam atender ao chamado de Olodumare para uma reunião.
Iemanjá estava em casa matando um carneiro,
quando Legba chegou para avisá-la do encontro.
Apressada e com medo de atrasar-se
e sem ter nada para levar de presente a Olodumare,
Iemanjá carregou consigo a cabeça do carneiro
como oferenda para o grande pai.
Ao ver que somente Iemanjá trazia-lhe um presente,
Olodumare declarou:
“Awojó orí dorí re.”
“Cabeça trazes, cabeça serás.”
Desde então Iemanjá é a senhora de todas as cabeças.

 

 

IEMANJÁ MOSTRA AOS HOMENS O SEU PODER SOBRE AS ÁGUAS

 

Em certa ocasião, os homens estavam preparando
grandes festas em homenagem aos orixás.
Por um descuido inexplicável, se esqueceram de Iemanjá,
esqueceram de Maleleo, que ela também se chama assim.
Iemanjá, furiosa, conjurou o mar
e o mar começou a engolir a terra.
Dava medo ver Iemanjá, lívida,
cavalgar a mais alta das ondas
com seu abebé de prata na mão direita
e o ofá da guerreira preso às costas.
Os homens, assustados, não sabiam o que fazer
e imploraram ajuda a Obatalá.
Quando a estrondosa imensidão de Iemanjá
já se precipitava sobre o que restava do mundo,
Obatalá se interpôs, levantou seu opaxorô
e ordenou a Iemanjá que se detivesse.
Obatalá criou os homens e não consentiria na sua destruição.
Por respeito ao Criador, a dona do mar acalmou suas águas
e deu por finda sua colérica revanche.
Já estava satisfeita com o castigo imposto
aos imprudentes mortais.

 

 

IEMANJÁ IRRITA-SE COM A SUJEIRA QUE OS HOMENS LANÇAM AO MAR

 

Logo no princípio do mundo,
Iemanjá já teve motivos para desgostar da humanidade.
Pois desde cedo os homens e as mulheres jogavam no mar
tudo o que a eles não servia.
Os seres humanos sujavam suas águas com lixo,
com tudo o que não mais prestava, velho ou estragado.
Até mesmo cuspiam em Iemanjá,
quando não faziam coisa muito pior.

Iemanjá foi queixar-se a Olodumare.
Assim não dava para continuar;
Iemanjá Sessu vivia suja,
sua casa estava sempre cheia de porcarias.
Olodumare ouviu seus reclamos
e deu-lhe o dom de devolver à praia
tudo o que os humanos jogassem de ruim em suas águas.
Desde então as ondas surgiram no mar.
As ondas trazem para a terra o que não é do mar.

 

 

IEMANJÁ AFOGA SEUS AMANTES NO MAR

 

Iemanjá é dona de rara beleza
e, como tal, mulher caprichosa e de apetites extravagantes.
Certa vez saiu de sua morada nas profundezas do mar
e veio à terra em busca do prazer da carne.
Encontrou um pescador jovem e bonito
e o levou para seu líquido leito de amor.
Seus corpos conheceram todas as delícias do encontro,
mas o pescador era apenas um humano
e morreu afogado nos braços da amante.
Quando amanheceu, Iemanjá devolveu o corpo à praia.
E assim acontece sempre, toda noite,
quando Iemanjá Conlá se encanta com os pescadores
que saem em seus barcos e jangadas para trabalhar.
Ela leva o escolhido para o fundo do mar e se deixa possuir
e depois o traz de novo, sem vida, para a areia.
As noivas e as esposas correm cedo para a praia
esperando pela volta de seus homens que foram para o mar,
implorando a Iemanjá que os deixe voltar vivos.
Elas levam para o mar muitos presentes,
flores, espelhos e perfumes,
para que Iemanjá mande sempre muitos peixes
e deixe viver os pescadores.
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(do encarte do cd: Mar de Sophia. artista: Maria Bethânia. autor dos versos: Paulo César Pinheiro. gravadora: Biscoito Fino.)

 

 

IEMANJÁ RAINHA DO MAR

 

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d’água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro,
Quem escuta a Sereia cantar.
É com o povo que é praieiro
Que Dona Iemanjá quer se casar.
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mar de Sophia. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Iemanjá Rainha do Mar. música:Pedro Amorim. versos: Paulo César Pinheiro. gravadora: Biscoito Fino.)


