CDA DE ATLÂNTICO & BRONZE
16 de setembro de 2014

Amanhecer na cidade do Rio de Janeiro

 

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

(Nas fotos, estátua, lavrada em bronze, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no posto 6, praia de Copacabana, Rio de Janeiro.)
__________________________________________________________________

CDA: abreviação utilizada para designar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

carlos drummond de andrade: não é feito do costumeiro bronze que exalta as estátuas — apesar de a sua ser lavrada em bronze — nem do mármore consagrador, material também utilizado na produção de requintadas & célebres esculturas.

no fundo, porque por dentro, (cda) é rico em ferro anímico, é rico em ferro próprio da alma, ferro lavrado, ferro trabalhado, ferro esculpido, na sua confidência, há tanto tempo.

rico — cda — em ferro anímico, lavrado na sua confidência (há tanto tempo): na sua confidência em versos, propriamente intitulada “confidência do itabirano” (trecho inicial):

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

 

o pedestal de drummond (pedestal: suporte que serve para elevar, para colocar em destaque, em evidência, escultura ou objeto decorativo) é dispensável. pois todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond.

portanto, o pedestal que o poeta eleva, ergue, é dispensável. bastante, suficiente, é o banco ao nível do mar & dos homens onde, sentado de costas para o horizonte (como sempre sentou-se), acolhe a todos que durante o dia o procuram.

difícil é vê-lo só no banco, há sempre alguém para um retrato, um papo, ou um afago, e, mesmo assim, mesmo sempre acompanhado, de longe, nós o acompanhamos — com o olhar.

muitas vezes tiram os seus óculos — por ganância (no intuito de vender a peça lavrada em bronze) ou por lembrança (algum fã do poeta, num arroubo insensato de amor).

logo os repõem para que drummond não perca de vista quem passa & precisa da presença de sua eternidade, ali, no seu banco de praia predileto, onde costumava sentar-se, sempre de costas ao atlântico & de frente para o calçadão, assistindo ao ir & vir dos transeuntes, ao ir & vir da vida diante dos seus olhos.

a presença da eternidade de drummond: o pedestal de drummond é dispensável. todos nós, poetas, sabemos que drummond, mesmo dispensando o seu pedestal, está, sempre, um degrau acima dos demais colegas de ofício.

drummond: por sobre todos nós, acima de todos nós.

nós, reles poetas mortais: por sob drummond, abaixo de drummond.

por isso (por estarmos por sob drummond), faz-se necessário tirar o peso da influência — o peso da importância — da fluência — da liqüidez, do escoamento, da espontaneidade — do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos) sobre o meu corpo poético, a fim de que me sobre o que seja genuinamente meu, a fim de que eu, ao escrever os versos que me cabem, acabe não afundado, por inteiro, na influência da fluência dos versos drummondianos sobre os meus.

por sob drummond, isto é, abaixo de drummond, abaixo do seu corpo poético (corpo cuja estrutura é feita de versos), abrir, pelo menos, um corpo poético meu. com meu corpo poético, penar sob sua sombra, padecer sob a sombra da influência da fluência poética drummondiana, para, depois, tentar abrir um corpo fora de sua sombra, tentar abrir um corpo de luz, tentar abrir um corpo poético inteiramente iluminado por uma luz inteiramente minha, própria, peculiar, autêntica.

(que assim seja.)

salve cda!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do livro: Dever. autor: Armando Freitas Filho. editora: Companhia das Letras.)

 

 

CDA DE ATLÂNTICO E BRONZE

 

Não é do costumeiro bronze
que exalta as estátuas
nem do mármore consagrador.
É rico em ferro anímico lavrado
na sua Confidência, há tanto tempo.
O pedestal que eleva é dispensável.
Bastante é o banco ao nível do mar
e dos homens onde, sentado de costas
para o horizonte, acolhe a todos
que durante os dias o procuram.
Difícil é vê-lo só, e mesmo assim
de longe, nós o acompanhamos.
Muitas vezes tiram os seus óculos
por ganância ou lembrança.
Logo os repõem para que não perca
de vista quem passa e precisa
da presença de sua eternidade.

 

 

129

sob CDA

Tirar o peso da influência
da fluência do seu corpo
sobre o meu. Abrir um corpo
pelo menos, e penar
sob sua sombra, para depois
tentar abrir um corpo de luz.

