VIRGEM
1 de novembro de 2011

Farol da ilha de Porer (Croácia)

__________________________________________________________________

INOCENTES DO LEBLON   (Carlos Drummond de Andrade)

 

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, 
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

__________________________________________________________________

praia de ipanema. posto 9. horário de verão. 19h10.

caminhando na areia, há poucos dias, tendo, às costas, as pedras do arpoador, à frente, os morros dois irmãos & a favela do vidigal, atrás dos dois irmãos, a pedra da gávea, à direita, na beira-mar, o hotel marina, e tendo o sol, já caído atrás das montanhas, pintando o céu azul em tons de alaranjado, este verso brotou na minha garganta, ganhando a minha voz, que o repetiu alto, numa espontaneidade genuína:

“as coisas não precisam de você”.

logo em seguida, o seguinte:

“quem disse que eu tinha que precisar?”

as luzes brilham no vidigal & não precisam de você.

as luzes das casas, das ruas, cintilam no morro do vidigal, compondo o cenário, lindas, e não precisam de você para brilhar, não precisam de você para cintilar.

não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

os (morros) dois irmãos, e sua beleza, e sua imponência frente à paisagem, também não precisam de você para serem belos & imponentes.

o hotel marina, à beira-mar, aceso por volta das 19h10 do horário de verão carioca, quando acende, não é por nós dois nem lembra o nosso amor.

os inocentes do leblon, a que se refere drummond no poema citado, os inocentes do leblon, ignorantes imersos em suas pequenas questões, imersos no óleo suave que passam nas costas, para relaxamento, quando dispostos na areia quente & fofa, os inocentes do leblon, que não vêem nada, que não vêem o navio entrar nem tampouco saberiam que tipo de carga o navio carrega, que , na verdade, não se interessariam em ver ou saber da entrada do navio, os inocentes do leblon, que esquecem tudo que não esteja ao alcance do seu umbigo & dos seus interesses, estes não sabem de você, nem vão querer saber.

as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

as coisas, no mundo, existem independentes de mim, independentes de vocês, independentes de nós.

e isso, no fundo, é bom. isso, no fundo, é o melhor, pois significa que, para ser feliz, para estar bem, para admirar o belo que me cerca, não dependo de nada nem de ninguém.

dependo de mim.

a vida gosta de quem gosta da vida.

as belezas estão no mundo, dispostas, disponíveis, a quem quiser sorvê-las, a quem souber aproveitá-las.

(os dois irmãos, as luzes no vidigal, o hotel marina aceso na orla, as luzes alaranjadas do pôr do sol, as gaivotas & fragatas que partem na direção das pedras, e mais o que houver.)

a constatação de que o bem-estar, a felicidade, dependem apenas de nós, dependem de bancarmos as nossas escolhas, doam a quem doer, em prol do nosso bem-estar, em prol da nossa felicidade, em prol das coisas que verdadeiramente nos fazem bem.

virgem: virgo: o sexto signo do zodíaco, relativo aos que nascem entre 23 de agosto & 22 de setembro.

virgem: o que é puro, intocado. desconhecido. o que não foi usado. o que é isento. o que é:

livre.

(as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.)

a constatação de que dependemos apenas de nós, seres solitários que somos, ainda que tenhamos o sentimento do mundo, no percurso de buscar & lutar por aquilo que nos encanta os olhos, espelhos da alma.

e o meu farol, o farol desta ilha que sou (território-império em meio a um mar de possibilidades), o farol da ilha só gira agora por outros olhos & armadilhas:

o farol da ilha procura, agora, outros olhos & armadilhas…

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

VIRGEM

 

As coisas não precisam de você:
Quem disse que eu tinha que precisar?
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você;
Os dois irmãos
Também não.
O Hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor.
Os inocentes do Leblon,
Esses nem sabem de você
Nem vão querer saber
E o farol da ilha só gira agora
Por outros olhos e armadilhas:
O farol da ilha procura agora
Outros olhos e armadilhas.

__________________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Virgem. Letra: Antonio Cicero. Música: Marina Lima. gravadora: Universal Music.)

A ÚLTIMA ENTREVISTA — CDA
21 de outubro de 2011

(CDA & o mar — que tanto amava — de Copacabana, Rio de Janeiro, bairro em que morou durante muitos anos, até a sua morte.)

_____________________________________________________________
 
abaixo,
 
aos senhores,
 
trechos da última entrevista do GRANDE MESTRE de todos nós, poetas, carlos drummond de andrade, concedida ao jornalista geneton moraes neto & publicada no jornal do brasil 5 dias após a sua morte, em 22 de agosto de 1987.
 
nos trechos publicados, o poeta fala, magistralmente, sobre aspectos os mais variados da sua vida.
 
aqui os senhores terão acesso à matéria publicada no jornal do brasil.
 
mais uma homenagem a este poeta que merece todo o meu respeito.
 
sempre digo:
 
drummond, assim como um “sobretudo”, veste todos. seu tecido poético é tão poderoso, tão bem trançado, tão bem urdido, que, por cima de tudo & todos, está a sua capa. mais que “deus”, drummond está por sobre: assim como o “sobretudo”, um “sobredeus”.
 
boa leitura!
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do site: Memória Viva. endereço eletrônico: http://www.memoriaviva.com.br. entrevistado: Carlos Drummond de Andrade. entrevistador: Geneton Moraes Neto. originalmente publicada no: Jornal do Brasil. em: 27/08/1987.)   
 
 
 
Dezessete dias antes de dar adeus ao mundo, Carlos Drummond de Andrade confessava que tinha um único e prosaico medo: o de escorregar, levar uma queda boba e quebrar o fêmur. A confissão é exemplar do temperamento do maior poeta brasileiro. Quem batesse à porta do apartamento 701 do prédio de número 60 da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, à procura de declarações grandiloqüentes sobre a vida, a arte e a eternidade, iria se deparar com um homem teimosamente prosaico, despido de todo e qualquer traço de vaidade e orgulho diante de uma obra que começou a brotar de Itabira para o mundo em 1918, ano da publicação de um poema chamado Prosa, num jornalzinho que só saiu uma vez.

