MEU MUNDO, MINHA MOEDA
23 de janeiro de 2018

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Este poema eu fiz pensando em todas as pessoas que fazem do seu corpo o seu território, a sua bandeira — porque sabemos que o corpo também é político.

Às pessoas que moldam e enfeitam ao seu bel-prazer este veículo que nos leva à vida: o corpo, esta carcaça de carne, sangue, osso e aparências.

Meu corpo, minha regra.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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A NOSSA CASA
16 de janeiro de 2014

Paulo Sabino_PerfilAmor-perfeito

 

(Na primeira foto: a minha casa. Na segunda foto: um mato que floresce, conhecido por “amor-perfeito”.)
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a nossa casa é de carne & osso: porque o que, de fato, nos abriga, o que, de fato, nos dá guarida, é o corpo.

a nossa casa é de carne & osso porque a nossa casa é o nosso corpo, este, de onde se pronuncia o paulo sabino.

sem o abrigo do corpo, nada feito.

a nossa casa não é sua nem minha (não dispomos desta morada a que chamamos corpo: não compramos, não vendemos, não alugamos, não hipotecamos — simplesmente: habitamos) & também não tem campainha para quem nos chegue de visita, ou para quem venha conosco morar.

a nossa casa, diferentemente das demais (as de tijolo & concreto), tem varanda dentro (e não fora), pois o lugar onde, na nossa casa, passa o vento para ventilar — a fim de trazer vida à residência — é dentro do corpo. o ar passa numa varanda que vem dentro, e não fora, da casa.

a nossa casa tem varanda dentro & tem um “pé de vento” para respirar (assim como em quintais com um pé de manga, ou de goiaba, ou de abacate, para comer): um pé-de-vento para respirar: ventania forte, boca & narinas adentro, que traz, com seu ar, vida à residência.

por essa razão (por ser o corpo a nossa mais legítima morada):

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

basta cuidar dessa casa, da sua arquitetura, deixar que nela more um pé de vento, deixar que nela entre a luz, para que ela possa estabelecer-se segura em qualquer localidade: aqui, no rio; ali, em sampa; lá, no pará; acolá, no japão:

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

basta atentar à casa, à sua arquitetura, deixar que nela entre um pé-de-vento, deixar que nela more a luz, para que ela possa estabelecer-se segura em qualquer localidade: em local onde “amor-perfeito” é mato (até porque “amor perfeito”, se não for mato, inexiste) & o teto estrelado (teto com constelações que brilham no escuro de um cômodo) também tem luar; em local que pareça um ninho, onde surja um passarinho para acordar a casa; em local onde passe um rio no meio & onde o leito (a cama, o lugar de repouso) possa ser o mar:

a nossa casa é onde a gente está, a nossa casa é em todo lugar.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Saiba. artista: Arnaldo Antunes. gravadoras: Rosa Celeste / BMG.)

 

 

A NOSSA CASA

 

na nossa casa amor-perfeito é mato
e o teto estrelado também tem luar
a nossa casa até parece um ninho
vem um passarinho pra nos acordar
na nossa casa passa um rio no meio
e o nosso leito pode ser o mar
a nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é em todo lugar
a nossa casa é de carne e osso
não precisa esforço para namorar
a nossa casa não é sua nem minha
não tem campainha pra nos visitar
a nossa casa tem varanda dentro
tem um pé de vento para respirar
a nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é em todo lugar

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(do site: Youtube. videoclipe da canção: A nossa casa. Artista: Arnaldo Antunes. gravadoras: Rosa Celeste / BMG.)

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
6 de novembro de 2013

Banco vazio com folhas secas

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senhores,

há pouco, passei por dois acidentes graves, em seqüência, cada qual com suas peculiaridades.

num acidente, eu vi a cara da morte, e ela estava viva: voltando de belo horizonte para o rio de janeiro, o ônibus em que viajava bateu na traseira de um caminhão parado no acostamento. uma pessoa morreu na hora, três outras ficaram presas nas ferragens, e não sei quantos mais feridos. por sorte, tive apenas um inchaço no polegar direito & dores nas costas devido à batida. nada mais.

no outro acidente, a dor de ser fisicamente freado pela vida: pedalando com o orlando (meu camelo azul da cor do mar), um ciclista, que vinha na direção oposta à minha, ao tentar ultrapassagem, invadiu a contramão (sem que eu tivesse tempo de desviar) & bateu de frente comigo. resultado: por causa do deslocamento de uma parte óssea (curiosamente chamada “capitulo”) & da fratura de um outro osso, tudo no cotovelo esquerdo, tive de operar, para colocar pinos & parafusos, e de imobilizar o braço. um mês imobilizado & depois — pelo menos — mais um mês de fisioterapia.

