AGRADECER & ABRAÇAR
13 de janeiro de 2015

Agradecer e abraçar_Maria Bethânia______________________________________________________

Domingo passado (11/01) foi dia de comemorar ao lado dela. Na verdade, foi dia de comemorar de frente para ela.

A grande responsável por me apresentar a arte poética completa, neste 2015, 50 anos de carreira, comprometida, unicamente, com as suas verdades.

Para quem espera, esperava, um espetáculo no estilo “50 anos de carreira & seus grandes sucessos”, a decepção pode ser grande.

Maria Bethânia comemora os seus 50 anos de estrada & canto com mais um grande — e belíssimo! — show, costurando as canções a partir dos assuntos/temas que vai alinhavando em cena. Por isso, como sempre faz, sempre fez, os grandes sucessos entram a fim de dar integridade à espinha dorsal do espetáculo, os grandes sucessos entram a fim de garantir a sustentabilidade necessária aos assuntos/temas abordados.

Não se trata, portanto, de uma compilação desenfreada dos “hits” de carreira: Bethânia não canta “Olhos nos olhos”, não canta “Terezinha”, não canta “Explode coração”, nem “Ronda”, “Sonho meu”, “Negue”, “Mel”, “Anos dourados”, “Grito de alerta”, “Esse cara”, “O lado quente do ser”, “Fera ferida”. Os sucessos que entraram, entraram para compor a linha dramática que norteia o seu show comemorativo, intitulado “Agradecer e abraçar” (título homônimo à canção gravada no álbum “A força que nunca seca”).

A primeira parte do espetáculo — as primeiras canções — revela a sua relação com a carreira de intérprete & cantora: abre com “Eterno em mim”, do mano Caetano (“em mim o eterno é música e amor”), deságua em “Dona do dom”, do Chico César (feita especialmente para ela & por ela gravada no álbum “Maricotinha”), navega, emblemática, por “Começaria tudo outra vez”, do grande amigo Gonzaguinha (“começaria tudo outra vez / se preciso fosse, meu amor”), e segue dando emoção a tudo aquilo que sempre a comoveu no seu percurso artístico, clarificando ao público que muito se orgulha do caminho traçado através das suas escolhas.

Não faltam homenagens à sua terra & à sua gente (“Motriz”), aos seus pais & ao seu povo (“Tudo de novo”), à água, elemento de sua fascinação (“Eu e água”), à viola caipira, uma das suas adorações, ao grande poeta que adoçou a Bahia & a embalou, Dorival Caymmi (“Doce”), à Oxum mais bonita, mãe Menininha do Gantois (“Oração de Mãe Menininha”), e ao amor, é claro, uma das suas facetas mais célebres & festejadas.

Bethânia recita, entre outros, textos de Clarice Lispector, Waly Salomão & Fernando Pessoa, poeta da sua vida.

O auge de “Agradecer e abraçar” é quando, já no final, Bethânia canta a sua versão de “Non, je ne regrete rien”, sucesso na voz de uma das suas divas, a francesa Édith Piaf, acompanhada de uma tradução lindíssima dos versos da canção, cujo mote é o fato de não se arrepender de nada que tenha vivido. A tradução é recitada, como um poema. É tudo tão forte, tão carregado de simbolismo, que os espectadores aplaudem Bethânia de pé ainda no meio da canção. E isso, eu soube, aconteceu também na primeira noite. Arrebatador. (Aqui, me parece que, de alguma forma, Bethânia, discretamente, homenageia Cássia Eller, que, para surpresa de todos à época, gravou “Non, je ne regrete rien” no seu último álbum & que, das mais jovens, das cantoras surgidas na década de 90, é a sua cantora preferida.)

“Agradecer e abraçar” é mais um “depoimento” artístico de uma das grandes vozes deste país.

Mostra que quem nasceu para rainha nunca perde a majestade.

Agradecer & abraçar: ao fim do espetáculo, nada pedi. Só agradeci.

Mentira. Pedi, sim: mais 50 anos de carreira.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: A força que nunca seca. artista: Maria Bethânia. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

 

 

AGRADECER E ABRAÇAR

 

Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar
Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar

Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abracei o mar
É festa no céu, é lua cheia, sonhei
Abracei o mar

E na hora marcada “Dona Alvorada” chegou para se banhar
E nada pediu
Cantou pro mar
(E nada pediu)
Conversou com o mar
(E nada pediu)
E o dia sorriu

Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema, presentes eu fui levar
E nada pedi
Entreguei ao mar
(E nada pedi)
Me molhei no mar
(E nada pedi)
Só agradeci
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A força que nunca seca. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Agradecer e abraçar. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

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NO “FLA X FLU”, POESIA: A CASA QUE NÃO É MINHA
22 de outubro de 2014

Chave & Fechadura

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a vida, impreterivelmente, é feita de escolhas.

a fim de alcançar determinado objetivo, muitas vezes, algumas outras possibilidades, possibilidades de outros tantos caminhos, têm de ser deixadas para trás.

escolher é viver. o tempo inteiro, na vida, somos expostos a escolhas, aceitemos ou não. porém, as escolhas, em muitos casos, são inteiramente dispensáveis.

nos casos em que as escolhas são inteiramente dispensáveis & que, mesmo assim, escolhemos, podemos criar, ainda que sem intenção, verdadeiras disputas futebolísticas entre as coisas, onde nos obrigamos a escolher uma delas como quando escolhemos um time de futebol — flamengo OU fluminense — para vibrar & torcer & se emocionar.

determinadas questões não carecem de escolhas.

para determinadas questões, escolhas erguem muros espessos no caminho.

ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo não carecem de escolhas. ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo nasceram para serem complementares & não excludentes.

costumo dizer isto aqui sempre: a existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas.

não seria diferente com as artes: com a arte da palavra, com a arte da música, com a arte do esporte.

portanto, por que escolher:

drummond ou joão cabral? chico ou caetano? anderson silva ou minotauro?

pepê ou rico de souza (dois grandes surfistas brasileiros)? mário de andrade ou oswald de andrade?

pepeu gomes ou armandinho (dois exímios guitarristas)? selton mello ou wagner moura? cartola ou nelson cavaquinho?

nelson piquet ou ayrton senna? clarice lispector ou cecília meireles? paula ou hortênsia (duas feras do basquete)?

mônica ou cebolinha? titãs ou os paralamas do sucesso? joão gilberto ou tom jobim? chacrinha ou sílvio santos? maysa ou elis regina?

antonio cicero ou waly salomão? renato russo ou cazuza? mundo livre s.a. ou nação zumbi?

determinadas questões não carecem de escolhas.

para determinadas questões, escolhas erguem muros espessos no caminho.

ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo não carecem de escolhas. ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo nasceram para serem complementares & não excludentes.

assim como, na vida, algumas coisas se tratam de escolhas, outras coisas, não; há aquelas para as quais não há o poder de escolha, não há opção: trata-se de sina ou maldição, não se pode afirmar ao certo o que seja.

não fui eu quem escolhi a poesia, não fui eu quem optei por ela. foi a poesia quem me escolheu, foi a poesia quem optou por mim. porque não está nas minhas mãos o poder de decidir quando adentrar a casa da poesia. é a poesia quem escolhe a hora da visita do poeta. não é o poeta o responsável pela decisão.

desse modo, a casa da poesia, essa casa não é minha: a casa da poesia pertence somente à poesia.

minha chave, a chave da minha casa, não serve à casa da poesia, não cabe em sua casa. desconheço a fechadura, desconheço o dispositivo de destrancar a sua porta, e, conseqüentemente, desconheço a metragem, o tamanho, da sua sala (até porque a sala de estar muda de metragem, altera de tamanho, a cada visita realizada).

tudo me é estranho, tudo me é diferente, tudo me é irreconhecível, na casa da poesia.

a cada visita, uma nova casa, uma grande surpresa: nunca se sabe o que encontrar na casa: metragem desconhecida, o teto que nada me diz, o ar estranho da cozinha, o quarto que não é meu, a cama em que nunca dormi, um ambiente que causa certo desconforto — não é certamente confortável estar entre as paredes da casa poética, sem saber se tal construção lírica é segura ou se pode desabar a qualquer momento.

essa casa não é minha.

ser poeta não é opção: é sina ou é maldição.

às coisas que não se tratam de sina, de maldição, nem de escolhas (como quando escolhemos um time de futebol — flamengo OU fluminense — para vibrar & torcer & se emocionar), abrigá-las todas dentro da morada do ser: a existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas.

aproveitemos todas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A sombra do faquir. autor: Mauro Sta. Cecília. editora: 7Letras.)

 

 

FLA X FLU

 

Drummond ou João Cabral
Caetano ou Chico
Anderson Silva ou Minotauro
Pepê ou Rico

Mário ou Oswald
Pepeu ou Armandinho
Selton ou Wagner
Cartola ou Nelson Cavaquinho

Piquet ou Senna
Clarice ou Cecília
Paula ou Hortênsia
Mônica ou Cebolinha

Titãs ou Paralamas
João Gilberto ou Tom Jobim
Chacrinha ou Sílvio Santos
Maysa ou Elis

FHC ou Lula
Antonio Cicero ou Waly
Renato Russo ou Cazuza
Mundo Livre ou Nação Zumbi.

Escolhas erguem muros espessos no caminho.

 

 

ESSA CASA NÃO É MINHA

 

Minha chave aqui não cabe
desconheço a fechadura
e a metragem desta sala.
O teto não me diz nada
o ar da cozinha é estranho.
Claro que não é o meu quarto
onde me deparo agora.
Nunca dormi nesta cama,
nem me sinto bem aqui
depois de todos esses anos.

Ser poeta não é opção
é sina ou é maldição.

AS BORBOLETAS
24 de setembro de 2014

Borboletas

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Eu vou lhe dar de presente uma coisa.
É assim: borboleta é pétala que voa.