ELEGIA (1938)
10 de setembro de 2014

Pessoas na rua

__________________________________________________________________

elegia: poema lírico de tom terno & triste.

uma elegia feita ao ano de 1938 & transportada ao ano de 2014:

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, trabalhas sem alegria, sem ânimo, para um mundo caduco, trabalhas sem alegria para um mundo demente, insano, decrépito, onde as formas — formas de trabalho, modelos de relação, estilos de vida — & as ações — o que priorizar, o que valorizar, o que desprezar, o que aniquilar — não encerram nenhum exemplo, onde as formas & as ações não encerram, não contêm, não incluem, nenhum exemplo.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, praticas laboriosamente, praticas sofridamente, triste, angustiado, os gestos universais, os gestos comuns a todos nós, seres de carne & osso & coração, sentes calor & frio, sentes a falta de dinheiro, fome & desejo sexual.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, praticas laboriosamente os gestos universais, os gestos comuns a todos nós, enquanto heróis — os homens de destaque, homens prestigiosos, de atitudes “nobres” — enchem os parques da cidade em que te arrastas & preconizam, recomendam, alardeiam: a virtude (ser bom, aceitando o que é empurrado goela abaixo), a renúncia (abdicar de prazeres pelo trabalho, ainda que sufocante, ainda que asfixante, ainda que opressivo), o sangue-frio (manter a calma diante de toda a calamidade que é a tua vida), a concepção (acreditar & investir na criação, na formulação, na produção, deste mundo caduco).

à noite, se neblina, se chuvisca, se garoa, os heróis (os homens de destaque, homens prestigiosos, de atitudes “nobres”) abrem guarda-chuvas de bronze, guarda-chuvas tão poderosos que os protegem de todo & qualquer respingo deste mundo, ou se recolhem aos volumes de bibliotecas sinistras, bibliotecas nefastas, maléficas, assustadoras, bibliotecas que ensinam os meandros do ter mais do que ser, do capital, da riqueza, do papel-moeda, das cifras, da especulação financeira.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra (à noite, dormes o teu sono profundo, cansado) & sabes que, dormindo, os problemas, os pesares todos, te dispensam de morrer. mas o terrível despertar (“terrível” porque mais um despertar em que trabalharás para este mundo caduco) prova a existência da “grande máquina” em que o mundo se transformou (provando, assim, a sua grande caducidade) & ele, o terrível despertar, te repõe, pequenino, ínfimo, limitado, em face de indecifráveis palmeiras, palmeiras altaneiras, palmeiras enigmáticas, palmeiras no mundo caduco para quê?

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, caminhas entre mortos (entre os teus, que já partiram deste mundo caduco) & com eles conversas sobre coisas do tempo futuro — teus planos, teus anseios — & negócios do espírito, assuntos que dizem respeito à tua existência. a literatura, arte do livro que te livrou do mundo caduco, arte a que recorreste na tentativa de amenizar dores & dissabores, estragou as tuas melhores horas de amor, e ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear (de semear as tuas horas de amor).

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, entristecido, desanimado, sentindo-se um fracassado: coração orgulhoso, coração vaidoso, coração empertigado, tens pressa de confessar tua derrota & adiar, para outro século, a felicidade coletiva.

coração orgulhoso, coração vaidoso, coração empertigado, tens pressa de confessar tua derrota & adiar, para outro século, a felicidade coletiva: confessar a própria derrota é confessar a derrota de todo um tempo, de todo um sistema, de todo um modelo, de todo um estilo, de toda uma concepção de vida, que, ao adiar a felicidade coletiva, instaura a infelicidade coletiva, instaura o mal-estar do grupo, a tristeza & o desânimo de todo & qualquer ser humano comum, de carne & osso & coração, assim como eu, assim como você, leitor.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, aceitas a chuva, a guerra, o desemprego & a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de manhattan, ilha onde se localiza wall street, rua da ilha célebre, onde se situa a bolsa de valores de nova iorque, a mais importante do mundo, por isso mesmo, ilha considerada o centro nervoso da economia mundial.

tu, pessoa comum, de carne & osso & coração assim como eu, trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas & as ações não encerram nenhum exemplo: por isso, eu & tu, nós, temos que cavar, temos que batalhar, temos que alcançar, maneiras, modos, formas & ações que neutralizem todos os malefícios do mundo demente, insano, decrépito, para o nosso próprio bem, e porque a existência, até onde se sabe, é uma só, e é melhor que a façamos valer a pena, valer as dores & dissabores.

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do livro: Antologia poética. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

ELEGIA 1938

 

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

__________________________________________________________________

(do site: Youtube. Caetano Veloso interpreta o poema Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade.)

MATANDO A COBRA & MOSTRANDO O PAU
3 de janeiro de 2013

Prêmio BN

_____________________________________________________________
 
Biblioteca Nacional lança prêmio de literatura para autores VIVOS & o vencedor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.
 