estou ótimo, graças. por sorte, não foi o braço direito o atingido, afinal sou destro!

no entanto, querendo ou não, a vida me parou, me pôs quieto no meu canto. com isso, tive de encará-la sem meias verdades.

tais acontecimentos mexem, mexeram, comigo. fichas caíram. prioridades subiram.

re-pensar, re-ver, re-fazer, re-tomar.

tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas.

momento de reflexão: dando um tempo para mim. ausente de mim mesmo.

eu estou ausente, porém, no fundo desta ausência, existe a espera de mim mesmo, e esta espera é um outro modo de presença (tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas).

à espera de meu retorno, eu estou em outros objetos. ando em viagem (interna) dando um pouco de minha vida a certos livros & a certos discos, objetos que me esperaram muitos anos.

eu não estou & estou: estou ausente & estou presente, mas presente “em estado de espera”.

eles (os objetos a quem dou um pouco de minha vida) queriam minha linguagem para expressar-se. e eu queria a — linguagem — deles para expressá-los: eis o atroz equívoco: o equívoco primordial: a tentativa de interpretação das coisas, herméticas nelas mesmas, sem explicações ou justificativas sobre o que são & desejam.

angustioso, lamentável (pelo atroz equívoco), vou-me adentrando nestes objetos — e deixando minhas roupas, perdendo as carnes: meu esqueleto vai-se revestindo do material que forma os objetos.

estou-me fazendo livros, discos, palavras, som…

(quantas vezes me converti em outras coisas…)

o processo de transformação, por me achar à espera de mim mesmo, é doloroso & cheio de ternura. podia dar um grito, fazer barulho, chamar a atenção às dores das mudanças.

mas para quê?

à transubstanciação (transformação de uma substância em outra) de nada adiantaria o grito.

com o grito, a transubstanciação se espantaria.

(a transubstanciação: a transformação de uma substância, o paulo sabino, em outra.)

há que guardar silêncio. a fim de pensar, refletir, concentrar.

esperar em silêncio.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Pescados vivos. autor: Vicente Huidobro. tradução: Waly Salomão. editora: Rocco.)

 

 

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

 

Eu estou ausente porém no fundo desta ausência
Existe a espera de mim mesmo
E esta espera é outro modo de presença
À espera de meu retorno
Eu estou em outros objetos
Ando em viagem dando um pouco de minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que me esperaram muitos anos

Cansaram-se de esperar-me e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam minha linguagem para expressar-se
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustioso lamentável
Vou-me adentrando nestas plantas
Vou deixando minhas roupas
Vou perdendo as carnes
E meu esqueleto vai-se revestindo de cascas
Estou-me fazendo árvore  Quantas vezes me converti em
………………………………………………………….[outras coisas…
É doloroso e cheio de ternura
Podia dar um grito porém a transubstanciação se espantaria
Há que guardar silêncio  Esperar em silêncio

O OLHO FAZ O MUNDO: EU SOU O MAR
17 de julho de 2012

(paulo sabino & o mar & a imensidão que o cerca: o olho faz o mundo.)

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O olho faz o mundo. Afinal, sem o olho, o mundo é um oco; sem o olho, o mundo simplesmente inexiste.

Se o olho faz o mundo, quem faz o olho é o olhar, e não o contrário. Afinal, o olho, carente da sua função – que é olhar – é um oco; sem o olhar, o olho simplesmente inexiste.

Nunca houve um tempo pré-existente ao olhar, isto é, nunca houve um tempo que existisse antes do olhar. Pois é justamente através do olhar que o mundo se desnuda aos nossos olhos. E o olhar só acontece enquanto olha, o olhar só acontece enquanto observa.

O mundo se desnuda aos nossos olhos justamente através do olhar. Por isso: o olhar é o inaugural dos mundos.

E, todos os dias, o mundo se dá todos os dias em razão do olhar que sobre o mundo lançamos todos os dias. Um dia que deixássemos de enxergar o mundo, e este desapareceria das nossas vidas.

Hoje é dia da inauguração do mundo. Assim o é porque o mundo inaugura-se no “hoje”, no “presente”, no momento em que o olhar olha, no instante em que o olhar observa.

E o meu olhar, hoje & sempre, deveras comprometido com a imensidão liqüefeita que, todos os dias, inaugura-se na minha vida.

O mar me fascina de modo absoluto & incomum.

O mar é nossa mãe primeira (a teoria, hoje, mais aceita nos meios científicos é a de que os primeiros indícios de vida na Terra, há bilhões de anos atrás, vieram do mar).

