A ARTE DOS VERSOS
21 de julho de 2015

Plantação de couve

(Plantação de couves.)
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Um convite aos navegantes: nesta quinta-feira, 23 de julho, a 5ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Na frente do bar Alquimia. As leituras & declamações começam às 20h30, mas a concentração, para uns drinques & um bate-papo animado, a partir das 19h. Aguardando todos!
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Para Antonio Cicero, que me fez lembrar o poema

 

 

toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui, na maneira como esta mulher, dos arredores de cantão, na china, ou dos campos de alpedrinha, em portugal, rega quatro ou cinco leiras, rega quatro ou cinco canteiros, de couves: mão certeira com a água, intimidade com a terra, empenho do coração.

assim se faz a planta bonita & viçosa: toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui: mão certeira com a água, intimidade com a terra, empenho do coração.

assim se faz o poema: toda a ciência, todo o conhecimento atento & aprofundado de algo, está aqui: mão certeira com a água & intimidade com a terra, mão certeira & intimidade com os nutrientes do poema, com aquilo que o alimenta (a palavra, o vocabulário, as formas poéticas, as brincadeiras lingüísticas), e empenho do coração (a dedicação à causa, o cuidado, o carinho, a atenção, com os versos).

assim se faz a planta bonita & viçosa, assim se faz o poema: mão certeira & intimidade com os nutrientes, com aquilo que os alimenta, e empenho do coração — a dedicação à causa, o cuidado, o carinho, a atenção.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas de Eugénio de Andrade. seleção: Arnaldo Saraiva. autor: Eugénio de Andrade. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A ARTE DOS VERSOS

 

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

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SEI LÁ, NÃO SEI…
9 de junho de 2015

Cine Olaria_PB

Cine Olaria_2015

(Na primeira foto, o Cine Olaria, em funcionamento, como o conheci na infância & parte da adolescência; na segunda foto, o Cine Olaria nos dias atuais, desativado & abandonado.)
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Dias atrás, pensei com os meus botões: se existe uma vantagem em nascer em bairro do subúrbio, bairro periférico, portanto, bairro mais pobre, e eu enxergo outras tantas vantagens, é a oportunidade, mais contundente, de entender, através da razão & do sentimento, que a riqueza material — a grana, as ações, as apólices — nada tem a ver com a riqueza de sentimentos que se pode ter para doar.

Toda vez que escuto este poema-canção, toda vez que leio os seus versos, me vem à cabeça Olaria, bairro onde, depois de nascido (no Estácio) & saído do hospital, fui morar.

Um suburbano coração.

Os versos deste poema-canção me vêm à cabeça porque, quando penso em determinada área de Olaria, área que não acho esteticamente bonita mas que ao mesmo tempo acho bela, feliz, aprazível ao olhar, consigo me ver nas linhas poéticas, me espelho na voz do poeta, me digo nos versos do poema-canção.

Porque determinados lugares, que, a princípio, não agradam esteticamente, podem conter uma atmosfera, uma sintonia, uma espécie de “calmaria” & “alegria”, indescritíveis, que não estão na arquitetura, que não estão propriamente na “matéria”, nas construções avistadas.

Em Olaria, a poesia, feito o mar, se alastrou; e a beleza de um lugar no bairro, para entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê; a vida é um pouco mais do que o percebido pelos olhos, a vida é um pouco mais do que o tocado pelas mãos, a vida é um pouco mais do que o pisado pelos pés.

A beleza de certo local do lugar não me parece “palpável”, “material”. Eu vejo, sinto, percebo, determinado trecho de Olaria em todo o poema-canção.

A incerteza, a dúvida, o desconhecimento da razão de tamanho sentimento por um lugar, em Olaria, que esteticamente seria julgado como feio: sei lá, não sei… Não sei se, toda a beleza de que lhes falo, sai tão-somente do meu coração. Em Olaria, a poesia, num sobe & desce constante, anda descalça, de pé no chão, pobre, primordial, ensinando um modo novo de viver, de sonhar, de pensar, e sofrer.

Olaria: a sua calmaria, o seu silêncio, as suas muitas ruas de casarões, a sua face interiorana, a sua face feia & feliz, a sua pobreza, a sua despreocupação, me formam, me moldam, me conduzem.