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(do encarte do cd: Gal canta Caymmi. artista: Gal Costa. autor dos versos: Dorival Caymmi. gravadora: PolyGram.)

 

 

RAINHA DO MAR

 

Minha sereia, rainha do mar
Minha sereia, rainha do mar
O canto dela faz admirar
O canto dela faz admirar

Minha sereia é moça bonita
Minha sereia é moça bonita
Nas ondas do mar
Aonde ela habita
Nas ondas do mar
Aonde ela habita

Ai, tem dó
De ver o meu penar
Ai, tem dó
De ver o meu penar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Gal canta Caymmi. artista & intérprete: Gal Costa. canção: Rainha do Mar. autor da canção: Dorival Caymmi. gravadora: PolyGram.)

SE EU FOSSE UM PADRE, A MINHA ORAÇÃO: POESIA
5 de janeiro de 2016

Igreja 1
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se eu, paulo sabino, fosse um padre, eu, nos meus sermões aos fiéis, não falaria em deus nem no pecado, muito menos no anjo rebelado (o anjo caído, lúcifer) & os encantos, as magias, das suas seduções, das suas artimanhas para agradar. também não citaria santos & profetas: nada das suas celestiais promessas ou das suas terríveis maldições, nada do jogo injusto & feio da culpa & do castigo.

se eu, paulo sabino, fosse um padre, eu citaria os poetas, rezaria os seus versos, os mais belos, desses que desde a infância me embalaram — pessoa, drummond, bandeira, vinicius, cecília, quintana — & quem me dera que alguns fossem meus!…

porque a poesia, mais do que dizem os santos & profetas & deus & o diabo, a poesia purifica a alma, e um belo poema, ainda que se aparte de deus, ainda que se afaste de deus, ainda que se separe de deus, um belo poema sempre leva a deus. afinal, um belo poema sempre nos leva ao sublime, ao grandioso, ao elevado, ao celestial, ao divino.

poesia: a quem dedico a minha oração: senhora de tudo em mim, dai-me a alegria do poema de cada dia. e que, ao longo do caminho, eu distribua, para as almas, minha porção de poesia, sem que ela — a porção à qual tenho direito — diminua.

poesia tanta & tão minha, que, por eucaristia, eu possa fazê-la sua, fazê-la do leitor (eucaristia: um dos sete sacramentos da igreja católica, além de ser o sacramento central, no qual, segundo a crença, jesus cristo se acha presente, sob as formas do pão & do vinho, respectivamente, com o seu corpo & o seu sangue).

poesia tanta & tão minha, que, por eucaristia, eu possa fazê-la sua, fazê-la do leitor: na poesia, eis a minha carne, eis o meu sangue!

a minha carne & meu sangue em toda a ardente impureza deste humano coração — coração imperfeito, limitado.

mas, ó coração divino, ó coração celestial, ó coração de deus, deixai-me dar de meu vinho, deixai-me dar de meu pão, deixai-me viver a minha eucaristia! que mal faz uma canção, que mal faz um poema? basta que a canção, que o poema, tenha beleza, e nos encante, e nos leve ao sublime, ao grandioso, ao elevado, ao celestial, ao divino.

(um belo poema, ainda que se aparte de deus, ainda que se afaste de deus, ainda que se separe de deus, um belo poema sempre leva a deus.)

o meu templo, a minha religião, é a poesia.

poesia: eis a oração que tenho para lhes oferecer.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Se eu fosse um padre”, poema de Mario Quintana. Em 05/01/2016.)


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(do livro: Nova antologia poética. autor: Mario Quintana. editora: Alfaguara.)

 

 

SE EU FOSSE UM PADRE

 

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância  me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
… e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Oração”, poema de Mario Quintana. Em 05/01/2016.)


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(do livro: Poesia completa. autor: Mario Quintana. editora: Nova Fronteira.)

