OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (3ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA
1 de março de 2016

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(Casa lotada na 3ª edição deste projeto)

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(Os participantes desta 3ª edição do projeto: Vitor Thiré, Luiza Maldonado, Danilo Caymmi, Paulo Sabino, Geraldo Carneiro, Camilla Amado, Maria Padilha, Alice Caymmi, Luana Vieira, Bruce Gomlevsky & Tonico Pereira)

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(Paulo Sabino: lendo poemas & o “MC” — Mestre de Cerimônias — da noite)

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(O ator & diretor Bruce Gomlevsky)

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(A atriz Camilla Amado & o homenageado da noite, Geraldo Carneiro)

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(O ator Vitor Thiré & a atriz Luiza Maldonado em trecho de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, tradução de Geraldo Carneiro)

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(Danilo & Alice Caymmi em dueto de canção nascida da parceria entre Danilo Caymmi & Geraldo Carneiro)

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(A atriz Maria Padilha interpretando sonetos de Shakespeare na tradução de Geraldo Carneiro)

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(O mestre Tonico Pereira & a atriz Luana Vieira na encenação do poema épico “Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro”, recém-lançado em livro por Geraldo Carneiro)

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(Com os grandes & queridos Tonico Pereira & Maria Padilha)

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(Com os diretores artísticos da noite: Bruce Gomlevsky & Geraldo Carneiro)

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(Com o grande homenageado da noite, o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro)

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(Ao final de tudo, no camarim, Fernandinha Oliveira & Adil Tiscatti, os administradores do teatro Cândido Mendes, e nossos amigos que ajudaram a lotar a sala nesta 3ª edição)
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“Querido Paulo,

Foi uma noite adorável.

Agradeço a você, pela delicadeza, pela compreensão da poesia, pela pluri-competência.

Saiba que você ganhou pelo menos um amigo, talvez muitos outros.

Espero que tenhamos outras oportunidades de saborear noites tão felizes.

Obrigado por tudo e grande abraço,
Geraldo”.

(Geraldo Carneiro)

 

“Foi lindo Paulo Sabino…Tonico Pereira e Geraldinho mais que brilharam… a jovem que contracenou com Tonico também esteve maravilhosa… parabéns para todos pq tudo estava perfeito.

Ah, me esqueci do Danilo… ele é realmente o máximo.”

(Guilherme Zarvos — poeta & fundador do CEP 20.000)

 

“UMA POESIA ENCANTANTE

poesia culta perfumada por tiradas de amor & humor. bem colocada como uma flor na primavera: lírica & prosaica. poesia que surpreende como um drible de Garrincha. nem moderna nem pós: poesia sem nós pra nós que nos faz vestir cada palavra dita e nos impulsiona ao aplauso e ao bem-estar da surpresa inebriante que só a boa poesia causa. poesia charmosa e manhosa de Geraldo Carneiro.

o teatro Cândido Mendes se encheu de gente para o recital ‘Ocupação Póetica’, um sarau organizado por Paulo Sabino, que ganhou um novo e surpreendente formato com vários convidados interpretando poemas do homenageado. seu estilo saboreado em várias e diferentes vozes. entre os convidados, as atrizes Maria Padilha, o cantor Danilo Caymmi e sua filha Alice Caymmi, além do fantástico ator Tonico Pereira que, só de cuecão vermelho, interpretou um texto bufo macunaímico do poeta intitulado ‘Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro’.

uma noite onde a deusa Poesia ganhou um novo status e falou mais alto.

tiramos o chapéu.”

(Luis Turiba — poeta & fundador da revista BRIC-A-BRAC)

 

 

 

Queridos,

Nem sei como iniciar… talvez eu só tenha mesmo que agradecer, agradecer, agradecer & agradecer imensamente, tudo o que a Poesia, minha Musa Eterna, minha Amante Maior, tem trazido à minha vida.

A 3ª edição do projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), como eu pressentia, foi linda, esplendorosa, um desbunde!

Como é de costume quando vivo intensamente um momento regado a rimas & versos, no dia seguinte ao evento eu era — e ainda sou! — o puro sumo do amor, no dia seguinte ao evento eu era — e ainda sou! — amor da cabeça aos pés!

Casa lotada, público quente, participantes pra lá de talentosos & especiais, comemorando os 40 anos de produção literária do grande poeta, tradutor & dramaturgo — hoje também um grande & querido amigo meu — Geraldo Carneiro!