Olaria é tão grande que nem cabe explicação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: De onde vêm as palavras. autor: Deonísio da Silva. editora: Lexikon.)

 

 

FAVELA: é controvertida a origem deste vocábulo. Pode ter vindo do latim “favilla”, cinza quente, ou de “favu”, o conjunto de alvéolos de uma colmeia, que também se chama cortiço. Nos dois casos, alude-se, por metáfora, a conjuntos de habitações precárias. Quanto à origem, na clássica oposição entre cru e cozido, que segundo alguns teóricos definiu as civilizações, a cinza quente lembra o fogo feito no chão, com o fim de assar ou cozinhar. Os antecessores dos modernos fogões a gás ou elétricos, feitos de ferro, substituíram os fogões de pedra. Mas entre uns e outros dominou um tipo especial de fogão de correntes, afixadas num tripé ou no teto das cozinhas. Ganchos apropriados serviam para que panelas e chaleiras fossem ali dependuradas, embaixo das quais crepitava o fogo do chão, depois tornado brasa e cinza. Vistos de longe, pelas frestas dos barracos ou ao ar livre, onde também eram feitos, esses fogos teriam dado àquele amontoado de casas a aparência de uma colmeia. Outra explicação para o significado de habitação popular é dada por Antenor Nascentes e acolhida pelo “Dicionário Houaiss”: na campanha de Canudos, os soldados ficaram instalados no Morro da Favela, localidade daquela região assim chamada porque ali havia grande quantidade da planta que leva este nome (favela). Quando voltaram ao Rio de Janeiro, “pediram licença ao Ministério da Guerra para se estabelecerem com suas famílias no alto do Morro da Providência e passaram a chamá-lo Morro da Favela.”
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(autor: Hermínio Bello de Carvalho.)

 

 

SEI LÁ, MANGUEIRA

 

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá…
Sei lá, em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar

Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei…
Não sei se toda a beleza de que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe e desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De sonhar, de pensar e sofrer

Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei, não…
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

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(do site: Youtube. do álbum: Cantoria. canção: Sei lá, Mangueira. versos: Hermínio Bello de Carvalho. música: Paulinho da Viola. intérprete: Caetano Veloso. Participação especial: Paulinho da Viola / Chico Buarque. gravadora: Biscoito Fino.)

COISA EM SI
16 de maio de 2015

Ovo
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toda & qualquer coisa é composta de outras tantas coisas.

não existe “coisa em si”.

toda & qualquer coisa forma uma identidade. identidade que se forme, que se molde, que se construa, sem que tenda para alguma coisa, sem que sofra a influência de alguma coisa, sem que penda para algum lado, sem que dependa de alguma outra coisa, não existe.

tudo tende, pende, depende.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: tende / pende / depende.

palavra puxa palavra.

o mar, que molha a ilha, molha o continente.

o ar que se respira traz o que recende, o que exala, o que se espalha. o ar que injetamos nos pulmões é o mesmo que, livre, toca o cheiro das coisas & o traz, de longe, até nós.

tudo é rente, é próximo, é contíguo. tudo é tangente, é tocável, é acessível. tudo é inerente, é dependente, é inseparável.

tudo é rente, tangente, inerente.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: rente / tangente / inerente.

palavra puxa palavra.

não existe coisa assim: isenta, sem ambiente, coisa partida do seu próprio pó, sem mistura, coisa sem sombra na parede, coisa sem margem ou afluente que a alcance, que a toque: as coisas existem & necessariamente, obrigatoriamente, estabelecem inter-relações: não há coração sem mente, não há paraíso sem serpente. não existiria som se não houvesse o silêncio. não haveria luz se não fosse a escuridão.

a vida é mesmo assim: dia & noite, não & sim.

“coisa em si” inexiste.

só existe o que se sente, só existe o que é percebido através dos sentidos. uma coisa, mesmo que exista, se não for sentida por nós, isto é, se não for percebida por nós, essa coisa não existe para nós. para que exista para nós, portanto, as coisas precisam, as coisas dependem, as coisas necessitam, as coisas carecem, existir, antes, para os nossos sentidos.

tudo tende, pende, depende. tudo é rente, tangente, inerente.

não existe “coisa em si”.

a miscigenação, a mistura, a mesclagem, a influência, a tendência, a confluência, sempre foi & sempre será o caminho de toda & qualquer coisa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: ET  Eu  Tu. poemas: Arnaldo Antunes. fotos: Marcia Xavier. editora: Cosac & Naify.)

