AS OFERTAS: PAIOL DE OURO
29 de outubro de 2015

Paulo Sabino_Ilhas Cagarras_por Ana Alexandrino

(Foto acima: Ana Alexandrino.)

Lídice 1
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No peito, Oxum, Oxalá & Xangô.

No pensamento: agradecer & abraçar: o dom, a vocação, para a palavra.

Oxum rege a minha garganta; Oxum, deusa do elemento do meu signo, deusa do elemento natural que mais me fascina: água.

Oxum rege a minha garganta: sua cor é o ouro, o dourado.

O ouro, o dourado: a cor que, na mitologia, representa o orixá.

Oxum: paiol de ouro.

(Paiol: depósito, armazém, compartimento, onde se guardam materiais específicos & variados — de produtos agrícolas a artefatos bélicos.)

Oxum: paiol de ouro: depósito, armazém, compartimento, onde se guarda o ouro, o dourado: a luz, a claridade, a nobreza, a beleza, a riqueza.

Oxum, paiol de ouro: deusa das águas, sereia, cantora rainha: rege a minha garganta de onde nasce este som (o som da minha escrita, o som da minha voz, doado à poesia).

A Oxum, oferto perfumes & flores por ter me dado este dom — o de destinar à palavra o centro da minha vida.

Agradecer & abraçar todos os amigos que me incentivam a continuar de frente, a postos, em guarda, nesta jornada com a poesia. Os incentivos são, sem dúvida, sopros de ânimo nos momentos de aridez.

As ofertas que me atenho a fazer: amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista. Crer na solidariedade humana. Crer na superação dos erros e angústias do presente. Lutar ao invés de recolher dinheiro fácil. Antes, acreditar do que duvidar.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do álbum: Memória da pele. artista: Maria Bethânia. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

 

 

PAIOL DE OURO

 

Oxum
Deusa das águas
Sereia, cantora rainha
Reges a minha garganta
De onde nasce esse som
Te oferto perfumes e flores
Por teres me dado esse dom
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Memória da pele. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Paiol de ouro. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Ofertas de Aninha (Aos Moços)”, poema de Cora Coralina. Em 28/10/2015.)

 

OFERTAS DE ANINHA  (Cora Coralina)
(AOS MOÇOS)

 

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

 

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A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO — SARAU DE ANIVERSÁRIO
22 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_PEmP

São João_Fogueira
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Um convite a TODOS:

Para a 4ª edição do SARAU DO LARGO DAS NEVES, em SANTA TERESA (Rio de Janeiro), em frente ao BAR ALQUIMIA (percebe-se o bar pela movimentação das pessoas no largo), na quinta-feira dia 25 DE JUNHO, concentração às 19h, comemorando os 39 aninhos que completo no dia anterior ao do sarau, dia de são João Xangô menino, 24 de junho — viva são João! viva o milho verde! viva a refazenda!

(Vai ter bolo para o parabéns!)

Justamente por ser um sarau à época dos festejos juninos, preparei uma seleção, para a abertura do sarau, toda voltada ao são João, aos festejos em nome do santo. Abro com 6 autores: Patativa do Assaré; Décio Valente; Waly Salomão; Cecília Meireles; Noel Rosa; Roque Ferreira. 6 poemas todos com a temática do são João. Para o decorrer do evento, separei alguns outros poemas que ampliam a temática da festa para a sua ambiência: o interior, a roça, a vida simples & ordinária, ao mesmo tempo riquíssima & sofisticada, do campo: Thiago de Mello, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Paulo César Pinheiro, e mais o que pintar!

Queridos, saliento o fato de que NÃO SE TRATA de um sarau TEMÁTICO. NÃO. Estou me propondo a questão de recitar poemas juninos & de temática interiorana — para a abertura & algumas costuras no decorrer da noite — mas isso, de maneira nenhuma, é OBRIGATÓRIO para participar das leituras. O sarau continua aberto a TODO & QUALQUER TEMA. Sei que todos nós temos cotidianos agitados, cotidianos por vezes (inúmeras!) apressados, então não quero ninguém catando, feito louco, poemas de são João ou com temas do interior. Pelamor! Vamos relaxar, minha gente! Estamos aqui, antes de tudo & qualquer coisa, para GOZAR & SER FELIZ! Então: se quiser levar, se quiser procurar, se tiver em casa, se se lembrar, ótimo, venha com seus versos juninos e/ou interioranos. Se não quiser, não tiver, não lembrar, ótimo também, traga os versos de amor, de amizade, de solidariedade, de humor, de protesto, enfim, versos são sempre BEM-VINDOS!

