OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (9ª EDIÇÃO) — ABEL SILVA E CONVIDADOS — O EVENTO & FOTOS
19 de maio de 2017

(Antes do início da apresentação, enquanto o público que não lotou, mas abarrotou a casa, se acomodava — Foto: Elena Moccagatta)

(O coordenador do projeto, Paulo Sabino — Foto: Chico Lobo)

(Foto: Rafael Roesler Millon)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Paulo Sabino e Antonio Cicero — Foto: Elena Moccagatta)

(Antonio Cicero — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Antonio Cicero e Tessy Callado — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Tessy Callado — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Christovam de Chevalier — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(André Trindade Silva — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(O grande homenageado da noite, o poeta e letrista Abel Silva — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Abel Silva e Zé Carlos — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Um dos grandes parceiros do homenageado, Geraldo Azevedo — Foto: Elena Moccagatta)

(Foto: Elena Moccagatta)

(Os participantes + o homenageado + o poeta-compositor Ronaldo Bastos, um dos ilustres da platéia — da esquerda para a direita: Paulo Sabino, Christovam de Chevalier, André Trindade Silva, Abel Silva, Elisa Lucinda, Zé Carlos, Antonio Cicero, Tessy Callado, Ronaldo Bastos e Geraldo Azevedo — Foto: Rafael Millon)

(Da esquerda para a direita: Paulo Sabino, Christovam de Chevalier, André Trindade Silva, Abel Silva, Elisa Lucinda, Zé Carlos e Antonio Cicero — Foto: Elena Moccagatta)

(Da esquerda para a direita: Abel Silva, Elisa Lucinda, Zé Carlos, Antonio Cicero, Tessy Callado, Ronaldo Bastos e Geraldo Azevedo — Foto: Elena Moccagatta)

(Após o evento: Geraldo Azevedo e Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

(Elisa Lucinda, Tessy Callado, Paulo Sabino e Christovam de Chevalier — Foto: Rafael Millon)

(Geraldo Azevedo e Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

(Paulo Sabino, Geraldo Azevedo e Abel Silva — Foto: Elena Moccagatta)

(Paulo Sabino, Geraldo Azevedo, Abel Silva e Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

(Matéria de página inteira na revista “Zona Sul” do jornal “O Globo”)

(Destaque na página do “Rio Show”, caderno cultural do jornal “O Globo”)

(Destaque na coluna “Gente Boa”, caderno cultural do jornal “O Globo”)
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Caramba, caramba, caramba! Até agora meio zonzo, meio astronauta, depois da noite de 15 de maio, segunda-feira, na 9ª edição do projeto Ocupação Poética, no teatro Cândido Mendes de Ipanema, em homenagem ao poeta e letrista da música popular brasileira Abel Silva.

A casa não estava lotada; estava abarrotada de gente. Público quente, participativo, generoso, interessado e muito querido. Tanta coisa, tanta coisa, que nem sei… Agora, aqui no peito, só agradecimento e contentamento. A única coisa que desejo é produzir a próxima Ocupação Poética o mais rápido possível! Quero mais! Preciso de mais! Valeu por tudo!

Agradecer demais a todos que tornam possível este acontecimento que me é tão feliz: aos administradores do espaço, Fernanda Oliveira e Adil Tiscatti; ao meu super assessor de imprensa, que consegue nos colocar nos melhores espaços da mídia (jornais, rádios, sites), Rafael Millon; à fotógrafa do projeto, a querida Elena Moccagatta; ao artista plástico Chico Lobo, por fazer sempre as camisetas que utilizo nos meus projetos; ao técnico de som e luz, Pedro Paulo Thimoteo; a toda equipe do teatro; aos queridos e super participantes: Christovam de Chevalier, André Trindade Silva, Elisa Lucinda, Zé Carlos, Antonio Cicero, Tessy Callado e Geraldo Azevedo; ao grande homenageado da noite, o poeta, letrista e querido amigo Abel Silva. Ao público, que lotou a casa para nos prestigiar e prestigiar a poesia.

A vocês, de presente, um poema que, por problema de esquecimento do livro, não pôde ser lido na noite por mim.
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não é à base de instrumentos e ferramentas que demandem força, dor, susto, brutalidade, que armo a minha mão à feitura do poema. à feitura do poema, armo a minha mão a toque singelo, toque suave, delicado — um sopro de maresia, um susto de lucidez e luz no silêncio. pois é justamente o toque delicado, suave, singelo — um sopro de maresia, um susto de lucidez e luz no silêncio — que faz cantar na travessia, que é a nossa passagem pelo mundo, aquilo que é mudo, aquilo que não fala, que não diz, aquilo que apenas cala: o mundo, a realidade que nos cerca: a planta, o bicho, a água, a pedra, nenhum elemento natural nos diz, nos responde, nada sobre a existência, nada sobre o estar no mundo. ainda assim, cantamos — em verso e prosa — a existência, cantamos o mundo em poesia, crônica, conto, romance. eis a magia da palavra.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: poemAteu. autor: Abel Silva. editora: 7Letras.)

