A POESIA
4 de outubro de 2012

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uma seta sem forma perpassa & atravessa a sala, o quarto, o inabitável, uma seta sem forma revira as gavetas do armário, seta voraz, seta veloz, perfura o “in” (o que está dentro), perfura o visível, o invisível, e a seta sem forma acerta o íntimo: a seta sem forma: a poesia.
 
seta sem forma (seta que pode ter formas as mais diversas & díspares), a poesia perpassa & atravessa & perfura tudo & qualquer coisa, acertando o íntimo (em cheio): dardos sem fins, dardos que não pretendem acertar alvo algum, dardos que servem a nenhuma finalidade, e que, por isso, podem absolutamente tudo (dardos que podem acertar o alvo que bem desejarem acertar), a poesia ultrapassa a conversa & o cerne do silêncio, a poesia vai além do que é dito & do que não é dito, perfura (pois que acerta o íntimo) a frágil folha da existência, perfura da existência a folha por um fio (folha que brevemente recebe o seu ponto final & que se transforma em folha virada, passada, no livro da vida), a poesia, às cegas, sem que nem ela mesma saiba de onde vem, salta, a poesia, portanto, salta do imprevisto, a poesia pula do inesperado, sobre as sobras do infinito (as sobras do infinito: tudo aquilo que sobra do que não finda, tudo aquilo que sobra do que nunca acaba, tudo aquilo que sobra do que é eterno: as sobras do infinito: tudo aquilo que, ao infinito, não interessa: a frágil folha da existência, folha que recebe o seu ponto final & é virada, passada, no livro da vida) & crava-se em algum sentido (o sentido é resultado de algumas variáveis; por conta do sentido derivar da junção & do resultado da junção de algumas variáveis, existem as variações — as diferenças — no modo de interpretar um acontecimento ou um poema, por exemplo. o modo das pessoas interpretarem, por exemplo, um acontecimento ou um poema são os mais variados, e isso tem a ver com o sentido que se dá ao que é interpretado):
 
lança sem freio, lança sem o que consiga detê-la, a poesia lança-se, e, lançando-se, traspassa, atravessa, perfura, (a frágil folha da existência) para, então, dispersar-se, sem código de barras ou marca d’água (a poesia dispersa-se sem que algum sistema de identificação possa reconhecê-la ou decodificá-la, a poesia espalha-se, parte-se em partes — a serem pensadas para o entendimento da poesia — sem que algum sistema de identificação — código de barras ou marca d’água — possa decifrar seu conjunto de palavras & versos), e afundar-se no istmo do que se saiba.
 
istmo: faixa estreita de terra que liga duas áreas de terras maiores. por extensão de sentido, istmo: parte estreita que une duas partes maiores.
 
o istmo do que se saiba, isto é, o istmo da sabedoria: a sabedoria que temos do mundo é pequena, o que dele sabemos é pouco. não temos um largo, um abrangente, conhecimento do mundo. portanto, estreita é a sabedoria que temos do mundo. além de estreita, é a sabedoria que serve de “ponte”, que serve de “elo”, entre, de um lado, a existência, e do outro lado, o ser pensante (o homem).
 
a sabedoria é uma espécie de istmo por ser a faixa estreita (pois a faixa de conhecimento que temos do mundo não é larga) que liga duas partes: uma delas, o homem, à outra parte, o mundo. é o “saber”, é a “sabedoria”, que nos liga, que nos conecta, ao mundo. sabemos o que é o mundo graças ao acúmulo de conhecimentos — o que é o mesmo que dizer: sabedoria — sobre o mundo.
 
lança sem freio, a poesia lança-se, traspassa, dispersa-se & afunda-se no istmo do que se saiba.
 
faca afiada (pois corta rasga perfura), a poesia, pronta para tudo ou nada (a poesia aprontada & repleta de pretensões, todas elas, ou a poesia aprontada & vazia de pretensões, nenhuma delas), a poesia, pronta para tudo ou nada (a poesia, por não ser comprometida com absolutamente nada, isto é, por não estar comprometida com um tipo de assunto ou de formato específicos, a poesia pode absolutamente tudo), a poesia finca-se em si.
 
a poesia finca-se em si: a poesia encerra-se em si: nada que se diga ou que se escreva a respeito de um poema é mais que o próprio poema.
 
a poesia finca-se em si e, em si, fica. (à espera de quem deseje desvendar os seus mistérios.) 
 
nada é mais & melhor que a própria poesia.
 
a poesia: uma das (grandes) chaves do mundo.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Adriano Nunes.)
 
 
 
A POESIA  —  Para Carlito Azevedo
 
 
seta sem forma,
a poesia,
perpassa,
atravessa
a sala,
o quarto,
o inabitável,
revira as gavetas
do armário,
voraz,
veloz,
perfura o in-
visível
e acerta o
 
íntimo:
dardo sem fins,
a poesia,
ultrapassa
a conversa e
o cerne do silêncio,
perfura a frágil folha
da existência,
às cegas,
salta
do imprevisto,
sobre as sobras
do infinito
e crava-se em
 
algum sentido:
lança sem freio,
a poesia,
traspassa,
dispersa-se,
sem código de barras
ou marca d’água,
afunda-se
no istmo do que se saiba,
faca afiada, pronta
pra tudo
ou nada,
finca-se
em si.

O TUBO
23 de março de 2011

mais uma vez,

o paisagista dos versos,

com suas texturas cromático-poéticas,

pinta, com a sua caneta-pincel, o cenário do seu poema épico que, assim como a “divina comédia”, do poeta italiano dante alighieri, é dividido em três partes: inferno, purgatório & paraíso.

porém, diferentemente do épico italiano, paraíso, purgatório & inferno estão circunscritos num mesmo espaço, como se entubados, como se estivessem dentro de um tubo.

paraíso, purgatório & inferno, todos numa mesma dimensão.

outra diferença é que a “divina comédia” inicia no inferno, passa pelo purgatório, e finda no paraíso, com final favorável às personagens.

o épico poema que aqui segue inicia no paraíso, que chega a assustar (rs), passa pelo purgatório, e acaba no inferno (rs). as paisagens & histórias debuxadas nos versos se referem à cidade do rio de janeiro.

no fim das contas, o poema desenha, ao leitor, paraíso & inferno, inferno & paraíso: tudo junto & misturado. sim sim, o inferno, onde terminam as linhas, é ainda mais sombrio & triste que o paraíso, porém, no paraíso, como se pode já perceber, respingam as tintas mais obscuras, as tintas utilizadas no inferno — a paisagem de ambas as partes é a mesma, assim como as personagens —.

o purgatório, que também pode ser chamado purificatório, acaba por ser o lugar de questionamentos, constatações & revelações, e muito bem localizado: o purgatório se passa nas paineiras, caminho em meio à floresta, com quedas d’água e mirantes com suas belas vistas da cidade. uma delícia o lugar — o caminho das paineiras, área do parque florestal da tijuca —.

no purgatório, uma das personagens expõe, segundo a própria, de forma sumaríssima (rs), muy sucinta (como os senhores perceberão), uma coisa dita pela outra personagem, qualquer coisa a ver com presença & metafísica. é justamente no purgatório que o paisagista dos versos, carlito azevedo, expõe toda a sua verve pictória de modo magistral: descrevendo paisagens, passagens de cena, para, mais à frente, redesenhá-las, imprimindo efeitos de continuidade & ao mesmo tempo efeitos de realce aos demais versos que engendram a trama, aos demais versos que formulam o drama. tudo isso com grandes humor & perspicácia.

as personagens & paisagens do inferno & do paraíso, debuxadas pelo pintor dos versos carlito azevedo, são as mesmas. inferno & paraíso, paraíso & inferno: na paisagem do rio de janeiro, estes dois lugares contrastantes caminham juntos.