A idéia, desta vez, é o sarau literalmente na praça do largo, pegando, emprestada, a energia do bar Alquimia, comandado pela querida amiga Denise Cunha, para o microfone & a caixa de som. Sairmos do bar & invadirmos a praça: com amor no coração, preparamos a invasão!

O sarau é organizado por mim & por uma turma de amigos imprescindível, que faz a coisa acontecer da maneira mais delicada & generosa! Obrigadíssimo, turma amada & idolatrada (salve salve!), por existir na minha vida!

No mais, o mesmo de sempre: vamos com a nossa alegria, o nosso sorriso, os nossos versos, a nossa vontade de ser feliz!

Recapitulando:

Sarau no largo das Neves (na frente do bar Alquimia), em Santa Teresa
Quinta-feira (25/06), a partir das 20h30
19h: concentração para uns drinques & um bate-papo animado
– Comemoração dos 39 aninhos deste que vos escreve

Poeme-se!
Eu & a turma organizadora aguardamos vocês!

Ilustrando esta publicação, deixo um poema, comovido, delicado, que integra a minha seleção para o sarau, sobre a noite alegre & rica, o lindo festejo & o santo sertanejo.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Melhores poemas. seleção: Cláudio Portella. autor: Patativa do Assaré. editora: Global.)

 

 

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

 

Meu São João, meu São Joãozinho!
Quanto amô, quanto carinho,
Quanto afiado e padrinho
Nesta terra brasilêra
Não tem a gente arranjado,
No quilaro abençoado,
Tão belo e tão respeitado,
Da sua foguêra.

Meu querido e nobre santo,
Que a gente qué e ama tanto,
Sua foguêra é o encanto
Da gente do meu sertão.
Não pode sê carculada
A porva que vai queimada
Nessas noite festejada
Da foguêra de São João.

Quantos véio bacamarte
Virge, que nunca fez arte,
Não tão guardado de parte,
Com amô e devoção,
Mode o povo sertanejo
Com eles fazê trovejo,
No mais alegre festejo
Da foguêra de São João!

Pois quarqué arma ferina,
Bacamarte ou lazarina,
Já criminosa, assarsina,
Como é a do caçadô,
Não tem a capacidade
De atirá com liberdade
Na santa quilaridade
Desta foguêra de amô.

Meu São João! Meu bom São João!
Santo do meu coração,
Repare e preste tenção
Quanto é lindo o seu festejo.
Repare lá do infinito
Como isto tudo é bonito,
Sempre digo e tenho dito
Que o senhor é sertanejo!

O homem pode sê ruim
E tê mardade sem fim,
Vivê da intriga e moitim,
Socado na perdição,
Mas a farta mais grossêra,
Mais e feia e mais agorêra,
É de quem não faz foguêra
Na noite de São João.

No mundo tem tanta gente
Véia, já quage demente,
Que não sente o que nós sente
E desfruita por aqui,
Gente sem gosto e sem sorte,
Que já vai perto da morte,
Sem vê um São João do Norte,
Nas terras deste Brasí.

Quem veve lá na cidade
Não conhece de verdade
A maió felicidade,
Três cabôco empareiado,
Com seus bacamarte armado
Dá três tiro encarriado:
— Pei! Pei! Pei! Viva São João!

E o foguete e o buscapé,
E o traque faz rapapé,
Arvoroçando as muié,
Quando elas vai sê madrinha,
E a contente criançada,
Na mais doce gargaiada,
Vai puxando uma toada,
Brincando de cirandinha.

Nesta noite alegre e rica
O prazê se mutiprica,
Na latada de oiticida
Tudo dança com despacho.
O véio Jirome Guéde,
Que sacrifiço não mede,
Toca o que o povo lhe pede
Numa armonca de oito baxo.

Meu São João! Meu bom São João!
Chuvinha, tiro e balão
Nós lhe manda do sertão,
Do nosso grande país,
Damo viva a toda hora
Quando o bacamarte estora,
Dos santo lá da Gulora
O senhô é o mais feliz!

