MEU PAI, MEU DRÃO
2 de dezembro de 2010

Sprout growing out of concrete

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pai,

meu genuíno drão,

o meu grão da dor do amor,

pai, meu drão,

com você & a vida aprendi:

o amor da gente é como um grão, uma semente que tem que germinar plantada nalgum lugar em mim, ressuscitada das boas memórias que carrego.

pai, meu drão,

eu choro um tanto a sua falta, eu sei, mas saiba: não penso na separação (não encerro o nosso diálogo), não despedaço o coração. sigo os seus ensinamentos de cuidados, cuidados de quem como pai, de quem como drão.

pai, meu drão,

o verdadeiro amor estende-se infinito — imenso monolito a nossa arquitetura.

quem, na vida, poderá fazer este amor morrer?

(nossa caminhadura: dura caminhada pela estrada escura, uma cama de tatame — caminha dura — pela vida afora.)

pai, meu drão,

os meninos são todos sãos.

todos.

o que acontece, eu sei, você sabe, não é resultado de código genético raivoso.

os meninos são todos sãos.

os pecados são todos dos que não têm motivos para roubar, para fraudar, para maltratar.

um mundo tão colérico, tão empedernido, tão truculento, eis a resposta dos meninos a ele.

sabemos, meu pai, meu drão, que somos resultado do que recebemos. se se recebe amor, como recebi de você & da nossa cabocla, a resposta é esta aqui, é a minha.

se se recebe pedrada & brutalidade, nada mais normal, mais pertinente, mais são, do que a resposta dada pelos meninos, também embrutecidos, também empedernidos, também truculentos.

sabemos que os meninos são todos sãos.

deus sabe a confissão dos meninos: não há o que perdoar. há de haver mais compaixão, há de haver mais entendimento de toda a situação.

meu pai, meu drão,

por isso há de haver mais compaixão.

meu pai, meu drão,

o nosso amor é como um grão:

morrenasce: trigo.
vivemorre: pão.

drão…

(meu pai, meu drão: nascido em 1º de dezembro de 1942, devolvido ao chão em 16 de outubro de 2004.)

(o poema-canção que segue, do poeta-compositor gilberto gil, foi escrito por conta do fim do relacionamento com a sua mulher à época, sandra gadelha, também conhecida pelo apelido “sandrão”, de onde foi extraída a partícula “drão”, modo carinhoso com o qual gil passou a chamá-la.)
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

DRÃO

 

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo
Vivemorre, pão
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Prenda minha. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: Drão. autor: Gilberto Gil. gravadora: Polygram.)

SOBRE A ONDA DE VIOLÊNCIA QUE ASSALTA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO
24 de novembro de 2010

é a continuação duma história que vem lá de trás, quando tudo começou a ser varrido para debaixo do tapete… só que é muita sujeira por debaixo do tapete; uma hora, esta sujeira começa a escapulir e a deixar rastros aqui & ali.

todo o descaso vem resultando no que assistimos hoje, porém no que já assistimos antes também, há algum bom tempo.

esta está longe de ser a primeira onda de terror na cidade (é claro, com agentes & motivações distintas das outras ondas, mas, de qualquer maneira, não deixa de ser mais uma onda de terror) e, infelizmente (afirmo isto com uma tristeza, só eu sei…), não me parece a última…

enquanto as políticas do estado forem voltadas apenas para a segurança pública, sem investir, em conjunto com a verba gasta na segurança pública, a verba destinada às pastas da educação e da cultura, e enquanto essas políticas de segurança continuarem a atender apenas a uma parcela mínima da população residente na cidade (no caso, os moradores centro-zona sul), esta me parece estar MUUUITO LONGE de ser a última onda de terror que a cidade do rio de janeiro sofreu.

(infelizmente…)

 
um beijo.
 
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(do livro: Letra Só. organização: Eucanaã Ferraz. autor: Caetano Veloso. editora: Companhia das Letras.)
 
 
(trecho)
 
 
 
FORA DA ORDEM
 
Vapor Barato, um mero serviçal do narcotráfico
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho da rua
O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade
Que é muito mais bonita e
Muito mais intensa do que no cartão-postal
 
Alguma coisa está fora da ordem 
Fora da nova ordem mundial
 
(…)
 
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis
                                                                        [sem juízo final
 
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial
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 (vídeo do caetano veloso, na página do “youtube”, cantando a canção “fora da ordem”, no link abaixo:)

http://www.youtube.com/watch?v=EE80SwRLDwY&feature=related

O ESTRANGEIRO
8 de outubro de 2010

francisco ferraz,
 
amigo querido, do qual muitas saudades sinto,
 
pessoa responsável pela existência, em termos práticos, deste espaço, “o prosa em poema”,
 
este post é dedicado inteiramente a você.
 
devo esta publicação ao chico há muito tempo; ela foi prometida no início de tudo, e só foi “existir” agora (rs).
 
mas é aquela tal história: paulo sabino: um homem que tarda, mas não falha (rs).
 
chicão, finalmente (rs)!
 
eu e o francisco ferraz somos apaixonados pela canção, e, principalmente, por este poema-canção.
 
estas linhas, que considero primorosas, traduzem a minha visão acerca do brasil. enxergo este país exatamente desta maneira.
 
caetano veloso parte dos olhares estrangeiros, dos olhares que vêm de fora, dos olhares alheios, estranhos, não nativos, para a construção dos versos que acabam por desnudar o seu olhar.
 
através dos olhares estrangeiros, o seu olhar é desfraldado.
 
enquanto o pintor paul gauguin e o compositor cole porter, em visita à baía de guanabara, sentiram-se deslumbrados, porque a enxergaram como bela, o antropólogo claude lévis-strauss detestou-a; pareceu-lhe, a baía, uma boca banguela.
 
para um tipo de olhar, bela; para outro, o inverso, banguela.
 
bela & banguela: adjetivos antagônicos utilizados para a qualificação da baía de guanabara.
 
daí, a pergunta: mas o que seria, exatamente, uma coisa bela?
 
caetano interroga-se a respeito do seu sentimento pela guanabara: “e eu, menos a conhecera, mais a amara?”
 
e por que ” menos a conhecera, mais a amara”? ama-se mais quanto menos se conhece? a intensidade do amor aumenta quanto menos conhecido aquilo que se ama?
 
há a célebre sentença que diz: o amor é cego. isto significa afirmar que o amor enxerga: nada.
 
mas será? será que o amor enxerga: nada?
 