Dentre as tantas coisas que me fascinam, os seus temperamento & força são as coisas que mais me impressionam.

Repito o que já dito: o mar me traz a sensação de libertação. Ele é selvagem, temperamental, pode suster assim como pode matar, e mais, e sobretudo, o mar é incapturável, ninguém pode retê-lo, ninguém é capaz de domá-lo, de domesticá-lo.

Sem mar, não valeria a pena fundar a cidade nem morrer por ela.

Pois o mar incita o mar. O mar desperta, em nós, sonhos de descobertas, desejos de reinos desconhecidos, quereres de conquistas imperiosas.

O mar não tem fronteiras (incapturável & intratável que é). O mar, diferentemente da terra, é móvel, o mar, em constante movimentação, eterno ir & vir. A terra, sim, impõe fronteiras ao mar.

No mar, não há teu nem meu.

No mar, tudo é teu & tudo é meu.

No mar, como tudo é teu & tudo é meu, pois, no mar, tudo é de ninguém:

o mar sou eu.

Eu sou parte dele (do mar): mãe primeira, gestante primordial, é ela, a mãe marinha.

Eu sou parte dele (do mar): pois, assim como ele & diferentemente da terra, sou móvel, estou em constante movimentação, nunca no mesmo lugar.

Eu & tu & ele: mares de vivências deitados neste chão que nomeamos Terra.

Aproveitemos o percurso, ele é único!

Beijo todos!

Paulo Sabino.

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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)

 

DIA DA INAUGURAÇÃO DO MUNDO

 

O olhar faz o olho

o olho faz o mundo

 Hoje é dia da inauguração do mundo.

 Nunca houve um tempo pré-existente ao olhar.

 O olhar é o inaugural dos mundos.

 

O MAR SOU EU

 

sense mar, no hauria pagat la pena fundar

la ciutat ni morir per ella.

Sergi Pàmies

 

Sem mar, não valeria a pena fundar a cidade nem morrer por ela.

 O mar não tem fronteiras.

 A terra, sim, é que impõe fronteiras ao mar.

 Em catalão do mar,

 repito o refrão:

No mar,

não há teu

nem meu.

 No mar,

 tudo é teu

 e tudo é meu.

 O mar sou eu.

O LUGAR DE UM CANTANTE
15 de junho de 2012

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estou bêbado, inteiramente embriagado de canções & azul (de azul da cor do céu, de azul da cor do mar).

 estou cantante para nada, para ninar a madrugada.
 
(o cantar de um galo em férias, galo sem a obrigação diária, matinal, de anunciar o alvorejar, galo que canta despretensiosamente, pelo puro & simples prazer de cantar.)
 
canto para dizer que o meu coração é um lago mais tranqüilo, onde a dor não tem razão. 
 
canto até para o vento, que, como o tempo, não tem começo nem fim; canto até para as pedras, que silenciam para aplaudir.
 
canto:
 
meus pés estão marcados pelo salmo das águas, pelo cântico sagrado do mar (rainha do mar anda de mãos dadas comigo, me ensina o baile das ondas & canta canta canta para mim), e pelo salmo das pedras fogueadas, pedras que, segundo a bíblia, livro sagrado dos cristãos, constituíam o éden original & mineral, pedras preciosas por onde caminhava lúcifer, o anjo torto, antes de ser expulso do jardim sagrado, pedras que, após a sua expulsão, foram destruídas & transformadas nos asteróides & cometas que cortam os céus.
 
meus pés: marcados pelo cântico das águas & pelo brilho intenso, brilho quente, brilho celestial, das pedras fogueadas.
 
caminho com a luz entre os dentes, luz irradiada do canto que sai da minha boca, e minha febre incendeia os crisântemos (em grego, “crisântemo” significa “flor de ouro”; na china, o crisântemo era uma flor exclusiva da nobreza; no japão, por sua semelhança com o sol nascente, tornou-se símbolo do país).
 
já vai longe a névoa de escombros, já vai longe qualquer resquício do que restou destroços, do que restou entulho, do que foi destruído, e, ainda assim, ouço o ruir de muralhas, e, ainda assim, ouço o ruir de paredes altas, de paredes que obstruem passagem, que impedem, o ruir de muros que nos deixam fora do alcance, e percebo muralhas que ainda faltam ruir, muitas mundo afora, face ao desabrigo (de tantos) e face ao sangue insigne, sangue notável, distinto, daqueles que o derramam em prol da extinção de tais muralhas.
 