(rio, 40 graus: cidade maravilha, purgatório da beleza & do caos. tudo no turbilhão. tudo no mesmo caldeirão. tudo no tubo.)

o poeta-pintor carlito azevedo colore uma trama poética cercada de nuances, colore um drama poético onde cabem: o humor, o gracejo, a ironia, como também o triste, o cinzento, o aborrecido, e o decrépito, o indigente, o degradante, e ainda o romance, o carinho, o cuidado, a atenção, mais o que é de cunho existencialista, o que é de cunho filosófico.

(tudo no mesmo caldeirão. tudo no turbilhão. tudo no tubo.)

deliciem-se com toda a descrição em queda lírico-vertiginosa, com os versos dispostos na forma de um tubo, de um tubo onde se encontram todas as paisagens — paraíso, purgatório, inferno —, na forma de um tubo que se formou de um buraco no meio das nuvens, e que trouxe o sol brilhando com os seus cem sóis, um tubo que desce e que, de baixo, no fundo do abismo, a cidade, o torvelinho, o renque de palmeiras, uma rua irreconhecível.

céu & terra, terra & céu: um tubo.

paraíso & inferno, inferno & paraíso: no tubo.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Monodrama. autor: Carlito Azevedo. editora: 7Letras.)

 

O TUBO


PARTE 1
: PARAÍSO

 

Foi quando a luz
voltou e vimos
o rosto da jovem
que se picava junto
à mureta do Aterro,
a camiseta salpicada,
a seringa suja.
“Nenhum poema
é mais difícil
do que sua época”,
você disse
em meu ouvido
sem que eu soubesse
se era a ela que se
referia ou se ao livro
que passava das mãos
para o bolso
da jaqueta.
Distinguimos
lá longe
a Ilha Rasa,
calçamos
os tênis
e seguimos
sem atropelo
sentido enseada.

 

PARTE 2: PURGATÓRIO

(nas Paineiras)

eu disse: você
podia por favor
responder mais uma
vez àquela minha questão?
eu disse: vamos aproveitar
esse sol frio, belo,
que furou as nuvens,
essa boa caminhada
até o estacionamento,
e conversar mais um
pouco sobre aquilo?
eu entendi bem
o que você disse
mas depois acabei
me distraindo, me
distraí com alguma
coisa, não sei bem
o quê, talvez
a coragem daquelas
mulheres sob a
queda da água
tão fria que explodia
rochedo abaixo
ou o que gritavam
aquelas mulheres sob
a queda da água
tão fria que explodia
rochedo abaixo,
talvez os lagartos
que, assustados,
disparavam espavoridos
rochedo acima,
espessura a dentro.
eu disse: os lagartos
mudavam de cor.
o fato é que eu
queria que por
favor você me
repetisse aquilo
que me disse.
será que você poderia
repeti-lo? eu disse:
às vezes
eu sonho com
um grande acidente.
e eu às vezes sonho
com átomos se reunindo
para gerar aquilo
que podemos chamar de
o grande acidente,
the big one,
com que cada um
cedo ou tarde
vai ter que se
enfrentar e ver.
eu disse: e é sempre
como um país
se dando conta
de que entrou
em guerra, um dia
um país se dá conta
de que a guerra
de que todos falam é
a sua guerra, o
país é o seu
país, e o que chamam
de a guerra é a
sua vida. eu disse:
por exemplo,
abra os olhos e veja:
num zeptossegundo
não há mais lagartos
agora, nem rochedo
agora, ou queda
d’água tão fria
agora, ou mulheres
gritando agora
as coisas mais
singulares
e irrepresentáveis,
e tudo se passa
em uma espécie
de videostream ou
“uma lacuna na
vida ou na linguagem
por onde penetram
nossos antagonistas”.
eu disse: viu?
é exatamente assim
que ocorre
em meus sonhados
acidentes

.

eu que me lembro
que você falou
qualquer coisa que
tinha a ver com
presença e metafísica.
eu disse:
ah, ali está o carro
o 4×4 vermelho
bem debaixo
daquelas árvores,
debaixo daquela chuva
de pétalas amarelas,
roxas, desmanteladas.
outro dia qualquer
antes de sua volta
aprenderei o nome
de todas essas árvores
sobre as quais
você me pediu
informações que
eu não estava
tampouco
apto a fornecer,
está bem?
me ocorreu agora
lhe perguntar se você
seguiu em frente
com os escritos?
você gostava muito
dos escritos,
de escrever,
como dizíamos,
e você tinha umas
ideias verdadeiramente
luminosas sobre isso.
você não vai me
levar a mal e vai
me fazer esse favor,
de repetir o que
respondeu à minha
questão, não é?
vai significar
muito para mim, sabia?
bem, talvez
você não se lembre
afinal tudo era meio
interrompido
pelas risadas que a
gente dava e pelo
espanto que a gente
sentia ao ver que
nuvens enormes,
as mais gigantescas
da temporada e, de fato,
da cor de chumbo,
e nem que eu repetisse
isso mil vezes
daria uma ideia de como
eram da cor da cor do chumbo
aquelas nuvens
que cobriam completamente
a paisagem que a gente
tinha feito tanto esforço,
tinha caminhado tanto
tempo para ver,
para achar uma localização
mais alta possível
para ver e acabou
não dando certo
ou melhor,
tudo deu certo se
como você disse
o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante
das Paineiras para ver
as nuvens mais colossais
e cor do chumbo
e cor da cor do chumbo
da temporada cobrindo
o céu e a paisagem, não é?
o que não seria
de modo algum
desprezível
do ponto de vista
do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo.
eu disse: eu preciso
lhe dizer o que gravei
como sendo o que
aproximadamente
você disse,
mas é claro que
não vai ser o
que realmente você
disse, é apenas
uma adaptação
e que por isso
mesmo só pode existir
embaciando a
informação original,
só se dará como pálida
sombra da coisa
em si brilhante e luminosa:
o seu objeto singular.
e se lhe repito essas
palavras não é para que
você pense que eu
por um instante sequer
imaginei que você
fosse capaz de dizer
uma coisa óbvia,
por favor, não lhe passe
algo do gênero
pela cabeça,
é apenas para que
você saiba do que
estou falando e me
recorde e explique,
devolvendo ao tópico
toda a complexidade
que
a contragosto
lhe subtraí

.