O Drummond que se revela de corpo inteiro na longa entrevista que nos concedeu em duas sessões — nos dias 20 e 30 de julho — é um homem desiludido com o mundo. Agnóstico. Confessadamente solitário. Cético diante da posteridade. Injustamente rigoroso no julgamento da obra que produziu. Para todos os efeitos, Drummond considerava-se apenas o pacífico mineiro de Itabira portador da carteira de identidade no 803.412. E só. Tinha uma íntima esperança: queria ver a filha única, a escritora Maria Julieta, recuperada da doença. Tanto é que tentou adiar a entrevista para ‘quando as coisas melhorassem’. Não melhoraram. Os azares de agosto desabaram sobre os ombros frágeis do poeta. O câncer ósseo levou Maria Julieta. E tirou do poeta a vontade de viver. A imagem do Drummond cambaleante nas alamedas do cemitério no enterro da filha única era um mau presságio.

Menos de uma semana antes da morte da filha, Drummond, enfim, cedera à nossa insistência em obter um longo depoimento — não sem, antes, brindar-nos com o dúbio qualitativo de ‘implacável’. A entrevista fazia parte do projeto de publicação de um livro de depoimentos sobre os 60 anos do célebre poema No meio do caminho, no próximo ano. Drummond, naturalmente, não concordava nem de longe com a idéia de homenagear a data. ‘Não vale a pena; a data não merece consideração alguma’. Mas, provocado, falou como em poucas vezes: o depoimento, transcrito, rendeu cerca de mil linhas datilografadas. Um trecho — que antecipava a decisão do poeta de deixar de escrever — foi publicado no Idéias há duas semanas. Depois da morte da filha, Drummond tentou sustar a publicação da entrevista porque a considerava ‘muito festiva’. Acabou permitindo, sob a condição de que o editor avisasse que ela tinha sido concedida antes da morte de Maria Julieta. Em poucos dias, a entrevista transformou-se na cerimônia de adeus do maior poeta brasileiro. Mais do que nunca, neste depoimento, Drummond insiste que será esquecido em pouco tempo. Não será. E não terá sido por acaso que o clima no seu enterro não era propriamente de comoção. Porque todo mundo ali sabia que, nos versos, Drummond vive. E, na morte, encontrou o que tanto queria: a paz.

____________________________________________________________

O MEDO

     “A maior chateação da velhice é você ficar privado do uso completo de suas faculdades. A pessoa velha tem de moderar o ritmo do andar, porque, do contrário, o coração começa a pular. Não pode fazer grandes excessos. Não tomar um pileque de vez em quando porque isso provocará consequências maléficas. Ela tem de ser moderada até nos amores.
     “O medo que tenho é levar uma queda, me machucar, quebrar a cabeça, coisas assim, porque, na idade em que estou, a primeira coisa que acontece numa queda é a fratura do fêmur. Isso eu receio”.

 

A QUEIXA

     “Antes, as pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral. Mas hoje há escritores premiados que não conhecem a língua natal…
     “Quem hoje não sabe a língua e se manifesta mal é que aprendeu de maus professores. A decadência do ensino no Brasil é uma coisa que tem pelo menos trinta a quarenta anos — e talvez mais”.

 

A VIDA

     “Minha vida? Acho que foi pouco interessante. O que é que eu fui? Fui um burocrata, um jornalista burocratizado. Não tive nenhum lance importante na minha vida. Nunca exerci um cargo que me permitisse tomar uma grande decisão política ou social ou econômica. Nunca nenhum destino ficou dependendo da minha vida ou do meu comportamento ou da minha atitude.
     “Eu me considero — e sou realmente — um homem comum. Não dirijo nenhuma empresa pública ou privada. A sorte dos trabalhadores não depende de mim”.

 

O PAÍS

     “Eu lamento que haja pouco consumo de livro no Brasil. Mas aí é um problema muito mais grave. É o problema da deseducação, o problema da pobreza — e, portanto, o da falta de nutrição e da falta de saúde. Antes de um escritor se lamentar porque não é lido como são lidos os escritores americanos ou europeus, ele deve se lamentar de pertencer a um país em que há tanta miséria e tanta injustiça social”.

 

O VOTO

     “Acho o Partido Verde muito limitado. Por que somente verde? Eu seria partidário de todas as cores do arco-íris — do vermelho vivo do sangue que palpita nas artérias ao azul do céu. O Partido que gostaria de ver implantado no Brasil, com condições de assumir o poder ou de partilhar o poder com partidos mais burgueses, seria o Partido Socialista.
      “Quando há eleição, não voto mais. Deixei de votar, porque me desinteressei. Deixei de votar porque a lei me faculta deixar de votar aos setenta anos. Ainda votei, até os oitenta e poucos. Depois, verifiquei que o quadro político não agradava nem me seduzia. As opções não eram agradáveis para mim”.

 

A BELEZA

     “A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela… Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime”.

 

A SOLIDÃO

     “Se eu me sinto solitário? Em parte, sim, porque perdi meus pais e meus irmãos todos. Nós éramos seis irmãos. E, em parte, porque perdi também amigos da minha mocidade, como Pedro Nava, Mílton Campos, Emílio Moura, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema e outros que faziam parte da minha vida anterior, a mais profunda. Isso me dá um sentimento de solidão. Por outro lado, a solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.

 

A POESIA

     “Não lamento, na minha carreira intelectual, nada que tenha deixado de fazer. Não fiz muita coisa. Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético. Não tive a pretensão de ganhar prêmios ou de brilhar pela poesia ou de me comparar com meus colegas poetas. Pelo contrário. Sempre admirei muito os poetas que se afinavam comigo. Mas jamais tive a tentação de me incluir entre eles como um dos tais famosos. Não tive nada a me lamentar. Também não tenho nada do que me gabar. De maneira nenhuma. Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública.
     “Mas eu acho que chega. Não quero inundar o mundo com minha poesia. Seria uma pretensão exagerada”.