canto à floração dos ossos, para o seu desabrochar, canto para o desenvolvimento & fortalecimento dos ossos, ossos que nos levam adiante, que nos equilibram de pé, ossos que nos encaminham à vida.
 
e canto desde um reino em que a palavra apascenta o deserto, isto é, canto desde um reino em que a palavra conduz o que é deserto (o que é desabitado, seco, inóspito) ao pasto, a fim de nutrir, a fim de alimentar & dar sustento ao árido, ao que pouco ou nada produz.
 
a palavra apascenta o deserto: e a poesia é o lugar do coração que pensa.
 
poesia: lugar do coração que pensa: pois que a poesia exige do poeta a palavra muito bem pensada, a poesia exige do poeta a palavra planejada, a poesia exige do poeta a palavra estudada, no intuito do poema atingir em cheio a sensibilidade, a emoção, o coração, de quem o lê.
 
bêbado de canções & azul (de azul da cor do céu, de azul da cor do mar), eu canto & meus males espanto.
 
(que assim seja, agora & sempre.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A cor da palavra. autor: Salgado Maranhão. editora: Imago.)
 
 
 
CANTANTE
 
Para Luiz Augusto Cassas
 
 
 
Estou bêbado de canções
e azul.
 
Estou cantante para nada,
para ninar a madrugada.
 
(O cantar de um galo em férias.)
 
Canto até para o vento
que não tem começo nem fim;
 
canto até para as pedras
que silenciam para aplaudir. 
 
 
 
LUGAR
 
para Carlos Nejar   
 
 
 
Meus pés estão marcados
pelo salmo das águas
e das paredes fogueadas.
 
Caminho com a luz entre os dentes
e minha febre 
incendeia os crisântemos.
 
Já vai longe a névoa
de escombros 
e ouço
              ainda
o ruir de muralhas
 
face ao desabrigo
e ao sangue insigne.
 
E canto à floração dos ossos;
 
e canto
desde um reino insondável
em que a palavra
apascenta o deserto.
 
A poesia é o lugar
do coração que pensa.

PASSAGEM DA NOITE
3 de janeiro de 2012

 
(Passagem da noite & a aurora dos novos tempos)
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alta noite já se ia.
 
ninguém na estrada andava.
 
no caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia.
 
e eu sinto que é noite, não porque a sombra (da noite) descesse por sobre o dia, mas porque, dentro de mim, porque, no fundo de mim, o grito, o alarido da vida, se calou, aquietou-se.
 
(bem me importa a face negra da noite, bem me leva para dentro dela a face negra da noite, e bem me importa a face negra da noite porque a face negra da noite também possui a sua importância dentro de mim, mas não são essas as razões que me fazem sentir que é noite.)
 
sinto que é noite porque, em mim, fez-se desânimo.
 
sinto que nós somos noite.
 
de fato, à noite, o organismo entende o acontecimento: à noite, o metabolismo aquieta-se, torna-se mais lento, desacelera.
 
palpitamos no escuro (o músculo oco a pulsar, sinalizando alguma vida apesar da inércia em que mergulhamos) e, assim, em noite nos dissolvemos.
 
sinto que é noite no vento, noite nas águas, noite na pedra. tudo um escuro. nada à vista.
 
a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu.
 
portanto, se a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu, de que adianta uma lâmpada? de que adianta uma única luz acesa na imensa escuridão? de que adianta uma voz, uma única voz, em meio ao silêncio noturno?
 
ainda que haja a lâmpada acesa, ainda que haja a minha voz, de nada adiantam porque é noite no meu amigo, no submarino, na roça grande. é noite em toda parte circundante.
 
vejam bem: não é morte (palpitamos no escuro), não é dor (não há sofrimento lúcido), nem paz (não há contentamento lúcido). é apenas noite, é justamente a noite, é perfeitamente a noite.
 
mas salve, olhar de alegria!
 
salve, dia que surge!
 
os corpos, que antes palpitavam no escuro, saltam do sono; o mundo, às claras, se recompõe.
 
que alegria a bicicleta que passeia!
 
existir: seja como for, a fraterna entrega do pão.
 
amar: seja como for: mesmo nas canções, a entrega do coração.
 
(na vida, existir & amar com a entrega do pão, com a entrega do coração.)
 
saltar do sono, recompor-se, e, de novo, andar: as distâncias, as cores, os cheiros, os sabores: posse das ruas; de novo, dono das paisagens que vão passando ao me ver passar (os dois lados da janela…); de novo, senhor dos caminhos que sigo percorrendo.
 
tudo que à noite perdemos se nos confia outra vez, tudo que à noite perdemos volta a ser nosso com a luz do dia.
 
obrigado, coisas fiéis, coisas que sempre retornam minhas!
 
saber que ainda há praias, florestas, sinos, palavras; saber que a terra prossegue o seu giro; saber que o tempo não murchou, que não nos diluímos, que estamos aí.
 
chupar o gosto do dia!
 
clara manhã: obrigado!
 
o essencial é viver!
 