eu me lembro que você
mexeu um pouco esse
seu cabelo tão bonito
e eu me lembro
que ele fez um som
ou
nem era um som
e sim algo que deve
proceder do micromundo
das vibrações sonoras,
e eu fiquei arrepiado,
me arrepiei, a nuca
inteira, de imediato, e
depois você também
espantou uma abelha
acintosa que bordejava
a sua latinha e então
você disse qualquer
coisa assim:
“como não tenho
mais questão alguma
com a metafísica, eu
não fico esperando por
alguma presença para
experimentar o que
experimento, experimento
todos os dias.”
acho que se então
acabei me distraindo,
me destraí, foi
porque algum tempo
depois — você lembra?
tínhamos dado no
máximo uns vinte
passos sobre o morro —
se abriu um buraco
no meio das nuvens,
um tubo ou coisa assim,
que trouxe até nós,
de cima:
o sol, brilhando
com os seus cem sóis,
e de baixo:
o fundo do abismo,
a cidade,
o torvelinho,
o renque de palmeiras
de alguma rua
irreconhecível
ao menos para mim,
mas que eu gostaria
de ficar olhando por
um longo, indeterminado
tempo de uma tarde
de verão, e por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir
por entre atletas,
gramíneas,
quedas d’água e
cães malabaristas,
foi mesmo como se
de repente se rompessem
as cordas podres da
percepção, mas só
porque junto com a
visão daquele sol
e daquele deslumbrante
mundo inferior
com trânsito pesado
e renque de palmeiras
vinha a melodia
pigarreada das
nossas vozes dizendo
o que diziam e como,
e os rumores de tudo ali:
os atletas, os lagartos,
as quedas d’água, os
cães malabaristas e
tudo o que então
poderia
num zeptossegundo
ter sua escala
de grandeza modificada
e sua existência posta
em dúvida num acidente
colossal

.

eu disse:
acho que você tinha
que pensar bem
naquilo dos escritos,
eu gostei dos seus
escritos desde sempre,
você sabia?
eu sinceramente não
sei como você conseguiu
chegar de modo tão rápido
e definitivo a algo
que para mim permanece
indefinível e
inesgotável
fonte de sobressaltos.
o que você escrevia
tinha a capacidade
de produzir de imediato
com tão poucas palavras
algo que estabelecia
uma completa relação
entre consciências
desencantadas
que me deixava
absolutamente encantado.

eu disse:
claro que vão deixar
você escrever por lá,
tem cabimento uma dúvida
dessas? ei
para que tipo de lugar
você pensa que está
sendo levada?

.

oxalá eu não tenha
também mais questões
com a metafísica e
a presença, como
você bem disse
e meu caso se resuma
ao fato de que
simplesmente sou
uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento.
mas me diga (eu disse)
não era uma coisa assim,
que partia dessa base
que expus de forma
sumaríssima, mas
que em sua voz e
expressão sabia
logo desdobrar
um rol de consequências
inesperadas, desfolhar
um jorro de pertinências
agudas, corrosivas,
como as pétalas da
sick rose,
fazer um giro
desregrado
potente e incisivo,
até magnificar-se
em uma formulação
a um só tempo
límpida e biunívoca?

 

PARTE 3: INFERNO

povres fameletes
povres hospitaulx
povres gens

F.VILLON

 

Você a reconheceu
como sendo a menina
coreana da Central
de Fotocópias do Catete
aquela com
camiseta salpicada
presilhas fluo
mureta
e hipodérmica pendente
do braço
e me abraçou e
me olhou com um olhar
que me atravessava
e ia atingir
atrás de mim
bem lá na frente
no bazar futuro dos dias
no meio das bugigangas
espelhadas, espalhadas
um outro crepúsculo cinza
uma outra noite chuvosa
e sem luz
em que veríamos
o inferno refletido
nos olhos de um
vira-lata que cruzava
as pistas do aterro
varado pelos
feixes dos faróis
(relâmpagos de
nenhum céu)

dos 4×4
a toda velocidade.

O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”
10 de fevereiro de 2011

prezados,

abaixo,

depoimentos, de alguns dos poetas que mais admiro, poetas a quem, merecidamente, rendo as minhas loas, sobre o blog “prosa em poema”.

as palavras a seguir me enchem de satisfação e ânimo. sim, porque não é fácil a manutenção deste espaço. é muito prazeroso (afinal, poesia é das coisas mais importantes na minha existência), porém não é fácil.

escolher os poemas, pensar os textos de apresentação, tudo isso requer um tempo que, às vezes, é difícil de conciliar com as tarefas do quotidiano.

todavia, como a poesia é das mais importantes coisas na minha existência, este que vos escreve vai cavando tempo para dedicar-se a ela (não só à leitura como à preparação deste espaço).

portanto, quero compartilhar com os senhores palavras que me fazem não desistir, que me fazem crer que a poesia é importante e precisa de espaço, espaço para alçar vôos, espaço para acolhimento, espaço para divulgação.

linhas de poetas publicados ou citados neste espaço, de poetas a quem devo o meu respeito & a minha admiração GRANDES.

pelo apoio ao trabalho que venho desempenhando, o meu muitíssimo obrigado!

paulo sabino & o “prosa em poema” agradecem a todos vocês, poetas da minha vida, pessoas que transformam olhares & me ajudam trilhafora.

sempre digo que a poesia é, para mim, um barco de salvação em meio a tantas turbulências mundanas.

poesia: aufúgio seguro, embarcação uterina, logradouro aprumado.

continuemos juntos nesta grande aventura que é o universo poético!

beijo bom nos senhores!
um, mais que especial, em todos os poetas!
paulo sabino.
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O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”:

 

ANTONIO CICERO (poeta, letrista & filósofo):

Paulinho, é sempre um grande prazer e um grande luxo me encontrar no seu blog. Beijo, Antonio Cicero.

 

ARMANDO FREITAS FILHO (poeta):

Caro Paulo: muito obrigado por tudo. Por toda essa saudação que me acompanhará, e que me comove tanto. Muito obrigado pela sua presença tão calorosa e pela sua amizade nova em folha. Com o abraço e o aplauso do Armando.

 

FABIANO CALIXTO (poeta):

Muito gentil, da sua parte, em publicar os poemas em seu belo blog. Ficou muito legal! Muito obrigado. Fique com meu maior abraço de agradecimento, Calixto.

 

CARLOS RENNÓ (poeta & letrista):

Paulo, seu blog é ótimo! acho que eu é que vou ganhar alguns dias com você – lendo seu blog. espero que tenha tempo na maioria das vezes… ah como seria bom se o dia tivesse pelo menos + 2 horas, vai. grato. um abraço. CR.

 

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO (poeta):

paulo, muito obrigada pelas suas palavras! adorei ter sido incluída no seu blogue. e de agora em diante pretendo visitá-lo sempre. um grande abraço!

 

PÉRICLES CAVALCANTI (poeta & compositor):

Oi Paulo, amigo, muito obrigado! É um prazer pra mim também tê-lo aqui nesta ”vizinhança”. Um beijo.

 

PAULA CAJATY (poeta):

fiquei encantada com o seu trabalho minucioso, de comparar poemas, inspirações e trabalhos. tomara que mantenhamos contato. um beijo grande, Paula.

 

CARLITO AZEVEDO (poeta):

Puxa, adorei o blog e fiquei honradíssimo com seu “post” sublunar! Vou passar o endereço para algumas pessoas bacanas. Parabéns e abraços, Carlito.

