OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (18ª EDIÇÃO) — ROSALIA MILSZTAJN & CONVIDADOS
4 de junho de 2019

(Convite da 18ª edição da Ocupação Poética — nele não consta o nome do ator e diretor Bruce Gomlevski porque a sua participação foi confirmada depois da confecção do convite)

(A grande homenageada desta edição — Rosalia Milsztajn)
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*** A 18ª edição presta sua homenagem à poesia da carioca Rosalia Milsztajn, com a participação de muitos amigos poetas ***
 
A próxima edição do projeto Ocupação Poética, no dia 10 de junho, a partir das 20h, no Teatro Cândido Mendes de Ipanema, apresentará ao público a poesia da escritora carioca, poeta, médica e psicanalista Rosalia Milsztajn!
 
Para a edição, contamos com a participação dos poetas Christovam de Chevalier, Hélen Queiroz, Tanussi Cardoso, Thereza Rocque da Motta e William Soares Dos Santos e do ator e diretor Bruce Gomlevsky. Uma linda noite, regada a versos, nos aguarda! Para quem não conhece, esta é uma belíssima oportunidade para se emocionar com a poesia desta extraordinária poeta!
 
Rosalia Milsztajn é carioca, escritora, poeta, médica – formada pela UFRJ – e psicanalista. Especializou-se em Literatura Brasileira pela PUC/ RJ. Publicou cinco livros de poesias: “No Azul” (Imago, 1991), “Itgadal – Memória dos Ausentes” (Diadorim, 1997), “Luminosidades” (7Letras, 2000), “Aqui dentro de mim” (Aeroplano, 2003) e “Esse recorte” (Patuá , 2014). Com este último ganhou o Prêmio Pen Clube do Brasil de literatura no ano de 2016. “A história dos seios” (7Letras, 2010), seu primeiro livro de contos, teve grande repercussão, abordando temas como o câncer de mama através de pequenas histórias literárias.
 
Foi idealizadora de alguns eventos de poesia em livrarias do Rio de Janeiro, como o “Saber de Verso”, em que promovia debates entre a poesia e outras áreas dos saberes científico, artístico e religioso. Em 1999, venceu o Prêmio SESC de Poesia do Estado do Rio de Janeiro. Seus poemas já foram publicados em diversas antologias. Possui um blog intitulado “A História dos Seios”.
 
Serviço:
18ª Ocupação Poética – Rosalia Milsztajn e convidados
Com Paulo Sabino, Bruce Gomlevsky, Christovam de Chevalier, Hélen Queiroz, Tanussi Cardoso, Thereza Rocque da Motta e William Soares Dos Santos
Dia: 10/06 (segunda-feira)
Horário: 20h
Local: Teatro Cândido Mendes – Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Tel infos: (21) 2523-3663
Entrada: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)**
Classificação: 14 anos
** Nomes nos comentários desta postagem garantem a meia-entrada (lista-amiga com os nomes na bilheteria do teatro no dia do evento)
 
Esperamos vocês!
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
 
(Estou devendo a este espaço publicações sobre outras duas edições do projeto: sobre a 16ª edição, homenagem a Neide Archanjo, uma das maiores poetas brasileiras de todos os tempos, e sobre a 17ª, homenagem a Claudia Roquette-Pinto, outra poeta de primeira grandeza. Neste 2019 eu resolvi que as homenagens são rendidas apenas às poetas mulheres.)

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(do livro: Aqui dentro de mim. autora: Rosalia Milsztajn. editora: Aeroplano.)

 

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À POESIA
10 de outubro de 2012

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por que você, poesia, me abandona no vértice (no ponto culminante) da vertigem, quando a chuva cai (como numa tela do pintor belga rené magritte, célebre por suas pinturas surrealistas contrastando com o tratamento hiper realista dado aos objetos dos seus quadros) sobre as rosas que desistiram, sobre as rosas que renunciaram a natureza das rosas?
 
por que, poesia, novamente me perco (abandonado por você) entre hortênsias, no aclive (na ladeira), hortênsias mais altas que homens, mais vivas que o exército de terracota?
 
(exército de terracota: também conhecido por guerreiros de xian ou exército do imperador qin, é um conjunto com mais de oito mil figuras de guerreiros & cavalos em terracota, que é uma argila manufaturada & cozida no forno, conjunto encontrado próximo ao mausoléu do primeiro imperador da china, qin shihuang.)
 
sem você, poesia, eu caminho no plano, caminho no nivelado, no não-acidentado, no regular; com você, poesia, eu caminho no acidentado, no irregular, no desnivelado. e eu gosto.
 
(todos os poemas: um engano.)
 
sem você, poesia, tudo escorre, pois a sua presença — em palavras & versos — permite que permaneça, permite que não escorra, tudo o que é registrado em palavras & versos (ainda que se saiba que todos os poemas: um engano. afinal, no fundo no fundo, nada do que se deseja permanente o poema retém em palavras & versos).
 
sem a poesia eu caminho no plano, tudo escorre — há, sem ela, um silêncio aturdido, silêncio perturbado, intranqüilo, um silêncio desconfortável na sua condição de silêncio.
 
sem a sua luz, poesia, o que me resta?
 
sem a luz da poesia, o que me sobra?
 
o que me sobra (sem a luz da poesia): viver, conhecer o mundo, reconhecendo-o através das vivências, tateando às cegas as suas formas & maneiras, onde assistimos ao seu passar (no caminho vidafora, tudo escorre), onde assistimos ao seu fluir constante, fluir que, sem a companhia sua, poesia, fica faltando um pedaço — sem a luz da poesia há um silêncio aturdido; e, no silêncio aturdido (silêncio perturbado, intranqüilo), há uma cota do que morre, há uma parcela do que escorre. no silêncio aturdido há uma parte do que se esvai no tempo & o ensejo de reter, na forma poética, uma cota do que morre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parcela do que escorre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parte do que se esvai no tempo (de tudo o que se vive, algumas vivências acreditamos dignas, merecedoras de registro; no caso do poeta: de um registro em forma de poesia).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, passam na frente de um espelho que, mudo, assiste à fuga do que reflete (o que reflete o espelho: um quarto de veludo: um compartimento contrátil: o que passar pela sua frente: a vida).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, criam um silêncio aturdido. e, mesmo assim, mesmo com o silêncio aturdido, diversas experiências merecedoras de registro passam apenas captadas & aprisionadas em algum tempo do espelho.
 
se assim for, se decidir a poesia não dar o ar da sua graça, abandonar o ritmo, eis tudo:
 
o torneado hábil das palavras & o dissonante vão das consoantes não podem mais — nem por um instante — buleversar (neologismo criado, e já utilizado por drummond & bandeira, a partir do francês bouleverser, que significa bagunçar, perturbar, abalar) o meu pequeno alento.
 
palavra nenhuma — nem por um instante, nem por um segundo — pode abalar, pode perturbar, o meu pequeno alento, o meu pequeno ânimo, a minha pequena inspiração.
 
abandonar o ritmo, eis tudo:
 
já nem tento satisfazer com tais materiais — os tais materiais: as palavras — minha volúpia, o meu prazer, pelo contratempo. já nem tento satisfazer com palavras minha volúpia pelo contratempo, meu prazer pelas circunstâncias imprevistas, pelos acidentes, ainda que fosse fugaz o prazer no momento do encontro (no momento do encontro com os tais materiais — o torneado hábil das palavras, o dissonante vão das consoantes).
 
abandonar o ritmo, eis tudo: 
 
mudar de logradouro, mudar de endereço, mudar de moradia (adeus, poesia!), ou mudar de logro (ou mudar de ilusão, de fraude, de cilada), que isso de escrever é jogo perdido de antemão, no mano a mano.
 
isso de escrever é jogo perdido de antemão: entre a experiência/vivência minha & aquilo que escrevo sobre ela, aquilo que escrevo sobre ela está sempre aquém da experiência vivida.
 
por mais bem escrito um texto a respeito de uma experiência vivida, um texto nunca é mais do que aquilo que foi vivenciado. o texto, por mais bem escrito, não é aquilo que se vivenciou. a experiência vivida ficou para trás, perdida num tempo pretérito, em alguma dobra do espelho.
 
(por isso o poema, no fundo no fundo, um fundo falso: o poema é sempre logro, é sempre uma ilusão, uma fraude, uma cilada.)
 
mas sem ressentimento (muito pelo contrário):
 
o mais são nuvens (também passageiras, que passam como passa o passarinho, passa a noite, passa o dia), e todos os poemas: uma ilusão, uma fraude: uma cilada:
 
um engano.
 
(dos melhores que vivencio em vida!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Corola. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Ateliê Editorial.)
 
 
 
à poesia
 
 
POR QUE você me abandona
no vértice da vertigem
quando a chuva cai (um Magritte)
sobre rosas que desistiram?
Por que novamente me perco
entre hortênsias, no aclive,
mais altas que homens, mais vivas
que o Exército de Terracota?
Sem você eu caminho no plano,
tudo escorre
— há um silêncio aturdido
uma cota do que morre
por dentro daquilo que brota.
Sem a sua luz, o que me resta?
Palmilhar às cegas
um quarto de veludo
onde o espelho, mudo, assiste 
à fuga do que reflete.
 
 
 
O TORNEADO hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais — nem por um instante —
buleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro — ou de logro —
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.

À ESCRITA
26 de julho de 2011

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página vazia, página em branco: página oca.
 
página oca: olho que, por cego, destoa da expectativa que há no olho do poeta, expectativa de tornar cativa, isto é, de tornar prisoneira, tornar refém, da página, a asa liquefeita, a asa diluída no tempo, diluída no seu movimento, mas que ficou guardada na sua memória.
 
assim, a mão-anêmona (do poeta), com seus tentáculos que servem à captura & à navegação, abre o seu leque na “arena de fogo branco”, isto é, abre o seu leque na arena da página branca.
 
os dedos do poeta, por não serem afiados, por serem cegos, não furam. a sua fala é sem agulhas, portanto, fala não pontiaguda.
 
os dedos cegos (do poeta) não furam, a fala sem agulhas não perfura nem costura a tenda da pele da flor acertada, flor aceita, aceita & acertada porque flor “de fato”, porque flor da natureza, flor que, diferentemente da flor da palavra, não se nomeia; flor que, simplesmente, “é”.
 
como o poema não abriga, como o poema não retém, “de fato”, aquilo que nomeia, no fundo, o poema é desterro, é ausência, o poema é superfície lisa (na arena do fogo branco) sem interferência de coisa alguma, vida boa que se despendeu.
 
contudo, todavia, ao mesmo tempo, tudo o que o poeta não recolhe na página oca, tudo o que o poeta não retém na arena de fogo branco, escoa pelo ralo do olho, desmorona memória adentro.
 
portanto, por mais que o poema não retenha, ele retém. por mais que o poema não recolha, ele recolhe.
 
é isso que move tamanha dedicação do poeta às suas linhas.
 
para a poesia: o dia inteiro perseguindo uma idéia:
 
vagalumes, lumes vagos, pequenos pontos de luz que ora se acendem & ora se apagam, contra a teia das especulações, contra a trama das prognoses, contra a urdidura dos devaneios, e nenhuma floração, nenhuma flor desabrochou, nem ao menos um botão incipiente, nem ao menos um botão iniciante, no recorte da janela — janela interna que se abre ao pensar livre, preso ao abstrato —. nenhum botão incipiente, botão principiante de flor, no recorte da janela, empresta foco, empresta atenção concentrada, ao hipotético jardim, jardim que se deseja ver jardim de versos.
 
longe daqui, do mundo, longe inclusive de mim, desço no poço de silêncio varando a madrugada em gerúndio, tentando metáforas, tateando efeitos, escolhendo maneiras, desesperando idéias, varando a madrugada em gerúndio, gerúndio ora branco, gerúndio pálido, como lábios de espanto, gerúndio ora negro, cego de medo, de medo atado à garganta, medo que não permite brotar a flor-poema.
 
longe daqui, longe de mim, desço no poço de silêncio, preso apenas por um fio ínfimo ao infinito, fio mínimo, onde esbarra o superlativo, onde esbarra “o mais que posso”, onde esbarra “o máximo a que consigo chegar”, ainda que mínimo “o mais que posso”, ainda que ínfimo ao infinito “o máximo a que consigo chegar”, visto que isto é tudo de que disponho.
 
alcançar o meu superlativo a fim de alcançar a superlativa poesia: eis do que disponho.
 
assim, dispenso o “sonho”, a “fantasia”, de um chão provável, isto é, de um chão que se possa provar; desse jeito, dispenso o “sonho”, a “fantasia”, de um provável chão, chão de base ideal, e cravo os meus pés no rosto da última flor-poema, última flor-poema porque concluída flor-poema, dispenso o sonho de um chão provável e finco os meus pés no rosto da flor que acaba por nascer.
 
a flor: a poesia.
 
poesia: árvore de fogo, chama negra (pois que a chama da poesia arde, queima, porém a sua luz — nem sempre — esclarece, a sua luz — nem sempre — clareia), labareda sob a qual me agacho em reverência, os pés descalços sobre o chão dos verbos & versos, chão tão árido (são dias inteiros perseguindo idéias, sem, muitas vezes, alcançá-las) quanto íntimo (não há intimidade maior que a do poeta com o seu poema).
 
poema: a luz que aparece depois de abandonar cúmulos-nimbos, que são nuvens negras carregadas de chuva, acumuladas de mau tempo. 
 
pensar poesia é trabalho árduo, faz com que, durante o processo, nuvens pesadas, prontas a desabar, apareçam, para, depois de aprontadas as linhas poéticas, sumirem, ou pelo menos acalmarem-se, e a luz aparecer.
 
poesia: o ninho do temporal.
 
poesia: a flor do segredo quase extinto.
 
a flor do segredo quase extinto: a poesia revela um bocado de quem a escreva. revela um bocado, não tudo. por isso a poesia: flor do segredo quase extinto. quase.
 
poesia: terras ou rebanhos desdenho, possa deitar-me entre as suas raízes, desdenho rebanhos ou terras, possa deitar-me entre os elementos que formam a base das palavras, possa deitar-me entre aquilo que inicia a poesia e que lhe serve de base.
 
para, deste modo, feliz & imaculado, seguir o caminho do que a alimenta, do que alimenta a poesia.
 
(poesia: minha ambrosia…)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Corola. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Ateliê Editorial.)
 
 
 
PÁGINA oca
olho que destoa
da expectativa
de tornar cativa
a asa liquefeita,
a mão-anêmona
abrindo o leque na arena de fogo branco.
Fala sem agulhas,
dedos cegos não furam
a tenda da pele onde estala
a flor aceita,
acertada,
que não se nomeia e,
lenta, calcifica.
Desterro ausência
superfície sem interferência,
vida boa despendida.
Pelo ralo do olho
tudo o que não recolho escoa,
desmorona.
 
 
 
O DIA inteiro perseguindo uma idéia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.
 
 
 
ÁRVORE de fogo, chama negra,
labareda sob a qual me agacho
em reverência,
pés descalços sobre um chão tão árido
quanto íntimo
(depois de abandonar cummulus nimbus,
a luz aparente, ninho
do temporal).
Flor do segredo quase extinto
sua dança irrefletida
destrói, estala nas ramas,
resvala, em cabelos, num céu.
Terras ou rebanhos desdenho,
possa deitar-me entre as tuas raízes,
feliz e
imaculada seguir
o caminho do que te alimenta.

O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”
10 de fevereiro de 2011

prezados,

abaixo,

depoimentos, de alguns dos poetas que mais admiro, poetas a quem, merecidamente, rendo as minhas loas, sobre o blog “prosa em poema”.

as palavras a seguir me enchem de satisfação e ânimo. sim, porque não é fácil a manutenção deste espaço. é muito prazeroso (afinal, poesia é das coisas mais importantes na minha existência), porém não é fácil.

escolher os poemas, pensar os textos de apresentação, tudo isso requer um tempo que, às vezes, é difícil de conciliar com as tarefas do quotidiano.

todavia, como a poesia é das mais importantes coisas na minha existência, este que vos escreve vai cavando tempo para dedicar-se a ela (não só à leitura como à preparação deste espaço).

portanto, quero compartilhar com os senhores palavras que me fazem não desistir, que me fazem crer que a poesia é importante e precisa de espaço, espaço para alçar vôos, espaço para acolhimento, espaço para divulgação.

linhas de poetas publicados ou citados neste espaço, de poetas a quem devo o meu respeito & a minha admiração GRANDES.

pelo apoio ao trabalho que venho desempenhando, o meu muitíssimo obrigado!

paulo sabino & o “prosa em poema” agradecem a todos vocês, poetas da minha vida, pessoas que transformam olhares & me ajudam trilhafora.

sempre digo que a poesia é, para mim, um barco de salvação em meio a tantas turbulências mundanas.

poesia: aufúgio seguro, embarcação uterina, logradouro aprumado.

continuemos juntos nesta grande aventura que é o universo poético!

beijo bom nos senhores!
um, mais que especial, em todos os poetas!
paulo sabino.
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O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”:

 

ANTONIO CICERO (poeta, letrista & filósofo):

Paulinho, é sempre um grande prazer e um grande luxo me encontrar no seu blog. Beijo, Antonio Cicero.

 

ARMANDO FREITAS FILHO (poeta):

Caro Paulo: muito obrigado por tudo. Por toda essa saudação que me acompanhará, e que me comove tanto. Muito obrigado pela sua presença tão calorosa e pela sua amizade nova em folha. Com o abraço e o aplauso do Armando.

 

FABIANO CALIXTO (poeta):

Muito gentil, da sua parte, em publicar os poemas em seu belo blog. Ficou muito legal! Muito obrigado. Fique com meu maior abraço de agradecimento, Calixto.

 

CARLOS RENNÓ (poeta & letrista):

Paulo, seu blog é ótimo! acho que eu é que vou ganhar alguns dias com você – lendo seu blog. espero que tenha tempo na maioria das vezes… ah como seria bom se o dia tivesse pelo menos + 2 horas, vai. grato. um abraço. CR.

 

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO (poeta):

paulo, muito obrigada pelas suas palavras! adorei ter sido incluída no seu blogue. e de agora em diante pretendo visitá-lo sempre. um grande abraço!

 

PÉRICLES CAVALCANTI (poeta & compositor):

Oi Paulo, amigo, muito obrigado! É um prazer pra mim também tê-lo aqui nesta ”vizinhança”. Um beijo.

 

PAULA CAJATY (poeta):

fiquei encantada com o seu trabalho minucioso, de comparar poemas, inspirações e trabalhos. tomara que mantenhamos contato. um beijo grande, Paula.

 

CARLITO AZEVEDO (poeta):

Puxa, adorei o blog e fiquei honradíssimo com seu “post” sublunar! Vou passar o endereço para algumas pessoas bacanas. Parabéns e abraços, Carlito.

AVISO AOS NAVEGANTES — COLEÇÃO “CIRANDA DA POESIA”
22 de dezembro de 2010

senhores,

o querido professor & poeta italo moriconi, atualmente editor executivo da EdUERJ (editora da universidade do estado do rio de janeiro), organizou a belíssima (e necessária) coleção “ciranda da poesia”. a coleção consiste em sete volumes, todos sobre crítica de poesia contemporânea. sete grandes poetas são analisados por sete grandes profissionais da área literária — poetas e/ou críticos.

como se não bastasse o conteúdo, riquíssimo, em cada livro existe uma antologia organizada por quem escreve o ensaio.

portanto, além de toda a informação sobre a obra do poeta, há alguns poemas que servem de base também ao leitor, para que este possa acompanhar mais de perto o que dizem as linhas críticas. isso é um grande ganho!

compõem a coleção os seguintes títulos:

ANTONIO CICERO
por Alberto Pucheu
;

CARLITO AZEVEDO
por Susana Scramim
;

CHACAL
por Fernanda Medeiros
;

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO
por Paulo Henriques Britto
;

GUILHERME ZARVOS
por Renato Rezende
;

LEONARDO FRÓES
por Angela Melim
;

SEBASTIÃO UCHOA LEITE
por Franklin Alves Dassie
;
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recomendo a leitura de toda a coleção com muito gosto!

àqueles que se interessarem em obtê-la, ou em obter alguns livros, deixo, logo abaixo, os contatos da EdUERJ:

telefones: (55) 21 2334-0720 / 2334-0721

e-mails: eduerj@uerj.br / eduerj@gmail.com

site: www.eduerj.uerj.br
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fica a super dica, prezados!

beijo nocês tudo!
paulo sabino / paulinho.

AFRODITES EM VERSOS & SUAS MARGENS DE MANOBRAS
28 de maio de 2010

a vocês,
 
uma seleção que traz duas poetas-afrodites (segundo o dicionário da mitologia grega e romana, da editora bertrand brasil, afrodite é a deusa do amor, identificada em roma com a velha divindade itálica vénus) e suas margens de manobras — as orlas, as beiradas de suas estratégias, de suas astúcias, de suas arte&manhas, nas linhas poéticas —.
 
margens: também as linhas (os versos) de tais artimanhas & ardis.
 
duas afrodites em versos, duas poetas que adoro e com obras onde encontro uma série de convergências.
 
a começar pela importância que as musas-afrodites-poetas dão ao movimento de “mergulho em si mesmo”, ao sentido de cair, de quedar-se em si.
 
num poema intitulado “queda”, afirma claudia roquette-pinto:
 
Corpo, precipício
em que desabalar-se
sem rédea, poço sem
resquício de água, férrea
determinação de escapar,
ileso, da queda inconclusa
 
tanto claudia roquette-pinto quanto paula cajaty mostram uma grande atenção ao conhecimento sensorial do corpo, sem racionalizações. a “queda em si” é o conhecimento, o entendimento corporal das sensações, onde há uma dispersão, há uma desatenção, e certa “confusão”, do pensamento, da razão.  
 
a delícia de mergulhar em si, mergulhar no outro, e, assim, mergulhar em tudo, mergulhar na existência.
 
(deixar-se levar pelas sensações à flor da pele, entendendo não pelo raciocínio, e sim pelos toques & retoques de corpo contra corpo.)
 
outra convergência é o destaque, nos textos, ao amor e às relações amorosas, com todas as suas nuances: as dores & delícias: o sexo, o toque, o desejo, o carinho, o amor natural, os desgastes, os afastamentos, os desentendimentos.
 
como a seleção aqui disposta é grande, poderia falar sobre algumas tantas peculiaridades e alguns tantos refinamentos nos textos das poetas. porém, esta apresentação sairia muito longa, e, portanto, um tanto despropositada (rs).
 
duas vozes eloqüentes, inteligentes, que cantam o amor.
 
e como dito: afrodites em versos e suas margens de manobras.
 
quedem-se!, caiam de boca & olhos nestes achados!
 
beijo carinhoso em todos,
paulo sabino / paulinho.  
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(do livro: Afrodite in verso. autora: Paula Cajaty. editora: 7Letras.)
 
 
EGOTRIP
 
ele já não me pertence
perdi o ritmo, sei do meu erro
me entreguei a Narciso.
 
tanto capricho destilado
queima a frio, fere a fogo
marca fundo, seca o amor.
 
nada mais resta para amar
quando nada mais falta para partir.
 
 
MERGULHO NO DESCONHECIDO
 
ela se deliciava nele
com a desconstrução dos seus dogmas
com o questionamento dos seus motivos
vendo estampado por trás do olho
o brilho e o encantamento
que a enchia de tudo
que a suspirava de vida
e dava vontade de se dar pelo mundo…
 
ela gostava do desafio da retórica
ao qual normalmente se foge
num ambiente de conquista
mas ele enfrentava
mantinha a impropriedade das perguntas
questionava seus motivos
dando ainda mais motivo
para ela mergulhar
sempre e ainda mais
nele
nela
em tudo.
 
 
PERDÃO
 
hoje, perdôo a tudo
as faltas de ontem
as noites clareadas de tristeza
o contido choro.
 
esqueço os ciúmes que tive
as lágrimas sem gosto
a solidão
a ausência das juras de amor.
 
hoje, a tudo perdôo
estás aqui, no meu afago
pagando tudo
hoje, só hoje…
 
 
ARTE FEMININA
 
a menina era arteira
sabia dar nó
armar laço
montar armadilha
só para pegar aquele passarinho.
 
aquele passarinho que visitava seu jardim.
 
é, a menina tinha um jardim encantado, ela disse…
cheio de flor, cheio de cheiro…
 
e o passarinho era arisco
vivia beijando as margaridas
e as marias-sem-vergonha
confundindo girassóis
ecantando seu amor-perfeito.
 
mas a menina queria a graça dele
pra ela
queria a liberdade dele
todo dia
mas a menina não sabia
só soube depois
quando já era tarde demais…
 
preso, na gaiola
ele parava de cantar
esquecia os amores de suas flores
perdia o brilho do olho
e desaprendia a voar.
 
 
PINTANDO CONTOS
 
os meus contos
sem conta
te conto baixinho
enquanto devagar
eu deixo você contar
minhas pintas.
 
os meus contos
tão longos
vão devagarinho
envolvendo, enrolando
entremeando encantos
atiçando corpos
te fazendo fita.
 
 
E SE…?
 
e se ela chamasse?
ele atenderia?
se ele aceitasse?
ela assustaria?
se ele beijasse?
ela devolveria?
se ela abraçasse?
ele se entregaria?
 
e se fosse bom?
apaixonariam?
e se fosse ruim?
esqueceriam?
e se fosse uma vez?
o desejo calaria?
e se a amizade morresse?
se arrependeriam?
 
 
ESCONDE-ESCONDE
 
somos adultos
mas ainda brincamos
de esconde-esconde
pique-pega
cabra-cega
falamos mudos
em códigos secretos
para que ninguém entenda
com tantos olhos
ouvidos
campainhas
telefones
fugimos dentro de casa
para dentro de nós mesmos.
 
 
BRINQUEDO DE MENINA
 
A menina incorrigível sumiu o dia todo, largou seu brin-
quedo, deixou o quarto nos fachos de sol que invadiam
suas cortinas de silêncio.
Foi passear no sol, brincar em castelos com a areia da praia,
se divertir com outras sereias do sol e princesas do mar.
Foi desafiar as ondas com seu biquíni de lacinho, lavar
a alma no sal, encher-se da luz do sol para brilhar, ainda
mais, na noite.
A rebeldia da menina queria a infinidade da areia, a leveza
do horizonte, só pra ela… Guardava a maresia no olho.
Contava para as preciosidades que ganhava das ondas,
do brinquedo novo que ganhou e que ficou lá no quarto
dela, solto no chão, iluminado na solidão.
Agora, no segredo de seus escuros, quer brincar de novo
com ele, quer encher o vazio do quarto com sua algazarra.
Mas o brinquedo nunca recusa a menina, ou não seria
tão seu. 
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(do livro: Margem de manobra. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Aeroplano.)
 
 
SOB O TOQUE DA LUZ DO DIA
 
            Sob o toque da luz do dia, sob seus dedos papoulas
em sua primeira floração meu corpo inteiro se abre é o
amanhecer, após uma longa noite durante a qual ela anestesiou
cinco soldados — ondas que assomam, viajam, todos
para amputações esplêndidas, opalescentes, do centro
(dois tinham morrido). As papoulas parecem quentes, opiá-
ceas, uma mancha na encosta, disse ela, generosamente
distribuídas parecem sangue para minha delícia, por toda
a extensão da pele.
 