(existir: seja como for, a entrega fraterna do pão.)
 
(existir: amar, com a entrega do coração. amar sempre, mesmo nas canções.)
 
um feliz & próspero ano que se inicia!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A rosa do povo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
 
PASSAGEM DA NOITE
 
 
É noite. Sinto que é noite 
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
 
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

LOUVAÇÃO A OXUM
9 de dezembro de 2011

(Paulo Sabino & uma das suas maiores paixões na vida: água.)
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ontem,

8 de dezembro,

a minha amada amiga-irmã geórgia victor, a minha flor da paraíba, me lembrou que era dia de oxum, que, segundo a mitologia afro-brasileira, é uma das esposas de xangô, rainha dos rios & das fontes, guardiã da fertilidade & da maternidade, orixá que acho dos mais lindos.

pelo seu dia, 8 de dezembro, em sua homenagem, orarei.
orarei a oxum, que ADORO oxum.

oxum: água que faz crescer as crianças, dona da brisa de lagos, corpo divino sem osso nem sangue: corpo liqüefeito, límpido, cristalino, corrente.

oxum é água que aparta a morte, cuida para que a morte não nos capture.

oxum, o seu corpo liqüefeito, melhora a cabeça ruim, cabeça doente, cabeça mais preocupada em ter, cabeça que me desinteressa.

oxum: bela mãe da grinalda de flores. afinal, toda & qualquer planta necessita de água para germinar, crescer & florescer. água é elemento vital à existência da planta & sua grinalda de flores. flores aos seus pés, aos pés de oxum, à beira dos seus riachos, alegria da minha manhã.

água: se há uma coisa em comum entre toda & qualquer parte do organismo humano é a necessidade de água para realização das suas funções. somos constituídos, em média, de 60% desse líquido.

por tudo isso: oxum eu bendigo na boca do dia (oxum que eu adoro).

oxum: rica de dons. riqueza dos rios. senhora das águas.

oxum que chamei, oxum que não chamei, a todas as oxuns: a minha saudação & o meu profundo respeito!

que saibamos cuidar do que ainda nos resta de oxum.

saúdo minha mãe, sereia das águas doces!

(abaixo, um poema-canção LINDO em sua homenagem, acompanhado do áudio com a canção.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Olho d’água. artista: Maria Bethânia. autor dos versos: Ordep Serra. gravadora: Universal Music.)

 

LOUVAÇÃO A OXUM

 

Kerê-ô
Declaro aos de casa que estou chegando
Quem sabe venha buscar-me em festa

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo
Oxum que cura com água fresca
Sem gota de sangue
Dona do oculto, a que sabe e cala
No puro frescor de sua morada
Oh, minha mãe, rainha dos rios
Água que faz crescer as crianças
Dona da brisa de lagos
Corpo divino sem osso nem sangue

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Eu saúdo quem rompe na guerra
Senhora das águas que correm caladas
Oxum das águas de todo som
Água da aurora no mar agora
Bela mãe da grinalda de flores
Alegria da minha manhã

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Ipondá que se oculta no escuro
De longe me chega a cintilação
De seus cílios
Oxum é água que aparta a morte
Oxum melhora a cabeça ruim
A-yê-yê, orarei
Bendita onda que inunda a casa do traidor

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Oxum eu bendigo na boca do dia
Oxum que eu adoro
Rica de dons
Riqueza dos rios
Oxum que chamei
Que não chamei
Adé-okô
Senhora das águas

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(do site: Youtube. canção: Louvação a Oxum. intérprete: Maria Bethânia. música: Roberto Mendes. letra: Ordep Serra.)

AS ESTAÇÕES, SEUS FRUTOS, E O PÁSSARO QUE PASSA, PASSARA & PASSARÁ
9 de novembro de 2011

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anuncia-se a luz: a aurora de um novo dia.
 
o sol, o puro sol, verte-se sobre nós & a terra, desencantando cores:
 
frutos vivos: o mar, a flor, o bicho, a criança, a vida que, por todos os lados, se pronuncia em sua forma ao sol informe.  
 
o mar, a flor, o bicho, a criança: a vida, força em ciclo, ciclo ininterrupto, ciclo contínuo, assim como as estações do ano, que, todo ano, descobrem-se, descortinam-se, desvelam-se, à existência.
 