(Clarice Lispector)

 

primavera: segundo o dicionário houaiss: “estação temperada e amena, entre o inverno e o verão. [No hemisfério sul, estende-se do equinócio de setembro (22) ao solstício de dezembro (20); no hemisfério norte, do equinócio de março (21) ao solstício de junho (20).]”

primavera: estação considerada a estação das flores, representante do renascimento, da transformação.

a estação das flores é a estação das borboletas.

borboletas: segundo o dicionário aurélio: “designação comum aos insetos lepidópteros diurnos, cujas antenas são clavadas. As larvas das borboletas não tecem casulos, passando o período ninfal sob forma de crisálidas.”

borboletas: insetos diurnos que se alimentam principalmente do néctar das flores & cujo desenvolvimento se caracteriza por quatro fases: o ovo, a lagarta, a pupa (quando em transformação, em metamorfose, dentro da crisálida) & a fase adulta (já borboleta).

sendo o néctar das flores um dos principais alimentos das borboletas, a primavera, estação que se inicia, estação considerada a estação das flores, é, também, a estação das borboletas, bichinhos que, além de flores, gostam do dia.

brancas, azuis, amarelas & pretas: uma profusão de cores soltas no ar: brincam, na luz do dia, as belas borboletas.

soltas no ar, delicadas, levíssimas, qual pétalas a voar, brincam as borboletas, que se misturam, se embaralham, se desordenam, em cores as mais diversas: brancas, azuis, amarelas & pretas.

enquanto brincam, na luz, as belas borboletas, brancas, azuis, amarelas & pretas, a poesia trata de lhes dar as rimas fantásticas, rimas lúdicas, como a brincadeira das borboletas à luz do dia, para que elas sofram mais uma metamorfose, para que elas se transformem em pura lírica:

borboletas brancas são alegres & francas.

borboletas azuis gostam muito de luz.

as amarelinhas são tão bonitinhas!

e as pretas, então… que escuridão!

enquanto brinca de rima a poesia, metamorfoseando borboletas em pura lírica, brincam, na luz, as belas borboletas: brancas, azuis, amarelas & pretas.

primavera: estação considerada a estação das flores, representante do renascimento, da transformação.

borboleta: pétala que voa.

que a estação que se inicia (in)vente a todos as belezas que lhe são caras, as belezas que lhe são estimadas, as belezas que reflitam a sua cara, que reflitam o seu rosto: que belas borboletas — brancas, azuis, amarelas & pretas — brinquem à luz do olhar de cada um nesta primavera.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Vinicius de Moraes — Oficial. autor: Vinicius de Moraes.)

 

 

AS BORBOLETAS

 

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então…
Oh, que escuridão!
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Partimpim Dois. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: As borboletas. poema: Vinicius de Moraes. música: Cid Campos. gravadora: Sony-BMG.)

QUE O DEUS VENHA
29 de junho de 2013

Girassol

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(trecho do livro: Água viva. autora: Clarice Lispector. editora: Rocco.)

 

Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei — assim como se come e se vive o gosto da comida.

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Do trecho acima, Cazuza apenas rearranjou algumas palavras (sem alterar em nada o sentido desse verdadeiro poema em prosa), e Roberto Frejat, o seu parceiro mais presente, musicou o trecho. Assim nasceu a parceria entre Clarice, Cazuza & Frejat, intitulada Que o Deus venha, aqui, na gravação que segue abaixo, na voz inconfundível da grandiosa Cássia Eller.

Aos senhores, também, o trecho (um tanto alterado por Cazuza & musicado por Frejat) em versos.

 

A única coisa que nos espera é exatamente o inesperado. Por mais que se calcule, por mais que se tente, ninguém sabe o dia de amanhã. Estarei morto? Serei atropelado? Encontrarei, andando na rua, o bilhete premiado? Algum fato surpreendente à minha espera?

Por isso, o inesperado é o que nos espera.

Como não sei o dia de amanhã, uma coisa, ao menos, é sabida: amor dentro de mim eu tenho & experimento a paz, algum conforto existencial em estar onde estou, em ser quem eu sou, e experimento também o delicado da vida, também abocanho o que a vida tem de alegre, de feliz, de exuberante (ainda que ínfimo & vão).

Temos que perceber como se come & se vive o gosto da comida, a fim de que se coma bem — com gosto, com prazer — aquilo que é degustado: um livro de poesia, um prato da gastronomia, a pessoa por nós desejada.

(Saibamos usar amor.)

(Que o Deus — amor — venha.)

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autores: Clarice Lispector / Cazuza.)

 

 

QUE O DEUS VENHA

 

Sou inquieta, áspera e desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha feito farpa
Se tanto amor dentro de mim eu tenho
E no entanto eu continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais
Corro perigo como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado
Mas eu sei que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia o delicado da vida
Vou aprender como se come e se vive o gosto da comida
_____________________________________________________________________

(do site: Youtube. canção: Que o Deus venha. intérprete: Cássia Eller. versos: Clarice Lispector / Cazuza. música: Roberto Frejat. áudio extraído do álbum: Cássia Eller. gravadora: Polygram.)

AMOR EM PRIMEIRA PESSOA
4 de novembro de 2011

(Clarice Lispector: D.I.V.A.)
 
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(do livro: Aprendendo a viver — imagens. autora: Clarice Lispector. edição de texto: Teresa Montero. editora: Rocco.)
 
 
 
Olha para mim e me ama.
Não: tu olhas para ti e te amas.
É o que está certo.
 
 
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por que, a meu ver, clarice lispector não está apenas certa, está certíssima!, quanto à asserção aqui citada?
 
ela, primeiramente, parte daquele velho conhecido princípio: como é que vou amar o outro se não me amo antes?

primeiro, a capacitação para o amor: amar-se. depois, o grande exercício: amar o outro.

sabe dar amor aquele que sabe, antes, amar-se.

outra verificação:

 
ao outro, num relacionamento amoroso, unimo-nos por questões de afinidades.

o amor tem que ter, impreterivelmente, afinidades.

pares afins a fim de uma vida a dois.

é claro que diferenças existem, e pode-se amar o outro por “certas”, digo, algumas, diferenças. porém, as diferenças que amamos no outro são diferenças que acrescentam, que somam, diferenças que, de certo modo, ainda que não se deseje abarcá-las, são admiradas, diferenças que são respeitadas porque significam contentamentos.

sendo assim, se pararmos para bem pensar, no fundo no fundo, amamos no outro aquilo que gostamos em nós ou o que gostamos de ver disponível na vida (a olhos vistos). de certa maneira, trata-se também de um amor na primeira pessoa.

por tudo isso, por dizer tanto em tão pouco,

 
clarice (em minha vida) é D.I.V.A.
 
beijo todos!
paulo sabino.

PAULO SABINO NA TV ESCOLA – “O MEU AMIGO POETA”
25 de agosto de 2011

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No programa da TV Escola que gravei ontem na minha residência (devido ao mau tempo na cidade do Rio de Janeiro), por indicação de um querido amigo, programa voltado aos estudantes, há um quadro chamado “O meu amigo poeta”, que é LINDO! ADOREI fazer, ADOREI a equipe toda!
 
Cenas do Paulo Sabino lendo uma das suas poesias, do Paulo Sabino falando sobre poesia & os seus autores, do Paulo Sabino, com o diretor do quadro, mexendo nos seus livros, na sua estante, falando da importância de Clarice Lispector, de Drummond, de Fernando Pessoa, falando sobre a importância das Musas na sua vida.

O quadro vai ao ar na segunda semana de outubro, e com direito à propaganda, na telinha, do PROSA EM POEMA! Ganharei uma cópia do programa em DVD, e, se me for permitido, divulgo-o aqui.

Aos senhores, então, o poema, deste que vos escreve, que li para o quadro, escolhido pela própria equipe, que o achou, segundo a mesma, “lindo, muito bonito” (rs):

 

mais que transmita o cinema
ou o mais bem escrito poema
— mais ainda: qualquer existente tática
ou conta aprendida com a matemática —,
nosso amor se faz na prática
de tudo o que possa vir a ser,
sem carta marcada ou parecer.

é no dia-a-dia, com a aprendizagem,
que traduzo a sua paisagem,
como quando o arado de um campo,
que, mais tarde, revela verdes e encanto.

nosso amor assim se desvela:
não é preciso lampião ou vela;
possui luz própria que surge
desta vontade de amar que, em mim, urge.

 
 
Beijo todos!

MEDO DO DESCONHECIDO
1 de abril de 2011

ante o desconhecido, as reações podem ser múltiplas: estranhamento, assombro, deslumbramento, medo.

a reação de medo é uma reação comum ao que se apresenta “desconhecido”.

mas a vida exige, para se viver, ousadias, a vida exige riscos. por isso, temos que, para viver, superar determinados medos, a fim de ousar, a fim de arriscar.

(os riscos & ousadias somos nós quem determinamos.)

faz-se necessária a superação de determinados medos, a fim de que determinados riscos & ousadias se cumpram.

a fim de que determinados riscos & ousadias se cumpram para que a tal felicidade seja alcançada.

a tal felicidade: pessoas que são felizes, em geral, mesmo com os medos & angústias existentes, mesmo com os medos & angústias que nos vão encontrando durante a jornada, pessoas que são felizes, em geral, são pessoas mais tranqüilas, são pessoas com inclinações a resoluções acordadas.

o mundo é difícil. viver é uma batalha nem sempre fácil.

então, se viver não é uma batalha fácil, se viver significa dores & lutas, se viver, inevitavelmente, incorre em lágrimas, vamos, por nós mesmos, pelo nosso bem, porque merecemos, vamos suavizar a existência, dando espaço à felicidade, ao amor pelo mundo de abrigos & cuidados.

algumas pessoas não querem ser felizes, e tais pessoas têm todo o direito à infelicidade, à amargura.

só que: infelicidade gera tristezas que geram rancores que geram raivas que geram ações & reações violentas — ainda que de uma violência latente —.

por isso eu fecho com a felicidade.

eu quero ser feliz. tenho consciência de que, para ser feliz, temos que lutar. é uma luta diária, e luto.

(ah, e pensar que milhares de pessoas não têm coragem de, pelo menos, prolongar-se nessa coisa desconhecida que é: sentir-se feliz; e preferem a mediocridade… uma pena.)

batalhemos por nossas alegrias, por nossas satisfações!

satisfações conquistadas (algumas através de acordos, outras na base do braço), mundo melhor, mais aprazível, para todos.

beijo bom!
paulo sabino.
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(do livro: A descoberta do mundo. autora: Clarice Lispector. editora: Rocco.) 

 

MEDO DO DESCONHECIDO

 

Então isso era felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz, e preferem a mediocridade.

A SURPRESA: ROSTO AO ESPELHO
12 de novembro de 2010

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que cara é essa, descobrindo-se no espelho, atrás de cada pêlo de barba?
 
de repente, a surpresa: olhar-se ao espelho e dizer-se, deslumbrado:
 
EU?
UE?
 
interrogar-se sobre si.
 
(mas que diabos é isso (rs)?)
 
olho por olho, dente por dente, ruga por ruga:
 
EU?
UE?
 
o fio da barba, o fio da lâmina, a vida por um fio, sendo revisitada, ante o espelho…
 
interrogar-se de estar sendo:
 
EU?
UE?
 
por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado.
 
aprofundar-se nesse olhar: um certo conhecimento de si contribui, ao menos, para que saibamos o que não queremos da vida. o que querer, do que gostar, como amar, isso podemos ir tentando, podemos ir testando trilhafora.
 
é bom não saber. acho importantíssimo para vida. porém, não saber, em determinada medida, pode representar um (grande) problema.
 
EU?
UE?
 
assim, em meio a divagações, concluir, surpreendido de ser: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo…
 
e aceitar, aceitar mais um dia, reafirmando-se:
 
EU
EU
 
e acenar, de si para si, como se acena a um (bom & velho) companheiro de viagem. 
 
e seguir o rumo, batalhando, matando um leão por dia, buscando a trilha do bem-estar & do bem-fazer.
 
(neste fim de semana com feriado, pego estrada com muitos amigos, grandes na minha existência, para um passeio na roça. semana próxima estamos aí. até lá!)
 
beijo terno em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: A descoberta do mundo. autora: Clarice Lispector. editora: Rocco.)
 
 
 
A SURPRESA
 
 
Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência.
 
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo. 
 
 
 
(do livro: Em trânsito. autor: Alberto Martins. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
ROSTO
 
 
que cara é essa
se descobrindo no espelho
atrás de cada pelo
de barba?
 
de longe
levanto as sobrancelhas
e aceno
como se deve
a um discreto companheiro de viagem
 
 
 
(do livro: Poesia completa. autor: José Paulo Paes. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
O POETA AO ESPELHO, BARBEANDO-SE
 
 
o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
 
EU?
UE?
 
olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga
 
EU?
UE?
 
o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio
 
EU?
UE?
 
mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita
 
EU
EU

(N)O ESTRANGEIRO
14 de outubro de 2010

abaixo,
 
cartas trocadas por dois grandes escritores da literatura brasileira. foram muito amigos e se corresponderam por um longo tempo.
 
aqui,
 
missivas de quando viviam no “estrangeiro”, de quando residiam fora do brasil.
 
tanto um como o outro sofreram com a mudança de país — um, para os estados unidos, nova iorque; o outro, para suíça, berna.
 
nunca vivenciei a experiência de morar fora, nem a curto ou a longo prazo. todavia, por mais desejada & bacana & prazerosa a experiência, acredito que seja um tanto sofrível.
 
afinal, existimos a partir do convívio social. se existimos a partir do convívio social, podemos concluir que o convívio social representa o nosso “modo de estar no mundo”. o “modo de estar no mundo” relaciona-se intrinsicamente com a cultura a que pertencemos. de tudo que compõe a cultura, a língua é das mais marcantes características.
 
sou preto, alto, faço um “tipo baiano” (se é que isso, de fato, existe). na bahia, passo tranqüilamente por “local”. até abrir a boca (rs). quando me ouvem falar, a primeira coisa que me dizem, surpresos, é: “ué, você não é daqui?” (rs)
 
o mesmo ocorreria comigo: por mais que alguém pudesse me parecer carioca, ao falar, pela maneira de falar, pelo sotaque, saberia dizer se a tal pessoa é ou não local.
 
percebam que trato de sotaque regional, isto é, trato do sotaque de uma mesma língua falada em regiões diferentes do país. imaginem quando se trata de países & línguas diferentes… a percepção do “estrangeiro” é ainda mais nítida.
 
a língua é minha pátria.
 
por mais que pudesse me passar por um negro nova-iorquino do brooklyn, lá estando, ao abrir a boca, a máscara, inevitavelmente, cairia.
 
não acertariam (provavelmente) a minha naturalidade, mas saberiam, certamente, que não sou um negro nova-iorquino do brooklyn.
 
ser estrangeiro, no mínimo, é a ruptura com o quotidiano demasiadamente conhecido, que, de tão demasiadamente conhecido, nos molda.
 
(em país estrangeiro, há a ruptura com a língua pátria, com a língua quotidiana, com a língua que nos molda.)
 
o que nos molda: o demasiadamente quotidiano.
 
afinal,
 
me vejo no que vejo.
 
me olha o que eu olho.
 
é minha criação isto que vejo.
 
e eu, eu também sou a criatura do que vejo.
 
o quotidiano: minha criação & minha criatura.
 
onde, fora dele, estamos?
 
respondo: fora dele, estamos no estrangeiro.
 
as missivas são deliciosas porque re-velam escritores por trás dos escritores.
 
cartas trocadas entre grandes amigos e carpinteiros de frases & enredos.
 
como trabalhar acaba por ser a verdadeira moralidade na existência dos dois, os amigos não se dissociam dos escritores que são.
 
as cartas são literatua pura, literatura in natura.
 
beijo bom em todos!
paulo sabino / paulinho.   
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(do livro: Cartas perto do coração. autores: Fernando Sabino e Clarice Lispector. Notas e organização: Fernando Sabino. editora: Record.)
 
 
 
New York, 10 de junho de 1946.
 
 
Clarice,
 
Esta é a quarta carta que inicio para responder a sua. A primeira eu deixei no Brasil, só trouxe a primeira página, que vai junto. A segunda eu rasguei. A terceira eu não acabei, vai junto também. Hoje recebi uma carta do Paulo, dizendo que não tinha mandado até agora a resposta dele. Positivamente somos uns cachorros irremediáveis. Você por favor não ligue para isso não. Pode ter certeza de que não te esquecemos. Ainda ontem me lembrei muito de você porque um americano me perguntou se o meu relógio era suíço. A Suíça existe mesmo? Serão daí mesmo os queijos suíços? Me escreva, Clarice, sou tão cínico que te peço para me escrever, me responder com a pontualidade e a prestreza que não tenho, contando tudo, suas aventuras e desventuras nessa poética Seminarstrasse. Do Brasil não posso te contar nada, senão o que o Paulo me contou hoje na carta dele: que o Pagé* tem tomado aos domingos porres gigantescos, colossais. Que a sensação de um libertino ao acordar na segunda-feira é a pior coisa do mundo. Que houve um comício no Largo da Carioca onde choveu bala sobre os comunistas, mataram um estudante. Que o Rubem Braga vai indo bem. Que num chá que os acadêmicos ofereceram a outros acadêmicos ninguém perguntou por você.
 
Daqui de Nova York não posso te contar nada além do que você calcula. Outro dia abri um livro do Erico Veríssimo sobre literatura brasileira escrito aqui, mesmo na página em que ele fazia uma referência a você. Tenho sentido muita falta do seu livro que deixei no Brasil, para plagiar uns pedaços quando vou escrever o meu. Tenho tido muitas dores de cabeça, tenho ouvido histórias de espantar. Uma: o homem mais gordo do mundo fez um regime para emagrecer, emagreceu 50 quilos e morreu. Tenho dado muitas gafes aqui com o meu pobre inglês. Uma: entrei num Drugstore para comprar remédio para dor de cabeça e acabei levando uma loção para cabelos. Tenho tido muitas surpresas. Uma: todo mundo aqui em Nova York é brasileiro, é preciso muito trabalho para ir a algum lugar e encontrar um americano. Tenho tido muitos pesadelos. Um: ontem sonhei com um rato encravado na parede, guinchando de dor. Tenho reformado muitos conceitos, por exemplo: o Jayme Ovalle não é tão chato como eu imaginava. Tenho imitado Octávio de Faria em tudo o que ele não faz. Tenho feito descobertas importantes, por exemplo: o pecado é simplesmente tudo o que Cristo não fez. Tenho conhecido sujeitos famosos, por exemplo: Duke Ellington. Tenho tido muita saudade de minha filha. Tenho tido muito pouco dinheiro. Tenho tido muitas oportunidades de ficar calado. Tenho tido muitas decepções com os Correios. Tenho tido cansaço, saudade e calma. Tenho bebido muito, muito, muito. Tenho lido os suplementos dominicais. Tenho tido vontade de voltar. Tenho escrito muitas cartas para você. Tenho dormido muito pouco. Tenho xingado muito o Getúlio. Tenho tido muito medo de morrer. Tenho faltado muita missa aos domingos. Tenho tido muita pena de Helena ter se casado comigo. Tenho tido dor de dente. Tenho certeza que não volto mais. Tenho contado muito nos dedos. Tenho franzido muito o sobrolho. Tenho falado muito com os meus botões. Tenho tido muita vontade de brincar. Tenho feito muitas manifestações de apreço ao Senhor Diretor. Clarice, estou perdido no meio de tantos particípios passados. Estou com vontade de fumar e o meu cigarro acabou, estou com vontade de namorar de tarde numa pracinha cheia de árvores, estou com muitas saudades de mamãe. Aqui na minha frente, na minha mesa do Escritório, tem uma pilha de 1.834 fichas me esperando para ser conferidas. São tão simpáticas, as fichinhas. Me esperam e sorriem burocraticamente: conhecem o meu triste fim. Sorrio também para elas, digo que esperem: agora estou indo para Seminarstrasse.
 
Só de pensar que você estará lendo esta carta muitos dias depois de ter sido escrita me dá vontade de não mandar. Mas mando, isso é uma desonestidade. Você nos escreveu há um mês. Juro que não faço mais isso, foi só da primeira vez, agora não faço mais. Me escreva que responderei imediatamente. Como vai indo o seu livro? O que é que você faz às três horas da tarde? Quero saber tudo, tudo. Você tem recebido notícias do Brasil? Alguém mais escreveu sobre o seu livro? É verdade que a Suíça é muito branca? Você mora numa casa de dois andares ou de um só? Tem cortina na janela? Ou ainda está num hotel? Oh, meu Deus, Seminarstrasse será simplesmente um hotel? Qual é o cigarro que você está fumando agora? Pipocas, Fernando!**
 
Clarice, em Belém eu procurei no hotel uma carta do Mário para você, não encontrei. Eu delirava se pudesse te dar essa alegria. Tinha certeza de encontrar e não encontrei.***
 
Manuel Bandeira é um sujeito muito triste, Clarice. Também não me despedi de muita gente. Também me esqueci de muitas coisas no Brasil. Quando eu era menino chupei uma vez tanta manga verde que fiquei doente de cama por mais de três dias, faltei ao grupo, só vendo. Eu tinha um coelhinho chamado Pastoff. Um dia meu pai pegou o coelho e deu para um amigo, fiquei triste mesmo, chorei muito, papai foi muito mau. A coisa que mais gostava era no tempo de frio sair fumacinha da minha boca. Pipocas, Fernando! Clarice Lispector é uma coisa riscadinha sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido, perdeu o chapéu. Clarice Lispector sabe rir e chorar ao mesmo tempo, vocês já viram? Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.
 
Fernando 
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*Apelido fraternal de Otto Lara Resende.
**Referência à sua predileção por pipocas, que a levou um dia a me assustar com esta incontida exclamação de alegria infantil, ao passarmos no meu carro em Copacabana diante de um pipoqueiro.
***Entusiasmado com seu romance “Perto do Coração Selvagem”, Mário de Andrade, em conversa comigo, revelou haver-lhe escrito uma carta, que enviara para Belém. Segundo lhe informaram, ela estaria hospedada no Hotel Central com o marido, que cumpriria ali uma missão diplomática especial durante alguns meses, antes de seguirem para Nápoles, noutra missão. Pois quase dois anos mais tarde, detendo-me em Belém a caminho de Nova York, vasculhei a recepção do Hotel Central onde também me hospedei, na ingênua ilusão de encontrar para ela, esquecida num escaninho qualquer, a preciosa carta para sempre perdida.
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Berna, 19 de junho 1946 — quarta-feira
  
  
Fernando,
  
sua carta me surpreendeu tanto! Eu tive a impressão de ter caído numa coisa assim: de jogar verde para colher maduro ou de ir buscar lã e sair tosquiada, ou dois e dois são quatro — eu escrevi para vocês no Rio, na sua casa, e você me responde de Nova York. Eu sabia que vocês estavam lá por alguém que veio dos EEUU e passou por Paris — estive uns 15 dias em Paris — mas pensei que era a passeio. Não cesso de imaginar vocês em Nova York e não sei como. Como é que Heleninha fala no meio da cidade? E você trabalha de noite num arranha-céu? e os arquivos? Só agora é que vejo que vocês no Rio eram uma das garantias que eu procurava. Por que é que todo mundo quer sair do Brasil? E você é espírita, é, Fernando? Então como é que você me pergunta o que eu faço às três horas da tarde? Ou já falamos sobre isso? às três horas da tarde sou a mulher mais exigente do mundo. Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate. Quando passa, vêm seis da tarde, também indescritíveis, em que eu fico cega. Se o telefone toca eu dou um pulo e se me “convidam” eu pareço criança ou cachorrinho, saio correndo e enquanto corro digo: estou perdendo minha tarde.
 
Mas eu tenho ido de tarde à biblioteca pública. E por estranho que pareça, estou estudando cálculo das probabilidades. Não só porque o abstrato cada vez mais me interessa, como porque eu posso renovar minha incompreensão e concretizar minhas dificuldades gerais. Estivemos em Paris andando desde manhã até de noite. Aquela cidade é doida, é maravilhosa. Não consegui absorvê-la, ter uma idéia só. De volta fomos diretamente para um apartamento novo, ainda novo, tudo encaixotado, estranho, desarrumado. Encontrei cartas de casa e vários recortes de jornal, artigo de Reinaldo Moura, nota de Lazinha Luiz Carlos de Caldas Brito…, várias notinhas, referências a você e a mim em Sérgio Milliet, e em vários. E nota de Álvaro Lins dizendo que meus dois romances são mutilados e incompletos, que Virginia parece com Joana, que os personagens não têm realidade, que muita gente toma a nebulosidade de Claricinha como sendo a própria realidade essencial do romance, que eu brilho sempre, brilho até demais, excessiva exuberância… Com o cansaço de Paris, no meio dos caixotes, femininamente e gripada chorei de desânimo e cansaço. Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho. Um desânimo profundo. Pensei que só não deixava de escrever porque trabalhar é a minha verdadeira moralidade.
 
