AUTO-RETRATO FALADO
13 de novembro de 2014

Manoel de Barros 05

Manoel de Barros_Sorriso

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Hoje, 13/11, aos 97 anos, nos deu adeus aquele que foi, é & sempre será um dos maiores poetas da língua portuguesa, Manoel de Barros.

Desde que tive contato com sua figura física & sua poesia, quis o Manoel para meu avô.

Um mestre, um exímio cantador, o homem das ignorãças, das grandezas do ínfimo, o gramático do chão, o arranjador de assobio, o homem que conhecia o “nada” como ninguém, o guardador de águas, o pantaneiro que se dava concertos a céu aberto para solos de ave, o menino do mato, o fazedor de amanhecer.

Manoel de barro lindo, divino, agora voa que nem passarinho, na asa da sua poesia.

Vivas ao Manoel, vivas à sua existência, vivas à sua obra poética!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: O livro das ignorãças. autor: Manoel de Barros. editora: Record.)

 

 

AUTO-RETRATO FALADO

 

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
……..Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
……..chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
……..estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
……..sinto como que desonrado e fujo para o
……..Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo
……..que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
……..gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
……..faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

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BIOGRAFIA
28 de outubro de 2014

Poesia_Nascimento

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biografia: narração, oral, escrita ou visual, das várias fases da vida de uma pessoa ou personagem.

a biografia de um poema:

o poema vai nascendo, vai ganhando vida-versos, num passo que desafia, num caminhar que instiga, que incita: numa hora eu já o levo, eu transporto as palavras, eu carrego os versos, numa hora eu levo o poema porque ao poeta — a mim — cabe a arquitetura de palavras & versos, e outra vez ele — o poema — me guia, tomando-me pelas mãos & escrevendo a sua sina (num dado momento, quando o poema vai ganhando alguma forma, acontece de os próprios ritmo & versos ditarem os caminhos que o poema deve tomar, ainda que tais caminhos, ditados pelos ritmo & versos, contrariem a “opinião”, a “vontade”, do poeta, como se não mais importasse o seu desejo para com os versos).

numa hora eu já o levo, outra vez ele me guia: assim o poema vai nascendo, vai ganhando vida-versos, mas seu corpo lírico ainda é prematuro, ainda é precoce, ainda está em formação, letra lenta, letra que chega vagarosa, pensada, re-pensada, letra lenta que incendeia, letra lenta que queima, com a carícia de um murro (um murro-carícia: um dos grandes efeitos da poesia: efeito feito de contradição, de paradoxo, o que o deixa ainda mais poético — um murro-carícia: a sensação de ser golpeado pelas idéias abrigadas nas palavras que os versos contêm, porém golpeado de forma carinhosa, porque golpeado por palavras, “entes” que incendeiam & machucam & esmurram & ferem apenas metaforicamente).

o poema vai nascendo, vai ganhando vida-versos, sem o ou e que o sustente, e, nascendo sem mão (para ampará-lo no momento da saída total) ou mãe que o sustente (que tenha engravidado & que o esteja parindo), insuportavelmente perverso (a palavra perverso é formada pela palavra “verso”), insuportavelmente malvado, o poema me contradiz: como pode um poema “nascer”, como pode um poema “ser gestado”, sem mão ou mãe que o sustente?

o poeta, sabe-se, não pode ser mãe nem sua mão pode amparar o poema (num dado momento, quando o poema vai ganhando alguma forma, acontece de os próprios ritmo & versos ditarem os caminhos que o poema deve tomar, ainda que tais caminhos, ditados pelos ritmo & versos, contrariem a “opinião”, a “vontade”, do poeta, como se não mais importasse o seu desejo para com os versos).

