MINHA SEREIA, RAINHA DO MAR
2 de fevereiro de 2016

Paulo Sabino_Pés à beira-mar

Ipanema_Cagarras & Stand Up Paddle

(O elemento que mais fascina, o elemento do puro delírio, o elemento que vira a cabeça, de Paulo Sabino: água marinha: mar: útero às vistas: berço de todas as existências.)
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dia 2 de fevereiro é dia de festa no mar. portanto, deixo, aqui, a minha saudação à rainha do elemento que mais me fascina, elemento do meu delírio, elemento que vira a minha cabeça: o mar.

dia 2 de fevereiro: dia de saudar iemanjá, a grande mãe de todos os orixás.

muito me impressiona que tanto a ciência quanto as lendas africanas convirjam — ainda que por caminhos díspares — ao dizer que a origem & o desenvolvimento dos seres — os primeiros indícios de vida — se deram com o/no mar, se deram com as/nas águas marinhas.

o mais abundante elemento natural deste planeta azul, água para onde correm todas as águas, útero às vistas, criatório de tantas & diversas vidas, onde a mãe-d’água iemanjá permite que boiemos como quando no ventre de nossas mães-da-terra.

eu, até hoje, não aprendi a viver sem água & sem o mar à minha contemplação.

(e espero nunca aprender!)

em sua homenagem, uma compilação de textos & dois poemas-canções (com direito ao áudio das canções) que traçam o perfil & contam um pouco dos mitos que envolvem a mais prestigiosa entidade feminina da mitologia & dos cultos africanos.

salve minha mãe-d’água iemanjá!
salve a rainha do meu amante mor: o mar!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do: Dicionário do folclore brasileiro. autor: Luís da Câmara Cascudo. editora: Global.)

 

 

IEMANJÁ.  Mãe-d’água dos iorubanos. Orixá marítimo, a mais prestigiosa entidade feminina dos candomblés da Bahia. Recebe oferendas rituais, festas lhe são dedicadas, indo embarcações até alto-mar atirar presentes. Protetora de viagens, no processo sincrético das deusas marinhas passou a ser Afrodite, Anadiômene, padroeira dos amores, dispondo uniões, casamentos, soluções amorosas. Sua sinonímia é grande: Janaína, Dona Janaína, Princesa do Mar, Princesa do Aiocá ou Arocá, Sereia, Sereia do Mar, Oloxum, Dona Maria, Rainha do Mar, Sereia Mucunã, Inaê, Marbô, Dandalunda. Tem o leque e a espada como insígnias; seus alimentos sagrados são o pombo, o milho, o galo, o bode castrado; as cores rituais são o branco e o azul (…). Protege, defende, castiga, mata. Por vezes se apaixona. Tem amantes, os quais leva para o fundo do mar. Nem os corpos voltam. É ciumenta, vingativa, cruel, como todas as égides primitivas. A festa de Iemanjá na cidade de Salvador é em 2 de fevereiro, Nossa Senhora do Rosário. Nos candomblés e xangôs é representada, no salão exterior das danças, como uma sereia.
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(do livro: Mitologia dos orixás. autor: Reginaldo Prandi. editora: Companhia das Letras.)

 

 

IEMANJÁ AJUDA OLODUMARE NA CRIAÇÃO DO MUNDO

 

Olodumare-Olofim vivia só no Infinito,
cercado apenas de fogo, chamas e vapores,
onde quase nem podia caminhar.
Cansado desse seu universo tenebroso,
cansado de não ter com quem falar,
cansado de não ter com quem brigar,
decidiu pôr fim àquela situação.
Libertou as suas forças e a violência
delas fez jorrar uma tormenta de águas.
As águas debateram-se com rochas que nasciam
e abriram no chão profundas e grandes cavidades.
A água encheu as fendas ocas,
fazendo-se os mares e oceanos,
em cujas profundezas Olocum foi habitar.
Do que sobrou da inundação se fez a terra.
Na superfície do mar, junto à terra,
ali tomou seu reino Iemanjá,
com suas algas e estrelas-do-mar,
peixes, corais, conchas, madrepérolas.
Ali nasceu Iemanjá em prata e azul,
coroada pelo arco-íris Oxumarê.
Olodumare e Iemanjá, a mãe dos orixás,
dominaram o fogo no fundo da Terra
e o entregaram ao poder de Aganju, o mestre dos vulcões,
por onde ainda respira o fogo aprisionado.
O fogo se consumia na superfície do mundo e eles apagaram
e com suas cinzas Orixá Ocô fertilizou os campos,
propiciando o nascimento das ervas, frutos,
árvores, bosques, florestas,
que foram dados aos cuidados de Ossaim.
Nos lugares onde as cinzas foram escassas,
nasceram os pântanos e nos pântanos, a peste,
que foi doada pela mãe dos orixás ao filho Omulu.
Iemanjá encantou-se com a Terra
e a enfeitou com rios, cascatas e lagoas.
Assim surgiu Oxum, dona das águas doces.
Quando tudo estava feito
e cada natureza se encontrava na posse de um dos filhos de Iemanjá,
Obatalá, respondendo diretamente às ordens de Olorum,
criou o ser humano.
E o ser humano povoou a Terra.
E os orixás pelos humanos foram celebrados.

