A JOSÉ SARAMAGO, SER MAGO DAS PALAVRAS
20 de junho de 2010

benvindos,
 
saí do rio de janeiro para buenos aires decidido a achar, em espanhol, alguma edição da obra completa do poeta mexicano octavio paz.
 
daniel oiticica, amigo que estou visitando, na quinta-feira, dia 17, levou-me a uma belíssima livraria que ocupa um teatro inteiro, “el ateneu”, para ver se conseguia o que tanto desejava.
 
para a minha tristeza, nada de octavio paz (em poesia) encontrei. porém, em compensação, topei com um livro que se mostrou, aos meus olhos, um verdadeiro achado: a edição bilíngüe (em português e espanhol) da obra poética completa do grande escritor josé saramago(!!!). fiquei de cara com o que encontrei, pois não fazia a menor idéia de que o saramago era também poeta. foi, verdadeiramente, uma grata & feliz surpresa. 
 
(a surpresa e o contentamento com o saramago suplantaram a frustação de não levar para casa, ainda que não a obra completa, alguma coisa de octavio paz no original.) 
 
no dia seguinte, 18, sou acordado pelo dani com a seguinte pergunta: “sabe quem morreu?” naturalmente respondi-lhe que “não, não sabia”. ele emendou: “de quem é o livro que você comprou ontem e adorou ter comprado?” na ponta da língua estava a resposta: “do josé saramago”. dani ficou quieto, mudo, me olhando, e eu fiquei pasmado com a coincidência dos fatos…
 
josé saramago foi um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos.
 
sua sabedoria lingüística — as imagens fortes & certeiras, suas construções frasais inusitadas & extensas, os temas dos seus romances, as suas opiniões escapulidas das entrelinhas, suas tramas bem como as resoluções e desfechos encontrados — fê-lo um COLOSSO das linhas.
 
abaixo, a minha singela homenagem a josé saramago, ser mago das palavras, com algumas das suas poesias.
 
numa delas, o autor afirma que um poema não é esquecido nem adiado se o “corpo da palavra” que o forma for moldado em ritmo, segurança e consciência, isto é, se, no poema, o trabalho do poeta for sério, for criterioso, se o trabalho do poeta for rigoroso ao realizar o encaixe de suas palavras.
 
essa qualidade, tão cara, saramago tem de sobra, para dar & vender.  
 
deliciem-se com a mesma sagacidade & inteligência de sempre!
 
(saravá, mestre!)
 
um beijo em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia completa. autor: José Saramago. editora: Grupo Santillana / Alfaguara.)
 
 
ARTE POÉTICA
 
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
 
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
 
 
CONTRACANTO
 
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
 
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
 
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
 
 
ATÉ A FIM DO MUNDO
 
É tempo já, Inês, o mundo acaba
Em que amor foi possível e urgente;
A promessa talhada nessa pedra,
Ou é cumprida hoje, ou tudo mente.
 
 
METÁFORA
 
Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
E das mãos, ou do búzio murmurante,
Alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos te despiram.

AVISO AOS NAVEGANTES — FÉRIAS 2
14 de junho de 2010

navegantes,
 
como já sabido, pois aqui anunciado, estou no meu período de férias.
 
quarta-feira, dia 16 de junho, embarco para buenos aires. passarei 10 dias (retorno no dia 26) na casa de um grande amigo.
 
conhecemo-nos em 1995, há exatos 15 anos(!), quando tínhamos 18 aninhos… cursamos comunicação social juntos, e, desse encontro, nasceu uma amizade muito bonita, muito verdadeira, de muito querer-bem. 
 
ele mora em buenos aires há 7 anos, e eu, muito sem-vergonha (rs), nunca o visitei. ele já veio aqui umas boas vezes, rever família & amigos, para férias, e são sempre MUITO divertidos os nossos encontros. ele é companhia para toda & qualquer hora. por isso, estou muito feliz em fazer a viagem.
 
curiosamente, comemorarei as minhas 34 primaveras a serem vencidas no dia 24 de junho (dia de são joão!: [cantarolando para mim] “ai, xangô, xangô menino/ da fogueira de são joão/ quero ser sempre o menino, xangô/ da fogueira de são joão”) ao seu lado. lembro-me que o dani (daniel oiticica) foi um dos poucos amigos do curso que foi à minha festinha de aniversário de 19 anos (aproximamo-nos logo no início do curso. à época do aniversário eu ainda não conhecia a turma da faculdade, não tinha a intimidade que passei a ter com muitos). quinze anos depois a história não se repete, não mesmo, mas, sob algum aspecto sentimental em mim, se assemelha (rs).  
 