 

 

coisa em si
não existe

tudo tende
pende
depende

o mar que molha
a ilha molha
o continente

o ar que se
respira traz
o que recende

coisa em si
não existe

tudo é rente
tangente
inerente

pedra
assemelha
semente

sol nascente:
sol poente

coisa em si
não existe

mesmo que
aparente

coisa em si
coisa só
partida do seu
próprio pó

sem sombra
sobre
a parede

sem mar
gem
ou afluente

não existe
coisa assim

isenta
sem ambiente

não há coração
sem mente

paraíso
sem serpente

coisa em si
inexiste

só existe
o que se
sente

CERIMONIAL: ALEGRIA SEM NOME
22 de janeiro de 2015

Ilhas Cagarras_Rio de Janeiro
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eu vou, no cerimonial da vida, no ritual que me cabe viver, colhendo, com unção, apanhando, com suavidade, com macieza, os dias, conforme tu, vida que me cabe viver, os confias à minha mão sempre disposta a alcançá-los: leves vestes, roupas confortáveis (os dias que tu, vida que me cabe viver, confias à minha mão), que enfio, que visto, quando o coração me despe, quando o coração me desnuda.

quando me despe o coração, quando me desnuda o coração, visto, enfio, os dias que me cabem como roupas leves, confortáveis: pois quando me desnuda o coração, o que resta de mim, nu, é o mais espontâneo & genuíno sentimento de carinho pela vida, pelas coisas que me cercam.

despido pelo coração e, justamente por isso, enfiado nas vestes leves que os dias me aprontam.

vestido das leves vestes que são os dias que tu, vida que me cabe viver, confias à minha mão, ouço-a chegar: é uma leve breve voz na superfície do dia.

ouvi-la lembra países, porque países lembram idiomas, e idiomas lembram vozes distantes, vozes que não nos são próximas, vozes desconhecidas, suspensas no ar: ei-la que vem nupcial, ei-la que vem carregada de amor, sobre o grande rumor do mar.

a leve breve voz não mancha o pensamento, a paisagem.

nada comove as águas paradas, as águas aquietadas, da manhã: silvos, caracóis, canas & vimes: nenhuma voz comove a tranqüilidade das águas matinais.

vejo-a morrer — a leve breve voz — nos pauis, nos pântanos (regiões ribeirinhas cobertas por águas paradas), onde inauguro gestos esquecidos: um arco desenhado pelo braço, um movimento feito com a cabeça, um jeito de corpo.

alegria sem nome lhe chamo. “alegria sem nome” chamo a voz nupcial que atravessou o pensamento, a paisagem, sem manchá-los, “alegria sem nome” lhe chamo & não conheço outro nome para ela.

“alegria sem nome” é o seu nome: uma leve breve voz desconhecida que vem sobre o grande rumor do mar, nupcial, carregada de amor, sabe-se lá por quê, sabe-se lá de onde, sabe-se lá para quem. nada disso importa.

importa é termos os olhos, os ouvidos & o coração abertos às tantas vozes leves & breves presentes na colheita que tu, vida que me cabe, confias à minha mão, ofertando-me, por conseguinte, alegrias que não precisam, que não devem, ser nomeadas.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Aquele grande rio Eufrates. autor: Ruy Belo. editora: 7Letras.)