Eu só sei de uma coisa: quanto mais melhor! A idéia é de que a “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), aconteça bimestralmente!

Fernandinha Oliveira, Adil Tiscatti, Rafael Roesler Millon, Geraldinho Carneiro, Bruce Gomlevsky, Tonico Pereira, Vitor Thiré, Maria Padilha, Camilla Amado, Luiza Maldonado, Luana Vieira, Danilo & Alice Caymmi, amigos que foram assistir, público de modo geral, obrigadíssimo por tudo, por toda a beleza que ficou impressa na minha memória & no meu coração.

Temos vídeos das apresentações! Irei, com mais calma & tempo, disponibilizando aos interessados.

Aqui, o vídeo & o poema de abertura desta 3ª edição do projeto & mais um outro poema, que complementa o lido por mim.

Viva a Poesia! Viva a “Ocupação Poética”! Vida longa ao projeto!

Valeu!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [3ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 24/02/2016. Abertura desta ediçãoPaulo Sabino recita Madrigal triste, poema de Geraldo Carneiro.)

 

MADRIGAL TRISTE  (Geraldo Carneiro)

eu sou como o rei de um país ensolarado
e todos os vadios me devem vassalagem
assim como as mariposas, as sereias
& os moluscos da beira-mar
aos 25 anos decaptei
o busto de meu avô ex-monarca
e inaugurei uma nova ordem natural
aboli por decreto a realidade
e abdiquei também de certas pompas

a preguiça infame
jamais me permitiu demarcar
os limites de meu reino
digamos então que confino
a Leste com o Oceano Atlântico
ao Sul com o Paraíso
a Oeste com as ficções selvagens
de José de Alencar
e ao Norte com minha morte

tudo isso não me basta
(ai de mim) queria mesmo era colher
o grito pleno da tua alma cheia de tormentos

(maiores informações em Madrigal Triste,
de Charles Baudelaire)
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(do livro: Poesia e prosa — volume único. autor: Charles Baudelaire. poema extraído originalmente do livro: As flores do mal. tradução de “As flores do mal”: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)

 

 

MADRIGAL TRISTE

 

1

Que me importa que saibas tanto?
Sê bela e taciturna! As dores
À face emprestam certo encanto,
Como à campina o rio em pranto;
A tempestade apraz às flores.

Eu te amo mais quando a alegria
Te foge ao rosto acabrunhado;
Quando a alma tens em agonia,
Quando o presente em ti desafia
A hedionda nuvem do passado.

Eu te amo quando em teu olhar
O pranto escorre como sangue;
Ou quando, a mão a te embalar,
A tua angústia ouço aflorar
Como um espasmo quase exangue.

Aspiro, volúpia divina,
Hino profundo e delicioso!
A dor que o teu seio lancina
E que, quando o olhar te ilumina,
Teu coração enche de gozo!

2

Sei que o teu peito, que palpita
À sombra de amores passados,
Qual uma forja ainda crepita,
E que a garganta enfim te habita
Algo do orgulho dos danados;

Mas enquanto, amor, no que sonhas
Do Inferno a imagem não for dada,
E dessas visões tão medonhas,
Em meio a gládios e peçonhas,
De pólvora e ferro animada,

Sempre de todos te escondendo,
Denunciando em tudo a desgraça
E à hora fatal estremecendo,
Não houveres sentido o horrendo
Aperto do asco que te abraça,

Não poderás, rainha e escrava,
Que apenas me amas com pavor,
Nos abismos que a noite escava,
Dizer-me, a voz trêmula e cava:
“Sou tua igual, ó meu Senhor!”

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MAS NÃO É SÓ ISSO APENAS
3 de setembro de 2014

Poesia_Aperte Play

Cadernos_Paulo Sabino__________________________________________________________________

o poeta & a sua obstinada busca em realizar, a cada feito, o melhor poema:

a construção se faz pouco a pouco. o esqueleto estético (o esboço do que se pretende um poema) segue o seu trajeto de sol, segue o seu trajeto em busca de luminosidade, de claridade, para ter algum norte, para ganhar o seu rumo de ritmo & sentidos: cimento, tijolos sobre tijolos, e a obra — o poema — projeta-se em seu propósito, evitando a lógica, o óbvio. afinal, a poesia trabalha com o deslocamento da linguagem no seu mais alto grau de perplexidade. a poesia, trabalhando com o deslocamento da linguagem no seu mais alto grau de perplexidade, quer comunicar mas sem facilitar para o leitor. os jogos de linguagem criados nem sempre são palatáveis à gula do entendimento nosso à primeira vista. em muitos casos, o poema solicita diversas visitações, o poema reclama um número incontável de leituras, a fim de uma apreensão mais abrangente do que comunicam os versos.