o amor é cego (falam). e ray charles também é cego. stevie wonder, outro cego. e o albino hermeto (pascoal) não enxerga mesmo muito bem.
 
três exemplos para se dizer que, na cegueira, enxerga-se muito. (afinal, como desdizer que ray charles, stevie wonder & hermeto pascoal, grandes homens de visão, grandes visionários?)
 
a constatação, portanto, de que, mesmo amando, isto é, mesmo com o grande amor que nutre pela baía, caetano não deixa de enxergar bem, não deixa de ser um visionário.
 
e segue: o que seria uma coisa bela? uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem, uma arara?… o quê?
 
de qualquer modo, fica a verificação, a averiguação, de caetano sobre a baía que tanto ama, baía que o deixa cego de tanto vê-la & tê-la estrela: ao mesmo tempo bela & banguela.
 
ele parte da baía de guanabara para traçar a sua visão acerca do brasil: belo & banguela, feito a guanabara. 
 
assim, com o olhar mergulhado em adjetivos antagônicos para com a baía, para com o brasil, inicia a revelação de um raro pesadelo, de um sonho ruim, que busca, sempre: o belo & o amaro, isto é, os adjetivos antagônicos.
 
junto ao sonho, a imagem que não foi sonhada (ainda que, no sonho, utilizada): a praia de botafogo, um cenário lindo, que agrega à sua paisagem o pão de açúcar, era uma esteira de areia branca & óleo diesel sob os tênis. tudo quanto havia de aurora no cenário: o morro famoso o menos óbvio possível, com umas arestas insuspeitadas (o morro visto como se pela primeira vez, visto como se por um olhar forasteiro, por um olhar estrangeiro); o morro banhado na áspera luz laranja contra a “quase-não-luz” do branco das areias e das espumas (escurecido, degradado o branco, pelo tanto de óleo diesel).
 
verificar uma paisagem tão encantadora, e, ao mesmo tempo, tão maltratada: tudo quanto havia, então, de aurora…
 
caetano prossegue o sonho e afirma ser um “cego às avessas”: não necessita olhar para trás a fim de saber o que acontece; vê absolutamente tudo o que deseja.
 
às suas costas, nas areias da praia de botafogo (com o pão de açúcar ao fundo), descreve um velho com cabelos nas narinas & uma menina ainda adolescente e muito linda.
 
do velho & da menina, mesmo podendo, caetano não deseja ver aquilo que, neles, não lhe agrada: o terno negro (do velho) e os dentes “quase-não-púrpura” (da menina). e pede que o ouvinte/leitor pense a imagem de modo impressionista (como pensava o pintor francês georges seurat), que trabalha com as formas naturais e sua disposição diante da incidência de luz, elaborando contrastes com as cores. alerta, o compositor, para que a paisagem do sonho não seja encarada no termo surrealista, que mexe com o irracional; pois o surrealismo é uma outra “onda”, outra “viagem”, é uma outra história.
 
o cenário pintado (a praia de botafogo, um velho de terno negro com cabelos nas narinas & uma menina ainda adolescente e muito linda às costas do compositor) é delineado em tons impressionistas, com a paisagem natural (praia e morro), com seus jogos de luzes & cores, com os contrastes cromáticos, e o claro-escuro, o belo-feio, tudo junto, amalgamado, e não em tons surrealistas. não há surrealismo nenhum aqui (mesmo tratando-se de um total devaneio). 
 
segue caetano, dizendo que ouve vozes, dizendo que os dois (o velho & a menina) lhe dizem, num duplo som, como que sampleados num sinclavier, as seguintes sentenças: 
 
— é chegada a hora da reeducação do cristianismo & suas religiões, para que estes arrebanhem ainda mais cordeiros para os seus rebanhos (!);
— o certo é louco tomar eletrochoque (!);
— o certo é saber que o certo é certo, ou seja: engolir sem questionar (!); 
— o macho (o homem heterossexual, de cunho procriativo) adulto, branco, sempre no comando, mandando & desmandando conforme seus desejos (!);
— e para o resto, que é a escória, para o resto, que são os que não interessam, o resto (!);
— reconhecer o valor necessário do ato hipócrita, isto é, reconhecer o valor indispensável do ato falso, do ato mentiroso, do ato enganador (!);
— riscar os índios (!), nada esperar dos pretos (!);
 
frente a todos os horrores proferidos pelo velho & pela menina, afirma caetano seguir ainda mais sozinho, caminhando contra o vento, nadando contra a maré, e entender o centro, o núcleo, a idéia principal, do que dizem aquele cara (o velho) e aquela (a menina):
 
o que disseram é um desmascaro. o que disseram é um singelo grito:
 
“o rei está nu!”
 
o que disseram, aquele cara & aquela, desmascara um brasil que existe por trás da terra boa & gostosa, terra da morena sestrosa. por trás do “meu brasil-brasileiro”, do brasil bom & gostoso, existem setores da sociedade brasileira que pensam exatamente o que está no “desmascaro”, o que está no “singelo grito”, do velho & da menina (que, para mim, representam vozes saídas de dentro do brasil: o velho, a figura de um brasil antigo, arcaico, preso a conservadorismos; a menina ainda adolescente & muito linda, a figura de um país do futuro, um país que tem tudo para tornar-se uma grande potência). 
 
setores da sociedade brasileira que pensam assim, mas que não têm a coragem de confessar: instituições religiosas cristãs, racistas, sexistas, homofóbicos, corruptos, organizações tradicionalistas.
 
o rei está nu, o rei foi desmascarado.
 
e o rei, nu, é mais bonito; ante sua nudez, tudo se cala.
 
aqui, a compreensão de que, acima de tudo, a lucidez para os reconhecimentos: o rei não é somente belo como também não é somente banguela. o rei é, ao mesmo tempo, belo & banguela; o rei abriga, em si, os adjetivos antagônicos, o rei abriga lindezas & feiúras.
 
brasil: terra boa & gostosa, da morena sestrosa, porém, terra também de corruptos, de homofóbicos, conservadores & sexistas.
 
o reconhecimento mais abrangente da figura do rei torna-o mais bonito.
 
é melhor que assim seja: ser o lobo do lobo do homem.
 
(eu também sinto dessa forma. não me vejo amando menos o brasil porque reconheço as suas mazelas. não. reconhecê-las, e amando-o, me estimula a extirpá-las.)
 
e avança caetano em seu caminho, amando o azul, o púrpura e o amarelo, amando cores celestiais, e entre o seu ir, isto é, entre a sua jornada, entre o seu caminhar, e o caminho do sol, há um aro, há um elo que os une.
 
apostar na luz, no brilho, apostar no elo, no aro que se configura com o astro-rei, luminoso, caloroso: o sol. afinal, gente é para brilhar, não é para morrer de fome.
 
pronto, chicão! publicação todinha sua (rs). (e para quem mais a desejar.)
 
sigamos lúcidos & amorosos!
 
beijo nos senhores!
um outro, especialíssimo, em você, francisco ferraz!
 
