OS SAPATINHOS VERMELHOS
13 de maio de 2011

 

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(trecho de carta escrita por caio fernando abreu ao seu amigo, o diretor de teatro luciano alabarse)
 
“Ando me sentindo extremamente bem. O romance trancou um pouco — na verdade, não tenho me entregue —, mas vou tentar trabalhar nele no Rio e em Porto Alegre. Nessas aí, pari outro conto, uma versão para adultos de Os sapatinhos vermelhos, de Andersen. Nunca escrevi nada tão obsceno.”
 
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uma mulher, perto de fazer os seus quarenta anos, é largada pelo seu amante, um homem casado.
 
adelina, a mulher abandonada pelo seu amante casado, vive um momento difícil: sentimento de desamparo, de solidão, e uma raiva, um rancor, com o término — com o modo do término — da sua relação e com o tanto que se dedicou a um homem que não soube aproveitar nada do que lhe foi ofertado. 
 
mulher que evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade: a de mulher-solteira-e-independente-que-tem-um-amante-casado.
 
resolve que não mais derramará uma gota de lágrima. e decide pôr em prática o seu plano arquitetado. 
 
é noite de quinta-feira, véspera da sexta-feira santa, feriado de páscoa.
 
arruma-se inteira, com cuidado minucioso. por último, calça os seus sapatinhos vermelhos, que ganhara de presente do ex-amante, e sai à noite em busca de aventuras.
 
ao fim de todos os episódios vividos, já de manhã, a mulher era um corpo sem nome, varado de prazer, completamente satisfeita. e vingada.
 
adelina, que na noite se transforma em gilda, vive, abertamente, a sua sexualidade.
 
viver a sexualidade abertamente, sem amarras: lugar onde cabem, naturalmente, as nossas fantasias & os nossos delírios sexuais.
 
(este é o conto mais excitante que já li – rs rs.)
 
vivam, senhores, vivam sem muitas amarras!
 
uma vida sexual feliz é mais um caminho à satisfação do ser.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Os dragões não conhecem o paraíso. autor: Caio Fernando Abreu. editora: Companhia das Letras.)

 
  
OS SAPATINHOS VERMELHOS 
Para
Silvia Simas
 
 
 
“— Dançarás — disse o anjo. — Dançarás
com teus sapatos vermelhos… Dançarás de
porta em porta… Dançarás, dançarás sempre.”
 
(Andersen: Os Sapatinhos Vermelhos)
 
 
 
 
1
 
Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina – ela repetiu olhando-se bem nos olhos em frente ao espelho. Ou quando começa: certo susto na boca do estômago. Como o carrinho da montanha-russa, naquele momento lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção a quê? Depois de subidas e descidas, em direção àquele insuportável ponto seco de agora.
 
Restava acender outro cigarro, e foi o que fez. No momento de dar a primeira tragada, apoiou a face nas mãos e, sem querer, esticou a pele sob o olho direito. Melhor assim, muito melhor. Sem aquele ar desabado de cansaço indisfarçável de mulher sozinha com quase quarenta anos, mastigou sem pausa nem piedade. Com os dedos da mão esquerda, esticou também a pele debaixo do outro olho. Não, nem tanto, que assim parecia uma japonesa. Uma japa, uma gueixa, isso é que fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas. — Glenn Miller ou Charles Aznavour?—, vertendo trêfegos os sais — camomila ou alfazema? — na sua água da banheira, preparando uísques — uma ou duas pedras hoje, meu bem?
 
Nenhuma pedra, decidiu. E virou a garrafa outra vez no copo. Aprendera com ele, nem gostava antes. Tempo perdido, pura perda de tempo. E não me venha dizer mas teve bons momentos, não teve não? A cabeça dele abandonada em seus joelhos, você deslizando devagar os dedos entre os cabelos daquele homem. Pudesse ver seu próprio rosto: nesses momentos você ganhava luz e sorria sem sorrir, olhos fechados, toda plena. Isso não valeu, Adelina?

Bebeu outro gole, um pouco sôfrega. Precisava apressar-se, antes que a quinta virasse Sexta-Feira Santa e os pecados começassem a pulular na memória feito macacos engaiolados: não beba, não cante, não fale nome feio, não use vermelho, o diabo está solto, leva sua alma para o inferno. Ela já estava lá, no meio das chamas, pobre alminha, nem dez da noite, só filmes sacros na tevê, mantos sagrados, aquelas coisas, Sexta-Feira da Paixão e nem sexo, nem ao menos sexo, isso de meter, morder, gemer, gozar, dormir. Aquela coisa frouxa, aquela coisa gorda, aquela coisa sob lençóis, aquela coisa no escuro, roçar molhado de pêlos, baba e gemidos depois de — quantos mesmo? — cinco, cinco anos. Cinco anos são alguma coisa quando se tem quase quarenta, e nem apartamento próprio, nem marido, nem filhos, herança: nada. Ponto seco, ponto morto.

Ué, você não escolheu? Ele ficou parado à frente dela, muito digno e tão comportadamente um-senhor-de-família-da-Vila-Mariana dentro do terno suavemente cinza, gravata pouco mais clara, no tom exato das meias, sapatos ligeiramente mais escuros. Absolutamente controlado. Nem um fio de cabelo fora do lugar enquanto repetia pausado, didático, convincente — mas Adelina, você sabe tão bem quanto eu, talvez até melhor, a que ponto de desgaste nosso relacionamento chegou. Devia falar desse jeito mesmo com os alunos, impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar este rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.

Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro & relacionamento & rompimento & afeto, teria dito também estima & consideração & mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado. Uma estalactite — estalactite ou estalagmite? merda, umas caíam de cima, outras subiam de baixo, mas que importa: aquela lança fininha de gelo afiado — cravada com extrema cordialidade no fundo do peito dela. Vampira, envelheceria séculos lentamente até desfazer-se em pó aos pés impassíveis dele. Mas ao contrário, tão desamparada e descalça, quase nua, sem maquilagem nem anjo da guarda, dentro de uma camisola velha de pelúcia, às vésperas da Sexta-Feira Santa, sozinha no apartamento e no planeta Terra.

Esmagou o cigarro, baixou a cabeça como quem vai chorar. Mas não choraria mais uma gota sequer, decidiu brava, e contemplou os próprios pés nus. Uns pés pequenos, quase de criança, unhas sem pintura, afundados no tapetinho amarelo em frente à penteadeira. Foi então que lembrou dos sapatos. Na segunda-feira, tentando reunir os fragmentos, não saberia dizer se teria mesmo precisado acender outro cigarro ou beber mais um gole de uísque para ajudar a idéia vaga a tomar forma. Talvez sim, pouco antes de começar a escancarar portas e gavetas de todos os armários e cômodas, à procura dos sapatos. Que tinham sido presente dele, meio embriagado e mais ardente depois de um daqueles fins de semana idiotas no Guarujá ou Campos do Jordão, tanto tempo atrás. Viu-se no espelho de má qualidade, meio deformada à distância, uma mulher descabelada jogando caixas e roupas para os lados até encontrar, na terceira gaveta do armário, o embrulho em papel de seda azul-clarinho.

Desembrulhou, cuidadosa. Uma súbita calma. Quase bailarina em gestos precisos, medidos, elegantes. O silêncio completo do apartamento vazio quebrado apenas pelo leve farfalhar do papel de seda desdobrado sem pressa alguma. E eram lindos, mais lindos do que podia lembrar. Mais lindos do que tinha tentado expressar quando protestou, comedida e comovida — mas são tão… tão ousados, meu bem, não têm nada a ver comigo. Que evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade de mulher-solteira-e-independente-que-tem-um-amante-casado.

Vermelhos — mais que vermelhos: rubros, escarlates, sanguíneos —, com finos saltos altíssimos, uma pulseira estreita na altura do tornozelo. Resplandeciam nas suas mãos. Quase cedeu ao impulso de calçá-los imediatamente, mas sabia instintiva que teria primeiro de cumprir o ritual. De alguma forma, tinha decorado aquele texto há tanto tempo que apenas o supunha esquecido. Como uma estréia adiada, anos. Bastavam as primeiras palavras, os primeiros movimentos, para que todas as marcas e inflexões se recompusessem em requintes de detalhes na memória. O que faria a seguir seria perfeito, como se encenado e aplaudido milhares de vezes.

Perfeitamente: Adelina colocou um disco — nem Charles Aznavour, nem Glenn Miller, mas uma úmida Billie Holiday, I’m glad, you’re bad, tomando o cuidado de acionar o botão para que a agulha voltasse e tornasse a voltar sempre, don’t explain, depois deixou a banheira encher aos poucos de suave água morna, salpicou os sais antes de mergulhar, com Billie gemendo rouca ao fundo, lover man, e lavou todos os orifícios, e também os cabelos, todos os cabelos, enfrentou o chuveiro frio, secou o corpo e cabelos enquanto esmaltava as unhas dos pés, das mãos, no mesmo tom de vermelho dos sapatos, mais tarde desenhou melhor a boca, já dentro do vestido preto justo, drapeado de crepe, preso ao ombro por um pequeno broche de brilhantes, escorregando pelo colo para revelar o início dos seios, acentuou com o lápis o sinal na face direita, igualzinho ao de Liz Taylor, todos diziam, sublinhou os olhos de negro, escureceu os cílios, espalhou perfume no rego dos seios, nos pulsos, na jugular, atrás das orelhas, para exalar quando você arfar, minha filha, então as meias de seda negra transparente, costura atrás, tigresa noir, Lauren Bacall, e só depois de guardar na carteira talão de cheques, documentos, chave do carro, cigarros e o isqueiro de prata que tirou da caixinha de veludo grená, presente de trinta e sete, só mesmo quando estava pronta dos pés à cabeça e desligara o toca-discos, porque eles exigiam silêncio — foi que sentou outra vez na penteadeira para calçar os sapatinhos vermelhos.

Apagou a luz do quarto, olhou-se no espelho de corpo inteiro do corredor. Gostou do que viu. Bebeu o último gole de uísque e, antes de sair, jogou na gota dourada do fundo do copo o filtro branco manchado de batom.

 
2
 
 
Eram três, estavam juntos, mas o negro foi o primeiro a pedir licença para sentar. A única mulher sozinha na boate. Tinha traços finos, o negro, afilados como os de um branco, embora os lábios mais polpudos, meio molhados. Músculos que estalavam dentro da camiseta justa, dos jeans apertados. Leve cheiro de bicho limpo, bicho lavado, mas indisfarçavelmente bicho atrás do sabonete.
 
— E aí, passeando? — ele perguntou, ajeitando-se na cadeira à frente dela.
 
Curvou-se para que ele acendesse seu cigarro. A mão grande, quadrada, preta e forte não se moveu sobre a mesa. Ela mesma acendeu, com o isqueiro de prata. Depois jogou a cabeça para trás — a marcação era perfeita —, tragou fundo e, entre a fumaça, soltou as palavras sobre os patéticos pratinhos de plástico com amendoim e pipocas:

— Você sabe, feriado. A cidade fica deserta, essas coisas. Precisa aproveitar, não?

Por baixo da mesa, o negro avançou o joelho entre as coxas dela. Cedeu um pouco, pelo menos até sentir o calor aumentando. Mas preferiu cruzar as pernas, estudada. Que não assim, tão fácil, só porque sozinha. E quase quarentona, carne de segunda, coroa. Sorriu para o outro, encostado no balcão, o moço dourado com jeito de tenista. Não que fosse louro, mas tinha aquele dourado do pêssego quando mal começa a amadurecer espalhado na pele, nos cabelos, provavelmente nos olhos que ela não conseguia ver sem óculos, à distância. O negro acompanhou seu olhar, virando a cabeça sobre o próprio ombro. De perfil — ela notou —, o queixo era brusco, feito a machado. Mesmo recém-feita, a barba rascaria quando se passasse a mão. Antes que dissesse qualquer coisa, ela avançou, voz muito rouca:

— Por que não convida seus amigos para sentar com a gente? — Ele rodou um amendoim entre os dedos. Ela tomou o amendoim dos dedos dele. O crepe escorregou do ombro para revelar o vinco entre os dois seios: — Acho que você não precisa disso.

O negro franziu a testa. Depois riu. Passou o indicador nas costas da mão dela, pressionando:

— Pode crer que não.

Soprou a fumaça na cara dele:

— Será?

— Garanto a você.
 
Descruzou as pernas. O joelho dele tornou a apertar o interior de suas coxas. Quero te jogar no solo, a música dizia.
 
— Então chame seus amigos.
 
— Você não prefere que a gente fique só nós dois?
 
Tão escuro ali dentro que mal podia ver o outro, ao lado do tenista dourado. Um pouco mais baixo, talvez. Mas os ombros largos. Qualquer coisa no porte, embora virado de costas para ela, de frente para o balcão, curvado sobre o copo de bebida, qualquer coisa na bunda firme desenhada pelo pano da calça — qualquer coisa ali prometia. Remexeu as pedras de gelo do uísque na ponta das unhas vermelhas.
 
— Uns rapazes simpáticos. Assim, sozinhos. Não são seus amigos?
 
— Do peito — ele confirmou. E apertou mais o joelho. A calcinha dela ficou úmida. — Tudo gente boa.
 
— Gente boa é sempre bem-vinda — falava como a dublagem de um filme. Uma mulher movia o corpo e a boca: ela falava. Um filme preto e branco, bem contrastado, um filme que não tinha visto, embora conhecesse bem a história. Porque alguém contara, em hora de cafezinho, porque vira os cartazes ou lera qualquer coisa numa daquelas revistas femininas que tinha aos montes em casa. As mais recentes, na parte de baixo da mesinha de vidro da sala. As outras, acumuladas no banheiro de empregada, emboloradas por um eterno vazamento no chuveiro, que a diarista depois levava. Para vender, dizia. E ela odiava contida a idéia das páginas coloridas das revistas dela embrulhando peixe na feira ou expostas naquelas bancas vagabundas do centro da cidade.
 
— Se você quer mesmo — o negro disse. E esperou que ela dissesse alguma coisa, antes de erguer a mão chamando os outros dois.
 
— Não quero outra coisa — sussurrou.

E muito de repente — porque depois do quarto ou quinto uísque tudo acontece sempre assim, sem que se possa determinar o ponto exato de transição, quando uma situação passa a ser outra situação —, quase de repente, o tenista-dourado estava ao lado direito dela, e o rapaz mais baixo à sua esquerda. Na cadeira em frente, o negro olhava tudo com atentos olhos suspeitosos. Perguntou o que bebiam, eles disseram juntos e previsíveis: cerveja. Ela falou nossa, bebam algum drinque mais estimulante, vocês vão precisar, rapazes, um ar de Mae West. Todos os três explicaram que estavam duros, a crise, você sabe, mas de jeitos diferentes. O tenista-dourado chegou a puxar o forro do bolso para fora e mostrou, pegando a mão dela, veja, veja só, pegue aqui, mas ela retirou a mão pouco antes de tocar. Tão próximo, calor latejante na beira dos dedos. Problema nenhum, ofereceu pródiga: eu pago. A fita da garrafa pela metade, serviu do uísque dela ao negro e ao tenista-dourado. Não ao mais baixo, que preferia vodca, natasha mesmo serve. Ela então atentou nele pela primeira vez. Todo pequeno e forte, cabelos muito crespos contrastando com a pele branca, lábios vermelhos, barba de dois, três dias, quase emendada nos cabelos do peito fugidos da gola da camisa, mãos cruzadas um tanto tensas, unhas roídas, sobre o xadrez da toalha. Cabeça baixa, concentrado em sua pequenez repleta da vitalidade que, certeira, ela adivinhava mesmo antes de provar.

Pacientes, divertidos, excitados: cumpriram os rituais necessários até chegar no ponto. Que o negro era Áries, jogador de futebol, mês que vem passo ao primeiro escalão, ganhando uma grana. Sérgio ou Silvio, qualquer coisa assim. O tenista-dourado, Ricardo, Roberto, ou seria Rogério? um bancário sagitariano, fazia musculação e os peitos que pediu que tocasse eram salientes e pétreos como os de um halterofilista, sonhava ser modelo, fiz até umas fotos, quiser um dia te mostro, peladinho, e ela pensou: vai acabar michê de viado rico. Do mais baixo só conseguiu arrancar o signo, Leão, isso mesmo porque adivinhou, não revelou nome nem disse o que fazia, estava por aí, vendo qual era, e não tinha saco de fazer social.

Eu? Gil-da, ela mentiu retocando o batom. Mas mentia só em parte, contou para o espelhinho, porque de certa forma sempre fui inteiramente Gilda, Escorpião, e nisso dizia a verdade, atriz, e novamente mentia, só de certa forma, porque toda a minha vida.

Então dançaram, um de cada vez. O negro apoiou a mão pesada na cintura dela e, puxando-a para si, encaixou o ventre dos dois, quase como se a penetrasse assim, ao som de Roberto Carlos daqueles de motel, o côncavo, o convexo, tão apertado e rijo que ela temeu que molhasse a calça. Mas de volta à mesa, ao acariciar disfarçada o volume, tranqüilizou-se antes de sair puxada pela mão dourada do tenista-dourado. Que a fez encostar a cabeça entre os dois peitos dele, cheiro de colônia, desodorante, suor limpo de homem embaixo da camisa pólo amarelinha, lambeu a orelha dela, mordiscou a curva do pescoço ao som duma dessas trilhas românticas em inglês de telenovela, até que ela gemesse, toda molhada, implorando que parasse. O mais baixo não quis dançar. Quero foder você, rosnou: pra que essa frescura toda?

Foi quando ela levantou a perna, apoiando o pé na borda da cadeira, que todos viram o sapato vermelho. Depois dos comentários exaltados, as meticulosas preparações estavam encerradas, a boate quase vazia, sexta-feira instalada, e era da Paixão, cinza cru de amanhecer urbano entrando pelas frestas, o único garçom impaciente, cadeiras sobre as mesas. Tinham chegado ao ponto. O ponto vivo, o ponto quente.

— Pra onde? — perguntou o tenista-dourado.

— Meu apartamento, onde mais?— ela disse, terminando de assinar o cheque, três estrelas, caneta importada.
 
— Mas afinal, com quem você quer ir?— o negro quis saber.
 
Ela acariciou o rosto do mais baixo:
 
— Com os três, ora.
 
Apesar do uísque, saiu pisando firme nos sapatos vermelhos, os três atrás. Lá fora, na luz da manhã, antes de entrarem no carro que o manobrista trouxe e o tenista-dourado fez questão de dirigir, os sapatos vermelhos eram a única coisa colorida daquela rua.
 
 
 
3
 
 
 
Que tirasse tudo, menos os sapatos — os três imploraram no quarto em desordem. Garrafa de uísque na penteadeira, Fafá de Belém antiga no toca-discos (escolha do tenista-dourado, o negro queria Alcione), cinzeiro transbordante na mesinha-de-cabeceira. Tirou tudo, jogando para os lados. Menos as meias de seda negra, com costura atrás, e os sapatos vermelhos. Nua, jogou-se na colcha de chenile rosa, as pernas abertas. Eles a cercaram lentos, jogando as zorbas sobre o crepe negro.
 
O negro veio por trás, que gostava assim, tão apertadinho. Ela nunca tinha feito, mas ele jurou no ouvido que seria cuidadoso, depois mordeu-a nos ombros, enquanto a virava de perfil, muito suavemente, molhando-a de saliva com o dedo, para que o mais baixo pudesse continuar a lambê-la entre as coxas, enquanto o tenista-dourado, de joelhos, esfregava o pau pelo rosto dela, até encontrar a boca. Tinha certo gosto também de pêssego, mas verde demais, quase amargo, e passando as mãos pelas costas dele confirmou aquela suspeita anterior de uma penugem macia num triângulo pouco acima da bunda, igual ao do peito, acinzentado pelo amanhecer varando persianas, mas certamente dourado à luz do sol. Foi quando o negro penetrou mais fundo que ela desvencilhou-se do tenista-dourado para puxar o mais baixo sobre si. Ele a preencheu toda, enquanto ela tinha a sensação estranha de que, ponto remoto dentro dela, dos dois lados de uma película roxa de plástico transparente, como num livro que lera, os membros dos dois se tocavam, cabeça contra cabeça. E ela primeiro gemeu, depois debateu-se, procurou a boca dourada do tenista-dourado e quase, quase chegou lá. Mas preferia servir mais uísque, fumar outro cigarro, sem pressa alguma, porque pedia mais, e eles davam, generosos, e absolutamente não se espantar quando então invertiam-se as posições, e o tenista-dourado vinha por trás ao mesmo tempo que o mais baixo introduzia-se em sua boca, e o negro metido dentro dela conseguia transformar os gemidos em gritos cada vez mais altos, fodam-se os vizinhos, depois cada vez mais baixos novamente, rosnados, grunhidos, até não passarem de soluço miudinhos, sete galáxias atravessadas, o sol de Vega no décimo quarto grau de Capricórnio e a cara afundada nos cabelos pretos encaracolados do negro peito largo dele. De outros jeitos, de todos os jeitos: quatro, cinco vezes. Em pé, no banheiro, tentando aplacar-se embaixo da água fria do chuveiro. Na sala, de quatro nas almofadas de cetim, sobre o sofá, depois no chão. Na cozinha, procurando engov e passando café, debruçada na pia. Em frente ao espelho de corpo inteiro do corredor, sem se chocar que o mais baixo de repente viesse também por trás do tenista-dourado dentro dela, que acariciava o pau do negro até que espirrasse em jatos sobre os sapatos vermelhos dela, que abraçava os três, e não era mais Gilda, nem Adelina nem nada. Era um corpo sem nome, varado de prazer, coberto de marcas de dentes e unhas, lanhado dos tocos das barbas amanhecidas, lambuzada do leite sem dono dos machos das ruas. Completamente satisfeita. E vingada.

Quando finalmente se foram, bem depois do meio-dia, antes de jogar-se na cama limpou devagar os sapatos com uma toalha de rosto que jogou no cesto de roupa suja. Foi o neon, repetiu andando pelo quarto, aquelas luzes verdes, violeta e vermelhas piscando em frente à boate, foi o neon maligno da Sexta-Feira Santa, quando o diabo se solta porque Cristo está morto, pregado na cruz. Quando apagou a luz, teve tempo de ver-se no espelho da penteadeira, maquilagem escorrida pelo rosto todo, mas um ar de triunfo escapando do meio dos cabelos soltos.

Acordou no Sábado de Aleluia, manhã cedo, campainha furando a cabeça dolorida. Ele estava parado no corredor, dúzia de rosas vermelhas e um ovo de Páscoa nas mãos, sorriso nos lábios pálidos. Não era preciso dizer nada. Só sorrir também. Mas ela não sorria quando disse:

— Vai embora. Acabou.

Ele ainda tentou dizer alguma coisa, aquele ridículo terno cinza. Chegou mesmo a entrar um pouco na sala antes que ela o empurrasse aos gritos para fora, quase inteiramente nua, a não ser pelas meias de seda e os sapatos vermelhos de saltos altíssimos. Havia um cheiro de cigarro e bebida e gozo entranhado pelos cantos do apartamento, a cara de ressaca dela, manchas roxas de chupões no colo. Pela primeira, única e última vez ele a chamou muitas vezes de puta, puta vadia, puta escrota depravada pervertida. Jogou o ovo e as rosas vermelhas na cara dela e foi embora para sempre.

Só então ela sentou para tirar os sapatos. Na carne dos tornozelos inchados, as pulseiras tinham deixado lanhos fundos. Havia ferimentos espalhados sobre os dedos. Tomou muito banho quente, arrumou a casa toda antes de deitar-se outra vez — o broche de brilhantes tinha desaparecido, mas que importava: era falso —, tomar dois comprimidos para dormir o resto do sábado e o domingo de Páscoa inteiros, acordando para comer pedaços de chocolate de ovo espatifado na sala.

Segunda-feira no escritório, quando a viram caminhando com dificuldade, cabelos presos, vestida de marrom, gola fechada, e quiseram saber o que era — um sapato novo, ela explicou muito simples, apertado demais, não é nada. Voltavam a doer, os ferimentos, quando ameaçava chuva. E ao abrir a terceira gaveta do armário para ver o papel de seda azul-clarinho guardando os sapatos, sentia um leve estremecimento. Tentava — tentava mesmo? — não ceder. Mas quase sempre o impulso de calçá-los era mais forte. Porque afinal, dizia-se, como num conto de Sonia Coutinho, há tantas sextas-feiras, tantos luminosos de neon, tantos rapazes solitários e gostosos perdidos nesta cidade suja… Só pensou em jogá-los fora quando as varizes começaram a engrossar, escalando as coxas, e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê.

UM HOMEM PRA CHAMAR DE MEU
26 de março de 2010

o primeiro contato que tive com caio fernando abreu foi através do seu livro de contos intitulado “morangos mofados”. fiquei maravilhado, aturdido, fascinado, louco com aquilo que acabara de ler.
 
de lá para cá minha relação com o escritor foi construída passo a passo, obra a obra, sempre contente com o que era descoberto por mim.
 
porém, foi com o livro de onde provém o texto de hoje que o caio me “ganhou” definitivamente.
 
a obra foi organizada pelo super poeta, pesquisador e professor italo moriconi. trata-se de uma espécie de “biografia”, montada a partir das missivas enviadas por caio fernando abreu a seus amigos (o autor tinha esse hábito, gostava muito de escrever cartas).
 
acho este um dos mais belos livros que já li.
 
como se trata da correspondência pessoal, o escritor desnuda, sem pudores, todas as suas facetas: seus medos e inseguranças, sua lucidez ante a face suja da vida, sua vontade crescente de solidão, suas imensas generosidade, inteligência e irreverência. senti-me tão encantado pela obra, apropriadamente chamada “cartas”, que — santo deus, como estou confessional (rs)… — me enamorei por ele, por caio fernando abreu, pelo que se mostrava nas linhas. sei que é maluquice, que é insano, mas dou-me direito a essas sandices no imaginário. afinal, de perto, senhores, ninguém é normal. 😉
 
enfim, enamorei-me pelo escritor e achava, muito resignado (rs), uma grande sacanagem da vida a minha falta de oportunidade de conhecê-lo.
 
em “cartas”, uma coisa que fica clara é o período (largo) de descrença nas pessoas, de desgosto com as atrocidades mundanas, de desejo cada vez maior de isolar-se de tudo e todos, de isolar-se com seus livros e discos. isso me matava, me doía. pensava: “um homem tão bom, tão bacana, tão do bem, não merecia tanta hostilidade, tanto descuido…” batia-me o ensejo de cuidar dele, de reverter esse quadro (rs).
 
caio fernando abreu adorava uma canção chamada “mesmo que seja eu”, da dupla dinâmica erasmo & roberto carlos, na voz da cantora & compositora marina lima.
 
adoraria dizer para ele, poderia ser brincando, descompromissadamente, um dos versos dessa canção:
 
caio,
 
eis aqui o paulo sabino: um homem pra chamar de seu (rs rs rs).
 
o livro de poemas que pretendo lançar este ano, no segundo semestre, é dedicado a ele, entre outros.
 
hoje em dia, acho engraçado — e bonito, comovente — que tivesse vivenciado desse modo, durante um bom período, o meu carinho, o meu amor, por ele. 
 
a seguir, uma das cartas que mais me emocionam. uma lindíssima declaração de amizade, bondade e inteligência, coberta e recheada do seu divertido humor.
 
caio fernando abreu afirma:
 
Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade.
  
Gosto de pessoas doces, de situações claras.
 
eu também. por isso, por tanto,
 
caio fernando abreu: um homem pra chamar de meu.
 
e de vocês.
 
aproveitem-no!, aproveitem a (despretensiosa, generosa & sábia) lição de vida.
 
beijo bom em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Cartas. organização: Italo Moriconi. autor: Caio Fernando Abreu. editora: Aeroplano.)
 
 
A Guilherme de Almeida Prado
 
 
 
 
Paris, 12 de abril de 1994
 
 
 
Querido Guila,
 
escrevo “querido” porque — você sabe? — realmente gosto muito de você. Não esqueça disso.
 
Voltei sábado de Saint-Nazaire, de onde te enviei um cartão (pedindo o endereço/ telefone de Gianni em Lisboa). Ao chegar encontrei teu cartão.
 
Eternamente Bambi, abri todo saltitante — foi o primeiro que recebi do Brasil, e desde que saí, há mais de mês, não tive notícias daí. Então levei um choque. Deus, quanta hostilidade! Fechei o cartão e só reabri hoje, depois de muito pensar se devia uma resposta ou não. Porque realmente-gosto-muito-de-você, acho que sim.
 
Ô Guila, calma lá! acho um pouco ridículo um bate-boca transoceânico, mas não consigo ficar com essas coisas atravessadas. Então:
 
1º   fui injusto — um pouco — ou excessivo com você. Ma non troppo.
Como te disse, voltei a SP ano passado, após dez meses de ausência, sem trabalho, sem casa nem nada. Discretamente, enviei sinais de socorro aos amigos. Ninguém ajudou. Me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais. Não foi só você, não. Foram também pessoas até mais íntimas, como Jacqueline. Eternamente Bambi, me virei sozinho com enormes dificuldades. Não me lamuriei. Mas preciso que as pessoas saibam que isso doeu — exatamente porque algumas destas pessoas, como você ou Jacqueline, importam para mim.
2º   Cheguei em Paris preocupado com a minha violência, o meu “excesso”. Metade pelo menos provocada pelo álcool e pela excitação da viagem.
Pedi desculpas, com doçura,
3º   Você me responde duramente. Escuta:
4º   “Ar blasé” — não sei o que significa isso. Certa vez num grupo de psicanálise (fiz 14 anos, ganhei duas altas: acho que lido mais ou menos bem com meus demônios) uma garota disse que eu era “altivo”. Achei chique. Talvez você queira dizer “ar aristocrático”?
Bivar, que tem um olhar doce sobre o mundo, certa vez disse que eu parecia um príncipe — normando. Não sei por que “normando”, mas também achei bonito. Sou terrivelmente tímido e, na verdade, acho que tenho mais é um ar de cachorro surrado, daquele que levou muita porrada, passou fome, dormiu ao relento.
5º   Eu “não resisto a uma baixaria bem brega”! Resisto sim. Tenho um passado hippie que me deixou muitas coisas boas. Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade. Sou educadíssimo, e fui criado de maneira muito católica, com toda aquela culpa de “maus” pensamentos, “más” ações, e uma terrível nostalgia da “bondade” (como a “Alice” do Woody Allen).
Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras — e por tudo isso, ando cada vez mais só. É como me sinto melhor.
6º   A propósito do parágrafo acima, hoje li um Wolinski chamado Les français me font rire que começa com esta frase: “Si tout le monde était comme moi, je n’aurais pas besoin de detester les autres!” (Tradução: “Se todos fossem como eu, eu não precisaria detestar os outros.”)
7º   Amigos não “são para essas coisas”, não. Isso é um clichê detestável, significando quase sempre que amigo é saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar dejetos, detritos imundos e dar a descarga. Amigos são para dividir o bom e o mal, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles — amigos devem ser solidários. Um dos meus maiores amigos, […], que vive em Paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 (mas graças a Deus saudabilíssimo), tem sempre a preocupação de ser útil aos amigos. Quase não fala, não envia flores, não escreve cartas — mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. Amigos são também para escrever cartas enormes e um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tombem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90.
 
É por isso que te escrevo, quase meio-dia, um sol raro lá fora. Guila, não me mande coisas assim raivosas. Eu não tenho anticorpos para esse tipo de coisa. Até hoje, um dos meus truques para sobreviver, mesmo não sendo mulher e nem sequer tendo cabelos, foi fazer o papel de “loura burra”. Deixei passar muita agressividade, muita humilhação — e não me refiro a você, mas estou farto. Fui vivendo minha vida de maneira tão solitária, conquistando minhas coisas tão no braço, tão sempre sem nada, que aprendi a ter uma enorme admiração por mim mesmo. Vou chegando muito perto dos 50 anos sem dever absolutamente nada a ninguém.
 
Então, nos últimos tempos — deve ser a meia-idade — comecei a ter uma sensação, digamos, de “direitos adquiridos”. Não agüento mais desaforo, e vou ficar pior, vou ficar, se Deus quiser, como Odete Lara, Greta Garbo, Fauzi Arap, Helen Lane — americana budista de 84 anos que conheci semana passada, e vive só numa cabana no Perigord, cercada apenas de livros e gatos. Ando exausto de seres humanos.
 
Guilherme, mon cher, precisamos — eu e você e todo mundo — tomar muito cuidado com esses tempos. São tempos de horror. Tudo fica ainda mais grave neste país de là-bas, como é o Brasil, e mais ainda numa cidade como São Paulo — onde a crise econômica, a corrupção, a violência, a falta de futuro, a miséria material foi gerando sem que as pessoas percebessem também uma miséria psicológica, uma miséria espiritual ainda mais terrível e mais patética. São Paulo virou um grande salve-se-quem-puder: ninguém ajuda ninguém. E se as pessoas como nós — os “especiais”, os cineastas, os escritores, os músicos, os poetas: a gente que tenta criar beleza e dignidade — também começarem a agir dessa maneira, então vale mais a pena a casinha pobre de Dulce Veiga no meio do mato, as panelas arrebentadas em que Odete Lara uma vez cozinhou arroz integral para mim. Compreende?
 