AVISO AOS NAVEGANTES — COLEÇÃO “CIRANDA DA POESIA”
22 de dezembro de 2010

senhores,

o querido professor & poeta italo moriconi, atualmente editor executivo da EdUERJ (editora da universidade do estado do rio de janeiro), organizou a belíssima (e necessária) coleção “ciranda da poesia”. a coleção consiste em sete volumes, todos sobre crítica de poesia contemporânea. sete grandes poetas são analisados por sete grandes profissionais da área literária — poetas e/ou críticos.

como se não bastasse o conteúdo, riquíssimo, em cada livro existe uma antologia organizada por quem escreve o ensaio.

portanto, além de toda a informação sobre a obra do poeta, há alguns poemas que servem de base também ao leitor, para que este possa acompanhar mais de perto o que dizem as linhas críticas. isso é um grande ganho!

compõem a coleção os seguintes títulos:

ANTONIO CICERO
por Alberto Pucheu
;

CARLITO AZEVEDO
por Susana Scramim
;

CHACAL
por Fernanda Medeiros
;

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO
por Paulo Henriques Britto
;

GUILHERME ZARVOS
por Renato Rezende
;

LEONARDO FRÓES
por Angela Melim
;

SEBASTIÃO UCHOA LEITE
por Franklin Alves Dassie
;
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recomendo a leitura de toda a coleção com muito gosto!

àqueles que se interessarem em obtê-la, ou em obter alguns livros, deixo, logo abaixo, os contatos da EdUERJ:

telefones: (55) 21 2334-0720 / 2334-0721

e-mails: eduerj@uerj.br / eduerj@gmail.com

site: www.eduerj.uerj.br
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fica a super dica, prezados!

beijo nocês tudo!
paulo sabino / paulinho.

O QUE É POESIA?
9 de abril de 2010

bacanas,
 
o poeta edson cruz, via e-mail, enviou a vários outros poetas uma pergunta que, metaforicamente, é um tiro à queima-roupa, uma pergunta que, ao meu ver, é das mais difíceis, se não, das impossíveis, de serem respondidas:
 
o que é poesia?
 
como não existe uma “regra”, uma “receita”, para o fazer poético, as respostas são as mais variadas.
 
junto à principal, duas outras perguntas que interessam: àqueles que desejam seguir a trilha de escritor / poeta; àqueles que adoram ler, pois os bardos citam 3 poetas e 3 textos referenciais para o seu ofício poético.
 
escolhi cinco poetas dos quarenta e cinco reunidos no livreto. o bom é que posso, no decorrer do tempo, compartilhar com vocês as outras tantas respostas.
 
antes das respostas, parte do texto de apresentação do livro, com o qual concordo inteiramente.

desfrutem os frutos, os furtos poéticos das linhas anunciadas.

beijo terno em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(trecho do texto de apresentação do livro O que é poesia?)
 
 
POETAS À QUEIMA ROUPA (autor: Edson Cruz)
 
As perguntas mais ingênuas, e legítimas, são sempre as mais espinhosas e difíceis de responder. Quando você pergunta a um marceneiro o que é marcenaria, ele, quase sempre, sorri satisfeito com a possibilidade de discorrer sobre sua arte e, quem sabe, seduzir mais um neófito para seu ofício tão amado. O mesmo pode ser válido para outros artistas, por exemplo, um ator. O que é teatro?, você dispara, e ele mata a bola no peito e ainda faz várias embaixadinhas antes de responder, falastrão.
 
Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os escritores — e, particularmente, os poetas — acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os escritores são os seres mais suscetíveis do planeta. E os poetas, minha turma preferida, são a essência cintilante do que denominamos escritor. E dá-lhe suscetibilidade, pois eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem a antena da raça. E, cá pra nós, muitos realmente o são.
 
(…)
 
A poesia é de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais condensada forma de expressão verbal”, dizia Pound), e não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses.
 
(…)
__________________________________________________________________________
 
(do livro: O que é poesia? autores: Vários. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Calibán.)
 
 
  
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
 
 
O que é poesia para você?
 
Poesia é o espanto transverberado.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
A mesma coisa que qualquer iniciante em qualquer matéria ou profissão. Iniciar sempre, até o fim. Ou, no caso da poesia, desconfiar dos que oferecem a receita da “verdadeira” poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Poetas: O rei Davi, salmista; Camões, o lírico; Drummond.
 
Textos: A Bíblia; cartas e ensaios de Mário de Andrade; Introdução à metafísica de Heidegger.
 
 
 
ANTONIO CICERO
 
 
O que é poesia para você?
 
A poesia é o que faz de um “poema” um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto — em particular, um objeto verbal — algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. “Em certa medida baixa”, afirma ele, “pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão”. É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. E isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do livro IV das Odes de Horácio; o poema “East Coker”, de Four quartets, de T.S. Eliot; “Coração Numeroso”, de Alguma poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia… Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.  
 
 
 
AUGUSTO DE CAMPOS
 
 
O que é poesia para você?
 
De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia?
 
Respondendo à pergunta “o que é música?”, Schoenberg saiu-se com esta historinha:
 
Um cego perguntou ao seu guia: — Como é o leite?
O outro: — O leite é branco.
O cego: — E o que é esse “branco”? Me dê um exemplo de algo que seja “branco”!
O guia: — Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
O cego: — Pescoço curvo? Como é isso?
O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
O cego: — “Ah! agora eu sei como é o leite”…
 
Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
 
Paul Valéry: “Hesitação entre o som e o sentido”.
 
Ezra Pound: “Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para emoções humanas”.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal.
 
Finnegans Wake, de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos.
 
Os Cantos, de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo. 
 
 
 
CARLITO AZEVEDO
 
 
O que é poesia para você?
 
Algo tão generoso que às vezes até se dá ao trabalho de aparecer uma ou duas vezes num bom livro de poemas.
 
Desde a invenção do cinema ela também tem gostado de dar as suas caras na grande tela, principalmente em filmes de René Clair, Jean Vigo, ou naquele, belíssimo, de Jean Cocteau, em que Orfeu, antes de dar o primeiro passo inferno abaixo, em busca de Eurídice, pronuncia as palavras mágicas: “O espelho deveria refletir um pouco mais antes de nos devolver a nossa face”.
 
Hokusai, que sabia do que ela era feita, às vezes a colocava numa onda, num galo, numas mulheres atravessando uma ponte. 
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Sapos de verdade em jardins imaginários, como queria Marianne Moore.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Em primeiro lugar, vou avisando que é uma escolha prospectiva, e não retrospectiva. Em vez de falar do que é uma referência para o que eu fiz, vou falar do que é uma referência para o que eu quero fazer. Ah, e em vez de “explicar” a minha escolha, prefiro “ilustrar” a minha escolha, por isso, cada poeta será acompanhado por um poema de sua autoria. Lembrei agora de uma menina japonesa que vi na exposição de Miró, anos atrás, e que diante do namorado que pedia que ela lhe “explicasse” Miró, pois ele, ao fim da exposição, não tinha entendido nada, respondeu apenas que se ele já tinha visto os quadros e não entendia nada, não adiantava explicar, porque o que ele ia entender era a explicação e não os quadros.
 