 

 

NASCIMENTO DO POEMA

 

Não é a esmeril
serrote ou formão
que armo a minha mão
à espera da poesia

nem a fórceps como nasci
placento de pavor
pra luz daquele dia

mas a toque singelo
sopro de maresia
susto no silêncio

que faz a ponte pênsil
do mudo em seu flagelo
cantar na travessia

DA FELICIDADE
24 de fevereiro de 2012

 
(Na foto, Paulo Sabino na companhia de amigos: felicidade extrema.)
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(Escrito em 23/02/2012, por volta das 23h30, aos amigos da rede social Facebook.)
 
 
Que fim de dia!
 
Na companhia dos meus amados & idolatrados (salve salve!) Chico Lobo & Patrícia Afonso, assisti a mais um (lindo!) pôr-do-sol (diferente a cada dia por conta dos inúmeros desenhos das nuvens & dos vôos dos pássaros que riscam o céu) na praia de Ipanema. Muita conversa boa & divertida & muita contemplação, como costuma acontecer com estes meus dois queridos.

Quando a Pati & o Chicote resolveram ir (por volta das 20h30), decidi não voltar logo para casa. Como estava também na companhia do Orlando (meu camelo), rumei para o Arpoador, para ver a paisagem da ponta do litoral. Chegando, qual a minha surpresa ao encontrar, apesar do horário para mergulho em águas gélidas, um bom número de banhistas no mar. Resolvi deixar o Orlando fincado na areia, como costuma ficar, admirando o ser-azul a bater seus braços líqüidos na barra do areeiro.

Ao entrar na água, outra surpresa: contrariando a temperatura das últimas semanas, fria fria fria toda vida!, no Arpoador o mar estava mais quente, realmente agradável & convidativo. Delícia. Passei “horas” boiando & observando as estrelas.

Feliz por esse presente noturno, peguei o Orlando & com ele fui dar uma circulada, fazer algum exercício. Fui do Arpoador ao Leblon, observando a paisagem, as pessoas, o movimento de vida daquele momento, para, em seguida, voltar a casa.

Agora aqui estou, no recanto do lar, sentindo-me suave, sereno, feliz.

Uma boa conversa com grandes amigos, contemplação da paisagem, mergulho de mar, passeio com Orlando, observação do meio circundante: percebo que isso me basta para me sentir feliz, para me sentir de bem com a vida.

E quando penso no que me basta para me sentir feliz, para me sentir de bem com a vida, vejo que a felicidade pode estar bem ao alcance das mãos. Vejo que, dentro das possibilidades que me atingem (as descritas aqui, por exemplo), a felicidade não precisa, e nem deve, ser difícil.

Algumas pessoas dificultam demais o encontro com a felicidade. É um aprendizado, um exercício diário. Porque a vida não é mole; a vida tem a sua face empedernida. No entanto, temos que ter olhos às possibilidades que nos rondam. E, se não satisfeito com elas, brigar por mudanças.

No mais, o que me fica é o entendimento de que eu não preciso de muito para ser feliz. O que me faz feliz envolve uma certa dose de dinheiro (afinal, ser classe média bem mediana, e morando na zona sul carioca, está LONGE de ser moleza para mim), mas não envolve a dose mais gostosa, a dose que considero a principal.

E o que também me fica, no fundo, é a sensação de que todas essas constatações moldam o supra-sumo da minha sofisticação.

Ilustrando o que vos digo, senhores, este belo poema do mestre Mario Quintana, que me ronda a cabeça desde que comecei estas linhas:

 
DA FELICIDADE

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

 
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.