 

 

CERIMONIAL

 

Eu vou colhendo com unção os dias
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração

 

 

ALEGRIA SEM NOME

 

É uma leve breve voz
à superfície do dia
Ouvi-la lembra países
Ei-la que vem nupcial
sobre o grande rumor do mar
Não mancha o pensamento a paisagem
Nada comove
as águas paradas da manhã:
silvos caracóis canas e vimes
Vejo-a morrer nos pauis
onde inauguro gestos esquecidos
Alegria sem nome lhe chamo
e não conheço para ela nenhum outro nome

INDÍCIO: O PARADEIRO DO POETA
9 de dezembro de 2014

Coração_Árvore_Tronco

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na noite acesa de um luar certeiro, de um luar altaneiro, o paradeiro do poeta foi a velha mesa de onde foi presa, de onde foi a caça, quando aventureiro do primeiro amor que lhe deu tristeza.

de uma beleza de não ter parceiro, de uma beleza sem par, beleza ímpar, única, o candeeiro branco da princesa (candeeiro: no brasil colonial, chapéu de três pontas, também chamado tricórnio) causou surpresa, espanto, pasmo, ao poeta violeiro, que se deu inteiramente à boniteza da princesa & seu candeeiro branco.

sendo, o poeta, cavaleiro de sua princesa, alteza do seu reino amoroso, o poeta pôs, no tinteiro, a pena com firmeza, e, com presteza, foi o mensageiro de sua alteza, que é o seu amor.

findo, com delicadeza, o roteiro em versos, o poeta deixa, na velha mesa (de onde foi a presa, de onde foi a caça), um verso brasileiro que, no fim das contas, resulta em homenagem ao cancioneiro & à língua portuguesa.

pois, ainda que o poeta desejasse secreta a sua paixão por sua alteza, paixão nenhuma nunca foi secreta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais oculta que ela tenha estado, nasce uma luz quando a paixão se projeta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: no tronco velho da árvore, um coração cavado; dentro dele, a ponta de uma seta. um simples nome escrito ali, dentro ou próximo ao coração, completa o antigo indício de um apaixonado.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais que a alma queira ser discreta, o coração quer ser desmascarado: a luz da paixão, do amor, confunde o peito iluminado, iluminado pela luz de um candeeiro, pela luz de um lampião, que vai dentro.

o amor não deixa vida alguma quieta, sossegada: há sempre um arroubo, um desvario, um disparate, a ser cometido.

para o amor não há muitas escolhas: ou morre dele quem ficar calado, abafando-o, sufocando-o, reprimindo-o, ou vive dele quem virar poeta, confessando-o, declarando-o, louvando-o, em versos.

(paulo sabino escolheu viver dele.)

beijo todos!
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(do livro: Sonetos sentimentais pra violão e orquestra. autor: Paulo César Pinheiro. editora: 7Letras.)

 

 

PARADEIRO

 

Na noite acesa
De um luar certeiro
Meu paradeiro
Foi a velha mesa
De onde fui presa
Quando aventureiro
Do amor primeiro
Que me deu tristeza.

De uma beleza
De não ter parceiro
O candeeiro
Branco da Princesa
Causou surpresa
A esse violeiro
Que deu-se inteiro
À sua boniteza.

De Sua Alteza
Sendo cavaleiro
Pus no tinteiro
A pena com firmeza
E com presteza
Fui seu mensageiro.

Findo o roteiro
E com delicadeza
Deixo na mesa
Um verso brasileiro
Ao Cancioneiro
E à Língua Portuguesa.

 

 

INDÍCIO

 

No tronco velho um coração cavado
E dentro dele a ponta de uma seta.
Um simples nome escrito ali completa
O antigo indício de um apaixonado.

Paixão nenhuma nunca foi secreta.
Tem sempre um rastro que vai ser achado.
Por mais oculta que ela tenha estado
Nasce uma luz quando ela se projeta.

A luz confunde o peito iluminado.
Por mais que a alma queira ser discreta
O coração quer ser desmascarado.

O amor não deixa vida alguma quieta.
Ou morre dele quem ficar calado
Ou vive dele quem virar poeta.

AS APARÊNCIAS ENGANAM
11 de novembro de 2013

Fogo & Gelo

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(Esta é uma das coisas mais lindas que a música popular poderia ter feito por mim, por nós. E, nesta fase, tudo muito à flor da pele, é assim: coloco para escutar, e choro choro choro – rs.)
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As aparências enganam os que odeiam & os que amam: pois o amor & o ódio se tocam em suas extremidades: um amor, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento: oceano sem água.

O ódio, em caso de amor, só existe porque, no fundo do ser, existe algum sentimento resguardado pelo outro.

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na fogueira das paixões: os corações pegam fogo e, depois, não há nada que os apague.