metáfora por metáfora, metro ante metro (metro: além de unidade de medida de comprimento internacional, é também a medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso, o que garante a forma rítmica de uma obra poética), o ritmo imprevisível dos versos dá-se, assim, por descoberto: eis, finalmente, o poema aprontado pelo poeta.

o prédio de sons & signos — no caso, a construção em versos: o poema — traspassa o indizível, o prédio de sons & signos atravessa o que não é dito, pois tudo que compõe o poema (seus jogos lingüísticos, o prédio de sons & signos) vingará depois que ele for dado à expectativa dos leitores & dos críticos (tudo que se tem a saber de um poema encontra-se apenas no poema, na sua arquitetura de versos & palavras & idéias criadas entre versos & palavras, que leitores & críticos se esforçam para entender, para desvendar, para revelar).

no processo em que se atiram leitores & críticos (o de entender, o de desvendar, o de revelar, a arquitetura de versos & palavras & idéias criadas entre versos & palavras), certo é pintar o edifício — o prédio de sons & signos — com as cores do raciocínio, certo é colorir o edifício — o prédio de sons & signos — com as cores da razão crítica, que é o que nos capacita à atividade de examinar & avaliar minuciosamente uma produção artística, literária ou científica.

a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — aberta, a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — à vista do que pode a prosa, a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — à vista do que pode a arte de desvendar o poema (trabalho que realizo neste espaço): mas não é só isso apenas: a minha voz, a voz de paulo sabino, uma das tantas vozes que se empenham na arte de desvendar poemas, a voz de paulo sabino, que, segundo o poeta, mistério de haver mistério, voz que ao poeta parece misteriosa pelo que diz & cala, a voz de paulo sabino, vinda de anotações dos tantos cadernos de rabisco em que trama as linhas que dão forma aos textos de apresentação aqui dispostos, a voz de paulo sabino, que, ao poeta, é o esforço nítido para divulgar o cosmo imperecível, que vai de cicero a safo, de bandeira a baudelaire.

a voz de paulo sabino: o esforço nítido para divulgar o cosmo imperecível, que vai de cicero a safo, de bandeira a baudelaire: o cosmo imperecível: o universo criado pelas mãos sofisticadas da poesia, universo que nunca morrerá, uni/verso que resiste em versos, inabalável, universo que resiste às intempéries da vida moderna (apressada, superficial, desatenta).

(e, sem dúvida, sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.)

segundo o poeta, a casa, construída por paulo sabino através das suas interpretações textuais acerca dos edifícios de sons & signos que são os poemas, se monta, a casa — construída por paulo sabino — se põe pronta, de pé, e nada parece faltar à peça.

para o poeta, à casa construída & montada por paulo sabino, paralela ao edifício de sons & signos que são os poemas, nada parece faltar, tudo cabe: o ethos (palavra grega que significa, entre outras coisas, o conjunto de valores característicos de um movimento cultural ou de uma obra de arte), o pathos (palavra grega que significa, entre outras coisas, paixão, sentimento excedido), o moto-contínuo (movimento de um mecanismo que, após iniciado, continuaria indefinidamente, gerando, através do gasto de energia, mais energia para o seu funcionamento): o ethos (os valores característicos do poema), o pathos (o sentimento profundo que o poema abarca), o moto-contínuo (o trabalho incessante, ininterrupto, de interpretação do poema): para o poeta, na casa construída & montada por paulo sabino, nada parece faltar; tudo cabe nas interpretações textuais de paulo sabino.

depois das verificações todas, a respeito do trabalho poético & do trabalho de interpretação de um poema, o olhar do poeta se dispersa.

a criação — o poema — se fez pouso, a criação se fez edifício de sons & signos (cujos ambientes procuro habitar, todos de uma vez), e, ao mesmo tempo, a criação — o poema — se fez ponte (construção lingüística que estabelece comunicação com o seu leitor).