essas tantas linhas apenas para avisar-lhes que as publicações, nesse período de viagem (16 a 26/06), ficarão ainda mais incertas. 
 
levarei alguns poucos livrinhos de poesia, porque não conseguiria viajar sem, pelo menos, dois. mas não sei se os lerei, não sei o que será, o que é ulterior, não sei de quase nada (rs).
 
estou alheio, estou lateral (coisas que são do tempo).   
 
a única postagem certa é a do dia do aniversário deste que vos escreve. haverá um “poeminha” (lindo, já selecionado!) comemorando a data (rs). 😉 
 
(buenos aires: o bairro que não é seu nem é meu.
 buenos aires: o que ignoramos e amamos…
 
 que assim seja!)
 
beijo bom em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia. autor: Jorge Luis Borges. tradução: Josely Vianna Baptista. editora: Companhia das Letras.)
 
 
BUENOS AIRES
 
O que será Buenos Aires?
É a praça de Maio à qual voltaram, depois de guerrear
     no continente, homens cansados e felizes.
É o dédalo crescente de luzes que divisamos do avião e
     sob o qual estão a sotéia, a calçada, o último pátio, as
     coisas quietas.
É o paredão da Recoleta contra o qual morreu,
     executado, um de meus antepassados.
É uma grande árvore da rua Junín que, sem saber,
     depara-nos sombra e frescor.
É uma rua longa de casas baixas, que perde e
     transfigura o poente.
É a Doca Sul da qual zarpavam o Saturno e o Cosmos.
É a calçada de Quintana na qual meu pai, que estivera
     cego, chorou, por enxergar as antigas estrelas.
É uma porta numerada, atrás da qual, na escuridão,
     passei dez dias e dez noites, imóvel, dias e noites que
     são na memória um instante.
É o ginete de pesado metal que projeta do alto sua série
     cíclica de sombras.
É o mesmo ginete sob a chuva.
É uma esquina da rua Perú, na qual Julio César Dabove
     nos disse que o pior pecado que um homem pode
     cometer é gerar um filho e sentenciá-lo a esta vida
     espantosa.
É Elvira de Alvear, escrevendo em cuidadosos
     cadernos um longo romance, que no início
     era feito de palavras e no fim de vagos traços
     indecifráveis.
É a mão de Norah, traçando o rosto de uma amiga
     que é também o de um anjo.
É uma espada que serviu nas guerras e que é menos
     uma arma do que uma memória.
É uma divisa descolorida ou um daguerreótipo gasto,
     coisas que são do tempo.  
É o dia em que deixamos uma mulher e o dia em que
     uma mulher nos deixou.
É aquele arco da rua Bolívar do qual se divisa a
     Biblioteca.
É o cômodo da Biblioteca, no qual descobrimos, por
     volta de 1957, a língua dos ásperos saxões, a língua
     da coragem e da tristeza.
É a sala contígua, na qual morreu Paul Groussac.
É o último espelho que repetiu o rosto de meu pai.
É o rosto de Cristo que vi no pó, desfeito a
     marteladas, numa das naves de La Piedad.
É uma alta casa do Sul na qual minha mulher e
     eu traduzimos Whitman, cujo grande eco oxalá
     reverbere nesta página.
É Lugones, olhando da janela do trem as formas que
     se perdem e pensando que já não o aflige o dever
     de traduzi-las para sempre em palavras, porque
     esta viagem será a última.
É, na desabitada noite, certa esquina do Once na qual
     Macedonio Fernández, que morreu, continua me 
     explicando que a morte é uma falácia.
Não quero prosseguir, estas coisas são excessivamente
     individuais, são excessivamente o que são, para serem
     também Buenos Aires.
Buenos Aires é a outra rua, a que nunca pisei, é o centro
     secreto das quadras, os pátios últimos, é o que as
     fachadas ocultam, é meu inimigo, se ele existir, é a
     pessoa a quem meus versos desagradam (também
     me desagradam), é a modesta livraria em que talvez 
     tenhamos entrado e que esquecemos, é essa rajada
     de milonga assoviada que não reconhecemos e que
     nos toca, é o que se perdeu e o que será, é o ulterior,
     o alheio, o lateral, o bairro que não é teu nem
     é meu, o que ignoramos e amamos.