Se a combustão os persegue, as labaredas & as brasas são o alimento (aquilo que faz viver), o veneno (aquilo que faz morrer), o pão, o vinho seco (a bebida quente, que aquece & inebria, e que é, ao mesmo tempo, rascante): a recordação dos tempos idos de comunhão, dos tempos idos de união feliz — sonhos vividos de conviver…

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na geleira das paixões: os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele.

Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser: não há mais forma de se aquecer… não há mais tempo de se esquentar… não há mais nada pra se fazer senão chorar sob o cobertor…

As aparências enganam os que gelam & os que inflamam: porque o fogo & o gelo se irmanam no outono das paixões: o outono das paixões: tempo de recolhimento, tempo de quietude, tempo de reestruturação do ser: pensar & repensar o relacionamento vivenciado, pensar & repensar se o relacionamento vivenciado vale a pena, e, caso não valha mais, aprontar-se para o porvir: os corações cortam lenha e, depois, se preparam para outro inverno.

Mas, apesar dos pesares, o verão que os unira — que unira os corações agora separados — ainda vive & transpira ali (ainda vive & transpira dentro do ser, na recordação dos tempos idos de comunhão, nos sonhos vividos de conviver): nos corpos juntos, na lareira; na reticente primavera, primavera — estação da floração, do renascimento — ainda hesitante; no insistente perfume de alguma coisa — que não sabemos & não podemos definir ao certo — chamada:

AMOR.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autores: Tunai / Sérgio Natureza.)

 

 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

 

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois
Não há nada que os apague
Se a combustão os persegue
As labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão
O vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão
Sonhos vividos de conviver

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e depois
Não há nada que os degele
Se a neve cobrindo a pele
Vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer
Não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer
Senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam
Aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo
Se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e depois
Se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira
Ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos, na lareira
Na reticente primavera
No insistente perfume
De alguma coisa chamada amor
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Elis, essa mulher. artista & intérprete: Elis Regina. canção: As aparências enganam. autores da canção: Tunai / Sérgio Natureza. gravadora: WEA Music.)

VERSOS DE ORGULHO: CHARNECA EM FLOR
24 de abril de 2013

Charneca em flor

(Charneca em flor: charneca: vegetação que cresce em regiões incultas & arenosas, caracterizada por arbustos & plantas herbáceas resistentes.)
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enche o peito da mulher amorosa, num encanto mágico, o frêmito — o balançar, o bramido — das coisas dolorosas, das coisas doídas, das coisas que machucam…

sob as urzes — plantas arbustos que florescem flores brancas — queimadas da mulher amorosa, nascem suas rosas…

(sob as coisas dolorosas, coisas doridas, da mulher amorosa, nasce seu encanto mágico.)

nos seus olhos as lágrimas são apagadas.

anseia, deseja, a mulher amorosa! asas abertas! o que traz dentro de si? ela ouve bocas silenciosas murmurar-lhe as palavras misteriosas que perturbam seu ser como um afago (as palavras misteriosas: desejo, febre, amor…).

e, na febre ansiosa que a invade, a mulher amorosa despe a sua mortalha, despe o seu burel, a mulher amorosa despe as suas vestimentas de luto, de tristeza, e já não é — a mulher amorosa — “sóror saudade”, e já não é — a mulher amorosa — a porta-voz da saudade, e já não é — a mulher amorosa — a religiosa a carregar a saudade no andor.

olhos a arder em êxtases de amor, boca a saber a sol, a fruto, a mel: a escolha da mulher que já não é “sóror saudade” (a religiosa que carrega a saudade no andor): a proposta — que não é a mesma de antes — da mulher: arder em êxtases de amor: ser a charneca rude a abrir em flor!

por ter os olhos a arder em êxtases de amor, por ter a boca a saber a sol, a fruto, a mel, por ser a charneca rude a abrir em flor, diz a mulher amorosa que o mundo lhe quer mal. diz a mulher amorosa que o mundo lhe quer mal também porque ninguém tem asas como as suas, porque deus a fez nascer “princesa” entre plebeus, numa torre de orgulho & de desdém.