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Letra Só. autor: Caetano Veloso. organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
O ESTRANGEIRO
 
O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou
                                [a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela
E eu, menos a conhecera, mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará um raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo
                                                              [e o Amaro 
Eu não sonhei:
A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia
                                              [branca e óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açúcar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos
                                                  [nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(Pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa da luz nos brancos dente e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num Sinclavier:
“É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos”
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
“O rei está nu”
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
                                               [o rei é mais bonito nu
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
(“Some may like a soft brazilian singer
But I’ve given up all attempts at perfection”)

SÃO PAULO
1 de outubro de 2010

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falam em “feiúra” para definir esta cidade.

 

falam em “fealdade”, em “bruteza de pedra” — selvagem (a célebre “selva de pedra”).

 

falam que não há belezura de paisagem, que não há formosura de natureza, pura, no azul a pino, no pleno sol, ao mar que ondula.

 

falam de lêmures (para os antigos romanos, espectros de pessoas mortas que atormentavam os vivos) sonados, falam de uma (talvez) diana flechadora (na mitologia grega, deusa da lua e da caça, guerreira), de dríades (na mitologia grega, ninfas, divindades que habitam rios, fontes, lagos, montes & bosques) sem estâmina, sem capacidade vital de resistência, anoréxicas, para além das pistas duma famosa avenida, num falso templo, num trianon trivializado: um “paul (villon) fantasmal”.

 

falam de lugares absolutos, debaixo dos viadutos, e de transeuntes exsurtos, isto é, de transeuntes soerguidos, levantados, bruscamente, inesperadamente, das latrinas vesperais cor de urina, que caminham das sentinas dissolutas.

 

falam que esta cidade é sem beleza de paisagem, com seus rios sem ninfas, que correm de costas para o mar que não é mar, um mar desaguado, um mar ressequido, e que desembocam, naufragam, num asfalto negro tinto.

 

porém,

 

confesso que amo essa fereza e sua beleza impura, amo a perversa aspereza de água-tofana (veneno concentrado em arsênio, muito utilizado na itália entre os séculos 15 e 17), a perversa aspereza de baudelaire (e suas flores do mal), a perversa aspereza de corrosão e azedume de couro cru — e fecho-ecler.

 

amar essa fereza e sua beleza impura, amar a cidade como a uma mulher de coração minado, mulher de coração cujo terreno, por estar repleto de minas, é perigoso demais para se andar, para passos, para caminhada.

 

a cidade como a mulher de coração minado, como uma fera, como a leo–parda, ou como a leo–nesa, ou como a tigresa, encarcerada no armário hermético do concreto (do concreto: do que é real, do que é existente; do concreto: do que diz respeito ao verso concreto; do concreto: do cimento armado com vigas de ferro, que arma as formas, as curvas, as silhuetas, da cidade).

 

esta cidade & seu charme de pantera acerada, isto é, seu charme de pantera revestida, de pantera guarnecida, de aço, à espreita nas esquinas, sempre alarmada, sempre em estado de alerta (o alarme vermelho, atenção redobrada).

 

esta cidade, esta dona pétrea, esta beleza ferina, esta executiva da saia cinza me embebe até a medula.

 

a cidade, com sua graça petrina, graça multi–vária, multi–tudinária (graça de multidão variada). cidade que não é minha, mas que admiro.

 

por isso, pela admiração, por apreciar-lhe o garbo, vejo-a por um lado de dentro, por um ângulo diferente, por um doce recesso (por um intenso re–excesso).

 

a cidade & sua beleza antiproust, beleza sem memória do passado, beleza que não sai em busca do tempo perdido, beleza sem olhar parado (olhar presente no passado), beleza sem anamnese, sem recordação, sem o cheiro de “madeleine” que reaviva a reminiscência da infância.

 

a beleza da cidade é im–passiva (é ativa, a sua beleza está em plena atividade), é des–mêmore (é des–lembrada, é sem memória), é im–plosiva (explosões em–si, explosões internas: a auto-detonação), no tenso & absurdo dilema (um dilema difícil, um tópico utópico) de tê-la, de vê-la, como:

 

a memória do futuro.

 

se o futuro, uma memória, essa memória é são paulo.

 

são paulo, por seu avanço tecnológico, por seu desenvolvimento econômico, por sua capacidade de estar à frente, de ser moderna, de ser “futurista”, é já a memória de tudo o que representa: o tempo seguinte, o tempo à frente: o tempo futuro.

 

aqui pousa a minha gratidão à terra da garoa, terra que me acarinha com muitas coisas bonitas, muitas coisas bacanas — na música, na literatura, nas artes cênicas, nas artes plásticas —.

 

são paulo: my love… (joão gilberto, num disco seu, ao vivo, antes de cantar “desafinado”, profere essa tão singela declaração à cidade. eu fico muito comovido & contente toda vez que a escuto; acho-a forte, significativa, saída da boca de um baiano — e que baiano!)

 

um beijo em todos!

outro, GRANDE, em sampa!

paulo sabino / paulinho.

 

(após o poema, um vídeo da metrópole e a canção “sampa”, de caetano veloso,  custurando as imagens.)

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(do livro: Entre milênios. autor: Haroldo de Campos. editora:Perspectiva.)