Drummond?? Caramba! Um prêmio, para autor VIVO, recebido pelo Drummond sugere, no mínimo, a descoberta da vida após a morte, correto? Caramba de novo! Alguém me conta: como foi o contato? Mãe Dináh na área? Só espero um convite para uma próxima sessão, adoraria falar com o poeta!
 
Aqui, texto com o que disse o júri:
 
 
“Por que Drummond?
 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu ‘Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62’, da [editora] Cosac Naify, como vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. ‘Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.’
 
Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não — já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. A BN [Biblioteca Nacional] já manifestou que só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente.”
 
 
 E eu, Paulo Sabino, que já escrevi, neste espaço, sobre premiação literária (envolvendo o poeta concretista Décio Pignatari: https://prosaempoema.wordpress.com/2012/12/06/desabafo-acorda-brasil/), concordo (em parte) com o poeta Adriano Nunes:
 
 
“Ora. Ora. Tão absurda a coletiva justificativa como absurda a premiação. O que sinceramente justifica é que os três poetas do júri (diga-se, medianos, com uma poesia já enfadonha e sem acréscimos) optaram (por inveja, claro) não premiar um poeta vivo (mesmo sabendo das regras do concurso) porque é mais fácil e mais óbvio premiar o que já aclamado é.”
 
 
Digo que concordo em parte com o poeta Adriano Nunes apenas porque nunca li nada da poesia dos jurados, de modo que não sei dizer se a poesia deles é enfadonha. Mas, sinceramente: depois desse episódio, VERGONHOSO, não sinto a mínima vontade de ler coisa alguma.
 
O que sei é que o ano de 2012 acolheu uma safra de ÓTIMOS livros de poesia (só para citar alguns): “Porventura”, de Antonio Cicero; “Formas do nada”, de Paulo Henriques Britto; “Sentimental”, de Eucanaã Ferraz; “Céu em cima / Mar em baixo”, de Alex Varella; “Laringes de grafite”, de Adriano Nunes; “Um caderno de capa verde”, de Flávio Morgado.
 
Com tantos LINDOS livros de poesia lançados em 2012, por que a escolha de Carlos Drummond de Andrade (numa premiação especificamente para autores VIVOS)?
 
(Essa é a pergunta que não quer calar…)
 
Acorda, Brasil!

À POESIA
10 de outubro de 2012

____________________________________________________________
 
por que você, poesia, me abandona no vértice (no ponto culminante) da vertigem, quando a chuva cai (como numa tela do pintor belga rené magritte, célebre por suas pinturas surrealistas contrastando com o tratamento hiper realista dado aos objetos dos seus quadros) sobre as rosas que desistiram, sobre as rosas que renunciaram a natureza das rosas?
 
por que, poesia, novamente me perco (abandonado por você) entre hortênsias, no aclive (na ladeira), hortênsias mais altas que homens, mais vivas que o exército de terracota?
 
(exército de terracota: também conhecido por guerreiros de xian ou exército do imperador qin, é um conjunto com mais de oito mil figuras de guerreiros & cavalos em terracota, que é uma argila manufaturada & cozida no forno, conjunto encontrado próximo ao mausoléu do primeiro imperador da china, qin shihuang.)
 
sem você, poesia, eu caminho no plano, caminho no nivelado, no não-acidentado, no regular; com você, poesia, eu caminho no acidentado, no irregular, no desnivelado. e eu gosto.
 
(todos os poemas: um engano.)
 
sem você, poesia, tudo escorre, pois a sua presença — em palavras & versos — permite que permaneça, permite que não escorra, tudo o que é registrado em palavras & versos (ainda que se saiba que todos os poemas: um engano. afinal, no fundo no fundo, nada do que se deseja permanente o poema retém em palavras & versos).
 
sem a poesia eu caminho no plano, tudo escorre — há, sem ela, um silêncio aturdido, silêncio perturbado, intranqüilo, um silêncio desconfortável na sua condição de silêncio.
 
sem a sua luz, poesia, o que me resta?
 
sem a luz da poesia, o que me sobra?
 