 

A CRIAÇÃO

     “Pelo menos na minha experiência pessoal, há uma emoção grande e uma alegria no momento de escrever o poema. Uma vez feito, é como o ato amoroso. Você sente o orgasmo, sai a polução e depois aquilo acabou. Fica a lembrança agradável, mas você não pode dizer que aquele orgasmo foi melhor do que o outro! O mecanismo não é o mesmo, a reação não é a mesma”.

 

A NOVA REPÚBLICA

     “Não teria cabimento eu escrever uma Constituição (ri). Não tenho a menor intenção e esta idéia nunca me passou pela cabeça. A Constituição de que eu mais gostaria é esta — ‘Artigo primeiro: Não há artigo primeiro. Artigo segundo: também não há artigo segundo. Parágrafo. Revogam-se as disposições em contrário’. Nem sei quem é o autor desta idéia.
     “O Brasil está vivendo uma fase de profunda inquietação e transformação de valores. É cedo para julgar um político, um presidente, um ministro. Nós estamos — ao mesmo tempo — participando da ação e querendo ser juízes. O observador, o participante, nunca é o juiz. A gente pode julgar o marechal Deodoro da Fonseca porque nós já sabemos no que deu a República com quase cem anos. Então, é uma figura histórica. Mas julgar historicamente e moralmente um nosso contemporâneo me parece uma das coisas mais difíceis de fazer. Não tenho opinião a respeito.
     “O poeta não se situa em nenhuma república. O poeta se situa como poeta”.

 

O ESTADO NOVO

     “A minha relação com o poder foi uma relação amistosa com o ministro Gustavo Capanema, pelo fato de nós sermos companheiros antigos. Nunca participei do poder. Nunca desejei. Nunca teria vocação. Eu era da estrita confiança do ministro. Esculhambavam-me e acusavam-me de fazer favoritismo político e de arranjar nomeação de pessoas para falarem bem de mim nos jornais, o que é absolutamente falso. Eu não tinha poder! E eu não trairia a confiança de Gustavo Capanema (ministro da Educação do primeiro governo de Getúlio Vargas) fazendo coisas assim. Nunca tive a oportunidade de conversar com Getúlio, embora fosse acusado de poeta ligado ao Estado Novo. Eu não tinha nada com o Estado Novo. Nunca participei de homenagens ao governo. E saí de lá com as mãos abanando”.

 

A ACADEMIA

     “A Academia nunca me inspirou desprezo. Não posso desprezá-la porque não acho que é uma instituição digna de desprezo. O que há é o seguinte: não tenho espírito acadêmico, não tenho a tendência para ser acadêmico. A Academia, então, não me produz uma sensação de desprezo nem de desgosto. Apenas relativo distanciamento. Mas devo assinalar que, dentro da Academia, estão alguns dos meus melhores amigos. São companheiros de juventude, como Afonso Arinos, Abgar Renaut, Ciro dos Anjos — que não é só meu amigo: é meu compadre. Não tenho nada individualmente contra os acadêmicos. Acredito que — sendo uma instituição composta por quarenta pessoas — dificilmente, em qualquer lugar do mundo, essas quarenta pessoas serão bons escritores. Haverá, sempre, uma parcela de escritores menores e, até, de maus escritores”.

 

O JORNALISMO

     “Trabalhei na imprensa durante a minha vida toda, com um ligeiro intervalo em que me dediquei só à burocracia do Ministério da Educação. Sempre tive muita consideração dos meus companheiros. E muita liberdade. Mas me recordo que, há tempos atrás, num momento de molecagem, para testar a resistência do copy-desk, no Jornal do Brasil, escrevi a palavra bunda. Cortaram e botaram a palavra traseiro. Hoje, a palavra bunda circula até em fotografia, em desenho, por toda parte. Uma das coisas mais celebradas pela grande imprensa é a bunda. A televisão está lá — mostrando bunda de homem, o que, a nós, não interessa…
     “Não participei da elaboração do grande jornal diário e intenso. Como cronista, escrevia em casa. O jornal, gentilmente, mandava apanhar a minha matéria. Como jornalista, não tive a emoção da grande reportagem e dos grandes acontecimentos que eu teria de enfrentar numa fração de segundo para que a matéria saísse no dia seguinte”.

 

A VOCAÇÃO

     “Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo”.

 

ADEUS

     “Quem é que fala hoje em Humberto de Campos? Quem é que fala em Emílio de Menezes? Quem é que fala em Goulart de Andrade? Quem é que fala em Luís Edmundo? Ninguém se recorda deles! Não fica nada! É engraçado. Mas não fica, não. Não tenho a menor ilusão. E não me aborreço: acho muito natural. É assim mesmo que é a vida.
     “Não vou dizer como o Figueiredo: ‘Quero que me esqueçam!’ Podem falar. Não me interessa, porque não acredito na vida eterna. Para mim, é indiferente.
     “Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas: ‘tinha uma pedra no meio do caminho’ e ‘e agora, José?’. Que eu saiba, só. Mais nada.
     “Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos eu já estarei no Cemitério de São João Baptista. Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

A OFERTA
19 de outubro de 2011

_____________________________________________________________

benvindos,
 
hoje, 19 de outubro, há exatos 69 anos, nascia aquela que veio a ser a responsável pela concepção deste rapazinho que lhes escreve neste exato momento.
 
hoje, 19 de outubro, a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas 69 primaveras, bem bonita, vigorosa, como mostra a foto.
 
dona jurema armond é GRANDE responsável pelo meu amor à literatura, ao cinema & à música.
 