mas (como tudo na vida tem um “porém”…),
 
há o “estar” das coisas, há o “estar” do corpo, há o ser “em um dado momento”, há o achar-se “em certa condição”: há o tempo & sua durabilidade, sua finitude, há o tempo de ínício & o tempo de fim. 
 
há o cilco das coisas: os frutos, com seu peso & sua forma, apodrecem.
 
os frutos apodrecem e há quem os coma: o pássaro definitivo.
 
o pássaro definitivo: pássaro que passa, pássaro que passara, pássaro que passará. não há quem possa contra sua passagem.
 
por isso, não o procuremos: ele, um dia, uma hora, nos elegerá.
 
passado o pássaro, nunca a nossa atmosfera será a mesma, pois sustentamos, com as nossas vivências, o vôo que nos sustenta. sem elas, sem as nossas vivências, que funcionam como nossas asas, não alçamos vôo & quedamos, e, quedando, somos capturados, no ar, pelo bico do pássaro.
 
o pássaro é lúcido, porque transparente, porque diáfano (ninguém o vê), e porque exato, preciso, categórico (ao nos capturar); o pássaro é lúcido & nos retalha. sangramos. e nunca haverá cicatrização possível para este rumo (o de sermos retalhados & engolidos pelo pássaro).
 
este pássaro é reto. sempre na mesma direção, sempre a traçar a mesma rota, o mesmo caminho, sem curvaturas, sem inflexões.
 
o pássaro arquiteta o real sendo ele o próprio real: a realidade nua & crua, sem rodeios.
 
o pássaro em nossos caminhos é a única grande certeza que temos na vida.
 
nunca saberemos tanta pureza: pássaro a nos devorar aos poucos, dia a dia, até a bicada final, enquanto cantamos o seu canto, o canto da vida.
 
na luz do vôo profundo, um dia, existiremos neste pássaro: por enquanto, enquanto existência houver, é ele que vive em nós, é ele, o pássaro, que nos habita, latente.
 
aproveitemos, portanto, enquanto os ciclos & as estações não se encerram aos nossos olhos, aproveitemos enquanto o pássaro não nos eleger, e alcemos vôos altos, altíssimos, a fim de paisagens mais vastas, a fim de paisagens mais claras, a fim de paisagens panorâmicas, vôos que nos permitam uma apreciação mais ampla — e, por isso, mais brilhante — das paisagens que nos circundam. 
 
beijo todos!
paulo sabino.      
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(do livro: Poesia reunida [1969-1996]. autora: Orides Fontela. editoras: 7Letras / Cosac Naify.)
 
 
 
AS ESTAÇÕES
 
 
Anuncia-se a luz
 
 
e o puro Sol
o Sol informe
verte-se
                        desencantando cores
                        frutos vivos
                        — força em ciclo descobrindo-se.
 
                               … mas
                           
                                                   há o estar da pedra
                                                   há o estar do corpo
                                                   há peso e forma: os frutos
                                                                                apodrecem.
 
 
 
 
SETE POEMAS DO PÁSSARO 
 
 
I
 
O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá.
 
 
II
 
Se for esta a hora do pássaro
abre-te e saberás
o instante eterno.
 
 
III
 
Nunca será mais a mesma
nossa atmosfera
pois sustentamos o vôo
que nos sustenta.
 
 
IV
 
O pássaro é lúcido
e nos retalha.
Sangramos. Nunca haverá
cicatrização possível
para este rumo.
 
 
V
 
Este pássaro é reto;
arquiteta o real e é o real mesmo.
 
 
VI
 
Nunca saberemos
tanta pureza:
pássaro devorando-nos
enquanto o cantamos.
 
 
VII
 
Na luz do vôo profundo
existiremos neste pássaro:
ele nos vive.

O ESTUDANTE EMPÍRICO: CONTEMPLA O MUNDO & A NOITE
27 de setembro de 2011

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eu, estudante empírico, estudante que experimenta & observa, fecho o livro. e contemplo.
 
a contemplação, a observação, do entorno, daquilo onde somos & estamos.
 
a história humana nos mostra que o conhecimento é fruto da observação & experimentação do mundo.
 
eis o globo: o planisfério terrestre, o planisfério celeste, o horizonte, redondo, a ilusão dos firmamentos (dos céus, do que enxergamos deles aqui da terra), a ilusão dos firmamentos (de tudo aquilo que usamos de sustentação, de fundamento, alicerce, aos nossos conhecimentos), e a nossa existência, em meio a tudo…
 
eis o compasso, o esquadro, que traçam, projetam, linhas & desenhos, caminhos exatos, eis a balança, eis a pirâmide, o cone, o cilindro, o cubo, eis o peso, a forma, o volume, a proporção, as equivalências, das coisas no mundo.
 