 

 

SÃO PAULO

 

 

1.

feiúra (falam em)

para definir esta

cidade

 

fealdade

bruteza

de pedra

selvagem

 

não beleza pura

não belezura de

paisagem

(é o que falam)

 

gume de granito

de pedra

bruta

contra a natura

não formosura

de natureza

pura

no azul a pino

no pleno sol

ao mar que ondula

 

feiúme de solda

metálica e

betume

não deslumbre

de água-marinha

de afogueado topázio e

múrmura turmalina

 

2.

mas eu

paulista paulistano

confesso que amo

essa fereza e digo:

beleza impura

terrível de “bela-

-dama-sem-mercê”

perversa aspereza

de água-tofana e baudelaire

de corrosão e azedume

de couro cru e fecho-ecler

da qual (como de uma

mulher de coração minado)

tenho gana e ciúme

 

tigresa encarcerada

ou leoparda ou

leonesa

presa em jaula

esquálida

de armado esqueleto

fechado no armário

hermético

do concreto

 

3.

sob topos risca-céus

de elétricas antenas

agora

à luz de lua lampadófora

que pinga no olho furta-

cor dos semáforos de rua

e coa-se no neon noctâmbulo

entressonâmbula

sonhando com o

mirante sem miragem de um (fanado)

trianon trivializado

(no outro lado do paul

fantasmal de lêmures

sonados

além das pistas

da avenida paulista

num falso templo

de uma (talvez) diana

flechadora

dríades sem estâmina

anoréxicas

fazem dieta

de uma garoa

que não há)

 

4.

enquanto

de lugares absolutos

debaixo dos viadutos

transeuntes exsurtos das

cor de urina

vesperais latrinas

das sentinas dissolutas

caminham

 

5.

esta cidade

sem (é o que falam)

beleza de paisagem

com seus rios sem ninfas

que correm de costas para o mar não-mar

e naufragam num asfalto negro tinto

 

6.

esta cidade

esta dona pétrea

esta

de beleza ferina

executiva da saia cinza

me embebe até a medula

de uma dulceamara ternura

entre fera e bela

entre estrela e estela

esta

com sua graça petrina

multi-

vária multi-

tudinária

cidade

minha

que a vejo por um lado

de dentro por um

ângulo avesso

por um doce recesso

só visível a quem

percebe seu charme

de acerada pantera

à espreita no alarme

vermelho das

esquinas

 

7.

beleza (confesso) que me

enruste

beleza antiproust

sem

memória do passado

sem olhar parado sem

anamnese ou madeleine

im–passiva

des–mêmore

im–plosiva

no tenso (que

cultiva) dilema u-

tópico no paradoxo

absurdo de uma

(porventura)

memória do futuro

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Circuladô Vivo. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: Sampa. autor: Caetano Veloso. gravadora: PolyGram.)

HOMENAGEM AO JOÃO
30 de agosto de 2010

senhores,
 
abaixo, linhas escritas em homenagem a um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos:
 
joão cabral de melo neto.
 
este poeta gostava de afirmar que seu trabalho com a poesia era estritamente cerebral. o encaixe das palavras, a musicalidade dos versos, as imagens criadas, tudo em joão cabral, segundo o próprio, era cem por cento “transpiração”. o bardo não cria em “inspiração”; cria na poesia como a prática da escrita. sentar e escrever escrever & escrever. era muito disciplinado.
 
(não era à toa a ENORME admiração que cabral alimentava pelo poeta francês charles baudelaire.)
 
eu, até hoje, não consigo essa prática, a da disciplina. sou mais próximo de clarice lispector (não no talento, senhores, mas na forma de criação), que dizia que o seu método de escrever era caótico. 
 
caótico porque não havia método, não havia disciplina. clarice chegava a declarar que não se considerava uma profissional da escrita, mas uma eterna amadora & aprendiz. adorava afirmar que não sabia escrever. eu me sinto assim, exatamente como ela.
 
portanto, o meu processo criativo atua de um modo muy diferente do modo que atuava em joão cabral. realidades díspares, que se “estranham” (estranham-se pela divergência). e isso não me impede de gostar dos escritores e poetas que trabalham de outra forma.
 
há quem afirme não gostar de joão cabral exatamente por esta característica que ele fazia questão de salientar: a do “uso cerebral” no centro de tudo, sem apelos a qualquer tipo de emoção ou comoção. tudo, no verso, é milimetricamente estudado. o poeta não erra a direção de sua exata insistência. traz à tona o que era latente , o que era oculto, na voz imanente do poema.    
 
eu gosto de joão cabral, e tenho-o como um dos maiores, exatamente por essa característica. não possuo um senso narcíseo para com a poesia:
 
é que Narciso acha feio o que não é espelho (“sampa”, caetano veloso).  
 
não enxergo beleza apenas naquilo que me é afim. 
 
gosto das diferenças, aprecio os desencontros. diferenças não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade.
 
adoro ler poetas com modos de trabalhar o poema diferentes do meu. acho que isso só enriquece a poesia. todos nós, poetas & leitores, ganhamos com as diferenças. 
 
gosto de pensar na peculiar disciplina do poeta e de pensar na precisão cirúrgica do seu traço ao desenhar imagens com as palavras. poeta que não se enebria em fluência, poeta seco, o seu verso diz exclusivamente o que pretende dizer. morro em admirações & respeito, e, com as suas habilidades, tento aprender.     
 
desapegar-se dos pré-conceitos é um saudável exercício, inclusive para ser feito com a poesia.
 
“paulo sabino, você prefere os escritores mais ‘emocionais’ ou os mais ‘cerebrais’?”
 
a minha resposta: eu prefiro, sempre, um bom escritor. e o bom escritor pode ser mais emocional ou mais cerebral, não importa. 
 
NADA impede que um poeta “cerebral” produza uma obra extremamente emocionante & emocionada. a princípio, parece um contrasenso, mas não existe contrasenso algum na minha afirmação.
 
o importante é o resultado final. e, nesse sentido, juntamente com fernando pessoa e carlos drummond, joão cabral nos deixou uma obra imbatível.
 
(poesia boa, poesia de grandes capacidades poéticas, sempre alucina.)
 
lê-lo é valer-se de grandes lições da literatura. 
 
lembrem-se disto, pessoas: belezas não nasceram para serem excludentes. belezas nasceram para serem complementares.
 
aqui, a minha singela homenagem ao mestre, mestre a quem sempre recorro, mestre que sempre procuro.
 
beijo bom em todos vocês,
paulo sabino / paulinho.
___________________________________________________________________________
 
(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)
 
 
DEDICATÓRIA DA SEGUNDA EDIÇÃO
DO CRISTO CIGANO A
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
 
I
 
João Cabral de Melo Neto
Essa história me contou
Venho agora recontá-la
Tentando representar
Não apenas o contado
E sua grande estranheza
Mas tentando ver melhor
A peculiar disciplina
De rente e justa agudeza
Que a arte deste poeta
Verdadeira mestra ensina
 
II
 
Pois é poeta que traz
À tona o que era latente
Poeta que desoculta
A voz do poema imanente
 
Não erra a direcção
De sua exacta insistência
Não diz senão o que quer
Não se enebria em fluência
Mas sua arte não é só
Olhar certo e oficina
E nele como em Cesário
Algo às vezes se alucina
 
Pois há nessa tão exacta
Fidelidade à imanência
Secretas luas ferozes
Quebrando sóis de evidência
 