descobri a poesia através de uma artista que sempre foi o MAIOR ÍDOLO da minha cabocla: maria bethânia.
 
dona jurema armond é muito responsável pelo ânimo do paulo sabino. muito carinhosa, muito amorosa & bem-humorada. divertida. engraçada. às vezes rio sozinho lembrando coisas feitas por ela, coisas ditas por ela.
 
ela é melhor do que eu, não tenho dúvidas. possui capacidades amorosas que ainda não alcanço. eu sou mais genioso, mais “respondão”, não sou de levar desaforo para casa. mesmo. em geral revido na mesma moeda. mesmo. ela, dona jurema, ela é mais branda, mais suave, mais delicada.
 
porém, mesmo sendo menos paciente (o meu temperamento, quando aborrecido, é mais próximo ao do meu pai), sou um homem de delicadezas. prezo pelo bom trato, pelo carinho, pela troca amiga.
 
isso, senhores, eu herdei, é um legado, da cabocla, legado que vejo muito bonito, muito  importante; isso é um sinal de que jurema armond apostou no delicado da  vida.
 
e não vale pensar que a vida dessa mulher é só alegria, só bons momentos.
 
como todo & qualquer bom ser humano, dona jurema armond também viveu os seus maus momentos; momentos de dor, momentos de solidão.
 
todavia, a cabocla sempre deu a volta por cima. aposta no bom humor & tem sua atenção às belezas do quotidiano, não se prendendo às durezas & friezas que determinados sentimentos (de dor, de solidão) podem gerar.
 
o seu lema: viver a dor para, um dia, libertar-se dela.
 
o seu tema: não se deixar destruir.
 
ajuntar as pedras que nos atravessam o caminho, juntá-las todas, e, com elas, a construção de novos poemas.
 
recriar a vida, sempre, sempre.
 
fazer, da vida mesquinha que se possa levar, um poema.
 
é assim que a cabocla vive no meu coração de eterno menino seu, coração jovem, e é assim que a cabocla viverá junto a mim & aos meus.
 
a sua fonte, de força, é para uso de todos os sedentos.
 
sem entraves.
 
a cabocla é pessoa simples; gosta de plantas, de cuidar das plantas, de ter mato por perto; a gleba, o terreno fértil, a transfigura para mais & melhor. e gosta de bichos, de todos soltos, livres, a viver a sua natureza. mulher de simplicidades, gosta muito dos pequenos prazeres, dos que, ao meu ver, realmente importam. o que almeja, quando à vida, é tão singelo, mas ao mesmo tempo tão revolucionário!…
 
o MESTRE carlos drummond de andrade, na sua última entrevista, concedida ao jornal do brasil & publicada 5 dias após a sua morte, em 22 de agosto de 1987, fala o seguinte a respeito da beleza:
 
 
A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela… Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime.   
 
 
ensinamentos para o bem viver, eis a oferta de jurema armond:
 
a cabocla é aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. 69 anos. ensinou a amar a vida. a não desistir da luta. a recomeçar na derrota. a renunciar a palavras & pensamentos negativos. a acreditar nos valores humanos. a ser otimista. 
 
a cabocla crê na solidariedade humana. crê na superação dos erros & angústias do presente.
 
acredita nos jovens, aposta num futuro melhor com a vinda das novas gerações, gerações que descobrirão uma profilaxia, um modo de prevenir, os erros & violências do presente.
 
aprendi, com ela, que mais vale lutar do que recolher dinheiro “fácil”, digo, dinheiro “sujo”, que não é meu por direito.
 
aprendi, com ela, que mais vale acreditar do que duvidar.
 
é dela, de dona jurema armond, que descende o meu modo de enxergar a vida, buscando o melhor para mim, desejando o melhor para todos nós.
 
por isso saúdo a sua existência!
 
parabéns pela data, mãe!
 
beijo IMENSO, minha cabocla!
beijo nos demais!
 
(o filho da dona juju.)
___________________________________________________________________________ 
 
(do livro: Melhores poemas. seleção: Darcy França Denófrio. autora: Cora Coralina. editora: Global.)
 
 
 
ANINHA E SUAS PEDRAS
 
(Outubro, 1981)
 
 
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
 
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
 
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
 
 
 
A GLEBA ME TRANSFIGURA
 
 
Sinto que sou a abelha no seu artesanato.
Meus versos têm cheiro dos matos, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
Amo a terra de um místico amor consagrado, num
                                                              esponsal sublimado,
procriador e fecundo.
Sinto seus trabalhadores rudes e obscuros,
suas aspirações inalcançadas, apreensões e desenganos.
Plantei e colhi pelas suas mãos calosas e mal
                                                              remuneradas.
Participamos receosos do sol e da chuva em
                                                               desencontro,
nas lavouras carecidas.
Acompanhamos atentos, trovões longínquos e o riscar
de relâmpagos no escuro da noite, irmanados no
                                                                                   regozijo
das formações escuras e pejadas no espaço
e o refrigério da chuva nas roças plantadas, nos pastos
                                                                                             maduros
e nas cabeceiras das aguadas.
Minha identificação profunda e amorosa 
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros,
o roncar e focinhar dos porcos, o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir dos cães,
eu me identifico.
Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto, sou mato, sou paiol
e sou a velha da tulha de barro.
Pela minha voz cantam todos os pássaros, piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que vão pelas
                                                                                               estradas.
Sou a espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice e
peso de machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
 
Eu me procuro no passado.
Procuro a mulher sitiante, neta de sesmeiros.
Procuro Aninha, a inzoneira que conversava  com as
                                                                                         formigas,
e seu comadrio com o ninho das rolinhas.
Onde está Aninha, a inzoneira,
menina do banco das mais atrasadas da escola de
                                                                   Mestre Silvina…
Onde ficaram os bancos e as velhas cartilhas da minha
                                                                            escola primária?
Minha mestra… Minha mestra… beijo-lhe as mãos,
tão pobre!…
Meus velhos colegas, um a um foram partindo,
                                                        raleando a fileira…
Aninha, a sobrevivente, sua escrita pesada, assentada
nas pedras da nossa cidade…
 
Amo a terra de um velho amor consagrado
através das gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
Identificada com seus homens rudes e obscuros,
enxadeiros, machadeiros e boiadeiros, peões e
                                                                         moradores.
Seus trabalhos rotineiros, suas limitadas aspirações.
Partilhei com eles de esperança e desenganos.
 