 

 

IEMANJÁ DÁ À LUZ AS ESTRELAS, AS NUVENS E OS ORIXÁS

 

Iemanjá vivia sozinha no Orum.
Ali ela vivia, ali dormia, ali se alimentava.
Um dia Olodumare decidiu que Iemanjá
precisava ter uma família,
ter com quem comer, conversar, brincar, viver.
Então o estômago de Iemanjá cresceu e cresceu
e dele nasceram todas as estrelas.
Mas as estrelas foram se fixar na distante abóboda celeste.
Iemanjá continuava solitária.
Então de sua barriga crescida nasceram as nuvens.
Mas as nuvens perambulavam pelo céu
até se precipitarem em chuva sobre a terra.
Iemanjá continuava solitária.
De seu estômago nasceram então os orixás,
nasceram Xangô, Oiá, Ogum, Ossaim, Obaluaê e os Ibejis.
Eles fizeram companhia a Iemanjá.

 

 

IEMANJÁ É NOMEADA PROTETORA DAS CABEÇAS

 

Dia houve em que todos os deuses
deveriam atender ao chamado de Olodumare para uma reunião.
Iemanjá estava em casa matando um carneiro,
quando Legba chegou para avisá-la do encontro.
Apressada e com medo de atrasar-se
e sem ter nada para levar de presente a Olodumare,
Iemanjá carregou consigo a cabeça do carneiro
como oferenda para o grande pai.
Ao ver que somente Iemanjá trazia-lhe um presente,
Olodumare declarou:
“Awojó orí dorí re.”
“Cabeça trazes, cabeça serás.”
Desde então Iemanjá é a senhora de todas as cabeças.

 

 

IEMANJÁ MOSTRA AOS HOMENS O SEU PODER SOBRE AS ÁGUAS

 

Em certa ocasião, os homens estavam preparando
grandes festas em homenagem aos orixás.
Por um descuido inexplicável, se esqueceram de Iemanjá,
esqueceram de Maleleo, que ela também se chama assim.
Iemanjá, furiosa, conjurou o mar
e o mar começou a engolir a terra.
Dava medo ver Iemanjá, lívida,
cavalgar a mais alta das ondas
com seu abebé de prata na mão direita
e o ofá da guerreira preso às costas.
Os homens, assustados, não sabiam o que fazer
e imploraram ajuda a Obatalá.
Quando a estrondosa imensidão de Iemanjá
já se precipitava sobre o que restava do mundo,
Obatalá se interpôs, levantou seu opaxorô
e ordenou a Iemanjá que se detivesse.
Obatalá criou os homens e não consentiria na sua destruição.
Por respeito ao Criador, a dona do mar acalmou suas águas
e deu por finda sua colérica revanche.
Já estava satisfeita com o castigo imposto
aos imprudentes mortais.

 

 

IEMANJÁ IRRITA-SE COM A SUJEIRA QUE OS HOMENS LANÇAM AO MAR

 

Logo no princípio do mundo,
Iemanjá já teve motivos para desgostar da humanidade.
Pois desde cedo os homens e as mulheres jogavam no mar
tudo o que a eles não servia.
Os seres humanos sujavam suas águas com lixo,
com tudo o que não mais prestava, velho ou estragado.
Até mesmo cuspiam em Iemanjá,
quando não faziam coisa muito pior.

Iemanjá foi queixar-se a Olodumare.
Assim não dava para continuar;
Iemanjá Sessu vivia suja,
sua casa estava sempre cheia de porcarias.
Olodumare ouviu seus reclamos
e deu-lhe o dom de devolver à praia
tudo o que os humanos jogassem de ruim em suas águas.
Desde então as ondas surgiram no mar.
As ondas trazem para a terra o que não é do mar.

 

 

IEMANJÁ AFOGA SEUS AMANTES NO MAR

 

Iemanjá é dona de rara beleza
e, como tal, mulher caprichosa e de apetites extravagantes.
Certa vez saiu de sua morada nas profundezas do mar
e veio à terra em busca do prazer da carne.
Encontrou um pescador jovem e bonito
e o levou para seu líquido leito de amor.
Seus corpos conheceram todas as delícias do encontro,
mas o pescador era apenas um humano
e morreu afogado nos braços da amante.
Quando amanheceu, Iemanjá devolveu o corpo à praia.
E assim acontece sempre, toda noite,
quando Iemanjá Conlá se encanta com os pescadores
que saem em seus barcos e jangadas para trabalhar.
Ela leva o escolhido para o fundo do mar e se deixa possuir
e depois o traz de novo, sem vida, para a areia.
As noivas e as esposas correm cedo para a praia
esperando pela volta de seus homens que foram para o mar,
implorando a Iemanjá que os deixe voltar vivos.
Elas levam para o mar muitos presentes,
flores, espelhos e perfumes,
para que Iemanjá mande sempre muitos peixes
e deixe viver os pescadores.
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(do encarte do cd: Mar de Sophia. artista: Maria Bethânia. autor dos versos: Paulo César Pinheiro. gravadora: Biscoito Fino.)

 

 

IEMANJÁ RAINHA DO MAR

 

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d’água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro,
Quem escuta a Sereia cantar.
É com o povo que é praieiro
Que Dona Iemanjá quer se casar.
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mar de Sophia. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Iemanjá Rainha do Mar. música:Pedro Amorim. versos: Paulo César Pinheiro. gravadora: Biscoito Fino.)