VI
 
A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
 
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procura
 
A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro
 
Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis
Eu te procuro

PAÍSES MISTERIOSOS: A INICIAÇÃO
10 de agosto de 2010

Pois francamente, meu amor
Meu ambiente é o que se instaura de repente
Onde quer que eu chegue só por eu chegar
Como pessoa soberana nesse mundo
Eu vou fundo na existência
E para nossa convivência você também tem que saber
                                                             [se inventar
 
                                                       (Caetano Veloso, “Diamante verdadeiro”)
 
 
saber inventar-se e reinventar-se, inventar A SUA moda, a sua roupa, a sua roda, brincar entre o que deve e o que não deve ser.
 
reinventar-se é sempre um reinício, um recomeço.
 
saber inventar-se é um grande barato. é um grande barato caro, às vezes um barato difícil, porém necessário.
 
pois a todo tempo é preciso, a toda hora, um novo viço. a todo momento, um novo estímulo. de tempo em tempo, um novo vício.
 
algo de nós, na mudança, no começar de novo, permanece. um tanto de nós persiste, insiste, um tanto de nós ressoa o passado, ressoa o que fica em nós das experiências vivenciadas, corroborando com o que principia, com o que re-inicia. afinal, o ato da “estréia”, o fato de estrear na vida, pode (deve) ser um acontecimento incessante para todos que buscam viços & estímulos & vícios que renovem.
 
(o haver conhecido outros começos favorece este novo que começa.)
 
partir, andar, posto que é este o movimento da vida. passa o tempo e a vida passa. 
 
nesta viagem que é a existência, estar sempre pronto a descobertas, a países misteriosos e suas línguas, suas gentes. em terras distantes há tantas surpresas, em países longínquos, tantas estranhas belezas…
 
em países distantes, tantas paisagens a despontar, tanto para ver & conhecer… 
 
partir, andar, em busca de novos lagos, novos sóis, novos sons.
 
é bom aportar em países distantes, uma vez que, em países distantes, desconhecidos, nos perdemos. e é bom que nos percamos porque, nas voltas que o mundo dá, 
 
não somos mais quem éramos.
 
proponham-se ao eterno começo!
 
proponham-se a uma eterna viagem por lugares misteriosos! 
 
(o pôr do sol em outras cores, os lagos claros de um outro verde…)
 
bitoca nocês!
paulo sabino / paulinho.   
___________________________________________________________________
 
(do livro: Estúdio. autora: Janice Caiafa. editora: 7Letras.)
 
 
INICIAÇÃO
 
Começa. É difícil
passar a essa atitude
conseguir um novo início.
 
E a todo tempo é preciso
fora da esfera da juventude
a toda hora: um novo viço.
 
Começa agora. Algo que voa
envia, arremessa
aproveitando o que era, ressoa
 
o passado e principia.
 
O tempo não é um peso,
o vivido é viver e é promessa —
o haver conhecido outros começos
 
favorece este novo que começa.
 
 
PAÍSES MISTERIOSOS
 
Em terras distantes chega o trem devagar
Em terras distantes há tantas surpresas.
 
Em países longínquos vou encontrar
tantas estranhas belezas.
 
Em países distantes é bom aportar
Em países distantes nos perdemos.
 
Em lugares estranhos podemos chegar,
não somos mais quem éramos.
 
O pôr do sol em outras cores 
Os lagos claros de um outro verde
 
Os sons de tantas línguas
de repente,
 
Ali…
 
Em terras distantes chega o trem devagar
Em terras distantes há tantas surpresas
 
Em países longínquos vou encontrar
tantas estranhas belezas.
 
O sol se põe em várias cores
Os lagos claros de um azul-verde
Os sons de outras línguas
ouvimos
 
Ali…
 
Em países distantes é bom aportar
Em países distantes nos perdemos.
 
Em lugares estranhos podemos chegar,
não somos mais quem éramos.

SANGÜÍNEA POESIA
22 de julho de 2010

O que é poesia para você?
  
A arte da vida. A arte da palavra. Uma gaúcha linda por quem estou apaixonado. Na verdade, as três coisas juntas. O resto é literatura. 
 
(resposta do poeta Fabiano Calixto à pergunta de Edson Cruz)
_______________________________________________________________________
 
benvindos,
 
abaixo,
 
uma seleção de poesias de um poeta com quem compactuo uma série de afinidades.
 
fabiano calixto é um autor de inteirezas. sua poética sabe o lado bom e doce da vida, sabe o jeito delicado das coisas, mas o seu olhar não perde de vista o lado cariado e violento do mundo.
 
calixto sabe que a vida é bela, que é linda, mas que, para vivê-la, precisa de uns tantos “band-aids” para os machucados & cortes & feridas que surgem durante os nossos percursos.
 
o poeta entende que o gosto amargo de determinadas coisas não invalida o gosto saboroso de tantas outras. é como se calixto, como diz um verso do caetano veloso, arquitetasse uma estrutura poética sempre buscando o belo e o amaro.
 
(sempre buscando a inteireza, buscando a totalidade dos acontecimentos: a existência não é somente boa como também não é de todo ruim. a existência é uma mescla dessas duas vertentes.)
 
portanto, na obra deste jovem e belo poeta tudo cabe:
 
o descaso social, a pobreza material, a indiferença de alguns bem abastados (economicamente) para com aqueles que moram do lá de lá do quarteirão, fodidos e sem muitas perspectivas de melhoria sócio-econômica. (a tal democracia: a quem serve?)
 
a beleza de amar, em poemas dedicados ao amor de amantes, dedicados à atenção (redobrada) que nos desperta o objeto de desejo (um maravilhoso escândalo!).
 
a saudade de quem partiu, num belíssimo poema intitulado “juntando gravetos”, que aproveito para dedicar ao meu pai, o grande paulo sabino, o homem mais bem humorado que conheci (com quem não encerro diálogo), pois me vejo muito nos versos e, de certa maneira, ao meu papai também. 
 
a admiração por artistas que o comovem, que comovem o bardo, como no lindíssimo “e-mail para adriana calcanhotto”, uma prosa cheia de janelas abertas a várias paisagens, um canto extra-ordinário, onde calixto confessa enxergar a canção como um poderoso antídoto contra a melancólica existência.  
 
o fascínio pela palavra no alegórico “obtuário literário com figuras de gatos e ratos”, em que é decretada a morte dos poetas, abocanhados pelos tantos “ratos” que existem mundo afora, sempre dispostos a atenazar e a azedar a poesia da vida. (porém, por sorte, à quantidade de “ratos”, há uma demanda de “gatos” com colmilhos afiados, prontos para abocanhar os roedores orates e deixar vazar, das suas tripas, as tropas de versos antes aprisionadas.)
 
 
nesta seleção, há um poema cujos versos primeiros viraram um lema para mim, porque eles dizem, melhor, porque eles gritam, aquilo que espero de mim:      
 
se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio

medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir
 
assim eu vou, senhores. (e assim irei sempre.)
 
beijo bom, saboroso, em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
______________________________________________________________________
 
(do livro: Sangüínea. autor: Fabiano Calixto. editora: Editora 34.)
 