 

 

ORAÇÃO

 

Dai-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
Às almas eu distribua
Minha porção de poesia
Sem que ela diminua…
Poesia tanta e tão minha
Que por uma eucaristia
Possa eu fazê-la sua
“Eis minha carne e meu sangue!”
A minha carne e meu sangue
Em toda a ardente impureza
Deste humano coração…
Mas, ó Coração Divino,
Deixai-me dar de meu vinho,
Deixai-me dar de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza…

AGRADECIMENTOS: 10ª EDIÇÃO DO SARAU DO LARGO DAS NEVES
24 de dezembro de 2015

Paulo Sabino_Sarau Lgo das Neves_Dezembro 2015 1

Largo das Neves_Igreja

Largo das Neves_Música Sarau Dez 2015
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“Parabéns pelo conjunto de incansáveis e qualificadas atividades em prol da poesia!”

(Antonio Carlos Secchin — poeta, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

 

 

Queridos,

Como descrever as minhas vivências, como definir o encerramento, neste 2015, do sarau do Largo das Neves, que coordeno & organizo com uma turma linda de amigos, no bairro de Santa Teresa (Rio de Janeiro), como agradecer devidamente toda a beleza da noite do evento, ocorrido em 22 de dezembro?…

Começo pela belíssima luz do fim do dia? ou pela dindinha lua, soberana no céu? ou pela quantidade de pessoas comemorando & celebrando a vida com poesia?

Eu realmente não sei… O que sei é que depois de ouvir tanta coisa linda sobre a importância do sarau na vida de algumas várias pessoas, a certeza de que devemos continuar aportou no meu coração, no meu sentimento, de maneira contundente.

Praça lotada, muita gente dizendo poesias lindas lindamente, a generosidade dos mestres do “tambor de crioula” (sim, também teve tambor de crioula!) que pediram a continuidade do sarau por mais tempo, a felicidade estampada nos sorrisos que recebi de cada participante da grande farra literária, o fechamento com o super grupo musical — formado por amigos — que tomou conta do largo fazendo da praça um grande salão de dança ao fim de tudo.

Eu, hoje, sou amor da cabeça aos pés.

Bem-vindos sempre, pessoas queridas, amigos pruma vida inteira, muitíssimo obrigado por fazerem da minha vida algo maior, por ter vocês & a poesia tão presentes.

Presente maior da vida!

Janeiro do ano que chega tem mais!

2015 contente para a poesia!

(Este ano, o “Prosa Em Poema” já alcançou a marca das mais de 103 mil — 103.000 — visualizações!)

O Sarau do Largo das Neves voltará em 2016 com a corda toda, é só aguardar!

No embalo desta alegria que me habita, aproveito para desejar, a todos que festejam, belas noites de festejos.

A minha mensagem aos senhores: mesmo o mundo sendo um grande bocejo, um grande tédio, de tanto que o homem já pesquisou & já apreendeu sobre as coisas mundanas, permitam chegar até vocês a impressentida essência do bem-estar & procurem uma alegria na flor do cotidiano, na beleza & no perfume do dia-a-dia: no vôo de um pássaro & de uma canção: Poesia!

Poesia: a arte, ao meu ver, mais capacitada a nos fazer voar, viajar!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Receita de Ano Novo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

MENSAGEM

 

Todas as coisas foram pesquisadas,
Conferidas, catalogadas em séries.
Não resta mais nenhum prodígio
No seio da Terra, no seio do ar.
O mundo é um bocejo.
Entretanto (como explicar?)
Chega de manso, infiltra-se em nossas paredes
De casa, de carne,
Impressentida essência
(Melodia, memória)
E nos subjuga: Natal.

 

 

PROCURO UMA ALEGRIA

 

Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
— flor do cotidiano —
o voo de um pássaro
e de uma canção.

DIARIAMENTE
9 de dezembro de 2015

Leblon_Rio de Janeiro_Praia

Som & Pausa______________________________________________________

para cada coisa, um seu equivalente, um seu correspondente: para cada coisa, algo que lhe caiba, algo que lhe convenha:

para calar a boca: (óleo de) rícino & seu gosto insuportável, deveras amargo.

para lavar a roupa: sabão em pó.

para viagem longa: jato.

para contas difíceis: calculadora.

para o pneu na lona, furado: jacaré, um tipo de ferramenta utilizada para a sua troca.

para a pantalona: nesga, que é um tecido que se costura entre as duas partes de um vestuário (calça, saia) para aumentar sua largura.

para pular a onda: litoral & seu mar.

para o lápis ter ponta: apontador.

