ENTRE AS COISAS
27 de setembro de 2012

(O ipê florido & o par de asas azuis da grande borboleta: chaves para o mapa das maravilhas do mundo.)
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entre tantos seres (pensando na biodiversidade do planeta), entre tantas formas & cores, entre tantas maneiras de vivenciar a existência, caminha esta estranha máquina de sentir chamada paulo sabino.
 
esta estranha máquina de sentir: o ser humano: esta estranha máquina: de perto, ninguém é normal. o ser humano & suas pretensões, o ser humano & suas distorções, o ser humano & suas problematizações, o ser humano & suas contradições.
 
entre tantos seres formas & cores, única, ímpar, a cismar, caminha esta estranha máquina de sentir chamada paulo sabino.
 
entre miríades de seres & sons, aromas & texturas, entre os mais variados tipos de seres & sons, entre os mais variados tipos de aromas & texturas (pensando na biodiversidade do planeta), respira esta autônoma anatomia chamada paulo sabino.
 
esta autônoma anatomia: o ser humano: anatomia autônoma porque independente, porque consciente de si & do seu entorno, porque capacitada a agir não somente pelo comando de instintos (como os demais animais).
 
entre miríades de seres & sons & aromas & texturas, única, ímpar, a cismar, respira esta autônoma anatomia chamada paulo sabino.
 
esta estranha máquina de sentir: esta autônoma anatomia: o ser humano: capacitado a pensar-se & a pensar o mundo, a querer coisas do mundo, a sonhar com coisas do mundo:
 
quando vê o ipê florido, carregado de flores, acontece do poeta pensar com o corpo. acontece do poeta deixar de lado o pensar com a mente & entregar-se ao pensar com o corpo, entregar-se às sensações corpóreas.
 
quando vê o ipê florido, o poeta pensa com o corpo: a carne pesa & o músculo manifesta seu querer ser flor — o músculo manifesta seu querer aflorar, florescer, o músculo manifesta seu querer deflorar o dia, o músculo manifesta seu querer violar o dia (o músculo: retesado, hirto, qual um galho do ipê florido, a manifestar seu querer deflorar o dia, a fim de gozá-lo), o músculo, teso, manifesta seu querer brotar na pauta do dia, a fim de aproveitá-lo, seu querer desabrochar no desenrolar do dia:
 
o músculo do poeta a revelar-se, no desejo de florescência, na flor insólita — flor incomum, flor feita de letras — do poema.
 
o desejo do poeta: pura metáfora: o desejo do poeta: poesia pura.
 
o desejo do poeta: ter ao alcance o mapa das maravilhas do mundo.
 
o mapa das maravilhas do mundo: a um poeta (bicho dos mais estranhos), o mapa das maravilhas do mundo pode ser descoberto & re-descoberto no fundo do par de asas azuis da grande borboleta.
 
a maravilha que é o bordado, a maravilha que é a textura, a maravilha que é o desenho, a maravilha que é o contorno, a maravilha que é a cor, do par de asas azuis da grande borboleta.
 
o mapa das maravilhas do mundo encontra-se na riqueza das maravilhas encontradas & fabricadas mundo afora.
 
sou um homem rico. e esta minha riqueza, sim, é capaz de fazer um homem feliz. (e não falo de dinheiro.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poeria. autor: Dado Amaral. editora: Mundo das ideias.)
 
 
 
entre tantos seres
entre tantas formas e cores
caminha
esta estranha máquina de sentir
 
 
 
 
entre miríades
de seres e sons
aromas e texturas
respira
esta autônoma anatomia  
 
 
 
 
quando vê o ipê florido
acontece do poeta
pensar com o corpo
 
é que a carne pesa
e o músculo manifesta
seu querer ser flor
aflorar, florescer
deflorar o dia
 
revelar-se
na flor insólita
do poema
 
 
 
 
o mapa das maravilhas do mundo
redescoberto no fundo
do par de asas azuis
da grande borboleta
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DO OFÍCIO
15 de março de 2012

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o combustível da escrita,
 
aquilo que a alimenta,
 
aquilo que a impulsiona,
 
aquilo que a estimula:
 
o entusiasmo, a angústia, a inquietação, o medo, o prazer, a tentativa de auto-conhecimento, e até o tédio (a falta do que fazer também leva à construção de textos).
 
porém, sobretudo, o (talvez) maior combustível da escrita é o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
se os sentimentos aqui descritos são o combustível da escrita, isto é, se os sentimentos aqui descritos são a matéria que se queima para a produção da energia da escrita, a mente (parte que nos possibilita pensar) continua sendo o motor da escrita, isto é, a mente continua sendo o que move a escrita, mente atormentada (e estimulada) pelo tempo, esse ser assombrado por si mesmo (afinal, o “tempo”, com o passar do tempo, devora a si mesmo continuando a ser o mesmo) & assombrado pelo mundo (afinal, o tempo é preenchido, o tempo é inteiramente ocupado, pelas coisas mundanas, coisas que, por preenchê-lo, são como uma espécie de sombra que o recobre), mundo que, conforme o vento (vento-brisa, vento a favor, ou vento-ventania, vento contra), deleita & dispersa o tempo. 
 
