AS GRANDEZAS DO ÍNFIMO
21 de maio de 2010

senhores,
 
eis, aqui, parte de um tratado geral das grandezas do ínfimo (do desimportante, do quase nada), formulado por um poeta.
 
diz-se que há, na cabeça dos poetas, um parafuso a menos.
 
o mais justo, no entanto, seria dizer que o poeta tem um parafuso trocado ao invés de um a menos.
 
a troca de parafusos provoca nos poetas uma certa “disfunção lírica”.
 
“disfunção lírica”: mais do que o mau funcionamento, mais do que o distúrbio, a disfunção é a função desobrigada de função. é a função inútil, que serve para: nada.
 
a partir da “disfunção lírica” o poeta elege as suas importâncias (alguém saberia medir a importância das coisas?): as importâncias do manoel: o que está nos chãos, nas frestas, nos musgos, nos barros: as grandezas do ínfimo.
 
entre elas:
 
o cisco, que, segundo o dicionário houaiss, pode significar: 1) pó ou miudezas do carvão. 2) lixo. 3) material sólido e heterogêneo (gravetos, ramos, algas etc.) trazido pelas enxurradas. 4) designação comum às aparas miúdas (…).
 
os passarinhos e tudo o que é necessário para compor um tratado sobre eles.
 
(essas disfunções líricas acabam por dar mais importância aos passarinhos do que aos senadores.)
 
a poesia, guardada nas palavras (é tudo o que sabe o poeta).
 
(poesia é uma graça verbal.)
 
o retorno à infância, que traz ao ser a sua ascensão. (é quando se vê como o adulto é sensato!)
 
as coisas inúteis (que garantem a soberania do Ser). 
 
dedico este apanhado poético a dois irmãos, dois anjos, amigos a quem recorro, com quem choro, e que admiro: césar guerra chevrand & flávio chedid
 
na noite da quarta-feira passada (19/05), reunimo-nos os três na casa do flavinho (onde derrubamos uma garrafa de jack daniel’s – rs) para um dos tantos encontros já ocorridos, encontros para colocarmos os nossos assuntos & interesses em dia.
 
e, como sempre, foi MARAVILHOSO.
 
flavinho, como eu, possui o livro de onde saltaram os poemas. li, durante o encontro, boa parte dos textos que seguem.
 
meninos (flavinho & césar): obrigadíssimo. por tudo. como lhes disse na quarta, e que fique registrado: vocês são peças-chaves, fundamentais na minha existência.
 
(que bom!)
 
beijo nos dois!
o preto de vocês.
 
outro nos senhores!
paulo sabino / paulinho.  
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(do livro: Poesia Completa. autor: Manoel de Barros. editora: Leya / Texto Editores.)
 
 
A DISFUNÇÃO
 
Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1– Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 — Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 — Percepção de contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 — Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 — Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 — Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 — Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.
 
 
DE PASSARINHOS
 
Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser
eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.
 
 
TRIBUTO A J. G. ROSA
 
Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J. G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal.
 
 
O CISCO
 
(Tem vez que a natureza ataca o cisco para o bem.)
Principais elementos do cisco são: gravetos, areia,
cabelos, pregos, trapos, ramos secos, asas de mosca,
grampos, cuspe de aves, etc.
Há outros componentes do cisco, porém de menos
importância.
Depois de completo, o cisco se ajunta, com certa
humildade, em beiras de ralos, em raiz de parede,
Ou, depois das enxurradas, em alguma depressão de
terreno.
Mesmo bem rejuntado o cisco produz volumes quase
sempre modestos.
O cisco é infenso a fulgurâncias.
Depois de assentado em lugar próprio, o cisco
produz material de construção para ninhos de
passarinhos.
Ali os pássaros vão buscar raminhos secos, trapos,
asas de mosca
Para a feitura de seus ninhos.
O cisco há de ser sempre aglomerado que se iguala
a restos.
Que se iguala a restos a fim de obter a contemplação
dos poetas.
Aliás, Lacan entregava aos poetas a tarefa de
contemplação dos restos.
E Barthes completava: Contemplar os restos é
narcisismo.
Ai de nós!
Porque Narciso é a pátria dos poetas.
Um dia pode ser que o lírio nascido nos monturos
empreste qualidade de beleza ao cisco.
Tudo pode ser.
Até sei de pessoas que propendem a cisco mais do
que a seres humanos.
 
 
INFANTIL
 
O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do
menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que
o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.
 
 
ASCENSÃO
 
Depois que iniciei minha ascensão para a infância,
Foi que vi como o adulto é sensato!
Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?
Como não furar lona de circo para ver os palhaços?
Como não ascender ainda mais até na ausência da voz?
(Ausência da voz é infantia, com t, em latim.)
Pois como não ascender até a ausência da voz —
Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo —
ainda sem movimento.
Aonde a gente pode enxergar o feto dos nomes —
ainda sem penugens.
Por que não voltar a apalpar as primeiras formas da
pedra. A escutar
Os primeiros pios dos pássaros. A ver
As primeiras cores do amanhecer.
Como não voltar para onde a invenção está virgem?
Por que não ascender de volta para o tartamudo!
 
 
POEMA
 
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
 
 
SOBRE IMPORTÂNCIAS
 
Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.
 
 
O CATADOR
 
Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais — o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

INICIAL
21 de dezembro de 2009

pessoas,
 
este poema lhes segue como um presente que, primeiramente, me foi dado pelo meu grande amigo de fé, meu irmão camarada (rs), césar guerra chevrand.
 
ele me escreveu que gostaria de compartilhar as linhas abaixo comigo. porém, tão lindas, tão significativas, e vindas de quem vem, que não resisti em dividi-las com vocês, apreciadores de poesia.
 
na obra da poeta sophia de mello breyner andresen, o mar possui lugar cativo. quem conhece a escritora portuguesa, bem sabe da sua adoração por águas marinhas.
 
césar, my lovely boy, muitíssimo obrigado pelo presente! as linhas eu já conhecia, mas tudo o que é bom faz bem re–conhecer, reler, reaver, re–ter. e vindo de quem vem (rs)… beijo enorme em você!
 
um outro bom em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(foto: césar guerra chevrand)

MEU PAI, COMO VAI?…
1 de dezembro de 2009

benvindos,
 
como vem ocorrendo há alguns anos, nesta data querida me surge sempre alguma canção ou poesia.
 
hoje, primeiro de dezembro, meu pai, se estivesse vivo, completaria 67 aninhos de pura travessura (rs).
 
ele, um homem divertido, muito bem-humorado, carinhoso por demais. tanto é, que a maneira minha de externar carinho, demonstrar afeto, é através de abraço e beijo. na minha casa, na casa onde fui criado, abraço e beijo eram artigos do dia-a-dia, artigos de luxo e, por isso mesmo, artigos deveras disponibilizados, utilizados como garfo e faca à hora das refeições.
 
tenho absoluta certeza de que muito da minha vontade de boa vida a todos se deve ao jeito, à postura dos meus pais ante a vida.
 
e graças ao caminho, à vida, à trilha, encontro nas esquinas do destino grandes homens, homens capazes, como meu pai, de me proteger, de me confortar, de me compreender.
 
homens que beijo como se meu pai. (beijo homens, muitos, mas poucos como meu pai.) isso é um status de totais confiança e credibilidade na minha existência.
 
pensando nos versos que seguem, dois GRANDES homens, amigos, irmãos, me surgiram de pronto; são eles: athos luiz e césar guerra chevrand. a esses dois homens devo tanto tanto tanto… 
 
lembro-me de um episódio muito marcante: meu pai acabara de morrer e eu estava naquele momento de transformar as dores e a saudade aflita. numa manhã em que sonhara com ele, acordara muito angustiado, melancólico, bem entristecido. uma sensação de desamparo, abandono, me invadiu de maneira tão contundente, que, naquele instante, fora como se eu não tivesse, depois da perda, com quem contar no mundo, como se não houvesse a quem recorrer. claro que era um exagero dos sentimentos, mas a perda de referência tão significativa e forte gera esse tipo de confusão sentimental. parado no corredor do apartamento, minha mãe ausente (de casa), a sensação desconfortável, doída, e o desejo de alcançar abrigo longe dali. intuitivamente, sem racionalizar, pegara o telefone e ligara automaticamente para o césar. ao ouvir sua voz, doce, serena, sempre me dizendo as coisas mais apropriadas, mais afins, fora envolvido por um sentimento tamanho de conforto e esteio, que só fizera chorar por muito tempo. nem sei quanto. chorei, chorei, chorei & chorei. ele, césar chevrand, ali, apenas me ouvindo e já me amparando com as palavras que pausadamente depositava em meus ouvidos. depois de um bom tempo, o sorriso, na voz e na alma, solapava toda tristeza. césar, que é de guerra, me fizera vencer a batalha.
 
athos luiz, esse negro gato de arrepiar (rs), é sempre capaz de dizer as coisas mais acertadas — aos meus olhos —, e as nossas afinidades e concordâncias e constatações e avaliações e lições apreendidas só me fazem crer que esse tipo de relação formula um refúgio, um abrigo, uma espécie de amizade residencial (rs). athos está, a todo momento, dizendo-me coisas surpreendentemente acertivas, justas, coisas bonitas, lúcidas. e me ensina, demais!!, com as suas posturas frente aos acontecimentos. talvez ele seja a pessoa mais bem resolvida que conheço, pessoa que mergulha fundo em si. nesse homem tudo é impressionantemente bonito: corpo & alma, cabelo & sorriso, gesto & voz, abraço & palavras.
 
ao pensar nestas linhas, eles vingaram no pensamento de modo exuberante (os dois, como eu, são apaixonados por este poema-canção).
 
minha mãe, espírita, praticante do kardecismo, crente na vida após a morte, diga ao meu pai que está tudo bem, diga a ele que eu, quando beijo um amigo, estou certo de ser alguém como ele é: alguém com sua força, com seu carinho, com olhos e coração bem abertos: alguém como césar guerra chevrand: alguém como athos luiz.
 
um brinde a paulo sabino! a ele, a minha luz primeva!
 
beijo grande em todos!
o junior do papai (rs).   
___________________________
 
(do livro: Gilberto Gil — todas as letras. organização: Carlos Rennó. editora: Companhia das Letras.)
 
PAI E MÃE
 
Eu passei muito tempo
Aprendendo a beijar
Outros homens
Como beijo o meu pai
Eu passei muito tempo
Pra saber que a mulher
Que eu amei
Que amo
Que amarei
Será sempre a mulher
Como é minha mãe
 
Como é, minha mãe?
Como vão seus temores?
Meu pai, como vai?
Diga a ele que não
Se aborreça comigo
Quando me vir beijar
Outro homem qualquer           
Diga a ele que eu
Quando beijo um amigo
Estou certo de ser
Alguém como ele é
Alguém com sua força
Pra me proteger
Alguém com seu carinho
Pra me confortar
Alguém com olhos
E coração bem abertos
Pra me compreender