à mulher amorosa — princesa de um reino para além (do mundo material), alheia aos reles mortais que somos, encastelada em sua torre de orgulho & de desdém — cabe, no seu olhar, os vastos céus; e os ouros & os clarões da vida (a luz do dia, a transparência da água, o frescor do vento, a clareza da cor) são todos seus.

o mundo — o que é o mundo ao amor da mulher amorosa, princesa presa ao seu reino (que fica para além), distante desta nossa vida ordinária?

o mundo ao amor da mulher amorosa: o jardim dos seus versos todo em flor… a seara — extensão de terra cultivada — dos beijos do amado amor, pão bendito em sua boca.

os êxtases os sonhos os cansaços, da mulher amorosa: são os braços do seu amado amor dentro dos seus braços, via láctea (os braços da mulher amorosa) fechando, abarcando, acolhendo, abrigando, cabendo, o infinito (o universo que representa o amado amor para a mulher amorosa, para a sua proposta, não mais a de “sóror saudade”: olhos a arder em êxtases de amor, boca a saber a sol, a fruto, a mel, a charneca rude a abrir em flor).

(nunca é tarde para mudanças, nunca é tarde para novas propostas.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Florbela Espanca. organização: Maria Lúcia Dal Farra. editora: Martins Fontes.)

 

 

CHARNECA EM FLOR

 

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

 

 

VERSOS DE ORGULHO

 

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?
— O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
— São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

UM FELINO GRÁVIDO DE PALAVRAS
7 de março de 2012

(Paulo Sabino & seu felino enjaulado no peito, grávido de palavras.)_____________________________________________________________

eu,

paulo sabino,

sou um preto.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
negro sou,
 
orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmares, orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmeirais do meu brasil varonil, e também orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmares, à sombra do quilombo que se tornou o grande símbolo da resistência negra contra a escravidão, orgulhosamente bem-nascido à sombra das tantas lutas que me possibilitam, hoje, preto, ser quem eu sou.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
orgulhosamente bem-nascido à sombra da chamada grande democracia racial, ocidental, tropical…
 
(isso me faz lembrar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”…)
 
sou bem um outdoor de preto, body and soul, com a cara para o luar (porque um alucinado pela lua, por suas fases & seu brilho prata), sou bem um outdoor de preto com a cara para o luar, como a noite (minha amante aventurosa) quando alta, sou bem um outdoor de preto (com a cara para o luar) inflando a percussão do peito, inflando a percussão trabalhada pelo músculo oco que me habita, feito um anjo feliz.
 
um anjo feliz. 
 
um livre livro.
 
livro que escreve a sua história ao passo em que vive a sua escrita existencial, a escrita dos fatos, dos acontecimentos. nada já riscado, nada já rabiscado, como quando um quadro-negro atrás de um giz: um quadro negro atrás de um giz é um quadro-negro já riscado, já rabiscado, com linhas já delineadas em sua superfície (que também é o fundo do quadro). livro com suas linhas a serem desenhadas.
 
eu,
 
paulo sabino:
 
um anjo feliz.
 
um livre livro.
 
e também o sangue de outras sagas, o sangue de outras narrativas fecundas em incidentes.
 
e também o brilho de outros breus, o brilho de outras escuridões que necessitaram resplandecer em lágrima, resplandecer em dor, resplandecer em sangue, em solidão, para que eu, paulo sabino, um preto, possa falar, hoje, aos senhores.
 
negro é feito cana no moedor: sofre & tira mel da própria dor. 
 
(vide o samba, que é a tristeza que balança — e a tristeza tem sempre uma esperança: a de, um dia, não ser mais triste, não…)
 
negro resiste: quanto mais me matam, mais eu sobrevivo.
 
e vou tocando os passos (avante!), vou tocando ginga (jogo de cintura para com a vida), vou tocando, e, com meu “toque”, vou a deitar sangue (vermelho, sangue-vida, sangue-paixão, sangue-sentimento) nos cruzamentos, vou colorindo a palidez dos que não têm cor (apesar do absurdo, os negros, ainda hoje, por alguns, são chamados de “gente de cor”), vou colorindo a palidez daqueles a quem peço piedade.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um preto,
 
sou um negro,
 
rigorosamente um negro, à sombra dos palmares (como já lhes disse), à sombra da grande democracia/demagogia racial, ocidental:
 
tropicálice!, democracia tropical à base do vinho tinto de sangue (sangue pisado, pisado por mortes sumárias & humilhações sociais), democracia tropical à base do “cale-se!”, à base do “cala boca, porra, que eu não tô a fim de ouvir discurso humanitário!”, democracia tropical à base da sentença de morte promulgada, por exemplo, por arbitrárias (abusivas, despóticas, violentas) milícias civis & do estado, democracia tropical à base de porrada na nuca de malandros pretos.
 