o arcabouço estético (o esboço do que se pretende um poema), projetado pelo poeta, chega ao seu percurso de sonho para virar ode (notem a rima que o poeta cria nos dois últimos versos do poema), para virar poema lírico de versos de mesma medida, ode dedicada a paulo sabino, seu companheiro-amigo de jornada poética.

mas não é só isso apenas: o poema projetado pelo poeta é, de fato, uma ode, é, de fato, um poema lírico de versos de mesma medida: tratam-se de redondilhas maiores (os versos possuem todos 7 sílabas, a começar pelo título do poema).

sofisticação pura.

ao poeta, o meu mais sincero & feliz agradecimento por este “presente” poema!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Quefaçocomoquenãofaço. de: Adriano Nunes. autor: Adriano Nunes.)

 

 

MAS NÃO É SÓ ISSO APENAS

 

A construção se faz pouco
A pouco. O esqueleto estético
Segue o seu trajeto de
Sol para ter algum norte —

Cimento, tijolos sobre
Tijolos e logo a obra
Projeta-se em seu propósito,
E evita a lógica, o óbvio.

Metáfora por metáfora,
Metro ante metro, o ritmo
Imprevisível dos versos
Dá-se assim por descoberto.

O prédio de sons e signos
Traspassa o indizível, pois
Tudo vingará depois
Que for dado à expectativa

Dos leitores e dos críticos —
Certo é pintar o edifício
Co’as cores do raciocínio.
A fachada aberta à vista

Do que pode a prosa, a arte
De desvendar o poema —
Mas não é só isso apenas:
A voz de Paulo Sabino,

Mistério de haver mistério,
Anotações no caderno
De rabisco, o esforço nítido
Para divulgar o cosmo

Imperecível que vai
De Cicero a Safo, até
De Bandeira a Baudelaire.
Palavra sobre palavra,

A casa se monta e nada
Parece faltar à peça.
O ethos, o pathos, o moto-
Contínuo, e o olhar se dispersa.

A criação se fez pouso
E ponte. O arcabouço estético
Chega ao seu percurso de
Sonho para virar ode.

AVISO AOS NAVEGANTES — VIAGEM
17 de junho de 2012

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prezados,

18 de junho (segunda-feira), pela manhã, embarco para uma viagem de duas semanas com grandes & queridos amigos, onde comemorarei as minhas 36 primaveras a serem vencidas no dia 24 de junho, domingo próximo.

para a viagem não levarei computador, de modo que o meu acesso à máquina, durante esse período, será restrito. pode ser que não consiga publicar coisa alguma nestas duas semanas de viagem. levarei pelo menos 2 livros & penso em aproveitar parte do tempo para preparar, ao menos, uma publicação para o “prosa em poema”.

retorno ao rio de janeiro no dia 2 de julho, e, com o retorno, à regularidade de, no mínimo, uma publicação semanal.

aproveito o aviso para deixar-lhes uma bela prosa poética, prosa que realça o encanto de estâncias onde se avistam todos os movimentos dos que partem & dos que voltam, dos que ainda têm a  força de querer, dos que ainda têm o desejo de viagens ou de riquezas.

as minhas riquezas: sempre ligadas ao bem-estar do ser.

e comigo sempre esta certeza: as viagens são os viajantes.

beijo todos!

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(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. editora: Nova Aguilar.)

XLI

O PORTO

 

 

O PORTO é uma estância encantadora para a alma fatigada pelas lutas da vida. A amplitude do céu, a movediça arquitetura das nuvens, as colorações cambiantes do mar, a cintilação dos faróis, constituem um prisma singularmente adequado a recrear os olhos sem nunca os entediar. As formas esbeltas dos navios, de complicadas enxárcias, aos quais o marulho imprime oscilações harmoniosas, servem para entreter na alma o gosto do ritmo e da beleza. E, sobretudo, há uma espécie de prazer misterioso e aristocrático, para aquele a quem já não resta curiosidade nem ambição, em contemplar, esquecidamente, deitado no miradouro ou debruçado no quebra-mar, todos os movimentos dos que partem e dos que voltam, dos que ainda têm a força de querer, o desejo de viagens ou de riquezas.

