AVISO AOS NAVEGANTES – RECESSO DE CARNAVAL
12 de fevereiro de 2010

senhores,
 
devido à folia momesca que invade o meu brasil varonil de norte a sul, este espaço entra em recesso até a quarta-feira de cinzas.
 
aproveitarei um tanto da festa já que, como bem escreveu marcelo camelo, todo carnaval tem seu fim.
 
e, pensando nesse fim, lembrei-me de um poema-canção que adoro, onde uma mulher desatina e desaceita o término da falsa vida da avenida, desatina e desaceita os despojos da fantasia.
 
deixo os versos aqui, à apreciação de todos.
 
beijo grande!
divirtam-se! (ou aproveitem para descansar!)
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Tantas Palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)
 
 
ELA DESATINOU
 
Ela desatinou
Viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira
Bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
 
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando
 
Ela não vê que toda gente
Já está sofrendo normalmente
Toda a cidade anda esquecida
Da falsa vida da avenida onde
 
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando
 
Quem não inveja a infeliz
Feliz no seu mundo de cetim
Assim debochando
Da dor, do pecado
Do tempo perdido
Do jogo acabado
 
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando

(A ARTE) POÉTICA: O POEMA
4 de janeiro de 2010

senhores e senhoras,
 
a poesia sempre me salva (e muito me encanta). e muito me encanta por uma série de razões. uma delas é o processo de construção de um poema e tudo o que envolve tal construção, isto é, a arte poética.
 
na edificação de um texto poético, o poeta atira-se no escuro, num caminho desconhecido & hostil, não sabendo onde as linhas desembocarão, não conhecendo a natureza da correnteza que as forma. (o surgimento, o aparecimento, saídas de regiões desconhecidas, de idéias-fantasmas que vão se desgarrando do ser do poeta, a fim de ganharem uma forma clara.)
 
e tudo, para que fique a contento, é matematicamente pensado, medido, dosado (como uma tocata de bach ou uma pincelada de cézanne): pois que os sentimentos se curvam, se sub–metem, à força do pensamento, do raciocínio, da psique. num poema, os sentimentos são organizados a partir dos senso e crivo críticos do poeta, que almeja o máximo de beleza para a sua obra.   
 
e uma beleza (a da poesia) que não a natural, que não a relativa à natureza, mas uma beleza (a do poema) arquitetada, ou seja, uma beleza construída por tijolos-palavras, como quando elaboram-se, de pátina & gesso & concreto, ornatos arquitetônicos com suas geometrias, suas exatidões — sejam rosáceas, arcadas ou pilastras —. é assim que dura e esplende uma catedral poética, feita de versos, erguida para muito além de quaisquer árvores. a adaga do pensamento, com seu gume afiado, trespassa, sem dó, a emoção.
 
chico buarque de hollanda, numa fala ou entrevista impressa — não me recordo bem —, diz que o escritor, compositor, poeta, deve conseguir um afastamento sentimental da sua obra para julgá-la merecedora ou não da exposição pública. antes, o rebento poético tem que passar pela aprovação do seu criador, que, anterior a tudo e qualquer coisa, deve ser um leitor interessado e atento ao que, de fato, o seduz e o cativa numa leitura.  
 
gosto de repetir esta sentença:
 
a poesia — a arte poética — me salva, me salvará, sempre!
 
(que assim seja.)
 
beijo bom em todos.
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia Reunida. autor: Ivan Junqueira. editora: A Girafa.)
 
POÉTICA
 
A arte é pura matemática
como de Bach uma tocata
ou de Cézanne a pincelada
exasperada, mas exata.
 
É mais do que isso: uma abstrata
cosmogonia de fantasmas
que de ti lentos se desgarram
em busca de uma forma clara,
 
da linha que lhes dê, no espaço,
a geometria das rosáceas,
a curva austera das arcadas
ou o rigor de uma pilastra;
 
enfim, nada que lembre as dádivas
da natureza, mas a pátina
em que, domada, a vida alastra
a luz e a cor da eternidade,
 
tal qual se vê nas cariátides
ou nas harpias de um bestiário,
onde a emoção sucumbe à adaga
do pensamento que a trespassa.
 