o que me sobra (sem a luz da poesia): viver, conhecer o mundo, reconhecendo-o através das vivências, tateando às cegas as suas formas & maneiras, onde assistimos ao seu passar (no caminho vidafora, tudo escorre), onde assistimos ao seu fluir constante, fluir que, sem a companhia sua, poesia, fica faltando um pedaço — sem a luz da poesia há um silêncio aturdido; e, no silêncio aturdido (silêncio perturbado, intranqüilo), há uma cota do que morre, há uma parcela do que escorre. no silêncio aturdido há uma parte do que se esvai no tempo & o ensejo de reter, na forma poética, uma cota do que morre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parcela do que escorre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parte do que se esvai no tempo (de tudo o que se vive, algumas vivências acreditamos dignas, merecedoras de registro; no caso do poeta: de um registro em forma de poesia).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, passam na frente de um espelho que, mudo, assiste à fuga do que reflete (o que reflete o espelho: um quarto de veludo: um compartimento contrátil: o que passar pela sua frente: a vida).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, criam um silêncio aturdido. e, mesmo assim, mesmo com o silêncio aturdido, diversas experiências merecedoras de registro passam apenas captadas & aprisionadas em algum tempo do espelho.
 
se assim for, se decidir a poesia não dar o ar da sua graça, abandonar o ritmo, eis tudo:
 
o torneado hábil das palavras & o dissonante vão das consoantes não podem mais — nem por um instante — buleversar (neologismo criado, e já utilizado por drummond & bandeira, a partir do francês bouleverser, que significa bagunçar, perturbar, abalar) o meu pequeno alento.
 
palavra nenhuma — nem por um instante, nem por um segundo — pode abalar, pode perturbar, o meu pequeno alento, o meu pequeno ânimo, a minha pequena inspiração.
 
abandonar o ritmo, eis tudo:
 
já nem tento satisfazer com tais materiais — os tais materiais: as palavras — minha volúpia, o meu prazer, pelo contratempo. já nem tento satisfazer com palavras minha volúpia pelo contratempo, meu prazer pelas circunstâncias imprevistas, pelos acidentes, ainda que fosse fugaz o prazer no momento do encontro (no momento do encontro com os tais materiais — o torneado hábil das palavras, o dissonante vão das consoantes).
 
abandonar o ritmo, eis tudo: 
 
mudar de logradouro, mudar de endereço, mudar de moradia (adeus, poesia!), ou mudar de logro (ou mudar de ilusão, de fraude, de cilada), que isso de escrever é jogo perdido de antemão, no mano a mano.
 
isso de escrever é jogo perdido de antemão: entre a experiência/vivência minha & aquilo que escrevo sobre ela, aquilo que escrevo sobre ela está sempre aquém da experiência vivida.
 
por mais bem escrito um texto a respeito de uma experiência vivida, um texto nunca é mais do que aquilo que foi vivenciado. o texto, por mais bem escrito, não é aquilo que se vivenciou. a experiência vivida ficou para trás, perdida num tempo pretérito, em alguma dobra do espelho.
 
(por isso o poema, no fundo no fundo, um fundo falso: o poema é sempre logro, é sempre uma ilusão, uma fraude, uma cilada.)
 
mas sem ressentimento (muito pelo contrário):
 
o mais são nuvens (também passageiras, que passam como passa o passarinho, passa a noite, passa o dia), e todos os poemas: uma ilusão, uma fraude: uma cilada:
 
um engano.
 
(dos melhores que vivencio em vida!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Corola. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Ateliê Editorial.)
 
 
 
à poesia
 
 
POR QUE você me abandona
no vértice da vertigem
quando a chuva cai (um Magritte)
sobre rosas que desistiram?
Por que novamente me perco
entre hortênsias, no aclive,
mais altas que homens, mais vivas
que o Exército de Terracota?
Sem você eu caminho no plano,
tudo escorre
— há um silêncio aturdido
uma cota do que morre
por dentro daquilo que brota.
Sem a sua luz, o que me resta?
Palmilhar às cegas
um quarto de veludo
onde o espelho, mudo, assiste 
à fuga do que reflete.
 
 
 
O TORNEADO hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais — nem por um instante —
buleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro — ou de logro —
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.

ENIGMAS
31 de maio de 2012

_____________________________________________________________

enigma: segundo o dicionário houaiss, “definição de algo por suas qualidades ou particularidades, mas difícil de entender”. por extensão de sentido, “texto ou parte dele, frase ou discurso cujo sentido seja incompreensível ou ambíguo”.

 enigma: segundo o dicionário aurélio, “questão proposta em termos obscuros, ambíguos, para ser interpretada ou adivinhada por alguém”. por extensão de sentido, “enunciado ambíguo ou velado”, “coisa inexplicável, aquilo que é difícil compreender; mistério”.
 
portanto, os enigmas carecem da argúcia alheia (precisam ser interpretados ou adivinhados por alguém) & da retórica. é mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.
 