e o nosso itinerário, sem régua, compasso ou esquadro, caminhos inexatos, sem uma forma precisa, sem que saibamos ao certo muitas coisas no mundo.
 
saem os mistérios das suas caixas: desenrola-se o mapa do esqueleto, com os ossos & seus nomes; o mapa do corpo, com suas veias & artérias, vasos que se ramificam e formam tipos de galhos, árvores, e o sangue, de cor azul na página, desenhando sua floresta; o mapa do corpo, com seus órgãos diversos & suas funções diferenciadas, além de enigmáticas: os órgãos são como esfinges certeiras, e certeiras porque, ainda que enigmáticas, cumprem o seu trabalho em prol do funcionamento harmônico do organismo.
 
hoje, os dinossauros são carros de triunfo, enormes, pesados, suntuosos, reduzidos à armação (ao esqueleto). enquanto isso, no olho profundo do microscópio, a célula se anuncia, e anuncia a vida, o início, alfa, o surgimento.
 
e o nosso destino…
 
(será que, um dia, o mesmo destino dos dinossauros? será que, um dia, a humanidade reduzida à sua armação?…)
 
o professor escreve no quadro: alfa & ômega.
 
alfa & ômega: respectivamente, a primeira & a última letras do alfabeto grego clássico, letras que, simbolicamente, representam o princípio & o fim, isto é, a totalidade das coisas, a sua durabilidade.
 
o todo. o eterno.
 
alfa & ômega: o cristianismo associa a figura de jesus às letras gregas, simbolizando a eternidade de cristo, que: está no começo de tudo (alfa) & tudo acompanha, até o fim do mundo (ômega).
 
alfa & ômega: o todo. o eterno. o universo.
 
a luz de sírius, estrela mais brilhante no céu, ainda lança, com seu brilho & as histórias sobre seu brilho, escadas em contínua cascata.
 
lentamente, subo (as escadas lançadas por sírius), fecho os olhos e lanço-me no espaço & na sua imensa escuridão, onde cabem todos os mistérios do universo, e sonho saber o que não se sabe simplesmente acordado.
 
simplesmente acordado, e atento, não basta para saber o que não se sabe.
 
o mundo fala uma língua muda, que a nada responde:
 
o alfa (o princípio) & o ômega (o fim): de onde? para onde? a que propósito? com que finalidade? alguma? será?
 
silêncio…
 
grande aula, a do silêncio.
 
ensina-nos a ver de longe a vida, sem interrogá-la.
 
(a resposta está além dos deuses: https://prosaempoema.wordpress.com/2011/06/21/aniversario-35-primaveras/.)
 
assim como a do silêncio,
 
grande aula, a da noite.
 
a noite: uma escuridão tão envolvente, parece um exercício de morte:
 
tudo vai desaparecendo (sem a luz artificial para clareá-la). desaparecemos dos outros, e desaparecemos de nós.
 
a noite: a escuridão: o sono que nos assalta e que, como a noite, nos envolve num exercício de morte.
 
o sono é um tipo de noite que nos assalta & envolve.
 
apenas respiramos. basta cortar esse último fio, fio que nos mantém conectados, fio da respiração, e o tear que somos (tantas as tramas urdidas com os fios da existência) se imobiliza.
 
a noite esconde a terra, o céu, a casa, os rostos dos senhores.
 
quando de noite, quando no sono, em que entranha me animo? onde se enrola o novelo da minha memória, em que cofre fica trancafiado?…
 
(nossas asas estão docemente fechadas e nossos olhos moram no pensamento, longe da realidade mundana que os circunda.)
 
cada um tem a sua noite. cada coisa.
 
o dia é um bailarino com sinos & espelhos: a dançar, chamando a atenção de todos para si, balançando os sinos para alardear-se, e refletindo a vida viva, em todos os cantos, nos seus espelhos.
 
de repente: acordamos. de repente: interrompemos a treva onde aprendíamos, com os sonhos, lembranças; e somos, de repente, uns falsos acordados, porque, ainda que acordados, continuamos a sonhar, fincamos pés no reino das ilusões.
 
a vida: um palco de ilusões sobrepostas.
 
que, nesse palco, saibamos bem representar os papéis que nos cabem, e que tais papéis nos levem, sempre, ao encontro de um feliz final.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia completa — volume II. autora: Cecília Meireles. organização: Antonio Carlos Secchin. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
O ESTUDANTE EMPÍRICO
 
 
Eu, estudante empírico,
fecho o livro e contemplo.
 