OS BENEFÍCIOS DA LUA
26 de abril de 2011

fotógrafo profissional e jornalista científico, o francês laurent laveder criou a série intitulada “moon games”, composta por imagens diversas de pessoas que interagem com a lua. nas fotos, faz parecer que o satélite está ao alcance das mãos. eis, aqui, algumas delas. para aumentar o tamanho, basta clicar em cima do que se deseja ampliar.
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a lua é a imagem do capricho.

ser a imagem do capricho é ser a imagem do esmero, é ser a imagem do cuidado extremo, da dedicação aplicada, da devoção, do empenho em fazer bem feito.

e, a lua, segundo contam, elege as crianças que lhe agradam a fim de que elas sofram, sempre, a influência do seu beijo, a fim de que elas sofram, sempre, com a lufada do seu perfume-luz.

para tanto, a lua desce maciamente a sua escada de nuvens, desliza, sem ruído, através das vidraças, e pousa sobre as crianças escolhidas, com um suave carinho de mãe, as suas cores.

assim, as crianças pela lua preferidas estão fadadas a viverem sob sua influência, amando o que a lua ama e o que a ama:

a água, as nuvens, o silêncio & a noite; o mar imenso & verde; as flores noturnas, monstruosas, que sugerem incensórios (que são recipientes em cujo interior se queima incenso) de alguma religião ignota, isto é, de alguma religião desconhecida, com seus perfumes que turbam, ou seja, com seus perfumes que perturbam os sentidos.

e também a criança eleita pela lua, ao crescer & se transformar em mulher, será amada pelos seus amantes, a criança eleita pelo corpo celeste, ao se tornar uma mulher, será desejada, será cortejada, pelos seus cortejadores, que procurarão, na mulher encantada de lua, o reflexo da terrível divindade.

os amantes  do corpo celeste  buscarão, na mulher enluarada, o reflexo da fatídica madrinha, o reflexo da ama-de-leite (ama-de-leite: aquela que alimenta, que supre a fome de criança alheia), que possui o seu alimento envenenado. e é justamente por causa do veneno contido no leite lunar que são marcados os seus eleitos, que são marcados os seus escolhidos, os seus amantes, amantes que se transformam em lunáticos, isto é, em fanáticos pela lua, ou seja, em amantes vidrados na sua imagem.

a lua: fatídica madrinha, envenenadora de todos os lunáticos.

(creio que o fotojornalista francês laurent lavader, conterrâneo do poeta que escreve as linhas a seguir, seja um dos eleitos pela lua, isto é, um lunático.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. editora: Nova Aguilar.)

 

OS BENEFÍCIOS DA LUA

A LUA, que é a própria imagem do capricho, olhou pela janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo mesma: — “Esta criança me agrada.”

E desceu  maciamente a sua escada de nuvens, e deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sobre ti com um suave carinho de mãe, e depôs as suas cores em tuas faces. Então, tuas pupilas se fizeram verdes, e tuas faces extraordinariamente pálidas. Foi contemplando essa  visitante que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste, para sempre, com vontade de chorar.

Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua invadia todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda esta luz viva pensava e dizia:

— Tu sofrerás para sempre a influência do meu beijo. Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estiveres; o amante que não conheceres; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desfalecem sobre os pianos e gemem como as mulheres, numa voz doce e enrouquecida!

“E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos verdes a quem também estreitei a garganta em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da sua loucura.”

E é por isso, maldita e querida criança mimada, que estou agora prosternado a teus pés, buscando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha, da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos.

EMBRIAGAR-SE EM PROJETOS & JANELAS
5 de outubro de 2010

é preciso estar atento & forte.
 
é necessário estar sempre bêbedo. para não sentirmos o fardo do tempo, que nos abate e que nos faz pender à terra, é preciso embriagarmo-nos sem cessar.
 
mas… embriagarmo-nos de quê?
 
a resposta: de vinho, de poesia ou de virtude, como acharmos melhor. contanto que nos embriaguemos.
 
e quando sentirmos a embriaguez já atenuada ou desaparecida, é tempo, é hora, é momento, de mais embriaguez.
 
embriagar-se sem trégua: de vinho, de poesia ou de virtude, como acharmos melhor.
 
embriagados, a consciência torna-se mais apta a devaneios, a sonhos, a: projetos.
 
sonhar, almejar, devanear, fantasiar, projetar.
 
projetos & mais projetos a fim de que a alma, célere, viaje. e não se preocupar com a execução destes. afinal, para quê? de que serve realizar (determinados) projetos, se o projeto, em si mesmo, é um gozo suficiente?
 
sonhar, fantasiar, projetar, devanear, também às janelas fechadas por que passar. nada de mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela fechada & iluminada.
 
(naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.)
 
depois, ao chegar em casa, deitar-se orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.
 
viver os nossos projetos, viver, diariamente, as nossas fantasias quotidianas.
 
ademais, que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se os projetos, se as fantasias quotidianas, me ajudam a viver, me auxiliam a sentir que sou, e o que sou?
 
embriaguem-se e permitam-se aos projetos ante uma janela encerrada ou aberta à luz das coisas! 
 
beijo afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(textos originalmente lançados após a morte do autor, em 1869, com o título “pequenos poemas em prosa”.) 
 
(do livro: Poesia e prosa — volume único. organização: Ivo Barroso. tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. editora: Nova Aguilar.)  
 
 
EMBRIAGAI-VOS
 
É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
 
Mas — de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
 
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
 
— É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
 
 
OS PROJETOS
 
Ele dizia de si para si, passando num grande parque solitário: — “Que linda seria ela num traje cortesão, complicado e faustuoso, descendo, mergulhada na atmosfera de um belo entardecer, os degraus de mármore de um palácio, diante dos grandes revaldos e dos tanques! Pois ela possui, de nascimento, o ar de uma princesa.”
 
Mais tarde, passando por uma rua, parou ante uma loja de gravuras, e, encontrando num cartão a estampa de uma paisagem tropical, pensou: — “Não! não é num palácio que eu gostaria de desfrutar de sua cara vida. Nele, não estaríamos em nossa casa. Além disso, aquelas paredes crivadas de ouro não deixariam lugar para dependurar a sua imagem; naquelas galerias solenes não há recanto para a intimidade. Decididamente, é que seria bom morar para cultivar o sonho da minha vida.”
 
E, sempre a analisar com os olhos os pormenores da gravura, continuava mentalmente: — “À beira-mar, uma bela casa de madeira, envolvida por todas essas árvores estranhas e luzidias cujos nomes esqueci… na atmosfera, um odor inebriante, indefinível… na casa, um poderoso perfume de rosa e de almíscar… além, por trás do nosso pequeno domínio, topos de mastros balançados pelo marulho… em torno de nós, para além de um quarto banhado de uma luz rósea tamisada pelos estores, decorado de frescas esteiras e de flores capitosas, com raros assentos de um rococó português, de madeira pesada e tenebrosa (onde ela repousaria tão calma, tão bem abanada, fumando tabaco levemente opiáceo!), para além da varanda, a algazarra dos pássaros ébrios de luz, e a tagarelice das negrinhas… e, durante a noite, para servir de acompanhamento aos meus sonhos, o canto plangente das árvores de música, dos melancólicos filaus! Sim, é , verdadeiramente, o cenário que eu procurava. Para que palácios?”
 
E adiante, caminhando por uma longa alameda, avistou um albergue asseadinho, onde numa janela ataviada de cortinas de chita se debruçavam duas cabeças risonhas. E logo disse consigo: — “É preciso que o meu pensamento seja um grande vagabundo para ir buscar tão longe o que se acha tão perto de mim. O prazer e a felicidade estão no primeiro albergue que nos aparece, no albergue do acaso, tão fecundo em volúpias. Bom lume, faianças vistosas, ceia passável, vinho forte, e uma cama bem larga com lençóis meio grosseiros, mas frescos: que pode haver de melhor?”
 
E, reentrando sozinho em casa, a essa hora em que os conselhos da Sabedoria já não são abafados pelos zumbidos da vida exterior, disse ele entre si: — “Tive hoje, em sonho, três domicílios, onde encontrei igual prazer. Por que constranger o corpo a mudar de lugar, se a alma viaja tão célere? E de que serve executar projetos, se o projeto é em si mesmo um gozo suficiente?”
 
 
AS JANELAS
 
Aquele que olha, da rua, através de uma janela aberta, jamais vê tantas coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela iluminada por uma candeia. O que se pode ver ao sol nunca é tão interessante como o que acontece por trás de uma vidraça. Naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.
 