(lembrar: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”…)
 
mas negro resiste: quanto mais me matam, mais eu sobrevivo.
 
negro é feito cana no moedor: sofre & tira mel da própria dor.
 
mel da própria dor:
 
dentro da jaula do peito, meu coração é um leão faminto, leão ávido a devorar tudo o que vê & encontra pela frente, leão que devassa a madrugada como um felino atento à órbita da urbe, atento ao movimento da cidade capturada pelos sentidos aguçados da fera, e atento à têmpera (ao modo, ao estilo, ao gosto) do tempo, compositor de destinos, tambor de todos os ritmos.
 
meu coração já foi casa de marimbondos (com seus ferrões a postos), já foi covil de serpentes (com seus dentes afiados a postos), já foi um sol sob nuvens (com o mau tempo a postos, tapando o brilho do astro-rei).
 
mas ele, meu coração (um leão faminto que devassa a madrugada), sabe vestir a calma de uma floresta sem pássaros (aparente quietude…), enquanto rosna em sigilo, afiando as garras para o próximo salto…
 
meu coração é uma grande cidade com seus engarrafamentos de concreto, uma grande cidade com suas impossibilidades de circulação, coração entupido, coração repleto do que não consegue espaço para locomoção, e ali fica, inerte. para o que “poderia ter sido” não há portas de emergência, não há saídas possíveis.
 
falharam todos os despachos em prol de saídas ao que “poderia ter sido”. falharam todos os medicamentos.
 
o que “poderia ter sido” permanece estagnado no meu coração como as coisas nos engarrafamentos de concreto de uma grande cidade.
 
o que “poderia ter sido”: estagnado, em estado estacionário, paralisado: no peito aprisionado, feito assombração.
 
como um soldado no front, como um soldado na linha de frente de combate, tenho os meus medos, as minhas inseguranças. tenho medos, inseguranças, de viver determinados perigos existenciais. estes, naturalmente, permanecem enjaulados no peito, não seguem adiante (no front), são postos para fora de combate. 
 
porém,
 
eu,
 
paulo sabino,
 
um preto,
 
acumulo assombramentos e, com eles, também palavras.
 
por sorte — quis a vida — estou grávido de palavras. 
 
estou carregado de palavras. 
 
estou prenhe de todas elas.
 
e contra os engarrafamentos & ressentimentos & envenenamentos que possam surgir:
 
palavras!
 
(elas me salvam de todo mal.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A cor da palavra. autor: Salgado Maranhão. editora: Imago.)
 
 
 
NEGRO SOUL
 
                                   Para Edimilson de Almeida Pereira e Éle Semog
 
 
sou um negro,
orgulhosamente bem-nascido
à sombra dos palmares,
da grandemocracia
racial
ocidental
tropical.
 
sou bem um outdoor
de preto
com a cara pro luar
inflando a percussão
do peito
feito um anjo feliz.
 
sou mais que um quadro-negro
atrás de um giz: um livre livro.
e sangue de outras sagas;
e brilho de outros breus:
quanto mais me matam
mais eu sobrevivo.
 
(negro é feito cana no moedor,
sofre e tira mel da própria dor.)
 
vou tocando passos,
vou tocando ginga,
vou tocando, vou
a deitar sangue
nos cruzamentos,
colorindo a palidez
dos que não têm cor.
 
sou um negro,
rigorosamente um negro,
à sombra dos palmares
da grandemagogia
racial
ocidental
tropicálice!
 
 
 
FELINO
 
 
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto
que devassa a madrugada
como um felino atento
seguindo a órbita da urbe
e a têmpera do tempo.
já foi casa de marimbondos,
já foi covil de serpentes,
já foi um sol sob nuvens.
vez em quando veste a calma
de uma floresta sem pássaros,
enquanto rosna em sigilo,
afiando as garras para o próximo salto.
 