Despencam, secas, as grinaldas
que o tempo pendurou na escarpa.
Mas dura e esplende a catedral
que se ergue muito além das árvores.
 
 
O POEMA
 
Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?
 
Que será, se há lama
no que escreve a pena,
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?
 
Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que o algema?

ASSISTAM: “MARIA BETHÂNIA – MÚSICA É PERFUME”
28 de outubro de 2009

(texto de apresentação do documentário Maria Bethânia — Música é perfume, dirigido por Georges Gachot, lançado em dvd pelo selo Quitanda)
 
Tudo começou no Festival de Montreux, na Suíça, em 1996, quando o documentarista francês Georges Gachot foi a um show de Maria Bethânia pela primeira vez. A perplexidade diante do que viu, o “choque com a presença dela em cena, sua concentração incrível de emoção, seus pés nus”, segundo ele próprio, resultou na vontade imediata de fazer um documentário sobre a cantora. A imersão do cineasta num universo musical completamente desconhecido para ele, o de Bethânia, e por extensão o brasileiro, desaguou na sensibilidade crua de “Maria Bethânia — Música é perfume”.
 
Decidido a fazer o filme, Gachot gastou sete anos, de 1996 a 2003, num processo de pesquisa sobre a cantora e toda a história da música brasileira. “Música é perfume” é, antes de mais nada, uma análise do processo criativo de Bethânia na formação da música popular brasileira. Além da própria Bethânia, que conta curiosidades de família, há depoimentos do irmão Caetano, da mãe Dona Canô, dos amigos Chico Buarque, Nana Caymmi e Gilberto Gil, e também do fiel maestro Jaime Alem.
 
A voz de Bethânia é isso, é aquela que está presente em cada um de nós e, ao mesmo tempo, é a expressão humana e síntese de todo um país. “Música é perfume” capta a simbiose única entre uma voz e um país, até que não se saiba mais onde termina um e começa outro.
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assino embaixo do que foi escrito acima.
(fica a dica.)
 
beijo em todos,
paulo sabino / paulinho.

QUITANDA DO QUINTANA
28 de setembro de 2009

comensais,
 
as poesias que seguem são frutos de um poeta cuja obra transpira delicadeza, sensibilidade e sofisticação. as linhas são de um lirismo à flor da pele, à flor da sua pena, ágil e certeira, ao manejar tão precisamente as palavras para a configuração de imagens tão apetecíveis. 
 
desta quitanda, frutos da melhor qualidade postos a consumo d’alma. os olhos acesos ante a beleza e o sabor do poemalimento.
 
eis, aqui, algumas ofertas da quitanda do quintana.
 
fartem-se, convivas! estas frutas regulam o bom funcionamento da flora psíquica (rs). 
 
(chico lobo, meu eterno GRANDE amigo, homem bonito e bacana, homem que me trouxe uma série de pessoas que se tornaram amigas e que desejo, e que carrego!, comigo para sempre, ser humano que marcou de modo enriquecedor a minha vida, tantas as belezas compartilhadas, isto é muito para você. para nós, como já bradou o seu xará buarque de hollanda, peço: luz! quero luz! tenha sempre em mente: para além das cortinas, palcos azuis, e, para além dos palcos azuis, infinitas cortinas com palcos atrás. beijo grande, meu lobo bom!) 
 
outro enorme em todos vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(Todos os poemas de Mário Quintana. Dos livros: A Rua dos Cataventos; Canções; Sapato FloridoEspelho Mágico; editora: Globo)
  
III
 
Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…
 
Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.
 
Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de dizer?
 
Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!…
 
 
IV
 
Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou vendo com os ouvidos:
“Couves! Abacaxis! Cáquis! Melões!”
Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,
 
Mas vem, Anjo da Guarda… Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois gavroches atrevidos!
 
Pra que viver assim num outro plano?
Entremos no bulício quotidiano…
O ritmo da rua nos convida.
 
Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista… Não,
Meu pobre anjo… É… simplesmente… a Vida!…
 
 
VI
 
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
 
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofriemento que ele tem se evola…
 
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
 
Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
 
 
XXVII
 
Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,
 
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados…
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…
 
E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê…
Até os cegos, os entrevadinhos… E
 
Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
 
 
A Canção da Menina e Moça
 
Uma paisagem com um só coqueiro.
Que triste!
E o companheiro?
 
Cabrinha que sobes o monte pedrento.
Só, contra as nuvens.
Será teu esposo o vento?
 
O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro à flor.
 
Um coração não cabe num só peito:
Amor… Amor…
 
Uma paisagem com um só coqueiro…
Uma igrejinha com uma torre só…
Sem companheira… Sem companheiro…
Ó dor!
 
O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro… como eu cheiro
A amor…
 
 
Janela de Abril
 
Tudo tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o céu soubesse ler, isso não teria agora a mínima importância. E sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro.
 
 
XII Das Utopias
 
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
 
 
XIII Do Belo
 
Nada, no mundo, é, por si só, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema…
 
 
XIV Do Mal e do Bem
 
Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos…
Já viste as flores qua a mentira dá?
 
 
XXVI Da Mediocridade
 
Nossa alma incapaz e pequenina
Mais complacência que irrisão merece.
Se ninguém é tão bom quanto imagina,
Também não é tão mau como parece.
 
 
XLI Da Arte de Ser Bom
 
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.
 
 
XLIV Dos Livros
 
Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria,
Se a teu amigo tu não sabes ler?
 
 
LXVIII Da Felicidade
 
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!
 
 
Canção do Dia de Sempre
 
Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa…
 
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens no céu…
 
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
 
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
 
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
 
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
 
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

SAIBA FOMES E SEDES
7 de agosto de 2009

pessoas,

a motivação de mandar-lhes os textos que colho aqui e ali parte, sempre, primeiramente do coração.

seja prosa, seja poesia, tem que mexer, emocionar, tocar a sensibilidade primeira, que em mim é muito intuitiva, para, depois, o exercício mais cerebral, o de (tentar)  compreender o objeto — o texto — de modo mais inteiro.

por isso, por trás das linhas que lhes chegam, há sempre algum motivo, alguma razão, deveras emocional, muito muito muito sentimental (rs).

lembro-me de que, numa conversa com o meu querido, amado e idolatrado (salve salve!) amigo thiago facina, vulgo “abel”, fotógrafo de olhos cheios (http://www.flickr.com/photos/tfacina/), ele me disse uma sentença que não mais esqueci: “muitas vezes estou ouvindo alguma música do arnaldo antunes e penso: ‘porra, como eu queria ter escrito isso!'” de pronto, respondi com um sorriso largo, de concordância, porque, como ele, eu também gostaria de ter escrito muitas e muitas e muitas e muitas de suas letras.

o arnaldo antunes, sinto-o ser da mesma escola e estirpe do gilberto gil, do vinicius de moraes, do chico buarque: é um poeta cujo discurso (o que é dito, a sua intenção com o que é dito), por conta do seu estilo ortográfico, é de fácil absorção — consegue-se entender de cara o que o poeta intenciona –, embora o trabalho de feitura, o de elaboração dos versos, seja pra poucos, porque complicadíssimo o encaixe de melodia e texto com tamanhas riquezas estilísticas e metafóricas (quando linhas para canções!, ressalva importante de ser feita). trocando em miúdos, arnaldo antunes pertence à escola que vinicius de moraes disse pertencer o chico buarque: fácil de entender, difícil de fazer. algumas das suas letras seguem aqui por essa genialidade, por essa capacidade tão cara (e incomum a muitos).