AVISO AOS NAVEGANTES – EXPOSIÇÃO CHICO LOBO
3 de fevereiro de 2010

senhores,
 
o artista plástico chico lobo, meu queridíssimo, grande parceiro, companheiro, homem com quem muito cresci & cresço, enfim, o meu amado amor (rs), estréia sua exposição de pinturas em tecido — estamparias para camisetas & panôs — nesta sexta-feira, dia 5 de fevereiro, a partir das 20h, no cine santa — situado à rua almirante alexandrino, exatamente no largo dos guimarães, no bairro de santa teresa —, que abriga um ótimo espaço externo, apropriado para esse tipo de evento.
 
o que mais impressiona as pessoas que conhecem o seu trabalho é o jogo pictório que o artista propõe em suas belas abstrações. chico lobo capta para as suas telas uma harmonia cromática de maneira inopinada, utilizando-se de cores as mais diversas, quentes & frias, arriscando-se a cada pincelada com as formas criadas, e obtendo resultados donairosos, ímpares. a grande característica da sua obra, o grande elo entre as suas produções, ao meu ver, é o máximo garbo. chico lobo, acima de tudo, é um artista de elegâncias. tanto as suas camisetas quanto os seus panôs são frutos dessa sua sabedoria pictória.
 
eu, que sou meio enjoado com roupa (rs), meio chato, que não sou um “topa-tudo”, sou fã de carteirinha. tenho a minha coleção chico lobo (rs). um dia desses, olhando o meu guarda-roupa, acho que contabilizei umas 13, 15 camisetas (rs). fico sempre deslumbrado com as suas criações, tanto para estampas de roupas como para os panôs.
 
quem não puder comparecer ao evento, não se preocupe. a exposição ocupará o espaço do cine santa todo o mês de fevereiro
 
aos amigos, fica o pedido: divulguem & compareçam!
 
aos desconhecidos, fica o convite: apareçam!
 
abaixo, fotos de alguns dos trabalhos realizados em panôs. para uma visualização maior é só clicar nas figuras.
 
beijo em todos,
paulo sabino/ paulinho.

É FATO: É NO DIA-A-DIA, COM A APRENDIZAGEM
30 de setembro de 2009

Senhores,
 
Seguem, para vocês, três poesias da minha autoria.
 
Chicote, Chico Lobo, meu queridíssimo amigo, é, atualmente, o que mais me incentiva a enviar os meus escritos. Sempre me diz: “não entendo por que você só manda textos de outros autores; quero ler coisas suas também.” E liga o fato de não lhes chegar as minhas linhas à minha insegurança de me expor (rs).
 
Realmente, não sei se ele tem alguma razão, todavia, intuo que não. Porque não tenho problema algum em mostrar às pessoas muitos dos meus poemas. Acho que a razão maior para que não mande o meu material é o grande conhecimento que possuo sobre o que escrevo (ou que acho que possuo – rs). A minha vontade maior é a de mandar textos de outrem, justamente pelo trabalho que tenho, e que acho delicioso, muito saboroso, de desvendar o que dizem as outras vozes, o que têm a me oferecer divergentes gargantas. Um poeta, antes de qualquer coisa, deve ser um leitor curioso, um leitor sequioso.  
 
Seja o que for, eis, aqui, três dos meus poemas. Acho-os iluminados, felizes, redondinhos.
 
O último da trinca, Casamento, feito para o meu primo Dedé e sua esposa, retrata um tanto das minhas experiências nesse quesito (rs). Fui muito feliz nos meus casamentos. O reconhecimento dos olhares, das falas, das peculiaridades, as expectativas ante a mesa posta, tudo isso são acontecimentos que me abrigam. Assim como o segundo, feito por causa do relacionamento de amigos, mas que relata a minha maneira de apreender o amor: no dia-a-dia, traduzindo a paisagem do amante ao alcance dos olhos, deixando que os encantos apareçam aos poucos, sem carta marcada, sem jogo marcado, deixando que os verdes do caminho floresçam, que a luz nasça da própria urgência de luz, de amor, de calor.
 
Enfim: um pouco de Paulo Sabino para vocês. 😉
 
Espero que gostem das linhas!
 
Um beijo grande,
o preto.
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é fato: a gente erra,
então desconcerta
e, depois, desperta
pra continuar a guerra:
de respeito às diferenças,
de aceitação de outras crenças,
de admiração ao diverso.
é nesse universo
que batalho o meu ingresso,
pois vejo o inverso
como retrocesso do processo.
desejo toda sorte de opiniões.
no fim das contas, o que conta são os corações
crendo pra valer e fazendo por onde,
na fissura de que da felicidade o bonde
perpasse todos os pontos
sem deixar um único tonto
de fora das suas grandes viagens.
sigamos em busca das passagens!
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mais que transmita o cinema
ou o mais bem escrito poema
— mais ainda: qualquer existente tática
ou conta aprendida com a matemática —,
nosso amor se faz na prática
de tudo o que possa vir a ser,
sem carta marcada ou parecer.
 