a condição dos enigmas: procuram uma qualidade em pedra & cal: 
 
os enigmas são como uma parede lisa branca, pois, a princípio, por conta das ambigüidades do que propõem, por conta das dicas obscuras, parecem uma barreira intransponível. os enigmas buscam uma qualidade em parede, em pedra, barreira branca como cal, parede branca como uma folha de papel em branco (como se nada houvesse ali).
 
no entanto, ao mesmo tempo que os enigmas procuram uma qualidade em pedra & cal, repelem-na, repelem essa qualidade que procuram, posto que todo o enigma, no fundo no fundo, por possuir uma resposta, busca a sua solução.
 
todo o enigma, por possuir uma resposta, apesar de toda a engenharia semântica em prol do silêncio, quer ser decifrado.
 
por conta da engenharia semântica dos enigmas, muitos quedam-se por aí: esguios ao tato, ocos de imagem, ferozes no seu silêncio. isto é: indecifráveis.
 
dignos & sós. 
 
existirmos: a que será que se destina?
 
este, o maior, o grande enigma bolado pela humanidade. e um enigma muito complexo, uma vez que, para ele, em princípio, não há resposta.
 
(será que a existência se destina a algo?…)
 
alguns enigmas merecem a ferocidade do seu silêncio. deixemos a busca pela resposta. vivamos. é o que nos resta. e vivamos em busca de paisagens que animem o ser.
 
lembrem-se sempre: as viagens são os viajantes.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: A estrela fria. autor: José Almino. editora: Companhia das Letras.)  
 
 
 
É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.*
Carecem de argúcia alheia
e da retórica.
Procuram uma qualidade
em pedra e cal.
 
(Repelem-na,
ao mesmo tempo.
Tal é a condição dos enigmas.)
 
Quedam-se por aí:
esguios ao tato,
ocos de imagem,
ferozes no seu silêncio.
 
Dignos e sós
como um concerto de violoncelo.
____________________________________________________________
 
*autor da citação no poema: Carlos Drummond de Andrade  

INÉDITO DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO + ARS POETICA
8 de maio de 2012

_______________________________________________________________________________________________________

INFORMAÇÃO LUXUOSÍSSIMA!

Acho um PRIVILÉGIO o acesso tão direto a ela.

Me disse a sempre benvinda & querida Inez Cabral de Melo:

 

estou organizando uma edição com um manuscrito inédito do véio (estudos para um auto q ele não terminou) e o armando [freitas filho] escreveu a apresentação. ficou D+! em agosto ou setembro nas melhores livrarias…

 

OBAAAAA! Material INÉDITO do mestre João Cabral de Melo Neto com apresentação de Armando Freitas Filho!

Aos fãs, fica a expectativa & a espera!

(Certamente estarei na noite do lançamento! Armando + João Cabral + Inez Cabral = IMPERDÍVEL!)

João Cabral é considerado, juntamente com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira & Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

A sua poética é conhecida por ser direta, sem floreios, árida, seca, apenas o estritamente necessário, as palavras ponderadas & milimetricamente medidas, explorando ao máximo as potencialidades do mínimo, sem espaço para excessos & verborragia.

Abaixo, aos senhores, um poema lindíssimo do mestre, uma espécie de ars poetica (versos que tratam da natureza da poesia, versos que tratam do processo de criação poética), poema, portanto, que revela o modo de criar poemas utilizado por João Cabral, poema comentado magistralmente pelo meu querido amigo, o poeta & filósofo Antonio Cicero.

Enquanto não chega o lançamento do material inédito de João Cabral, deliciem-se com a bela análise do Cicero e com os belos & clássicos versos do mestre!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
_______________________________________________________________________________________________________

(do livro: A educação da pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

CATAR FEIJÃO

A Alexandre O’Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

_______________________________________________________________________________________________________

(trecho do livro: Poesia e filosofia. autor: Antonio Cicero. editora: Civilização Brasileira.)

 

No poema “Catar feijão”, o poeta João Cabral de Melo Neto exprime, metafórica porém ostensivamente, algumas ideias sobre escrever: sobre, no fundo, escrever poemas (…).

Tratando-se de uma espécie de ars poetica, esse poema chega bastante perto de ser proposicional, dizendo que o poeta deve livrar-se do que é leve (superficial) e oco (insubstancial), palha (ninharia) e eco (repetição do que já foi dito); e que, longe de buscar uma dicção de musicalidade convencional e fácil, deve criar ruídos, obstáculos, surpresas que obriguem o leitor a se manter acordado e atento, retirando-o, através de usos fonéticos, sintáticos, semânticos inesperados, da sonolência, do torpor e da autossatisfação do habitual, do que já tenha sido digerido. A surpreendente comparação entre catar feijão e escrever um poema faz parte da sua estratégia.