adorava quando estávamos na casa antiga, na casa onde morávamos, eu, no meu quarto, e o zé luiz brandão, uma espécie de anjo-irmão com quem moro, de repente, do seu quarto, largava o dedo no play do i-tunes e deixava fluir a voz gravíssima cantando “se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa…” ou qualquer outra coisa construída por arnaldo, verdadeiro arquiteto-titã das palavras. o sorriso largo brotava invariavelmente (rs). maravilha, zé (rs)!

por essas & por outras (sempre ótimas memórias), seguem os versos de um dos bambas na minha vida, para matar determinadas fomes e sedes.

aliás, nunca deixem de se perguntar durante a vida, em todos os momentos se possível: você tem fome de quê? você tem sede de quê? e mais que perguntar, procurem saciar fome & sede.

um beijo em todos vocês,

o preto,

paulinho.

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SAIBA

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

INCLASSIFICÁVEIS

que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio , que preto o quê?
que índio, que preto, que branco o quê?

que preto branco índio o quê?
branco índio preto o quê?
índio preto branco o quê?

aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos mamelucos sararás
crilouros guaranisseis e judárabes

orientupis orientupis
ameriquítalos luso nipo caboclos
orientupis orientupis
iberibárbaros indo ciganagôs

somos o que somos
inclassificáveis

não tem um, tem dois,
não tem dois, tem três,
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses,

não há sol a sós

aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
americarataís yorubárbaros.

somos o que somos
inclassificáveis

que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio , que preto o quê?
que índio, que preto, que branco o quê?

não tem um, tem dois,
não tem dois, tem três,
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses,
não tem cor, tem cores,

não há sol a sós

egipciganos tupinamboclos
yorubárbaros carataís
caribocarijós orientapuias
mamemulatos tropicaburés
chibarrosados mesticigenados
oxigenados debaixo do sol

PODER (em parceria com tadeu jungle)

pode ser loucura, pode ser razão

pode ser sim, pode ser não
pode ser maria, pode ser joão
pode ser carro, pode ser avião
pode ser saúde, pode ser educação
pode ser porta, pode ser portão
pode ser amor, pode ser prisão
pode ser drama, pode ser pastelão
pode ser laranja, pode ser limão
pode ser bíblia, pode ser alcorão
pode ser inverno, pode ser verão
pode ser pé, pode ser mão
pode ser nevoeiro, pode ser poluição
pode ser samba, pode ser baião
pode ser são jorge, pode ser dragão
pode ser circo, pode ser pão

só não sei porque
eu e você
não pode não

pode ser purê, pode ser pirão
pode ser rei, pode ser peão
pode ser chapeuzinho, pode ser lobão
pode ser raio, pode ser trovão
pode ser sujeira, pode ser sabão
pode ser seda, pode ser algodão
pode ser bermuda, pode ser calção
pode ser beijo, pode ser chupão
pode ser reforma, pode ser revolução
pode ser creme, pode ser loção
pode ser conselho, pode ser lição
pode ser gato, pode ser cão
pode ser eva, pode ser adão
pode ser fila, pode ser procissão
pode ser madeira, pode ser carvão
pode ser antes, pode ser então

só não sei porque
eu e você
não pode não

pode ser guitarra, pode ser violão
pode ser brocha, pode ser garanhão
pode ser trepada, pode ser masturbação
pode ser cama, pode ser chão
pode ser visita, pode ser invasão
pode ser regra, pode ser excessão
pode ser tristeza, pode ser preocupação
pode ser marte, pode ser plutão
pode ser xadrez, pode ser gamão
pode ser sério, pode ser gozação
pode ser solteiro, pode ser sultão
pode ser papo, pode ser discussão
pode ser progresso, pode ser recessão
pode ser bolsa, pode ser pregão
pode ser favela, pode ser mansão
pode ser fim, pode ser introdução