Juntos, rezamos pela chuva e pelo sol.
Assuntamos de um trovão longínquo, de um fuzilar
de relâmpagos, de um sol fulgurante e desesperador,
abatendo as lavouras carecidas.
Festejamos a formação no espaço de grandes nuvens 
                                                                                             escuras
e pejadas para a salvação das lavouras a se perderem.
Plantei pelas suas enxadas e suas mãos calosas.
Colhi pelo seu esforço e constância.
 
Minha identificação com a gleba e com a sua gente.
Mulher da roça eu o sou. Mulher operária, doceira,
abelha no seu artesanato, boa cozinheira, boa lavadeira.
A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra.
Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo.
Sou a cigarra cantadeira de um longo estio que se
                                                                            chama Vida.
Sou a formiga incansável, diligente, compondo seus
                                                                                         abastos.
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e
                                                                             sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra.
Minha pena é a enxada do plantador, é o arado que vai
                                                                                             sulcando
para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e
                                                                                 fecundada
no ventre escuro da terra. 
  
 
 
OFERTA DE ANINHA
(AOS MOÇOS)
 
 
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
 
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
 
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
 
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

PAULO SABINO NA TV ESCOLA – “O MEU AMIGO POETA”
25 de agosto de 2011

____________________________________________________________________________________________

No programa da TV Escola que gravei ontem na minha residência (devido ao mau tempo na cidade do Rio de Janeiro), por indicação de um querido amigo, programa voltado aos estudantes, há um quadro chamado “O meu amigo poeta”, que é LINDO! ADOREI fazer, ADOREI a equipe toda!
 
Cenas do Paulo Sabino lendo uma das suas poesias, do Paulo Sabino falando sobre poesia & os seus autores, do Paulo Sabino, com o diretor do quadro, mexendo nos seus livros, na sua estante, falando da importância de Clarice Lispector, de Drummond, de Fernando Pessoa, falando sobre a importância das Musas na sua vida.

O quadro vai ao ar na segunda semana de outubro, e com direito à propaganda, na telinha, do PROSA EM POEMA! Ganharei uma cópia do programa em DVD, e, se me for permitido, divulgo-o aqui.

Aos senhores, então, o poema, deste que vos escreve, que li para o quadro, escolhido pela própria equipe, que o achou, segundo a mesma, “lindo, muito bonito” (rs):

 

mais que transmita o cinema
ou o mais bem escrito poema
— mais ainda: qualquer existente tática
ou conta aprendida com a matemática —,
nosso amor se faz na prática
de tudo o que possa vir a ser,
sem carta marcada ou parecer.

é no dia-a-dia, com a aprendizagem,
que traduzo a sua paisagem,
como quando o arado de um campo,
que, mais tarde, revela verdes e encanto.

nosso amor assim se desvela:
não é preciso lampião ou vela;
possui luz própria que surge
desta vontade de amar que, em mim, urge.

 
 
Beijo todos!

RIO (EM FLOR) DE JANEIRO
25 de janeiro de 2011

___________________________________________________________________________

(em homenagem ao dia do padroeiro da cidade do rio de janeiro, dia 20 de janeiro.

em homenagem à cidade de são sebastião do rio de janeiro, cidade onde nasci & me criei, que me comove mais do que qualquer outra, mesmo com todas as mazelas & problemas.

em homenagem a tudo que me faz querer viver & morrer nesta cidade, em meio à montanha & mar.)

___________________________________________________________________________

a gente passa, a gente olha, a gente pára e se extasia:

que aconteceu com esta cidade da noite para o dia?

pois que o rio de janeiro virou flor: nas praças, nos jardins, nos parques:

é flor é flor é flor.

rio de janeiro: uma soberba flor por sobre todas,

e a ela rendo meu tributo apaixonado.

deixemo-la reinar. sua presença é mel & pão de sonho, pão de pedra de açúcar, para os olhos.

rio que não é rio: rio flóreo.

isto aqui é janeiro e é rio de janeiro no seu modo janeiro de ser: janeiramente flor por todo lado.

você já viu? você já reparou?

andou mais devagar para curtir essa inefável, essa indescritível fonte de prazer?

andou de olhos abertos à forma organizada, rigorosa, esculpintura da natureza em festa, puro agrado para homens & mulheres que sabem ver?

é tão simples…

rio de encanto, a quem endereço este meu canto terno, de eterno amor:

gosto de você. gosto de quem gosta deste céu, deste mar, desta gente feliz.

o meu beijo mais especial a você, cidade maravilhosa, cheia de encantos mil!

um outro nos senhores!

paulo sabino.