para o pará & o amazonas, estados brasileiros da região norte: látex, substância extraída das seringueiras, árvores comuns a esses lugares.

para trazer à tona, para trazer à superfície: homem-rã, mergulhador profissional que efetua explorações submarinas, operações de resgate & salvamento.

para a melhor azeitona: ibéria, região da europa onde se localizam portugal & espanha, países produtores das melhores azeitonas & dos mais saborosos azeites.

para o presente da noiva: marzipã, doce de amêndoas utilizado como cobertura de bolo.

a folha para o outono: exclusão, estação do ano em que as folhas caem das árvores.

para todas as coisas, a fim de entendê-las, de apreender seus significados: dicionário.

para que todas as coisas fiquem prontas: paciência (no processo de execução).

para abrir a rosa: temporada (o seu processo de aprontamento até o desabrochar).

para quem não acorda: balde — de água gelada.

para a letra torta: (um caderno de) pauta.

para os dias de prova: amnésia, tamanho nervosismo diante das questões.

para quem se afoga: isopor, artefato de poliestireno que flutua em superfície líqüida.

para fechar uma aposta: paraninfo, a testemunha de uma disputa.

para quem se comporta: brinde, um prêmio pelo bom comportamento.

para a mulher que aborta: repouso absoluto.

para saber a resposta: vide-o-verso, olhar o lado oposto à pergunta, à proposição feita.

para a menina que engorda: hipofagia, que é a ingestão de quantidade insatisfatória de alimentos na tentativa de perder peso.

para a comida das orcas: krill, nome dado a um tipo de crustáceo muito semelhante ao camarão, que serve de alimento a outras espécies de baleias, tubarões & arraias.

para o telefone que toca, para a água lá na poça, para a mesa que vai ser posta: para tudo & qualquer coisa: para você, o que você gosta: diariamente.

diariamente, a você, tudo o que lhe caiba, tudo o que lhe convenha: para você, diariamente, o que você gosta.

(a fim de que a vida lhe seja feliz, a fim de que você seja grato à vida.)

(a vida gosta de quem gosta da vida.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Mais. artista: Marisa Monte. autor dos versos: Nando Reis. gravadora: EMI.)

 

 

DIARIAMENTE

 

Para calar a boca: rícino
Para lavar a roupa: omo
Para viagem longa: jato
Para difíceis contas: calculadora
Para o pneu na lona: jacaré
Para a pantalona: nesga
Para pular a onda: litoral
Para o lápis ter ponta: apontador
Para o Pará e o Amazonas: látex
Para parar na Pamplona: Assis
Para trazer à tona: homem-rã
Para a melhor azeitona: Ibéria
Para o presente da noiva: marzipã
Para o adidas e o conga: nacional
Para o outono a folha: exclusão
Para embaixo da sombra: guarda-sol
Para todas as coisas: dicionário
Para que fiquem prontas: paciência
Para dormir a fronha: madrigal
Para brincar na gangorra: dois
Para fazer uma toca: bobs
Para beber uma coca: drops
Para ferver uma sopa: graus
Para a luz lá na roça: 220 volts
Para vigias em ronda: café
Para limpar a lousa: apagador
Para o beijo da moça: paladar
Para uma voz muito rouca: hortelã
Para a cor roxa: ataúde
Para a galocha: verlon
Para ser moda: melancia
Para abrir a rosa: temporada
Para aumentar a vitrola: sábado
Para a cama de mola: hóspede
Para trancar bem a porta: cadeado
Para que serve a calota: volkswagen
Para quem não acorda: balde
Para a letra torta: pauta
Para parecer mais nova: avon
Para os dias de prova: amnésia
Para estourar pipoca: barulho
Para quem se afoga: isopor
Para levar na escola: condução
Para os dias de folga: namorado
Para o automóvel que capota: guincho
Para fechar uma aposta: paraninfo
Para quem se comporta: brinde
Para a mulher que aborta: repouso
Para saber a resposta: vide-o-verso
Para escolher a compota: Jundiaí
Para a menina que engorda: hipofagia
Para a comida das orcas: krill
Para o telefone que toca
Para a água lá na poça
Para a mesa que vai ser posta
Para você o que você gosta: diariamente
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mais. artista & intérprete: Marisa Monte. canção: Diariamente. autor da canção: Nando Reis. gravadora: EMI.)