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(do encarte do cd: Gal canta Caymmi. artista: Gal Costa. autor dos versos: Dorival Caymmi. gravadora: PolyGram.)

 

 

RAINHA DO MAR

 

Minha sereia, rainha do mar
Minha sereia, rainha do mar
O canto dela faz admirar
O canto dela faz admirar

Minha sereia é moça bonita
Minha sereia é moça bonita
Nas ondas do mar
Aonde ela habita
Nas ondas do mar
Aonde ela habita

Ai, tem dó
De ver o meu penar
Ai, tem dó
De ver o meu penar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Gal canta Caymmi. artista & intérprete: Gal Costa. canção: Rainha do Mar. autor da canção: Dorival Caymmi. gravadora: PolyGram.)

A ARTE DOS VERSOS
21 de julho de 2015

Plantação de couve

(Plantação de couves.)
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Um convite aos navegantes: nesta quinta-feira, 23 de julho, a 5ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Na frente do bar Alquimia. As leituras & declamações começam às 20h30, mas a concentração, para uns drinques & um bate-papo animado, a partir das 19h. Aguardando todos!
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Para Antonio Cicero, que me fez lembrar o poema

 

 

toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui, na maneira como esta mulher, dos arredores de cantão, na china, ou dos campos de alpedrinha, em portugal, rega quatro ou cinco leiras, rega quatro ou cinco canteiros, de couves: mão certeira com a água, intimidade com a terra, empenho do coração.

assim se faz a planta bonita & viçosa: toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui: mão certeira com a água, intimidade com a terra, empenho do coração.

assim se faz o poema: toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui: mão certeira com a água & intimidade com a terra, mão certeira & intimidade com os nutrientes do poema, com aquilo que o alimenta (a palavra, o vocabulário, as formas poéticas, as brincadeiras lingüísticas), e empenho do coração (a dedicação à causa, o cuidado, o carinho, a atenção, com os versos).

assim se faz a planta bonita & viçosa, assim se faz o poema: mão certeira & intimidade com os nutrientes, com aquilo que os alimenta, e empenho do coração — a dedicação à causa, o cuidado, o carinho, a atenção.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas de Eugénio de Andrade. seleção: Arnaldo Saraiva. autor: Eugénio de Andrade. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A ARTE DOS VERSOS

 

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

NOVÍSSIMO ORFEU
11 de novembro de 2014

Orpheus (1894)_Károly Ferenczy (Húngaro)

(Na foto, o quadro Orpheus, 1894, do pintor húngaro Károly Ferenczy.)
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 para Murilo, novíssimo Orfeu, que chegará ao mundo em dezembro

 

 

(do: Dicionário da mitologia grega e romana. autor: Pierre Grimal. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

ORFEU. Orfeu é unanimemente reconhecido como filho de Eagro (v. Eagro). As tradições divergem no que respeita ao nome da mãe: passa, mais vulgarmente, por filho de Calíope, que detém a mais alta dignidade entre as Musas; mas por vezes, em vez desta é referida Menipe, filha de Tâmiris. Orfeu é de origem trácia. Como as Musas, habita perto do Olimpo, onde é geralmente representado, cantando, vestido com os trajos dos Trácios. Os mitógrafos fazem dele o rei desta região: dos Bístones, dos Odrísios e dos Macedónios, etc. Orfeu é o Cantor por excelência, o músico e o poeta. Toca lira e “cítara”, instrumento cuja invenção lhe é atribuída. Quando esta honra lhe é negada, admite-se que foi ele que aumentou o número de cordas do instrumento, que não seriam inicialmente mais do que sete e passaram a ser nove, “tantas quanto as Musas”. Seja como for, Orfeu sabia cantar melodias tão suaves que até as feras o seguiam, as árvores e as plantas se inclinavam na sua direcção e os homens mais rudes se acalmavam.

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novíssimo orfeu:

vou onde a poesia me chama, vou onde a poesia me clama.

o amor é minha biografia, o amor é minha história de vida, texto de argila & fogo.

o amor: texto de argila & fogo: de argila, pois, segundo a mitologia cristã, o homem veio do barro, veio da terra, e para a terra retornará, e é na terra que o homem constitui a sua história, a sua biografia; de fogo, elemento que existe a partir da combustão de um corpo, que desprende luz & calor, corpo que arde, que queima, que aquece, que ilumina.

aves contemporâneas, pássaros dos dias atuais, largam do meu peito, alçando vôos & levando recado aos homens, meus irmãos na terra: o amor é dos sentimentos o mais nobre; belezas nasceram para serem complementares & não excludentes; apesar dos pesares, a vida vale o sorriso & o brilho no olhar.

o mundo alegórico se esvai, o mundo repleto de simbolismo & elementos figurados se dissipa, o mundo recheado de mitologias desfalece, o uso da razão & a ciência derrubam as alegorias mundanas & as crenças fantásticas, fica esta substância de luta, real, permanece esta matéria de batalha que travamos por uma existência mais frutífera, menos tacanha, de onde a eternidade se descortina, de onde o tempo se revela.

a estrela azul familiar vira as costas, foi-se embora…

(estrela azul: estrela de luminosidade intensa, de temperatura altíssima, com massa que pode ser até 18 vezes maior que a massa solar, associada, a sua aparição no céu, a épocas de bonança, a momentos de prosperidade, a tempos de mansuetude.)

a estrela azul conhecida, familiar, disse adeus…

mesmo assim, mesmo sem a estrela azul familiar no céu, ainda que esta não mais aponte épocas de bonança, momentos de prosperidade, tempos de mansuetude, a poesia, musa maior na vida, sopra onde quer.

apesar dos pesares, apesar da substância de luta de onde se descortina a eternidade, de onde a realidade se revela, a poesia sopra o seu vento lírico, a poesia sopra o seu vento onírico, a poesia sopra o seu vento alegórico, a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, ainda mais colorido, ainda mais definido.

salve o sopro sortido & sagaz da poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia poética. autor: Murilo Mendes. editora: Cosac Naify.)

 

 

NOVÍSSIMO ORFEU

 

Vou onde a Poesia me chama.

O amor é minha biografia,
Texto de argila e fogo.

Aves contemporâneas
Largam do meu peito
Levando recado aos homens.

O mundo alegórico se esvai,
Fica esta substância de luta
De onde se descortina a eternidade.

A estrela azul familiar
Vira as costas, foi-se embora…
A poesia sopra onde quer.

À VIDA SEM SENTIDO: POESIA
4 de novembro de 2014

Atins_Lençóis Maranhenses

082 2

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se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada palavra que o infinito, que é a existência, guarda, de cada palavra que é lançada no mundo, se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada cabeça, de cada cuca pensante, que não passa de uma cabeça de fósforo, pequena, de luminosidade fugaz, incapaz de compreender a existência no seu todo, se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada estrela mirada da janela do apartamento ou de um foguete (caso embarque em viagem espacial), a vida se foi, a vida passou, e o sentido não veio, o sentido não chegou.

porque a nossa cabeça, de fósforo, é deveras pequena & de luminosidade efêmera para abrigar entendimento tão imenso que é o da existência.

indo inda mais fundo: e será que há algum entendimento a ser buscado, a ser revelado? será que há alguma coisa a ser compreendida?

o mundo, que, segundo a ciência, nasceu da explosão de uma estrela numa sucessão de acasos, de erros (por isso a vida é errância), de mutações aleatórias, passados bilhões & bilhões de anos chegou onde chegou — até aqui.

será que ao mundo cabe entendimento, compreensão?…

o mundo não está aí para ser entendido, o mundo está aí para ser vivido.

o mundo não está aí para virar poesia, o mundo está aí para ser vivido — embora as coisas, no mundo, pareçam estar em estado de poesia.

o mundo não está aí para virar poesia, embora a árvore, com suas forma & cor & beleza plástica, sempre parada, aguarde em silêncio, apta a ser fotografada. o mundo não está aí para virar poesia, embora o gato preto de patinhas brancas ande sempre com seu melhor traje (o traje: a sua pelagem feita sob medida, como se um black tie). o mundo não está aí para virar poesia, embora os pássaros, em vôo sincronizado no céu, denunciem, pela perfeição dos movimentos, que ensaiaram durante horas (um ensaio sem pretensões de estréia).

o mundo não está aí para virar poesia, mas o vento orquestra uma sinfonia muda (com os sons que suscita a sua passagem), os panos — à passagem do vento — dançam pendurados nas janelas, as formigas — fingindo trabalhar — desfilam, com suas folhas verdes, alegorias de mão, e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo & descascam voluntariamente (sem esforço contrário), em permanente exposição (como se num museu ou centro cultural), expostas às artes & artimanhas do tempo em sua casca.

o mundo não está aí para virar poesia, o mundo está aí para ser vivido — embora as coisas, no mundo, pareçam estar em estado de poesia.

a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, à vida sem motivo & sentido:

poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metal. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Artes e Ofícios.)

 

 

se passar a vida
como um detetive
procurando o sentido
de cada palavra
que guarda
o infinito
de cada cabeça
que não passa
de uma cabeça
de fósforo
de cada estrela
mirada da janela
do apartamento
ou de um foguete
a vida se foi
e o sentido não veio

 

 

o mundo não está aí pra virar poesia
embora a árvore parada aguarde em silêncio
pronta pra ser fotografada
o gato de preto e punhos bancos
ande sempre com seu melhor traje
e os pássaros em vôo sincronizado
denunciem pela perfeição dos movimentos
que ensaiaram durante horas

o vento orquestra uma sinfonia muda
os panos de chão dançam pendurados nas janelas
as formigas
fingindo trabalhar
desfilam com suas folhas verdes
alegorias de mão
e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo
descascam voluntariamente
em permanente exposição

EUROPA & ÁFRICA: RELAÇÕES
21 de julho de 2014

Mapa_África & Europa

 

(Clique com o mouse no mapa para ampliar o seu tamanho.)
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esta publicação atira numa questão muito relevante, numa questão que tem a ver com o que se discute, hoje, sobre misturas de culturas & etnias.

como já comprovam alguns estudos, a troca entre a áfrica & a grécia antigas, troca cultural, comercial, ocorria de forma intensa desde tempos imemoriais.

tal relação de permuta entre essas culturas, certamente, criava, ajudava a criar, as identidades culturais de ambos os lados.

quando a europa — e o seu cientificismo do século XIX — se apropria de preceitos originários da antigüidade clássica, da grécia antiga, para a edificação de suas “sociedades civilizadas”, de suas sociedades “geneticamente superiores” às demais, a europa dos tempos modernos escamoteia, encobre, esconde, sistematicamente, toda a influência da cultura africana na cultura grega.

segundo o professor de história antiga do instituto de filosofia e ciências sociais (ifcs) da universidade federal do rio de janeiro (ufrj), andré chevitarese, um grande especialista em grécia antiga, a tradução mais fiel para as características de édipo, para o seu biotipo, célebre personagem da tragédia grega “édipo rei”, escrita pelo dramaturgo grego sófocles por volta de 427 a.C., é a de um homem “amorenado”, queimado pelo sol, com um tom de pele mais escuro, e não a do herói de “cútis alva como a neve”, como traduziram maliciosamente os europeus em suas versões para a peça original.

as trocas entre culturas, entre sociedades, por mais que alguns tentem negar, acontecem desde que o mundo é mundo.

inclusive, sabe-se já que, durante um período da história da humanidade, o norte da áfrica foi muito mais desenvolvido do que qualquer sociedade européia à época, concentrando cidades populosas, grandes obras públicas & feitos importantes nas áreas das ciências & das artes.

há claros indícios, em estudos sobre a américa pré-colombiana, de que os nossos índios, muitos localizados na região de minas gerais, mantinham trocas comerciais, culturais, e até científicas (sobre modos de preparo da terra, para o plantio, e também  sobre o cultivo do milho) com os índios que vinham do méxico(!). o intercâmbio que na américa ocorria, entre os residentes pré-colombianos, ia do leste ao oeste (do atlântico ao pacífico) & do norte ao sul.

o reggae maranhense é fruto das trocas culturais com o caribe, trocas que, segundo pesquisadores, existiam desde antes da chegada de colombo às terras americanas.

“cultura pura”, “cultura genuína”, “cultura de raiz”, são termos que não servem para muita coisa; na verdade, creio que não sirvam para nada. pois nada pode ser “genuinamente puro”, “intocado”, “virgem”, “de raiz”, feito, surgido, sob influência nenhuma. não existe um fundo próprio das coisas; na verdade, o fundo, sempre, é falso.

cultura que se deseja viva tem que viver a vida. e viver a vida significa estar inserido nela. o que se nega a trocar, a compartilhar, uma hora, é esquecido. e morre.

ser é visível, ser é estar à vista.

o que faz a vida é a troca. os brancos ensinaram, e ensinam, aos pretos tanto quanto os pretos ensinaram, e ensinam, aos brancos. em pé de igualdade.

isso só prova que o racismo se trata de uma grande burrice, isso só prova que o racismo se trata de uma grande estupidez.

misturar, mesclar, miscigenar: eis a única maneira de criar, eis a única maneira de gerar, eis a única maneira de inventar, coisas no mundo.

(próprio da beleza é o aparecer.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do: Dicionário da antiguidade africana. autor: Nei Lopes. editora: Civilização Brasileira.)

 

 

EUROPA E ÁFRICA: relações. À época da VI dinastia egípcia, por volta do século XX a.C., tempo em que, segundo Anta Diop, a Europa inteira não passava de um continente selvagem, em que Paris e Londres não eram mais que grandes extensões pantanosas, e Roma e Atenas dois lugares desertos, a África contava já, no vale do Nilo, com uma pujante civilização, onde pulsavam cidades populosas; onde o paciente esforço de várias gerações trabalhava o solo e erguia grandes obras públicas; onde as ciências e as artes alcançavam alturas insuspeitas, e onde, inclusive, a fé já havia criado deuses e deusas por muito tempo venerados (cf. Diop, 1979, vol. I, p. 231, nota I, a partir de J. Weulersse, 1934, p. 11). Nesse tempo, as rotas comerciais do vale do Nilo incluíam um ramo que começava no litoral egípcio, estendia-se para o oeste através do Mediterrâneo, e para o norte, ao longo do litoral da Europa ocidental, no mar Báltico, do qual os africanos extraíam âmbar. Segundo Don Luke, essa rota chegava às Ilhas Britânicas e à Escandinávia. Ver CÓLQUIDOS; ROTAS DE COMÉRCIO.

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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)

 

 

NEGRA GREGA

Negra negra

grega grega

de palavras & mercancias

no Porto das Palavras

de Alexandria

beleza é o ser visível

ser é visível

negra grega

da África Clássica

próprio da beleza é o aparecer

RECOMEÇO
6 de janeiro de 2014

Mar_Ri Mar

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o início de mais um ano: 2014.

mais um recomeço.

recomeço sempre pela palavra, como deus começou pelo verbo.

recomeço, contando o tempo (o tempo da palavra, para a música dos versos), e a palavra encontra seu par: a palavra “rimar” com a palavra “ritmar”.

da palavra, contar o seu tempo, para que ela encontre o seu devido par & realize a música dos versos: rimar & ritmar.

recomeço no mar, meu amante maior, minha fascinação derramada, como a vida veio da água (pesquisas científicas apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água do mar), como o feto, início de todos nós, também: durante 9 meses, a imersão em ambiente aquoso (na bolsa amniótica, que protege o feto de choques térmicos & mecânicos): quando fetos, antes de andar, aprendemos a nadar.

quando fetos, primeiro, NAdar. ANdar, isto é, trocar de meio, trocar a água pela terra firme (assim como as palavras, que trocam de sentido na mudança de duas letras, da  “N” & da “A”), depois.

no início de todos nós, no começo de tudo, primeiro, NAdar. ANdar, depois.

recomeço no mar: o mar ri. ri, mar.

o mar ri ao rimar o seu azul com as belas ilhas do sul, que realçam ainda mais a beleza da paisagem.

ao ritmar, o mar ri & faz-se rimar.

recomeço em mim mesmo, no rito da passagem anual, de onde sempre parto: de onde sempre nasço, de onde sempre me invento, de onde sempre me gesto.

recomeço em mim mesmo, de onde sempre parto: de onde sempre me lanço, de onde sempre me retiro, de onde sempre me desloco, de onde sempre vou embora.

recomeçar em mim mesmo: parir & partir.

parir & partir: nascer, renascer (com as transformações operadas caminho afora) & deslocar-se sempre, propondo-se a novos & inusitados desafios.

parir & partir: nascer, renascer (com as transformações operadas caminho afora) & quebrar, fragmentar-se, despedaçar-se, propondo-se a novas & inusitadas colagens.

(parir & partir: da palavra, contar o seu tempo, para que ela encontre o seu devido par & realize a música dos versos.)

um ótimo 2014 para nós!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)

 

 

Recomeço sempre na palavra
como deus começou pelo verbo.
Recomeço contando o tempo
e a palavra encontra seu par:
rimar e ritmar.
Recomeço no mar
como a vida
veio da água
como o feto
antes de andar
aprendeu a nadar.
O mar ri. Ri, mar. E ritmar.
Recomeço em mim mesmo
de onde sempre parto.
Parir e partir.
Sair e quebrar.

GAYS E HETEROSSEXUAIS INCURÁVEIS
6 de julho de 2013

Drauzio Varella

 

(Na foto, o médico Drauzio Varella.)
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abaixo,

aos senhores,

lindo & lúcido artigo, do médico drauzio varella, que, entre outras coisas, trata do projeto popularmente conhecido como “cura gay”, projeto aprovado pela comissão de direitos humanos presidida pelo pastor marco feliciano.

texto simples, de fácil apreensão, ao mesmo tempo que é sofisticado, repleto de conhecimento científico.

não deixem de ler!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do jornal: Folha de São Paulo. artigo publicado em: 30/06/13. autor: Drauzio Varella.)

 

 

GAYS E HETEROSSEXUAIS INCURÁVEIS

 

Apesar dos anos vividos, ainda me surpreendo com a estupidez humana.

Os crentes dizem que Deus houve por bem limitar-nos a inteligência, para impedir que bisbilhotássemos seus domínios. Se assim agiu, pena não lhe ter ocorrido impor limites para a burrice dos seres que criou à sua imagem e semelhança.

Um grupo de deputados reunidos na Comissão de Direitos Humanos, presidida por um evangélico sem nenhuma aparência de homem fervoroso, aprovou o projeto conhecido como “cura gay”, que assegura aos psicólogos o direito de aplicar métodos de tratamento destinados a transformar homo em heterossexuais, e de apregoar aos incautos a cura da homossexualidade, práticas condenadas pelo Conselho Federal de Psicologia e por todas as pessoas com um mínimo de discernimento.

Em todos os povos conhecidos, uma parcela de indivíduos em alguma fase da vida experimentou orgasmo por meio da estimulação dos genitais realizada por uma pessoa do mesmo sexo.

A incidência da homossexualidade varia de acordo com o grupo social. Um estudo clássico dos anos 1950 mostrou que em cerca de 60% das populações pesquisadas o comportamento homossexual é aceito sem restrições. Na África, entre os povos Siwan, e no sudoeste do Pacífico, entre os melanésios, virtualmente todos os homens praticaram sexo com outros homens em algum estágio da vida.

As 40% restantes vivem em países nos quais a homossexualidade é objeto de tabu social. As nações industrializadas se enquadram nesse grupo minoritário.

Embora os dados nem sempre confirmem com exatidão, a homossexualidade masculina parece ser duas a três vezes mais prevalente do que a feminina, em todas as sociedades até hoje avaliadas.

A maioria esmagadora dos indivíduos que experimentam orgasmos com pessoas do mesmo sexo são bissexuais. No Ocidente, homossexualidade pura, caracterizada pela ausência de práticas sexuais com o sexo oposto durante a vida inteira, ocorre em apenas 1% da população.

Comportamento homossexual tem sido descrito em répteis, pássaros e mamíferos, animais que na evolução divergiram há mais de 100 milhões de anos. Uma parte dos machos e fêmeas de todas as espécies de aves estudadas têm relações sexuais com indivíduos do mesmo sexo. Em muitas ocasiões, essas práticas terminam em orgasmo de apenas um ou dois dos parceiros.

Nos mamíferos, a maioria das relações homossexuais entre as fêmeas acontece quando uma parceira monta sobre a outra, comportamento já documentado em pelo menos 70 espécies: ratos, hamsters, coelhos, martas, gado, carneiros, cavalos, antílopes, porcos, macacos, chimpanzés, bonobos, leões etc.

Há mais de um século e meio, Charles Darwin nos ensinou que uma caraterística presente em diversas espécies distintas indica que foi herdada de um ancestral comum, portador do mesmo traço. Podemos garantir que o ancestral que deu origem aos vertebrados tinha dois globos oculares, caraterística herdada por todos os animais com esqueleto.

O paralelismo é óbvio, prezadíssimo leitor: se o comportamento homossexual está documentado em animais tão distintos quanto répteis, aves e mamíferos, é porque a homossexualidade é mais antiga do que a humanidade.

Certamente, já existiam hominídeos homo e bissexuais 5 a 7 milhões de anos atrás, quando nossos ancestrais resolveram descer das árvores nas savanas da África. Está coberta de razão a sabedoria popular ao dizer que a homossexualidade é mais velha do que andar a pé.

Sempre houve e haverá mulheres e homens que desejam pessoas do mesmo sexo, porque essa é uma característica inerente à condição humana. Com persistência e determinação, eles podem controlar o comportamento sexual, mas o desejo não. O desejo é uma força da natureza mais íntima de cada um de nós; é água que corre montanha abaixo.

Os fatores genéticos e as interações sociais envolvidas no comportamento sexual são de tal complexidade que só a ignorância crassa é capaz de propor simplificações.

Eu, que sempre coloquei em dúvida a masculinidade daqueles excessivamente preocupados ou ofendidos com a homossexualidade alheia, gostaria de saber em que porta de botequim os nobres deputados ouviram falar que o homossexual é um doente à espera de tratamento psicológico.

CANTO MANEIRO
4 de junho de 2013

Rio do Braço

(O ser do rio: nunca nos banhamos no mesmo rio…)
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eis, aqui, o canto maneiro, aqui, um modo de cantar bacana:

eu canto à maneira índia. eu canto à maneira negra. eu canto à maneira grega. eu canto à maneira gregoriana.

eis, aqui, o canto maneiro: todas as maneiras do cantar cabem no meu canto. todas as vozes a minha garganta abriga. porque belezas são complementares, não excludentes. e porque o que é belo ganha mais, fica melhor, porque existe o diferente. o mundo nos estampa isso a toda hora: a quantidade de formas & cores & elementos & texturas da natureza mostra que a beleza — num sentido mais amplo — está na diversidade.

eu canto de todas as maneiras (índia negra grega gregoriana): eis o canto maneiro: todas as vozes a minha voz abriga.

eu canto à maneira de heráclito: o fogo, o transe, a transmigração.

eu canto à maneira de heráclito: o ser do rio — nunca nos banhamos no mesmo rio.

heráclito: filósofo pré-socrático; parte do princípio de que tudo está em movimento, nada pode permanecer estático — tudo se move, tudo se movimenta, exceto o próprio movimento (heráclito é considerado por muitos o pai da “dialética”). heráclito cria no princípio do devir incessante, acreditava no princípio da transformação constante das coisas. aqui, um seu fragmento célebre: “não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, nem tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; graças à velocidade do movimento, tudo se dispersa  e se recompõe novamente, tudo vem e vai”. o filósofo pré-socrático atribuía a um elemento a responsabilidade da existência de todas as coisas mundanas em mudança: o fogo.

fogo: elemento que ilumina, que tira as coisas da escuridão, elemento que aquece.

somos como o rio: nunca as mesmas águas, sempre outras a passar. nunca somos os mesmos, vamos nos modificando com o passar do tempo (nascimento, infância, pré-adolescência, adolescência, as idades adultas & velhice), sempre metamorfoses ambulantes, sempre na transmigração, na alteração de domicílio — um dia, descobrimos que a “casa” que nos abriga não nos serve mais & precisamos abandoná-la por outra que nos dê a devida guarida, por outra que nos dê a devida acolhida.

o ser do rio: nunca nos banhamos no mesmo rio (nunca as mesmas águas, sempre outras a passar, o rio está em contínuo fluir)…

eu canto à maneira eletrônica, eu canto ao modo moderno de cantar, eu canto para o que é criação da inteligência humana, eu canto para a ciência, eu canto para os avanços tecnológicos & científicos que podem  melhorar a qualidade das nossas vidas.

eis, aqui, o canto maneiro: cantar à maneira índia, negra, grega, gregoriana: cantar a todas as maneiras de cantar.

eis, aqui, o canto maneiro: cantar à maneira de heráclito: o fogo, o transe, a transmigração, o ser do rio (nunca nos banhamos no mesmo rio…).

eis, aqui, o canto maneiro: cantar à maneira eletrônica, utilizar-se de tudo que no mundo está, seja velho, seja novo, seja o que for, a fim de cantar, e cantar bem, cantar com a voz emocionada, para que tudo o que é cantado exista em sintonia com o bem-estar do mundo, para que tudo o que é cantado esteja afinado com o bom da vida. tudo dentro do tom.

o canto maneiro: o canto que abriga, que acolhe, que oferece morada.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Mulheres de Péricles. artista: Vários. autor dos versos. Péricles Cavalcanti. selo: Joia Moderna.)

 

 

CANTO MANEIRO

 

Eu canto à maneira índia
Negra, grega, gregoriana
Eu canto à maneira de Heráclito
O fogo, o transe, a transmigração
O ser do rio
Nunca nos banhamos no mesmo rio
Eu canto à maneira eletrônica
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mulheres de Péricles. artista: Vários. canção: Canto maneiro. autor da canção: Péricles Cavalcanti. intérprete: Juliana Perdigão. selo: Joia Moderna.)

QUEREMOS SABER
23 de janeiro de 2013

Conhecer_Enciclopédia

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 desde que o mundo é mundo, uma das formas de se obter conhecimento é através das informações que nos são transmitidas.
 
desde que o homem é homem, ele utiliza-se de linguajares (o gestual, a palavra, a postura corporal) no intuito de transmitir informações aos seus, informações que acabam por gerar conhecimento.
 
a existência, aos nossos olhos miúdos & erráticos, é um grande mistério. não sabemos bem como surgiu a raça humana nem sabemos se o seu surgimento possui alguma razão, algum fundamento, alguma justificativa, ou se se trata apenas da ação do acaso, através de um processo natural & seletivo de bilhões & bilhões de anos. 
 
o ser humano mais desconhece que conhece.
 
talvez por isso, por nossa ignorância atávica, seja tão importante conhecer o pouco que conseguimos conhecer. 
 
conhecendo, acumulando saberes, podemos pensar mais claramente determinadas coisas.
 
conhecendo, acumulando saberes, podemos decidir mais claramente determinados posicionamentos.
 
diz o velho dito popular: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”: aquele que enxerga um tanto mais que os outros possui, a seu favor, o fato de conhecer algo que os outros desconhecem. o fato de conhecer algo que os outros desconhecem delega, a quem possui o conhecimento, o poder de manipular a seu favor — caso deseje — o conhecimento adquirido, obtendo, com isso, vantagens sem que ninguém as perceba. 
 
é importante que saibamos, é importante que conheçamos.
 
algumas das nossas determinações, muitas das nossas decisões, são tomadas a partir de um — suposto — conhecimento.
 
(ser o lobo do lobo do homem.)
 
queremos saber, queremos conhecer, a fim de decisões acertadas não em benefício de um, mas em benefício de todos.
 
queremos saber o que vão fazer com as novas invenções, o que será das pesquisas sobre genética, sobre célula-tronco, sobre remédios para cura de doenças graves. 
 
queremos notícia mais séria, notícia mais de acordo com os estudos feitos & repassados aos cientistas por cientistas, sobre a descoberta da antimatéria & suas implicações, suas conseqüências reais, ao entendimento do universo.
 
(antimatéria: é exatamente o oposto da matéria. a antimatéria é composta por antipartículas assim como a matéria é composta por partículas. há uma especulação considerável na ciência sobre o universo ser constituído, além de matéria, por antimatéria, há uma especulação considerável na ciência sobre lugares no universo constituídos unicamente por antimatéria.) 
 
queremos notícia mais séria sobre o que a ciência descobriu a respeito do universo. porque o conhecimento atua na conquista da emancipação do homem. o conhecimento atua na conquista da independência do homem. o conhecimento atua na conquista da liberdade do homem para pensar & voar alto.
 
a realidade das grandes populações, dos homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões, transformar-se-á quando as grandes populações, os homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões, conquistarem a sua emancipação, emancipação a ser conquistada através do mesmo conhecimento que forma doutores & cientistas, emancipação a ser conquistada através do acesso aos estudos científicos desenvolvidos pelos grandes cientistas.
 
queremos saber quando vamos ter raio laser mais barato, queremos saber quando a tecnologia (para um melhor viver) será distribuída a todos. 
 
queremos, de fato, um relato, um retrato mais sério, sobre o mistério da luz — luz do disco voador (o que se sabe, de fato, sobre vida em outros planetas, em outras galáxias? por que determinados arquivos da nasa, da agência espacial norte-americana responsável por pesquisas sobre o espaço & pela criação de tecnologias & programas de exploração espacial, são acessíveis a um número restrito de pessoas?).   
 
queremos esclarecimentos, caso haja esclarecimentos, sobre os mistérios que nos rodeiam, para a iluminação do homem, homem carente & sofredor, tão perdido da morada do senhor em suas estúpidas guerras “””santas””” (qualquer tipo de guerra é uma estupidez imensa), tão perdido da morada do senhor em seus egoísmos & suas ambições desenfreadas (uma outra imensa estupidez).
 
queremos viver confiantes no futuro. por isso, por querermos viver confiantes num futuro melhor para todos, faz-se necessário prever qual o itinerário, faz-se preciso saber qual o caminho, da ilusão — a ilusão do poder (aquele que detém a informação detém o conhecimento; detendo o conhecimento, aquele que detém a informação detém o poder, detém a possibilidade, de manipular tal conhecimento em benefício próprio). 
 
queremos saber, queremos conhecer. 
 
queremos sabedoria, cultura, erudição. 
 
(a gente não quer só comida. a gente quer comida, diversão & arte.)
 
queremos sabedoria, cultura, erudição. afinal, se foi permitido ao homem conhecer tantas coisas, é melhor que todos saibam o que pode acontecer (acontecer ao mundo futuramente, para que possamos melhor intervir naquilo que consideramos pernicioso & prejudicial à existência saudável da raça humana).
 
queremos saber, queremos conhecer. 
 
todos queremos saber, todos queremos sabedoria, cultura, erudição.
 
(que assim seja.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. autor: Gilberto Gil. organização: Carlos Rennó. editora: Companhia das letras.)
 
 
 
QUEREMOS SABER
 
 
Queremos saber
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
E suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes, dos sertões
 
Queremos saber
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos de fato um relato
Retrato mais sério
Do mistério da luz
Luz do disco-voador
Pra iluminação do homem
Tão carente e sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do Senhor
 
Queremos saber
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário
Prever qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer
 
Queremos saber
Queremos saber
Todos queremos saber
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Acústivo MTV. artista & intérprete: Cássia Eller. canção: Queremos saber. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)