 
BALADETA À MALEDETA
 
ó vida, minha vida linda
já te botei muito band-aid
já te dei muita colher de chá
muito pão-de-ló
agora só te darei veneno
                               
                                             on the rocks
 
 
DE SANTO ANDRÉ AO CAMPO LIMPO: O BRASIL (para Heitor Ferraz)
 
esta manhã está linda
sob este sol que desliza
sobre os capôs dos automóveis
a quentura alastra por todo o ar
a imundície dessa cidade
(e depois de passar por três,
quatro, talvez cinco mundos diferentes
no estômago carcinomatoso da mesma cidade,
uma pergunta põe sal no café:
que tipo de futuro tem um país como este?)
 
o festival do morango
regado com o sangue de mais
uma chacina
os ônibus queimados, os olhos inchados de choro
o medo de não ter
o que pôr na marmita
ou o que pôr no caixão
 
a linha amarela em construção
(sepultando a plebe às pressas)
o Hyundai blindado, o Toyota
a fila imensa de carrinhos de papelão
com seus condutores e seus cães
tecem o trânsito, tramam
o inferno de sua mais 
profunda estima
 
— realmente não sei que futuro isso terá…
 
estou indo longe demais
da minha cidade, de mim mesmo
sonho demais —
na telinha LCD se vê
uma flor cor de toalha
exalando perfume a um operário gordo
atrás do bigode
com luvas verdes e capacete marrom
 
os assassinos estão livres
o patrimônio do excelentíssimo senhor presidente da
                                                                 [república
dobrou
é ano de eleição, tempo de monturo
minha ânsia de vômito dá potentes sinais de vida
meu nojo
não cabe na urna
 
(mendigos vomitam tíner
na Galiléia do apóstolo)
 
Estrada do Campo Limpo — julho gélido
muitos olhos tristes dentro do ônibus
(tantos ladrões com filhos pequenos para criar
tantas donas-de-casa com tesão insaciável
a estudante caligrafando a cola
nas deliciosas coxas grossas
de colegial cavala)
será que
quando vêem uma maçã
têm noção de sua gestação
de sua sugestão
do esforço de seu doce suor?
 
(duas garotas no banco de trás:
“a grávida entrou, né,
e eu nem aí, meu,
gravidez não é doença
quem mandou dar?”)
 
somos mesmo uns boçais
o real nos doerá para sempre
 
em tempo de eleição
vomitar tornou-se uma higiene
 
três idas ao banco implorar pelo assalto
já me pediram voto
não respondi
 
desviando o rosto de qualquer
em especial a memória
não exalava nem colônia nem canard
 
chego à Perimetral
a noite continua veloz
ouço um prantear, chove às bicas
 
ruga ínsita
 
 
PEDAÇOS DO ESQUELETO
 
/ se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio
medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir // a av. Paulista correndo é
tão engraçada / parece uma cobra de marshmallow / uma
viagem de ácido / uma enguia eletrocutando a língua / os
olhares, os colares, tristes demais / estupefatos, oleosos,
covardes e sem razão / a cavoucar a cidade atrás de um
tostão / ou de um milhão / pobres diabos e diabos ricos
a rastejar / quarteirão a quarteirão / uns com ar condicio-
nado, mp3, Honda, / apartamento mobiliado, aulas de
inglês / outros não / a gente que tem / heliporto / vinho
do Porto / trabalha no Horto / não passa fome nem mor-
to / e a gente que / disfarce a disfarce / ganha apenas o
necessário / para endividar-se /
 
 
MUSIKKA (SCRITTI POLITTI)
 
nenhuma lágrima
desce dos olhos
do mundo pasmo
indiferença
brutal de quem
se orgulha tão
cheio de brio
(e de dinheiro)
filho de deus
enquanto a morte
apenas ronda
a tela da
televisão
e o problema
apenas vive
no lá de lá
do quarteirão
saber viver
mas para quê?
se aquele sábio
grande poeta
um dia disse:
nada é mais belo
do que o que não
existe
 
 
UMA HISTÓRIA DE AMOR
 
Take 1:
Desmond pergunta
jogado no sofá da sala
nocauteado por um litro e meio de conhaque
por onde andará seu amor
 
Molly tenta arrumar os livros,
os discos, os dísticos
em seu quarto e
indaga ao espelho
a quem serve
a tal da democracia
 
Take 2:
desaba na cama nem vê que o lençol
é xadrez e que não há mais
cigarros dentro da gaveta
do criado-mudo
 
interiores habitados por
violência de dissoluções
e ternura
 
ela caminha na neve
lábios russos e rachados
 
a água cai e estoura o estuque
repete-se (elegia voz)
a morte
nas trincheiras
(o silêncio é um
único grito de dor
it is said to represent a mirror
 
 
E-MAIL PARA ADRIANA CALCANHOTTO
 
o encanto de quem canta
é o canto que canta na garganta
— algo assim escreveu Goethe
(só que o grande gênio alemão
usou, pelo que li, em vez de encanto,
prêmio (com sentido de pagamento),
no que achei mais delicado
e canoro, usar o substantivo masculino
mais feminino da língua.
até porque encantar, no que
canta o meu pequeno dicionário, pode
ser transformar (pessoa) em outro
ser e quando alguém canta
parece mesmo mudar o rumo
de sua existência, enchendo-se
de um entusiasmo, como se
possuído por deuses — como
disse, em silêncio, Domeneck
o que um amigo lhe dissera
um dia —, incha-se de alegria
por talvez saber-se portador
de um poderoso antídoto
contra a melancólica existência
cantando eu mando a tristeza embora.
e, como não se crê no que não canta,
tentei fazer com que este poema
cantasse, mas que não fosse
óbvio seu canto (visto que visto-
lhe com uma prosa cheia de janelas),
mas sim um tema extraordinário
a blackbird singing in the dead of night
e, quieta e sangüínea, ao lado,
uma violeta
 
 
UM POEMA PARA ELA
 
sentada no sofá, lendo Greimas,
você se parece com uma garota
da Nova Inglaterra, que testa, com
a ponta do dedo indicador,
num dos vidros da janela (enquanto
os flocos de neve lá fora
parecem seguir os movimentos de seu
raciocínio), uma dificílima
questão matemática,
e ao lado desenha um coração
 
que nobreza você tem
quando caminha, quando escreve
um artigo e fica me fazendo mil perguntas
que nunca posso responder (você
não deve ter notado que, ao seu lado,
estou sempre com os pés num lago,
onde os peixes vermelhos nadam
sobre enormes rãs e moedas
de prata são lágrimas da civilização
fixas no fundo da água; ou talvez tenha
notado, e, quando me apressa no banho,
dizendo que há de se economizar água
e energia elétrica (um absurdo! — você diz)
e que estamos atrasados para um encontro
com Molly & Desmond, ou para o jantar,
ou algo assim, quem sabe seja a sua forma
de dizer isso
 
(quando passeamos de mãos dadas
pelas ruas de São Paulo, meu coração
movimenta-se como atravessasse uma
larga avenida na iminência do erro que
faria com que os carros lhe deformassem
para sempre a estúpida geometria, ou,
tal excitação e combate, como se
atravessando um cúmulo-nimbo
almejando alcançar a la décima
esfera de los cielos concéntricos)
 
seu olhar, não pode imaginar quem
não o prova
 
a fascinação, o silêncio
flutuantes
numa operação de rigor
 
 
DUAS PAISAGENS
(UMA SEM E OUTRA COM VOCÊ)
 
o gramado verde, árvore imensa
a luz do sol se deita toda aberta
tornando a sintaxe da paisagem
comunicação delicada — fugidia?
talvez a compor entretons
que se indagam (onde sombras
se guardam e depois se saciam),
como das mãos de um
improvável pintor
ponteando seus megapixels
 
e se você estivesse ali?
 
se você ali estivesse, então
a luz do sol, ao atravessar
o gramado e despriguiçar-se
sobre seu corpo
tornar-se-ia presa
fácil de pela (maçã
polida no orvalho), e
faria o desespero dos sentidos
de qualquer coisa que a observasse
 
maravilhoso escândalo
 
não mais que de repente
deslocamentos monumentais
abririam insensatas crateras
pelas calçadas,
tirariam o fôlego das flores,
destruiriam vidraças,
espremeriam o dia até sua derradeira
gota de suor e magenta
e a máquina do mundo
pararia
 
diante do seu
sorriso
 
 
JUNTANDO GRAVETOS  (para Antonio Calixto, com carinho e muita saudade)
 
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
 
John Ulhoa
 
 
o silêncio de hoje
toca a quaresmeira lá fora
e, hóspede da perfeição,
torna-se igualmente lilás
 
é com esse silêncio
que leio suas palavras potáveis
recém-chegadas de longe
— de onde? —
 
(a dor nos traz anseios
tolos — como fazer a Terra
voltar meses, anos atrás, como fez
aquele herói extraterrestre
do filme e do álbum de figurinhas
que juntos colávamos
em muitas manhãs de domingo —
ou olhar uma estrela
e imaginar que você
dorme em algum lugar
ali por perto —
e nos dá a medida do tempo
e continuamos sem entender
medida alguma, aguardando
o barco retornar de Delfos
para que possamos, também,
nos despedir definitivamente
desse nosso
bosque liliputiano)
 
dizem que é a última canção
mas eles não nos conhecem
 
por dentro da tarde
as flautas tomam fôlego
para que canções flutuem
ao redor das árvores
que fazem sombra
para os que se despedem
 
 
OBITUÁRIO LITERÁRIO 
COM FIGURAS DE GATOS E RATOS
 
os ratos roeram a vida dos poetas
— livres do peso das letras, os estetas
 
em outras esferas escreverão, pois,
no cavo, vácuo profundo, sem voz, à foice
 
(esta persiana a zerar o ar dos distraídos),
não mais poemas, já que lidos os labirintos,
 
nada mais resta, nada, nem a quem se
amar ou refutar, não esfria, nem aquece,
 
a luta com palavras já não faz parte de
paixões ou razões puras, nenhum alarde,
 
nada de metáforas, nenhuma metonímia 
— a menina de lá não dá mesmo a mínima.
 
os ratos, rudes e arrogantes orates,
gorjeiam na goela os corpos dos vates
 
e, ainda assim, nas estantes, talhados,
ficam os poemas — como nos telhados
 
gatos de gostos e colmilhos afiados, à leitura
nasal do rastro dos ratos, vigiam venturas.
 
de um pulo a outro salto, uma gangue
de gatos retalha a noite com sangue
 
de restos de ratos que das tripas, as tropas
de versos, vazam as mais soberbas sopas.

SONETO DE ANIVERSÁRIO
24 de junho de 2010

prezados,
 
hoje, 24 de junho, dia de são joão, este que vos escreve vence as suas 34 primaveras.
 
(todo ano, há bastante tempo, ouço, ao acordar, uma canção do caetano — veloso — que fala justamente sobre o santo do dia e sobre a sua festa, a festa que é em sua homenagem, a festa de são joão.) 
 
adoro, como se diz em espanhol, cumprir anos. acho essa expressão muito acertada. porque a vida é uma missão.
 
viver é quase um milagre.
 
viver é um exercício, e envolve uma série de coisas, uma série de relações desenvolvidas com o entorno, entorno sempre multifacetado e multidimensional.
 
muitas atribuições, muitas funções, muitas experiências a serem vivenciadas, a serem desnudadas, a serem re-veladas, muitas atribuições & funções & experiências que nos vão moldando dia-a-dia, mundo afora, alma adentro.
 
este preto aqui, somando as suas experiências, atribuições e funções, sente-se feliz por viver.
 
tenho grandes amigos, pessoas imprescindíveis na minha existência, uma bela família, um lar aconchegante, onde me sinto muitíssimo bem, e histórias boas para contar.
 
e o melhor: por mais que olhemos, e aprendamos, e saibamos, e falemos, a vida possui, em suas nuances tantas, um ineditismo inerente, que nos faz cantar & cantar & cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.
 
acho muito bom saber-me um não-sabedor, acho muito bom perceber que, eternamente, até a morte, inacabado, inconcluso.
 
o inacabado, o inconcluso, é o que nos impulsiona à vida, é o que nos faz desejar a existência.
 
sei que possuo um monte de questões minhas, internas, a serem resolvidas e entendidas, um tanto de características a serem melhoradas e/ou extirpadas, mas isso não impede que eu repita:
 
no ar que eu respiro, eu sinto prazer. eu sinto prazer de ser quem eu sou, sinto prazer de estar onde estou.
 
também sinto saudades, uma espécie de melancolia, e não sou nada saudosista. a alguns essa minha frase pode parecer um paradoxo, um contrasenso, mas não o é.
 
o fato é que, sendo feliz, e eu o sou no hoje, no agora, no já, no neste instante, não há razões maiores para querer o retorno do que já passou. 
 
a todos que compõem a minha vida, que fazem dela o que é, o meu muitíssimo obrigado.
 
re-tenho a plena consciência de que, sem “o outro” (e neste “outro” incluo: pessoas, livros, lugares, artes, mares, céus, rios, flores, florestas & amores, e etc. etc. etc. etc.), o paulo sabino que se lhes apresenta não seria o mesmo paulo sabino.
 
a troca é a grande chave, é o grande negócio.
 
ninguém é muita coisa sem “o outro”.
 
(este meu amor de criatura, ele vê envelhecer, porém não envelhece…)
 
aos senhores, um belo soneto do poetinha maior que tanto admiro, vinicius de moraes.
 
beijo afetuoso em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
 
(a canção do caetano veloso, que religiosamente ouço neste dia, “são joão, xangô menino”, pode ser escutada na página do “youtube” abaixo do poema. é claro que “a voz” que a canta não faltaria à minha festa – rs.)
______________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Nova Antologia Poética. autor: Vinicius de Moraes. organização: Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
SONETO DE ANIVERSÁRIO
 
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
 
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
 
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
 
E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
__________________________________________________________
 
(autor da canção: caetano veloso. cantora: maria bethânia.)
 
 
 

VÍCIO
10 de maio de 2010

palavra:
 
você é meu caminho. meu vinho.
 
meu vício.
 
desde o início estava você.
 
meu bálsamo benigno. meu signo. meu guru.
 
porto seguro onde eu vou ter.
 
meu mar e minha mãe.
 
meu medo e meu champanhe.
 
(visão do espaço sideral…)
 
palavra:
 
onde o que eu sou se afoga.
 
meu fumo. minha ioga.
 
palavra:
 
você é minha droga. paixão e carnaval.
 
palavra:
 
meu zen, meu bem, meu mal.**
 
 
cigarro, álcool, açúcar, sexo também, sobremaneira, isto é, em excesso, embora mereçam a advertência de que causam danos irreparáveis à saúde, tendo em vista tudo o que carcomem, viciam-me, no fundo, as palavras.
 
palavra:
 
o meu vício maior.
 
(e que assim seja, sempre.)
 
beijo terno em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Parte Alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
VÍCIO
 
Cigarro, sim, mas, uma
após outra, asfixiando-me
ao deliciosamente
adulterarem o ar —
 
álcool também, mas, pouco
a pouco, submetendo-me,
conforme eu me entorpeço,
à sua própria lógica —
 
açúcar, sim, mas, dia
a dia, deformando-me
perversas ao sabor
de seu letal sabor —
 
sexo também, mas, cada
vez mais, pondo em perigo 
quanto restou do meu
sistema imunológico —
 
sobremaneira e, embora
mereçam, tendo em vista
tudo o que, além do esôfago,
traquéia, reto e uretra,
 
carcomem, a advertência
de que à saúde causam
irreparáveis danos,
viciam-me as palavras.
_____________________________________________________________________
 
** utilização livre dos versos do poema-canção “meu bem, meu mal”, de caetano veloso.

AO LEITOR, ELEVAÇÃO: O ALBATROZ
12 de abril de 2010

 

É um desmascaro
Singelo grito:
“O rei está nu”
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
                                              [o rei é mais bonito nu
  
(“O Estrangeiro”, Caetano Veloso)

 
 
prezados,
 
ao ler o primeiro poema da seleção que segue, imediatamente me ocorrem os versos acima.
 
pois que tal poema (o primeiro da escolha) desmascara, desnuda, descobre, aquela faceta que não nos é muito agradável de enxergar. penso que indesejável, porém importante de ser vista. é bom, bacana, que tenhamos um reconhecimento mais abrangente do que somos, sem falsas máscaras para escamotear.
 
à época do lançamento do livro de onde saíram as linhas a seguir (frança, metade do século 19), uma ação judicial movida contra o autor em 1857 condenou-o à multa de 300 francos, seus editores à multa de 100 francos cada um e ordenou-lhe a retirada de seis poemas da edição publicada. acusação: delito de ultraje à moral pública pela obra, chamada “as flores do mal”.
 
o conteúdo foi considerado imoral, impróprio. 
 
no fundo, porque, como dizem as linhas de caetano veloso, o conteúdo: um desmascaro, singelo grito — “o rei está nu! o rei está nu! o rei está nu!”
 
o leitor:
 
um pecador, um errado, um tolo, um mesquinho, recorrente nas faltas, assim como o bardo, assim como eu, assim como todos: um hipócrita — meu igual, meu irmão —.
 
às vezes, pela qualidade que o poeta tem de enxergar “acima”, de avistar “por sobre”, tal qual o albatroz — ave-monarca do azul, príncipe das alturas —, o bardo pode ser abatido por uma turba obscura, por gente que deseja tirar-lhe o poder do vôo, impedindo que o poeta, exilado ao chão, caminhe, deixando-o desajeitado com suas asas de gigante, feitas para o ar, para o viajar.
 
entretanto, mais do que das dores, do que dos desgostos, do que das penas, precisamos de uma asa vigorosa que nos lance às várzeas claras & serenas. sempre.
 
feliz é aquele que ao pensar qual pássaro veloz, distende-se, liberto, de manhã, rumo aos céus, paira sobre a vida e, sem esforço, entende a linguagem da flor e das coisas sem voz.
 
feliz o que, apesar dos pesares, enxerga o entorno belo, a maravilha que são as criações da natureza, as criações artísticas, humanas.
 
ao leitor, o meu desejo: de elevação — tal & qual a de um albatroz —. 
 
(alcem vôo! e não tenham medo da altura alcançada.) 
 
beijo grande & afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho. 
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(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)
 
  
AO LEITOR
 
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
 
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
 
Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
 
É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno, caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
 
Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
 
Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
 
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
 
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
 
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
 
É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!
 
 
 
II
 
O ALBATROZ
 
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.
 
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.
 
Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
 
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
 
 
III
  
ELEVAÇÃO
 
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
 
Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.
 
Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.
 
Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;
 
Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!