A cinza santa e sagrada
De sua foguêra amada,
Com fé no peito guardada
Quem tira um pôquinho dela
Despois que se apaga a brasa
E bota em roda da casa,
Na vida nunca se atrasa,
Se defende das mazela.

É tão grande, é tão imensa
A minha fé e minha crença,
Que se Deus me dé licença,
Quando eu morrê, vou levá
Grosso fêcho de madêra
De angico e de catinguêra,
Pra fazê uma foguêra
Lá no céu, quando eu chegá.

DESEJOS & ENSINAMENTOS
19 de outubro de 2012

(Paulo Sabino na companhia daquela que o trouxe ao mundo, a grande responsável.) 
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senhores,
 
hoje, 19 de outubro, é um dos dias mais importantes  da minha vida, pois foi hoje que, há 70 anos atrás, veio ao mundo aquela que ao mundo me revelou.
 
hoje, 19 de outubro, a minha amada & idolatrada (salve salve!) cabocla jurema armond, minha mãe, vence as suas 70 primaveras, feliz por vencê-las & cheia de disposição para a vida.
 
digo a vocês que a minha mãe é figura central & imprescindível na minha formação.
 
desde pequeno, me incitava à leitura. desde pequeno, mesmo com seus medo & respeito, me incitava o amor marinho. foi com dona jurema armond que conheci aquela que me abriu as portas da poesia: maria bethânia, e também foi com dona jurema armond que conheci parte da história do cancioneiro popular brasileiro, que, juntamente à poesia, é a arte que mais me emociona.
 
meu amor pelo mar, meu amor pela leitura, meu amor pela música, tudo isso eu devo a ela, à minha mãe, estrela do meu céu.
 
devo a ela tudo que sei de mais fundo sobre o amor & suas capacidades.
 
jurema armond é capaz de tantas belezas… aprendo ouvindo, conversamos muito, mas, sobretudo, aprendo observando as suas ações no quotidiano, observando os seus modos de processar a vida.
 
em todos eles, em todos os seus modos de processar a vida, o que sempre cabe é: amor.
 
é claro, evidente, que a minha cabocla se aborrece, se irrita, se chateia. como todo bom ser humano. entretanto, mesmo aborrecida, irritada, chateada, o viés dos seus atos está sempre de acordo com o amor. não alimenta brigas, não alimenta rancores; tem horror a isso. não abre mão de uma boa conversa, sempre pronta a ouvir, desarmada, verdadeira.
 
suas preferências mundanas (no que se refere a bens materiais) são simples, corriqueiras; suas sofisticações moram em outro departamento: e é assim, desse jeito, que se faz a sua sapiência, a sua sabedoria, sabedoria que busco para minha existência. as minhas sofisticações, assim como as da minha mãe, são existenciais, portanto, mais profundas, não-superficiais. de resto, sou homem de gosto ordinário, de gosto simples, sou um homem comum, qualquer um.
 
aos 70 anos, dona jurema armond não acumulou bens, não acumulou dinheiro. possui o suficiente para uma vida digna, sem dificuldades financeiras.
 
a sua sabedoria: sofisticações existenciais & preferências mundanas (no que se refere a bens materiais) corriqueiras: os desejos, aos 70 anos, de dona jurema armond:
 
de religiosidade acentuada, roga à vida a sua justa medida, nem para mais nem para menos.
 
pede que não sinta o que não tem & não lamente o que podia ter mas se perdeu — os lamentos, pelo que ficou para trás & não volta, não servem de nada.
 
jurema armond, com sua sapiência, busca ser como a chuva desejada caindo mansa, numa terra sedenta (sedenta de suas águas, águas que alimentam & revitalizam) & num telhado velho, desses casarões em ruazinhas residenciais que tanto avivam & aquecem o olhar.
 