o grande combustível da escrita: o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
e o poeta é o cara que se esmera, a vida inteira!, em malabares de palavras, o poeta é o cara que se esmera em manobras arrojadas, corajosas, manobras ousadas, com as palavras, deslocando-as do seu sentido ordinário, sentido comum, e, num instante tonto, uma frase solta ao avesso vira verso, ecoando assim, de modo ocasional, de maneira imprevisível, a melodia rara de cantiga boa.
 
ser poeta é jamais perder o estado de perplexidade com o mundo, com a gente. pois é neste estado, de puro espanto, de puro pasmo, que se dá a poesia. 
 
um poema traz espanto, susto, maravilha, pelas idéias & sentimentos que geram os jogos de palavras dispostos nos versos.  
 
ser poeta é nunca esquecer o suspiro alheio, suspiro que não o nosso, porém suspiro que, mesmo não sendo o nosso, nos espanta, nos assusta, nos maravilha: espumas flutuantes (castro alves), estrela da vida inteira (manuel bandeira), claro enigma (carlos drummond de andrade): suspiros poéticos alheios que nos inspiram & nos instigam a escrever mais & mais. 
 
escrever mais & mais, mais & mais & mais & mais, até, quem sabe, a possibilidade de um livro.
 
no dia em que eu publicar um livro, de que matéria serão suas páginas? serão páginas de carne (muy líricas, muy pessoais)? serão as páginas de carne para que o verso seja desenhado pelo rastro do verme?… 
 
que arte, que artefato será usado para confeccioná-lo, o livro que eu, um dia, porventura, publicar?
 
independente do artefato utilizado à confecção do livro que eu, um dia, porventura, publicar (letras de salitre em páginas de pedra, ou página de esmeralda com letras em urânio, ou a pele do sexo bordada no pano), a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano (com os embates & vivências vidafora, e com o aprimoramento — duro, árduo —do exercício da escrita), até brotar, crescer, florescer, a flor-poema & suas pétalas-estrofes.
 
a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano, até brotar, crescer, florescer: gerar gerânio.
 
o poema: um santo remédio às azias existenciais.
 
um poema por dia (pelo menos!), como um comprimido, homeopatia, medicamento de dupla profilaxia: utilizo para cura, uso para minha melhora, e é a saudade — seja do que for — que o poema também remedia.
 
poema: a minha pílula do bem-estar.
 
poema: dose pequena de alegria.
 
(salve a minha vida na sua!)
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Olho nu. autor: Dado Amaral. editora: Mundo das Idéias.)
 
 
 
é entusiasmo, é angústia
é inquietação, é medo
é prazer, é tentativa
de auto-conhecimento
é até o tédio, visitante raro
e é sobretudo desejo, talvez,
o combustível da escrita.
 
o motor continua sendo
essa mente atormentada pelo tempo
esse ser assombrado por si mesmo e pelo mundo
que o deleita e dispersa, conforme o vento
 
 
 
poeta é o cara que se esmera a vida inteira em malabares de palavras
e num instante tonto uma frase solta ao avesso vira verso e no acaso
por acaso ecoa a melodia rara de cantiga boa                     ser poeta é
jamais perder o estado de perplexidade com o mundo com a gente
é nunca esquecer o susto do suspiro alheio            suspiros poéticos
e saudades espumas flutuantes estrela da vida inteira claro enigma:
poeta é pipa solta em dia de ventania
 
 
 
no dia em que eu publicar um livro
de que matéria serão suas páginas,
de carne?
para que o verso seja desenhado
pelo rastro do verme?
que arte, que artefato será usado
para confeccioná-lo,
o livro que eu um dia porventura
publicar?
letras de salitre em páginas de pedra,
fezes de gaivota nos rochedos do oceano,
pele do sexo bordada no pano,
página de esmeralda, letras em urânio
a superfície do texto traçada toda
no meu crânio, porrada por porrada,
ano por ano,
até brotar crescer florescer
gerar
gerânio.
 
 
 
Um poema por dia
é boa medida
um poema por noite
a cada madrugada
quando o mundo silencia
e meus clamores soam mais
e mais ainda se você não está
se você não está presente
ou se encontra inacessível
 
Um poema por dia
como um comprimido
homeopatia, medicamento
de dupla profilaxia:
utilizo para cura
e a saudade remedia;
depois te ministro, poema
dose pequena de alegria