Ora, o próprio poema é admirável, não porque proponha essa ars poetica, mas porque realiza magistralmente aquilo que prescreve. Não é no que diz, mas em como diz o que diz que reside sua poesia. É que o poema iconicamente realiza o que aparentemente prescreve.

DO OFÍCIO
15 de março de 2012

____________________________________________________________
 
o combustível da escrita,
 
aquilo que a alimenta,
 
aquilo que a impulsiona,
 
aquilo que a estimula:
 
o entusiasmo, a angústia, a inquietação, o medo, o prazer, a tentativa de auto-conhecimento, e até o tédio (a falta do que fazer também leva à construção de textos).
 
porém, sobretudo, o (talvez) maior combustível da escrita é o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
se os sentimentos aqui descritos são o combustível da escrita, isto é, se os sentimentos aqui descritos são a matéria que se queima para a produção da energia da escrita, a mente (parte que nos possibilita pensar) continua sendo o motor da escrita, isto é, a mente continua sendo o que move a escrita, mente atormentada (e estimulada) pelo tempo, esse ser assombrado por si mesmo (afinal, o “tempo”, com o passar do tempo, devora a si mesmo continuando a ser o mesmo) & assombrado pelo mundo (afinal, o tempo é preenchido, o tempo é inteiramente ocupado, pelas coisas mundanas, coisas que, por preenchê-lo, são como uma espécie de sombra que o recobre), mundo que, conforme o vento (vento-brisa, vento a favor, ou vento-ventania, vento contra), deleita & dispersa o tempo. 
 
o grande combustível da escrita: o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
e o poeta é o cara que se esmera, a vida inteira!, em malabares de palavras, o poeta é o cara que se esmera em manobras arrojadas, corajosas, manobras ousadas, com as palavras, deslocando-as do seu sentido ordinário, sentido comum, e, num instante tonto, uma frase solta ao avesso vira verso, ecoando assim, de modo ocasional, de maneira imprevisível, a melodia rara de cantiga boa.
 
ser poeta é jamais perder o estado de perplexidade com o mundo, com a gente. pois é neste estado, de puro espanto, de puro pasmo, que se dá a poesia. 
 
um poema traz espanto, susto, maravilha, pelas idéias & sentimentos que geram os jogos de palavras dispostos nos versos.  
 
ser poeta é nunca esquecer o suspiro alheio, suspiro que não o nosso, porém suspiro que, mesmo não sendo o nosso, nos espanta, nos assusta, nos maravilha: espumas flutuantes (castro alves), estrela da vida inteira (manuel bandeira), claro enigma (carlos drummond de andrade): suspiros poéticos alheios que nos inspiram & nos instigam a escrever mais & mais. 
 
escrever mais & mais, mais & mais & mais & mais, até, quem sabe, a possibilidade de um livro.
 
no dia em que eu publicar um livro, de que matéria serão suas páginas? serão páginas de carne (muy líricas, muy pessoais)? serão as páginas de carne para que o verso seja desenhado pelo rastro do verme?… 
 
que arte, que artefato será usado para confeccioná-lo, o livro que eu, um dia, porventura, publicar?
 
independente do artefato utilizado à confecção do livro que eu, um dia, porventura, publicar (letras de salitre em páginas de pedra, ou página de esmeralda com letras em urânio, ou a pele do sexo bordada no pano), a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano (com os embates & vivências vidafora, e com o aprimoramento — duro, árduo —do exercício da escrita), até brotar, crescer, florescer, a flor-poema & suas pétalas-estrofes.
 
a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano, até brotar, crescer, florescer: gerar gerânio.
 
o poema: um santo remédio às azias existenciais.
 
um poema por dia (pelo menos!), como um comprimido, homeopatia, medicamento de dupla profilaxia: utilizo para cura, uso para minha melhora, e é a saudade — seja do que for — que o poema também remedia.
 
poema: a minha pílula do bem-estar.
 
poema: dose pequena de alegria.
 
(salve a minha vida na sua!)
 
beijo todos!
paulo sabino. 
____________________________________________________________
 
(do livro: Olho nu. autor: Dado Amaral. editora: Mundo das Idéias.)
 
 
 
é entusiasmo, é angústia
é inquietação, é medo
é prazer, é tentativa
de auto-conhecimento
é até o tédio, visitante raro
e é sobretudo desejo, talvez,
o combustível da escrita.
 
o motor continua sendo
essa mente atormentada pelo tempo
esse ser assombrado por si mesmo e pelo mundo
que o deleita e dispersa, conforme o vento
 
 
 
poeta é o cara que se esmera a vida inteira em malabares de palavras
e num instante tonto uma frase solta ao avesso vira verso e no acaso
por acaso ecoa a melodia rara de cantiga boa                     ser poeta é
jamais perder o estado de perplexidade com o mundo com a gente
é nunca esquecer o susto do suspiro alheio            suspiros poéticos
e saudades espumas flutuantes estrela da vida inteira claro enigma:
poeta é pipa solta em dia de ventania
 
 
 
no dia em que eu publicar um livro
de que matéria serão suas páginas,
de carne?
para que o verso seja desenhado
pelo rastro do verme?
que arte, que artefato será usado
para confeccioná-lo,
o livro que eu um dia porventura
publicar?
letras de salitre em páginas de pedra,
fezes de gaivota nos rochedos do oceano,
pele do sexo bordada no pano,
página de esmeralda, letras em urânio
a superfície do texto traçada toda
no meu crânio, porrada por porrada,
ano por ano,
até brotar crescer florescer
gerar
gerânio.
 
 
 
Um poema por dia
é boa medida
um poema por noite
a cada madrugada
quando o mundo silencia
e meus clamores soam mais
e mais ainda se você não está
se você não está presente
ou se encontra inacessível
 
Um poema por dia
como um comprimido
homeopatia, medicamento
de dupla profilaxia:
utilizo para cura
e a saudade remedia;
depois te ministro, poema
dose pequena de alegria

AOS DESILUDIDOS DO AMOR
2 de março de 2012

_____________________________________________________________
 
sempre sempre sempre digo:
 
carlos drummond de andrade é deus.
 
não. mais que deus.
 
por sobre. acima:
 
um sobredeus.
 
aos senhores, vídeo com a magistral (eu a adoro, morro de paixão!) fernandinha torres interpretando a obra-prima do mestre:
 
necrológio dos desiludidos do amor.
 
o poema gira em torno da ilusão que a desilusão gera no peito de quem se mata por amor na esperança de que a pessoa amada sofra os remorsos do ato suicida & viva, dessa maneira, a história antes deixada para trás.
 
com boa dose de ironia, drummond atenta à inutilidade do ato, pois, com ou sem morte, a vida segue o seu destino & as pessoas, os seus rumos, inclusive a pessoa a quem tanto se queria (a imagem de que se utiliza o poeta, ao final do poema, para tratar da inuitilidade do suicídio, é fantástica!).
 
num outro poema seu intitulado não se mate, drummond ratifica esta sua posição:
 
(trecho)
 
 
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
 
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão. 
 
 
não morram o amor, vivam-no! 
 
beijo todos!
paulo sabino. 
____________________________________________________________
 
(do livro: Antologia poética. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.) 
 
 
 
NECROLÓGIO DOS
DESILUDIDOS DO AMOR
 
 
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
 
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
 
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Visceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…
 
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
 
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
____________________________________________________________
 
(do site: Youtube. Fernanda Torres interpreta o poema Necrológio dos desiludidos do amor, de Carlos Drummond de Andrade.)
 

PASSAGEM DA NOITE
3 de janeiro de 2012

 
(Passagem da noite & a aurora dos novos tempos)
_____________________________________________________________
 
alta noite já se ia.
 
ninguém na estrada andava.
 
no caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia.
 
e eu sinto que é noite, não porque a sombra (da noite) descesse por sobre o dia, mas porque, dentro de mim, porque, no fundo de mim, o grito, o alarido da vida, se calou, aquietou-se.
 
(bem me importa a face negra da noite, bem me leva para dentro dela a face negra da noite, e bem me importa a face negra da noite porque a face negra da noite também possui a sua importância dentro de mim, mas não são essas as razões que me fazem sentir que é noite.)
 
sinto que é noite porque, em mim, fez-se desânimo.
 
sinto que nós somos noite.
 
de fato, à noite, o organismo entende o acontecimento: à noite, o metabolismo aquieta-se, torna-se mais lento, desacelera.
 
palpitamos no escuro (o músculo oco a pulsar, sinalizando alguma vida apesar da inércia em que mergulhamos) e, assim, em noite nos dissolvemos.
 
sinto que é noite no vento, noite nas águas, noite na pedra. tudo um escuro. nada à vista.
 
a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu.
 
portanto, se a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu, de que adianta uma lâmpada? de que adianta uma única luz acesa na imensa escuridão? de que adianta uma voz, uma única voz, em meio ao silêncio noturno?
 
ainda que haja a lâmpada acesa, ainda que haja a minha voz, de nada adiantam porque é noite no meu amigo, no submarino, na roça grande. é noite em toda parte circundante.
 
vejam bem: não é morte (palpitamos no escuro), não é dor (não há sofrimento lúcido), nem paz (não há contentamento lúcido). é apenas noite, é justamente a noite, é perfeitamente a noite.
 
mas salve, olhar de alegria!
 
salve, dia que surge!
 
os corpos, que antes palpitavam no escuro, saltam do sono; o mundo, às claras, se recompõe.
 
que alegria a bicicleta que passeia!
 
existir: seja como for, a fraterna entrega do pão.
 
amar: seja como for: mesmo nas canções, a entrega do coração.
 
(na vida, existir & amar com a entrega do pão, com a entrega do coração.)
 
saltar do sono, recompor-se, e, de novo, andar: as distâncias, as cores, os cheiros, os sabores: posse das ruas; de novo, dono das paisagens que vão passando ao me ver passar (os dois lados da janela…); de novo, senhor dos caminhos que sigo percorrendo.
 
tudo que à noite perdemos se nos confia outra vez, tudo que à noite perdemos volta a ser nosso com a luz do dia.
 
obrigado, coisas fiéis, coisas que sempre retornam minhas!
 
saber que ainda há praias, florestas, sinos, palavras; saber que a terra prossegue o seu giro; saber que o tempo não murchou, que não nos diluímos, que estamos aí.
 
chupar o gosto do dia!
 
clara manhã: obrigado!
 
o essencial é viver!
 
(existir: seja como for, a entrega fraterna do pão.)
 
(existir: amar, com a entrega do coração. amar sempre, mesmo nas canções.)
 
um feliz & próspero ano que se inicia!
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: A rosa do povo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
 
PASSAGEM DA NOITE
 
 
É noite. Sinto que é noite 
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
 
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

PASSAGEM DO ANO
31 de dezembro de 2011

____________________________________________________________
 
o último dia do ano não é o último dia do tempo.
 
afinal, a vida é um dia-a-dia de acontecimentos contínuos & descontínuos.
 
depois do último dia do ano, e do primeiro dia do novo ano, outros dias virão e, com os novos dias, novas coxas & ventres comunicarão o calor da vida.
 
ano novo, dia novo, fato novo: muitas bocas para beijar, muitos papéis para rasgar, viagens para fazer & tantas outras celebrações… o tempo, de tantos ocorridos, ficará repleto e, de tão repleto, não deixa espaço a outras coisas que não digam respeito à nossa própria vida.
 
o último dia do tempo (dia derradeiro, dia do adeus ao mundo) não é o último dia de tudo.
 
o dia morre & nasce todos os dias. o tempo segue sua caminhada ininterrupta. 
 
recebamos com simplicidade este PRESENTE do acaso: o merecimento de viver mais um ano.
 
meu pai morreu, meu avô também.
 
em mim mesmo muita coisa expirou, muita coisa teve o seu fim, outras coisas espreitam a morte, outras coisas, na iminência do esgotamento, mas eu, paulo sabino, estou vivo, e, durante a passagem de um ano a outro, de copo na mão, celebrando a vinda de mais um ano, de mais um dia, esperando amanhecer.
 
e, enfim, independente de quaisquer recursos usados para viver a noite última do ano que passa, surge a manhã de um novo ano, enfim, a manhã de um novo dia.
 
e as coisas, no amanhecer de um novo ano, continuam a ser coisas, limpas, ordenadas, dentro dos seus movimentos diários, cotidianos.
 
depois da vigília etílica & feliz de uma noite, o corpo, gasto, renova-se em espuma: encontro com o mar, útero às vistas.
 
todos os sentidos funcionam “alerta”, tudo ligado na eletricidade do dia & sua luz.
 
a boca está comendo vida.
 
a boca está entupida de vida.
 
a vida, sendo devorada pela boca, escorre, lambuza as mãos, a calçada.
 
a vida é gorda, oleosa, invade ilicitamente, sem permissão prévia, até o que não deseja ser tomado por sua força (a vida é sub-reptícia):
 
a vida é mortal.
 
a vida somos nós.
 
aproveitemos enquanto há tempo.
 
um feliz & próspero 2012!
 
beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________
 
(do livro: A rosa do povo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
 
PASSAGEM DO ANO
 
 
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
                                                                                             [sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
 
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…
 
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
 
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.
 
Surge a manhã de um novo ano.
 
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.