à vida, a minha cabocla agradece o suficiente seu para uma existência confortável porém sem grandes luxos, ao lado das suas coisinhas, dos apetrechos que auxiliam a modelar os seus hábitos, a sua rotina.
 
na vida, a minha cabocla almeja acender, ela mesma, o fogo alegre da sua aconchegante morada, na manhã de um novo dia que começa. 
 
começar & recomeçar, e assim por diante: seguir a trilha: eis o seu rumo.
 
de toda a sua sabedoria, ficam-me ensinamentos para um bem viver, ensinamentos dos quais não me esquecerei, ensinamentos que guardarei para sempre:
 
fazer uma chave, mesmo pequena (não importa o seu tamanho), entrar na casa, abrigar-se, acolher-se.
 
consentir na doçura, consentir na delicadeza, ter dó (e, com a dó, cuidar) da matéria dos sonhos (tão frágil a matéria dos sonhos, feita de ar, feita de vôo na imaginação) & da matéria das aves (tão frágil a matéria das aves, feita de penas & plumas, feita de vôo na imensidão).
 
invocar o fogo (o que arde, o que aquece, o que conforta), invocar a claridade, invocar a música dos flancos (o flanco: região localizada acima do quadril, região que mexe & remexe, que agita, que dança).
 
não dizer pedra (palavra dura, sem arestas, palavra que dói, palavra que machuca se arremessada), dizer janela (palavra que areja, palavra que ventila, palavra por onde chegam a luz & o ar).
 
não ser como a sombra (região onde a luz não chega).
 
dizer homem, dizer criança, dizer estrela.
 
repetir as sílabas onde a luz é feliz & se demora.
 
voltar a dizer: homem, mulher, criança.
 
(voltar) onde a beleza é mais nova — e é mais nova porque a beleza no homem, na mulher, na criança, a cada dia, a cada instante vivido, a beleza se re-nova.
 
aqui, senhores, desejos & ensinamentos para um bem viver, desejos & ensinamentos da dona juju.
 
(feliz aniversário, mãe! saúdo a sua existência agora & sempre!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Melhores poemas. autora: Cora Coralina. seleção: Darcy França Denófrio. editora: Global.)
 
 
 
HUMILDADE 
 
 
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
 
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
 
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.
 
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.    
 
 
 
 
(do livro: Poemas de Eugénio de Andrade. autor: Eugénio de Andrade. seleção: Arnaldo Saraiva. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
 
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
 
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
 
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

A OFERTA
19 de outubro de 2011

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benvindos,
 
hoje, 19 de outubro, há exatos 69 anos, nascia aquela que veio a ser a responsável pela concepção deste rapazinho que lhes escreve neste exato momento.
 
hoje, 19 de outubro, a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas 69 primaveras, bem bonita, vigorosa, como mostra a foto.
 
dona jurema armond é GRANDE responsável pelo meu amor à literatura, ao cinema & à música.
 
descobri a poesia através de uma artista que sempre foi o MAIOR ÍDOLO da minha cabocla: maria bethânia.
 
dona jurema armond é muito responsável pelo ânimo do paulo sabino. muito carinhosa, muito amorosa & bem-humorada. divertida. engraçada. às vezes rio sozinho lembrando coisas feitas por ela, coisas ditas por ela.
 
ela é melhor do que eu, não tenho dúvidas. possui capacidades amorosas que ainda não alcanço. eu sou mais genioso, mais “respondão”, não sou de levar desaforo para casa. mesmo. em geral revido na mesma moeda. mesmo. ela, dona jurema, ela é mais branda, mais suave, mais delicada.
 
porém, mesmo sendo menos paciente (o meu temperamento, quando aborrecido, é mais próximo ao do meu pai), sou um homem de delicadezas. prezo pelo bom trato, pelo carinho, pela troca amiga.
 
isso, senhores, eu herdei, é um legado, da cabocla, legado que vejo muito bonito, muito  importante; isso é um sinal de que jurema armond apostou no delicado da  vida.
 
e não vale pensar que a vida dessa mulher é só alegria, só bons momentos.
 
como todo & qualquer bom ser humano, dona jurema armond também viveu os seus maus momentos; momentos de dor, momentos de solidão.
 
todavia, a cabocla sempre deu a volta por cima. aposta no bom humor & tem sua atenção às belezas do quotidiano, não se prendendo às durezas & friezas que determinados sentimentos (de dor, de solidão) podem gerar.
 
o seu lema: viver a dor para, um dia, libertar-se dela.
 
o seu tema: não se deixar destruir.
 
ajuntar as pedras que nos atravessam o caminho, juntá-las todas, e, com elas, a construção de novos poemas.
 
recriar a vida, sempre, sempre.
 
fazer, da vida mesquinha que se possa levar, um poema.
 