___________________________________________________________________________

(do livro: Amar se aprende amando. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

RIO EM FLOR DE JANEIRO

A gente passa, a gente olha, a gente pára
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignoli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)

Iúca! Iúca, meu amor deste verão
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.
A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
– Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?)
– Vela de pureza, outra acrescenta.
– Lanceta é que se chama. – Não, baioneta.
– Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants
que em toda sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

A FLOR
19 de outubro de 2010

__________________________________________________________________________

hoje,
 
para este que vos escreve, é um grande dia.
 
pois que a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas sessenta e oito primaveras, lindíssima, como se pode ver na foto; mulher cheia de saúde, de alegria e de bondade.
 
senhores,
 
jurema armond é das pessoas mais amorosas que conheço. o seu entendimento das coisas perpassa o coração, impreterivelmente. entre mim e ela sempre houve um entendimento que se dá na seara do amor.
 
a certeza disto: se hoje o paulo sabino é um homem amoroso, um homem de bem-querer, boa, grande, incomensurável é a responsabilidade da minha cabocla.
 
foi com ela que tudo começou:
 
o prazer pela leitura, estimulado pelas diversas coleções de livros infantis;
 
as idas ao teatro e ao cinema;
 
a paixão pela música brasileira, que teve início em maria bethânia, a GRANDE diva na vida da cabocla (e que tomei para mim). foi bethânia quem me abriu as portas da poesia escrita, ainda bem novinho, com fernando pessoa, o poeta número um da artista;
 
o amor pelo mar: ele veio com ela, com a minha cabocla, que, junto ao meu pai, me adorava levar a praias diversas, mesmo com o seu pavor de mar & ondas (rs). me estimulou a fazer natação, a desenvolver ainda mais a minha relação com água, elemento que me fascina, que me vira a cabeça.
 
volta e meia digo à dona jurema armond, num tom de brincadeira séria (que acho o tom correto para este meu sarro – rs), que o mundo, a humanidade, seria mutíssimo melhor se a conhecesse fundo, se pudesse a humanidade conviver com as suas verdades, com a sua integridade, com a sua capacidade de acarinhar & cuidar.
 
viro o mundo de cabeça para baixo pela felicidade de dona jurema armond. no que de mim depender, o mundo mau não a alcançará nunca.
 
a ela saúdo com esta salva de palavras atiradas ao papel.
 
a homenagem segue com um apanhado de poemas escritos por uma poeta que a dona jurema ADORA.
 
conheci a poeta ainda jovenzinho, assistindo a um programa de poesia na tv. tratava-se de um especial sobre a poeta. fiquei fascinado por aquela “avozinha” de cabelos bem branquinhos, de voz doce & delicada, bem-humorada, contando histórias de sua infância & adolescência num tempo muito antigo, tempo de escravos, de amas de leite, fazenda, rezas & terços, de acentuada religiosidade, de rigores no comportamento social, de castigos corporais, de conservadorismos, de subserviência feminina ao “poder patriarcal”.
 
(se pensarmos bem, esse tempo não parece tão distante deste tempo, infelizmente…)
 
a poeta escondeu a vida toda os seus versos da sua família, que considerava “prestimosa” a mulher dedicada exclusivamente às tarefas domésticas. segundo a família, mulher não nascera para pensar.
 
trata-se de uma poeta nascida em 1889, revelada ao grande público aos 76 anos de idade por ninguém menos que o MESTRE carlos drummond de andrade. o bardo a definiu “diamante solitário”, pois que, a rigor,
 
cora coralina não seguiu escolas nem estilos.
 
foi única na forma de expressar, no seu tempo, a sua poesia.
 
jurema armond também é feita de ineditismo: a sua forma de expressar, no seu tempo, o seu amor. por isso a cabocla me é tão cara: porque rara: porque um diamante solitário.
 
a você, pessoa mais que adorada, os meus parabéns pela data e o desejo dos três “s”: saúde, sorte & sucesso nas realizações!
 
beijo-TITÃ em você, minha flor!
 
um outro grande nos senhores!
 
o filho da dona juju.
_____________________________________________
 
(do livro: Melhores poemas — Cora Coralina. seleção: Darcy França Denófrio. editora: Global.)
 
 
TODAS AS VIDAS
 
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acordada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
 
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
 
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
 
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.
 
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
 
Todas as vidas dentro de mim.
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.
 
 
OS HOMENS
 
Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. É aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.
 
É como a água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
                                           represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que encontramos
                                                                        na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.
 
Há também, lado a lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
                                                reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos
                                                              os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.
 
Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir — conduz.
Não improvisa — estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiem,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.
 
Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
 
 
ESTA É A TUA SAFRA
 
Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem
                                                                 digam,
coitada da mamãe…
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.
 
Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das novas gerações.
 
Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam
                                                          revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.
 
Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.
 
Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que
                                                           te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade
                                                                humana.
Esta é a tua safra.
 
 
A FLOR
 
Na haste
hierática e vertical
pompeia.
Sobe para a luz e para o alto
a flor…
 
Ainda não.
 
Veio de longe.
Muda viajeira
dentro de um plástico esquecida.
Nem cuidados dei
à grande e rude matriz fecundada.
Apanhada num monte de entulho de lixeira.
 
“Cebola brava” na botânica
sapiente de seu Vicente.
Oitenta e alguns avos de enxada e terra.
Sabedoria agra.
Afilhado do Padim Cícero.
Menosprezo pelas “flores”:
“De que val’isso?”    
Displicente, exato, irredutível.
 
E eu, meu Deus,
extasiada,
vendo, sentindo e acompanhando,
fremente,
aquela inesperada gestação.
 
— Um bulbo, tubérculo, célula
de vida rejeitada, levada na hora certa
à maternidade da terra.
 
                                                                          A Flor…
 
Ainda não.
Espátula. Botão
hígido, encerrado, hermético,
inviolado
no seu mistério.
Tenro vegetal, túmido de seiva.
Promessa, encantamento.
Folhas longas, espalmadas.
Espadins verdes
montando guarda.
 
                                                               Da Flor…
 
A expectativa, o medo.
Aquele caule frágil
ser quebrado no escuro da noite.
O vento, a chuva, o granizo.
A irreverância gosmenta
de um verme rastejante.
O imprevisto atentado
de alheia mão
consciente ou não.
 
Alerta. Insone.
Madrugadora.
 
Na manhã mal nascida,
toda em rendas cor-de-rosa,
túrgida de luz,
ao sol rascante do meio-dia.
No silêncio serenado da noite
eu, partejando o nascer da flor,
que ali vem na clausura
uterina de um botão.
Rombóide.
 