Eis o globo, o planisfério terrestre,
o planisfério celeste,
o redondo horizonte, a ilusão dos firmamentos.
 
E a nossa existência.
 
Eis o compasso, o esquadro,
a balança, a pirâmide, 
o cone, o cilindro, o cubo,
o peso, a forma, a proporção, as equivalências.
 
E o nosso itinerário.
 
Saem das suas caixas os mistérios:
desenrola-se o mapa dos ossos, com seus nomes;
o sangue desenha sua floresta azul;
cada órgão cumpre um trabalho enigmático:
estamos repletos de esfinges certeiras.
 
E o nosso corpo.
 
E os dinossauros são como carros de triunfo,
reduzidos à armação;
e no olho profundo do microscópio
a célula se anuncia.
 
E o nosso destino.
 
O professor escreve no quadro o Alfa e o Ômega.
 
A luz de Sírius ainda lança escadas em contínua cascata.
E lentamente subo e fecho os olhos
e sonho saber o que não se sabe
simplesmente acordado.
 
Grande aula, a do silêncio.
 
 
 
A NOITE
 
 
A noite é essa escuridão tão envolvente
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.
 
Apenas respiramos.
Podem cortar esse último fio
— e o tear que somos se imobiliza.
 
A noite esconde a terra, o céu, a casa,
os vossos rostos.
 
Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?
 
Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.
 
Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.
 
O dia é um bailarino com sinos e espelhos.
 
Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.

CORPO
21 de setembro de 2011

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deixa que esse pesado corpo não pese na alma. 
 
que também não pese na alma todo o prazer que aprouver apaziguar esse pesado corpo. 
 
que, à alma, seja leve o pesado corpo, e tudo que o envolva. 
 
no efêmero, no transitório, no passageiro, 
 
buscar a eternidade do momento, buscar a eternidade do relâmpago & sua luz concentrada, luz veemente, febril, e passageira, transitória, efêmera: sangue etéreo da inflamada artéria do presente. 
 
a inflamada artéria do presente: pulsa, bombeia, leva o sangue-luz, etéreo, sangue-luz que deve circular, ativo, pelo pesado corpo. 
 
deixa que esse pesado corpo, sendo dono de si, se doe ao alcance de mãos terrenas do agora, do “já”, do “neste instante”.  
 
que esse pesado corpo viva o que se tem a viver: o presente, o momento em que cada coisa “é”, o momento em que cada coisa “está”. (no fundo, isso é o que, de fato, nos resta.) 
 
que esse pesado corpo só queira o cheiro, o tato, que esse pesado corpo só aceite o gosto, o som, a imagem, que esse pesado corpo só admita as sensações que o acometem, e que estas sejam a sua única memória: as suas vivências no “hoje”. 
 
deixa que esse pesado fardo se embriague da paixão de ser completo, de sentir-se inteiro, pleno, realizado, para que o passado e o futuro sejam simples possibilidades, possibilidades que não muito importam justamente porque o que se quer é viver o presente. o resto que seja perfumaria (barata). 
 
deixa que esse corpo seja a letra que, no calor do abraço & beijo de um outro igual corpo, se derreta, e, derretendo, silencie todo o dito & o por dizer. 
 
que se cale esse pesado corpo e impere a linguagem muda dos momentos, que fala muito mais alto que qualquer bem escrito poema.  
 
vamos viver o que há para viver. não adiemos a nossa felicidade, não pensemos nela para o “futuro”. a felicidade, assim como a tristeza, só acontece no quando, isto é, tanto a felicidade quanto a tristeza só existem, só podem existir, porque as vivenciamos. e “vivenciar” é uma experiência impreterivelmente ligada ao: presente. 
 
sejamos felizes, estejamos bem, AGORA! 
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Aqui dentro de mim. autora: Rosália Milsztajn. editora: Aeroplano.)
 
 
CORPO 
 
Deixa que esse pesado corpo
Não pese na alma
E todo o prazer que o aprouver
Apaziguá-lo
E no efêmero buscar a eternidade
De um relâmpago, luz
Etéreo sangue
Da inflamada artéria do presente 
 
Deixa que esse pesado corpo
Sendo dono de si se doe
Ao alcance de mãos terrenas do agora
E só queira o tato, o cheiro
Da infinita sensação, única memória 
 
Deixa ainda que esse pesado fardo
Se embriague da paixão
De ser completo
Para que o passado e o futuro
Sejam simples possibilidades 
 
Deixa que esse corpo seja a letra
Que no calor do abraço e beijo
De um outro igual corpo se derreta
E silencie todo o dito e o por dizer