Para além das ondas de telhados, diviso uma mulher já madura, enrrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai de casa. Pela sua fisionomia, pelas suas vestes, por um gesto seu, por um quase-nada, reconstituí a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda, que por vezes conto a mim próprio, a chorar.
 
Se fosse um pobre velho, eu lhe haveria reconstituído a história com a mesma facilidade.
 
E vou-me deitar, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.
 
Agora, haveis de perguntar-me: — “Estás certo de que essa história seja a verdadeira?” Que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?

BÊNÇÃO
13 de abril de 2010

tudo o que é vida
me incita
— à sua luz,
pele pupila papila narina,
tudo se potencializa —.
a verdade destituída
de verdade:
no fundo, puro embate.
por isso assento,
vivo o meu alento
enquanto há tempo:
pois que tudo passa,
e, passando, de nada
me amassa a desgraça.
 
(aí está da vida a graça:
 as desditas
 aprimoram-me
 às conquistas.)
 
o que há para viver? turbilhão?
uma luz anêmica na escuridão?
a blusa com falta de botão?
 
mas a minha vida é isto!:
por maior, por mais robusto o quisto,
conduzo-me pelo que foi e é dito,
pondo mais peito no que me insisto.
sem mais história:
o lance é cravar a vitória
com ou sem gol.
assim eu vou.
 
(“Caminho”, Paulo Sabino)
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por maior, por mais robusto o quisto, ponho mais peito no que me insisto.
 
augusto de campos afirma, bonito, lúcido: perseguir implacavelmente a si próprio.
 
a bênção do poeta: por mais robusta, por mais bem nutrida, a incompreensão alheia — por maior que sejam o desgosto & a raiva da mãe, furiosa com o ofício do filho poeta & com as linhas desenhadas por ele, por maior o desprezo e a crueldade que lhe dispense a mulher, que lhe dispensem aqueles que o bardo deseja amar —, maior será, sempre: o brilho fulgurante de sua vidência, ofuscando o perfil das multidões furiosas.
 
pois o poeta sabe que a dor é nossa dádiva suprema. o poeta sabe que as penas se dão (irremediavelmente) através das vivências, das experiências, e que elas, as dores, arrancadas à matriz dos raios primitivos, nos acompanham desde tempos imemoriais, desde os primórdios dos tempos, e que hão de nos acompanhar mundo afora. 
 
dores: dádivas supremas. como viver sem elas?
 
o lance: administrá-las sem aprofundá-las, sem vivenciá-las em vales profundos, em covas & depressões & fossas difíceis de serem deixadas (pela altura, pelo tamanho que o buraco possa ter).
 
perserguir-se implacavelmente. 
 
(os desprazeres surgirão. mas que não sejam mais importantes que a luz da sua vidência, que a luz do que se deseja para si. nunca.)
 
(se grande o quisto, mais peito no que me insisto.)
 
fiquem com este poema que, para mim, é um dos mais belos do mundo.
 
beijo grande em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)
 
 
I
 
BÊNÇÃO
 
Quando, por uma lei das supremas potências,
O Poeta se apresenta à platéia entediada,
Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências,
Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:
 
“Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes,
Em vez de amamentar esse aleijão sem graça!
Maldita a noite dos prazeres mais ardentes
Em que meu ventre concebeu minha desgraça!
 
Pois que entre todas neste mundo fui eleita
Para ser o desgosto de meu triste esposo,
E ao fogo arremessar não posso, qual se deita
Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,
 
Eu farei recair teu ódio que me afronta
Sobre o instrumento vil de tuas maldições,
E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta,
Para que aí não vingue um só de seus botões!”
 
Ela rumina assim todo o ódio que a envenena,
E, por nada entender dos desígnios eternos,
Ela própria prepara ao fundo da Geena
A pira consagrada aos delitos maternos.
 
Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,
Inebria-se ao sol o infante deserdado,
E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante
Há um gosto de ambrosia e néctar encarnado.
 
Às nuvens ele fala, aos ventos desafia
E a via-sacra entre canções percorre em festa;
O Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave de floresta.
 
Os que ele quer amar o observam com receio,
Ou então, por desprezo à sua estranha paz,
Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,
E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.
 
Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços;
Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,
E se arrependem por lhe haver cruzado os passos.
 
Sua mulher nas praças perambula aos gritos:
“Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,
Farei tal qual os ídolos dos velhos ritos,
E assim, como eles, quero inteira redourar-me;
 
E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,
De nardo e mirra, de iguarias e licores,
Para saber se desse amante tão intenso
Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.
 