Susana Thénon, a notável poeta argentina nascida em 1935, e falecida aos 56 anos. Utilizo aqui a ótima tradução feita por Angélica Freitas e publicada na Modo de usar & co digital:
 
— onde é a saída?
— desculpe?
— perguntei onde é a saída
— não
não há saída
— mas como se eu entrei?
— claro
lembro de você
e além disso a vejo
mas saída
saída não há
viu?
— mas não pode ser
vou sair por onde entrei
— não
já está muito tarde
desde as dez a entrada está proibida
e além disso o que você quer? que me façam uma
lavagem
cerebral
por deixar uma pessoa sair
pela entrada?
— escute
deve haver uma maneira de chegar à rua
— já perguntou em informações?
— sim
mas me mandaram vir aqui
— pois é
e eu estou dizendo que não há saída
— onde é o telefone?
— vai ligar para quem?
— para a polícia
— aqui é a polícia
— mas você está louco? aqui é uma sala de
concertos
— isso até uma hora
depois é a polícia
— e o que vai acontecer comigo?
— depende do delegado de plantão
se for Loiácono
pode te deixar barato
e em menos de alguns dias você está fora
— mas isso é uma loucura
onde estão as outras pessoas?
— setor de detidos
primeiro subsolo
— por que
estão fazendo
isso?
— vamos tia
não me diga que nunca foi a um concerto
 
Frank O’Hara, o incrível poeta norte-americano, morto tão jovem (aqui em tradução da poeta Luiza Franco Moreira que saiu na Inimigo Rumor 9):
 
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
 
é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian,
     [Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em
     [Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja que você parece
     [um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte
     [porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente
     [contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso
     [perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que
     [exista alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como
     [estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós
     [estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando
     [pelos olhos de seus nós
e a exposição de retratos parece não ter nenhum
     [rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se
     [dado ao trabalho de pintá-los
                                                                      olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que
     [para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro polonês que de
     [qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu
     [posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos
     [dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu descendo
     [a escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou
     [Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para
     [ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o
     [cavaleiro tão bem
quanto o cavalo
acho que eles todos deixaram de ter uma
     [experiência maravilhosa
que eu não vou despediçar por isso estou te
     [contando
 
Bertolt Brecht (poema da antologia organizada e traduzida por Paulo César Sousa e publicada pela Editora 34):
 
A DESPEDIDA
 
Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais
 
 
 
RICARDO SILVESTRIN
 
 
O que é poesia para você?
 
Um texto da função poética da linguagem. Ver o meu artigo “Balanço, mas não caio”. Ali, está uma explicação clara e um pouco rápida sobre essa função.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Deve ler boa poesia e bons ensaios a respeito do tema poesia (Roman Jakobson e as funções da linguagem, Haroldo de Campos em A arte no horizonte do provável, Décio Pignatari em Comunicação poética, Octavio Paz no Signos em rotação…). Ou seja, deve se ocupar de ler bons poetas para ver o fazer dos outros e também se ocupar do pensar sobre a arte da poesia, tanto sozinho como acompanhado pelos bons pensadores / poetas / críticos. Também conta fazer cursos e/ou oficinas com bons poetas. Tudo isso para perseguir a criação de, primeiro, um bom poema. Depois, um bom poema que tenha as contribuições pessoais à contemporaneidade e, por último, se conseguir, alguma contribuição à história do gênero poético.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Fiz três trios:
 
Bandeira/ Drummond/ Quintana — esse trio foi o primeiro time que me fez entender o que é um bom poema. Comecei a escrever depois que li o Bandeira. Até hoje, ele é o poeta que mais me encanta. Equilibra invenção, ideia e sensibilidade. Uma boa leitura é essa dos 50 poemas escolhidos, seleção feita por ele, reeditada recentemente pela Cosac Naify.
 
Chacal/ Leminski/ Alice Ruiz — esse foi o segundo trio que me reabriu a cabeça. Com eles, encontrei uma linguagem mais próxima da minha geração e da minha visão de mundo. Ler o Belvedere, reunião de poesia do Chacal, lançada pela Cosac, Dois em um, com os dois livros Pelos pelos e Vice-versos da Alice, lançado recentemente pela Iluminuras, e Caprichos e relaxos, Distraídos venceremos… e tudo o que achar do Leminski. Valem também os ensaios do Leminski, as biografias que ele escreveu de Bashô, Cruz e Souza…
 
Augusto/ Haroldo/ Décio — esse trio chuta a bola para outros campos, amplia a cabeça de qualquer poeta. Ler Viva vaia do Augusto, Não, Despoesia, todos do Augusto, Poetc., Poesia, pois é poesia, do Décio, A educação dos 5 sentidos, do Haroldo. E também vale tudo o que eles lançaram de teoria e tradução.
 
E sobram ainda os simbolistas, com o quarteto Rimbaud/ Mallarmé/ Verlaine/ Baudelaire, sobram Marcial, Bashô, Issa, Ferreira Gullar, Cabral, Emily Dickinson, Benedetti, Borges…

EMBLEMAS
7 de abril de 2010

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.
 
Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).
 
(Eucanaã Ferraz – “Sumário”)
_________________________________
 
benvindos,
 
começo com uma confissão: impressiona-me o poder que o poeta carlito azevedo possui de me paralisar. inúmeras vezes, lendo um poema de sua autoria inédito aos meus olhos, após a leitura e o entendimento, sou obrigado a parar, a fechar a página, tamanho impacto causado (rs).
 
com o seu mais recente livro, “monodrama”, não seria diferente.
 
ao ler o primeiro poema, o que abre o livro, de cara, de frente: o espanto, o susto. fazendo as conexões que me foram possíveis de fazer, percebendo a plasticidade dos versos, o encadeamento da prosa poética, fiquei tão comovido, tão tocado, que estacionei e demorei um bom tempo até passar para o segundo poema (rs).
 
cada vez mais e mais carlito azevedo acentua, na minha singela opinião, uma característica bem sua, um emblema que se mostra como um belo cartão de visitas: o de paisagista (único, singular) dos versos.
 
a sua poesia é de uma plasticidade tamanha, que a minha impressão é de que estou, em verdade, na frente de grandes telas a óleo, de donairosos quadros pintados com suas tintas poéticas.
 
no texto selecionado, as estrofes (ou, se preferirem, os ‘poemas interdependentes’), a princípio, parecem desconexas, parecem que não se comunicam entre elas. mas só a princípio. aos poucos, as partes que integram todo o poema vão juntando-se, fundindo-se, formulando, dessa maneira, uma única trama, um único drama (dentro de todas as nuances que são desfraldadas), isto é, o monodrama.
 
percebam como o poeta vai unindo, cruzando, no drama desenhado:
 
a garota bonita, de fartos seios, estudante, com sua bolsa-sanduíche, que gosta de fotografar manifestações e que provoca a primeira ereção do dia no segurança de um banco, que a vê pelo monitor da sala de segurança (e que sonha em casar com tal garota de seios apóstolos & ter um bebê, sem livrá-la, eventualmente, de umas boas porradas), em manifestação em frente à instituição financeira;
 
o fotógrafo imigrante, que deseja uma foto da sua filha pequena com seu coelho de pelúcia cor de ferrugem;
 
o jovem lírico, leitor de (patrick) modiano, sempre com cigarros, flores e postais, e que, de pronto, se interessa pelo novo inquilino e seus olhos negros; 
 
o “narra-drama”, que se envolve com a garota bonita, de seios volumosos (e que, às vezes, me parece ser o inquilino do jovem lírico. isso não ficou muito claro para mim);
 
tudo isso (& muito mais) costurado por deslocamentos temporais que dão ao poema a direção (nítida) dos fatos delineados.
 