Afinal arranjei emprestada uma empregada que em um dia deu ordem na desordem — ela era uma verdadeira mulher. Uma grande mulher, sem dúvida, chamada Rosa, italiana, que Deus a abençoe.
 
Hoje passei o dia lendo; às três horas li de novo sua carta e o bilhete de Helena. Diga a Helena que na primeira vez em que nos encontrarmos ela ganha de mim uma caixinha de música. No mesmo dia em que recebi sua carta, recebi uma do Paulo. Carta pequena, cautelosa, quase silenciosa.
 
Fernando, procure em Nova York, no Consulado, Araújo Castro. Ele é ótimo. Vai lhe parecer calado e fechado, de início. Ele é muito, muito inteligente, bom, e de boa espécie.
 
São nove horas da noite, mas parece seis da tarde. E eu brilho, brilho sempre — isso deve ser brilho. Na verdade deve ser apenas adaptação ao novo apartamento. Não se pode deixar uma janela aberta, voa tudo; é um lugar onde ainda estão construindo, sem muitas casas. A rua chama-se Ostring e eu sou a pérola de Ostring, não vê? Vocês pretendem mandar buscar Eliana? como vão fazer? Quanto tempo na realidade vão ficar nos EEUU? Paulo diz que vocês ficarão seis meses apenas… Desejo muita felicidade a vocês. Sejam muito felizes: estou com vontade de dar conselhos grandiosos, dizendo: custa um pouco adaptar-se a um lugar novo etc. Fernando, você tem trabalhado? e Helena, o que é que faz? Acabei de passar uma semana das piores em relação ao trabalho. Nada presta, não sei por onde começar, não sei que atitude tome, não sei de nada. Digo a mim mesma: não adianta desesperar, desesperar é mais fácil ainda que trabalhar. Me mande um conselho, Fernando, e uma palavra bem amiga. Desculpe esta carta tola. Respondam depressa e eu mandarei uma muito boa, muito calma.— Quem tinha me falado de Sagarana era o Escorel,* elogiando. Não sei mais nada. E as notícias que recebo do Brasil são as piores. Até pão falta. Vocês devem estar experimentando agora a tristeza de estar num país onde mesmo lentamente tudo tende a melhorar e receber notícias constantes desse jeito. Dá vontade de ser um grande homem e fazer alguma coisa. Certamente teremos alguma revolução. Até o ar lá está precisando disso.
 
Fernando, Helena, um abraço grande. Me escrevam, agora que vocês sabem quanto pode valer uma carta e sobretudo certas cartas.
 
Dei um ar de tristeza? não, dei um ar de alegria.**
Clarice
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*Lauro Escorel, escritor e diplomata, amigo nosso.
**Tive o cuidado de conferir esta frase manuscrita na carta original, para confirmar a vírgula depois do “não” — cuja inexistência inverteria por completo o seu sentido. Vai como pequeno exemplo dos equívocos até mesmo tipográficos a que os escritores se expõem.

COMO É QUE SE ESCREVE? MISTÉRIO…
29 de setembro de 2010

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da mesma maneira que ela,
 
sei que não sei escrever, não obstante sei que escrevo, e que o realizo bem.
 
sou a pessoa que mais se surpreende de escrever.
 
(saber que não se tem, às claras, o processo de construção textual: o reconhecimento das ignorãças.)
 
a minha identificação com ela, com a escritora (que não se considera escritora), nesse sentido (no sentido da criação de um texto), é constatada através de linhas como estas que seguem.
 
o meu jeito de operar conexões é obscuro, é de difícil apreensão.
 
(como capturá-lo?…)
 
afinal:
 
como é que se escreve?
 
o que é que se diz?
 
como dizer?
 
como é que se começa?
 
o que se faz com o papel, defrontando-nos, tranqüilo?
 
mistério…
 
às vezes, imagina-se uma vereda para as palavras, e o percurso, ele mesmo, ao seu bel-prazer, vai traçando a trilha, desnudando um caminho inteiramente diferente daquele antes devaneado. 
 
(compartilho os sentimentos que ela descreve nas prosas abaixo; compactuo, no modo de criar, com sua resposta, suas dúvidas & suas constatações.)
  
(e que fique claro: isso tudo diz respeito, exclusivamente,
 
a mim & a ela.)
  
beijo bom em vocês!
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(do livro: A descoberta do mundo. autora: Clarice Lispector. editora: Rocco.)
 
 
COMO É QUE SE ESCREVE?
 
 Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?
 
Por que, realmente, como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? e como é que se começa? e que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranqüilo?
 
Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem, então? O que é? Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve.  
 
 
MISTÉRIO
 
‎Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.