só não sei porque
eu e você
não pode não

pode ser cinema, pode ser televisão
pode ser cara, pode ser coração
pode ser mentira, pode ser plantão
pode ser hobby, pode ser profissão
pode ser país, pode ser nação
pode ser santos, pode ser cubatão
pode ser palpite, pode ser dedução
pode ser cópia, pode ser invenção
pode ser cagaço, pode ser precaução
pode ser frango, pode ser faisão
pode ser arroz, pode ser feijão
pode ser juros, pode ser inflação
pode ser incompetência, pode ser distração
pode ser águia, pode ser gavião
pode ser mocinho, pode ser vilão
pode ser um, pode ser milhão

só não sei porque
eu e você
não pode não

pode ser problema, pode ser solução
pode ser pobre, pode ser barão
pode ser biriba, pode ser balão
pode ser bela, pode ser canhão
pode ser anágua, pode ser combinação
pode ser bagre, pode ser salmão
pode ser geladeira, pode ser fogão
pode ser pai, pode ser patrão
pode ser acaso, pode ser intenção
pode ser pico, pode ser injeção
pode ser hotel, pode ser pensão
pode ser arte, pode ser borrão
pode ser doente, pode ser são
pode ser áries, pode ser escorpião
pode ser inteiro, pode ser fração
pode ser tudo, pode ser tão

só não sei porque
eu e você
não pode não

SE TUDO PODE ACONTECER (em parceria com alice ruiz, paulo tatit e joão bandeira)

se tudo pode acontecer
se pode acontecer
qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover

pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão

e a gente caminhando
de mão dada
de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida
ainda de manhã
no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer

CABIMENTO (em parceria com paulo tatit)

como uma agulha cabe

numa caixa de fósforos
ou num caixão
num palheiro, num jardim,
no bolso de uma pessoa
na multidão
caminhão, montanha,
tudo cabe em seu tamanho
tudo no chão
hoje eu caibo nesse mesmo
corpo que já coube
na minha mãe
minha mãe, minha avó
e antes delas minha tataravó
e antes delas um milhão
de gerações distantes
dentro de mim
um lugar num porão
uma cama num colchão
como um átomo num grão
uma estrela na galáxia
como a bala de revolver
cabe no revólver
cabe também
numa caixa, num buraco
bem no centro do alvo
ou em alguém
onde cabem coração
cabeça tronco e membros
soltos no ar
como cada gesto cabe
no seu movimento
muscular
só nós dois, meu amor
não cabemos em mim
ou em você
como toda gente tem
que não ter cabimento
para crescer

DEBAIXO D’ÁGUA

Debaixo d’água tudo era
mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Debaixo d’água
se formando
como um feto
sereno confortável
amado completo
sem chão sem teto
sem contato com o ar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo d’água por encanto
sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber
o quanto esse momento
poderia durar

Mas tinha que respirar

Debaixo d’água ficaria
para sempre
ficaria contente
longe de toda gente
para sempre
no fundo do mar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo d’água
protegido salvo
fora de perigo aliviado
sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio
sem medo
sem vontade de voltar

Mas tinha que respirar

Debaixo d’água tudo era
mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

DO VENTO (em parceria com paulo tatit e sandra peres)

alimenta o fogo
atormenta o mar
arrepia o corpo
joga o ar no ar
leva o barco a vela
levanta lençóis
entra na janela
leva a minha voz

nuvens de areia
folhas no quintal
canto de sereia
roupas no varal

tudo vem do vem tudo vem
do vento vem tudo vento vem
do vento vem tudo

sacode a cortina
alça os urubus
sai pela narina
canta nos bambus

cabelo embaraça
bate no portão
espalha a fumaça
varre a plantação

lava o pensamento
deixa o som chegar
leva esse momento
traz outro lugar

tudo vem do vem tudo vem
do vento vem tudo vento vem
do vento vem tudo

COMIDA (em parceria com marcelo fromer e sérgio britto)

Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer.

Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade.