WAVE
6 de maio de 2014

Barco a vela

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para Péricles Cavalcanti, pelo seu aniversário hoje

 

wave: palavra da língua inglesa que significa: onda: eis, aqui, a minha grande onda:

gasto muitos cardumes de versos compondo músicas para a vida: gasto gestos louvando a vida: gasto vida por ela (pela vida): e faz sentido o gasto, o pasto, o boi, o homem: plantios diversos: faz sentido uma série de gastos que promove o bem-estar existencial: plantios diversos: o aconchego da pessoa amada, a comida cheirosa posta à mesa, o encontro com o mar, a luz de um dia outonal, o sorriso dos amigos, a leitura de poemas.

temos vida em cada cova que nos cava a vida, ou que cavamos na vida, com o passar do tempo, pois, em cada cova, uma experiência que marca mas que passa, a fim de que uma outra chegue: em cada cova escavada, seja para o plantio da semente de algo que florescerá, seja para o sepultamento de algo que não nos serve mais, a renovação da vida que nos vê passar trilhafora.

gasto dias poemando a vida, homenageando-a, celebrando-a: punheta adolescente: prazer aprendiz, gozo gostoso, vontade alegre de permanecer dentro da vida, de pertencer a ela, apesar dos pesares.

em nome dela, da vida que se renova em cada cova, em cada fenda aberta (seja para o plantio da semente de algo que florescerá, seja para o sepultamento de algo que não nos serve mais), minha poesia de navio, de barco, minha poesia itinerante, errática, minha poesia destinada a navegar sempre; em nome dela, da vida que se renova em cada cova, em cada fenda aberta, minha poesia vela, cuida, zela.

em nome dela, da vida que se renova em cada cova, em cada fenda aberta (seja para o plantio da semente de algo que florescerá, seja para o sepultamento de algo que não nos serve mais), minha poesia de navio, de barco, minha poesia “vela”, minha poesia peça de tecido usada para a propulsão eólica da embarcação em que sigo singrando os mares da vida, eu, o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Euteamo e suas estréias. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

 

WAVE

 

Gasto muitos cardumes de versos
compondo músicas pra vida
Gasto gestos louvando a vida
Gasto vida por ela
e faz sentido o gasto
o pasto
os bois
o homem
plantios diversos.
Temos vida em cada cova
Cada uma
se renova
pra nos ver passar.

Gasto dias poemando a vida
homenageando-a
celebrando-a
punheta adolescente

Em nome dela
minha poesia
de navio
de barco
minha poesia vela.

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A NOSSA CASA
16 de janeiro de 2014

Paulo Sabino_PerfilAmor-perfeito

 

(Na primeira foto: a minha casa. Na segunda foto: um mato que floresce, conhecido por “amor-perfeito”.)
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a nossa casa é de carne & osso: porque o que, de fato, nos abriga, o que, de fato, nos dá guarida, é o corpo.

a nossa casa é de carne & osso porque a nossa casa é o nosso corpo, este, de onde se pronuncia o paulo sabino.

sem o abrigo do corpo, nada feito.

a nossa casa não é sua nem minha (não dispomos desta morada a que chamamos corpo: não compramos, não vendemos, não alugamos, não hipotecamos — simplesmente: habitamos) & também não tem campainha para quem nos chegue de visita, ou para quem venha conosco morar.

a nossa casa, diferentemente das demais (as de tijolo & concreto), tem varanda dentro (e não fora), pois o lugar onde, na nossa casa, passa o vento para ventilar — a fim de trazer vida à residência — é dentro do corpo. o ar passa numa varanda que vem dentro, e não fora, da casa.

a nossa casa tem varanda dentro & tem um “pé de vento” para respirar (assim como em quintais com um pé de manga, ou de goiaba, ou de abacate, para comer): um pé-de-vento para respirar: ventania forte, boca & narinas adentro, que traz, com seu ar, vida à residência.

por essa razão (por ser o corpo a nossa mais legítima morada):

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

basta cuidar dessa casa, da sua arquitetura, deixar que nela more um pé de vento, deixar que nela entre a luz, para que ela possa estabelecer-se segura em qualquer localidade: aqui, no rio; ali, em sampa; lá, no pará; acolá, no japão:

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

basta atentar à casa, à sua arquitetura, deixar que nela entre um pé-de-vento, deixar que nela more a luz, para que ela possa estabelecer-se segura em qualquer localidade: em local onde “amor-perfeito” é mato (até porque “amor perfeito”, se não for mato, inexiste) & o teto estrelado (teto com constelações que brilham no escuro de um cômodo) também tem luar; em local que pareça um ninho, onde surja um passarinho para acordar a casa; em local onde passe um rio no meio & onde o leito (a cama, o lugar de repouso) possa ser o mar:

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Saiba. artista: Arnaldo Antunes. gravadoras: Rosa Celeste / BMG.)

 

 

A NOSSA CASA

 

na nossa casa amor-perfeito é mato
e o teto estrelado também tem luar
a nossa casa até parece um ninho
vem um passarinho pra nos acordar
na nossa casa passa um rio no meio
e o nosso leito pode ser o mar
a nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é em todo lugar
a nossa casa é de carne e osso
não precisa esforço para namorar
a nossa casa não é sua nem minha
não tem campainha pra nos visitar
a nossa casa tem varanda dentro
tem um pé de vento para respirar
a nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é em todo lugar

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(do site: Youtube. videoclipe da canção: A nossa casa. Artista: Arnaldo Antunes. gravadoras: Rosa Celeste / BMG.)

BALADA DO LADO SEM LUZ
13 de abril de 2011

Vela acesa & caderno_Escuro

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um mundo que assassina.

a árvore seca, onde, satisfeitos, nos sentamos.

o mundo da sombra: caverna escondida, onde a luz da vida foi quase apagada.

o mundo da sombra: região do escuro, do coração duro, da alma abalada…

hoje eu canto a balada, hoje eu canto a canção, do lado sem luz.

o lado sem luz: feito de subterrâneos gelados do eterno esperar, esperar pelo amor, pelo pão, pela paz, pela libertação.

é preciso criar a aurora. fazer raiar um novo dia. é preciso navegar, é preciso des-cobrir um outro dia, um outro sol, um sol mais claro, mais luminoso.

aquele que vive do lado sem luz, ouça:

o meu canto é a confirmação da promessa que diz: esperança haverá enquanto houver um canto mais feliz.

um canto mais feliz: como eu gosto de cantar. como eu prefiro cantar. como eu costumo cantar.

(um canto mais feliz: que assim seja.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

BALADA DO LADO SEM LUZ

 

O mundo da sombra
Caverna escondida
Onde a luz da vida
Foi quase apagada
O mundo da sombra
Região do escuro
Do coração duro
Da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão
Pela libertação
Pela paz, pelo ar
Pelo mar
Navegar, descobrir
Outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão abalado, a balada abalada
Do lado sem luz
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Pássaro proibido. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Balada do lado sem luz. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)

QUITANDA DO QUINTANA
28 de setembro de 2009

comensais,
 
as poesias que seguem são frutos de um poeta cuja obra transpira delicadeza, sensibilidade e sofisticação. as linhas são de um lirismo à flor da pele, à flor da sua pena, ágil e certeira, ao manejar tão precisamente as palavras para a configuração de imagens tão apetecíveis. 
 
desta quitanda, frutos da melhor qualidade postos a consumo d’alma. os olhos acesos ante a beleza e o sabor do poemalimento.
 
eis, aqui, algumas ofertas da quitanda do quintana.
 
fartem-se, convivas! estas frutas regulam o bom funcionamento da flora psíquica (rs). 
 
(chico lobo, meu eterno GRANDE amigo, homem bonito e bacana, homem que me trouxe uma série de pessoas que se tornaram amigas e que desejo, e que carrego!, comigo para sempre, ser humano que marcou de modo enriquecedor a minha vida, tantas as belezas compartilhadas, isto é muito para você. para nós, como já bradou o seu xará buarque de hollanda, peço: luz! quero luz! tenha sempre em mente: para além das cortinas, palcos azuis, e, para além dos palcos azuis, infinitas cortinas com palcos atrás. beijo grande, meu lobo bom!) 
 
outro enorme em todos vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(Todos os poemas de Mário Quintana. Dos livros: A Rua dos Cataventos; Canções; Sapato FloridoEspelho Mágico; editora: Globo)
  
III
 
Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…
 
Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.
 
Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de dizer?
 
Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!…
 
 
IV
 
Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou vendo com os ouvidos:
“Couves! Abacaxis! Cáquis! Melões!”
Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,
 
Mas vem, Anjo da Guarda… Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois gavroches atrevidos!
 
Pra que viver assim num outro plano?
Entremos no bulício quotidiano…
O ritmo da rua nos convida.
 
Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista… Não,
Meu pobre anjo… É… simplesmente… a Vida!…
 
 
VI
 
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
 
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofriemento que ele tem se evola…
 
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
 
Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
 
 
XXVII
 
Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,
 
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados…
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…
 
E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê…
Até os cegos, os entrevadinhos… E
 
Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
 
 
A Canção da Menina e Moça
 
Uma paisagem com um só coqueiro.
Que triste!
E o companheiro?
 
Cabrinha que sobes o monte pedrento.
Só, contra as nuvens.
Será teu esposo o vento?
 
O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro à flor.
 
Um coração não cabe num só peito:
Amor… Amor…
 
Uma paisagem com um só coqueiro…
Uma igrejinha com uma torre só…
Sem companheira… Sem companheiro…
Ó dor!
 
O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro… como eu cheiro
A amor…
 
 
Janela de Abril
 
Tudo tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o céu soubesse ler, isso não teria agora a mínima importância. E sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro.
 
 
XII Das Utopias
 
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
 
 
XIII Do Belo
 
Nada, no mundo, é, por si só, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema…
 
 
XIV Do Mal e do Bem
 
Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos…
Já viste as flores qua a mentira dá?
 
 
XXVI Da Mediocridade
 
Nossa alma incapaz e pequenina
Mais complacência que irrisão merece.
Se ninguém é tão bom quanto imagina,
Também não é tão mau como parece.
 
 
XLI Da Arte de Ser Bom
 
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.
 
 
XLIV Dos Livros
 
Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria,
Se a teu amigo tu não sabes ler?
 
 
LXVIII Da Felicidade
 
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!
 
 
Canção do Dia de Sempre
 
Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa…
 
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens no céu…
 
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
 
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
 
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
 
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
 
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

COMER, COMER
14 de agosto de 2009

queridos & queridas, 

como já lhes escrevi, os textos enviados seguem, sempre, por questões emocionais. as linhas têm que tocar a minha sensibilidade e o meu sentimento. 

o texto abaixo lhes chega por causa de uma mulher imprescindível na minha vida, amiga para todas as horas e que faz toda a diferença na minha existência: a minha amada e idolatrada mama, a mãe do meu anjo da guarda, a grande grande grande: fernanda nepomuceno de sá. 

lendo as linhas de hoje, imediatamente lembrei-me da sua mão certeira e ágil para a inexplicável e ininteligível alquimia tão sabiamente produzida por seus dedos, no preparo de qualquer refeição. isto eu afirmo repleto, transbordado, de razão: sempre fui fã (talvez o maior!) do seu talento culinário, da sua capacidade de fazer qualquer macarrão tornar-se algo que não se troca por nada neste mundo, desde antes da chegada do nosso anjo maior, desde quando dividíamos um apartamento (querido por todos que o conheceram), na rua tão acertadamente chamada: monte alegre (rs). 

(ocorreu-me, neste exato momento, a lembrança de um arroz, com lula e mexilhão, feito por suas mãos e alquimia, em saquarema, que eu, tão maravilhado pelo sabor, fiz questão de comer e repetir três vezes(!), querendo mais – rs!) 

comer, para mim, é das coisas mais prazerosas que existem. não é à toa que, na língua portuguesa, haja analogias as mais deliciosas relacionadas à ação de comer, de matar a fome. a seguir, os versos que encerram o poema “a defesa do poeta”, de natália correia: 

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
 

importantíssimo o ato de comer, de matar a fome: de amigos, de carinho, de literatura, de conhecimento, de sexo. comer bem, em todos os sentidos, faz um bem danado (rs). 

e essa ligação com a comida, com o prazer de comer, tem, em nossas vidas, na minha, na vida da nanda e na dos nossos, muito a ver com a realidade de família que criamos, desde o apê na monte alegre, e que se acentuou vertiginosamente com a chegada do meu anjo da guarda, do meu gordinho safado, de nome otto, e do papai do otto, gustavo de sá, também amado e idolatrado por este preto, carinhosamente chamado guto. 

aliás, não bastasse todo o talento da mama, o maridão, fotógrafo exuberante, agora gerente-administrador de um super restaurante tailandês, cada vez mais se especializa nos segredos da boa culinária. aí, é demais para o meu coração (rs)! 

acredito que uma casa de família seja aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, como acontece conosco, mantenham-se as panelas no fogo. além de comer, conversamos muito sobre o que acontece no brasil e no mundo. ouvimos arnaldo antunes, elis regina e novos baianos. ficamos, muitas vezes, de pilequinhos (salve salve a nossa santa cerva – rs!), recheados de histórias divertidíssimas. declaramos, através de gestos e afetos, o nosso mais fundo carinho. 

não, nossa família não é metafísica. evidentemente: nós somos um lar. nós: amigos e aqueles que estão por vir. 

um beijo em todos vocês.

o mumu do otto. 

(hipertexto: otto = anjo da guarda do mumu. seguem, para que todos o conheçam, duas fotos dele, que é das coisas mais lindas e importantes na minha existência. numa delas, ainda bem pequeno, o anjo acompanhado do seu mumu.)

o anjo e o seu mumu

anjo da guarda materializado

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COMER, COMER (Clarice Lispector. Livro: A descoberta do mundo. Editora: Rocco)
 
Não sei como são as outras casas de família. Na minha casa todos falam em comida. “Esse queijo é seu?”  “Não, é de todos.”  “A canjica está boa?”  “Está ótima.”  “Mamãe, pede à cozinheira para fazer coquetel de camarão, eu ensino.”  “Como é que você sabe?”   “Eu comi e aprendi pelo gosto.”  “Quero hoje comer somente sopa de ervilhas e sardinha.”  “Essa carne ficou salgada demais.”  “Estou sem fome, mas se você comprar pimenta eu como.”  “Não, mamãe, ir comer no restaurante sai muito caro, e eu prefiro comida de casa.”  “Que é que tem no jantar para comer?”
 
Não, minha casa não é metafísica. Ninguém é gordo aqui, mas mal se perdoa uma comida malfeita. Quanto a mim, vou abrindo e fechando a bolsa para tirar dinheiro para compras. “Vou jantar fora, mamãe, mas guarde um pouco do jantar para mim.”  E quanto a mim, acho certo que num lar se mantenha aceso o fogo para o que der e vier. Uma casa de família é aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, mantenham-se as panelas no fogo. O fato é simplesmente que nós gostamos de comer. E sou com orgulho a mãe da casa de comidas. Além de comer conversamos muito sobre o que acontece no Brasil e no mundo, conversamos sobre que roupa é adequada para determinadas ocasiões. Nós somos um lar.