é assim que a cabocla vive no meu coração de eterno menino seu, coração jovem, e é assim que a cabocla viverá junto a mim & aos meus.
 
a sua fonte, de força, é para uso de todos os sedentos.
 
sem entraves.
 
a cabocla é pessoa simples; gosta de plantas, de cuidar das plantas, de ter mato por perto; a gleba, o terreno fértil, a transfigura para mais & melhor. e gosta de bichos, de todos soltos, livres, a viver a sua natureza. mulher de simplicidades, gosta muito dos pequenos prazeres, dos que, ao meu ver, realmente importam. o que almeja, quando à vida, é tão singelo, mas ao mesmo tempo tão revolucionário!…
 
o MESTRE carlos drummond de andrade, na sua última entrevista, concedida ao jornal do brasil & publicada 5 dias após a sua morte, em 22 de agosto de 1987, fala o seguinte a respeito da beleza:
 
 
A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela… Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime.   
 
 
ensinamentos para o bem viver, eis a oferta de jurema armond:
 
a cabocla é aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. 69 anos. ensinou a amar a vida. a não desistir da luta. a recomeçar na derrota. a renunciar a palavras & pensamentos negativos. a acreditar nos valores humanos. a ser otimista. 
 
a cabocla crê na solidariedade humana. crê na superação dos erros & angústias do presente.
 
acredita nos jovens, aposta num futuro melhor com a vinda das novas gerações, gerações que descobrirão uma profilaxia, um modo de prevenir, os erros & violências do presente.
 
aprendi, com ela, que mais vale lutar do que recolher dinheiro “fácil”, digo, dinheiro “sujo”, que não é meu por direito.
 
aprendi, com ela, que mais vale acreditar do que duvidar.
 
é dela, de dona jurema armond, que descende o meu modo de enxergar a vida, buscando o melhor para mim, desejando o melhor para todos nós.
 
por isso saúdo a sua existência!
 
parabéns pela data, mãe!
 
beijo IMENSO, minha cabocla!
beijo nos demais!
 
(o filho da dona juju.)
___________________________________________________________________________ 
 
(do livro: Melhores poemas. seleção: Darcy França Denófrio. autora: Cora Coralina. editora: Global.)
 
 
 
ANINHA E SUAS PEDRAS
 
(Outubro, 1981)
 
 
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
 
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
 
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
 
 
 
A GLEBA ME TRANSFIGURA
 
 
Sinto que sou a abelha no seu artesanato.
Meus versos têm cheiro dos matos, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
Amo a terra de um místico amor consagrado, num
                                                              esponsal sublimado,
procriador e fecundo.
Sinto seus trabalhadores rudes e obscuros,
suas aspirações inalcançadas, apreensões e desenganos.
Plantei e colhi pelas suas mãos calosas e mal
                                                              remuneradas.
Participamos receosos do sol e da chuva em
                                                               desencontro,
nas lavouras carecidas.
Acompanhamos atentos, trovões longínquos e o riscar
de relâmpagos no escuro da noite, irmanados no
                                                                                   regozijo
das formações escuras e pejadas no espaço
e o refrigério da chuva nas roças plantadas, nos pastos
                                                                                             maduros
e nas cabeceiras das aguadas.
Minha identificação profunda e amorosa 
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros,
o roncar e focinhar dos porcos, o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir dos cães,
eu me identifico.
Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto, sou mato, sou paiol
e sou a velha da tulha de barro.
Pela minha voz cantam todos os pássaros, piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que vão pelas
                                                                                               estradas.
Sou a espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice e
peso de machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
 
Eu me procuro no passado.
Procuro a mulher sitiante, neta de sesmeiros.
Procuro Aninha, a inzoneira que conversava  com as
                                                                                         formigas,
e seu comadrio com o ninho das rolinhas.
Onde está Aninha, a inzoneira,
menina do banco das mais atrasadas da escola de
                                                                   Mestre Silvina…
Onde ficaram os bancos e as velhas cartilhas da minha
                                                                            escola primária?
Minha mestra… Minha mestra… beijo-lhe as mãos,
tão pobre!…
Meus velhos colegas, um a um foram partindo,
                                                        raleando a fileira…
Aninha, a sobrevivente, sua escrita pesada, assentada
nas pedras da nossa cidade…
 
Amo a terra de um velho amor consagrado
através das gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
Identificada com seus homens rudes e obscuros,
enxadeiros, machadeiros e boiadeiros, peões e
                                                                         moradores.
Seus trabalhos rotineiros, suas limitadas aspirações.
Partilhei com eles de esperança e desenganos.
 
Juntos, rezamos pela chuva e pelo sol.
Assuntamos de um trovão longínquo, de um fuzilar
de relâmpagos, de um sol fulgurante e desesperador,
abatendo as lavouras carecidas.
Festejamos a formação no espaço de grandes nuvens 
                                                                                             escuras
e pejadas para a salvação das lavouras a se perderem.
Plantei pelas suas enxadas e suas mãos calosas.
Colhi pelo seu esforço e constância.
 
Minha identificação com a gleba e com a sua gente.
Mulher da roça eu o sou. Mulher operária, doceira,
abelha no seu artesanato, boa cozinheira, boa lavadeira.
A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra.
Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo.
Sou a cigarra cantadeira de um longo estio que se
                                                                            chama Vida.
Sou a formiga incansável, diligente, compondo seus
                                                                                         abastos.
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e
                                                                             sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra.
Minha pena é a enxada do plantador, é o arado que vai
                                                                                             sulcando
para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e
                                                                                 fecundada
no ventre escuro da terra. 
  
 
 
OFERTA DE ANINHA
(AOS MOÇOS)
 
 
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
 
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
 
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
 
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

A FLOR
19 de outubro de 2010

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hoje,
 
para este que vos escreve, é um grande dia.
 
pois que a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas sessenta e oito primaveras, lindíssima, como se pode ver na foto; mulher cheia de saúde, de alegria e de bondade.
 
senhores,
 
jurema armond é das pessoas mais amorosas que conheço. o seu entendimento das coisas perpassa o coração, impreterivelmente. entre mim e ela sempre houve um entendimento que se dá na seara do amor.
 
a certeza disto: se hoje o paulo sabino é um homem amoroso, um homem de bem-querer, boa, grande, incomensurável é a responsabilidade da minha cabocla.
 
foi com ela que tudo começou:
 
o prazer pela leitura, estimulado pelas diversas coleções de livros infantis;
 
as idas ao teatro e ao cinema;
 
a paixão pela música brasileira, que teve início em maria bethânia, a GRANDE diva na vida da cabocla (e que tomei para mim). foi bethânia quem me abriu as portas da poesia escrita, ainda bem novinho, com fernando pessoa, o poeta número um da artista;
 
o amor pelo mar: ele veio com ela, com a minha cabocla, que, junto ao meu pai, me adorava levar a praias diversas, mesmo com o seu pavor de mar & ondas (rs). me estimulou a fazer natação, a desenvolver ainda mais a minha relação com água, elemento que me fascina, que me vira a cabeça.
 
volta e meia digo à dona jurema armond, num tom de brincadeira séria (que acho o tom correto para este meu sarro – rs), que o mundo, a humanidade, seria mutíssimo melhor se a conhecesse fundo, se pudesse a humanidade conviver com as suas verdades, com a sua integridade, com a sua capacidade de acarinhar & cuidar.
 
viro o mundo de cabeça para baixo pela felicidade de dona jurema armond. no que de mim depender, o mundo mau não a alcançará nunca.
 
a ela saúdo com esta salva de palavras atiradas ao papel.
 
a homenagem segue com um apanhado de poemas escritos por uma poeta que a dona jurema ADORA.
 
conheci a poeta ainda jovenzinho, assistindo a um programa de poesia na tv. tratava-se de um especial sobre a poeta. fiquei fascinado por aquela “avozinha” de cabelos bem branquinhos, de voz doce & delicada, bem-humorada, contando histórias de sua infância & adolescência num tempo muito antigo, tempo de escravos, de amas de leite, fazenda, rezas & terços, de acentuada religiosidade, de rigores no comportamento social, de castigos corporais, de conservadorismos, de subserviência feminina ao “poder patriarcal”.
 
(se pensarmos bem, esse tempo não parece tão distante deste tempo, infelizmente…)
 
a poeta escondeu a vida toda os seus versos da sua família, que considerava “prestimosa” a mulher dedicada exclusivamente às tarefas domésticas. segundo a família, mulher não nascera para pensar.
 
trata-se de uma poeta nascida em 1889, revelada ao grande público aos 76 anos de idade por ninguém menos que o MESTRE carlos drummond de andrade. o bardo a definiu “diamante solitário”, pois que, a rigor,
 
cora coralina não seguiu escolas nem estilos.
 
foi única na forma de expressar, no seu tempo, a sua poesia.
 
jurema armond também é feita de ineditismo: a sua forma de expressar, no seu tempo, o seu amor. por isso a cabocla me é tão cara: porque rara: porque um diamante solitário.
 
a você, pessoa mais que adorada, os meus parabéns pela data e o desejo dos três “s”: saúde, sorte & sucesso nas realizações!
 
beijo-TITÃ em você, minha flor!
 
um outro grande nos senhores!
 
o filho da dona juju.
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(do livro: Melhores poemas — Cora Coralina. seleção: Darcy França Denófrio. editora: Global.)
 
 
TODAS AS VIDAS
 
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acordada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
 
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
 
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
 
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.
 
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
 
Todas as vidas dentro de mim.
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.
 
 
OS HOMENS
 
Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. É aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.
 
É como a água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
                                           represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que encontramos
                                                                        na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.
 
Há também, lado a lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
                                                reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos
                                                              os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.
 
Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir — conduz.
Não improvisa — estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiem,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.
 
Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
 
 
ESTA É A TUA SAFRA
 
Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem
                                                                 digam,
coitada da mamãe…
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.
 
Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das novas gerações.
 
Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam
                                                          revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.
 
Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.
 
Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que
                                                           te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade
                                                                humana.
Esta é a tua safra.
 
 
A FLOR
 
Na haste
hierática e vertical
pompeia.
Sobe para a luz e para o alto
a flor…
 
Ainda não.
 
Veio de longe.
Muda viajeira
dentro de um plástico esquecida.
Nem cuidados dei
à grande e rude matriz fecundada.
Apanhada num monte de entulho de lixeira.
 
“Cebola brava” na botânica
sapiente de seu Vicente.
Oitenta e alguns avos de enxada e terra.
Sabedoria agra.
Afilhado do Padim Cícero.
Menosprezo pelas “flores”:
“De que val’isso?”    
Displicente, exato, irredutível.
 
E eu, meu Deus,
extasiada,
vendo, sentindo e acompanhando,
fremente,
aquela inesperada gestação.
 
— Um bulbo, tubérculo, célula
de vida rejeitada, levada na hora certa
à maternidade da terra.
 
                                                                          A Flor…
 
Ainda não.
Espátula. Botão
hígido, encerrado, hermético,
inviolado
no seu mistério.
Tenro vegetal, túmido de seiva.
Promessa, encantamento.
Folhas longas, espalmadas.
Espadins verdes
montando guarda.
 
                                                               Da Flor…
 
A expectativa, o medo.
Aquele caule frágil
ser quebrado no escuro da noite.
O vento, a chuva, o granizo.
A irreverância gosmenta
de um verme rastejante.
O imprevisto atentado
de alheia mão
consciente ou não.
 
Alerta. Insone.
Madrugadora.
 
Na manhã mal nascida,
toda em rendas cor-de-rosa,
túrgida de luz,
ao sol rascante do meio-dia.
No silêncio serenado da noite
eu, partejando o nascer da flor,
que ali vem na clausura
uterina de um botão.
Rombóide.
 
                                                    Para a flor…
 
Chamei a tantos…
Indiferentes, alheios,
ninguém sentiu comigo
o mistério daquela liturgia floral.
Encerrada na custódia do botão,
ela se enfeita para os esponsais do sol.
Ela se penteia, se veste nupcial
para o esplendor de sua efêmera
vida vegetal.
 
Na minha aflita vigília
pergunto:
— De que cor será a flor?
 
Chamo e conclamo de alheias distâncias
alheias sensibilidades.
Ninguém responde.
Ninguém sente comigo
aquele ministério oculto
aquele sortilégio a se quebrar.
 
                                                                             Afinal a Flor…
 
Do conúbio místico da terra e do sol
— a eclosão. Quatro lírios
semi-abertos,
apontando os pontos cardeais
no ápice da haste.
Vara florida de castidade santa.
Certo heráldico. Emblema litúrgico
de algum príncipe profeta bíblico
egresso das páginas sagradas
do Livro dos Reis ou do Habacuc.
 
E foi assim que eu vi a flor.
 
 
MEU EPITÁFIO
 
Morta… serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.
 
Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.
 
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
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ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)