E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,
Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;
E minhas unhas, como as garras das Harpias,
Hão de abrir um caminho até seu coração.
 
Como ave tenra que estremece e que palpita,
Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração,
E, dando rédea à minha besta favorita,
Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!”
 
Ao Céu, de onde ele vê de um trono a incandescência,
O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas,
E o fulgurante brilho de sua vidência
Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:
 
“Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento,
Esse óleo puro que nos purga as imundícias
Como o melhor, o mais divino sacramento
E que prepara os fortes às santas delícias!
 
Eu sei que reservais um lugar para o Poeta
Nas radiantes fileiras das santas Legiões,
E que o convidareis à comunhão secreta
Dos tronos, das Virtudes, das Dominações.
 
Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema,
Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos,
E que, para talhar-me um místico diadema,
Forçoso é lhes impor os tempos e universos.
 
Mas nem as jóias que em Palmira reluziam,
As pérolas do mar, o mais raro diamante,
Engastados por vós, ofuscar poderiam
Este belo diadema etéreo e cintilante;
 
Pois que ela apenas será feita de luz pura,
Arrancada à matriz dos raios primitivos,
De que os olhos mortais, radiantes de ventura,
Nada mais são que espelhos turvos e cativos!”

AO LEITOR, ELEVAÇÃO: O ALBATROZ
12 de abril de 2010

 

É um desmascaro
Singelo grito:
“O rei está nu”
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
                                              [o rei é mais bonito nu
  
(“O Estrangeiro”, Caetano Veloso)

 
 
prezados,
 
ao ler o primeiro poema da seleção que segue, imediatamente me ocorrem os versos acima.
 
pois que tal poema (o primeiro da escolha) desmascara, desnuda, descobre, aquela faceta que não nos é muito agradável de enxergar. penso que indesejável, porém importante de ser vista. é bom, bacana, que tenhamos um reconhecimento mais abrangente do que somos, sem falsas máscaras para escamotear.
 
à época do lançamento do livro de onde saíram as linhas a seguir (frança, metade do século 19), uma ação judicial movida contra o autor em 1857 condenou-o à multa de 300 francos, seus editores à multa de 100 francos cada um e ordenou-lhe a retirada de seis poemas da edição publicada. acusação: delito de ultraje à moral pública pela obra, chamada “as flores do mal”.
 
o conteúdo foi considerado imoral, impróprio. 
 
no fundo, porque, como dizem as linhas de caetano veloso, o conteúdo: um desmascaro, singelo grito — “o rei está nu! o rei está nu! o rei está nu!”
 
o leitor:
 
um pecador, um errado, um tolo, um mesquinho, recorrente nas faltas, assim como o bardo, assim como eu, assim como todos: um hipócrita — meu igual, meu irmão —.
 
às vezes, pela qualidade que o poeta tem de enxergar “acima”, de avistar “por sobre”, tal qual o albatroz — ave-monarca do azul, príncipe das alturas —, o bardo pode ser abatido por uma turba obscura, por gente que deseja tirar-lhe o poder do vôo, impedindo que o poeta, exilado ao chão, caminhe, deixando-o desajeitado com suas asas de gigante, feitas para o ar, para o viajar.
 
entretanto, mais do que das dores, do que dos desgostos, do que das penas, precisamos de uma asa vigorosa que nos lance às várzeas claras & serenas. sempre.
 
feliz é aquele que ao pensar qual pássaro veloz, distende-se, liberto, de manhã, rumo aos céus, paira sobre a vida e, sem esforço, entende a linguagem da flor e das coisas sem voz.
 
feliz o que, apesar dos pesares, enxerga o entorno belo, a maravilha que são as criações da natureza, as criações artísticas, humanas.
 
ao leitor, o meu desejo: de elevação — tal & qual a de um albatroz —. 
 
(alcem vôo! e não tenham medo da altura alcançada.) 
 
beijo grande & afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho. 
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(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)
 
  
AO LEITOR
 
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
 
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
 
Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
 
É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno, caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
 
Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
 
Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
 
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
 
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
 
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
 
É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!
 
 
 
II
 
O ALBATROZ
 
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.
 
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.
 
Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
 
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
 
 
III
  
ELEVAÇÃO
 
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
 
Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.
 
Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.
 
Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;
 
Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!