 
GRANADA
 
Na última noite
os corações se encontram primeiro.
Dentro do tecido e do peito
dispõem-se a acertar o passo
(código-morse toque-a-toque decifrado)
até que o jorro
ouro-vermelho sobe aos lábios,
dispara o beijo
em alta velocidade,
despenca ladeira abaixo,
acendendo os entrepostos no caminho.
Quando as palavras finalmente se apresentam
(ruídos, balbucios)
estremunhadas em meio ao motim,
sob impacto de granada (sua fala),
o sonho explode.
 
 
ROL
 
Na noite sem remédio,
no quarto cansado,
o casal repete a cena:
despe se enlaça
debruça molemente entre cobertas
sobre as partes encobertas
pelos retalhos puídos do dia.
Debruçam sem ruído,
sem sede,
atrás da coisa ausente
que não se perdeu de repente,
num estrondo
(rasga o uso diário,
meia esquecida
no armário, desgarrada
no rol da lavanderia).
Repete a coreografia
— pausa para reticências.
No último instante atenta
(antes que a onda do sonho,
em câmera lenta, recaia
sobre seu corpo)
ela relembra o convite das flores:
tontas de abelhas,
brotando feridas no tronco
do pé de fruta-pão.
 
 
…ENTRE PERNAS, ENTRE BRAÇOS
 
…entre pernas, entre braços, passes e recuos falsos, mais
embolados do que seria plausível, movimentos de improviso
surgem e se sustentam carregados no seu curso, dentro do rio
de energia (lúcido), mas mais ainda que isso, enovelados no
íntimo, distraídos de quem foram antes de entrar neste circuito
(ou círculo), os dois flutuam (caem) sem nunca deixarem
de estar dentro do corpo (corpo que mais uma vez se empresta
a esta descoberta), a superfície do corpo, sua densidade manifesta,
a solidez com que transporta as sensações silmutâneas 
das portas dos sentidos até o centro escuro, interrompe o
pensamento no ímpeto alternado que concentra e dispersa, pele
colada à pele, atenção colada à experiência, distribuindo a
inteligência em diferentes direções (estrelados), cada estímulo
alinhavado reverberando no plexo, côncavos, convexos, sem o
menor intervalo ou qualquer outra palavra de igual afastamento, 
a um passo da completa anulação até que eu e eu
explodem numa coleção de estilhaços, entre pernas, braços…
 
 
HOMEM: MODO DE ABRIR 
 
Com os lábios e com a língua
e qualquer palavra que sirva
para a imagem a ser descascada:
uva túrgida,
auto-suficiente,
súbita inclinando-se ao
verter do próprio sumo
se adequadamente envolta
pela boca
sábia que adivinha (conhece?)
a concentração de urgência e
doçura
dormindo, agora, ali.
 
 
CANÇÃO DE MOLLY BLOOM  (para A.)
 
“O coração dele batia como louco
e sim, eu disse sim”
ao mar carmesim enrodilhando
o meu corpo, às vezes como fogo
às vezes vertigem;
no abraço torto
um tronco atado ao outro
à beira do precipício,
prestes a cair.
Presteza, as nossas bocas
(até ali estrangeiras)
instruindo uma à outra
na mesma velocidade (de raio,
de alcatéia) dos corpos enquanto ensaiam
o reconhecimento
debaixo do tombo dos ventos e atravessados de luz.
E “como ele me beijou
contra a muralha mourisca”
(que ali não existia,
mas quase rima com a lemniscata
de ímã que então se riscava
à volta do meu, do seu coração)
“E sim eu disse sim eu
quero sim” (ainda que muda)
e depois do lampejo de silêncio
(eu estava certa)
a sua voz
toda aberta para mim.
 
 
O PRIMEIRO BEIJO
 
Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.
 
 
KIT E PORT
 
Eles fazem amor na beira do abismo.
A areia o cascalho tisnam, esfolam,
rasgam o vestido e a pele, o cinto
aninhou-se em serpente inerte
ao lado do paletó amarfanhado,
o brinco rolou encosta abaixo,
as palmas das mãos lanharam e
passeiam sua aspereza pelo rosto,
cobrem de poeira o seio trêmulo,
exposto.
A cúpula a concha indecisa
que acima dos corpos se fecha
nada guarda: pálpebra dormente,
anestesiada sob o entardecer,
que fosforesce.
No momento em que a penetra
(apenas o zíper aberto)
centrípeto em seu ímpeto, ele fala.
Repete, enquanto arremete
o corpo contra o dela,
lanha arranha esfola ergue
sua tenda de palavras
sob o céu que não protege.

ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

NUANÇAS DA MANOBRA 1
12 de novembro de 2009

meninos & meninas,
 
para vocês, uma poesia que revela uma nuança da poética da querida e admirada cláudia roquette-pinto.
 
tal característica já foi levantada aqui, na publicação do poema “sítio” (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/09/25/sitio/), que é a guinada surpreendente que dão alguns dos seus versos. de repente, sem que se espere, as linhas mudam a sua prosa radicalmente, e o que, antes, seguia para um determinado ponto, numa manobra inteligente, rápida, sagaz, muda de direção e segue para outro caminho. ocorre, assim, a quebra (e queda) repentina do clima antes instaurado nos versos.
 
notem abaixo: na primeira parte do poema, clima de romance, de total harmonia. perdido, de atenção e carinho, o olho de um no olho do outro; os amantes na mesma paisagem, confiantes, felizes. de súbito, a mudança brusca da paisagem: onde, antes, a harmonia, o rio calmo, agora, na segunda parte do poema, o efeito da tromba d’água, que rasga, desaba, na floresta; raízes desventradas, arrancadas, esfaceladas, e crateras onde o rio antes espalhava seu riso. tudo, repentinamente, seco, estranho e vazio. interrompido o pulso, o bater do coração, o relacionamento extinto, perdido, o fim.
 
o rumo está livre, pessoas. manobrem em direção à poesia, pisem fundo e entrem com tudo!
 
beijo grande nocês todos!
paulo sabino / paulinho.
_______________________
 
(do livro: margem de manobra. autora: cláudia roquette-pinto. editora: aeroplano)
 
sem título
 
para S.
 
Perdido:
o plano de vôo,
a planta do terreno,
o olho engatado no outro,
palavras que não foram a esmo
(as bocas diziam o mesmo
que o coração, fosforescente, no escuro).
Sem reparo,
a concha das mãos sobre as minhas,
entre os lençóis o amor
ou a anestesia, sobre o meu
seu corpo emborcado,
na mesma paisagem, confiante.
Que rasga, desaba,
pior que a floresta depois da tromba d’água,
raízes desventradas,
crateras onde antes o rio espalhava seu riso
— tudo tão estranho e vazio,
sob o olho congelado desta lua sem alma.
Perdido.
Interrompido o pulso,
perigosamente.

SÍTIO
25 de setembro de 2009

pessoas,
 
abaixo, um poema que tange o assunto tratado no post anterior a este, “a cidade unida, o poder nada paralelo”.
 
linhas vindas de uma poeta que, mais à frente, estejam certos, ganhará um texto meu com várias das suas poesias. sou um apaixonado pelo livro de onde veio o poema que lhes chega. nele, no poema, há um tanto de uma das diversas nuances e características aferidas na obra de cláudia roquette-pinto: seus poemas sempre nos salteiam, seguem um rumo que, de repente, é bruscamente mudado, desviado, invertido; seus escritos, de uma hora para outra, sem que se espere por aquilo, dão uma guinada, um salto brusco, e, desse efeito, ocorre-nos a suspensão do ar, tamanho susto pregado pelas linhas. quando li pela primeira vez esta poesia (que abre o livro, é a primeirona!) foi isto o ocorrido após a leitura: uma mudez longa; ali, ante a página, eu, perplexo, domado pelo espanto causado pelo desfecho.   
 
pensei um tanto se deveria pôr, aqui, exatamente as linhas que seguem, pois o meu querido amigo antonio cicero já as postara em seu blog, o acontecimentos, há algum tempo. queria um outro achado, outro canto, todavia, a força dos versos falava mais alto, pedia-me para que fossem eles os selecionados (rs).
 
os versos comungam exatamente com este trecho do meu texto sobre a violência gerada pela disputa dos pontos de venda de drogas ilícitas entre traficantes rivais, em grandes favelas do rio de janeiro:
 
acomete-me o sofrimento que vivem os moradores [de favelas], impedidos de saírem às ruas, de chegarem às suas moradas, mortos, antes de morrerem, pelo medo das atrocidades que lhes podem suceder a partir da guerra instaurada entre facções rivais.
 
beijo em todos com olhos de carinho e cuidado.
paulo sabino / paulinho.
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(livro: margem de manobra / autora: cláudia roquette-pinto / editora: aeroplano)
 
SÍTIO
 
O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
— mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia-a-dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino correndo na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: “Pai!
acho que um bicho me mordeu!” assim
que a bala varou sua cabeça?