é no dia-a-dia, com a aprendizagem,
que traduzo a sua paisagem,
como quando o arado de um campo,
que, mais tarde, revela verdes e encanto.
 
nosso amor assim se desvela:
não é preciso lampião ou vela;
possui luz própria que surge
desta vontade de amar que, em mim, urge.
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CASAMENTO
 
este acontecimento se dá satisfeito
quando o eco do sim se apresenta
em cada grão de poeira levantada,
em cada lágrima de tristeza derramada,
em cada partícula de luz projetada.
o reconhecimento dos gestos, do olhar, da fala,
das reentrâncias perdidas no corpo e na alma.
guardar-se sob as asas de um arcanjo,
saboreando o gosto da água do chuveiro,
o cheiro da comida à espera na mesa,
o jeito peculiar de deitar-se na cama.
até que um dia você se surpreenderá ao descobrir
que a vida é feita de sucessivos partos,
e verá que só no colo da amada,
sorvendo o seu colostro,
roçando a barba em sua carne protetora,
terá o desespero exaurido,
o medo sanado,
a poesia madura
— o abrigo diluído em códigos abissais —.

QUITANDA DO QUINTANA
28 de setembro de 2009

comensais,
 
as poesias que seguem são frutos de um poeta cuja obra transpira delicadeza, sensibilidade e sofisticação. as linhas são de um lirismo à flor da pele, à flor da sua pena, ágil e certeira, ao manejar tão precisamente as palavras para a configuração de imagens tão apetecíveis. 
 
desta quitanda, frutos da melhor qualidade postos a consumo d’alma. os olhos acesos ante a beleza e o sabor do poemalimento.
 
eis, aqui, algumas ofertas da quitanda do quintana.
 
fartem-se, convivas! estas frutas regulam o bom funcionamento da flora psíquica (rs). 
 
(chico lobo, meu eterno GRANDE amigo, homem bonito e bacana, homem que me trouxe uma série de pessoas que se tornaram amigas e que desejo, e que carrego!, comigo para sempre, ser humano que marcou de modo enriquecedor a minha vida, tantas as belezas compartilhadas, isto é muito para você. para nós, como já bradou o seu xará buarque de hollanda, peço: luz! quero luz! tenha sempre em mente: para além das cortinas, palcos azuis, e, para além dos palcos azuis, infinitas cortinas com palcos atrás. beijo grande, meu lobo bom!) 
 
outro enorme em todos vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_________________________ 
  
(Todos os poemas de Mário Quintana. Dos livros: A Rua dos Cataventos; Canções; Sapato FloridoEspelho Mágico; editora: Globo)
  
III
 
Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…
 
Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.
 
Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de dizer?
 
Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!…
 
 
IV
 
Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou vendo com os ouvidos:
“Couves! Abacaxis! Cáquis! Melões!”
Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,
 
Mas vem, Anjo da Guarda… Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois gavroches atrevidos!
 
Pra que viver assim num outro plano?
Entremos no bulício quotidiano…
O ritmo da rua nos convida.
 
Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista… Não,
Meu pobre anjo… É… simplesmente… a Vida!…
 
 
VI
 
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
 
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofriemento que ele tem se evola…
 
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
 
Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
 
 
XXVII
 
Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,
 
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados…
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…
 
E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê…
Até os cegos, os entrevadinhos… E
 
Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
 
 
A Canção da Menina e Moça
 
Uma paisagem com um só coqueiro.
Que triste!
E o companheiro?
 
Cabrinha que sobes o monte pedrento.
Só, contra as nuvens.
Será teu esposo o vento?
 
O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro à flor.
 
Um coração não cabe num só peito:
Amor… Amor…
 
Uma paisagem com um só coqueiro…
Uma igrejinha com uma torre só…
Sem companheira… Sem companheiro…
Ó dor!
 
O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro… como eu cheiro
A amor…
 
 
Janela de Abril
 
Tudo tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o céu soubesse ler, isso não teria agora a mínima importância. E sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro.
 
 
XII Das Utopias
 
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
 
 
XIII Do Belo
 
Nada, no mundo, é, por si só, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema…
 
 
XIV Do Mal e do Bem
 
Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos…
Já viste as flores qua a mentira dá?
 
 
XXVI Da Mediocridade
 
Nossa alma incapaz e pequenina
Mais complacência que irrisão merece.
Se ninguém é tão bom quanto imagina,
Também não é tão mau como parece.
 
 
XLI Da Arte de Ser Bom
 
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.
 
 
XLIV Dos Livros
 
Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria,
Se a teu amigo tu não sabes ler?
 
 
LXVIII Da Felicidade
 
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!
 
 
Canção do Dia de Sempre
 
Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa…
 
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens no céu…
 
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
 
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
 
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
 
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
 
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…