(percebe-se que ora o poema descreve uma paisagem situada ao sul da rússia, próxima às montanhas caucasianas. aliás, há muitas referências — emblemáticas — a esse país, atentem.) 
 
montar este “quebra-cabeça”, este monodrama — lírico, lindíssimo — pode levar um tempo, todavia, vale a tentativa.
 
ele está aqui, à apreciação de todos.
 
aproveitem o exercício poético!
 
beijo grande em todos!
 
(um especial em carlito, por este presente em versos.)
 
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________________
 
(do livro: Monodrama. autor: Carlito Azevedo. editora: 7Letras.)
 
 
EMBLEMAS
 
 
Um imigrante
bate fotos trepado
no toldo de
um quiosque
a multidão grita
em frente ao Banco
aparece um malabar
aparece um pastor
imagens da pura
desconexão
aparecem as montanhas
lilases do Cáucaso
mas na foto buscada só
aparece a imagem
da menina
com seu coelho
de pelúcia
sua dobra
cor de ferrugem
contra a luminosidade
 
Os rostos 
se sucedem
nos monitores 
dentro da
sala de segurança
do Banco
como projeção
de slides
 
todos ali riem
quando veem
um falso
Vladimir Ilitch
bêbado
se engraçando
com a jovem
olhos de guepardo
leitora de Rilke
seios grandes
 
Entre tantos
manifestantes
é ela quem arranca
a primeira
ereção do dia
do segurança
de óculos espelhados:
 
uma pequena
vibração
em um dia cheio
de vibrações
 
Uns olhos negros
que vi na Turquia
reaparecem
no rosto
do novo inquilino
para água quente
basta girar este
disco de cores até
o rubro
o incandescente
 
Ela diz na carta:
não era russa era alemã
e não era cientologia
era tibetologia
mas foi sim do russo
que ela traduziu
a tabuleta em frente
ao prédio:
“Os preceitos de Lênin
são verdadeiros”
 
Agora o empresário
agora o demitido
agora
o secretário-geral
agora
o guarda-florestal
explicando
o cogumelo
vermelho com pintas brancas
a casa de J. M. Simmel
mas um dos monitores
transmite continuamente
a imagem parada
de um deserto
 
A economia já previa
o desabar da chuva
no interstício de algum
cálculo diferencial?
pensa o jovem lírico
em frente à janela 
 
Agora ele está lá
sentado sobre
a máquina de lavar
do subsolo
mastigando pasteizinhos
e lendo De Lillo,
digo, lendo Modiano
ele tem sempre
cigarros ou flores
e envia todo o tempo
cartões-postais
 
“gostei de imediato
do novo inquilino
do seu jeito de
segurar a caneta”
 
No saguão do banco
as paredes estão
cobertas de tapeçarias
representando
bardos célebres
da Ásia central
 
Suba na minha asa esquerda
e eu lhe mostrarei
(vamos voar!)
os mais ocultos recantos
dessa potência comercial
 
Ela tem um sanduíche
e uma bolsa-sanduíche
gosta de fotografar
as manifs
os meetings
me fala de uma
portuguesa
que conheceu
no 1º de maio
e que depois
se deitaram na grama
cheia de esquilos velozes
a vida também era só
velocidade e esquilos
sob os feixes luminosos
do 1º de maio
 
Uma descoberta sexual:
aqui ninguém trepa
depois das manifestações
 
A gente podia
conversar mais vezes
não amigos certamente
mas tampouco inimigos
adorei aquela tarde
no hotel do Cosme Velho
o ponto mágico
do morro na janela
 
“O lírio gravado no
ombro de Milady
permitiu a D’Artagnan
reconhecer nela
uma envenenadora
já punida no passado
pelos seus crimes”
 
Como a irmãzinha
caçula de um conto russo
você saltava da cama
com um cobertor
sobre os ombros
e rosnava imitando
um pinsher
para o ondular das cortinas
na penumbra fluo
do quarto de hotel:
 
Nitidez é um caso dessa luz
seu perigo e
seu desmoronar
 
Sem desgrudar os olhos
do monitor o segurança
pensa que aquela ali
bem merecia
umas porradas
o lírico pensa
é só amor querendo nascer
por vias tortas
se ela o visse
já sonharia com o bebê
que os dois empurrariam
num carrinho pela orla
se ele pudesse
imaginar
como seriam felizes
morando num
prédio de tijolinhos
 
O que não excluiria
as porradas
esporádicas
 
Mas agora quem
tirava fotos no quiosque
toma uma cerveja
no bar em frente
ao quiosque
a menina com o coelho
toma um achocolatado
pelo canudinho
e gira até ficar
completamente
enviesada
na cadeira para ver
a areia da praia
 
Uma menina imigrante
pondo os pés na areia
da praia pode
ser um grande passo
 
Um imigrante tomando
uma cerveja sentado
no meio-fio pode ser
um grande passo
 
Nós os vemos
(você segurando firme
em minha asa)
eles não nos veem
 
Adorei aquela tarde
no Hotel da Lapa
eu nunca imaginei
que você tivesse
seios tão apóstolos
seu coração está aí atrás?
 
Um falso ator
no quarto ao lado
decorava a peça russa
tentava dizer ao outro
com as pontas dos dedos
o que é a fidelidade
do homem que
ele ama
 
Ninguém se chama Soviete
— Alguém se chama Soviete
— Um soviete é um mamífero
— Todo soviete é mortal
 
Qual a palavra
que escrevemos
no vidro do Banco
com as pontas dos dedos
sobre a poeira branca
das bombas
e da espuma
no vidro do Banco?
 
Uma ordem macabra chega
pelos fones de ouvido
do segurança
o lírico pensa
o amor não pode morrer
o amor está seriamente
ameaçado
enquanto admira
uma admirável irrupção
de herpes no espelho
(admirável mundo novo)
ele imagina que alguém
precisa fazer alguma
coisa o amor está querendo
respirar dentro da câmara
de oxigênio do saguão
sem oxigênio algum
para respirar
o segurança chega
ao saguão
e vê agora
por trás
das portas de vidro
e à frente
das lentes espelhadas
um grupo de
manifestantes
 
As balas
são de borracha
o amor
está salvo
 
Nem portuguesas
amantes de esquilos
trepam
depois das manifs
e meetings
ele diz desolé
 
Subimos e subimos
e subimos
mas no alto da escadaria
não havia Templo do Sol
só um falso Cardenal
vendendo sortilégios,
digo, souvenirs
 
Então descemos
e descemos e descemos
paramos no quiosque
para uma Coca-cola
e perguntamos
ao imigrante
que batia fotos
qual o nome de sua filha
com o coelho
ferrugem-dobra
de pelúcia
Ela?
 