Devo estar chatíssimo, mais “blasé” do que nunca, com todo esse texto parecendo discurso do Partido Verde… Et voilá: sou também um pouco tolo, um pouco naive, um pouco pêra — e eternamente Bambi. Quando a barra pesa, compro flores e ouço Mozart. Não creio que isso seja gostar de uma “baixaria bem brega”. Além disso, essa linguagem rasteira absolutamente não combina com você — um von Almeida Prado!
 
Sinto que o Brasil tenha ficado “ainda mais medonho” sem mim. Em compensação, a França parece ter ficado ainda mais encantadora comigo. Os livros caminham lindamente, críticas ótimas nos jornais e revistas mais importantes, rádio, TV. Ontem — foi hilário — dei autógrafo na rua, em Saint-Germain des Prés, para um garoto — estranhamente chamado Damour — que viu um dos programas de TV, comprou os três livros, deu vários de presente. Cheguei na editora rindo: meu Deus, a Laika de São Paulo, a negra sem ter onde morar, vivendo com 500 dólares por mês, lavando roupa num balde sob o chuveiro, fazendo a feira toda sexta — dando autógrafo em Saint-Germain!
 
Por tudo isso, tenho me divertido muito, muito. Ontem, a poderosa de uma editora que recusou Dulce Veiga, após várias najices, me convidou para jantar no “Le Temp Perdu”, o melhor restaurante do Quartier Latin. Eu disse educadamente “não”, muitos compromissos, muitas viagens. Se gostasse de uma “baixaria bem brega”, aprontava uma grosseria em plena mesa de jantar. Mas não sou hipócrita, Guila. Não sei fazer “jogo social”. Até saberia, mas não me interessa, tenho preguiça. Como Dulce V., eu sempre quis só “outra coisa”, e vou chegando a um ponto em que tenho pensado se essa “coisa” não será a solidão mais completa — e se não ela, essa solidão idealizada, porrada de gatos, rosas, Mozart e livros, será quem sabe somente a morte. Há que ter paciência para esperar por ela, que é a única certeza entre todas as nossas ilusões tolas. “Ah, quando virás, cavalinha, montar meu dorso fatigado!” — dizia Hilda Hilst (60 anos no próximo dia 21) num poema de um livro chamado Da morte — Odes mínimas.
 
A propos: você já viu Short Cuts, do Altman? Não sei se chegou aí. Fiquei PARALISADO. Não é um bom filme: é genial, é uma radiografia, um corte tão profundo e impiedoso na sociedade americana e na alma humana que vale por ter vivido uns 20 anos. Ensina muito sobre a nossa loucura, a nossa vulgaridade, a nossa crueldade.
 
São de coisas assim que quero falar com você, meu amigo — cinema, literatura, música, vida. Que enorme desgaste trocar najices — gastar um cartão lindo daqueles (que vou ter que jogar fora, sorry, é muito ofensivo) mais selo, sem falar na produção sempre exaustiva de enfrentar os correios paulistanos — de hemisférios opostos. Ah, Guilherme, não me envie mais coisas assim. Não escreva nada, não nos procuramos mais: um dia nos cruzamos por acaso, de repente, e então vemos o que aconteceu a nossos rancores e reagimos de acordo com isso. Mas se você quiser me contar das suas funduras, e não apenas defender-se — e os amigos são, sim, para trocar abismos — então me escreva 10, 100 páginas, e eu responderei com calor, com carinho, com toda amizade que realmente sinto por você.
 
Continuo a sentir que Dulce Veiga é nossa, minha e sua. Te mando dois recortes simpáticos — um do L’Express, a Veja (com ética, claro) daqui. Outro do Les Inrockuptibles, uma revista chique e cult, um pouco como a A-Z dos bons tempos, mas com circulação bem maior. Divida isso comigo, tem um gosto bom.
 
Ah: se você tiver o endereço/ fone do Gianni seria maravilhoso. Pedi também a Cida Moreira, que precisaria pedir ao Ivan Mattos, que. E aí entra todo aquele mar de lama que você conhece, e que eu prefiro evitar.
 
Beije com carinho a divina Zu Val por mim: Zu, quero te ver cantando, com direito a muito jubão crespo, quando voltar. Diga a ela que, por aqui o Império do Bustiê também tem o seu poder. A diferença é que os bustiês são Gaultier, Channel e Yamamoto — embora para mim bustiê seja bustiê e pronto, no Champ Elysées ou Taboão da Serra.
 
E diga também ao Ricardo que mando um beijo. Cuide-se, fica feliz.
 
Je t’ embrasse
 
Caio F.