 
 
ESTADO DE ÂNIMO
 
 
meu coração é uma grande cidade
com seus engarrafamentos de concreto.
 
não há portas de emergência
para o que poderia ter sido.
 
falharam todos os despachos.
falharam todos os medicamentos.
 
como um soldado no front
morro de assombração
diante do perigo.  
 
e estou grávido de palavras.

ARTE DAS GAIVOTAS
20 de abril de 2011

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as gaivotas:

elas sentem familiaridade com os dois planos: o alto das rotas & o refúgio nas marés baixas.

as gaivotas:

elas sentem familiaridade com os dois planos: as nuvens acima & os cardumes embaixo.

como as gaivotas sentem familiaridade com dois planos, a sua arte não pode ser compreendida como um buquê de flores aéreas. afinal, as flores mantêm-se suspensas, presas às suas devidas hastes, enquanto as gaivotas abismam-se no mar profundo, à cata de alimento.

as gaivotas, além de suspensas no ar, despencam “setas” na linha que traçam no ar, mar adentro.

se as gaivotas comovem é porque não apenas em suspensão, como as flores, mas porque também em descensão.

se as gaivotas comovem é porque se mostram indecisas entre o alto das rotas & o refúgio das marés baixas.

ao elevarem-se, as gaivotas possuem o movimento do respiro dos ares; as asas, que ditam a direção do vôo, seguem na intuição, seguem no instinto, seguem no faro, das frescas folhagens.

por isso, por conta desse seguir a intuição na direção das frescas folhagens, e por conta do mergulhar nas marés baixas, as direções do vôo das gaivotas se assemelham ao elevar & abismar-se da clássica forma de um coração.

um coração voa alto, como as gaivotas, para, logo em seguida, como as gaivotas, a procura por alimento no fundo, entregue (o coração) ao abismo onde queda, onde mata a sede, onde sacia a fome.

ponteiam para o alto, as gaivotas, mas logo encurvam o sentido & o arremetem a uma procura descendente, isto é: as aves apontam para o alto, para o céu, mas logo encurvam, mudando a direção, & avançam com ímpeto, avançam com arrojo, para o mar, abismo abaixo (procura descendente), mergulho em queda livre, feito seta certeira.

as gaivotas: mudam de “interesse”, ou seja, mudam “a sua atenção” (ora elas desejam o vôo alto, ao sabor das folhagens frescas, ora desejam o contrário, desejam o mergulho de cabeça, em queda livre), sem, todavia, perder o “estilo”, isto é, sem perder “a maneira de mostrar interesse por algo” — maneira intensa, maneira vigorosa, veemente, enérgica.

a arte das gaivotas: a arte do coração.

beijo todos!
paulo sabino.
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(da revista: Inimigo Rumor. número: 14. autor: Fernando Paixão. organização: Vários (comitê editorial). editoras: 7Letras / Cosac Naify.)

 

ARTE DAS GAIVOTAS

Se a arte das gaivotas consolida um território para os sentimentos, não se pode cair na pieguice de compreendê-las por um buquê de flores aéreas. Seus volteios e maneirismos guardam sim uma haste vertical, a partir dos olhos, mas espetada numa água que só se faz escapar. Água.

Se as gaivotas comovem é porque se mostram indecisas entre o alto das rotas e o refúgio das marés baixas. Há nuvens acima e cardumes embaixo; elas sentem familiaridade com os dois planos e entre eles escrevem uma carta pessoal e única.

Debaixo das primeiras luzes da manhã rabiscam o inquieto conhecimento das rochas próximas e não têm medo de serem frias as águas de um espelho, onde elas devem mergulhar e procurar alimento.

E também faz parte do movimento das gaivotas o respiro dos ares, as asas entregues à intuição de folhagens frescas. Por isso as direções do vôo tanto se assemelham ao elevar e abismar-se da clássica forma de um coração. Ponteiam para o alto, as gaivotas, mas logo encurvam o sentido e o arremetem a uma procura descendente. Muda o interesse ao sabor da linha, mas sem perder o estilo.