Ela se chama Soviete
 
Bônus track:
 
Sua pele 
no hotel do
Cosme Velho
olhada
até à
incandescência
 
(Seu coração está aí, atrás
dos ossos?)

APRENDIZAGEM
22 de março de 2010

prezados,
 
no poema abaixo, uma lição aprendida por mim:
 
palavra: feita de substância excêntrica, exótica, intrigante, pois que compacta, maciça, espessa a sua carne, digo: concreta (ao avistá-la no branco do papel), ao mesmo tempo em que é porosa, ventilada, esponjosa, digo: flexível, vaporosa, ao se pensar que, apesar da concretude, quando disposta na folha, os seus significados dançam, soltos, no ar da página. não há olho que dê conta de “abocanhar” todo o cardápio de achados — todas as metáforas e imagens possíveis — oferecido pelo sarcocárpio — pela polpa — duma palavra, visto as tantas maneiras de se interpretar um único texto, os diferentes tesouros poéticos desencavados pelos mais variados tipos de olhar.
 
(portanto, a ciência de que este espaço, o “prosa em poema”, propõe-se a desnudar um tanto do que o MEU olhar enxerga & capta nas linhas que me emocionam. não há a pretensão de dizer o que dizem as linhas. isso seria um despautério vindo de mim. não. o que quero, o que desejo, e faço, é compartilhar um tanto da minha visão. e só.) 
 
estes versos são dedicados a alguns bambas da palavra na minha existência (em ordem alfabética, não de importância. a de importância, em mim, inexiste):
 
antonio cicero
armando freitas filho
arnaldo antunes
caetano veloso
carlito azevedo
carlos drummond de andrade
clarice lispector
eucanaã ferraz
paulo leminski
waly salomão
 
um beijo em vocês!
o preto.
___________________________________
 
 
APRENDIZAGEM  (autor: Paulo Sabino.)
 
Lição  aprendida:
palavra:
coisa  estranha
sua  carne
compacta
espessa
maciça e
ao  mesmo  tempo
porosa
ventilada
esponjosa
—  matéria  excêntrica  —
 
Não  há  modo  de
averiguar
constatar
dimensionar
o  que  encerra
seu  sarcocárpio
(cujo  cardápio
de  achados
não  se  abre
por  completo
a  nenhum  olho)
tantos  os  significados
soltos
no  ar
da  página

O PAISAGISTA DOS VERSOS
11 de novembro de 2009

pessoas,
 
abaixo, um poema-presente que me foi endereçado pelo próprio autor, que está lançando livro inédito de poesias.
 
mais uma vez, o bardo confirma uma característica sua, que serve justa à sua poética: a de paisagista dos versos. 
 
suas linhas vão esboçando uma tela de acontecimentos, pintados com tinta lírica & pinceladas precisas, que articulam, além das paisagens que vão se desnudando aos olhos, os sentimentos despertados em quem aprecia as tais paisagens.
 
uma menina, incrivelmente linda, escrevendo poemas pitorescos com os sempre mesmos fatos, que não diziam muito aos rapazes com mais de trinta anos, com desejos divergentes e confusos, com vontades de deslocamento e invisibilidade, rapazes que equilibravam nos dedos umas poucas moedas e o fim do amor. 
 
toda a gravura tão lindamente delineada, tão belamente bosquejada, que não apenas a menina, não somente os versos que a menina escrevia: também agora, carlito azevedo, poeta-pintor de paisagens poéticas, além da menina incrivelmente linda e seus poemas pitorescos que comunicavam os sempre mesmos fatos, este poema, seu, que nunca conseguirei esquecer.
 
beijo em todos!
um outro enorme em você, poeta!
paulo sabino / paulinho.
_________________________________
 
(autor: Carlito Azevedo / livro: Monodramas)
 
GAROTA COM XILOFONE E FLORES NA TELEGRAPH AV.

Quando ela
tão incrivelmente linda
como você dizia
escrevia os poemas que escrevia
e eu entendo que não levássemos tão a sério os poemas que ela
tão incrivelmente linda
escrevia
sacando de dentro de uma bolsa ácida com pins coloridos e motivos op
os menores lápis de cor que vimos em toda a vida
para improvisar
a qualquer hora e sobre qualquer superfície
os poemas que ela escrevia
nós dizíamos que não havia mesmo nada ali
além do pitoresco
nada mesmo
ao menos para dois rapazes passados dos trinta
bebericando café entre desespero e risos explosivos
indo e vindo de países diversamente destruídos
e equilibrando entre os dedos
as moedas contadas
e o fim do amor
e com vontade contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade
mas refletidos no espelho de um mesmo café em Berkeley
e tendo sim provavelmente toda a razão
ao dizer que não havia mesmo nada ali
quando ela escrevia os poemas
sempre os mesmos
que ela escrevia com aqueles dedos que nos impressionavam
cheios de anéis de pedra bruta
e aqueles olhos
verde-rã
não havia nada ali
a não ser talvez um homem
sempre o mesmo
que reencontrava enfim uma garota
sempre a mesma
e dizia sou eu
e sempre uma revoada fantástica de flores repetia sim veja é ele
e no fim das contas uma
sempre a mesma
garota concordava sim sim é você mesmo e todos os seus colares
só para depois tornarem a se perder um do outro
como uma espécie de outra mágica revoada
subindo do chão da vida
e isso sim havia
em todos
em absolutamente todos os poemas dela
tão incrivelmente linda sim
e lá se vão doze
ou treze anos
e eu simplesmente nunca
os/a
consegui esquecer

 

MUNDO SUBLUNAR
10 de agosto de 2009

pessoas, 

seguem, para devida apreciação, versos de um poeta que me interessou por conta do seu nome. eu ainda não o conhecia, nem ouvira falar nele: carlito azevedo. aquele nome, carlito, estampado na capa de um livro de poesias, me suscitou um interesse imediato. porque, na poesia — vista com certa dose de ‘pompas’ e ‘circunstâncias’ por muitos (principalmente por seus admiradores) -, ter um poeta com um nome que soe informal e que me remeta, sempre, ao belíssimo personagem imortalizado por charles chaplin, são maravilhas, surpresas, do acaso. o livro foi comprado por essas razões e eu já me simpatizara com o poeta. 

no entanto, ao iniciar a leitura, sabe-se lá por quê, as suas poesias não se revelaram para mim. deixei-o por um bom tempo na prateleira, abrindo-o vez por outra, tentando uma aproximação, uma maior intimidade, mas isso não acontecia. até que, num flerte despretensioso, me chegou o momento tão esperado: ao ler o primeiro poema, a ficha caiu; a poesia, finalmente, desnudou-se, e eu, estupefato, estonteado com a sua beleza… dali pra frente: efeito dominó; a cada poema lido, a sua nudez consentida, e meu espanto com as lindezas que iam se desenhando aos meus olhos. desde então, carlito azevedo é um (grande) acontecimento para mim. 

a matéria-prima da poesia de carlito azevedo é muito bem traduzida pela epígrafe do seu livro chamado ‘sublunar’, uma reunião de poemas publicados ao longo de 10 anos de ofício (1991-2001). ei-la, a epígrafe, abaixo: 

Falo de ovos estrelados, coisa caricata, suja,

sublunar, como as maminhas

e o cão animal que ladra.

                                      (Adília Lopes) 

suas linhas formulam tratados poéticos sobre a vida cotidiana, comum, diária, sobre esta existência nossa, sublunar, ou seja, esta existência por sob a lua, por sob este satélite que guarda tudo o que nos compreende aqui, neste chão de terra em que as nossas estórias são delineadas.    

não me admira, portanto, a afeição de carlito por um poeta que, pra mim, é um deus das palavras na poesia brasileira, um poeta que marca, com sua escrita áspera e certeira, cheia de imagens mirabolantes, quem quer que o leia: carlos drummond de andrade. como vocês poderão ler, carlito faz uma das mais belas homenagens ao mestre no poema ‘fractal’. 

pra vocês, um ramalhete de poemas vindos da floricultura do carlito. 

beijo bom em todos,

paulinho.

______________________________________________________

(todos os poemas extraídos do livro sublunar, de carlito azevedo, ed. 7 Letras 

VACA NEGRA SOBRE FUNDO ROSA

 Até os cinco anos de idade jamais havia visto um trem de carga;
e até os oito jamais um meteorologista.
                                     A garota com sombrinha chinesa
foi um dia a minha garota com sombrinha chinesa, e a este
que brinca na areia da praia chamamos nosso filho, pois
é o que é, como a bola azul em suas mãos é a bola azul
em suas mãos e o verão é outra bola azul em suas mãos.
As coisas são o que são e sei que antes de precisar
outra vez barbear-me já terão voltado para o frio
de seu novo país. E talvez em meus sonhos
voltem a fazer falta as três dimensões
desse mundo espesso, sublunar, como
uma vaca negra sobre fundo rosa.
 
 
VENTO
 
A manhã e alguns atletas desde cedo que estão dando voltas
                                                                 — à Lagoa.
Outros seguem para o Arpoador (onde o ar é de sal e insônia
e a beleza ri com uma flor de álcool entre os dentes).
O mar desdobra suas ondas sob o violeta dos
olhos da menina no alto da pedra.
Um falsete fica reverberando sem querer morrer.
Dos cabelos desgrenhados do meu filho
se desprega, ao vento, como um
sorriso, como um relâmpago,
um pensamento triste.
 
 
NOVA PASSANTE
 
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
 
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
 
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
       te dedicaria
um concerto
            para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
 
 
FRACTAL (para Lu Menezes)
 
No meio da faixa de terreno destinada a trânsito tinha um
                 [mineral da natureza das rochas duro e sólido
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido no
                 [meio da faixa de terreno destinada a trânsito 
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido
no meio da faixa de terreno destinada a trânsito tinha um
                 [mineral da natureza das rochas duro e sólido.
 
Nunca me esquecerei deste acontecimento
na vida das minhas membranas oculares internas em que
                 [estão as células nervosas que recebem
                 [estímulos luminosos e onde se projetam
                 [as imagens produzidas pelo sistema
                 [ótico ocular, tão fatigadas.
 
Nunca me esquecerei que no meio da faixa de terreno
                [destinada a trânsito
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido
tinha um mineral da natureza das rochas duro e sólido
         [no meio da faixa de terreno destinada a trânsito
no meio da faixa de terreno destinada a trânsito tinha um
                 [mineral da natureza das rochas duro e sólido.
 
 
OURO PRETO
 
Anjo não, Anjo:
como se um sopro
lhe sobre as asas
batesse e quase
 
voasse e, caso
voasse, sendo
leveza menos
que exatidão.
 
Anjo de igreja
ao ar aberto
(a nave: a nuvem?)
sabeis a pedra-
sabão, melhor,
a bolha-de-.
 
 
3 VARIAÇÕES CABRALINAS
 
1ª Como uma leoa gira
presa à própria labareda
(que mais que as grades é grade
de sangue, suor e vértebras)
a noite por toda a noite
debateu-se contra a teia
de labaredas escuras
que às coisas, de noite, ateia.
 
2ª Teu corpo gira na ponta
de uma labareda negra
mais alta que o Pão de Açúcar
os pés fincados na areia
(teu corpo explode e faminta
segue a labareda negra
cuja língua noite adentro
lambe a própria labareda).
 
3ª A dança veloz da língua
de uma labareda negra
a lamber no quarto escuro
sua própria labareda
se bastava (avareza
incomum em labaredas)
com ficar ainda mais negra
com ficar mais linda ainda
 
 
PAISAGEM JAPONESA PARA AGUIRRE
 
Pensei nos ventos frios
que sopram
da Sibéria enrolando-se
em seu pescoço, na pesca do salmão e
na corrida da raposa fugindo de seu covil
rumo à plantação de batatas; mas
 
aqui,
neste quase morro da rua Lopes Quintas,
com pedregulhos ao fundo,
você pousa agora um jarro sobre a mesa
 
e é quase como se pousássemos também
nossas vidas sobre tudo isso
e sorríssemos;
                pode ser a coisa
mais simples, como
a taça de café que aquece agora
as palmas de nossas
 
mãos (“ó doce hebréia”) e cheira bem;
 
além, o jóquei iluminado, a lagoa
que nos veste como camisa ensopada;
olhamos a lua,
 
amamos o mar.
 
 
LAGOA
 
Tendo às costas
(como asas pensas que a tarde
abre e fecha) o dorso cobreado da
montanha e os reflexos de cobre da lagoa,
a menina com o gato traduz, à mais que perfeição,
os veios profundos, invisíveis e subterrâneos,
a nos unir a quem amamos, e quando ele lhe
estira sobre o colo as patas ponteadas,
ela, para não acordá-lo, até seu
olhar põe na ponta dos pés.
 
 
LIMIAR
 
Os pés premindo
a inexistente relva do asfalto
duro da rua sem vida a não ser a
que lhe dás quando subitamente cruzas
o espaço e somes num átimo deixando
entretanto no ar qualquer coisa de tão
botticelliano quanto num crepúsculo mediterrâneo
uma colhedora de mimosas a quem um
homenzinho cedesse a passagem
à espera (desesperada)
de um sorriso
 
 
HOMEM DENTRO DO PESADELO
 
Patas de lobo arranham
seu pescoço enquanto
intenta em vão
com socos e chutes amortecidos
pelo ar pesado
romper a membrana do sono
 
Vai rompê-la — de fora —
o dia
com suas patas de lobo
 
 
NA GÁVEA
 
Enquanto o vento
sopra contra a flor caduca
da pedra, um som mais belo que o som das
fontes nos seduz a invocar do cubo de treva
nosso de cada noite que nos dê — não outro dia,
chuva nos cabelos, lampejos do sublime entre pilotis
de azul e abril, mas apenas a vertigem do ato,
o vermelho do rapto, a chegada ao fundo
mais ardente, onde tornar a reunir
cada fragmento nosso, perdido,
de dor e de delicadeza.
 
 
EPÍLOGO
 
“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam