SEI LÁ, NÃO SEI…
9 de junho de 2015

Cine Olaria_PB

Cine Olaria_2015

(Na primeira foto, o Cine Olaria, em funcionamento, como o conheci na infância & parte da adolescência; na segunda foto, o Cine Olaria nos dias atuais, desativado & abandonado.)
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Dias atrás, pensei com os meus botões: se existe uma vantagem em nascer em bairro do subúrbio, bairro periférico, portanto, bairro mais pobre, e eu enxergo outras tantas vantagens, é a oportunidade, mais contundente, de entender, através da razão & do sentimento, que a riqueza material — a grana, as ações, as apólices — nada tem a ver com a riqueza de sentimentos que se pode ter para doar.

Toda vez que escuto este poema-canção, toda vez que leio os seus versos, me vem à cabeça Olaria, bairro onde, depois de nascido (no Estácio) & saído do hospital, fui morar.

Um suburbano coração.

Os versos deste poema-canção me vêm à cabeça porque, quando penso em determinada área de Olaria, área que não acho esteticamente bonita mas que ao mesmo tempo acho bela, feliz, aprazível ao olhar, consigo me ver nas linhas poéticas, me espelho na voz do poeta, me digo nos versos do poema-canção.

Porque determinados lugares, que, a princípio, não agradam esteticamente, podem conter uma atmosfera, uma sintonia, uma espécie de “calmaria” & “alegria”, indescritíveis, que não estão na arquitetura, que não estão propriamente na “matéria”, nas construções avistadas.

Em Olaria, a poesia, feito o mar, se alastrou; e a beleza de um lugar no bairro, para entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê; a vida é um pouco mais do que o percebido pelos olhos, a vida é um pouco mais do que o tocado pelas mãos, a vida é um pouco mais do que o pisado pelos pés.

A beleza de certo local do lugar não me parece “palpável”, “material”. Eu vejo, sinto, percebo, determinado trecho de Olaria em todo o poema-canção.

A incerteza, a dúvida, o desconhecimento da razão de tamanho sentimento por um lugar, em Olaria, que esteticamente seria julgado como feio: sei lá, não sei… Não sei se, toda a beleza de que lhes falo, sai tão-somente do meu coração. Em Olaria, a poesia, num sobe & desce constante, anda descalça, de pé no chão, pobre, primordial, ensinando um modo novo de viver, de sonhar, de pensar, e sofrer.

Olaria: a sua calmaria, o seu silêncio, as suas muitas ruas de casarões, a sua face interiorana, a sua face feia & feliz, a sua pobreza, a sua despreocupação, me formam, me moldam, me conduzem.

Olaria é tão grande que nem cabe explicação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: De onde vêm as palavras. autor: Deonísio da Silva. editora: Lexikon.)

 

 

FAVELA: é controvertida a origem deste vocábulo. Pode ter vindo do latim “favilla”, cinza quente, ou de “favu”, o conjunto de alvéolos de uma colmeia, que também se chama cortiço. Nos dois casos, alude-se, por metáfora, a conjuntos de habitações precárias. Quanto à origem, na clássica oposição entre cru e cozido, que segundo alguns teóricos definiu as civilizações, a cinza quente lembra o fogo feito no chão, com o fim de assar ou cozinhar. Os antecessores dos modernos fogões a gás ou elétricos, feitos de ferro, substituíram os fogões de pedra. Mas entre uns e outros dominou um tipo especial de fogão de correntes, afixadas num tripé ou no teto das cozinhas. Ganchos apropriados serviam para que panelas e chaleiras fossem ali dependuradas, embaixo das quais crepitava o fogo do chão, depois tornado brasa e cinza. Vistos de longe, pelas frestas dos barracos ou ao ar livre, onde também eram feitos, esses fogos teriam dado àquele amontoado de casas a aparência de uma colmeia. Outra explicação para o significado de habitação popular é dada por Antenor Nascentes e acolhida pelo “Dicionário Houaiss”: na campanha de Canudos, os soldados ficaram instalados no Morro da Favela, localidade daquela região assim chamada porque ali havia grande quantidade da planta que leva este nome (favela). Quando voltaram ao Rio de Janeiro, “pediram licença ao Ministério da Guerra para se estabelecerem com suas famílias no alto do Morro da Providência e passaram a chamá-lo Morro da Favela.”
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(autor: Hermínio Bello de Carvalho.)

 

 

SEI LÁ, MANGUEIRA

 

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá…
Sei lá, em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar

Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei…
Não sei se toda a beleza de que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe e desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De sonhar, de pensar e sofrer

Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei, não…
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

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(do site: Youtube. do álbum: Cantoria. canção: Sei lá, Mangueira. versos: Hermínio Bello de Carvalho. música: Paulinho da Viola. intérprete: Caetano Veloso. Participação especial: Paulinho da Viola / Chico Buarque. gravadora: Biscoito Fino.)

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É TUDO AMOR
2 de dezembro de 2014

Samambaia

(É tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança: na foto, uma samambaia, planta preferida do meu pai, o primeiríssimo Paulo Sabino)
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se entre nós, no primeiro dia do último mês do ano (01/12), o responsável por trazer à luz da vida este que vos escreve, o primeiríssimo paulo sabino, venceria as suas 72 primaveras.

2014: este ano, exatos 10 anos sem a presença dele.

2014: este ano, exatos 10 anos com a presença dele apenas em mim: no meu gestual, na minha alegria de vida, no meu bom-humor, na delicadeza que busco no trato dispensado aos meus demais irmãos de terra: na minha memória.

2014: há exatos 10 anos, o grande paulo sabino, o primeiríssimo, partia deste mundo para tornar-se uma estrela-guia no meu trajeto noite adentro, estrela-guia na obscuridade em que se projeta a existência.

o que há de melhor, em mim, eu devo a ele. tanto devo, que, hoje, o que, antes, foi uma saudade demasiadamente doída, 10 anos depois da sua partida transfigurou-se em lembranças doces. por vezes melancólicas, porém muito doces na sua composição.

filho de um violonista baiano & de uma catarinense, foi envolvido com a música, especificamente com o samba, desde que me entendo por gente (envolveu-se por 10 anos com uma escola de samba do rio de janeiro).

adorava viajar de carro, adorava passeios ao ar livre (o parque do flamengo foi dos seus cenários prediletos), adorava cinema (foi ele quem me apresentou almodóvar, lá atrás, quando o diretor espanhol nem sonhava com o sucesso que alcançou).

adorava dançar em casa, e se acabava quando eu, fascinado por sua presença alegre, iluminada, punha, na vitrola, determinadas canções que o faziam rodopiar pela casa com o seu sorriso farto, de quem nasceu para a amorosidade.

ele foi um apaixonado pela língua portuguesa & admirava & apostava no meu talento para com as letras, desde que me dedico à poesia & à interpretação de poemas.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança, um traço do seu rosto, o fluido passo de uma dança, uma canção — na vitrola antiga — que foge em meio à bruma.

é tudo amor: é tudo o que há na ponta de uma lança que nos fere como áspera verruma (verruma: instrumento de aço que tem a sua extremidade inferior aberta em espiral e terminada em ponta, usado para abrir furos), pois todos sabemos, como já versejou o poetinha, que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz, todos sabemos que o amor é a coisa mais triste quando perdido, e, quando fere, quando machuca, ninguém mais se apruma, ninguém mais se endireita, nem que o gáudio — nem que a alegria, o contentamento — da vingança — quando perde-se um amor & o sentimento torna-se mágoa — conserte o furo, a ferida, que o amor causou.

o amor é tudo & apenas o que não se alcança, porque não se pode compreender plenamente o amor: nenhuma definição existente sobre o amor consegue conter o que seja o amor em sua plenitude: ao amor cabe o imponderável, ao amor cabe o inexplicável.

o amor é o que, às vezes tão próximo, se esfuma & escorre mais depressa do que a espuma com que as ondas tecem sua trança de água & sal.

o amor é a chaga que, sendo fugaz, sendo efêmera, passageira, perdura & nos dói como um mal que não tem cura.

o amor é tudo isso & um pouco mais: o amor não possui forma, fórmula, cheiro, cor, cara, peso, tamanho. por mais bem escrita a definição, não existe definição que comporte todo o matiz, todo o colorido, que o amor carrega, que o mais nobre dos sentimentos agrega.

mas seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo com admirações tamanhas que do amor & seu abismo não se consiga mais sair.

pai, por tudo, por tanto, esta singela homenagem nesta primeira década sem a sua presença física, com você aceso em mim. uma chama que nunca se extinguirá neste peito. não há vento ou tempestade capaz de apagá-la, não há intempérie capaz de miná-la.

chama eterna, como eterno o meu amor por você.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança.

salve o primeiríssimo paulo sabino!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino, o filho.
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(do livro: Essa música. autor: Ivan Junqueira. editora: Rocco.)

 

 

É TUDO AMOR

 

É tudo amor, e mais coisa nenhuma
de que sequer se guarde uma lembrança,
um traço, o fluido passo de uma dança,
uma canção que foge em meio à bruma.
É tudo o que há na ponta de uma lança
que nos fere como áspera verruma
e, quando fere, ninguém mais se apruma,
nem que o conserte o gáudio da vingança.
É tudo e apenas o que não se alcança,
o que, às vezes tão próximo, se esfuma
e escorre mais depressa do que a espuma
com que tecem as ondas sua trança.
É a chaga que, sendo fugaz, perdura
e nos dói como um mal que não tem cura.

UM NOVO PLANO, UM NOVO ÂNGULO: E NUNCA ESQUECER O POEMA
3 de abril de 2012

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decantar os sentimentos.
 
separar, dos sentimentos, os “sedimentos” que sobram, separar, dos sentimentos, as “impurezas” que restam.
 
afinal, nem tudo que se sente é de cantar. nem tudo que se sente é para compartilhar. nem tudo que se sente é para repartir, alastrar em verso.
 
decantar o que é de cantar.
 
depois do processo de decantação, após o processo de filtragem dos sentimentos, recolher, no fundo do recipiente, o mais pesado que o ar (o resíduo que fica de um sentimento), antes que voe. 
 
recolher, no fundo do recipiente após a decantação, o mais pesado que o ar, que, apesar de ser “o mais pesado que o ar” (o resíduo que fica de um sentimento), pode voar. 
 
recolher “o mais pesado que o ar”: recolher aquilo que pesa, recolher aquilo que, por falta de leveza, incomoda, recolher aquilo que, por falta de airosidade, importuna. 
 
captar o resíduo (mais pesado que o ar) no recipiente, antes que voe (antes que seja perdido, antes que seja tarde demais), e  ampliar na microlente (do viver) o desconforto — evidente — entre a vida que se leva & a que não se sabe se virá.
 
entre a vida que levamos & a vida desejada, existe uma diferença (tremenda), evidentemente. e essa diferença (entre o desejo de uma vida & a vida como ela é) acaba por trazer um certo desconforto existencial.
 
o desconforto existencial: peso que resta no fundo do recipiente.
 
a fim de que a balança se equilibre (o desejo de uma vida X a vida como ela é), em caso de “grande” (a medida do desconsolo cabe a cada um de nós) desconforto existencial (porque algum desconforto teremos inevitavelmente; somos seres insatisfeitos por natureza), inventar um novo plano, como no cinema (plano: trecho de filme ou de gravação de vídeo feito com uma única tomada, sem cortes), inventar, como no cinema, um novo ângulo (posição da câmera em relação ao objeto em foco, em cena), inventar fotografias, inventar novos enquadramentos, como no cinema, que tudo se transforma pelo olhar.
 
o olhar & seu grande poder transformador: tudo depende do modo como enxergamos, tudo varia de acordo com a maneira que encaramos, as “cenas” do grande filme que vamos montando, plano único, sem cortes & sem direito a emendas. 
 
o olhar também é feito de escolhas, ainda que muito profundas, ainda que imperceptíveis conscientemente.
 
pode-se olhar o vôo de um pássaro no céu azul & ignorá-lo por inteiro. pode-se olhar uma flor (a forma da sua corola, determinada pelo desenho das pétalas) & não estar atento a ela. pode-se avistar o sorriso solto, espontâneo, de uma criancinha na rua & tal sorriso não significar coisa alguma.
 
o olhar é feito, sobretudo, de escolhas (conscientes ou não).
 
em prol de um novo plano-seqüência (como no cinema), e também em prol de um novo plano, isto é, em prol de uma nova proposta, de um novo propósito, de uma nova idéia, em prol de um novo ângulo (que tudo se transforma pelo olhar), não vá esquecer este poema como se esquecem os nomes, um encontro, o número do telefone.
 
não vá esquecer este poema (e pensar que o que peço é um paradoxo, já que tudo, na vida, é esquecimento. lembramos, recordamos, porque, sobretudo, esquecemos, deslembramos).
 
não vá esquecer, e tudo é esquecimento — exceto o que pulsa & impulsiona para frente…
 
fica-nos o que nos importa. fica-nos o que nos exporta.
 
(que o poema pulse & nos impulsione para frente!)
 
leve este poema consigo. guarde na carteira. cole no espelho.
 
(a gente nunca sabe quando vai precisar…)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
decantar os sentimentos
nem tudo que se sente
                             é de cantar
 
recolher no fundo
do recipiente (antes que voe)
o mais pesado
                             que o ar
 
ampliar na microlente
o desconforto, evidente,
entre a vida que se leva
e a que não se sabe
                             se virá
 
inventar um novo plano,
como no cinema, um novo ângulo,
que tudo se transforma
                             pelo olhar
 
 
 
Não vá esquecer este poema
como se esquecem os nomes
um encontro
o número do telefone
Não vá esquecer
e tudo é esquecimento
(exceto o que pulsa
o que impulsiona pra frente)
Leve este poema consigo
guarde na carteira
cole no espelho
A gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema

ÀS MÃOS DE MEU PAI, UNS VERSOS MUITO LINDOS
6 de dezembro de 2011

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pai,
 
neste mês de dezembro, mês em que você, se estivesse por aqui, venceria as suas 69 primaveras, quero trazer-lhe uns versos muito lindos, colhidos no mais íntimo de mim…
 
versos colhidos no mais íntimo de mim para o homem que me ensinou o bom-humor, a alegria, que me ensinou a ser piadista, a não me levar tão a sério. versos muito lindos ao homem que incitou o meu gosto por água, especialmente pelo mar, uma vez que nasci & vivo numa cidade tomada por ele, pelo mar, eloqüente, imponente em sua vastidão azul. versos ao homem que, aos domigos, religiosamente, levava a família para um passeio ao ar livre (o aterro do flamengo era um dos seus locais favoritos), e, depois, ao cinema, uma das suas GRANDES paixões. homem que sempre me admirou, que sempre apostou em mim, que sempre se preocupou com o meu bem-estar.
 
assim como você, pai, as palavras dos versos que desejo ofertar-lhe são simples, palavras singelas, porém palavras com uma luz tão forte, tão bonita, que você, pai, teria de fechar seus olhos para as ouvir.
 
sim!, uma luz forte, bonita, que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel.
 
sim!, uma luz forte, bonita, que viria de dentro das palavras, palavras iluminadas pela luz que vem de dentro das suas mãos, mãos que têm grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já cor de terra.
 
como, na minha memória, são belas as suas mãos!…
 
mãos que abrigaram a nobre cólera dos justos, a nobre cólera daqueles que não se conformam com um mundo tão cheio de mazelas, tão carecido de bons sentimentos. mãos que nunca me bateram, mãos firmes que guiavam sem violências, mãos a serviço do afago, da meiguice, da carícia, do zelo. 
 
a luz das palavras que lhe trago, pai, vem dessa chama que, pouco a pouco, longamente,  você, durante a sua jornada, veio alimentando na terrível solidão do mundo, chama que me alimenta, que nutre o meu ser, chama que me faz prosseguir buscando fortaleza mesmo nos momentos difíceis, momentos de certa escuridão, momentos de dores & dissabores.
 
a você, pai, trago palavras, apenas palavras… e que são escritas fora do papel, escritas no meu sentimento pelo amor que em mim existe & perdura, firme, forte, em riste. 
 
são tantas coisas a dizer, pai, tantas coisas, que nem sei exatamente como dizê-las, e estas linhas vão morrendo, ardentes & puras, ao vento da poesia…
 
que bom, pai, que privilégio a sua passagem pela minha existência, como aprendemos um com o outro! salve!
 
agora fico por aqui.
 
eis a minha homenagem, mais que merecida, a você, pai, o grande homem da minha vida.
 
beijo imenso, meu “véio”.
amor eterno. 
saudade longa.
 
seu filhote.
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(do livro: Poesia completa – volume único. autor: Mario Quintana. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS
 
 
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca
                                                                                   soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!
 
 
 
AS MÃOS DE MEU PAI
 
 
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
                                                                              cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se
                                                                   chama simplesmente vida. 
 E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua
                                                                                    cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
                          alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra
                                                                                                   o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma. 

A OFERTA
19 de outubro de 2011

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benvindos,
 
hoje, 19 de outubro, há exatos 69 anos, nascia aquela que veio a ser a responsável pela concepção deste rapazinho que lhes escreve neste exato momento.
 
hoje, 19 de outubro, a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas 69 primaveras, bem bonita, vigorosa, como mostra a foto.
 
dona jurema armond é GRANDE responsável pelo meu amor à literatura, ao cinema & à música.
 
descobri a poesia através de uma artista que sempre foi o MAIOR ÍDOLO da minha cabocla: maria bethânia.
 
dona jurema armond é muito responsável pelo ânimo do paulo sabino. muito carinhosa, muito amorosa & bem-humorada. divertida. engraçada. às vezes rio sozinho lembrando coisas feitas por ela, coisas ditas por ela.
 
ela é melhor do que eu, não tenho dúvidas. possui capacidades amorosas que ainda não alcanço. eu sou mais genioso, mais “respondão”, não sou de levar desaforo para casa. mesmo. em geral revido na mesma moeda. mesmo. ela, dona jurema, ela é mais branda, mais suave, mais delicada.
 
porém, mesmo sendo menos paciente (o meu temperamento, quando aborrecido, é mais próximo ao do meu pai), sou um homem de delicadezas. prezo pelo bom trato, pelo carinho, pela troca amiga.
 
isso, senhores, eu herdei, é um legado, da cabocla, legado que vejo muito bonito, muito  importante; isso é um sinal de que jurema armond apostou no delicado da  vida.
 
e não vale pensar que a vida dessa mulher é só alegria, só bons momentos.
 
como todo & qualquer bom ser humano, dona jurema armond também viveu os seus maus momentos; momentos de dor, momentos de solidão.
 
todavia, a cabocla sempre deu a volta por cima. aposta no bom humor & tem sua atenção às belezas do quotidiano, não se prendendo às durezas & friezas que determinados sentimentos (de dor, de solidão) podem gerar.
 
o seu lema: viver a dor para, um dia, libertar-se dela.
 
o seu tema: não se deixar destruir.
 
ajuntar as pedras que nos atravessam o caminho, juntá-las todas, e, com elas, a construção de novos poemas.
 
recriar a vida, sempre, sempre.
 
fazer, da vida mesquinha que se possa levar, um poema.
 
é assim que a cabocla vive no meu coração de eterno menino seu, coração jovem, e é assim que a cabocla viverá junto a mim & aos meus.
 
a sua fonte, de força, é para uso de todos os sedentos.
 
sem entraves.
 
a cabocla é pessoa simples; gosta de plantas, de cuidar das plantas, de ter mato por perto; a gleba, o terreno fértil, a transfigura para mais & melhor. e gosta de bichos, de todos soltos, livres, a viver a sua natureza. mulher de simplicidades, gosta muito dos pequenos prazeres, dos que, ao meu ver, realmente importam. o que almeja, quando à vida, é tão singelo, mas ao mesmo tempo tão revolucionário!…
 
o MESTRE carlos drummond de andrade, na sua última entrevista, concedida ao jornal do brasil & publicada 5 dias após a sua morte, em 22 de agosto de 1987, fala o seguinte a respeito da beleza:
 
 
A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela… Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime.   
 
 
ensinamentos para o bem viver, eis a oferta de jurema armond:
 
a cabocla é aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. 69 anos. ensinou a amar a vida. a não desistir da luta. a recomeçar na derrota. a renunciar a palavras & pensamentos negativos. a acreditar nos valores humanos. a ser otimista. 
 
a cabocla crê na solidariedade humana. crê na superação dos erros & angústias do presente.
 
acredita nos jovens, aposta num futuro melhor com a vinda das novas gerações, gerações que descobrirão uma profilaxia, um modo de prevenir, os erros & violências do presente.
 
aprendi, com ela, que mais vale lutar do que recolher dinheiro “fácil”, digo, dinheiro “sujo”, que não é meu por direito.
 
aprendi, com ela, que mais vale acreditar do que duvidar.
 
é dela, de dona jurema armond, que descende o meu modo de enxergar a vida, buscando o melhor para mim, desejando o melhor para todos nós.
 
por isso saúdo a sua existência!
 
parabéns pela data, mãe!
 
beijo IMENSO, minha cabocla!
beijo nos demais!
 
(o filho da dona juju.)
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(do livro: Melhores poemas. seleção: Darcy França Denófrio. autora: Cora Coralina. editora: Global.)
 
 
 
ANINHA E SUAS PEDRAS
 
(Outubro, 1981)
 
 
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
 
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
 
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
 
 
 
A GLEBA ME TRANSFIGURA
 
 
Sinto que sou a abelha no seu artesanato.
Meus versos têm cheiro dos matos, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
Amo a terra de um místico amor consagrado, num
                                                              esponsal sublimado,
procriador e fecundo.
Sinto seus trabalhadores rudes e obscuros,
suas aspirações inalcançadas, apreensões e desenganos.
Plantei e colhi pelas suas mãos calosas e mal
                                                              remuneradas.
Participamos receosos do sol e da chuva em
                                                               desencontro,
nas lavouras carecidas.
Acompanhamos atentos, trovões longínquos e o riscar
de relâmpagos no escuro da noite, irmanados no
                                                                                   regozijo
das formações escuras e pejadas no espaço
e o refrigério da chuva nas roças plantadas, nos pastos
                                                                                             maduros
e nas cabeceiras das aguadas.
Minha identificação profunda e amorosa 
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros,
o roncar e focinhar dos porcos, o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir dos cães,
eu me identifico.
Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto, sou mato, sou paiol
e sou a velha da tulha de barro.
Pela minha voz cantam todos os pássaros, piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que vão pelas
                                                                                               estradas.
Sou a espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice e
peso de machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
 
Eu me procuro no passado.
Procuro a mulher sitiante, neta de sesmeiros.
Procuro Aninha, a inzoneira que conversava  com as
                                                                                         formigas,
e seu comadrio com o ninho das rolinhas.
Onde está Aninha, a inzoneira,
menina do banco das mais atrasadas da escola de
                                                                   Mestre Silvina…
Onde ficaram os bancos e as velhas cartilhas da minha
                                                                            escola primária?
Minha mestra… Minha mestra… beijo-lhe as mãos,
tão pobre!…
Meus velhos colegas, um a um foram partindo,
                                                        raleando a fileira…
Aninha, a sobrevivente, sua escrita pesada, assentada
nas pedras da nossa cidade…
 
Amo a terra de um velho amor consagrado
através das gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
Identificada com seus homens rudes e obscuros,
enxadeiros, machadeiros e boiadeiros, peões e
                                                                         moradores.
Seus trabalhos rotineiros, suas limitadas aspirações.
Partilhei com eles de esperança e desenganos.
 
Juntos, rezamos pela chuva e pelo sol.
Assuntamos de um trovão longínquo, de um fuzilar
de relâmpagos, de um sol fulgurante e desesperador,
abatendo as lavouras carecidas.
Festejamos a formação no espaço de grandes nuvens 
                                                                                             escuras
e pejadas para a salvação das lavouras a se perderem.
Plantei pelas suas enxadas e suas mãos calosas.
Colhi pelo seu esforço e constância.
 
Minha identificação com a gleba e com a sua gente.
Mulher da roça eu o sou. Mulher operária, doceira,
abelha no seu artesanato, boa cozinheira, boa lavadeira.
A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra.
Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo.
Sou a cigarra cantadeira de um longo estio que se
                                                                            chama Vida.
Sou a formiga incansável, diligente, compondo seus
                                                                                         abastos.
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e
                                                                             sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra.
Minha pena é a enxada do plantador, é o arado que vai
                                                                                             sulcando
para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e
                                                                                 fecundada
no ventre escuro da terra. 
  
 
 
OFERTA DE ANINHA
(AOS MOÇOS)
 
 
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
 
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
 
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
 
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

VOCÊ TEM MEDO DE DIZER “EU TE AMO”?
31 de março de 2011

Este vídeo é das coisas mais LINDAS a que assisti nos últimos tempos!

Que coisa comovente! Que coisa mais delicada, quanta riqueza a humanidade pode oferecer!… E pensar que guerras podem acabar com toda esta magia…

O rapazinho do filme resgata, em mim, ânimo & disposição & crença de que tudo pode ser melhor. E ele, o rapazinho, assim o faz sem a menor pretensão de fazê-lo, sendo ele bem natural, bem espontâneo.

Não há nada de discurso “pró-isso” ou “pró-aquilo”; o rapazinho é delicadamente brutal. “Brutal”, porque na delicadeza do seu ato, somos acertados em cheio, a golpe forte. É um soco no estômago, é como se dissesse: “ô, seus imbecis, estão vendo o que pode ser a vida? Estão vendo?”

Isso, para mim, é bárbaro, é revolucionário. É isso o que quero para a poesia, é o que almejo com a poesia, é o que acho ser da capacidade da poesia. Este vídeo é poesia.

Sem favor, senhores, porque isto não é favor algum: AMEM! Sem medos.

Este vídeo, pequeno, é para ser visto & revisto, pois ele redimensiona, em nós, sentimentos nobres, sentimentos bonitos.

(Ganhei o dia com estas imagens!)

Beijo todos!

Paulo Sabino.

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(vídeo extraído do site: Youtube.)

A FLOR
19 de outubro de 2010

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hoje,
 
para este que vos escreve, é um grande dia.
 
pois que a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas sessenta e oito primaveras, lindíssima, como se pode ver na foto; mulher cheia de saúde, de alegria e de bondade.
 
senhores,
 
jurema armond é das pessoas mais amorosas que conheço. o seu entendimento das coisas perpassa o coração, impreterivelmente. entre mim e ela sempre houve um entendimento que se dá na seara do amor.
 
a certeza disto: se hoje o paulo sabino é um homem amoroso, um homem de bem-querer, boa, grande, incomensurável é a responsabilidade da minha cabocla.
 
foi com ela que tudo começou:
 
o prazer pela leitura, estimulado pelas diversas coleções de livros infantis;
 
as idas ao teatro e ao cinema;
 
a paixão pela música brasileira, que teve início em maria bethânia, a GRANDE diva na vida da cabocla (e que tomei para mim). foi bethânia quem me abriu as portas da poesia escrita, ainda bem novinho, com fernando pessoa, o poeta número um da artista;
 
o amor pelo mar: ele veio com ela, com a minha cabocla, que, junto ao meu pai, me adorava levar a praias diversas, mesmo com o seu pavor de mar & ondas (rs). me estimulou a fazer natação, a desenvolver ainda mais a minha relação com água, elemento que me fascina, que me vira a cabeça.
 
volta e meia digo à dona jurema armond, num tom de brincadeira séria (que acho o tom correto para este meu sarro – rs), que o mundo, a humanidade, seria mutíssimo melhor se a conhecesse fundo, se pudesse a humanidade conviver com as suas verdades, com a sua integridade, com a sua capacidade de acarinhar & cuidar.
 
viro o mundo de cabeça para baixo pela felicidade de dona jurema armond. no que de mim depender, o mundo mau não a alcançará nunca.
 
a ela saúdo com esta salva de palavras atiradas ao papel.
 
a homenagem segue com um apanhado de poemas escritos por uma poeta que a dona jurema ADORA.
 
conheci a poeta ainda jovenzinho, assistindo a um programa de poesia na tv. tratava-se de um especial sobre a poeta. fiquei fascinado por aquela “avozinha” de cabelos bem branquinhos, de voz doce & delicada, bem-humorada, contando histórias de sua infância & adolescência num tempo muito antigo, tempo de escravos, de amas de leite, fazenda, rezas & terços, de acentuada religiosidade, de rigores no comportamento social, de castigos corporais, de conservadorismos, de subserviência feminina ao “poder patriarcal”.
 
(se pensarmos bem, esse tempo não parece tão distante deste tempo, infelizmente…)
 
a poeta escondeu a vida toda os seus versos da sua família, que considerava “prestimosa” a mulher dedicada exclusivamente às tarefas domésticas. segundo a família, mulher não nascera para pensar.
 
trata-se de uma poeta nascida em 1889, revelada ao grande público aos 76 anos de idade por ninguém menos que o MESTRE carlos drummond de andrade. o bardo a definiu “diamante solitário”, pois que, a rigor,
 
cora coralina não seguiu escolas nem estilos.
 
foi única na forma de expressar, no seu tempo, a sua poesia.
 
jurema armond também é feita de ineditismo: a sua forma de expressar, no seu tempo, o seu amor. por isso a cabocla me é tão cara: porque rara: porque um diamante solitário.
 
a você, pessoa mais que adorada, os meus parabéns pela data e o desejo dos três “s”: saúde, sorte & sucesso nas realizações!
 
beijo-TITÃ em você, minha flor!
 
um outro grande nos senhores!
 
o filho da dona juju.
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(do livro: Melhores poemas — Cora Coralina. seleção: Darcy França Denófrio. editora: Global.)
 
 
TODAS AS VIDAS
 
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acordada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
 
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
 
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
 
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.
 
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
 
Todas as vidas dentro de mim.
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.
 
 
OS HOMENS
 
Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. É aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.
 
É como a água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
                                           represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que encontramos
                                                                        na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.
 
Há também, lado a lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
                                                reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos
                                                              os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.
 
Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir — conduz.
Não improvisa — estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiem,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.
 
Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
 
 
ESTA É A TUA SAFRA
 
Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem
                                                                 digam,
coitada da mamãe…
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.
 
Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das novas gerações.
 
Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam
                                                          revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.
 
Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.
 
Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que
                                                           te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade
                                                                humana.
Esta é a tua safra.
 
 
A FLOR
 
Na haste
hierática e vertical
pompeia.
Sobe para a luz e para o alto
a flor…
 
Ainda não.
 
Veio de longe.
Muda viajeira
dentro de um plástico esquecida.
Nem cuidados dei
à grande e rude matriz fecundada.
Apanhada num monte de entulho de lixeira.
 
“Cebola brava” na botânica
sapiente de seu Vicente.
Oitenta e alguns avos de enxada e terra.
Sabedoria agra.
Afilhado do Padim Cícero.
Menosprezo pelas “flores”:
“De que val’isso?”    
Displicente, exato, irredutível.
 
E eu, meu Deus,
extasiada,
vendo, sentindo e acompanhando,
fremente,
aquela inesperada gestação.
 
— Um bulbo, tubérculo, célula
de vida rejeitada, levada na hora certa
à maternidade da terra.
 
                                                                          A Flor…
 
Ainda não.
Espátula. Botão
hígido, encerrado, hermético,
inviolado
no seu mistério.
Tenro vegetal, túmido de seiva.
Promessa, encantamento.
Folhas longas, espalmadas.
Espadins verdes
montando guarda.
 
                                                               Da Flor…
 
A expectativa, o medo.
Aquele caule frágil
ser quebrado no escuro da noite.
O vento, a chuva, o granizo.
A irreverância gosmenta
de um verme rastejante.
O imprevisto atentado
de alheia mão
consciente ou não.
 
Alerta. Insone.
Madrugadora.
 
Na manhã mal nascida,
toda em rendas cor-de-rosa,
túrgida de luz,
ao sol rascante do meio-dia.
No silêncio serenado da noite
eu, partejando o nascer da flor,
que ali vem na clausura
uterina de um botão.
Rombóide.
 
                                                    Para a flor…
 
Chamei a tantos…
Indiferentes, alheios,
ninguém sentiu comigo
o mistério daquela liturgia floral.
Encerrada na custódia do botão,
ela se enfeita para os esponsais do sol.
Ela se penteia, se veste nupcial
para o esplendor de sua efêmera
vida vegetal.
 
Na minha aflita vigília
pergunto:
— De que cor será a flor?
 
Chamo e conclamo de alheias distâncias
alheias sensibilidades.
Ninguém responde.
Ninguém sente comigo
aquele ministério oculto
aquele sortilégio a se quebrar.
 
                                                                             Afinal a Flor…
 
Do conúbio místico da terra e do sol
— a eclosão. Quatro lírios
semi-abertos,
apontando os pontos cardeais
no ápice da haste.
Vara florida de castidade santa.
Certo heráldico. Emblema litúrgico
de algum príncipe profeta bíblico
egresso das páginas sagradas
do Livro dos Reis ou do Habacuc.
 
E foi assim que eu vi a flor.
 
 
MEU EPITÁFIO
 
Morta… serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.
 
Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.
 
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
_________________________________________________________________________

OBSESSÃO
12 de junho de 2010

obsessão:
 
compulsão mania atração fixação motivação.
 
obsessão:
 
a doença no homem.
 
no artista, a saúde.
 
(os temas & assuntos & acontecimentos nas peças de nelson rodrigues, os temas & assuntos & situações nos filmes de woody allen & pedro almodóvar, os traços de picasso, os paradoxos em pessoa, a secura & exatidão nos versos de cabral, a porra-louquice lúcida de waly, o suingue nas músicas de benjor, o esmero nos efeitos poéticos das letras de chico buarque, a precisão das notas na voz & no violão de joão gilberto:
 
a tudo isso: obsessão.)
 
ali a ilha nesse mar tão desmedido, ali a luz no escuro inexpressivo: obsessão diária, renitente, recorrente (minha).
 
 
(a obsessão dos poetas: por mais viciantes o cigarro, o sexo, o álcool, viciam, ainda mais: as palavras.)
 
 
beijo bom & carinhoso em vocês,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Belvedere [1971-2007]. autor: Chacal. editora: 7Letras / Cosac Nairfy.)
 
 
OBSESSÃO
 
ali a linha
que atravessa
o labirinto
ali o fio
da meada
interminável
 
obsessão
 
(toda peça
— adultérios, incestos, tabus —
a mesma peça
em nelson
todo poema a mesma pancada
em cabral
toda canção a mesma levada
em benjor)
 
obsessão
 
o cara só pensa nisso
a mina não entra em outra
 
obsessão
 
ali a ilha
nesse mar
tão desmedido
ali a luz
no escuro
inexpressivo
 
obsessão 

A MANCHA ESCURA
14 de maio de 2010

queridões & queridonas,
 
há bastante tempo penso em publicar este poema. quando terminei a primeira leitura que fiz, chorava sem conseguir conter as lágrimas (rs). fiquei tão emocionado que, à primeira oportunidade, li-o para minha mãe, a cabocla jurema armond, e ela também se emocionou muito.
 
na verdade, o que desejo é fazer uma espécie de filme com estas linhas. elas são cinematográficas; tenho tudo na cabeça: planos, contraplanos, cortes, ângulos, fotografia, tudo para a realização da película. pela ambição deste que vos escreve, a produção não sairia nada barata (rs), mas o vídeo ficaria lindíssimo (rs).
 
e já que ontem, 13 de maio, foi o dia em que se decretou oficialmente o fim da escravidão, a razão de publicar os versos a seguir surgiu (e caiu) como uma luva.
 
o poema trata da chegada, numa manhã, de uma mancha negra que toma, por completo, tudo o que encontra pela frente. há, na vida de quem vive tal experiência, um grande desconcerto pelo acontecimento. a flor-manhã, que nos chega sempre clara, desabrochou em naco de carvão. cidades inteiras encobertas por essa “estranha” mácula negra que aterrisou por sobre tudo & todos. 
 
junto com a mancha escura, podia-se ouvir, e até mesmo ver, certa música a crescer como o raio daquela nódoa que atingia o centro das coisas, o coração do mundo.
 
de maneira poética (e lindíssima), o poema anuncia a chegada da mancha escura, isto é, anuncia a chegada da marca negra, (im)posta, pela força da cultura africana, no dia-a-dia nosso. no fundo, o poema, liricamente, aponta para a chegada dos traços de uma cultura que se fincou e deu raízes, mesmo contra a vontade de muitos. a introdução, com a chegada forçosa dos negros, da nódoa que esses negros traziam consigo, a nódoa das palavras, a nódoa das religiões, a nódoa dos ritmos musicais, a nódoa da sua existência. 
 
hoje, queiram ou não, a cultura brasileira é tomada por signos que se desdobraram do que trouxeram os africanos. no cancioneiro popular, se pensarmos nos ritmos aqui criados, tal influência é notória. por isso o título da poesia funciona muitíssimo bem: o tambor, instrumento africano percussivo de vários tamanhos e formas, amplamente utilizado na nossa música.
 
muita luta, muito suor, muito sangue derramado, muitas lágrimas & pesares, para que eu, paulo sabino, um preto (com todas as letras – rs), chegasse até aqui.
 
portanto, o meu respeito & a minha reverência a todos os homens & mulheres que dedicaram as suas vidas à causa da liberdade. 
 
somos, ainda, um país racista, bem preconceituoso. como preto, sinto isso “na pele”. porém, como sou abusado & atrevido e não suporto gente burra (rs), ao meu modo faço com que a mancha escura continue a penetrar o coração do brasil.
 
ao toque do tambor, saúdo tal mancha: saravá, negrada!
 
beijo bom & carinhoso em TODOS,
paulo sabino / paulinho.    
____________________________________________________________________
 
(do livro: Cinemateca. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
TAMBOR
 
Entrada a manhã, açafatas
qual baratas tontas para todos
os lados dobram no cesto negro
de vime negros lenços
 
e toucados. Horas em ponto
em todas as cidades, negro
um ponto surge por sobre todas,
como nas frutas o sinal maduro
 
faz anúncio de que algo ali
se abrevia: negro Coqueiral, negro
Aracaju, negra Laranjeiras, negra
Bocaiúva, negra Buriti dos Lopes,
 
negra Araçatuba. As palmeiras
reais (levam às casas do barão,
do desembargador, do capitão,
do visconde & cia.), rainhas
 
sobre o vasto cafezal, fincadas
ali tais e quais pés de mil-réis,
já não se parecem, para o espanto
de quem por elas passe, colunas
 
gregas, assim, negras. Do paço
a camareira-mor assombra-se
ao ver o luto das roupas de cama,
antes alvas como hóstias;
 
Dignitários da Ordem da Rosa
bravejam indignados com a flor-manhã
que desabrochou em naco de carvão;
os cônegos da Capela Imperial
 
não esperavam por isso, tampouco
os gentis-homens da Câmara, os lentes,
os lírios; a aia depara apavorada
com a água na taça: negra.
 
E pode-se ouvir, pode-se mesmo ver,
certa música a crescer como o raio
daquela mancha escura no centro
de tudo, no coração do mundo.

OS TRIUNFOS DO DIA & DA POESIA
4 de fevereiro de 2010

prezados,
 
o poema que segue deve a sua existência a dias como este, que, à primeira hora, desabou com uma luz atonal aguda do mais alto degrau do céu por sobre a cidade do rio de janeiro. o calendário marca a estação do estio, com seus fogos excessivamente facão — e sua lâmina afiada —, com seus fogos excessivamente balão — e suas luminosidades (artificiais) —.
 
uma manhã radiante, de um azul que quase arromba a retina de quem vê.
 
os versos abaixo confabulam uma ode ao gáudio que nos toma a visão, observando as nuances de um dia que se desflora avassaladoramente límpido, claro, sem véus.
 
e, junto à homenagem à pletora das cores, uma homenagem à poesia, capaz de descrever-nos
 
, entre um verso e
outro ,
 
a rua cintilante, silenciosa, que se abre à folha de papel, e que vai dar fora dela.
 
(atentem aos jogos poéticos, às brincadeiras propostas pela disposição das estrofes.) 
 
percebam como a poesia vai se desvelando, deixando-se entrever, como se numa tela de cinema, cheia de planos & ângulos & contraplanos. o título do livro não é em vão. (sobre ele, o livro, sobre as poesias que o formam e sobre a importância do autor na minha vida, escreverei num outro momento.) 
 
deixem que a l u z  a z u l do dia, do poema, avance por suas bocas, narinas e olhos adentro, deixem que ela, a l u z  a z u l, lhes tome todo o corpo, invada todos os jardins cultivados por sobre a estrutura corpórea composta de carne & vísceras.  
 
beijo grande em vocês!,
muita luz em nossas jornadas!,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________________________
 
(do livro: Cinemateca. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
TRIUNFO
 
I
 
Da primeira hora do dia a luz atonal,
aguda do mais alto degrau
 
desaba. A manhã parece obrigar-se
por escrito a dissipar os covardes,
 
que rebentarão audazes, convertidos
em outros se um tal azul lhes avança
 
pela boca, narinas e olhos adentro.
Num dia assim, tudo parece novo,
 
perto, a história do mundo um traço
abstrato e, no entanto, inteligível:
 
movimento sem fim, o só abrir-se
do aberto: ritmo.
 
 
II
 
Os ponteiros têm pressa, nuvens
são trapos imprestáveis, o calendário
marca o início do verão e seus fogos
excessivamente facão, balão.
 
Herberto diz que Deus é o cubo
de açúcar que se dissolve no leite,
cito enquanto assisto ao medo
que sobrou da noite desprender
 
-se de meus cabelos e no mormaço
modificar-se num bicho manso.
Lembro-me de Gilliatt, doido, que
não podia crer que o ar fosse deserto.
 
Se o mar é cheio de criaturas, dizia,
também a atmosfera há de ter
seus peixes, cardumes diáfanos
de claridade traspassados, que,
 
sem sombra, seguem ignorados;
esvaziássemos a atmosfera,
pescando-se no ar como num tanque,
achar-se-iam milhões de seres inexplicáveis
 
e com eles muitas coisas se explicariam.
Quanto a mim, imagino que
talvez pudesse vê-la, a poesia,
naquele vazio, entre um verso e
 
 
III
 
outro, naquela (nesta) espécie de rua cintilante,
silenciosa, reta que vai dar fora da folha.