                                                    Para a flor…
 
Chamei a tantos…
Indiferentes, alheios,
ninguém sentiu comigo
o mistério daquela liturgia floral.
Encerrada na custódia do botão,
ela se enfeita para os esponsais do sol.
Ela se penteia, se veste nupcial
para o esplendor de sua efêmera
vida vegetal.
 
Na minha aflita vigília
pergunto:
— De que cor será a flor?
 
Chamo e conclamo de alheias distâncias
alheias sensibilidades.
Ninguém responde.
Ninguém sente comigo
aquele ministério oculto
aquele sortilégio a se quebrar.
 
                                                                             Afinal a Flor…
 
Do conúbio místico da terra e do sol
— a eclosão. Quatro lírios
semi-abertos,
apontando os pontos cardeais
no ápice da haste.
Vara florida de castidade santa.
Certo heráldico. Emblema litúrgico
de algum príncipe profeta bíblico
egresso das páginas sagradas
do Livro dos Reis ou do Habacuc.
 
E foi assim que eu vi a flor.
 
 
MEU EPITÁFIO
 
Morta… serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.
 
Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.
 
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
_________________________________________________________________________

CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
___________________________________________________________
 
(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
________________________________
engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!

HOMENAGEM AO JOÃO
30 de agosto de 2010

senhores,
 
abaixo, linhas escritas em homenagem a um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos:
 
joão cabral de melo neto.
 
este poeta gostava de afirmar que seu trabalho com a poesia era estritamente cerebral. o encaixe das palavras, a musicalidade dos versos, as imagens criadas, tudo em joão cabral, segundo o próprio, era cem por cento “transpiração”. o bardo não cria em “inspiração”; cria na poesia como a prática da escrita. sentar e escrever escrever & escrever. era muito disciplinado.
 
(não era à toa a ENORME admiração que cabral alimentava pelo poeta francês charles baudelaire.)
 
eu, até hoje, não consigo essa prática, a da disciplina. sou mais próximo de clarice lispector (não no talento, senhores, mas na forma de criação), que dizia que o seu método de escrever era caótico. 
 
caótico porque não havia método, não havia disciplina. clarice chegava a declarar que não se considerava uma profissional da escrita, mas uma eterna amadora & aprendiz. adorava afirmar que não sabia escrever. eu me sinto assim, exatamente como ela.
 
portanto, o meu processo criativo atua de um modo muy diferente do modo que atuava em joão cabral. realidades díspares, que se “estranham” (estranham-se pela divergência). e isso não me impede de gostar dos escritores e poetas que trabalham de outra forma.
 
há quem afirme não gostar de joão cabral exatamente por esta característica que ele fazia questão de salientar: a do “uso cerebral” no centro de tudo, sem apelos a qualquer tipo de emoção ou comoção. tudo, no verso, é milimetricamente estudado. o poeta não erra a direção de sua exata insistência. traz à tona o que era latente , o que era oculto, na voz imanente do poema.    
 
eu gosto de joão cabral, e tenho-o como um dos maiores, exatamente por essa característica. não possuo um senso narcíseo para com a poesia:
 
é que Narciso acha feio o que não é espelho (“sampa”, caetano veloso).  
 
não enxergo beleza apenas naquilo que me é afim. 
 
gosto das diferenças, aprecio os desencontros. diferenças não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade.
 
adoro ler poetas com modos de trabalhar o poema diferentes do meu. acho que isso só enriquece a poesia. todos nós, poetas & leitores, ganhamos com as diferenças. 
 
gosto de pensar na peculiar disciplina do poeta e de pensar na precisão cirúrgica do seu traço ao desenhar imagens com as palavras. poeta que não se enebria em fluência, poeta seco, o seu verso diz exclusivamente o que pretende dizer. morro em admirações & respeito, e, com as suas habilidades, tento aprender.     
 
desapegar-se dos pré-conceitos é um saudável exercício, inclusive para ser feito com a poesia.
 
“paulo sabino, você prefere os escritores mais ‘emocionais’ ou os mais ‘cerebrais’?”
 
a minha resposta: eu prefiro, sempre, um bom escritor. e o bom escritor pode ser mais emocional ou mais cerebral, não importa. 
 
NADA impede que um poeta “cerebral” produza uma obra extremamente emocionante & emocionada. a princípio, parece um contrasenso, mas não existe contrasenso algum na minha afirmação.
 
o importante é o resultado final. e, nesse sentido, juntamente com fernando pessoa e carlos drummond, joão cabral nos deixou uma obra imbatível.
 
(poesia boa, poesia de grandes capacidades poéticas, sempre alucina.)
 
lê-lo é valer-se de grandes lições da literatura. 
 
lembrem-se disto, pessoas: belezas não nasceram para serem excludentes. belezas nasceram para serem complementares.
 
aqui, a minha singela homenagem ao mestre, mestre a quem sempre recorro, mestre que sempre procuro.
 
beijo bom em todos vocês,
paulo sabino / paulinho.
___________________________________________________________________________
 
(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)
 
 
DEDICATÓRIA DA SEGUNDA EDIÇÃO
DO CRISTO CIGANO A
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
 
I
 
João Cabral de Melo Neto
Essa história me contou
Venho agora recontá-la
Tentando representar
Não apenas o contado
E sua grande estranheza
Mas tentando ver melhor
A peculiar disciplina
De rente e justa agudeza
Que a arte deste poeta
Verdadeira mestra ensina
 
II
 
Pois é poeta que traz
À tona o que era latente
Poeta que desoculta
A voz do poema imanente
 
Não erra a direcção
De sua exacta insistência
Não diz senão o que quer
Não se enebria em fluência
Mas sua arte não é só
Olhar certo e oficina
E nele como em Cesário
Algo às vezes se alucina
 
Pois há nessa tão exacta
Fidelidade à imanência
Secretas luas ferozes
Quebrando sóis de evidência
 
VI
 
A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
 
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procura
 
A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro
 
Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis
Eu te procuro

CARLOS & JOÃO
26 de agosto de 2010

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
 
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
 
(trecho do poema “Não se mate”, de Carlos Drummond de Andrade)
_________________________________________________________________________
 
sim, carlos,
 
sossegue.
 
na dinâmica da vida, o amor, como a existência, é inconstante e um tanto impresumível: um dia beija, outro não, um dia tem, outro não, e, seguindo o rumo, ninguém sabe o que será.
 
ainda que as dores existam, carlos, o amor é feito de maravilhas & redescobertas que, ao meu ver, valem a dor.
 
preste atenção, carlos, no que diz o joão.
 
o joão seu amigo, carlos, o joão que o admira na mesma medida que você a ele. o joão que tantos poemas já lhe dedicou. o joão, carlos, que sempre o escutou.
 
aqui, neste espaço, é a vez de você ouvi-lo, ouvir o joão, de você entender, através dos seus versos, a grande bobagem que é morrer por amor. 
 
(afinal, em vida, morremos de amor a todo instante.) 
 
é tão melhor morrer de amor como o faz o joão nas suas linhas… não há sensação de prazer que se iguale.
 
carlos, sossegue. não se apoquente. ouça as palavras do joão, leia o que ele tem a oferecer, e você, carlos, verá que tudo é muito mais.
 
como o joão, deixe-se neutralizar pelo “poder bélico”, pelo “arsenal de fogo”, que possuem aqueles por quem nos interessamos.
 
deixe-se assistir, imóvel e indiferente, à pessoa amada. (“indiferente”, sim, mas não no sentido do “desprezo ao outro”, da insensibilidade ou desinteresse, e sim no sentido de assistir a quem se ama do mesmo modo SEMPRE, isto é, de uma maneira “não”-diferente, de um jeito “in”-diferente.)
 
tenha o ser amado, carlos, como aquilo que complementa, transcende & compreende as 24 horas do seu dia, os fatos diversos, o livro e o jornal que você lê.
 
não se abespinhe, não se agaste com o amor, carlos. tudo besteira, tudo bobagem. viva-o, tenha-o como um seu amigo, como um companheiro (bom, apesar de difícil) de jornada: absolutamente revolucionário & criminoso.
 
por isso, trago a você, carlos, dois estudos, em forma de poesia, formulados pelo joão. 
 
como possuo uma enorme admiração por você, carlos, e pelo joão, e sabendo do carinho, do respeito & da admiração que nutrem um pelo outro, resolvi deixá-los assim, juntos:
 
carlos & joão.
 
(para que a beleza de um saliente, realce, ressalte, a lindeza do outro.)
 
beijo carinhoso em você, carlos.
um outro, também cheio de cuidados, no joão.
 
e um terceiro, cheio de ânimo & disposição, nos senhores.  
o preto,
paulo sabino.
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Serial e antes. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)
 
 
DOIS ESTUDOS
 
1
 
Tu és a antecipação
do último filme que assistirei.
Fazes calar os astros,
os rádios e as multidões na praça pública.
Eu te assisto imóvel e indiferente.
A cada momento tu te voltas
e lanças no meu encalço
máquinas monstruosas que envenenam reservatórios
sobre os quais ganhaste um domínio de morte.
Trazes encerradas entre os dedos
reservas formidáveis de dinamite
e de fatos diversos.
 
2
 
Tu não representas as 24 horas de um dia,
os fatos diversos,
o livro e o jornal
que leio neste momento.
Tu os completas e os transcendes.
Tu és absolutamente revolucionária e criminosa,
porque sob teu manto
e sob os pássaros de teu chapéu
desconheço a minha rua,
o meu amigo e o meu cavalo de sela.

PROCURA DA POESIA
12 de maio de 2010

não,
 
não aos versos sobre acontecimentos.
 
diante da poesia, a vida é um sol estático. um sol parado. um sol que não aquece nem ilumina.
 
o que se pensa ou sente, isso ainda não é poesia.
 
poesia é mais do que um relato. poesia não é biografia.
 
à sua companhia, esquecer a memória. pois o que se dissipou, o que partiu, o que se foi, não era poesia. ela não se dissipa, ela não se parte. ela fica, pés fincados em sua forma definitiva e concentrada no espaço.
 
poesia não é biografia. os versos não dizem acontecimentos. os versos não são acontecimentos.
 
(o poeta é um fingidor. finge tão completamente…)
 
matéria da poesia: palavra.
 
assim sendo: penetrar surdamente no reino das palavras. nesse reino estão os poemas que esperam ser escritos. estão quietos, paralisados, mudos: em estado de dicionário.
 
chegar perto, bem perto, mais perto, e contemplar as palavras. cada uma tem mil faces secretas sob a feca neutra, sob a face impassível, e cada palavra, sem interesse por qualquer resposta que lhe chegue, indaga (a quem a aprecia): “trouxe a chave?”
 
a fim de acessá-las, penetrá-las, abri-las às tantas possibilidades & alternativas que abrigam, ter, sempre em mãos, a chave adequada para cada uma delas. (atenção redobrada.)
 
as palavras não nos têm zelo. somos nós quem zelamos por elas. necessitamos procurá-las, catá-las, achá-las, apreendê-las, compreendê-las, retê-las. elas, em estado de dicionário, paradas, estáticas, destilam, com sua imobilidade, o seu mais genuíno desprezo.
 
(palavra: o meu vício maior.
palavra: a razão do ser da poesia.)
 
um beijo afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________________________________ 
 
(do livro: Antologia Poética. autor & organizador: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
PROCURA DA POESIA
 
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efu-
                                                                                                             [são lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
 
Não cantes tua cidade, deixe-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
                                                                                                               [casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto
                                                                                            [à linha de espuma.
 
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
 
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas muzarcas e abusões, vossos esqueletos de família
desapareceram na curva do tempo, é algo imprestável.
 
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
 
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
 
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
 
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.