o poema vai nascendo, vai ganhando vida-versos: jorro de idéias, jato de lampejos, que engole & segura o pedaço duro do grito — diferentemente do recém-nascido, que explode em choro & grito ao nascer, ao nascer o poema engole & segura o pedaço duro do grito, o poema guarda em si a parte difícil, árdua, do grito que gritam os versos (tudo, no poema, quer jorrar, quer gritar, quer explodir, quer expandir em mil sentidos & significações, a serem descobertos na leitura cuidadosa que o poema exige, porém o grito é contido, porque o grito do poema precisa ser revelado, ninguém o escuta, é grito gritado por entre versos & palavras).

o poema vai nascendo, vai ganhando vida-versos: pombo de pluma & granito, pássaro de pena & pedra, feito para alçar vôos nas direções as mais diversas, entretanto alçar vôos em folha de papel — o poema é um pássaro duro, imóvel, intacto, parado, bonito, como se fosse granito.

o poema vai nascendo, vai ganhando vida-versos: jorro de idéias, jato de lampejos, que engole & segura o pedaço duro do grito; pombo de pluma & granito, pássaro de pena & pedra, feito para alçar vôos nas direções as mais diversas, entretanto alçar vôos em folha de papel, duro, imóvel, intacto, parado, bonito, como se fosse granito.

não percamos a viagem: embarquemos nas asas da poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todos os ventos. autor: Antonio Carlos Secchin. editora: Nova Fronteira.)

 

 

BIOGRAFIA

A Ricardo Vieira Lima

O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenta que incendeia
com a carícia de um murro.

O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.

Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.

O NAVEGANTE & SUA BIOGRAFIA COM PALAVRAS DE PINTAR
15 de janeiro de 2013

Paulo Sabino e Mar

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 inundado de mar, eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas.
 
transcrevo os poemas do mar, pois só o mar escreve o mar, só o mar escreve seu manto azul líquido, suas ondulações de variações seqüenciadas, seu perfume de maresia, sua música incessante, seu gosto de sal.
 
só o mar escreve o mar. eu transcrevo seus poemas, pois somente em sua paleta (chapa de madeira sobre a qual os pintores colocam & misturam a tinta), somente na gama de cores disposta na sua paleta, encontro as palavras de pintar:
 
azul a luz o céu a gaivota o barco o peixe a sereia a areia.
 
poeta do olhar poeta (pois, antes de mim, antes do paulo sabino pensante, “poeta” é o olhar que me abriga. antes de mim, “poeta” é o olhar, que enxerga o mundo na estamparia da poesia. é o olhar que olha poeticamente. na verdade, o paulo sabino pensante-poeta é somente um instrumento, um canal, um veículo, para o olhar, poeta essencial & primordial), eu próprio sou da paleta do mar, poeta do olhar poeta, eu próprio faço parte da gama de cores da paleta marinha.
 
poeta do olhar poeta, eu próprio sou da paleta do mar (não só por conta da minha alucinação pelo mar & seus mistérios & imensidão, mas também em última instância: afinal, estudos científicos apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água, vieram da imensidão do mar).
 
pertencendo à gama de cores da paleta do mar, sou também, deste mar, navegante.
 
e, navegante que sou, no ar que me falta, navegador que sou, ainda que, à navegação, me falte vento para navegar, enfuno a vela a boreste, encho a vela da minha embarcação com o ar do meu fôlego, e vou, e sigo, a boreste (sigo do lado direito da embarcação errante), enfuno a vela a boreste, e ergo esquálido estandarte, e ergo minha bandeira de causa nenhuma, estandarte simples, bandeira besta, pessoa marcada que sou aos becos deste mar, pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar (as ruas estreitas & curtas, em geral sem saída, que povoam o reino marinho): os becos deste mar: onde aves devoram peixes (lâmina de prata fisgada & presa no bico da gaivota), vidas de prata que nadam extáticas no tempo que resta.
 
no fundo, o mar nos serve de metáfora (pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar): somos como os peixes: nadamos neste mar de caminhos & possibilidades que é a vida, até que, extáticos, num repente, inesperadamente, um beco (uma ruela estreira & sem saída, uma situação difícil, de grande aperto) neste mar em que nadamos: estamos “suspensos no ar”, “fisgados” para fora da água-vida. enquanto não somos “fisgados” para fora da água-vida, seguimos nadando, extáticos, isto é, encantados, maravilhados, em êxtase, no tempo que nos resta.
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, sou da paleta do mar. poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, navegante dos mares de sal & da vida, também sou peixe imerso nas águas deste nosso cotidiano, nadando extático — em êxtase — no tempo que me resta, sujeito a ser “fisgado” & “suspenso” — peixe fora d’água, peixe fora do seu habitat — se capturado pelo anzol de alguma fatalidade. 
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, navegante dos mares de sal & da vida, peixe imerso nas águas deste cotidiano, paulo sabino teve amigos, muitos, amigos que morriam, amigos que partiam, amigos que chegavam, outros quebravam o seu rosto contra o tempo, outros geravam gerânios no jardim; paulo sabino odiou o que era fácil, odiou o que se obtém sem dificuldade, pois o paulo sabino gostava das funduras (o mar é feito de abismos abissais); paulo sabino procurou-se na luz no vento no mar.
 
(o navegante & sua biografia com palavras de pintar.)
 
beijo todos!    
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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)
 
 
 
PALAVRAS DE PINTAR
 
 
Inundado de mar,
eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas,
pois somente em sua paleta encontro as palavras de pintar.
Poeta do olhar poeta,
eu próprio sou
da paleta do mar.
 
 
 
 
(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
NAVEGANTE
 
 
No ar que me falta
enfuno a vela
a boreste
ergo
esquálido estandarte
barão assinalado
aos becos deste mar
onde aves
devoram
peixes derradeiros
vidas de prata
que nadam
extáticas
no tempo
que resta
 
 
 
 
(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
BIOGRAFIA
 
 
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

UM HOMEM PRA CHAMAR DE MEU
26 de março de 2010

o primeiro contato que tive com caio fernando abreu foi através do seu livro de contos intitulado “morangos mofados”. fiquei maravilhado, aturdido, fascinado, louco com aquilo que acabara de ler.
 
de lá para cá minha relação com o escritor foi construída passo a passo, obra a obra, sempre contente com o que era descoberto por mim.
 
porém, foi com o livro de onde provém o texto de hoje que o caio me “ganhou” definitivamente.
 
a obra foi organizada pelo super poeta, pesquisador e professor italo moriconi. trata-se de uma espécie de “biografia”, montada a partir das missivas enviadas por caio fernando abreu a seus amigos (o autor tinha esse hábito, gostava muito de escrever cartas).
 
acho este um dos mais belos livros que já li.
 
como se trata da correspondência pessoal, o escritor desnuda, sem pudores, todas as suas facetas: seus medos e inseguranças, sua lucidez ante a face suja da vida, sua vontade crescente de solidão, suas imensas generosidade, inteligência e irreverência. senti-me tão encantado pela obra, apropriadamente chamada “cartas”, que — santo deus, como estou confessional (rs)… — me enamorei por ele, por caio fernando abreu, pelo que se mostrava nas linhas. sei que é maluquice, que é insano, mas dou-me direito a essas sandices no imaginário. afinal, de perto, senhores, ninguém é normal. 😉
 
enfim, enamorei-me pelo escritor e achava, muito resignado (rs), uma grande sacanagem da vida a minha falta de oportunidade de conhecê-lo.
 
em “cartas”, uma coisa que fica clara é o período (largo) de descrença nas pessoas, de desgosto com as atrocidades mundanas, de desejo cada vez maior de isolar-se de tudo e todos, de isolar-se com seus livros e discos. isso me matava, me doía. pensava: “um homem tão bom, tão bacana, tão do bem, não merecia tanta hostilidade, tanto descuido…” batia-me o ensejo de cuidar dele, de reverter esse quadro (rs).
 
caio fernando abreu adorava uma canção chamada “mesmo que seja eu”, da dupla dinâmica erasmo & roberto carlos, na voz da cantora & compositora marina lima.
 
adoraria dizer para ele, poderia ser brincando, descompromissadamente, um dos versos dessa canção:
 
caio,
 
eis aqui o paulo sabino: um homem pra chamar de seu (rs rs rs).
 
o livro de poemas que pretendo lançar este ano, no segundo semestre, é dedicado a ele, entre outros.
 
hoje em dia, acho engraçado — e bonito, comovente — que tivesse vivenciado desse modo, durante um bom período, o meu carinho, o meu amor, por ele. 
 
a seguir, uma das cartas que mais me emocionam. uma lindíssima declaração de amizade, bondade e inteligência, coberta e recheada do seu divertido humor.
 
caio fernando abreu afirma:
 
Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade.
  
Gosto de pessoas doces, de situações claras.
 
eu também. por isso, por tanto,
 
caio fernando abreu: um homem pra chamar de meu.
 
e de vocês.
 
aproveitem-no!, aproveitem a (despretensiosa, generosa & sábia) lição de vida.
 
beijo bom em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Cartas. organização: Italo Moriconi. autor: Caio Fernando Abreu. editora: Aeroplano.)
 
 
A Guilherme de Almeida Prado
 
 
 
 
Paris, 12 de abril de 1994
 
 
 
Querido Guila,
 
escrevo “querido” porque — você sabe? — realmente gosto muito de você. Não esqueça disso.
 
Voltei sábado de Saint-Nazaire, de onde te enviei um cartão (pedindo o endereço/ telefone de Gianni em Lisboa). Ao chegar encontrei teu cartão.
 
Eternamente Bambi, abri todo saltitante — foi o primeiro que recebi do Brasil, e desde que saí, há mais de mês, não tive notícias daí. Então levei um choque. Deus, quanta hostilidade! Fechei o cartão e só reabri hoje, depois de muito pensar se devia uma resposta ou não. Porque realmente-gosto-muito-de-você, acho que sim.
 
Ô Guila, calma lá! acho um pouco ridículo um bate-boca transoceânico, mas não consigo ficar com essas coisas atravessadas. Então:
 
1º   fui injusto — um pouco — ou excessivo com você. Ma non troppo.
Como te disse, voltei a SP ano passado, após dez meses de ausência, sem trabalho, sem casa nem nada. Discretamente, enviei sinais de socorro aos amigos. Ninguém ajudou. Me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais. Não foi só você, não. Foram também pessoas até mais íntimas, como Jacqueline. Eternamente Bambi, me virei sozinho com enormes dificuldades. Não me lamuriei. Mas preciso que as pessoas saibam que isso doeu — exatamente porque algumas destas pessoas, como você ou Jacqueline, importam para mim.
2º   Cheguei em Paris preocupado com a minha violência, o meu “excesso”. Metade pelo menos provocada pelo álcool e pela excitação da viagem.
Pedi desculpas, com doçura,
3º   Você me responde duramente. Escuta:
4º   “Ar blasé” — não sei o que significa isso. Certa vez num grupo de psicanálise (fiz 14 anos, ganhei duas altas: acho que lido mais ou menos bem com meus demônios) uma garota disse que eu era “altivo”. Achei chique. Talvez você queira dizer “ar aristocrático”?
Bivar, que tem um olhar doce sobre o mundo, certa vez disse que eu parecia um príncipe — normando. Não sei por que “normando”, mas também achei bonito. Sou terrivelmente tímido e, na verdade, acho que tenho mais é um ar de cachorro surrado, daquele que levou muita porrada, passou fome, dormiu ao relento.
5º   Eu “não resisto a uma baixaria bem brega”! Resisto sim. Tenho um passado hippie que me deixou muitas coisas boas. Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade. Sou educadíssimo, e fui criado de maneira muito católica, com toda aquela culpa de “maus” pensamentos, “más” ações, e uma terrível nostalgia da “bondade” (como a “Alice” do Woody Allen).
Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras — e por tudo isso, ando cada vez mais só. É como me sinto melhor.
6º   A propósito do parágrafo acima, hoje li um Wolinski chamado Les français me font rire que começa com esta frase: “Si tout le monde était comme moi, je n’aurais pas besoin de detester les autres!” (Tradução: “Se todos fossem como eu, eu não precisaria detestar os outros.”)
7º   Amigos não “são para essas coisas”, não. Isso é um clichê detestável, significando quase sempre que amigo é saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar dejetos, detritos imundos e dar a descarga. Amigos são para dividir o bom e o mal, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles — amigos devem ser solidários. Um dos meus maiores amigos, […], que vive em Paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 (mas graças a Deus saudabilíssimo), tem sempre a preocupação de ser útil aos amigos. Quase não fala, não envia flores, não escreve cartas — mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. Amigos são também para escrever cartas enormes e um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tombem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90.
 
É por isso que te escrevo, quase meio-dia, um sol raro lá fora. Guila, não me mande coisas assim raivosas. Eu não tenho anticorpos para esse tipo de coisa. Até hoje, um dos meus truques para sobreviver, mesmo não sendo mulher e nem sequer tendo cabelos, foi fazer o papel de “loura burra”. Deixei passar muita agressividade, muita humilhação — e não me refiro a você, mas estou farto. Fui vivendo minha vida de maneira tão solitária, conquistando minhas coisas tão no braço, tão sempre sem nada, que aprendi a ter uma enorme admiração por mim mesmo. Vou chegando muito perto dos 50 anos sem dever absolutamente nada a ninguém.
 
Então, nos últimos tempos — deve ser a meia-idade — comecei a ter uma sensação, digamos, de “direitos adquiridos”. Não agüento mais desaforo, e vou ficar pior, vou ficar, se Deus quiser, como Odete Lara, Greta Garbo, Fauzi Arap, Helen Lane — americana budista de 84 anos que conheci semana passada, e vive só numa cabana no Perigord, cercada apenas de livros e gatos. Ando exausto de seres humanos.
 
Guilherme, mon cher, precisamos — eu e você e todo mundo — tomar muito cuidado com esses tempos. São tempos de horror. Tudo fica ainda mais grave neste país de là-bas, como é o Brasil, e mais ainda numa cidade como São Paulo — onde a crise econômica, a corrupção, a violência, a falta de futuro, a miséria material foi gerando sem que as pessoas percebessem também uma miséria psicológica, uma miséria espiritual ainda mais terrível e mais patética. São Paulo virou um grande salve-se-quem-puder: ninguém ajuda ninguém. E se as pessoas como nós — os “especiais”, os cineastas, os escritores, os músicos, os poetas: a gente que tenta criar beleza e dignidade — também começarem a agir dessa maneira, então vale mais a pena a casinha pobre de Dulce Veiga no meio do mato, as panelas arrebentadas em que Odete Lara uma vez cozinhou arroz integral para mim. Compreende?
 
Devo estar chatíssimo, mais “blasé” do que nunca, com todo esse texto parecendo discurso do Partido Verde… Et voilá: sou também um pouco tolo, um pouco naive, um pouco pêra — e eternamente Bambi. Quando a barra pesa, compro flores e ouço Mozart. Não creio que isso seja gostar de uma “baixaria bem brega”. Além disso, essa linguagem rasteira absolutamente não combina com você — um von Almeida Prado!
 
Sinto que o Brasil tenha ficado “ainda mais medonho” sem mim. Em compensação, a França parece ter ficado ainda mais encantadora comigo. Os livros caminham lindamente, críticas ótimas nos jornais e revistas mais importantes, rádio, TV. Ontem — foi hilário — dei autógrafo na rua, em Saint-Germain des Prés, para um garoto — estranhamente chamado Damour — que viu um dos programas de TV, comprou os três livros, deu vários de presente. Cheguei na editora rindo: meu Deus, a Laika de São Paulo, a negra sem ter onde morar, vivendo com 500 dólares por mês, lavando roupa num balde sob o chuveiro, fazendo a feira toda sexta — dando autógrafo em Saint-Germain!
 
Por tudo isso, tenho me divertido muito, muito. Ontem, a poderosa de uma editora que recusou Dulce Veiga, após várias najices, me convidou para jantar no “Le Temp Perdu”, o melhor restaurante do Quartier Latin. Eu disse educadamente “não”, muitos compromissos, muitas viagens. Se gostasse de uma “baixaria bem brega”, aprontava uma grosseria em plena mesa de jantar. Mas não sou hipócrita, Guila. Não sei fazer “jogo social”. Até saberia, mas não me interessa, tenho preguiça. Como Dulce V., eu sempre quis só “outra coisa”, e vou chegando a um ponto em que tenho pensado se essa “coisa” não será a solidão mais completa — e se não ela, essa solidão idealizada, porrada de gatos, rosas, Mozart e livros, será quem sabe somente a morte. Há que ter paciência para esperar por ela, que é a única certeza entre todas as nossas ilusões tolas. “Ah, quando virás, cavalinha, montar meu dorso fatigado!” — dizia Hilda Hilst (60 anos no próximo dia 21) num poema de um livro chamado Da morte — Odes mínimas.
 
A propos: você já viu Short Cuts, do Altman? Não sei se chegou aí. Fiquei PARALISADO. Não é um bom filme: é genial, é uma radiografia, um corte tão profundo e impiedoso na sociedade americana e na alma humana que vale por ter vivido uns 20 anos. Ensina muito sobre a nossa loucura, a nossa vulgaridade, a nossa crueldade.
 
São de coisas assim que quero falar com você, meu amigo — cinema, literatura, música, vida. Que enorme desgaste trocar najices — gastar um cartão lindo daqueles (que vou ter que jogar fora, sorry, é muito ofensivo) mais selo, sem falar na produção sempre exaustiva de enfrentar os correios paulistanos — de hemisférios opostos. Ah, Guilherme, não me envie mais coisas assim. Não escreva nada, não nos procuramos mais: um dia nos cruzamos por acaso, de repente, e então vemos o que aconteceu a nossos rancores e reagimos de acordo com isso. Mas se você quiser me contar das suas funduras, e não apenas defender-se — e os amigos são, sim, para trocar abismos — então me escreva 10, 100 páginas, e eu responderei com calor, com carinho, com toda amizade que realmente sinto por você.
 
Continuo a sentir que Dulce Veiga é nossa, minha e sua. Te mando dois recortes simpáticos — um do L’Express, a Veja (com ética, claro) daqui. Outro do Les Inrockuptibles, uma revista chique e cult, um pouco como a A-Z dos bons tempos, mas com circulação bem maior. Divida isso comigo, tem um gosto bom.
 
Ah: se você tiver o endereço/ fone do Gianni seria maravilhoso. Pedi também a Cida Moreira, que precisaria pedir ao Ivan Mattos, que. E aí entra todo aquele mar de lama que você conhece, e que eu prefiro evitar.
 
Beije com carinho a divina Zu Val por mim: Zu, quero te ver cantando, com direito a muito jubão crespo, quando voltar. Diga a ela que, por aqui o Império do Bustiê também tem o seu poder. A diferença é que os bustiês são Gaultier, Channel e Yamamoto — embora para mim bustiê seja bustiê e pronto, no Champ Elysées ou Taboão da Serra.
 
E diga também ao Ricardo que mando um beijo. Cuide-se, fica feliz.
 
Je t’ embrasse
 
Caio F.